Part 7
Era naquella doce e amavel hora Em que vem branqueando a alva celeste, Quando parece que remoça a vida E toda se espreguiça a natureza. Alva neblina que espalhara a noite Frouxamente nos ares se dissolve, Como de uns olhos tristes Foge co'o tempo a já ligeira sombra De consoladas maguas. Vida é tudo. E pompa e graça natural da terra, Mas que não seja no ermo, Onde seus olhos rutilos espraia Livres a aurora, sem tocar vestigios De obras caducas do homem, onde as aguas Do rio bebe a fugitiva corça, Vivo aroma nos ares se difunde, E aves, e aves de infinitas cores Voando vão e revoando tornam, Inda senhoras da amplidão que é sua, Donde as hade fugir o homem um dia Quando a agreste solidão entrar o passo Creador que derruba. Já de todo Nado era o sol; e á viva luz que innunda Estes meus patrios morros e estas praias, Sorrindo a terra moça Noiva parece que o virgineo seio Entrega ao beijo nupcial do amado. E hade os funebres véus lançar a morte Na verdura do campo? A natureza A nota vibrará da extrema angustia Neste festivo cantico de graças Ao sol que nasce, ao Creador que o envia, Como renovação de juventude?
II
Coava o sol pela miuda e fina Gelosia da alcova em que se apresta A recente christã. Singelas roupas Traja da ingenua cor que a natureza Pintou nas plumas que primeiro brota O seu patrio guará. Vinculo frouxo Mal lhe segura a luzidia trança, Como ao desdem lançada Sôbre a espadua gentil. Joia nenhuma, Mais que seus olhos meigos, e essa doce Modestia natural, encanto, enlevo, Casta flôr que aborrece os mimos do horto, E ama livre nascer no campo, á larga, Rustica, mas formosa. Não lhe ensombram As tristezas da vespera o semblante, Nem da secreta lagrima na face Ficou vestigio.--Descuidosa e alegre, Ri-se, murmura uma cantiga, ou pensa, E repete baixinho um nome... Oh! se elle Espreital-a pudesse ali risonha, A sós comsigo, entre o seu Christo e as flôres Colhidas ao tombar da extincta noite, E vecejantes inda!
III
De repente, Aos ouvidos da moça enamorada Chega um surdo rumor de soltas vozes, Que ora crescendo vae, ora se apaga, Extranho, desusado. Eram... São elles, Os francezes, que vem de longes praias A cobiçar a perola mimosa, Nictheroy, na alva-azul concha nascida De suas aguas recatadas. Rege O atrevido Duclerc a flôr dos nobres, Cuja tez branca requeimára o fogo Que o vivo sol dos tropicos dardeja, E a lufada dos ventos do oceano. Cobiçam-te elles, minha terra amada, Como quando nas faixas sempre-verdes Eras envolta; e rude, inda que bello, O aspecto havias que poliu mais tarde A clara mão do tempo. Inda repetem Os ecos do reconcavo os suspiros Dos que vieram a buscar a morte, E a receberam dos varões possantes Companheiros de Estacio. A todos elles, Prole de Luso ou geração da Gallia, Captivara-os a nayade escondida, E o sol os viu travados nessa longa E sangrenta porfia, cujo premio Era teu verde, candido regaço. Triunphára o trabuco lusitano Naquele exticnto seculo. Vencido, O pavilhão francez volvera á patria, Pela agua arrastando o longo crepe De suas tristes, mortas esperanças. Que vento novo o desfraldou nos ares?
IV
Angela ouvira as vozes da cidade, As vozes do furor. Já receiosa, Tremula, foge á alcova e se encaminha Á camera paterna. Ia transpondo A franqueada porta... e pára. O peito Rompe-lh'o quasi o coração,--tamanho É o palpitar, um palpitar de gosto, De sorpresa e de susto. Aquelles olhos, Aquella graça mascula do gesto, Graça e olhos são delle, o amado noivo, Que entre os mais homens elegeu sua alma Para o vínculo eterno... Sim, que a morte Póde arrancar ao seio humano o alento Ultimo e derradeiro; os que deveras Unidos foram, volverão unidos A mergulhar na eternidade. Estava Junto do velho pae o gentil moço, Elle todo agitado, o ancião sombrio, Calados ambos. A attitude de ambos, O mysterioso, gelido silencio, Mais que tudo, a presença nunca usada Daquelle homem ali, que mal a espreita De longe e a furto, nos instantes breves Em que lhe é dado vel-a, tudo á moça O animo abala e o coração enfia.
V
Mas o tropel de fóra avulta e cresce E os tres accorda. A virgem, lentamente, Rosto inclinado ao chão, transpõe o espaço Que dos dous a separa... O tenro collo Curva ante o pae, e na enrugada dextra O osculo imprime, herdada usança antiga De filial respeito. As mãos lhe toma Enternecido o velho; olhos com olhos Alguns instantes rapidos ficaram, Até que elle, voltando o rosto ao moço: «--Perdoai,--disse,--se o paterno affecto Me atou a lingua. Vacillar é justo Quando á pobre ruina a flôr lhe pedem Que unica lhe nasceu,--unica adorna A aridez melancholica do extremo, Pallido sol... Não protesteis! Roubal-a, Arrancal-a aos meus ultimos instantes, Não o fareis de certo. Pouco importa Dês que a metade lhe levaes da vida, Dês que seu coração, comvosco parte Affeições minhas.--Ao demais, o sangue Que lhe corre nas veias, condemnado, Nuno, será dos vossos...» Longo e frio Olhar estas palavras acompanha, Como a arrancar-lhe o pensamento interno. A donzella estremece. Nuno o alento Recobra e falla: «Puro sangue é elle, Se lhe corre nas veias. Tão mimosa, Candida creatura, alma tão casta, Inda nascida entre os incréos da Arabia, Deus a votara á conversão e á vida Dos eleitos do céu. Aguas sagradas Que a lavaram no berço, já nas veias O sangue velho e impuro lhe trocaram Pelo sangue de Christo...»
VI
Neste instante Cresce o tumulto exterior. A virgem Medrosa toda se conchega ao collo Do velho pae. «Ouvis? Fallae! é tempo! Nuno prossegue.--Este commum perigo Chama os varões á rispida batalha; Com elles vou. Se um galardão, emtanto, Merecer de meus feitos, não á patria Irei pedil-o; só de vós o espero, Não o melhor, mas o unico na terra, Que a minha vida...» Rematar não pôde Esta palavra. Ao escutar-lhe a nova Da imminente peleja E a decisão de combater por ella, Inteiras sente as forças que se perdem A donzella, e bem como ao rijo vento Inclina o collo o arbusto Nos braços desmaiou do pae. Volvida A si, na pallidez do rosto o velho Attenta um pouco, e suspirando: «As armas Empunhae; combatei; Angela é vossa. Não de mim a havereis: ella a si mesma Toda nas vossas mãos se entrega. Morta Ou feliz é a escolha; não vacillo: Seja feliz, e folgarei com ella...»
VII
Sobre a fronte dos dous, as mãos impondo, Ao seio os conchegou, bem como a tenda Do patriarcha santo agasalhava O moço Isaac e a delicada virgem Que entre os rios nasceu. Delicioso[21] E solemne era o quadro; mas solemne E delicioso embora, ia esvair-se Qual celeste visão, que accende a espaços O animo do infeliz. A guerra, a dura Necessidade de immolar os homens, Por salvar homens, a terrivel guerra Corta o amoroso vinculo que os prende E á moça o riso lhe converte em lagrimas. Misera és tu, pallida flôr; mas soffre Que o calor deste sol te acurve o calix, Morta, não, nem já murcha,--mas apenas Como cançada de queimor do estio. Soffre; a tarde virá serena e branda A reviver-te o alento; a fresca noite Choverá sobre ti piedoso orvalho E mais risonha surgirás á aurora.
VIII
Foge á estancia da paz o hardido moço; Esperança, fortuna, amor e patria A guerrear o levam. Já nas veias O vivo sangue irrequieto pulsa, Como ancioso de correr por ambas, A bella terra e a suspirada noiva. Triste quadro a seus olhos se apresenta; Nos femininos rostos vê pintados Incerteza e terror; lamentos, gritos Soam de entorno. Voam pelas ruas Homens de guerra; homens de paz se aprestam Para a crua peleja; e, ou nobre estancia, Ou choupana rasteira, armado é tudo Contra a forte invasão. Nem lá se deixa Quieto, a sós com Deus, na estreita cella, O solitario monge que ás batalhas Fugiu da vida. O patrimonio santo Cumpre salval-o. Cruz e espada empunha, Deixa a serena região da prece E voa ao torvelinho do combate.
IX
Entre os fortes alumnos que dirige O ardido Bento, a perfilar-se corre[22] Nuno. Estes são os que o primeiro golpe Descarregam no attonito inimigo. Do militar officio ignoram tudo, De armas não sabem; mas o brio e a honra E a lembrança da terra em que primeiro Viram a luz, e onde o perdel-a é doce, Essa a escola lhes foi. Pasma o inimigo Do nobre esforço e galhardia rara, Com que inda nos humbraes da vida que orna Tanta esperança, tanto sonho de ouro, Resolutos a morte encaram, prestes A retalhar nas dobras Da vestidura funebre da patria O piedoso lençol que os leve á campa, Ou com ella cingir o eterno louro.
X
Ó mocidade, ó baluarte vivo Da cara patria! Já perdida é ella, Quando em teu peito enthusiasmo santo E puro amor se extingue, e áquelle nobre, Generoso despejo e ardor antigo Succede o frio calcular, e o torpe Egoismo, e quanto ha hi no humano peito, Que é fructo nosso e podre... Muitos caem Mortos alli. Que importa? Vão seguindo Avante os bravos, que a invasão caminha Implacavel e dura, como a morte, A pelejar e a destruir. Tingidas Ruas de extranho sangue E sangue nosso, lacerados membros, Corpos de que ha fugido a alma cançada, E o denso fumo e os funebres lamentos, Quem nessa confusão, miseria e gloria Conhecerá da juvenil cidade O aspecto, a vida? Aqui da infancia os dias Nuno vivêra, á vecejante sombra Do seu patrio arvoredo, ao som das vagas Que inda batendo vão na amada areia; Risos, jogos da verde meninice, Esta praia lhe lembra, aquella pedra, A mangueira do campo, a tosca cerca De espinheiro e de flôres enlaçadas, A ave que voa, a brisa que suspira, Que suspira como elle ha suspirado, Quando rompendo o coração do peito Ia-lhe empós dessa visão divina, Realidade agora... E ha de perdel-as Patria e noiva? Esta ideia lhe esvoaça Torva e surda no cerebro do moço, E ao contrahido espirito redobra Impeto e forças. Rompe Por entre a multidão dos seus, e investe Contra o duro inimigo; as balas voam, E com ellas a morte, que não sabe Dos escolhidos seus a terra e o sangue, E indistinctos os toma; elle, no meio Daquelle horrivel turbilhão, parece Que a faisca do genio o leva e anima, Que a fortuna o votára á gloria.
XI
Soam Enfim os gritos de triunmpho; e o peito Do povo que lutou respira á larga, Como ao que, após ardua subida, chega Ao cimo da montanha, e ao longe os olhos Estende pelo azul dos céus, e a vida Bebe nesse ar mais puro. Farto sangue A victoria custára; mas, se em meio De tanta gloria ha lagrimas, soluços, Gemidos de viuvez, quem os escuta, Quem as vê essas lagrimas choradas Na multidão da praça que troveja E folga e ri? O sacro bronze que usa Os fieis convidar á prece, e a morte Do homem pranteia lugubre e solemne, Ora festivo canta O comum regosijo; e pela aberta Porta dos templos entra a frouxo o povo A agradecer com lagrimas e vozes O triumpho,--piedoso instincto da alma, Que a Deus levanta o pensamento e as graças.
XII
Tu, mancebo feliz, tu bravo e amado, Voa nas asas rutilas e leves Da fortuna e do amor. Como ao indiano, Que, ao regressar das porfiadas lutas, Por estas mesmas regiões entrava, A encontral-o saía a meiga esposa, --A recente christã, entre assustada E jubilosa coroará teus feitos Co'a melhor das capelas que hão pousado Em fronte de varão,--um doce e longo Olhar que inteiro encerra a alma que chora De gosto e vida! Voa o moço á estancia Do ancião; e ao pôr na suspirada porta Olhos que traz famintos de encontral-a, Frio terror lhe empece os membros. Frouxo Ia o sol transmontando; lenta a vaga Melancholicamente ali gemia, E todo o ar parecia arfar de morte. Qual se pallida a víra, já cerrados Os desmaiados olhos, Frios os doces labios Cansados de pedir aos céus por elle, Nuno estacára; e pelo rosto em fio O suor lhe caiu da extrema angustia; Longo tempo vacilla; Vence-se emfim, e entra a mansão da esposa.
XIII
Quatro vultos na camara paterna Eram. O pae sentado, Calado e triste. Reclinada a fronte No espaldar da cadeira, a filha os olhos E o rosto esconde, mas tremor continuo De um abafado soluçar o esbelto Corpo lhe agita. Nuno aos dous se chega; Ia a fallar, quando a formosa virgem, Os lacrimosos olhos levantando, Um grito solta do intimo do peito E se lhe prostra aos pés: «Oh! vivo, és vivo! Inda bem... Mas o céu, que por nós vela, Aqui te envia... Salva-o tu, se pódes, Salva meu pobre pae!» Estremecendo, Nella e no velho fita Nuno os olhos, E agitado pergunta: «Qual ousado Braço lhe ameaça a vida?» Cavernosa Uma voz lhe responde: «O sancto officio!» Volve o mancebo o rosto E o merencorio aspecto De dous familiares todo o sangue Nas veias lhe gelou.
XIV
Solemne o velho Com a voz, não frouxa, mas pausada, falla: «Vês? Todo o brio, todo o amor no peito Te emudeceu. Só lastimar-me podes, Salvar-me, nunca. O carcere me aguarda, E a fogueira talvez; cumpril-a, é tempo, A vontade de Deus. Tu, pae e esposo Da desvalida filha que ahi deixo, Nuno, serás. A relembrar com ella Meu pobre nome, applacareis a immensa Colera do Senhor...» Sorrindo ironico, Estas palavras ultimas lhe caem Dos labios tristes. Ergue-se: «Partamos! Adeus! Negou-me Aquelle que no campo Deixa a arvore ancian perder as folhas No mesmo ponto em que as nutriu viçosas, Negou-me ver por estas longas serras Ir-se-me o ultimo sol. Brando regaço A filial piedade me daria Em que eu dormisse o derradeiro somno, E em braços de meu sangue transportado Fora em horas de paz e de silencio Levado ao leito extremo e eterno. Vive Ao menos tu...»
XV
Um familiar lhe corta O adeus ultimo: «Vamos: é já tempo!» Resignado o infeliz, ao seio aperta A filha, e todo o coração n'um beijo Lhe transmitiu, e a caminhar começa. Angela os lindos braços sobre os hombros Trava do austero pae; flôres dissereis De parasita, que enroscou seus ramos Pelo cançado tronco, esteril, secco De arvore antiga: «Nunca! Hão de primeiro A alma arrancar-me! Ou se heis peccado, e a morte Pena hade ser da commettida culpa, Convosco descerei á campa fria, Juntos a mergulhar na eternidade. Israel tem vertido Um mar de sangue. Embora! á tona delle Verdeja a nossa fé, a fé que anima[23] O eleito povo, flôr suave e bella Que o medo não desfolha, nem já secca Ao vento mau da colera dos homens!»
XVI
Trémula a voz do peito lhe saía. Das mãos lhe trava um dos algozes. Ella Entrega-se risonha, Como se o calix da amargura extrema Pelos meles da vida lhe trocassem Celeste e eterna. O coração do moço Latejava de espanto e susto. Os olhos Pousa na filha o desvairado velho. Que ouviu?--Attenta nella; o lindo rosto O céu não busca jubiloso e livre, Antes, como travado de agra pena, Pende-lhe agora ao chão. Dizia acaso Entre si mesma uma oração, e o nome De Jesus repetia, mas tão baixo, Que o coração do pae mal pôde ouvir-lh'o. Mas ouviu-lh'o; e tão forte amor, tamanho Sacrificio da vida a alma lhe rasga E deslumbra. Escoou-se um breve tempo De silencio; elle e ella, os tristes noivos, Como se a eterna noite os recebêra, Gelados eram; levantar não ousam Um para o outro os arrasados olhos De mal contidas e teimosas lagrimas.
XVII
Nuno, enfim, lentamente e a custo arranca Do coração estas palavras: «Fôra Misericordia ao menos confessal-o Quando ao fogo do barbaro inimigo Me era facil deixar o derradeiro Sopro da vida. Premio é este acaso De tamanho lidar? Que mal te hei feito, Por que me dês tão barbara e medonha Morte, como esta, em que o cadaver guarda Inteiro o pensamento, inteiro o aspecto Da vida que fugiu?» Angela os olhos Magoados ergue; arfa-lhe o peito afflicto, Como o dorso da vaga que intumesce A asa da tempestade. «Adeus!» suspira, E a fronte abriga no paterno seio.
XVIII
O rebelde ancião, domado emtanto, Afracar-se-lhe sente dentro d'alma O sentimento velho que bebera Com o leite dos seus; e sem que o labio Transmitta a ouvidos de homem O duvidar do coração, murmura Dentro de si: «Tão poderosa é essa Ingenua fé, que inda negando o nome Do seu Deus, confiada acceita a morte, E guarda puro o sentimento interno Com que o véu rasgará da eternidade? Ó Nazareno, ó filho do mysterio, Se é tua lei a unica da vida Escreve-m'a no peito; e dá que eu veja Morrer commigo a filha de meus olhos E unidos irmos, pela porta immensa Do teu perdão, á eternidade tua!»
XIX
Mergulhára de todo o sol no occaso, E a noite, clara, deliciosa e bella, A cidade cobriu,--não socegada, Como costuma,--porém leda e viva, Cheia de luz, de cantos e rumores, Victoriosa enfim. Elles, calados, Foram por entre a multidão alegre, A penetrar o carcere sombrio. Donde ao mar passarão, que os leve ás praias Da ancian Europa. Carregado o rosto, Ia o pae; ella, não. Serena e meiga, Entra affouta o caminho da amargura, A custo soffreando internas maguas Da amarga vida, breve flôr como ella, Que inda mais breve a mente lhe affigura. Anjo, descera da região celeste A pairar sobre o abysmo; anjo, subia De novo á esphera luminosa e eterna, Patria sua. Levar-lhe-ha Deus em conta O muito amor e o padecer extremo, Quando romper a tunica da vida E o silencio immortal fechar seus labios.
JOSÉ BONIFÁCIO
De tantos olhos que o brilhante lume Viram do sol amortecer no occaso, Quantos verão nas orlas do horizonte Resplandecer a aurora?
Innumeras, no mar da eternidade, As gerações humanas vão cahindo; Sobre ellas vae lançando o esquecimento A pesada mortalha.
Da agitação esteril em que as forças Consumiram da vida, raro apenas Um eco chega aos seculos remotos, E o mesmo tempo o apaga.
Vivos transmite a popular memoria O genio creador e a sã virtude, Os que o patrio torrão honrar souberam, E honrar a especie humana.
Vivo irás tu, egregio e nobre Andrada! Tu, cujo nome, entre os que á pátria deram O baptismo da amada independencia, Perpetuamente fulge.
O engenho, as forças, o saber, a vida Tu votaste á liberdade nossa, Que a teus olhos nasceu, e que teus olhos Inconcussa deixaram.
Nunca interesse vil manchou teu nome, Nem abjectas paixões; teu peito illustre Na viva chamma ardeu que os homens leva Ao sacrificio honrado.
Se teus restos ha muito que repousam No pó commum das gerações extinctas, A patria livre que legaste aos netos E te venera e ama,
Nem a face mortal consente á morte Que te roube, e no bronze redivivo O austero vulto restitue aos olhos Das vindouras edades.
«Vede (lhes diz) o cidadão que teve Larga parte no largo monumento Da liberdade, a cujo seio os povos Do Brasil te acolheram.»
«Póde o tempo varrer, um dia, ao longe, A fabrica robusta; mas os nomes Dos que o fundaram viverão eternos, E viverás, Andrada!»
A VISÃO DE JACIUCA
Prestes de novo a batalhar, chegavam Os valentes guerreiros. Mas onde elle, O duro chefe da indomavel tribu, O senhor das montanhas? Affirmava Tatupeba que o vira, antes da aurora, Erguer-se, e ao longo do visinho rio, Por algum tempo caminhar calado, Como se o abafára um pensamento E lhe impedíra o somno. Vão receio De batalhar? Oh! não! Quasi na infancia, A torva catadura viu da guerra, Officio de homens, que aprendeu brincando Com seu pae, extremado entre os guerreiros, E na bravura e na prudencia; a frecha Ninguem soubera menear como elle, Nem mais veloz nem mais certeira nunca.
A lentos passos caminhando chega, Enfim, o bravo Jaciuca. Torvo E mereneorio traz o duro aspecto. «--Vamos (diz elle) a descansar na taba, Entre festas e dansas; penduremos As armas nossas, que sobeja ha sido A gloria, e a doce paz nos chama.» Leve, Surdo rumor entre os guerreiros soa; Vai subindo, é rugido, é já tumulto, Como o grunhir de tajassús no matto, Que se approxima e cresce. Jaciuca Olhos quietos pelo campo estende; Seu feio rosto é como a rocha dura Que o raio quebra, mas não lasca o vento. Fecha os labios e pensativo espera.
Tatupeba, que a raiva a custo esconde, Ergue-se então; crava-lhe os fulvos olhos, Como a afiada ponta de uma frecha. Seu porte, entre os irmãos, semelha á vista Jequitibá robusto; mais que todos, Terror inspira e universal respeito. Ergue-se e fala:--«Longos soes hei visto, Pelejei muitas guerras; a meu lado Vi cair mais valentes do que folhas Arranca o furacão; mas nunca o animo Dos lidadores abalou a palavra Como essa tua; nunca os braços nossos Ficar deixaram nos desertos campos Os ossos não vingados dos guerreiros. Que genio mau te insinuou tal crime?»
Assim fallando, Tatupeba o solo Com a planta feriu. Os olhos todos Pendem da boca do sombrio chefe. Silencioso Jaciuca ouvira As fallas do guerreiro; silencioso E quieto ficou. Após instantes, A fronte sacudiu, como expellindo Ideias más que o cerebro lhe turvam, E a voz lhe rompe do intimo do peito.
«Ó guerreiros (diz elle), aqui deitados Estivestes a noite, e toda inteira A dormistes de certo; eu, não distante, Do rio á margem a trabalhar commigo, Afiava na mente atra vingança; Até que os frouxos membros descaíram Sobre a macia relva, e um tempo largo Assim fiquei entre vigilia e somno. Viam meus olhos ondular as aguas, Mas no alheado pensamento os ecos Sussurravam da infancia. Um genio amigo Aos tempos me levava em que no rosto De meu pae aprendi, com frio pasmo, A rara intrepidez, válida herança, Que tanto custa ao perfido inimigo.»
«De repente, uma luz pallida e triste Inunda o campo: transparente nevoa E luminosa aquillo parecia, Ou baço reflectir da branca lua Que nuvens cobrem. Livido e curvado, Içayba a meus olhos apparece. Vi-o qual era antes da fria morte; Só a expressão do rosto lhe mudára; Energicas não tinha, mas serenas As feições. «Vem comigo!» Assim me falla O extincto bravo; e, subito estreitando Ao peito o corpo do saudoso amigo, Juntos voámos á região das nuvens. «Olha!» disse Içayba, e o braço alonga Para a terra. Ó guerreiros! largo espaço Era prêsa de alheio senhorio. Fitei os olhos mais; e pouco a pouco, Como enche o rio e todo o campo alaga, Umas gentes extranhas se estendiam De sertão em sertão. Presas do fogo As mattas vi, abrigo do guerreiro, E ao torvo incendio e ás invasões da morte Vi as tribus fugir, ceder a custo, Com lagrimas alguns, todos com sangue, A virgem terra ao barbaro inimigo. Mau vento os trouxe de remota praia Aquelles homens novos, jamais vistos De guerreiro ancião, a quem não coube Sequer a gloria de morrer contente E todo reviver na ousada prole. Era o termo da vida que chegára Ao povo de Tupan! Grito de morte Unico enchia os ares,--um suspiro De tristeza e terror, que reboava Pelos recessos da floresta antiga E talvez ameigava o peito ás feras... Surdos os manitós deixado haviam Os seus fortes heroes; surdos se foram Entre os genios folgar da raça nova, E rir talvez das lagrimas choradas Pelos olhos das virgens... Oh! se ao menos Fora pranto de livres! Era a morte A menor das angustias; vi curvada E captiva rojar no po da terra A fronte do guerreiro, agora altiva, Livre, como o condor que frecha as nuvens; Não kanitar a cinge, mas vergonha, Melancholico adorno do vencido.
O rosto desviei do extranho quadro. «Olha!» repete o pallido Içayba. Olhei de novo, e na saudosa taba, Que os nossos arcos defender souberam, Em vez da sombra do piaga santo, Que, ao som do maracá, colhia as vozes Do pensamento eterno, e as infundia No seio do guerreiro, como o fumo Do petum lhe dobrava impeto e força, Um vulto descobri de vestes negras, Nua quasi a cabeça, e cor de espuma Alguns cabellos raros. Tinha o rosto Alvo e quieto. Em suas mãos sustinha Extenso lenho com dois curtos braços. Ia só; todo o campo era deserto. Nem um guerreiro! um arco!«--A tribu?» --«Extinta!»
«A tal palavra, uma pesada sombra A vista me apagou, e pela face Senti rolar a lagrima primeira. O sinistro espectaculo mudára. Ao dissipar-se a nuvem de meus olhos Achei-me junto do visinho rio, Reclinado como antes, e defronte A pallida figura de Içayba. «--Torna á taba, me disse o extincto moço; «Luas e luas volverão no espaço «Antes da morte, mas a morte é certa, «E terrivel será. Nação bem outra, «Sobre as ruinas da valente raça «Virá sentar-se, e brilhará na terra «Gloriosa e rica. Uma chorada lagrima, «Talvez, talvez, no meio de triunphos «Ha de ser a tardia, escassa paga «Da morte nossa. Poupa ao menos essa «Derradeira esperança de guardal-o «Todo o valor para o supremo dia «E com honra ceder a extranhas hostes; «Salva ao menos as ultimas reliquias «Desta nação vencida; não se rasguem «Peitos que irmãos ao mesmo sol nasceram «E Anhangá fez contrarios... Todos elles[24] «Poucos serão para a tremenda luta, «Mas de sobra hão de ser para choral-a.»