Poesias Completas

Part 8

Chapter 84,123 wordsPublic domain

«Assim fallára o pallido Içayba; Alguns instantes contemplou meu rosto, Calado e firme. A cachoeira ao longe Interrompia apenas o silencio; E eu morto, eu mesmo me sentia morto. Elle um triste suspiro magoado Soltou do peito; os apagados olhos Ás estrellas ergueu, sereno e triste, E de novo rompendo o voo aos ares, Como uma frecha penetrou nas nuvens.»

A GONÇALVES DIAS

Ninguém virá, com titubeastes passos. E os olhos lacrimosos, procurando O meu jazigo...

GONÇALVES DIAS.--_Últimos Cantos._

Tu vive e gosa a luz serena e pura.

J. BAZILIO DA GAMA.--_Uraguai, c. V._

Assim vagou por alongados climas, E do naufragio os humidos vestidos Ao calor enxugou de extranhos lares O lusitano vate. Acerbas penas Curtiu naquelas regiões; e o Ganges, Se o viu chorar, não viu pousar calada, Como a harpa dos exules profetas, A heroica tuba. Elle a embocou, vencendo Co'a lembrança do ninho seu paterno, Longas saudades e miserias tantas. Que monta o padecer? Um só momento As maguas lhe pagou da vida; a patria Reviu, apoz a suspirar por ella; E a velha terra sua O despojo mortal cobriu piedosa E de sobejo o compensou de ingratos.

Mas tu, cantor da America, roubado Tão cedo ao nosso orgulho, não te coube Na terra em que primeiro houveste o lume Do nosso sol, achar o ultimo leito! Não te coube dormir no chão amado, Onde a luz frouxa da serena lua, Por noite silenciosa, entre a folhagem Coasse os raios humidos e frios, Com que ella chora os mortos... derradeiras Lagrimas certas que terá na campa O infeliz que não deixa sobre a terra Um coração ao menos que o pranteie.

Vinha contudo o pallido poeta Os desmaiados olhos estendendo Pela azul extensão das grandes aguas, A pesquizar ao longe o esquivo fumo Dos patrios tectos. Na abatida fronte Ave da morte as asas lhe roçára; A vida não cobrou nos ares novos, A vida, que em vigilias e trabalhos, Em prol dos seus, gastou por longos annos, Co'essa largueza de animo fadado A entornar generoso a vital seiva. Mas, que importava a morte, se era doce Morrel-a á sombra deliciosa e amiga Dos coqueiros da terra, ouvindo acaso No murmurar dos rios, Ou nos suspiros do nocturno vento, Um eco melancholico dos cantos Que elle outrora entoára? Traz do exilio Um livro, monumento derradeiro Que á patria levantou; alli revive Toda a memoria do valente povo Dos seus Tymbiras...

Subito, nas ondas Bate os pés, espumante e desabrido, O corcel da tormenta; o horror da morte Enfia o rosto aos nautas... Quem por elle, Um momento hesitou quando na fragil Tabua confiou a unica esperança Da existencia? Mysterio obscuro é esse Que o mar não revellou. Ali sosinho, Travou naquella solidão das aguas O duello tremendo, em que a alma e corpo As suas forças ultimas despendem Pela vida da terra e pela vida Da eternidade. Quanta imagem torva, Pelo turbado espirito batendo As fuscas azas, lhe tornou mais triste Aquelle instante funebre! Suave É o arranco final, quando o já frouxo Olhar contempla as lagrimas do affecto, E a cabeça repousa em seio amigo. Nem affectos nem prantos; mas somente A noite, o medo, a solidão e a morte. A alma que alli morava, ingenua e meiga, Naquele corpo exiguo, abandonou-o, Sem ouvir os soluços da tristeza, Nem o grave salmear que fecha aos mortos O frio chão. Ella o deixou, bem como Hospede mal acceito e mal dormido, Que prossegue a jornada, sem que leve O osculo da partida, sem que deixe No rosto dos que ficam,--rara embora,-- Uma sombra de pallida saudade.

Oh! sobre a terra em que pousaste um dia, Alma filha de Deus, ficou teu rasto Como de estrella que perpétua fulge! Não viste as nossas lagrimas; comtudo O coração da patria as ha vertido. Tua gloria as seccou, bem como orvalho Que a noite amiga derramou nas flôres E o raio enxuga da nascente aurora. Na mansão a que foste, em que ora vives, Has de escutar um eco do concerto Das vozes nossas. Ouvirás, entre ellas, Talvez, em labios de indiana virgem! Esta saudosa e suspirada nenia:

«Morto! é morto o cantor dos meus guerreiros! Virgens da matta, suspirai commigo!»

«A grande agua o levou como invejosa. Nenhum pé trilhará seu derradeiro Funebre leito; elle repousa eterno Em sítio onde nem olhos de valentes, Nem mãos de virgens poderão tocar-lhe Os frios restos. Sabiá da praia De longe o chamará saudoso e meigo, Sem que ele venha repetir-lhe o canto. Morto! é morto o cantor de meus guerreiros! Virgens da matta, suspirai comigo!»

Ele houvera do Ybake o dom supremo De modular nas vozes a ternura, A colera, o valor, tristeza e magua, E repetir aos namorados ecos Quanto vive e reluz no pensamento. Sobre a margem das aguas escondidas, Virgem nenhuma suspirou mais terna, Nem mais válida a voz ergueu na taba, Suas nobres acções cantando aos ventos, O guerreiro tamoyo. Doce e forte, Brotava-lhe do peito a alma divina. Morto! é morto o cantor dos meus guerreiros! Virgens da matta, suspirai comigo!

«Coema, a doce amada de Itajuba, Coema não morreu; a folha ágreste Póde em ramas ornar-lhe a sepultura, E triste o vento suspirar-lhe em torno; Ella perdura a virgem dos Tymbiras, Ella vive entre nós. Airosa e linda, Sua nobre figura adorna as festas E enflora os sonhos dos valentes. Elle, O famoso cantor, quebrou da morte O eterno jugo; e a filha da floresta Hade a historia guardar das velhas tabas Inda depois das ultimas ruinas. Morto, é morto o cantor dos meus guerreiros! Virgens da mata, suspirai commigo!

«O piaga, que foge a extranhos olhos, E vive e morre na floresta escura, Repita o nome do cantor; nas aguas Que o rio leva ao mar, mande-lhe ao menos Uma sentida lagrima, arrancada Do coração que ele tocára outr'ora, Quando o ouviu palpitar sereno e puro, E na voz celebrou de eternos carmes. Morto, é morto o cantor dos meus guerreiros! Virgens da matta, suspirai comigo!»

OS SEMEADORES[25]

(Século XVI)

Eis ahi saiu o que semêa a semear...

MATH., XIII, 3.

Vós os que hoje colheis, por esses campos largos, O doce fruto e a flôr, Acaso esquecereis os asperos e amargos Tempos do semeador?

Rude era o chão; agreste e longo aquelle dia; Comtudo, esses heroes Souberam resistir na afanosa porfia Aos temporaes e aos soes.

Poucos; mas a vontade os poucos multiplica, E a fé, e as orações Fizeram transformar a terra pobre em rica E os centos em milhões.

Nem somente o labor, mas o perigo, a fome, O frio, a descalcez, O morrer cada dia uma morte sem nome, O morrel-a, talvez,

Entre barbaras mãos, como se fora crime, Como se fora réu Quem lhe ensinára aquela ação pura e sublime De as levantar ao céu!

Ó Paulos do sertão! Que dia e que batalha! Vencestel-a; e podeis Entre as dobras dormir da secular mortalha; Vivereis, vivereis!

A FLOR DO EMBIROÇU

Noite, melhor que o dia, quem não te ama?

FIL. ELIS.

Quando a noturna sombra envolve a terra E á paz convida o lavrador cansado, Á fresca brisa o seio delicado A branca flôr do embiroçú descerra.

E das limpidas lagrimas que chora A noite amiga, ella recolhe alguma; A vida bebe na ligeira bruma, Até que rompe no horizonte a aurora.

Então, á luz nascente, a flôr modesta, Quando tudo o que vive alma recobra, Languidamente as suas folhas dobra, E busca o somno quando tudo é festa.

Suave imagem da alma que suspira E odeia a turba vã! da alma que sente Agitar-se-lhe a aza impaciente E a novos mundos transportar-se aspira!

Tambem ella ama as horas silenciosas, E quando a vida as lutas interrompe, Ella da carne os duros elos rompe, E entrega o seio ás ilusões viçosas.

É tudo seu,--tempo, fortuna, espaço, E o céu azul e os seus milhões de estrellas; Abrazada de amor, palpita ao vel-as, E a todas cinge no ideal abraço.

O rosto não encara indifferente, Nem a traidora mão candida aperta; Das mentiras da vida se liberta E entra no mundo que jamais não mente.

Noite, melhor que o dia, quem não te ama? Labor ingrato, agitação, fadiga, Tudo faz esquecer tua aza amiga Que a alma nos leva onde a ventura a chama.

Ama-te a flôr que desabrocha á hora Em que o ultimo olhar o sol lhe estende, Vive, embala-se, orvalha-se, recende, E as folhas cerra quando rompe a aurora.

LUA NOVA[26]

Mãe dos fructos, Jacy, no alto espaço Eil-a assoma serena e indecisa: Sopro é della esta languida brisa Que sussurra na terra e no mar. Não se mira nas aguas do rio, Nem as ervas do campo branqueia; Vaga e incerta ella vem, como a ideia Que inda apenas começa a espontar.

E iam todos; guerreiros, donzellas, Velhos, moços, as redes deixavam; Rudes gritos na aldeia soavam, Vivos olhos fugiam p'ra o céu: Iam ve-la, Jacy, mãe dos fructos, Que, entre um grupo de brancas estrellas, Mal scintila: nem póde vencel-as, Que inda o rosto lhe cobre amplo véu.

E um guerreiro: «Jacy, doce amada, Retempera-me as forças; não veja Olho adverso, na dura peleja, Este braço já frouxo cair. Vibre a setta, que ao longe derruba Tajassú, que roncando caminha; Nem lhe escape serpente damninha, Nem lhe fuja pesado tapir.»

E uma virgem: «Jacy, doce amada, Dobra os galhos, carrega esses ramos Do arvoredo co'as frutas que damos Aos valentes guerreiros, que eu vou A buscal-os na mata sombria, Por trazel-os ao moço prudente, Que venceu tanta guerra valente, E estes olhos consigo levou.»

E um ancião, que a saudara ja muitos, Muitos dias: «Jacy, doce amada, Dá que seja mais longa a jornada, Dá que eu possa saudar-te o nascer, Quando o filho do filho, que hei visto Triumphar de inimigo execrando, Possa as pontas de um arco dobrando Contra os arcos contrarios vencer.»

E elles riam os fortes guerreiros, E as donzelas e esposas cantavam, E eram risos que d'alma brotavam, E eram cantos de paz e de amor. Rude peito criado nas brenhas, --Rude embora,--terreno é propicio; Que onde o germen lançou beneficio Brota, enfolha, verdeja, abre em flôr.

SABINA

Sabina era mucama da fazenda; Vinte annos tinha; e na provincia toda Não havia mestiça mais á moda, Com suas roupas de cambraia e renda.

Captiva, não entrava na senzala, Nem tinha mãos para trabalho rude; Desbrochava-lhe a sua juventude Entre carinhos e affeições de sala.

Era cria da casa. A sinhá moça, Que com ella brincou sendo menina, Sobre todas amava esta Sabina, Com esse ingenuo e puro amor da roça.

Dizem que á noite, a suspirar na cama, Pensa n'ella o feitor; dizem que um dia, Um hospede que alli passado havia, Poz um cordão no collo da mucama.

Mas que vale uma joia no pescoço? Não pôde haver o coração da bella. Se alguem lhe acende os olhos de gazella, É pessoa maior: é o senhor moço.

Ora, Octavio cursava a Academia. Era um lindo rapaz; a mesma edade Co'as passageiras flôres o adornava De cujo extincto aroma inda a memoria Vive na tarde pallida do outomno. Oh! vinte anos! Ó pombas fugitivas Da primeira estação, porque tão cedo Voaes de nós? Pudesse ao menos a alma Guardar comsigo as illusões primeiras, Virgindade sem preço, que não paga Essa descolorida, árida e sêcca Experiencia do homem!

Vinte annos Tinha Octavio, e a belleza e um ar de corte, E o gesto nobre, e seductor o aspecto; Um vero Adonis, como aqui diria Algum poeta classico, d'aquella Poesia que foi nobre, airosa e grande Em tempos idos, que ainda bem se foram...

Cursava a Academia o moço Octavio; Ia no anno terceiro, não remoto Via desenrolar-se o pergaminho, Premio de seus labores e fadigas; E uma vez bacharel, via mais longe Os curvos braços da feliz cadeira D'onde o legislador a redea empunha Dos lepidos frisões do Estado. Emtanto, Sobre os livros de estudo, gota a gota As horas despendia, e trabalhava Por metter na cabeça o jus romano E o patrio jus. Nas suspiradas ferias Volvia ao lar paterno; ali no dorso De brioso corsel corria os campos, Ou, arma ao hombro, polvorinho ao lado, Á caça dos veados e cotias, Ia matando o tempo. Algumas vezes Com o padre vigario se entretinha Em desfiar um ponto de intrincada Philosophia, que o senhor de engenho, Feliz pae, escutava glorioso, Como a rever-se no brilhante aspecto De suas ricas esperanças.

Era Manhã de estio; erguera-se do leito Octavio; em quatro sorvos toda esgota A taça de café. Chapeo de palha, E arma ao hombro, lá foi terreiro fóra, Passarinhar no mato. Ia costeando O arvoredo que além beirava o rio, A passo curto, e o pensamento á larga, Como leve andorinha que saísse Do ninho, a respirar o hausto primeiro Da manhã. Pela aberta da folhagem, Que inda não doura o sol, uma figura Deliciosa, um busto sobre as ondas Suspende o caçador. Mãe d'água fôra, Talvez, se a cor de seus quebrados olhos Imitasse a do céu; se a tez morena, Morena como a esposa dos Cantares, Alva tivesse; e raios de ouro fossem Os cabellos da cor da noite escura, Que ali soltos e humidos lhe caem, Como um véu sobre o collo. Trigueirinha, Cabello negro, os largos olhos brandos Cor de jaboticaba, quem seria, Quem, senão a mucama da fazenda, Sabina, emfim? Logo a conhece Octavio, E n'ella os olhos espantados fita Que desejos accendem.--Mal cuidando D'aquelle extranho curioso, a virgem Com os ligeiros braços rompe as aguas, E ora toda se esconde, ora ergue o busto, Talhado pela mão da natureza Sobre o modelo classico. Na opposta Riba suspira um passarinho; e o canto E a meia luz, e o sussurrar das aguas, E aquella fada ali, tão doce vida Davam ao quadro, que o ardente alumno Trocára por aquillo, uma hora ao menos, A Faculdade, o pergaminho e o resto.

Subito erige o corpo a ingenua virgem; Com as mãos, os cabellos sobre a espadua Deita, e rasgando lentamente as ondas, Para a margem caminha, tão serena, Tão livre como quem de extranhos olhos Não suspeita a cubiça... Véu da noite, Se lh'os cobrira, dissipára acaso Uma historia de lagrimas. Não póde Furtar-se Octavio á commoção que o toma; A clavina que a esquerda mal sustenta No chão lhe cae; e o baque surdo accorda A descuidada nadadora. Ás ondas A virgem torna. Rompe Octavio o espaço Que os divide; e de pé, na fina areia, Que o molle rio lambe, erecto e firme, Todo se lhe descobre. Um grito apenas Um só grito, mas unico, lhe rompe Do coração; terror, vergonha... e acaso Prazer, prazer mysterioso e vivo De captiva que amou silenciosa, E que ama e vê o objecto de seus sonhos, Ali com ella, a suspirar por ella.

«Flôr da roça nascida ao pé do rio, Octavio começou--talvez mais bella Que essas bellezas cultas da cidade, Tão cobertas de joias e de sedas, Oh! não me negues teu suave aroma! Fez-te captiva o berço; a lei somente Os grilhões te lançou; no livre peito De teus senhores tens a liberdade, A melhor liberdade, o puro affecto Que te elegeu entre as demais captivas, E de affagos te cobre! Flôr do matto, Mais viçosa do que essas outras flôres Nas estufas criadas e nas salas, Rosa agreste nascida ao pé do rio, Oh! não me negues teu suave aroma!»

Disse, e da riba os cubiçosos olhos Pelas aguas estende, emquanto os d'ella, Cobertos pelas palpebras medrosas Choram,--de gosto e de vergonha a um tempo Duas unicas lagrimas. O rio No seio as recebeu; comsigo as leva, Como gottas de chuva, indifferente Ao mal ou bem que lhe povoa a margem; Que assim a natureza, ingenua e docil Ás leis do Creador, perpétua segue Em seu mesmo caminho, e deixa ao homem Padecer e saber que sente e morre.

Pela azulada esphera inda trez vezes A aurora as flôres derramou, e a noite Vezes trez a mantilha escura e larga Mysteriosa cingiu. Na quarta aurora, Anjo das virgens, anjo de azas brancas, Pudor, onde te foste? A alva capella Murcha e desfeita pelo chão lançada, Coberta a face do rubor do pejo, Os olhos com as mãos velando, alçaste Para a Eterna Pureza o eterno voo. Quem ao tempo cortar pudera as azas Se deleitoso voa? Quem pudera Suster a hora abençoada e curta Da ventura que foge, e sobre a terra O gozo transportar da eternidade? Sabina viu correr tecidos de ouro Aqueles dias unicos na vida Toda enlevo e paixão, sincera e ardente Nesse primeiro amor d'alma que nasce E os olhos abre ao sol. Tu lhe dormias, Consciencia; razão, tu lhe fechavas A vista interior; e ella seguia Ao sabor dessas horas mal furtadas Ao captiveiro e á solidão, sem vel-o O fundo abysmo tenebroso e largo Que a separa do eleito de seus sonhos, Nem pressentir a brevidade e a morte!

E com que olhos de pena e de saudade Viu ir-se um dia pela estrada fóra Octavio! Aos livros torna o moço alumno, Não cabisbaixo e triste, mas sereno E lepido. Com ella a alma não fica De seu jovem senhor. Lagrima pura, Muito embora de escrava, pela face Lentamente lhe rola, e lentamente Toda se esvae num pallido sorriso De mãe.

Sabina é mãe; o sangue livre Gira e palpita no captivo seio E lhe paga de sobra as dores cruas Da longa ausencia. Uma por uma, as horas Na solidão do campo há de contal-as, E suspirar pelo remoto dia Em que o veja de novo... Pouco importa, Se o materno sentir compensa os males.

Riem-se della as outras; é seu nome O assunto do terreiro. Uma invejosa Acha-lhe uns certos modos singulares De senhora de engenho; um pajem moço, De cobiça e ciume devorado, Desfaz nas graças que em silencio adora E consigo medita uma vingança. Entre os parceiros, desfiando a palha Com que entrança um chapeo, solenemente Um Caçanje ancião refere aos outros Alguns casos que viu na mocidade De captivas amadas e orgulhosas Castigadas do céu por seus pecados, Mortas entre os grilhões do captiveiro.

Assim falavam elles; tal o aresto Da opinião. Quem evitá-lo póde Entre os seus, por mais baixo que a fortuna Haja tecido o berço? Assim falavam Os captivos do engenho; e porventura Sabina o soube e o perdoou.

Volveram Após os dias da saudade os dias Da esperança. Ora, quiz fortuna adversa Que o coração do moço, tão voluvel Como a brisa que passa ou como as ondas, Nos cabellos castanhos se prendesse De donzella gentil, com quem atára O laço conjugal: uma belleza Pura, como o primeiro olhar da vida, Uma flôr desbrochada em seus quinze annos, Que o moço viu n'um dos serões da corte E captivo adorou. Que há de fazer-lhes Agora o pae? Abençoar os noivos E ao regaço trazel-os da familia.

Oh! longa foi, longa e ruidosa a festa Da fazenda, por onde alegre entrára O moço Octavio conduzindo a esposa. Viu-os chegar Sabina, os olhos secos, Attonita e pasmada. Breve o instante Da vista foi. Rapido foge. A noite A seu tremulo pé não tolhe a marcha; Voa, não corre, ao malfadado rio, Onde a voz escutou do amado moço. Ali chegando: «Morrerá comigo. O fruto de meu seio; a luz da terra Seus olhos não verão; nem ar da vida Hade aspirar...»

Ia a cair nas aguas, Quando subito horror lhe toma o corpo; Gelado o sangue e tremula recúa, Vacilla e tomba sobre a relva. A morte Em vão a chama e lhe fascina a vista; Vence o instincto de mãe. Erma e calada Ali ficou. Viu-a jazer a lua Largo espaço da noite ao pé das aguas, E ouviu-lhe o vento os tremulos suspiros; Nenhum deles, comtudo, o disse á aurora.

ULTIMA JORNADA[27]

I

E ella se foi n'esse clarão primeiro, Aquella esposa misera e ditosa; E elle se foi o perfido guerreiro.

Ella serena ia subindo e airosa, Elle á força de incognitos pesares Dobra a cerviz rebelde e luctuosa.

Iam assim, iam cortando os ares, Deixando embaixo as fertiles campinas, E as florestas, e os rios e os palmares.

Oh! candidas lembranças infantinas! Oh! vida alegre da primeira taba; Que aurora vos tomou, aves divinas?

Como um tronco do matto que desaba, Tudo caiu; lei barbara e funesta: O mesmo instante cria e o mesmo acaba.

De esperanças tamanhas o que resta? Uma historia, uma lagrima chorada Sobre as ultimas ramas da floresta.

A flôr do ipê a viu brotar maguada, E talvez a guardou no seio amigo, Como lembrança da estação passada.

Agora os dois, deixando o bosque antigo, E as campinas, e os rios e os palmares, Para subir ao derradeiro abrigo, Iam cortando lentamente os ares.

II

E elle clamava á moça que ascendia; «--Oh! tu que a doce luz eterna levas, E vais viver na região do dia,

«Vê como rasgam barbaras e sevas As tristezas mortaes ao que se afunda Quasi na fria região das trevas!

«Olha esse sol que a criação inunda! Oh quanta luz, oh! quanta doce vida Deixar-me vae na escuridão profunda!

«Tu ao menos perdoa-me, querida! Suave esposa, que eu ganhei roubando, Perdida agora para mim, perdida!

Ao maldito na morte, ao miserando, Que mais lhe resta em sua noite impura? Sequer allivio ao coração nefando.

«Nos olhos trago a tua morte escura. Foi meu odio cruel que há decepado, Ainda em flôr, a tua formosura.

«Mensageiro de paz, era enviado Um dia á taba de teus pais, um dia Que melhor fôra se não fôra nado.

Ali te vi; ali, entre a alegria De teus fortes guerreiros e donzellas, Teu doce rosto para mim sorria.

«A mais bella eras tu entre as mais bellas, Como no céu a creadora lua Vence na luz as vívidas estrellas.

«Gentil nasceste por desgraça tua; Eu covarde nasci; tu me seguiste; E ardeu a guerra desabrida e crua.

«Um dia o rosto carregado e triste Á taba de teus pais volveste, o rosto Com que alegre e feliz d'ali fugiste.

«Tinha expirado o passageiro gosto, Ou o sangue dos teus, correndo a fio, Em teu seio outro affecto havia posto.

«Mas, ou fosse remorso, ou já fastio, Ias-te agora leve e descuidada, Como folha que o vento entrega ao rio.

«Oh! corça minha fugitiva e amada! Anhangá te guiou por mau caminho, E a morte poz na minha mão fechada.

«Feriu-me da vingança agudo espinho; E fiz-te padecer tão cruas penas, Que inda me doe o coração mesquinho.

«Ao contemplar aquellas tristes scenas As aves, de piedosas e sentidas, Chorando foram sacudindo as pennas.

«Não viu o cedro ali correr perdidas Lagrimas de materno amado seio; Viu somente morrer a flôr das vidas.

«O que mais houve da floresta em meio O sinistro expectaculo, de certo Nenhum estranho contemplal-o veio.

«Mas, se alguem penetrasse no deserto, Vira cair pesadamente a massa Do corpo do guerreiro; e o craneo aberto,

«Como se fôra derramada taça Pela terra jazer, ali chamando O feio grasno do urubú que passa.

«Em vão a arma do golpe irão buscando, Nenhuma houve; nem guerreiro ousado A tua morte ali foi castigando.

«Talvez, talvez Tupan, desconsolado, A pena contemplou maior do que era O delicto; e de colera tomado,

«Ao mais alto dos Andes estendera O forte braço, e da arvore mais forte A setta e o arco vingador colhêra;

«As pontas lhe dobrou, da mesma sorte Que o junco dobra, sussurrando o vento, E de um só tiro lhe enviou a morte.”

Ia assim suspirando este lamento, Quando subitamente a voz lhe cala, Como se a dor lhe suffocára o alento.

No ar se perdêra a lastimosa falla, E o infeliz, condenado á noite escura, Os dentes range e treme de encontral-a.

Leva os olhos na viva aurora pura Em que vê penetrar, já longe, aquella Doce, mimosa, virginal figura.

Assim no campo a timida gazella Foge e se perde; assim no azul dos mares Some-se e morre fugidia vela.

E nada mais se viu fluctuar nos ares; Que elle, bebendo as lagrimas que chora, Na noite entrou dos immortaes pesares, E ella de todo mergulhou na aurora.

OS ORISES[28]

(Fragmento)

I

Nunca as armas christans, nem do Evangelho O lume criador, nem frecha extranha O valle penetraram dos guerreiros Que, entre serros altissimos sentado, Orgulhoso descança. Unico o vento, Quando as azas desprega impetuoso, Os campos varre e as selvas estremece, Um pouco leva, ao recatado asylo, Da poeira da terra. Acaso o raio Alguma vez nos asperos penedos, Com fogo escreve a assolação e o susto. Mas olhos de homem, não; mas braço affeito A pleitear na guerra, a abrir ousado Caminho entre a espessura da floresta, Não affrontára nunca os atrevidos Muros que a natureza a pino erguêra Como eterna atalaia.

II