Part 6
Era chegado O fatal prazo, o desenlace triste. Tudo morre,--a tristeza como o gozo; Rosas de amor ou lyrios de saudade, Tarde ou cedo os esfolha a mão do tempo. Costeando as longas praias, ou transpondo Extensos valles e montanhas, correm Mensageiros que ás tabas mais vizinhas Vão convidar á festa as gentes todas. Era a festa da morte. Indio guerreiro, Trez luas ha captivo, o instante aguarda Em que ás mãos de inimigos vencedores, Cáia expirante, e os vinculos rompendo Da vida, a alma remonte além dos Andes. Corre de boca em boca e de eco em eco A alegre nova. Vem descendo os montes, Ou abicando ás povoadas praias Gente da raça illustre. A onda immensa Pelo arraial se estende pressurosa. De quantas côres natureza fertil Tinge as proprias feições, copiam elles Engraçadas, vistosas louçanias. Vários na edade são, varios no aspecto, Todos iguais e irmãos no herdado brio. Dado o amplexo de amigo, acompanhado De suspiros e pesames sinceros Pelas fadigas da viagem longa, Rompem ruidosas danças. Ao tamoyo Deu o Ibake os segredos da poesia; Cantos festivos, moduladas vozes, Enchem os ares, celebrando a festa Do sacrificio proximo. Ah! não cubra Véu de nojo ou tristeza o rosto aos filhos Destes polidos tempos! Rudes eram Aquelles homens de asperos costumes, Que ante o sangue de irmãos folgavam livres, E nós, soberbos filhos de outra edade, Que a voz fallamos da razão severa E na luz nos banhamos do Calvario, Que somos nós mais que elles? Raça triste De Cains, raça eterna...
XI
Os cantos cessam. Calou-se o maracá. As roucas vozes Dos férvidos guerreiros já reclamam O brutal sacrificio. Ás mãos das servas A taça do cauim passara exhausta. Inquieto aguarda o prisioneiro a morte. Da nação guayanaz nos rudes campos Nasceu. Nos campos da saudosa patria Industriosa mão não sabe ainda Alevantar as tabas. Cova funda Da terra, mãe comum, no seio aberta,[11] Os acolhe e protege. O chão lhes forra A pele do tapir; continua chamma Lhes suppre a luz do sol. É uso antigo Do guayanaz que chega a extrema edade, Ou de mortal doença accomettido, Não expirar aos olhos de outros homens; Vivo o guardam no bojo da igaçaba, E á fria terra o dão, como se fôra Pasto melhor (melhor!) aos frios vermes. Do almo, doce licor que extrai das flôres Mãe do mel, iramaya, larga cópia Pelos robustos membros lhe coaram Seis anciãs da tribu. Rubras pennas Na vasta fronte e nos nervosos braços Garridamente o enfeitam. Longa e forte A mussuranna os rins lhe cinge e aperta. Entra na praça o funebre cortejo. Olhar tranquillo, inda que fero, espalha O indomado captivo. Em pé, defronte, Grave, silencioso, ao sol mostrando De feias cores e vistosas plumas Singular harmonia, aguarda a victima O executor. Nas mãos lhe pende a enorme Tagapema enfeitada, arma certeira, Arma triumphal de morte e de exterminio. Medem-se rosto a rosto os dois contrarios C'um sorriso feroz. Confusas vozes Enchem subito o espaço. Não lhe é dado Ao vencido guerreiro haver a morte Silenciosa e triste em que se passa Da curva rede á fria sepultura. Meigas aves que vão de um clima a outro Abrem placidamente as asas leves, Não tu, guerreiro, que encaraste a morte, Tu combate! Vencido e vencedores Derradeiros escarneos se arremessam; Gritos, injurias, convulsões de raiva, Vivo clamor accorda os longos ecos Das penedias proximas. A clava Do executor girou no ar trez vezes E de leve caiu na grossa espadua Do arquejante captivo. Já na boca, Que o desprezo e o furor n'um riso entreabrem, Orla de espuma alveja. Avança, corre, Estaca... Não lhe dá mais amplo espaço A mussurana, cujas pontas tiram Dois mancebos robustos. Nas cavernas Do longo peito lhe murmura o odio, Surdo, como o rumor da terra inquieta, Pejada de vulcões. Os labios morde, E, como derradeira injuria, á face Do executor lhe cospe espuma e sangue. Não vibra o arco mais veloz o tiro, Nem mais segura no aterrado cervo Feroz succuriuba os nós enrosca, Do que a pesada, enorme tagapema A cabeça de um golpe lhe esmigalha. Cae fulminada a vitima na terra, E alegre o povo longamente applaude.
XII
Na voz universal perdeu-se um grito De piedade e terror: tão fundo entrára Naquella alma roubada á noite escura Raio de sol christão! Potyra foge, Pelos bosques atonita se entranha E pára á margem de um pequeno rio; Pousa na relva os tremulos joelhos E nas mimosas mãos esconde o rosto. Não de lagrimas era aquelle sitio Ou só de doces lagrimas choradas De olhos que amor venceu:--macia relva, Leito de sesta a amores fugitivos. Da verde, rara abobada de folhas Tepida e doce a luz coava a frouxo Do sol, que, além das arvores, tranquillo, Metade da jornada ia transpondo. Longe era ainda a hora melancholica Em que a geremma cerra a miuda folha, E o lume azul o pyrilampo accende. De pé, a um velho tronco descoroado Da copada ramagem, resto apenas, Vestigio do tufão, a indiana moça Languidamente encosta o esbelto corpo. Neste ameno recesso tudo é triste, Porque é alegre tudo. Não mui longe Um desfolhado ipê conserva e guarda Flôres que lhe ficaram de outro estio, Como esperança de folhagem nova, Flôres que a desventura lhe ha negado, A ella, alma esquecida nesta terra, Que nada espera da estação vindoura. Olha, e de inveja o coração lhe estalla. Pelo tronco das arvores se enroscam Parasitas, esposas do arvoredo, Mais fieis não, mais venturosas que ella. Morrer? Descanso fôra ás maguas suas, Mais que descanço, perduravel gozo, Que a nossa eterna patria aos infelizes Deste desterro guarda alvas capellas De não-murchandas e cheirosas flôres. Tal lhe falava no intimo do peito Desespero cruel. Alguns instantes Pela cansada mente lhe vagaram De voluntaria, abreviada morte, Luctuosas ideias. Mal comprehende Esses desmaios da creatura humana Quem não sentiu no coração rasgado Abatimento e enôjo; ou, mais do que isto, Esse contraste immenso e irreparavel Do amor interno e a solidão da vida. Rapido espaço foi. Prompto lhe volve Doce resignação, christã virtude, Que desafia e que assoberba os males. As debeis mãos levanta. Já dos labios Solta nas azas de oração singella Lastimas suas... Na folhagem secca Ouve de cautos pés rumor sumido, Volve a cabeça...
XIII
Tremulo, calado, Anagê crava n'ella os olhos turvos Dos vapores da festa. As mãos inermes Lhe pendem; mas o peito--ó misera!--esse, Esse de mal contido amor transborda. Longo instante passou. Alfim: «Deixaste A festa nossa (o barbaro murmura); Mysteriosa vieste. Dos guerreiros Nenhum te viu; mas eu senti teus passos, E vim comtigo ao ermo. Ave mesquinha, Inutil foges; gavião te espreita,[12] Minha te fez Tupan.» Em pé, sorrindo, Escutava Potyra a voz severa De Anagê. Breve espaço abria entre ambos Alcatifado chão. A fatal hora Chegara alfim? Não o perscruta a moça; Tudo acceita das mãos do seu destino, Tudo, excepto... No proximo arvoredo Ouve de uma ave o pio melancholico; Era a voz de seu pae? a voz do esposo? De ambos talvez. No animo da escrava Restos havia dessa crença antiga Antiga e sempre nova: o peito humano Raro de obscuros elos se liberta.
XIV
--«Nasceste para ser senhora e dona: Anagê não te veda a liberdade; Quebra tu mesma os nós do captiveiro. Faze-te esposa. Vem coroar meus dias; Vem, tudo esqueço. A fronte do guerreiro, Adornada por ti, será mais nobre; Mais forte o braço em que pousar teu rosto. Sou menos bello que esse esposo ausente? Rudes feições compensa amor sobejo. Vem; ver-me-has companheira nos combates, E, se inimiga frecha entrar meu seio, Morrerei a teus pés. Tens medo aos padres? Outro destino escolhe. Cauteloso, Tece o japú nos elevados ramos Das elevadas arvores o ninho, Onde o inimigo lhe não roube a prole. Ninho ha na serra ao nosso amor propicio; Viveremos alli. Troveje em baixo A inubia convidando a guerra os povos; Leva de arcos transforme estas aldêas Em campos de combate,--ou já dispersas As fugitivas tribus vão buscando Longes sertões para chorar seus males, Viveremos alli. Talvez, um dia, Quando eu passar á mysteriosa estancia Das delicias eternas, me pergunte Meu velho pai:--«Teu arco de guerreiro Em que deserta praia o abandonaste? Salvar-me-ha teu amor do eterno pejo.»
XV
Doce era a voz e triste. Rasos d'agua Os olhos. Foi desmaio de tristeza Que o gesto dissipou da esquiva moça. Volve ao Tamoyo vingativa ideia. --«Minha (diz elle) ou morres!» Estremece Potyra, como quando a brisa passa Ao de leve na folha da palmeira, E logo fria ao barbaro responde: --«Jaz esquecido em nossas velhas tabas O respeito da esposa? Acaso é digna Do sangue do Tamoyo esta ameaça? Que desvalia aos olhos teus me coube, Se a outro me ligaram natureza, Religião, destino? A liberdade Nas tuas mãos depuz; com ella a vida. É tudo, quasi tudo. Honra de esposa, Oh! essa deves respeital-a! Vai-te! Ceva teu odio nas sangrentas carnes Do prostrado captivo. Aqui chorando, Na solidão d'estes bosques mal fechados, As maviosas brisas meus suspiros Entregarei; leval-os-hão nas azas La onde geme solitario o esposo. Vai-te!» E as mimosas mãos colhendo ao rosto, Alçou a Deus o pensamento amante, Como a centelha viva que a fogueira Extincta aos ares sobe. Immovel, muda, Longo tempo ficou. Diante d'ella, Como ella immovel, o tamoyo estava. Amor, odio, ciume, orgulho, pena, Oppostos sentimentos se combatem No attribulado peito. Generoso Era, mas não domado amor lhe dava Inspiração de crimes. Não mais prompto Cae sobre a triste corça fugitiva Jaguar de longa fome esporeado, Do que elle as mãos lançou ao colo e á fronte Da misera Potyra. Ai! não, não diga A minha voz o lamentoso instante Em que ella, ao seu algoz volvendo anciosa Turvos olhos: «Perdoo-te!» murmura, Os labios cerra e immaculada expira!
XVI
Estro maior teu nome obscuro cante, Moça christã das solidões antigas, E eterno o cinja de virentes flôres, Que as mereces. De não sabido bardo Estes gemidos são. Languidas brisas No taquaral á noite sussurrando, Ou enrugando o molle dorso ás vagas, Não tem a voz com que domina os echos Despenhada cachoeira. São, comtudo, Mas que debeis e tristes, no concerto Da orquestra universal cabidas notas. Alveja a nebulosa entre as estrellas, E abre ao pé do rosal a flôr da murta.
NIANI
(HISTORIA GUAYCURU)
Desde então cobriu-se Nanine de uma mortal melancolia, sendo seus olhos sempre chorosos. Assim se passaram trez mezes, quando um dia, estando deitada na sua rustica cama, lhe deram a noticia que seu desleal marido se tinha casado com uma rapariga de menor esphera. Senta-se então Nanine na cama, como arrebatada, chama para junto de si um pequeno indio que era seu cativo, e diz-lhe na presença de varios antecris: «És meu captivo; dou-te a liberdade, com a condição de que te chamarás toda a vida Panenioxe.»
F. RODRIGUES PRADO, _Hist. dos Indios Cavalleiros._
...che piange Vedova sola.
DANTE
I
Contam-se historias antigas Pelas terras de além-mar, De moças e de princezas, Que amor fazia matar.
Mas amor que entranha n'alma E a vida soe acabar, Amor é de todo o clima, Bem como a luz, como o ar.
Morrem delle nas florestas Aonde habita o jaguar, Nas margens dos grandes rios Que levam troncos ao mar.
Agora direi um caso De muito penalisar, Tão triste como os que contam Pelas terras de além-mar.
II
Cabana que esteira cobre De junco trançado a mão, Que agitação vae por ella! Que ledas horas lhe vão!
Panenioxe é guerreiro Da velha, dura nação,[13] Cayavaba ha já sentido A sua lança e facão.[14]
Vem de longe, chega á porta Do afamado capitão; Deixa a lança e o cavallo, Entra com seu coração.
A noiva que elle lhe guarda Moça é de nobre feição, Airosa como agil corça Que corre pelo sertão.
Amores eram nascidos Naquella tenra estação Em que a flôr que hade ser flôr Inda se fecha em botão.
Muitos agora lhe querem, E muitos que fortes são; Niani ao melhor delles Não dera o seu coração.[15]
Casal-os agora, é tempo; Casal-os, nobre ancião! Limpo sangue tem o noivo, Que é filho de capitão.[16]
III
«--Traze a minha lança, escravo, Que tanto peito abateu; Traze aqui o meu cavallo Que largos campos correu.»
«--Lança tens e tens cavallo Que meu velho pae te deu; Mas aonde te vás agora Onde vais, esposo meu?»
«--Vou-me á caça, junto á cova Onde a onça se metteu...» «--Montada no meu cavallo, Vou comtigo, esposo meu.»
«--Vou-me ás ribas do Escopil, Que a minha lança varreu...» «--Irei pelejar na guerra, A teu lado, esposo meu.»
«--Fica-te ahi na cabana Onde o meu amor nasceu.» «--Melhor não haver nascido Se já de todo morreu.»
E uma lagrima,--a primeira De muitas que ella verteu,-- Pela face cobreada Lenta, lenta lhe correu.
Enxugal-a, não a enxuga O esposo que já perdeu, Que elle no chão fita os olhos, Como que a voz lhe morreu.
Traz o escravo o seu cavallo Que o velho sogro lhe deu; Traz-lhe mais a sua lança Que tanto peito abateu.
Então, recobrando a alma, Que o remorso esmoreceu, Com esta dura palavra Á esposa lhe respondeu:
«--A bocayuva trez vezes No tronco amadureceu,[17] Desde o dia em que o guerreiro Sua esposa recebeu.»
«Trez vezes! Amor sobejo Nossa vida toda encheu. Fastio me entrou no seio, Fastio que me perdeu.»
E pulando no cavallo, Sumiu-se... desapareceu... Pobre moça sem marido, Chora o amor que lhe morreu!
IV
Leva o Paraguay as aguas, Leva-as no mesmo correr, E as aves descem ao campo Como usavam de descer.
Tenras flôres, que outro tempo Costumavam de nascer, Nascem; vivem de egual vida; Morrem do mesmo morrer.
Niani, pobre viuva, Viuva sem bem o ser, Tanta lagrima chorada Já te não pode valer.
Olhos que amor desmaiára De um desmaiar que é viver, O choro empana-os agora, Como que vão fenecer.
Corpo que fôra robusto No seu cavallo a correr, De continua dor quebrado Mal se póde já suster.
Collar de prata não usa, Como usava de trazer; Pulseiras de finas contas Todas as veiu a romper.[18]
Que ella, se nada ha mudado Daquelle eterno viver, Com que a natureza sabe Renascer, permanecer,
Toda é outra; a alma lhe morre, Mas de um continuo morrer, E não ha magua mais triste De quantas podem doer.
Os que out'rora a desejavam, Antes della mal haver, Vendo que chora e padece, Rindo se põem a dizer:
«--Remador vai na canoa, Canoa vae a descer... Piranha espiou do fundo Piranha, que o vae comer.
Ninguem se fie da braza Que os olhos veem arder, Sereno que cae de noite Ha de fazel-a morrer.
Panenioxe, Panenioxe, Não lhe sabias querer. Quem te pagára esse golpe Que lhe vieste fazer!»
V
Um dia,--era sobre tarde, Ia-se o sol a afundar; Calumby cerrava as folhas Para melhor as guardar.
Vem cavaleiro de longe E á porta vai apear. Traz o rosto carregado, Como a noite sem luar.
Chega-se á pobre da moça E assim começa a falar: «--Guaycurú dói-lhe no peito Tristeza de envergonhar.
Esposo que te ha fugido Hoje se vae a casar; Noiva não é de alto sangue, Porém de sangue vulgar.»
Ergue-se a moça de um pulo, Arrebatada, e no olhar Rebenta-lhe uma faisca Como de luz a expirar.
Menino escravo que tinha Acerta de ali passar; Niani attentando nelle Chama-o para o seu logar.
«--Cativo és tu; serás livre, Mas vaes o nome trocar; Nome avesso te pozeram... Panenioxe has de ficar.»
Pela face cobreada Desce, desce com vagar Uma lagrima: era a ultima Que lhe restava chorar.
Longo tempo alli ficára, Sem se mover nem fallar; Os que a veem naquella magoa Nem ousam de a consolar.
Depois um longo suspiro, E ia a moça a expirar... O sol de todo morria E ennegrecia-se o ar.
Pintam-n'a de vivas cores, E lhe lançam um collar;[19] Em fina esteira de junco Logo a vão amortalhar.
O triste pae suspirando Nos braços a vae tomar, Deita-a sobre o seu cavallo E a leva para enterrar.
Na terra em que dorme agora Justo lhe era descançar, Que pagou foro da vida Com muito e muito penar.
Que assim se morre de amores Aonde habita o jaguar, Como as princesas morriam Pelas terras de além-mar.
A CHRISTÃ NOVA
...essa mesma foi levada captiva para uma terra estranha.
NAUM, cap. III, v. 10
PARTE I
I
Olhos fitos no céu, sentado á porta, O velho pae estava. Um luar frouxo Vinha beijar-lhe a veneranda barba Alva e longa, que o peito lhe cobria, Como a nevoa na encosta da montanha Ao destoucar da aurora. Alta ia a noite, E silenciosa: a praia era deserta, Ouvia-se o bater pausado e longo Da somnolenta vaga,--unico e triste Som que a mudez quebrava á natureza.
II
Assim talvez nas solidões sombrias Da velha Palestina Um propheta no espirito volvera As desgraças da patria. Quão remota Aquella de seus paes sagrada terra, Quão differente desta em que ha vivido Os seus dias melhores! Vago e doce, Este luar não allumia os serros Estereis, nem as ultimas ruinas, Nem as ermas planicies, nem aquelle Morno silencio da região que fôra E que a historia de todo amortalhára. Ó torrentes antigas! aguas santas De Cedron! Já talvez o sol que passa, E vê nascer e vê morrer as flôres, Todas no leito vos seccou, em quanto Estas murmuram placidas e cheias, E vão contando ás deleitosas praias Esperanças futuras. Longo e longo O devolver dos seculos Será, primeiro que a memoria do homem Teça a mortalha fria Da região que inda tinge o albor da aurora.
III
Talvez, talvez no espirito fechado Do ancião vagueavam lentamente Estas ideias tristes. Junto á praia Era a austera mansão, donde se via Desenrolarem-se as serenas vagas Do nosso golpho azul. Não a enfeitavam As galas da opulencia, nem os olhos Entristecia co'o medonho aspecto Da miseria; não pródiga nem surda A fortuna lhe fora, mas aquella Mediana sobria, que os desejos Contenta do philosopho, lhe havia Doirado os tectos. Guanabara ainda Não era a flôr aberta Da nossa edade; era botão apenas, Que rompia do hastil, nascido á beira De suas ondas mansas. Simples e rude, Ia brotando a juvenil cidade, Nestas incultas terras, que a lembrança Recordava talvez do antigo povo, E o guáu alegre, e as rispidas pelejas, Toda essa vida que morreu.
IV
Sentada Aos pés do velho estava a amada filha, Bella como a açucena dos Cantares, Como a rosa dos campos. A cabeça Nos joelhos do pae reclina a moça, E deixa resvalar o pensamento Rio abaixo das longas esperanças E namorados sonhos. Negros olhos Por entre os mal fechados Cilios estende á serra que recorta Ao longe o céu. Morena é a face linda E levemente pallida. Mais bella, Nem mais suave era a formosa Ruth Ante o rico Booz, do que essa virgem, Flôr que Israel brotou do antigo tronco, Corada ao sol da juvenil America.
V
Mudos viam correr aquellas horas Da noite, os dous: ele voltando o rosto Ao passado, ella os olhos ao futuro. Cansam-lhe enfim ao pensamento as azas De ir voando, atravez da espessa treva, Frouxas as colhe, e desce ao campo exiguo Da realidade. A delicada virgem Primeiro volve a si; os lindos dedos Corre-lhe ao longo da nevada barba, E: «--Pae amigo, que pensar vos leva Tão longe a alma?» Estremecendo o velho. «--Curiosa!--lhe disse,--o pensamento E como as aves passageiras: voa A buscar melhor clima.--Opposto rumo Ias tu, alma em flôr, aberta apenas, Tão longe ainda do calor da sesta, Tão remota da noite... Uma esperança Te sorria talvez? Talvez, quem sabe, Uns namorados olhos que me roubem, Que te levem... Não córes, filha minha! Esquecimento, não; lembrança ao menos Ficar-te-ha do paterno affecto; e um dia, Quando eu na terra descansar meus ossos, Haverás doce balsamo no seio Da affeição juvenil... Sim; não te accuso; Ama: é a lei da natureza, eterna! Ama: um homem será da nossa raça...»
VI
Estas palavras taes ouvindo a moça, Turbada os olhos descaiu na terra, E algum tempo ficou calada e triste, Como no azul do céu o astro da noite, Se uma nuvem lhe empana a meio a face. Subito a voz e o rosto alevantando, Com dissimulação,--peccado embora, Mas innocente:--«Olhai, a noite é linda! O vento encrespa mollemente as ondas, E o céu é todo azul e todo estrelas! Formosa, oh! quão formosa a terra minha! Dizei: além desses compridos serros, Além daquelle mar, á orla de outros, Outras como esta vivem?»
VII
Fresca e pura Era-lhe a voz, voz d'alma que sabia Entrar no coração paterno. A fronte Inclina o velho sobre o rosto amado De Angela.--Na cabeça osculo santo Imprime á filha; e suspirando, os olhos Melancholicamente ao ar levanta, Desce-os e assim murmura: «Vaso é digno de ti, lyrio dos vales, Terra solene e bella. A natureza Aqui pomposa, compassiva e grande, No regaço recebe a alma que chora E o coração que tumido suspira. Comtudo, a sombra pesarosa e errante Do povo que acabou pranteia ainda Ao longo das areias, Onde o mar bate, ou no cerrado bosque Inda povoado das reliquias suas, Que o nome de Tupan confessar podem No proprio templo augusto. Ultima e forte Consolação é esta do vencido Que viu tudo perder-se no passado, E unico salva do naufragio imenso O seu Deus. Patria não. Uma ha na terra Que eu nunca vi... Hoje é ruina tudo, E viuvez e morte. Um tempo, emtanto, Bella e forte ella foi; mas longe, longe Os dias vão da fortaleza e gloria Escoados de todo como as aguas Que não volvem jamais. Oleo que a unge, Finas telas que a vestem, atavios De ouro e prata que o colo e os braços lhe ornam, E a flôr de trigo e mel de que se nutre, Sonhos, são sonhos do propheta. É morta[20] Jerusalem! Oh! quem lhe dera os dias Da passada grandeza, quando a planta Da senhora das gentes sobre o peito Pousava dos vencidos, quando o nome Do que ha salvo Israel, Moysés...» «--Não! Christo, Filho de Deus! Só elle ha salvo os homens!» Isto dizendo, a delicada virgem As mãos postas ergueu. Uma palavra Não disse mais; no coração, emtanto, Murmurava uma prece silenciosa, Ardente e viva, como a fé que a anima Ou como a luz da lampada A que não faltou oleo.
VIII
Taciturno Esteve longo tempo o ancião. Aquella Alma infeliz nem toda era de Christo Nem toda de Moyses; ouvia attento A palavra da Lei, como nos dias Do eleito povo; mas a doce nota Do Evangelho não raro lhe batia No alvoroçado peito, Solemnissima e pura... Descambava No entanto a lua. A noite era mais linda, E mais augusta a solidão. Na alcova Entre a pallida moça. Da parede Um Christo pende; ela os joelhos dobra, Os dedos cruza e reza,--não serena, Nem alegre tambem, como costuma, Mas a tremer-lhe nos formosos olhos Uma lagrima.
IX
A lampada accendida Sobre a meza do velho, as largas folhas Allumia de um livro. O maximo era Dos livros todos. A escolhida lauda Era a do canto dos captivos que iam Pelas ribas do Euphrates, relembrando As desgraças da patria. A sós, com elles, Suspira o velho aquelle psalmo antigo:
Junto os rios da terra amaldiçoada De Babylonia, um dia nos sentamos, Com saudades de Sião amada.
As harpas nos salgueiros penduramos, E ao relembrarmos os extintos dias As lagrimas dos olhos desatamos.
Os que nos davam cruas agonias De captiveiro, alli nos perguntavam Pelas nossas antigas harmonias.
E diziamos nós aos que fallavam: «Como em terra de exilio amargo e duro Cantar os hymnos que ao Senhor louvavam?»
Jerusalem, se inda n'um sol futuro, Eu desviar de ti meu pensamento E teu nome entregar a olvido escuro,
A minha dextra a frio esquecimento Votada seja; apegue-se á garganta Esta lingua infiel, se um só momento
Me não lembrar de ti, se a grande e santa Jerusalem não for minha alegria Melhor no meio de miseria tanta.
Oh! lembra-lhes, Senhor, aquelle dia Da abatida Sião, lembra-lh'o aos duros Filhos de Edom, e á voz que alli dizia:
Arruinai-a, arruinai-a; os muros Arrazemol-os todos; só lhe baste Um montão de destroços mal seguros.
Filha de Babylonia, que peccaste, Abençoado o que se houver comtigo Com a mesma oppressão que nos mostraste!
Abençoado o barbaro inimigo Que os tenros filhos teus ás mãos tomando, Os for, por teu justissimo castigo, Contra um duro penedo esmigalhando!
PARTE II
I