Poesias Completas

Part 5

Chapter 53,918 wordsPublic domain

Vê Londres, vê Paris, terra das ceias, Feira do amor a toda a bolsa aberta; No mesmo laço, as bellas como as feias, Por capricho ou razão, iguaes aperta; A edade não pergunta ás taças cheias, Só pede o vinho que o prazer desperta; Adora as outoniças, como as novas, Torna-se heróe de rua e heróe de alcovas.

LXVIII

Versos quando os compõe, celebram antes O alegre vicio que a virtude austera; Canta os beijos e as noites delirantes, O esteril gozo que a volupia gera; Troca a illusão que o seduzia d'antes Por maior e tristissima chimera; Ave do céu, entre os osculos creada, Espalha as plumas brancas pela estrada.

LXIX

Um dia, emfim, cansado e aborrecido, Acorda Heitor; e olhando em roda e ao largo, Vê um deserto, e do prazer perdido Resta-lhe unicamente o gosto amargo; Não achou o ideal appetecido No longo e profundissimo lethargo: A vida exhausta em feitos e esplendores, Se alguma tinha, eram já murchas flôres.

LXX

Ora, uma noite, costeando o Rheno, Ao luar melancolico,--buscava Aquelle gozo simples, doce, ameno, Que á vida toda outr'ora lhe bastava; Voz remota, cortando o ar sereno, Em derredor os échos acordava; Voz aldeã que o largo espaço enchia, E uma canção de Schiller repetia.

LXXI

«A gloria! diz Heitor, a gloria é vida! Porque busquei nos gozos de outra sorte Esta felicidade appetecida, Esta resurreição que annulla a morte? Ó illusão fantastica e perdida! Ó mal gasto, ardentissimo transporte! Musa, restaura as apagadas tintas! Revivei, revivei, chammas extinctas!»

LXXII

A gloria? Tarde vens, pobre exilado! A gloria pede as illusões viçosas, Estro em flôr, coração electrisado, Mãos que possam colher ethereas rosas; Mas tu, filho do ocio e do peccado, Tu que perdeste as forças portentosas Na agitação que os animos abate, Queres colher a palma do combate?

LXXIII

Chamas em vão as musas; deslembradas, Á tua voz os seus ouvidos cerram; E nas paginas virgens, preparadas, Pobre poeta, em vão teus olhos erram; Nega-se a inspiração; nas despregadas Cordas da velha lyra, os sons que encerram Inertes dormem; teus cansados dedos Correm debalde; esquecem-lhe os segredos.

LXXIV

Ah! se a taça do amor e dos prazeres Já não guarda licor que te embriague; Se nem musas nem languidas mulheres Têm coração que o teu desejo apague; Busca a sciencia, estuda a lei dos seres, Que a mão divina a tua dôr esmague; Entra em ti, vê o que és, observa em roda, Escuta e palpa a natureza toda.

LXXV

Livros compra, um philosopho procura; Revolve a creação, prescruta a vida; Vê se espancas a longa noite escura Em que a esteril razão andou mettida; Talvez aches a palma da ventura No campo das sciencias escondida. Que a tua mente as illusões esqueça: Se o coração morreu, vive a cabeça!

LXXVI

Ora, por não brigar co'os meus leitores, Dos quaes, conforme a curta ou longa vista, Uns pertencem aos grupos novadores, Da fria communhão materialista; Outros, seguindo exemplos dos melhores, Defendem a theoria idealista; Outros, emfim, fugindo armas extremas, Vão curando por ambos os systemas.

LXXVII

Direi que o nosso Heitor, após o estudo Da natureza e suas harmonias, (Oppondo a consciencia um forte escudo Contra divagações e fantasias); Depois de ter aprofundado tudo, Planta, homem, estrellas, noites, dias, Achou esta lição inesperada: Veiu a saber que não sabia nada.

LXXVIII

«Nada! exclama um philosopho amarello Pelas longas vigilias, afastando Um livro que ha de ver um dia ao prelo E em cujas folhas ia trabalhando. Pois eu, doutor de borla e de capello, Eu que passo os meus dias estudando, Hei de ler o que escreve penna ousada, Que a sciencia da vida acaba em nada?»

LXXIX

Aqui convinha intercalar com geito, Sem pretenção, nem pompa nem barulho, Uma arrancada apostrophe do peito Contra as vãs pretenções do nosso orgulho; Conviria mostrar em todo o effeito Essa que é dos espiritos entulho, Sciencia vã, de magnas leis tão rica, Que ignora tudo, e tudo ao mundo explica.

LXXX

Mas, urgindo acabar este romance, Deixo em paz o philosopho, e procuro Dizer do vate o doloroso trance Quando se achou mais pecco e mais escuro. Valêra bem n'aquelle triste lance Um sorriso do céu placido e puro, Raio do sol eterno da verdade, Que a vida aquece e alenta a humanidade.

LXXXI

Que! nem ao menos na sciencia havia Fonte que a eterna sêde lhe matasse? Nem no amor, nem no seio da poesia Podia nunca repousar a face; Atrás d'esse fantasma correria Sem que jámais as fórmas lhe palpasse? Seria acaso a sua ingrata sorte A ventura encontrar nas mãos da morte?

LXXXII

A morte! Heitor pensára alguns momentos N'essa sombria porta aberta á vida; Pallido archanjo dos finaes alentos De alma que o céu deixou desilludida; Mão que, fechando os olhos somnolentos, Põe o termo fatal á humana lida; Templo de gloria ou região do medo, Morte, quem te arrancára o teu segredo?

LXXXIII

Vasio, inutil, ermo de esperanças Heitor buscava a noiva ignota e fria, Que o envolvesse então nas longas tranças E o conduzisse á camara sombria, Quando, em meio de pallidas lembranças, Surgiu-lhe a idéa de um remoto dia, Em que cingindo a candida capella Estava a pertencer-lhe uma donzella.

LXXXIV

Elvira! o casto amor! a esposa amante! Rosa de uma estação, deixada ao vento! Riso dos céus! estrella rutilante Esquecida no azul do firmamento! Ideal, meteoro de um instante! Gloria da vida, luz do pensamento! A gentil, a formosa realidade! Unica dita e unica verdade!

LXXXV

Ah! porque não ficou calmo e tranquillo Da ingenua moça nos divinos braços? Porque fugira ao casto e alegre asylo? Porque rompêra os mal formados laços? Quem pudera jámais restituil-o Aos estreitos, fortissimos abraços Com que Elvira apertava enternecida Esse que lhe era o amor, a alma e a vida?

LXXXVI

Será tempo? Quem sabe? Heitor hesita; Tardio pejo lhe enrubece a face; Punge o remorso; o coração palpita Como se vida nova o reanimasse; Tenue fogo, entre a cinza, arde e se agita... Ah! se o passado alli resuscitasse Reviverião illusões viçosas, E a gasta vida rebentara em rosas!

LXXXVII

Resolve Heitor voltar ao valle amigo, Onde ficára a noiva abandonada. Transpõe o lar, affronta-lhe o perigo, E chega emfim á terra desejada. Sobe o monte, contempla o cedro antigo, Sente abrir-se-lhe n'alma a flôr murchada Das illusões que um dia concebêra; Rosa extincta da sua primavera!

LXXXVIII

Era a hora em que os serros do oriente Formar parecem luminosas urnas; E abre o sol a pupilla resplendente Que ás folhas sorve as lagrimas nocturnas; Frouxa briza amorosa e diligente Vai acordando as sombras taciturnas; Surge nos braços d'essa aurora estiva A alegre natureza rediviva.

LXXXIX

Campa era o mar; o valle estreito berço; De um lado a morte, do outro lado a vida, Canto do céu, resumo do universo Ninho para aquecer a ave abatida. Inda nas sombras todo o valle immerso, Não acordára á costumada lida; Repousava no placido abandono Da paz tranquilla e do tranquillo somno.

XC

Alto já ia o sol, quando descera Heitor a opposta face da montanha; Nada do que deixou desparecêra; O mesmo rio as mesmas hervas banha. A casa, como então, garrida e austera, Do sol nascente a viva luz apanha; Iguaes flôres, nas plantas renascidas... Tudo alli falla de perpetuas vidas!

XCI

Desce o poeta cauteloso e lento. Olha de longe; um vulto ao sol erguia A veneranda fronte, monumento De grave e celestial melancolia. Como sulco de um fundo pensamento Larga ruga na testa abrir se via, Era a ruina talvez de uma esperança... Nos braços tinha uma gentil criança.

XCII

Ria a criança; o velho contemplava Aquella flôr que ás auras matutinas O perfumoso calix desbrochava E entrava a abrir as petalas divinas. Triste sorriso o rosto lhe animava, Como um raio de lua entre ruinas. Alegria infantil, tristeza austera, O inverno torvo, a alegre primavera!

XCIII

Desce o poeta, desce, e preso, e fito Nos bellos olhos do gentil infante, Treme, comprime o peito... e após um grito Corre alegre, exaltado e delirante, Ah! se jámais as vozes do infinito Podem sahir de um coração amante, Teve-as aquelle... Lagrimas sentidas Lhe inundárão as faces resequidas!

XCIV

«Meu filho!» exclama, e subito parando Ante o grupo ajoelha o libertino; Geme, soluça, em lagrimas beijando As mãos do velho e as tranças do menino. Ergue-se Antero, e frio e venerando, Olhos no céu, exclama: «Que destino! Murchar-lhe, viva, a rosa da ventura; Morta, insultar-lhe a paz da sepultura!»

XCV

«Morta!--Sim!--Ah! senhor! se arrependido Posso alcançar perdão, se com meus prantos, Posso apiedar-lhe o coração ferido Por tanta mágoa e longos desencantos; Se este infante, entre lagrimas nascido, Póde influir-me os seus affectos santos... É meu filho, não é? perdão lhe imploro! Veja, senhor! eu soffro, eu creio, eu choro!»

XCVI

Olha-o com frio orgulho o velho honrado; Depois, fugindo aquella scena estranha, Entra em casa. O poeta, acabrunhado, Sobe outra vez a encosta da montanha; Ao cimo chega, e desce o opposto lado Que a vaga azul entre soluços banha. Como fria ironia a tantas mágoas, Batia o sol de chapa sobre as aguas.

XCVII

Pouco tempo depois ouviu-se um grito, Som de um corpo nas aguas resvalado; Á flôr das vagas veio um corpo afflicto... Depois... o sol tranquillo e o mar calado. Depois... Aqui termina o manuscripto, Que ora em lettra de fôrma é publicado. Nestas estrophes pallidas e mausas, Para te divertir de outras lembranças.

AMERICANAS

(1875)

POTYRA[6]

Os Tamoyos, entre outras presas que fizeram, levaram esta india, a qual pretendeu o capitão da empreza violar: resistiu valorosamente dizendo em lingua brasilica: «Eu sou christã e casada; não heide fazer traição a Deus e a meu marido; bom podes matar-me e fazer do mim o que quizeres.» Deu-se por a affrontado o barbaro, e em vingança lhe acabou a vida com grande crueldade.

VASC. _Chr. da Comp. de Jesus_, liv 3°.

I

Moça christã das solidões antigas, Em que aurea folha reviveu teu nome? Nem o eco das mattas seculares, Nem a voz das sonoras cachoeiras, O transmitiu aos seculos futuros. Assim da tarde estiva ás auras frouxas Tenue fumo do colmo no ar se perde; Nem de outra sorte em moribundos labios A humana voz expira. O horror e o sangue Da miseranda scena em que, de envolta Co'os longos, magoadissimos suspiros, Christã Lucrecia, abriu tua alma o voo Para subir ás regiões celestes, Mal deixada memoria aos homens lembra. Isso apenas; não mais; teu nome obscuro, Nem tua campa o brazileiro os sabe.

II

Ja da férvida luta os ais e os gritos Extinctos eram. Nos baixeis ligeiros Os tamoyos incolumes embarcam; Ferem co'os remos as serenas ondas Até surgirem na remota aldêa. Atrás ficava, luctuosa e triste, A nascente cidade brazileira,[7] Do inopinado assalto espavorida, Ao céu mandando em côro inuteis vozes. Vinha já perto rareando a noite, Alva aurora, que á vida accorda as selvas, Quando a aldêa surgiu aos olhos torvos Da expedição nocturna. Á praia saltam Os vencedores em tropel: transportam Ás cabanas despojos e vencidos, E, da vigilia fatigados, buscam Na curva, leve rede amigo somno, Excepto o chefe. Oh! esse não dormira Longas noites, se a troco da victoria Precisas fossem. Traz comsigo o premio, O desejado premio. Desmaiada Conduz nos braços tremulos a moça Que renegou Tupan, e as rudes crenças[8] Lavou nas aguas do baptismo santo. Na rode ornada de amarellas pennas Brandamente a depõe. Leve tecido Da captiva gentil as fórmas cobre; Veste-as de mais a sombra do crepusculo, Sombra que a tibia luz da alva nascente De todo não rompeu. Inquieto sangue Nas veias ferve do indio. Os olhos luzem De concentrada raiva triumphante. Amor talvez lhes lança um leve toque De ternura, ou já soffrego desejo; Amor, como elle, asperrimo e selvagem, Que outro não sente o heroe.

III

Heroe lhe chamam Quantos o hão visto no fervor da guerra Medo e morte espalhar entre os contrarios E avantajar-se nos certeiras golpes Aos mais fortes da tribu. O arco e a flecha Desde a infancia os meneia ousado o affouto; Cedo apprendeu nas solitarias brenhas A pleitear ás feras o caminho. A força oppõe á força, a astucia á astucia, Qual se da onça e da serpente houvera Colhido as armas. Traz ao collo os dentes Dos contrarios vencidos. Nem dos annos O numera supera o das victorias; Tem no espaçoso rosto a flôr da vida, A juventude, e goza entre os mais bellos De real primazia. A cinta e a fronte Azues, vermelhas plumas alardeam, Ingenuas galas do gentio inculto.

IV

Da captiva gentil cerrados olhos Não se entreabrem á luz. Morta parece. Uma só contracção lhe não perturba A paz serena do mimoso rosto. Junto della, cruzados sobre o peito Os braços, Anagê contempla e espera; Soffrego espera, em quanto ideias negras Estão a revoar-lhe em torno e a encher-lhe A mente de projectos tenebrosos. Tal no cimo do velho Corcovado Proxima tempestade engloba as nuvens. Subito ao seio turgido e macio Anciosas mãos estende; inda palpita O coração, com desusada força, Como se a vida toda alli buscasse Refugio certo e ultimo. Impetuoso O vestido cristão lhe despedaça, E á luz já viva da manhã recente Contempla as nuas fórmas. Era acaso A syncope chegada ao termo proprio, Ou, no pejo offendida, ás mãos extranhas A desmaiada moça despertára. Potyra accorda, os olhos lança em torno, Fita, vê, comprehende, e inquieta busca Fugir do vencedor ás mãos e ao crime... Misera! opõe-se-lhe o irritado gesto Do asperrimo guerreiro; um ai lhe sobe Angustioso e triste aos labios tremulos, Sobe, murmura e suffocado expira. Na rede envolve o corpo, e, desviando Do terrivel tamoyo os lindos olhos, Entrecortada prece aos céus envia, E as faces banha de serenas lagrimas.

V

Longo tempo correra. Amplo silencio Reinou entre ambos. Do tamoyo a fronte Pouco a pouco despira o torvo aspecto. Ao trabalhado espirito, revolto De mil sinistros pensamentos, volve Benigna calma. Tal de um rio engrossa O volume extensissimo das aguas Que vão enchendo de pavor os ecos, Vencendo no arruido o vento e o raio, E pouco a pouco atenuando as vozes, Adelgaçando as ondas, tornam mansas Ao primitivo leito. Ei-lo se inclina, Para tomar nos braços a formosa Por cujo amor incendiara a aldêa Daquellas gentes pallidas de Europa. Sente-lhe a moça as mãos, e erguendo o rosto, O rosto inda de lagrimas molhado, Do coração estas palavras solta: «--Lá entre os meus, suave e amiga morte, Ah! porque me não deste? Houvera ao menos Quem escutasse de meus labios frios A prece derradeira; e a santa benção Levaria minha alma aos pés do Eterno... Não, não te peço a vida; é tua, extingue-a; Um só allivio imploro. Não receies Embeber no meu sangue a ervada setta; Mata-me, sim; mas leva-me onde eu possa Ter em sagrado leito o ultimo somno!» Disse, e fitando no indio avidos olhos, Esperou. Anagê sacode a fronte, Como se lhe pesara ideia triste; Crava os olhos no chão; lentas lhe saem Estas vozes do peito. «Oh! nunca os padres Pisado houvessem estas plagas virgens! Nunca de um deus estranho as leis ignotas Viessem perturbar as tribos, como Perturba o vento as aguas! Rosto a rosto Os guerreiros pelejam: matam, morrem. Ante o fulgor das armas inimigas Não descora o tamoyo. Assaz lhe pulsa Valor nativo e raro em peito livre. Armas, deu-lh'as Tupan novas e eternas Nestas mattas vastissimas. De sangue Extranhos rios hão de, ao mar correndo, Tristes novas levar á patria delles, Primeiro que o tamoyo a frente incline Aos inimigos peitos. Outra força, Outra e maior nos move a guerra crua; São elles, são os padres. Esses mostram Cheia de riso a boca e o mel nas vozes, Sereno o rosto e as brancas mãos inermes; Ordens não trazem de cacique alheio, Tudo nos levam, tudo. Uma por uma As filhas de Tupan correm trás elles, Com ellas os guerreiros, e com todos A nossa antiga fé. Vem perto o dia Em que, na imensidão destes desertos, Ha de ao frio luar das longas noites O pagé suspirar sozinho e triste Sem povo nem Tupan!»

VI

Silenciosas Lagrimas lhe espremeu dos olhos negros Esta lembrança de futuros males. «--Escuta!» diz Potyra. O indio estende Imperioso as mãos e assim prossegue: «--Tambem com elles foste, e foi comtigo Da minha vida a flôr! Teu pai mandara, E com ele mandou Tupan que eu fosse Teu esposo; vedou-m'o a voz dos padres, Que me perdeu, levando-te consigo. Não morri; vivi só para esta affronta; Vivi para esta insolita tristeza De maldizer teu nome e as graças tuas, Chorar-te a vida e desejar-te a morte. Ai! nos rudes combates em que a tribu Rega de sangue o chão da virgem terra Ou tinge a flôr do mar, nunca a meu lado Teu nobre vulto esteve. A aldêa toda, Mais que o teu coração, ficou deserta. Duas vezes, mimosas rebentaram Do lacrimoso cajueiro as flôres, Desde o dia funesto em que deixaste A cabana paterna. O extremo lumo Expirou de teu pai nos olhos tristes; Piedosa chamma consumiu seus restos, E a aldêa toda o lastimou com prantos. Não de todo se foi da nossa vida; Parte ficou para sentir teus males. Antes que o ultimo sol á melindrosa Flôr do maracujá cerrasse as folhas Um sonho tive. Merencorio vulto, Triste como uma fronte de vencido, Cor da lua os cabellos venerandos, O vulto de teu pae: «Guerreiro (disse), «Corre á vizinha habitação dos brancos, «Vai, arranca Potyra á lei funesta «Dos pallidos pagés; Tupan t'o ordena; «Nos braços traze a fugitiva corça; «Vincula o teu destino ao dela; é tua.» «--Impossivel! Que vale um vago sonho? Sou esposa e christã. Impio, respeita O amor que Deus protege e sanctifica: Mata-me; a minha vida te pertence: Ou, se te pesa derramar o sangue Daquella a quem amaste, e por quem foste Lançar entre os christãos a dor e o susto, Faze-me escrava; servirei contente Emquanto a vida allumiar meus olhos. Toma, entrego-te o sangue e a liberdade Ordena ou fere. Tua esposa, nunca!» Calou-se, e reclinada sobre a rede, Potyra murmurava ignota prece, Olhos fitos no proximo arvoredo, Olhos não ermos de profunda magua.

VII

Ó Christo! em que alma penetrou teu nome Que lhe não désse o balsamo da vida? Pelo vento dos seculos levado, Vidente e cego, o maximo dos seres, Que fora do homem nesta escassa terra, Se ao mysterio da vida lhe não désses, Ó Christo! a eterna chave da esperança Philosophia stoica, ardua virtude, Creação de homem, tudo passa e expira. Tu só, filha de Deus, palavra amiga, Tu, suavissima voz da eternidade, Tu perduras, tu vales, tu confortas. Neste sonho iriado de outros sonhos, Varios como as feições da natureza, Nesta confusa agitação da vida, Que alma transpõe a derradeira edade Farta de algumas passageiras glorias? Torvo é o ar do sepulchro; alli não viçam Essas cansadas rosas da existencia Que ás vezes tantas lagrimas nos custam, E tantas mais antes do occaso expiram. Flôr do Evangelho, nuncia de alvos dias, Esperança christã, não te ha murchado O vento arido e secco; és tu viçosa Quando as da terra languidas inclinam O seio, e a vida lentamente exhalam. Esta a consolação ultima e doce Da esposa indiana foi. Captiva ou morta, Antevia a celeste recompensa Que aos humildes reserva a mão do Eterno. Naquelle rude coração das brenhas A semente evangelica brotara.

VIII

Das duas condições deu-lhe o guerreiro A peor,--fel-a escrava; e eil-a apparece Da sua aldea aos olhos espantados Qual fôra em dias de melhor ventura. Despida vem das roupas que lhe ha posto Sobre as polidas fórmas uso extranho, Não sabido jamais daquelles povos Que a natureza ingenua doutrinara. Vence na gentileza ás mais da tribu, E tem de sobra um sentimento novo, Pudor de esposa e de christã,--realce Que ao indio accende a natural volupia. Simulada alegria lhe descerra Os labios; riso á flôr, escasso e dubio, Que mal lhe encobre as vergonhosas maguas. Á voz do seu senhor accorre humilde; Não a assusta o labor; nem dos perigos Conhece os medos. Nas ruidosas festas, Quando ferve o canim, e o ar atrôa[9] Pocema de alegria ou de combate, Como que se lhe fecha a flôr do rosto. Ja lhe descae então no seio oppresso A graciosa fronte; os olhos fecha, E ao céu voltando o pensamento puro, Menos por si, que pelos outros pede. Nem só o ardor da fé lhe abraza o peito; Lacera-lh'o tambem agra saudade; Chora a separação do amado esposo, Que, ou cedo a esquece, ou solitario geme. Se, alguma vez, fugindo a extranhos olhos, Não já crueis, mas cubiçosos della, Entra desatinada o bosque antigo, E a dor expande em lobregos soluços, Co'o doce nome accorda ao longe os écos, Farta de amor e prodiga de vida, Ouve-as a selva, e não lhe entende as maguas. Outras vezes pisando a ruiva areia Das praias, ou galgando a penedia Cujos pés orla o mar de nivea espuma, As ondas murmurantes interroga; Conta ao vento da noite as dores suas; Mas... fieis ao destino e á lei que as rege, As preguiçosas ondas vão caminho, Crespas do vento que sussurra e passa.

IX

Quando, ao sol da manhã, partem ás vezes, Com seus arcos, os destros caçadores, E alguns da rija estaca desatando Os nós de embira ás rapidas igaras, A pesca vão pelas ribeiras proximas, Das esposas, das mães que os lares velam, Grata alegria os corações innunda, Menos o della, que suspira e geme, E não aguarda doce esposo ou filho. Triste os vê na partida e no regresso, E nessa melancholica postura, Simelha a acacia langue e esmorecida, Que já de orvalho ou sol não pede os beijos. As outras...--Raro em labios de felizes Alheias maguas travam. Não se pejam De seus olhos azuis e alegres pennas Os sahis sobre as arvores pousados, Se ao perto voa na campina verde De anuns luctuoso bando; nem os trillos Das andorinhas interrompe a nota Que a jurity suspira.--As outras folgam Pelo arraial dispersas; vão-se á terra Arrancar as raizes nutritivas, E fazem os preparos do banquete A que hão de vir mais tarde os destemidos Senhores do arco, alegres vencedores De quanto vive na agua e na floresta. Da captiva nenhuma inquire as maguas. Comtudo, algumas vezes, curiosas Virgens lhe dizem, apiedando o gesto: --«Pois que á taba voltaste, em que teus olhos Primeiro viram luz, que magua funda Lhes distilla tão longo e amargo pranto, Amargo mais do que esse que não busca Recatado silencio?»--E ás doces vozes A christã desterrada assim responde: --«Potyra é como aquella flôr que chora Lagrimas de alvo leite, se do galho Mão cruel a cortou. Oh! não permitta O céu que ímpia fortuna vos separe Daquelle que escolherdes. Dor é essa Maior que um pobre coração de esposa. Esperanças... Deixei-as nessas aguas Que me trouxeram, complices do crime, Á taba de Tupan, não allumiada Da palavra celeste. Algumas vezes, Raras, alveja em minha noite escura Não sei que tibia aurora, e penso: Acaso O sol que vem me guarda um raio amigo, Que hade accender nestes cansados olhos Ventura que já foi. As asas colhe Guanumby, e o aguçado bico embebe No tronco, onde repousa adormecido Até que volte uma estação de flôres.[10] Ventura imita o guanumby dos campos: Accordará co'as flôres de outros dias. Doce illusão que rapido se escoa, Como o pingo de orvalho mal fechado N'uma folha que o vento agita e entorna.» E as virgens dizem, apiedando o gesto: --«Potyra é como aquella flôr que chora «Lagrimas de alvo leite, se do galho «Mão cruel a cortou!»

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