Part 4
Já esqueci; passou.
LYSIAS.
Quem falla como pensa Arrisca-se a perder ou por sobra ou por mingoa. Eu confesso o meu mal; não sei tentear a lingua. Pois que me perdoaste, escuta-me. Tu tens A graça das feições, o summo bem dos bens; Moça, trazes na fronte o doce beijo de Hebe Como um philtro de amor que, sem sentir, se bebe, De teus olhos destilla a eterna juventude; De teus olhos que um deus, por lhes dar mais virtude, Fez azues como o céu, profundos como o mar. Quem taes dotes reune, ó Myrto, deve amar.
MYRTO.
Fallas como um poeta, e zombas da poesia!
LYSIAS.
Eu, poeta? jámais.
MYRTO.
A tua fantasia Respirou certamente o ar do monte Hymmeto. Tem a expressão tão doce!
LYSIAS.
É a expressão do affecto. Sou em cousas de Apollo um simples amador. A minha grande musa é Venus, mãe do amor. No mais não apprendi (os fados meus adversos Vedárão-m'o!) a cantar bons e sentidos versos. Cleon, esse é que sabe accender tantas almas, Conquistar de um só lance os corações e as palmas.
MYRTO.
Conquistar, oh! que não!
LYSIAS.
Mas agradar?
MYRTO.
Talvez.
LYSIAS.
Isso mesmo; é já muito. O que o poeta fez Fal-o-ei jamais? Contudo, inda tental-o quero; Se não me inspira a musa, alma filha de Homero, Inspira-me o desejo, a musa que delira, E o seu canto concerta aos sons da eterna lyra.
MYRTO.
Tambem desejas ser alguma coisa?
LYSIAS.
Não; Eu caso o meu amor ás regras da razão. Cleon quizera ser o espelho em que teu rosto Sorri; eu, bela Myrto, eu tenho melhor gosto. Ser espelho! ser banho! e tunica! tolice! Esteril ambição! loucura! criancice! Por Venus! sei melhor o que a mim me convem. Homem sisudo e grave outros desejos tem. Fiz, a este respeito, aprofundado estudo; Eu não quero ser nada; eu quero dar-te tudo. Escolhe o mais perfeito espelho de aço fino, A tunica melhor de pano tarentino, Vasos de oleo, um colar de perolas,--enfim Quanto enfeita uma dama aceital-o-has de mim. Brincos que vão ornar-te a orelha graciosa; Para os dedos o annel de pedra preciosa; A tua fronte pede aureo, rico anadema; Têl-o-has, divina Myrto. É este o meu poema.
MYRTO.
É lindo!
LYSIAS.
Queres tu, outras estrophes mais? Dar-t'as-hei quais as teve a celebrada Lais. Casa, rico jardim, servas de toda a parte; E estatuas e paineis, e quantas obras d'arte Podem servir de ornato ao templo da belleza, Tudo haverás de mim. Nem gosto nem riqueza Tu ha de faltar, mimosa, e só quero um penhor. Quero... quero-te a ti.
MYRTO.
Pois que! já quer a flôr, Quem desdenhando a flôr, só lhe pede o perfume?
LYSIAS.
Esqueceste o perdão?
MYRTO.
Ficou-me este azedume.
LYSIAS.
Venus póde apagal-o.
MYRTO.
Eu sei, creio e não creio.
LYSIAS.
Hesitar é ceder: agrada-me o receio. Em assumpto de amor, vontade que fluctua Está prestes a entregar-se. Entregas-te?
MYRTO.
Sou tua!
SCENA VIII
LYSIAS, MYRTO, CLEON.
CLEON.
Demorei-me demais?
LYSIAS.
Apenas o bastante Para que fosse ouvido um coração amante. A Lesbiana é minha.
CLEON.
És d'elle, Myrto!
MYRTO.
Sim; Eu ainda hesitava; ele fallou por mim.
CLEON.
Quantos amores tens, filha do mal?
LYSIAS.
Presinto. Uma lamentação inutil. «A Corintho Não vai quem quer,» lá diz aquelle velho adagio. Navegavas sem leme; era certo o naufragio. Não me viste sulcar as mesmas aguas?
CLEON.
Vi, Mas contava com ella, e confiava em ti. Mais duas illusões! Que importa? Inda são poucas; Desfação-se uma a uma estas chimeras loucas. Ó arvore bemdita, ó minha juventude, Vão-te as flôres caindo ao vento aspero e rude! Não vos maldigo, não; eu não maldigo o mar Quando a nave sossobra; o erro é confiar. Adeus, formosa Myrto; adeus, Lysias; não quero Perturbar vosso amor, eu que já nada espero; Eu que vou arrancar as profundas raizes Desta paixão funesta; adeus, sede felizes!
LYSIAS.
Adeus! Saudemos nós a Vénus e a Lyeo.
AMBOS.
_Io Pœan!_ ó Baccho! Himenêo! Himenêo!
PALLIDA ELVIRA
(A FRANCISCO PAZ)
Ulysse, jeté sur les rives d'Ithaque, ne les reconnait pas et pleure sa patrie. Ainsi l'homme dans le bonheur possédé ne reconnait pas son rêve et soupire.
DANIEL STERN.
I
Quando, leitora amiga, no occidente Surge a tarde esmaiada e pensativa; E entre a verde folhagem rescendente Languida geme viração lasciva; E já das tenues sombras do oriente Vem apontando a noite, e a _casta diva_ Subindo lentamente pelo espaço, Do céu, da terra observa o estreito abraço;
II
N'essa hora de amor e de tristeza, Se acaso não amaste e acaso esperas Ver coroar-te a juvenil belleza Casto sonho das tuas primaveras; Não sentes escapar tua alma acesa Para voar ás lucidas espheras? Não sentes n'essa mágoa e n'esse enleio Vir morrer-te uma lagrima no seio?
III
Sêntel-o? Então entenderás Elvira, Que assentada á janella, erguendo o rosto, O vôo solta á alma que delira E mergulha no azul de um céu de agosto; Entenderás então porque suspira, Victima já de um intimo desgosto, A meiga virgem, pallida e calada, Sonhadora, anciosa e namorada.
IV
Mansão de riso e paz, mansão de amores Era o valle. Espalhava a natureza, Com dadivosa mão, palmas e flôres De agreste aroma e virginal belleza; Bosques sombrios de immortaes verdores, Asylo proprio á inspiração accesa, Valle de amor, aberto ás almas ternas N'este valle de lagrimas eternas.
V
A casa, junto á encosta de um outeiro, Alva pomba entre folhas parecia: Quando vinha a manhã, o olhar primeiro Ia beijar-lhe a verde gelosia: Mais tarde a fresca sombra de um coqueiro Do sol quente a janella protegia; Pouco distante, abrindo o solo adusto, Um fio d'agua murmurava a custo.
VI
Era uma joia a alcova em que sonhava Elvira, alma de amor. Tapete fino De apurado lavor o chão forrava. De um lado oval espelho crystallino Pendia. Ao fundo, á sombra, se occultava Elegante, engraçado, pequenino Leito em que, repousando a face bella, De amor sonhava a pallida donzella.
VII
Não me censure o critico exigente O ser pallida a moça; é meu costume Obedecer á lei de toda a gente Que uma obra compõe de algum volume. Ora, no nosso caso, é lei vigente Que um descorado rosto o amor resume. Não tinha Miss Smolen outras côres; Não n'as possue quem sonha com amores.
VIII
Sobre uma mesa havia um livro aberto; Lamartine, o cantor aereo e vago, Que enche de amor um coração deserto; Tinha-o lido; era a pagina do _Lago._ Amava-o; tinha-o sempre alli bem perto, Era-lhe o anjo bom, o deos, o orago; Chorava aos cantos da divina lyra.... É que o grande poeta amava Elvira!
IX
Elvira! o mesmo nome! A moça os lia, Com lagrimas de amor, os versos santos, Aquella eterna e languida harmonia Formada com suspiros e com prantos; Quando escutava a musa da elegia Cantar de Elvira os magicos encantos, Entrava-lhe a voar a alma inquieta, E com o amor sonhava de um poeta.
X
Ai, o amor de um poeta! amor subido! Indelevel, purissimo, exaltado, Amor eternamente convencido, Que vai além de um tumulo fechado, E que, através dos seculos ouvido, O nome leva do objecto amado, Que faz de Laura um culto, e tem por sorte Negra fouce quebrar nas mãos da morte.
XI
Fosse eu moça e bonita... N'este lance Se o meu leitor é já homem sisudo, Fecha tranquillamente o meu romance, Que não serve a recreio nem a estudo; Não entendendo a força nem o alcance De semelhante amor, condemna tudo; Abre um volume serio, farto e enorme, Algumas folhas lê, boceja... e dorme.
XII
Nada perdes, leitor, nem perdem nada As esquecidas musas; pouco importa Que tu, vulgar materia condemnada, Aches que um tal amor é lettra morta. Pódes, cedendo á opinião honrada, Fechar á minha Elvira a esquiva porta. Almas de prosa chã, quem vos daria Conhecer todo o amor que ha na poesia?
XIII
Ora, o tio de Elvira, o velho Antero, Erudito e philosopho profundo, Que sabia de cór o velho Homero, E compunha os annaes do Novo Mundo; Que escrevêra uma vida de Severo, Obra de grande tomo e de alto fundo; Que resumia em si a Grecia e Lacio, E n'um salão fallava como Horacio;
XIV
Disse uma noite á pallida sobrinha: «Elvira, sonhas tanto! devaneias! «Que andas a procurar, querida minha? «Que ambições, que desejos ou que idéas «Fazem gemer tua alma innocentinha? «De que esperança vã, meu anjo, anceias? «Teu coração de ardente amor suspira; «Que tens?--Eu nada,» respondia Elvira.
XV
«Alguma cousa tens!» tornava o tio; «Porque olhas tu as nuvens do poente, «Vertendo ás vezes lagrimas a fio, «Magoada expressão d'alma doente? «Outras vezes, olhando a agua do rio, «Deixas correr o espirito indolente, «Como uma flôr que ao vento alli tombára, «E a onda murmurando arrebatára.»
XVI
«--_Latet anguis ïn herba..._» Neste instante Entrou a tempo o chá... perdão, leitores, Eu bem sei que é preceito dominante Não misturar comidas com amores; Mas eu não vi, nem sei se algum amante Vive de orvalho ou petalas de flôres; Namorados estomagos consomem; Comem Romeos, e Julietas comem.
XVII
Entrou a tempo o chá, e foi servil-o, Sem responder, a moça interrogada, C'um ar tão soberano e tão tranquillo Que o velho emmudeceu. Ceia acabada, Fez o escriptor o costumado chylo, Mas um chylo de especie pouco usada, Que consistia em ler um livro velho; N'essa noite acertou ser o Evangelho.
XVIII
Abríra em S. Matheus, n'aquelle passo Em que o filho de Deus diz que a açucena Não labora nem fia, e o tempo escasso Vive, co' o ar e o sol, sem dôr nem pena; Leu e estendendo o já tremulo braço A triste, á melancolica pequena, Apontou-lhe a passagem da Escriptura Onde lêra lição tão recta e pura.
XIX
«Vês? diz o velho, escusas de cansar-te; «Deixa em paz teu espirito, criança: «Se existe um coração que deva amar-te, «Ha de vir; vive só d'essa esperança. «As venturas do amor um deos reparte; «Queres têl-as? põe n'elle a confiança. «Não persigas com supplicas a sorte; «Tudo se espera; até se espera a morte!
XX
«A doutrina da vida é esta: espera, «Confia, e colherás a anciada palma; «Oxalá que eu te apague essa chimera «Lá diz o bom Demophilo que á alma; «Como traz a andorinha a primavera, «A palavra do sabio traz a calma, «O sabio aqui sou eu. Ris-te, pequena? «Pois melhor; quero ver-te uma açucena!»
XXI
Paliava aquelle velho como falla Sobre côres um cego de nascença. Pear a juventude! Condemnal-a Ao somno da ambição vivaz e intensa! Co' as leves azas da esperança ornal-a E não querer que rompa a esphera immensa! Não consentir que esta manhã de amores Encha com frescas lagrimas as flôres
XXII
Mal o velho acabava e justamente Na rija porta ouviu-se uma pancada. Quem seria? Uma serva diligente, Travando de uma luz, desceu a escada. Pouco depois rangia brandamente A chave, e a porta aberta dava entrada A um rapaz embuçado que trazia Uma carta, e ao doutor fallar pedia.
XXIII
Entrou na sala, e lento, e gracioso, Descobriu-se e atirou a capa a um lado; Era um rosto poetico e viçoso Por soberbos cabellos coroado; Grave sem gesto algum pretencioso, Elegante sem ares de enfeitado; Nos labios frescos um sorriso amigo, Os olhos negros e o perfil antigo.
XXIV
Demais, era poeta. Era-o. Trazia N'aquelle olhar não sei que luz extranha Que indicava um alumno da poesia, Um morador da classica montanha, Um cidadão da terra da harmonia, Da terra que eu chamei nossa Allemanha, N'uns versos que hei de dar um dia a lume, Ou n'alguma gazeta, ou n'um volume.
XXV
Um poeta! e de noite! e de capote! Que é isso, amigo autor? Leitor amigo. Imagina que estás n'um camarote Vendo passar-se em scena um drama antigo, Sem lança não conheço D. Quixote, Sem espada é apocrypho um Rodrigo; Heróe que ás regras classicas escapa, Póde não ser heróe, mas traz a capa.
XXVI
Heitor (era o seu nome) ao velho entrega Uma carta lacrada; vem do norte. Escreve-lhe um philosopho collega Já quasi a entrar no thalamo da morte. Recommenda-lhe o filho, e lembra, e allega, A provada amizade, o esteio forte, Com que outr'ora, acudindo-lhe nos transes, Salvou-lhe o nome de terriveis lances.
XXVII
Dizia a carta: «Crime ou virtude, «É meu filho poeta; e corre fama «Que já faz honra á nossa juventude «Co' a viva inspiração de etherea chamma; «Diz elle que, se o genio não o illude, «Camões seria se encontrasse um Gama. «Deos o fade; eu perdôo-lhe tal sestro; «Guia-lhe os passos, cuida-lhe do estro.»
XXVIII
Lida a carta, o philosopho erudito Abraça o moço e diz em tom pausado: «Um sonhador do azul e do infinito! «É hospede do céu, hospede amado. «Um bom poeta é hoje quasi um mytho, «Se o talento que tem é já provado, «Conte co' o meu exemplo e o meu conselho; «Boa lição é sempre a voz de um velho.»
XXIX
E trava-lhe da mão, e brandamente Leva-o junto d'Elvira. A moça estava Encostada á janella, e a esquiva mente Pela extensão dos ares lhe vagava. Voltou-se distrahida, e de repente Mal nos olhos de Heitor o olhar fitava, Sentiu... Inutil fora relatal-o; Julgue-o quem não puder experimental-o.
XXX
Ó santa e pura luz do olhar primeiro! Elo de amor que duas almas liga! Raio de sol que rompe o nevoeiro E casa a flôr á flôr! Palavra amiga Que, trocada um momento passageiro, Lembrar parece uma existencia antiga! Lingua, filha do céu, doce eloquencia Dos melhores momentos da existencia!
XXXI
Entra a leitora n'uma sala cheia; Vai isenta, vai livre de cuidado: Na cabeça gentil nenhuma idéa, Nenhum amor no coração fechado. Livre como a andorinha que volteia E corre loucamente o ar azulado. Venham dous olhos, dous, que a alma buscava... Era senhora? ficará escrava!
XXXII
C'um só olhar escravos elle e ella Já lhes pulsa mais forte o sangue e a vida; Rapida corre aquella noite, aquella Para as castas venturas escolhida; Assoma já nos labios da donzella Lampejo de alegria esvaecida. Foi milagre de amor, prodigio santo. Quem mais fizera? Quem fizera tanto?
XXXIII
Preparára-se ao moço um aposento. Oh! reverso da antiga desventura! Têl-o perto de si! viver do alento De um poeta, alma languida, alma pura! Dá-lhe, ó fonte do casto sentimento, Aguas santas, baptismo de ventura! Emquanto o velho, amigo de outra fonte, Vai mergulhar-se em pleno Xenophonte.
XXXIV
Devo agora contar, dia por dia, O romance dos dous? Inutil fôra; A historia é sempre a mesma; não varia A paixão de um rapaz e uma senhora. Vivem ambos do olhar que se extasia E conversa co'a alma sonhadora; Na mesma luz de amor os dous se inflammam; Ou, como diz Philinto: «Amados, amam.»
XXXV
Todavia a leitora curiosa Talvez queira saber de um incidente; A confissão dos dous;--scena espinhosa Quando a paixão domina a alma que sente. Em regra, confissão franca e verbosa Revela um coração independente; A paz interior tudo confia, Mas o amor, esse hesita e balbucia.
XXXVI
O amor faz monosyllabos; não gasta O tempo com analyses compridas; Nem é proprio de boca amante e casta Um chuveiro de phrases estendidas; Um volver d'olhos languido nos basta Por conhecer as chammas comprimidas; Coração que discorre e faz estylo, Tem as chaves por dentro e está tranquillo.
XXXVII
Deu-se o caso uma tarde em que chovia, Os dous estavão na varanda aberta. A chuva peneirava, e além cobria Cinzento véu o occaso; a tarde incerta Já nos braços a noite a recebia, Como amorosa mãe que a filha aperta Por enxugar-lhe os prantos magoados. Eram ambos immoveis e calados.
XXXVIII
Juntos, ao parapeito da varanda, Viam cahir da chuva as gottas finas, Sentindo a viração fria, mas branda, Que balançava as frouxas casuarinas. Raras, ao longe, de uma e de, outra banda, Pelas do céu tristissimas campinas, Viam correr da tempestade as aves Negras, serenas, lugubres e graves.
XXXIX
De quando em quando vinha uma rajada Borrifar e agitar a Elvira as tranças, Como se fôra a briza perfumada Que á palmeira sacode as tenues franças. A fronte gentilissima e engraçada Sacudia co'a chuva as más lembranças; E ao passo que chorava a tarde escura Ria-se n'ella a aurora da ventura.
XL
«Que triste a tarde vai! que véu de morte «Cobrir parece a terra! (o moço exclama), «Reproducção fiel da minha sorte, «Sombra e choro.--Porque? pergunta a dama; «Diz que teve dos céus uma alma forte... «--É forte o bronze e não resiste á chamma; «Leu versos meus em que zombei do fado? «lllusões de poeta mallogrado!»
XLI
«Somos todos assim. E nossa gloria «Contra o destino oppôr alma de ferro; «Desafiar o mal, eis nossa historia, «E o tremendo duello é sempre um erro. «Custa-nos caro uma fallaz victoria «Que nem consola as mágoas do desterro, «O desterro,--esta vida obscura e rude «Que a dôr enfeita e as victimas illude.
XLII
«Contra esse mal tremendo que devora «A seiva toda á nossa mocidade, «Que remedio haveriamos, senhora, «Senão versos de affronta e liberdade? «No emtanto, bastaria acaso um'hora, «Uma só, mas de amor, mas de piedade, «Para trocar por seculos de vida «Estes de dôr acerba e envilecida.»
XLIII
Al não disse, e, fitando olhos ardentes Na moça, que de enleio enrubecia, Com discursos mais fortes e eloquentes Na exposição do caso proseguia; A pouco e pouco as mãos intelligentes Traváram-se; e não sei se conviria Accrescentar que um osculo... Risquemos, Não é bom mencionar estes extremos.
XLIV
Duas sombrias nuvens afastando, Tenue raio de sol rompêra os ares, E, no amoroso grupo desmaiando, Testemunhou-lhe as nupcias singulares. A nesga azul do occaso contemplando, Sentirão ambos irem-lhe os pezares, Como nocturnas aves agoureiras Que á lua fogem medrosas e ligeiras.
XLV
Tinha mágoas o moço? A causa d'ellas? Nenhuma causa; fantasia apenas; O eterno devanear das almas bellas, Quando as dominam fervidas camenas; Uma ambição de conquistar estrellas, Como se colhem lucidas phalenas; Um desejo de entrar na eterna lida, Um querer mais do que nos cede a vida.
XLVI
Com amores sonhava, ideal formado De celestes e eternos esplendores, A ternura de um anjo destinado A encher-lhe a vida de perpetuas flôres. Tinha-o emfim, qual fôra antes creado Nos seus dias de mágoas e amargores; Madrugavão-lhe n'alma a luz e o riso; Estava á porta emfim do paraiso.
XLVII
N'essa noite, o poeta namorado Não conseguiu dormir. A alma fugíra Para ir velar o doce objecto amado, Por quem, nas ancias da paixão, suspira; E é provavel que, achando o exemplo dado, Ao pé de Heitor viesse a alma de Elviva; De maneira que os dous, de si ausentes, Lá se achavão mais vivos e presentes.
XLVIII
Ao romper da manhã, co'o sol ardente, Briza fresca, entre as folhas sussurrando, O não-dormido vate acorda, e a mente Lhe foi dos vagos sonhos arrancando. Heitor contempla o valle resplendente, A flôr abrindo, o passaro cantando; E a terra que entre risos acordava, Ao sol do estio as roupas enxugava.
XLIX
Tudo então lhe sorria. A natureza, As musas, o futuro, o amor e a vida; Quanto sonhára aquella mente accesa Dera-lhe a sorte, emfim, compadecida. Um paraiso, uma gentil belleza, E a ternura castissima e vencida De um coração creado para amores, Que exhala affectos como aroma as flôres.
L
E ella? Se conheceste em tua vida, Leitora, o mal do amor, delirio santo, Dôr que eleva e conforta a alma abatida, Embriaguez do céu, divino encanto, Se a tua face ardente e enrubecida Pallejou com suspiros e com prantos, Se ardeste emfim, naquella intensa chamma, Entenderás o amor de ingenua dama.
LI
Repara que eu não fallo desse enleio De uma noite de baile ou de palestra; Amor que mal agita a flôr do seio, E ao chá termina e acaba com a orchestra; Não me refiro ao simples galanteio Em que cada menina é velha mestra, Avesso ao sacrifício, á dor e ao choro; Fallo do amor, não fallo do namoro.
LII
Eden de amor, ó solidão fechada, Casto asylo a que o sol dos novos dias Vai mandar, como a furto, a luz coada Pelas frestas das verdes gelosias, Guarda-os ambos; conserva-os recatada. Almas feitas de amor e de harmonias, Tecei, tecei as vividas capellas, Deixai correr sem susto as horas bellas.
LIII
Cá fóra o mundo insipido e profano Não dá, nem póde dar o enleio puro Das almas novas, nem o doce engano Com que se esquecem males do futuro. Não busqueis penetrar n'este oceano Em que se agita o temporal escuro. Por fugir ao naufragio e ao soffrimento, Tendes uma enseada,--o casamento.
LIV
Resumamos, leitora, a narrativa. Tanta strophe a cantar ethereas chammas Pede compensação, musa insensiva, Que fatigais sem pena o ouvido ás damas. Demais, é regra certa e positiva Que muitas vezes as maiores famas Perde-as uma ambição de tagarella; Musa, aprende a lição; musa, cautela!
LV
Mezes depois da scena relatada Nas strophes, a folhas,--o poeta Ouviu do velho Antero uma estudada Oração ciceronica e selecta; A conclusão da arenga preparada Era mais agradavel que discreta. Dizia o velho erguendo olhos serenos: «Pois que se adoram, casem-se, pequenos!»
LVI
Lagrima santa, lagrima de gosto Vertem olhos de Elvira; e um riso aberto Veio inundar-lhe de prazer o rosto Como uma flôr que abrisse no deserto. Se iam já longe as sombras do desgosto; Inda até li era o futuro incerto; Fez-lh'o certo o ancião; e a moça grata Beija a mão que o futuro lhe resgata.
LVII
Correm-se banhos, tiram-se dispensas, Vai-se buscar um padre ao povoado; Prepara-se o enxoval e outras pertenças Necessarias agora ao novo estado. Notam-se até algumas differenças No modo de viver do velho honrado, Que sacrifica á noiva e aos deuses lares Um estudo dos classicos jantares.
LVIII
«Onde vás tu?--Á serra!--Vou comtigo. «--Não, não venhas, meu anjo, é longa a estrada. «Se cansares?--Sou leve, meu amigo; «Descerei nos teus hombros carregada. «--Vou compôr encostado ao cedro antigo «Canto de nupcias.--Seguirei calada; «Junto de ti, ter-me-has mais em lembrança; «Musa serei sem perturbar.--Criança!»
LIX
Brandamente repelle Heitor a Elvira; A moça fica; o poeta lentamente Sobe a montanha. A noiva repetíra O primeiro pedido inutilmente. Olha-o de longe, e timida suspira. Vinha a tarde cahindo frouxamente, Não triste, mas risonha e fresca e bella, Como a vida da pallida donzella.
LX
Chegando, emfim, á c'rôa da collina, Víram olhos de Heitor o mar ao largo, E o sol, que despe a veste purpurina, Para dormir no eterno leito amargo. Surge das aguas pallida e divina, Essa que tem por deleitoso encargo Velar amantes, proteger amores, Lua, musa dos candidos palores.
LXI
Respira Heitor; e livre. O casamento? Foi sonho que passou, fugaz idéa Que não pôde durar mais que um momento. Outra ambição a alma lhe incendeia. Dissipada a illusão, o pensamento Novo quadro a seus olhos patenteia, Não lhe basta aos desejos de sua alma A enseada da vida estreita e calma.
LXII
Aspira ao largo; pulsam-lhe no peito Uns impetos de vida; outro horizonte, Tumidas vagas, temporal desfeito, Quer com elles lutar fronte por fronte. Deixa o tranquillo amor, casto e perfeito, Pelos brodios de Venus de Amathonte; A existencia entre flôres esquecida Pelos rumores de mais ampla vida.
LXIII
Nas mãos da noite desmaiára a tarde; Descem ao valle as sombras vergonhosas; Noite que o céu, por mofa ou por alarde, Torna propicia ás almas venturosas. O derradeiro olhar frio e covarde E umas não sei que strophes lamentosas Solta o poeta, emquanto a triste Elvira, Viuva antes de noiva, em vão suspira!
LXIV
Transpõe o mar Heitor, transpõe montanhas; Tu, curiosidade, o ingrato levas A ir ver o sol das regiões extranhas. A ir ver o amor das peregrinas Evas. Vai, em troco de palmas e façanhas, Viver na morte, bracejar nas trevas; Fazendo amor, que é livro aos homens dado, Copioso almanach namorado.
LXV
Inscreve n'elle a moça de Sevilha, Longas festas e noites hespanholas, A indiscreta e diabolica mantilha Que a fronte cinge a amantes e a carolas. Quantos encontra corações perfilha, Faz da bolsa e do amor largas esmolas: Esquece o antigo amor e a antiga musa Entre os beijos da lepida andaluza.
LXVI
Canta no seio turgido e macio Da fogosa, indolente Italiana, E dorme junto ao laranjal sombrio Ao som de uma canção napolitana. Dão-lhe para os serões do ardente estio, Asti, os vinhos; mulheres, a Toscana. Roma adora, embriaga-se em Veneza, E ama a arte nos braços da belleza.
LXVII