Part 4
Mas que sinistra voz! Silencio, ó lyra! Não mais prosigas teu cantar blasphemo! Fanal de salvamento, luz d'esp'rança Que na altura do Golgotha brilhaste, Desce á minha alma que a tristeza inunda! Desce! de todos resumindo as dôres O calix d'Elle foi o mais acerbo. Elle soffreu! Sofframos, e esperemos! Depois da noite escura vem o dia: Depois d'este desterro, a eterna patria!
DESENGANO
Vejo-a ainda! resurge a meus olhos Como em tempos ditosos surgia, E, qual anjo de casta poesia, Desce ás vezes n'um sonho d'amor; Vejo-a ainda nos céos e na terra, Nos encantos e risos da aurora, E, se o dia nas ondas descora, Das estrellas no meigo fulgor.
Era a luz que brilhava em minha alma, Era o astro que em sombras luzira, Era o fogo sagrado que a lyra Ás doçuras d'amor acordou... Tudo é findo; debalde nas trevas Busco ainda seu facho luzente: Foi apenas um astro cadente, Meteóro fugaz que passou.
Pobre seio que ardente pulsaste Embalado por falsas venturas, O fanal que na terra procuras Sobre a terra jámais acharás. Não ha seio que entenda no mundo Esse ardor de teus vagos anhelos; Não ha luz que em seus raios mais bellos Não te esconda uma sombra fallaz.
Que te resta? um futuro vasio D'illusões que nutriu a esperança, E um passado de triste lembrança Como é triste a verdade sem véo... Olvidar! olvidar! que ao presente, Ai! só cabe o repouso do olvido. Olvidar! e que em gêlo sumido Seja o fogo que em chammas ardeu!
Sonho bello que esta alma illudiste, Chamma ardente nos céos ateada, Vôa, vôa á celeste morada! Lá nasceste, do mundo não és. E tu, lyra de languidas cordas Que d'amor suspiraste em desleixo, Vae, oh, vae! em silencio te deixo... Vae, oh, vae para sempre talvez!
AGAR
De Bersabé nos areaes ardentes O desmaiado sol ia esconder-se, E Agar, a expulsa Agar, gemendo afflicta, Unia ao peito o moribundo filho. O vaso d'agua que lhe dera o esposo Esgotára-se em breve, e no deserto Com seu pobre Ismael não descobrira, Desde o romper do dia, a anciada fonte. O dia declinava: eis que o infante, Que pela mão a acompanhava exhausto, Ardendo em sêde lhe succumbe ás plantas. Ella vê-o cahir, ella estremece, E, os olhos turvos em redor lançando, Aqui e alli correndo, busca ainda, Mas debalde, um frescor. Emfim cançada, Ella mesma tambem, eis volve ao filho, Prostra-se, abraça-o, com maternos beijos Tenta anciosa prolongar-lhe a vida.
«Filho, meu filho--murmurava a triste-- «Á sêde vaes morrer! Oh! se o podésse «Adivinhar teu pae, cruel não fôra; «E Sara, a propria Sara, enternecida «Emmudecêra seus fataes ciumes. «Oh! não gemas, não gemas, que debalde «Invocas tua mãe. Ella te escuta, «Mas não póde salvar-te: dentro em pouco «Em seu regaço exhalarás a vida. «E hei de eu vêr-te expirar? vêr n'esses olhos «Sumir-se a luz do dia? e n'essas faces, «Que tantas vezes me sorriram ledas, «Vêr as ancias da morte? Oh! não, não posso «Vêr morrer o meu filho.» Disse, e ao tronco D'uma arvore visinha o recostava; Depois, com tristes, vagarosos passos, Foi n'outros sitios aguardar a morte. Alli, ao vêr o sol que esmorecia, Desatou a chorar, e estes queixumes Em voz convulsa murmurou ainda:
«Sol do deserto, que o meu pobre filho «Vês expirando na soidão além, «Com teu suave derradeiro brilho «Beijar-lhe a face carinhoso vem! «Oh! vem, que eu triste n'essa face pura «Materno beijo nunca mais darei. «Perdi meu filho: sobre a terra dura «Correi, meus prantos, sem cessar correi!
«Quando o teu facho resurgir no oriente, «Tudo na terra sentirá prazer; «E lá nos campos de Mambré virente «Mais bella a rosa te verá nascer: «Só elle em sombras d'uma noite escura «Adormecido ficará, bem sei. «Perdi meu filho: sobre a terra dura «Correi, meus prantos, sem cessar correi!
«Por mim não choro, que infeliz escrava «Meus tristes dias findarei aqui: «Ai! choro aquelle que no mundo amava, «Choro meu filho que expirando vi. «Maternos mimos, filial ternura, «Lembrae-me os tempos que feliz gosei! «Perdi meu filho: sobre a terra dura «Correi, meus prantos, sem cessar correi!
«Oh! quem dissera nos passados dias «Em que ao meu collo te cerquei d'amor, «Oh! quem dissera que a morrer virias «N'este deserto, sem achar frescor? «Emmurcheceste, já não tens verdura, «Mimoso arbusto que gentil criei! «Perdi meu filho: sobre a terra dura «Correi, meu prantos, sem cessar correi!
«Tantas esp'ranças, que o Senhor gerára «Na escrava humilde, findarão assim. «Foi mais feliz a geração de Sara: «Cruel destino só me coube a mim. «Em vão, em vão me prometteu futura «Longa progenie: sem ninguem fiquei. «Perdi meu filho: sobre a terra dura «Correi, meus prantos, sem cessar correi!
«Quem, ó meu filho, n'este solo ardente, «Quem no jazigo te virá deitar? «Dizer-te:--dorme--e, reclinando a frente «No teu sepulchro, sobre ti chorar? «Eu não, que em breve n'esta plaga obscura «Tambem já morta como tu serei. «Perdi meu filho: sobre a terra dura «Correi, meus prantos, sem cessar correi!
«Aves agrestes que me ouvis as queixas, «Com tristes vozes o seu fim chorae! «Brizas do ermo, suspirae-lhe endeixas! «Astros da noite, seu dormir velae! «Velae-o todos, que a final ventura «Que vos reservo nem sequer terei. «Perdi meu filho: sobre a terra dura «Correi, meus prantos, sem cessar correi!
Mas Deus! que viu ella, Que um ai desprendeu? Que pomba tão bella No manto do céo! Que pennas de prata, D'azul, d'escarlata, O espaço retrata Sereno, sem véo!
É anjo voando! Que brilho que tem! Que véos ondulando De pura cecem! Que anneis de cabello Nos hombros de gêlo, No collo tão bello Cahindo ao desdem!
Descendo, descendo, Já perto chegou; E a pobre tremendo Calada ficou; E o anjo sorria Com doce magia, E á terra descia, Na terra poisou.
E em roda mil lumes De brilho sem fim Lançava, e perfumes De nardo e jasmim; E a voz argentina, Suave, divina, Soltou peregrina, Fallando-lhe assim:
«O que fazes, Agar, porque choras? «Nada temas, não tens que temer: «Se o teu filho perdido deploras, «Esses prantos converte em prazer.
«Do deserto chegou seu gemido «Ás alturas que habita o Senhor: «Surge, surge, e teu filho querido «Vae ao longe buscar sem temor!
«Surge, surge, recobra a esperança, «Que as promessas cumpridas serão! «O teu filho, o Senhor t'o afiança, «Será pae d'uma grande nação.
«Gloria a Deus que no céo ouve as mágoas «De quem soffre na terra a carpir! «Eis um jorro de limpidas aguas: «Ide n'ellas a sêde extinguir!»
E, assim dizendo, lhe mostrava perto Uma fonte escondida entre verduras, Como nunca se vira no deserto, De tão grato frescor, d'aguas tão puras.
Depois, batendo as esmaltadas pennas, Deixou na terra um luminoso traço; E, agitando seu manto d'açucenas, Sumiu-se ao longe na amplidão do espaço.
Erguendo aos céos a radiosa fronte, A pobre mãe ao Senhor Deus louvava; E, enchendo o vaso no crystal da fonte, Com elle ao filho a salvação levava.
MARIA, A CEIFEIRA
(IMITAÇÃO DE UHLAND)
«Bons dias, Maria: da lida do prado «Nem mesmo te afastam cuidados d'amor. «Se ao fim de tres dias m'o deixas ceifado, «A mão de meu filho te quero propôr.»
Promessa é do rico, soberbo rendeiro: Maria, oh! quão ledo seu peito bateu! Seus olhos brilharam, seu braço ligeiro Mais forte nas messes a foice moveu.
Soou meio dia: que ardente seccura! Já todos demandam a fonte, o pinhal; Sómente nos ares a abelha murmura: Maria não pára, que é sua rival.
O sol esmorece, bateram trindades; Debalde o visinho lhe grita: bastou! Zagaes e ceifeiros se vão ás herdades: Maria, co'a foice, lidando ficou:
O orvalho desliza; desponta a seu turno A estrella no espaço, na selva o cantor: Maria, insensivel ao bardo nocturno, A foice incansavel agita ao redor.
Os dias e as noites assim por taes modos, Nutrida d'amores, mal sente passar. Tres dias findaram; oh! vinde vêr todos Maria ditosa d'esp'rança a chorar.
«Bons dias, Maria: já tudo ceifado! «Lidaste devéras: a paga has de ter. «Emquanto a meu filho, foi graça o tratado: «Quão loucos e simples o amor nos faz ser!»
Tal disse, e passava... no peito constante, Ai pobre Maria, que transe cruel! Teu corpo formoso tremeu vacillante, E exhausta cahiste, ceifeira fiel.
Um anno a coitada, sósinha comsigo, Vivendo de fructos, vagou sem fallar... No prado mais verde cavae-lhe o jazigo: Ceifeira como esta jámais heis de achar.
O FIRMAMENTO
AO MEU AMIGO J. S. DA SILVA FERRAZ
Gloria a Deus! eis aberto o livro immenso, O livro do infinito, Onde em mil letras de fulgor intenso Seu nome adoro escripto. Eis de seu tabernaculo corrida Uma ponta do véo mysterioso: Desprende as azas remontando á vida, Alma que anceias pelo eterno gôso!
Estrellas que brilhaes n'essas moradas, Quaes são vossos destinos? Vós sois, vós sois as lampadas sagradas De seus umbraes divinos. Pullulando do seio omnipotente, E sumidas por fim na eternidade, Sois as faiscas de seu carro ardente Ao rolar através da immensidade.
E cada qual de vós um astro encerra, Um sol que apenas vejo, Monarcha d'outros mundos como a terra Que formam seu cortejo. Ninguem póde contar-vos: quem podéra Esses mundos contar a que daes vida, Escuros para nós qual nossa esphera Vos é nas trevas da amplidão sumida?
Mas vós perto brilhaes, no fundo accêsas Do throno soberano: Quem vos ha de seguir nas profundezas D'esse infinito oceano? E quem ha de contar-vos n'essas plagas Que os céos ostentam de brilhante alvura, Lá onde sua mão sostem as vagas Dos soes que um dia romperão na altura?
E tudo outr'ora na mudez jazia, Nos véos do frio nada: Reinava a noite escura; a luz do dia Era em Deus concentrada. Elle fallou! e as sombras n'um momento Se dissiparam na amplidão distante! Elle fallou! e o vasto firmamento Seu véo de mundos desfraldou ovante!
E tudo despertou, e tudo gyra Immerso em seus fulgores; E cada mundo é sonorosa lyra Cantando os seus louvores. Cantae, ó mundos que seu braço impelle, Harpas da creação, fachos do dia, Cantae louvor universal Áquelle Que vos sustenta, e nos espaços guia!
Terra, globo que geras nas entranhas Meu ser, o ser humano, Que és tu com teus vulcões, tuas montanhas, E com teu vasto oceano? Tu és um grão d'areia arrebatado Por esse immenso turbilhão dos mundos Em volta de seu throno levantado Do universo nos seios mais profundos.
E tu, homem, que és tu, ente mesquinho Que soberbo te elevas, Buscando sem cessar abrir caminho Por tuas densas trevas? Que és tu com teus imperios e colossos? Um átomo subtil, um froixo alento: Tu vives um instante, e de teus ossos Só restam cinzas que sacode o vento.
Mas ah! tu pensas, e o gyrar dos orbes Á razão encadeias; Tu pensas, e inspirado em Deus te absorbes Na chamma das ideias: Alegra-te, immortal, que esse alto lume Não morre em trevas d'um jazigo escasso! Gloria a Deus, que n'um átomo resume O pensamento que transcende o espaço!
Caminha, ó rei da terra! se inda és pobre, Conquista aureo destino, E de seculo em seculo mais nobre Eleva a Deus teu hymno! E tu, ó terra, nos floridos mantos Abriga os filhos que em teu seio geras, E teu canto d'amor reune aos cantos Que a Deus se elevam de milhões d'espheras!
Dizem que já sem forças, moribunda, Tu vergas decadente: Oh! não, de tanto sol que te circumda Teu sol inda é fulgente. Tu és joven ainda: a cada passo Tu assistes d'um mundo ás agonias, E rolas entretanto n'esse espaço Coberta de perfumes e harmonias.
Mas ai! tu findarás! além scintilla Hoje um astro brilhante; Ámanhã eil-o treme, eil-o vacilla, E fenece arquejante: Que foi? quem o apagou? foi seu alento Que extinguiu essa luz já fatigada; Foram seculos mil, foi um momento Que a eternidade fez volver ao nada.
Um dia, quem o sabe? um dia, ao pêso Dos annos e ruinas, Tu cahirás n'esse vulcão accêso Que teu sol denominas; E teus irmãos tambem, esses planetas Que a mesma vida, a mesma luz inflamma, Attrahidos emfim, quaes borboletas, Cahirão como tu na mesma chamma.
Então, ó sol, então n'esse aureo throno Que farás tu ainda, Monarcha solitario, e em abandono, Com tua gloria finda? Tu findarás tambem, a fria morte Alcançará teu carro chammejante: Ella te segue, e prophetiza a sorte N'essas manchas que toldam teu semblante.
Que são ellas? talvez os restos frios D'algum antigo mundo, Que inda referve em borbotões sombrios No teu seio profundo. Talvez, envôlta pouco a pouco a frente Nas cinzas sepulchraes de cada filho, Debaixo d'elles todos de repente Apagarás teu vacillante brilho.
E as sombras poisarão no vasto imperio Que teu facho alumia; Mas que vale de menos um psalterio Dos orbes na harmonia? Outro sol como tu, outras espheras Virão no espaço descantar seu hymno, Renovando nos sitios onde imperas Do sol dos soes o resplendor divino.
Gloria a seu nome! um dia meditando Outro céo mais perfeito, O céo d'agora a seu altivo mando Talvez caia desfeito. Então, mundos, estrellas, soes brilhantes, Qual bando d'aguias na amplidão disperso, Chocando-se em destroços fumegantes, Desabarão no fundo do universo.
Então a vida, refluindo ao seio Do fóco soberano, Parará concentrando-se no meio D'esse infinito oceano; E, acabado por fim quanto fulgura, Apenas restarão na immensidade-- O silencio aguardando a voz futura, O throno de Jehovah, e a eternidade!
TRISTEZA
Extingue-se o anno, são findos os dias Que os valles encheram de próvida luz; O inverno c'roado de nevoas sombrias, Seus pallidos gêlos á terra conduz.
O rio em torrentes inunda as campinas, As veigas perderam seu floreo matiz, Pesada tristeza reveste as collinas, E as selvas que ha pouco sorriram gentis.
Em tudo a meus olhos avulta uma imagem De triste abandono, de mystica dôr: Apraz-me este luto que veste a paizagem, Apraz-me esta scena d'extincto verdor.
Como estas campinas outr'ora florentes, Meus dias formosos floriram tambem; Como ellas agora, meus dias cadentes, Despidos de encantos, já viço não tem.
Quão rico de gôsos o tempo corria! Quão triste o presente, quão pobre ficou! Só resta a saudade, qual vaga harmonia Que uma harpa nocturna de longe soltou.
Mas essa que vale perdida a esperança? Que vale um passado que já não é meu? Á flôr desbotada que importa a lembrança Da aurora suave que aroma lhe deu?
Um dia outra quadra mais bella e mais pura Virá de boninas ornar os vergeis; Mas vós, ó meus tempos d'amor e ventura, Sois findos p'ra sempre, jámais voltareis.
Sondando o futuro, minha alma conhece Que os ermos do mundo já rosas não tem: Já tudo succumbe, já tudo fenece, O sol da ventura, e a esp'rança tambem.
Té mesmo em meu peito vacilla agitada A chamma da vida perdendo o calor; Meus dias declinam qual luz desmaiada Que doira as montanhas com tibio fulgor.
Se tudo, ah! se tudo findou no passado, Se as trevas se estendem nos céos do porvir, Que esperas, minha alma? do livro do fado São negras as folhas: só resta partir.
Ao longe, quem sabe? sulcando as alturas, Jardins mais formosos verás na amplidão, De flôres eternas, d'eternas verduras Que os gêlos da terra jámais seccarão.
Temendo os rigores do outomno visinho, As aves adejam buscando outros céos: Tu és, ó minh'alma, qual ave sem ninho,-- Procura outros climas, rasgando os teus véos!
A MÃE E A FILHA
--Filha, filha, que linda alvorada! Anda vêr este sol a nascer: Ha tres dias que gemes deitada, Mas já hoje sorris de prazer.
--Oh! que sonhos d'encantos divinos! Tudo em roda luzia em fulgor, E mil anjos cantavam seus hymnos Em jardins d'açucenas em flôr.
Era longe dos olhos humanos, N'uma terra mui longe d'aqui... Oh! que mundo tão livre d'enganos! Oh! que vida que n'elle vivi!
* * * * *
--Olha o sol que tão bello se esconde Nas montanhas sombrias d'além... Tão calada, tão triste! responde, Que tens tu, minha filha, meu bem?
Vou na patria d'eternos amores, Vou ao longe ditosa viver, Mas, no seio de mundos melhores, Ai! não te hei de a meu lado já vêr! Eis um anjo que desce os espaços... Que harmonias! que brilho sem fim! Mãe, oh mãe, dá-me ainda os teus braços... Já não soffro, não chores por mim.
O MOSTEIRO DA BATALHA
Pulsemos a lyra, que além se levanta Padrão de victoria que immenso reluz! Um templo e altares á Mãe sacrosancta; Um templo, um poema que altivo descanta Grandezas da patria nos atrios da cruz.
Grandezas da patria quem traz á memoria Que o peito não sinta d'orgulho bater? Pulsemos a lyra! do livro da historia Volvamos as folhas, que a musa da gloria Em nuvens ethereas sentimos descer!
* * * * *
Eis já d'Aljubarrota nas campinas Se encontraram as hostes contendoras. D'aqui tremulam portuguezas quinas: D'além as castelhanas invasoras. D'aqui é João primeiro, cuja lança A corôa defende e a patria cara: D'além o estranho rei, pedindo a herança Da princeza Beatriz que desposára.
Refulge o sol nas armas, os cavallos Rincham fogosos escarvando a terra; D'um lado e d'outro os chefes a intervallos Correm as alas animando á guerra. Pouco avultam as hostes portuguezas: Tremendo é de Castella o poderío; Mas quem á patria negará proezas D'alto valor, e generoso brio!
A vespera é do dia consagrado Á Assumpção gloriosa de Maria; Os olhos levantando, o rei soldado: «Senhora, exclama, nosso esforço guia! «Se vencermos, um templo magestoso «Te erguerei sobre o campo da batalha!» Diz, e esporeando seu corcel fogoso Brios em todos com a voz espalha.
Soam trombetas; o signal é dado; Fluctuam soltos os pendões na frente: --Sam Tiago!--brada o castelhano ousado; --Sam Jorge e ávante!--a portugueza gente. Rédeas soltando os esquadrões galopam, E dão em cheio com furor insano, Como torrentes que no val se topam, Ou como as ondas no revolto oceano.
Retine o ferro, a multidão se agita; As hachas d'armas, os broqueis lampejam; Piões, ginetes, com medonha grita, N'um mar de sangue em turbilhão pelejam. O sol já desce a mergulhar no oceano, E inda referve a encarniçada lida; Eis redobra d'esforço o lusitano, E o estrangeiro leva de vencida.
Foge o rei castelhano espavorido; Fogem os seus em debandada solta; Persegue-os João primeiro, e destemido A gosar do triumpho ao campo volta. Já se erigem trophéos, já resplandece O céo da patria c'o fulgor da gloria; Faltava o monumento que dissesse: --Foi aqui! eis o campo da victoria!
* * * * *
E eil-o ahi que se levanta Com magestosa grandeza, D'aquella gentil proeza Sublime recordação; Eil-o ahi aos céos erguido, Como um colosso gigante Apontando ao caminhante O sitio da grande acção.
Altos porticos, lavores D'ostentosa architectura, Corucheus d'immensa altura Roçando a fronte nos céos; Dentro, a nobre magestade Do sanctuario profundo, Onde, extincta a voz do mundo, Só lembra o passado, e Deus.
Sobre os gothicos pilares Brilham tremulos fulgores, Que das vidraças de côres Entorna a mystica luz. Tudo cala, mas, se o orgão Por entre as naves resôa, Tudo se anima, e apregôa O sancto Verbo da cruz.
Então a mente se enleva Nas torrentes de harmonia Que da abobada vasia Retumbam pela amplidão; E, abrazada nos fulgores Dos vivos, sagrados lumes, Sobre as azas dos perfumes Revôa á etherea mansão.
Se tudo cahe em silencio, Cahe em si mesma, e medita, Recordando a data escripta N'esses gothicos umbraes. Pensa então nos heroismos, E crenças da meia idade, Combatendo a escuridade D'aquelles tempos feudaes.
Pensa nos vultos heroicos Dos antigos cavalleiros, E em nossos feitos guerreiros Pela patria e pela cruz; Pensa na grande victoria Que nos fez independentes, E que aos olhos dos presentes N'esse moimento reluz;
Pensa n'um povo pequeno, Mas esforçado e guerreiro, Triumphando do estrangeiro Á voz do rei popular; Pensa no Mestre valente; E sua sombra gigante Parece ás vezes distante Entre as columnas vagar.
E pensa tambem no artista, N'esse architecto inspirado Que um poema sublimado Alli traçou a cinzel; Que cego da luz dos olhos Accendeu a luz do engenho, E consummou seu empenho, Ao grande assumpto fiel.
E Affonso Domingues surge N'esse padrão sobranceiro Ao lado de João primeiro, Seu immortal fundador; Reis ambos: um pelo berço Que lhe deu sua nobreza; Outro, rei pela grandeza Do seu genio creador.
Lá dormem! um rodeado Dos brazões da sua gloria, Como depois da victoria, Sob a tenda a descançar; Outro á sombra d'esses tectos Em campa singela e nua, Como querendo a obra sua D'além da tumba guardar.
* * * * *
E lá dormem tambem outros que a morte Juntou á sombra do logar sagrado, D'infantes e de reis alta cohorte, Servindo de cortejo ao rei soldado.
Reunidos emfim no chão funereo, Fernando, Pedro, e Henrique, os tres infantes; Henrique, o sabio audaz que outro hemispherio Primeiro abriu aos lusos navegantes.
Duarte e João segundo descançando D'altas victorias na mansão tranquilla; Affonso quinto c'os laureis sonhando D'Alcacer, Tanger, e da forte Arzilla.
E no sôpro do vento que perpassa, E lhes roça nas frias sepulturas, Parecem murmurar em voz escassa, E agitar suas ferreas armaduras.
E lá quando o luar pelas janellas Lhes escôa nas lapidas marmoreas, Talvez erguidos se recostam n'ellas A fallar entre si de nossas glorias.
Dormi em paz, ó chefes do passado, Heroico fundador, prole valente; Dormi em paz no tumulo calado Recordando os laureis da vossa gente.
Enchei em roda os penetraes divinos De vossos gloriosos esplendores; E se tendes poder sobre os destinos, Defendei-os do tempo e seus furores.
Que as gerações passando reverentes Possam, volvendo as paginas da historia, Largas eras saudar, curvando as frentes, Esse padrão d'immoredoura gloria!
DESALENTO
Cançado, ai! já cançado quando a vida Em flôr nascente desabrocha ao mundo! Quando a esperança, d'illusões vestida, Sorri a todos n'um porvir jucundo!
Alma que gemes em lethal quebranto, Desprende as azas nos vergeis celestes! Amor, gloria, prazer, dae-me inda o encanto Que nos dias passados já me déstes!
Mas que é o amor da terra? luz divina Que mal desce do céo logo se apaga; Candida rosa que o tufão inclina, Que o tempo e a morte desfolhando esmaga.
Doces imagens que em ditoso enleio Cerquei outr'ora d'illusão infinda, O que é feito de vós? ai! n'este seio Viveis apenas, se viveis ainda.
E tu, que és tu, ó gloria? um som que passa, E de seculo em seculo retumba, Mas que a frigida lousa não traspassa De quem já dorme na calada tumba.
Astro que brilha e queima, espectro ovante Que a desgraça acompanha, e o genio illude: Vós o sabeis, Camões, e Tasso, e Dante, Vós que gemeis ainda no ataúde.
Que é o gôso, o prazer? fumo d'incenso Que embriaga um momento, e se evapora; Que é o saber, a sciencia? espaço immenso Em que a verdade mal reluz na aurora.
Que é este mundo que eu sonhei tão bello? Profundo abysmo de tormenta escura; Que é pois a vida? um fadigoso anhelo Que levamos do berço á sepultura.
A morte! oh! se além d'ella o porto amigo Nos surgisse a final ledo e formoso! Se n'esses mundos da esperança abrigo Despontasse outro sol mais bonançoso!
Mas quem sabe da morte? o ouvido attento No silencio das campas nada escuta; E Socrates não diz se um novo alento Achou, bebendo a gelida cicuta.
Senhor, Senhor, porque vim eu ao mundo, E qual é sobre a terra o meu destino, De mim que homem geraste, e que no fundo D'este valle d'angustia érro sem tino?
Infeliz de quem nasce! a ave que gyra, A fera, o tronco, o verme que rasteja Tambem nasceu, mas esse a nada aspira, Ou se aspirou alcança o que deseja.