Poesias

Part 5

Chapter 53,794 wordsPublic domain

E o homem nasce, pensa, e aspira ancioso Ás illusões que a mente lhe depara, E a cada passo lhe esmorece o gôso, E acha só trevas onde luz sonhára.

E caminha, e caminha, e sem alento Cahe abysmado no seu terreo leito, Onde apóz a fadiga e o soffrimento A lousa sepulchral lhe esmaga o peito.

Aqui, de dôr um pélago profundo; Além, os vermes da feral jazida; Senhor, Senhor, porque vim eu ao mundo? Porque do nada me chamaste á vida?

CONSOLAÇÃO

Quando nas trevas de minha alma afflicta A procella da dôr mais se encapella, E o desalento, a dúvida, e a descrença Co'as negras azas me escurece o dia, A ti, ó Deus, a ti com mais esforço, Através do infinito onde te escondes Busco elevar-me, demandando auxilio; E tu, Senhor, descendo a quem te chama, Fulguras entre as sombras, e a tormenta Que dentro d'alma rebramia fera, Vae pouco e pouco serenando as iras.

* * * * *

Bem hajas! quem te procura Jámais te procura em vão: Tu desces, e a noite escura Se volve em doce clarão; Tu desces, e a luz da esp'rança, Como estrella de bonança, Brilha no mar da afflicção.

A vida é triste: no mundo Soffremos até morrer; Mas, Senhor, quem sonda a fundo Mysterios do teu poder? A vida é triste, mas breve; E o futuro que se eleve, Eterno, immenso ha de ser.

Mundos e mundos no espaço Vão rolando á tua voz, Prêsos em mystico laço N'esses jardins sobre nós; E tudo canta á porfia Aquella grande harmonia Que ensinam teus anjos sós.

Tudo folga: só na terra Ha de o homem padecer? Acaso tão pouco encerra Seu fado? não póde ser. Se o homem foi obra tua, N'este mar em que fluctua Ha de um porto emfim haver.

Bem hajas! a dôr e o pranto Vem de ti, do teu amor; São crysol augusto e sancto Que nos apura em fulgor; São a chamma, o fogo intenso Que nos ergue como incenso, E a teus pés nos vae depôr.

Tu sabes porque sombria Vaga a noite na amplidão, Porque a terra se anuvia, E ruge irado o tufão: É que o dia segue a noite, E das procellas no açoite Se esconde a florea estação.

Bem hajas, Senhor, bem hajas! O teu poder nos conduz; Se de luto um dia trajas, Outro dia além reluz. N'este gyro sempiterno, Vem o estio apóz o inverno, E apóz as sombras a luz.

Bem hajas! feliz no mundo Quem tua face entrevê, E d'este abysmo profundo Se ergue nas azas da fé! Feliz quem sorrindo ás vagas, De olhos fitos sobre as plagas, Espera, confia, e crê!

O BUSSACO

Oh! salve irmão do Libano, Que altivo ergues a fronte, Monarcha d'estas serras, Senhor da solidão! Salve, gigante cupula, Que ostentas no horisonte, Erguida sobre as terras, A cruz da redempção!

Em teus agrestes pincaros O homem vive e sente Mais longe d'este mundo, Mais proximo dos céos: Por isso, nos seus extasis, O monge penitente Aqui meditabundo Se erguia aos pés de Deus.

Por largo tempo o cantico Do pobre cenobita Soou na ermida rude Da tua solidão: Hoje o silencio lugubre Sómente n'ella habita, Silencio d'ataúde Em funebre mansão.

Porém se os coros mysticos Findaram sua reza, Se a voz do sancto hosanna Em ti já feneceu; Tu vives, e inda incolume Ao Deus da natureza, Calada a voz humana, Descantas o hymno teu.

Oh! como és bello erguendo-te Á luz do novo dia, Que os mantos de verdura Te banha de fulgor! Quando o gemer dos zephyros, Das aves a harmonia, Acordam na espessura Louvando o Creador!

Mas quanto mais esplendido Serás quando a tormenta, Sublime, rugidora, Eu teu regaço cahe! Quando de mil relampagos Teu cume se apresenta C'roado, como outr'ora O fulgido Sinai!

Quando os tufões indomitos, Rugindo nas escarpas, Se abraçam ás torrentes Com horrido fragor! Depois, em negro vortice, Desferem nas mil harpas De teus cedros ingentes Um cantico ao Senhor!

Tu és grandioso; o animo Que a sós aqui medita Recolhe altas imagens De sancta inspiração. Oh! porque veio turbida A guerra atroz, maldita, Soltar n'estas paragens As vozes do canhão?

D'um lado eram as bellicas Hostes de Bonaparte; Do outro heroico e ufano O povo portuguez: A liberdade e a patria Ergueu seu estandarte, E a historia do tyranno Contou mais um revez.

Tudo passou: sumiram-se Vencidos, vencedores; Té mesmo do gigante Soou a hora fatal: Só tu, sorrindo impavido Do tempo e seus furores, Inda ergues arrogante Teu vulto colossal.

E cada vez que fulgido Renasce o novo dia, De nova luz te banhas, Despindo os negros véos; E dizes, em teu jubilo, Ao sol que te alumia: --O rei d'estas montanhas Saúda o rei dos céos.

Depois, ao vêl-o pallido Nas vagas do horisonte, Pareces ao mar vasto Dizer com altivez: --Em teu regaço, ó pelago, Tu lhe sumiste a fronte: Avança, que de rasto Virás beijar-me os pés!

A FONTE DOS AMORES

Eis os sitios formosos onde a triste Nos dias d'illusão viveu ditosa; Eis a fonte serena, e os altos cedros Que os segredos d'amor inda lhe guardam. Oh! quantas vezes, solitaria fonte, Apóz longo vagar por esses campos Do placido Mondego, n'estas margens A namorada Ignez veio assentar-se, E ausente de seu bem carpir saudosa, _Aos montes e ás hervinhas ensinando O nome que no peito escripto tinha!_ E quantas, quantas vezes no silencio D'esta grata soidão viste os amantes, Esquecidos do mundo e a sós felizes, Nos extasis da terra os céos gosando!

Pobre infeliz Ignez! breves passaram Os teus dias d'amor e de ventura. Ao regio moço o coração rendêras, E o que em todos é lei, em ti foi crime. Eis do barbaro pae, do rei severo, Se arma a dextra feroz, eil-o que aos sitios Onde habitava amor conduz a morte. Distante de teu bem, ao desamparo, Ai! não podéste conjurar-lhe as iras. Debalde aos pés d'Affonso lacrimosa Pediste compaixão; debalde em ancias Abraçando os filhinhos innocentes, Os filhos de seu filho, a natureza Invocaste e a piedade: a voz dos impios, Dos vis algozes, te abafou as queixas, E o cego rei te abandonou aos monstros. Eil-os a ti correndo, eil-os que surdos Aos ais, aos rogos que tremendo soltas, No palpitante seio crystallino, Que tanto amou, oh barbaros! os ferros, Os duros ferros com furor embebem. Prostrada, agonisante, os doces filhos Por derradeira vez unes ao peito, E de teu Pedro murmurando o nome, Aos innocentes abraçada expiras.

Inda, infeliz Ignez, inda saudosos Estes sitios que amavas te pranteiam. As aves do arvoredo, os echos, brizas, Parecem murmurar a infanda historia; Teu sangue tinge as pedras, e esta fonte, A fonte dos amores, dos teus amores, Como que em som queixoso inda repete Ás margens, e aos rochedos commovidos, Teu derradeiro, moribundo alento.

A UM THEATRO ACADEMICO

Abrindo sepulchros, rasgando mysterios, Quem mortos gelados levanta de pé? Quem varre co'as azas as cinzas d'imperios, E os vultos heroicos anima, quem é?

Quem tira do nada uma fórma divina? Quem finge uma imagem de negro terror? Quem ergue virtudes, e o crime fulmina? Quem risos excita, quem prantos de dôr?

--O genio do drama e o genio da scena!-- São elles que traçam, em véo d'illusões, D'amor, de ciume, de riso, e de pena O jogo travado, fallando ás paixões.

São elles unidos que em chamma inquieta Sentiu Gil Vicente na fronte escaldar? São elles que o bardo da terna Julieta, E a fronte de Talma vieram c'roar.

São elles, mancebos, que em nuvens de flôres A senda apontaram que afoitos seguis, De palmas e c'rôas, de magos fulgores, Mas senda d'espinhos; c'o genio condiz.

Em nobre fadiga, que os ocios despreza, D'acerbos estudos assim descançaes! Foi bello o designio, difficil a empreza: Quem logra nas artes repouso jámais?

Que importa? na lucta se provam alentos, Sómente na lucta se colhem laureis; Aos peitos ardentes, de gloria sedentos, Reluz a bonança por entre os parceis.

Ávante! e que o genio das artes potente O fogo das artes vos possa trazer! Que em scenas de prantos o pranto rebente, Que em scenas alegres se gose o prazer!

As artes e as letras nasceram amigas: Ás aras das duas incensos levae, E aos louros colhidos em sabias fadigas, Os louros do palco viçosos juntae!

N'UM ALBUM

Do soffrimento o archanjo lamentoso Sobre a face do mundo estende o braço: Um diadema offertava, e pavoroso: «Para o que mais soffreu!» gritou no espaço.

Eis logo immensa turba se atropella, Todos querem ganhar a prenda infausta; Mas nenhum dos que chegam por obtêl-a Mostrava a taça da amargura exhausta.

«Afastae-vos!» lhes brada o genio esquivo, «Nenhum tocou do soffrimento a meta: «Tu, só tu mereceste o premio altivo; «Ergue a fronte, corôa-te, poeta!»

VISÃO DO RESGATE

AO MEU AMIGO ALEXANDRE BRAGA

E eu achei-me assentado solitario Junto d'um grande mar triste e sombrio, Cujas ondas d'aspecto funerario, Se agitavam, qual trémulo sudario Sobre um cadaver macilento e frio.

E eu era triste! sepulchraes gemidos Me vinham d'essas ondas tormentosas; Seu fragor penetrava em meus ouvidos, Como o arfar de mil peitos opprimidos Em duros transes d'afflicções penosas.

E por cima na abobada do mundo Um véo de nuvens se estendia baço; Rebramava o trovão rouco e profundo, E o mar lhe respondia gemebundo, E a tristeza reinava em todo o espaço.

E um suor frio me escorreu na fronte, Como o orvalho na cruz d'um cemiterio; E de meus prantos desatou-se a fonte, E eu pedi ao Senhor que do horisonte Me tirasse esta nuvem de mysterio.

E o Senhor deu ouvidos a meu rogo, Pois vi descer a mim do firmamento Um facho ardente de celeste fogo, Que as trevas de meus olhos varreu logo, Qual varre as nuvens um tufão violento.

E eu vi tudo! esse mar de ondas sombrias Era um mar de nações que se agitava; E eu conheci que em leito d'agonias, Chorando em vão seus miserandos dias, Aquella multidão gemia escrava.

Alli o fraco de pavor transido Arrastava grilhões aos pés do forte; O perverso ostentava o rosto erguido, E o justo era qual pombo foragido Que nas garras do açor encontra a morte.

O mendigo nos atrios do opulento Pedia amparo, e maldições colhia; O filho do trabalho, sem alento, Comprava o escasso pão ao avarento A troco dos andrajos que despia.

E entre as garras da fome devorante O mancebo luctava enfraquecido, O velho desmaiava agonisante, E a mãe sem forças apertava o infante Ao peito como a urze resequido.

E um espectro medonho e ensanguentado Por entre aquelles povos divagava, Brandindo um ferro com medonho brado; E o chão que elle pisava era abysmado Como em torrentes d'incendida lava.

É que esses povos, como iradas feras, Ao seu brado feroz se levantavam; E a matança era tanta, que disseras Vêr um circo de hyenas e pantheras Que entre as garras crueis se espedaçavam.

E no meio de tudo em alto monte Se erguia um throno de rubins accesos, No qual um anjo, coroada a fronte, Dominava soberbo esse horisonte De povos algemados e indefesos.

E no semblante d'esse archanjo ardente O dedo do Senhor estava escripto; E eu pude lêr-lhe na sombria frente, Gravadas em caracter refulgente, As sinistras palavras:--_sê maldito!_

E outro archanjo de negras armaduras De joelhos aos pés se lhe inclinava; E, infausto mensageiro d'amarguras, Na sinistra empunhava algemas duras, Na dextra ferrea urna sustentava.

E offertando-lhe a urna com respeito, Lhe dizia com voz assustadora: «Anjo do mal que o homem tens sujeito, «N'este vaso de dôr recebe o preito «Das lagrimas crueis que o mundo chora.

«Eis o penhor fiel que a tyrannia «Por mim, seu anjo, te conduz ás plantas. «Os humanos resistem noite e dia, «Mas o laço do amor não concilia «As suas turbas, que feroz supplantas.

«Mal haja o Christo que o amor ensina! «Seu vil reinado succumbiu na terra. «Triumpha, anjo do mal, reina e domina, «E mil flagellos ás nações fulmina, «De crimes, divisões, de luto e guerra!»

E o archanjo brandindo o sceptro ardente Sorria com feroz perversidade: E ao longe murmurava um som fremente, Como o rugido d'um volcão latente, Ou a voz de longinqua tempestade.

E eu cedi ao vaivem de minhas mágoas, Como ao sôpro do vento a fragil hera, Té que uma voz, como a das grandes agoas, De minhas penas abrandando as frágoas, Me bradou aos ouvidos:--_crê e espera!_

* * * * *

E subito uma aurora Serena, refulgente, Das trevas do oriente Desfez os negros véos; Lavrou, como um incendio, Nas sombras horrorosas, E alfim cobriu de rosas A cupula dos céos.

E um astro despontando Na franja do horisonte, Alçou a meiga fronte Coberta d'aurea luz: Sobre elle campeando Cercada d'alta gloria, Promessa de victoria, Brilhava a eterna cruz.

E logo ardente nuvem, Relampagos soltando, Baixou do céo voando No carro dos trovões; Bem como de trombeta Soltava estranho accento, E prestes como o vento Rolou sobre as nações.

E n'ella a gloria immensa Do Deus que o mundo adora Brilhava como outr'ora No tôpo do Sinai; E o grito da trombeta Dizia em som de guerra: --Surgi, povos da terra, N'um só vos ajuntae!--

E o throno do mau anjo Tremeu nos fundamentos, E eu vi passar nos ventos O espirito de Deus; Seu brado erguia os povos, Bem como a tempestade Do mar na immensidade Levanta os escarcéos.

* * * * *

E as turbas procellosas remoinharam, Como as areias que o tufão agita; E alçando todas pavorosa grita, Com laços fraternaes se colligaram.

E emquanto erguiam seus pendões de guerra, Eis que as azas batendo nas alturas, Cingidos de brilhantes armaduras, Dous archanjos pairaram sobre a terra.

Cobriam-lhes as fórmas delicadas Escudos e couraças diamantinas, Aureos elmos as frontes peregrinas, Nas dextras empunhando igneas espadas.

E eu vi-os, como soes relampejantes, Adejarem velozes sobre a terra, Brandindo irados, em signal de guerra, As terriveis espadas flammejantes.

Té que chegando o instante do resgate, Fitando os povos que os olhavam mudos, Bateram co'as espadas nos escudos, Bradando ás multidões:--eia ao combate!

* * * * *

E os povos ao brado, Qual mar agitado Fervendo em cachões, Erguiam-se fortes Em densas cohortes, Em mil turbilhões; E á guerra corriam, E feros bramiam Quaes feros leões.

Corriam, chegaram, E o throno cercaram Do anjo do mal; Mas elle!--maldito!-- Das luctas o grito Soltára fatal; Na mão, qual espectro, Luzia-lhe um sceptro De lume infernal.

Com furia sombria, Da vil tyrannia Ao anjo acenou, E o prompto ministro Seu mando sinistro Fiel acceitou; E eis rapido logo As armas de fogo Medonhas tomou.

E enormes serpentes Vermelhas, ardentes, Soltou pelo chão; Das ferreas escamas Sahiam-lhes chammas De torvo clarão; Cada uma nos povos Saltava em corcovos D'horrenda visão.

Os povos, que as viam, Debalde investiam Seus gyros mortaes: Crueis lavaredas Abriam veredas Ás serpes fataes; E a turba d'exangue Cahia do sangue Nos rios caudaes.

Mas n'isto ligeiros Os anjos guerreiros, No ar inda então, Baixaram luzentes, Quaes astros cadentes, Á terrea mansão; E aos anjos malvados Correram irados Com voz de trovão.

E todos, alçadas As igneas espadas Brandiram a par; Cada uma semelha Luzente centelha Cruzando no ar; Semelha no embate A onda que bate Na rocha do mar.

Seus olhos vibravam, Seus gritos soavam Em echos d'horror; As turbas rugiam, As armas tiniam Com novo rancor; O carro da guerra Rolava na terra Com torvo fragor.

Até que um rebombo Soou, como tombo Ruidoso e fatal De penha que d'alto Desaba, e d'um salto Retumba no val: Era alto ruido Do throno abatido Do genio do mal.

E logo infinitos Ouvi ledos gritos, E ouvi maldições; E soltos aos ventos Vi centos e centos D'ovantes pendões; Vi feitos pedaços Algemas, e laços, E ferreos grilhões.

Vi thronos cahidos, Vi sceptros partidos Rolarem no pó; Vi aureos emblemas, Vi mil diademas Calcados sem dó; Vi povos diversos, Outr'ora dispersos, Unidos n'um só.

* * * * *

Vi a terra já livre d'anciedade Rasgar altiva seu funereo manto; Vi os homens á voz da liberdade Surgirem fortes do lethal quebranto.

Vi-os, tecendo fraternaes abraços, Sem odios, sem rancor, e sem vinganças Estreitarem d'amor serenos laços, Unidos em sublimes allianças.

E eu louvei o Senhor! já não reinava O anjo do mal co'a tyrannia fera: Seu throno demolido semelhava D'apagado volcão torva cratera.

* * * * *

Coberto de mantos de pura saphíra Que dia tão ledo brilhava sem véos! A estrella formosa que aos homens surgíra Reinava em triumpho no campo dos céos.

Seu facho divino cercado de rosas Vertia no mundo torrentes de luz, E o mundo coberto de galas formosas Saudava n'esse astro do Golgotha a cruz.

Dos valles, dos montes, da terra, e dos mares, Sahiam murmurios de paz e d'amor, Co'a voz dos humanos soando nos ares Em cantos infindos d'infindo louvor.

Batendo serenos as azas douradas, Os anjos formosos pairavam no céo, Qual nitido bando de pombas nevadas Cruzando os espaços n'um dia sem véo.

Nem elmos agora, nem malhas luzentes Cobriam dos anjos as fórmas gentis: De branco trajados, seus véos innocentes Ondeavam tremendo nas auras subtis.

Cahiam-lhes soltos os longos cabellos No collo, nos hombros d'alvura louçã, Seus rostos ornando, mais puros, mais bellos Que a estrella argentina da rosea manhã.

Traziam poisadas nas candidas frentes Grinaldas singelas de casta cecem, E as harpas eburneas tangiam cadentes, C'roadas de rosas e lirios tambem.

Um côro celeste voando em cardumes Seguia os archanjos com doces canções; E todos lançando na terra perfumes Assim descantavam por sobre as nações:

O ARCHANJO DO CHRISTIANISMO

Salve, dia que meigo fulguras Despontando no mundo sem véo! Salve, estrella d'amor e venturas Que resurges formosa no céo!

Pura e bella surgíras outr'ora, Densa nevoa cobriu tua luz; Pura e bella resurges agora, Vem reinar sobre os homens, ó cruz!

Vem remil-os da negra maldade, Vem na face do mundo luzir, Vem trazer-lhes a luz da verdade, Que o Messias lançou no porvir!

Era o anjo das trevas maldito, Quem do mundo regía as nações; Foi o Verbo, o Messias predicto, Que desceu a partir seus grilhões.

Novas crenças brotando dos labios Revelou em seu Pae um Deus só, E, caladas as vozes dos sabios, Falsos deuses cahiram no pó.

Viu as gentes sepultas no crime, E eis que armado d'augusta missão Deu lições de virtude sublime, D'innocencia, d'amor, e perdão.

Ensinou a brandura ao tyranno, Ao soberbo dos justos a lei; Ao avaro bradou:--sê humano! E ao perverso e ao impio:--tremei!

Deu ao fraco palavras de vida, Deu ao triste consolos na dôr, Deu a todos a esp'rança perdida D'outro reino de paz e d'amor.

E cumprindo do mundo a sentença No tormento da cruz expirou; Mas com sangue d'um Deus sua crença Sobre a terra gravada ficou.

Do Calvario, librado nas pennas, A mil povos com ella voei; Mil corôas teci d'açucenas, Com que tantos martyrios ornei.

Foi então... dá-me queixas, ó lyra, Dá-me notas de fundo pezar... Christo, ó Christo, a calumnia, a mentira, Ai! ousaram teu Verbo ultrajar.

Teus ministros, sem fé na verdade, Renegaram da sancta missão, E entregaram a lei da igualdade Aos tyrannos, á voz da ambição.

Logo o facho sangrento da guerra Accenderam com impio furor, E em teu nome cobriram a terra D'exterminio, de sangue, e d'horror.

D'ouro e sangue mantendo seus vicios Teus preceitos calcaram no pó; E mil scenas de horrendos supplicios Ostentaram ao mundo sem dó.

Então eu á celeste morada D'entre os homens voando subi, E a teus pés com a fronte curvada Largas eras, ó Christo, gemi.

Mas das trevas não pôde o combate Apagar o teu astro de luz: Aos captivos, signal do resgate, Eil-o surge brilhante na cruz.

Povos, povos, seccae vosso pranto! Levantae-vos do leito da dôr! Terra, entôa de novo o teu canto, Doce canto de paz e d'amor!

Da maldade, dos odios, da guerra, Para sempre o reinado morreu. Paz aos homens na face da terra! Gloria a Deus nas alturas do céo!

CÔRO DOS ANJOS

Hosanna! hosanna! signal de victoria, A cruz do resgate já brilha ás nações; Hosanna! e se eleva nos cantos de gloria Dos anjos, dos homens, de mil gerações!

O ARCHANJO DA LIBERDADE

Bem vindo sejas, bonançoso dia, Que ao mundo trazes a perdida luz! Bem vindo sejas! teu fulgor lhe envia No facho eterno que as nações conduz!

Assim de galas e esplendor vestida Á voz do Eterno a creação rompeu; E a liberdade se ligou á vida, No mar, na terra, na amplidão do céo.

--Vivei, sois livres, caminhae ávante!-- O Eterno disse, e me entregou a lei; Seu dedo a terra me apontou distante, E eu das alturas com prazer baixei.

E a lei dos mundos vim gravar na selva, No leão das brenhas, e no açor do ar, No cedro altivo, na modesta relva, Nas bravas ondas do revolto mar.

No ser humano, d'entre os mais acceito, Gravei mais fundo o universal condão, E d'entre as azas lhe verti no peito Viva centelha d'immortal clarão.

Então, qual fumo d'abrazado incenso, Voou da terra festival louvor; E a natureza, no seu gyro immenso, Pulsou de vida, liberdade e amor.

Mais ai! que o homem de seus dons celestes No altar dos vicios holocausto fez; Rasgou impuro da innocencia as vestes, Calcou tyranno seus irmãos aos pés.

Tomando o ferro de cruel verdugo Fartou com sangue mil crueis paixões; Impôz ao fraco seu tyranno jugo, E o fraco ás plantas lhe arrastou grilhões.

Então a terra suspendeu seus hymnos, A luz do dia se turvou no céo, E esta harpa triste, nos umbraes divinos, Aos pés do Eterno desde então gemeu.

De negras sombras se toldára o mundo, Mas eis que os tempos eram findos já; Eis que uma estrella de fulgor jucundo, Sorrindo á terra, alumiou Judá.

Em vão; só hoje triumphar devia Esse astro immenso de serena luz: Eis surge, eis surge do resgate o dia, Brilhando aos homens sobre a eterna cruz.

Povos, sois livres, enxugae o pranto! Do leito amargo do penar surgi! Terra, modúla teu festivo canto, Que o novo dia já reluz em ti!

D'um Deus o sangue resgatou a affronta: Quebrae a taça da agonia e dôr! Novo porvir ás gerações desponta De liberdade, de ventura e amor.

Eterna gloria ao que desceu á terra! Eterna gloria do universo ao Rei! Que o fraco exalta, que o soberbo aterra, Que impõe aos orbes e ás nações a lei!

CÔRO DOS ANJOS

Hosanna! hosanna! seu nome infinito Refulge de gloria, qual astro sem véo, Na luz da verdade, no Verbo predicto, No mar, nos abysmos, na terra, e no céo!

* * * * *

E subindo através do espaço immenso O côro--hosanna, hosanna--repetia, Entre nuvens d'azul, d'ouro, e d'incenso, E entre notas d'angelica harmonia.

Entanto eu com a face unida á terra Do novo dia o resplendor saudava, E sobre o campo da passada guerra Ao Senhor dos exercitos orava.

VERSÕES D'OSSIAN

AO SOL

(FRAGMENTO DO POEMA DE «CARTHON»)