Part 3
Ao throno augusto levantou a frente, Mas com as azas a toldou ancioso, Não podendo soster o brilho ardente Que despedia o fóco luminoso. A milicia dos anjos resplendente Fixou attenta seu irmão formoso; Os concertos pararam, e elle entanto Assim fallou entre o geral espanto:
«Eterno Ser, que as divinaes moradas «Enches de gloria em magestoso assento, «Fonte de vida e creações variadas, «Que dás ao mundo poderoso alento; «A cujo acêno tremem abaladas «As columnas do ethereo firmamento, «E cujo nome, que o universo entôa, «No céo, na terra, e nos abysmos sôa!
«Por teu mando supremo destinado «A conduzir a humana descendencia, «Desde que a mancha do cruel peccado «A fez cahir da primitiva essencia: «Venho a final, Senhor, de teu mandado «Dar-te conta fiel, apóz a ausencia; «Fazer-te ouvir da humanidade os prantos, «E aguardar teus preceitos sacrosanctos.
«Ordenaste-me, ó Deus, que sempre attento, «Proseguisse na terra a lei sob'rana «Que rege, na amplidão do firmamento, «A creação que de teu seio emana: «Essa lei de progresso e movimento «Tenho cumprido na familia humana, «Desde que ao mundo, a combater seu fado, «O desterrado do eden foi lançado.
«Primeiro, sobre a terra esclarecendo «Seus duvidosos passos vacillantes; «Depois, o justo e seu baixel sostendo, «Nas aguas do diluvio sussurrantes: «De novo á terra, de pavor tremendo, «Conduzindo mais puros habitantes; «Mais tarde, junto ao berço do Messias, «Annunciando ao mundo novos dias.
«Agora, sobre as ruinas d'um imperio «Outro imperio de novo edificando; «Agora, as povoações d'um hemispherio «Sobre as d'outro hemispherio derramando; «Já do teu Verbo o divinal mysterio, «Com as sanctas doutrinas, propagando; «Já mostrando por fim á humanidade «Nova luz de justiça, e de verdade.
«Quantos velhos sophismas desterrados! «Quantos idolos falsos em ruinas! «Quantos sabios triumphos alcançados! «Quantas conquistas immortaes, divinas! «Calcando o pó dos seculos passados, «O homem corre ao fim que lhe destinas; «Mas ah! Senhor, no meio da tormenta «Seu valor esmorece e desalenta.
«Seu valor esmorece! tantas lidas, «Tanto luctar continuo das idades, «Tanto sangue e martyrios, tantas vidas, «Tantas ruinas d'imperios e cidades: «E o homem soffre, e as gerações perdidas «Se revolvem n'um mar de tempestades, «Sem vêr luzir esse fanal jucundo «Que por teu Filho prometteste ao mundo.
«Quantos males ainda! a lei sublime, «A lei d'amor que derramou teu Verbo, «Sobre a face da terra, á voz do crime, «Succumbe e morre por destino acerbo, «O ferreo jugo que as nações opprime, «Os humildes abate, ergue o soberbo, «E o rei da terra, sobre a terra escravo, «Soffre mesquinho seu eterno aggravo.
«Por toda a parte, em lastimoso accento, «Se ouve gemer a humanidade afflicta. «A terra, a mãe commum, nega alimento «Dos filhos seus á multidão proscripta: «Emquanto folga em vicios o opulento «A indigencia cruel na choça habita, «E a mãe, a mãe ao peito, em desalinho, «Aperta morto á fome o seu filhinho.
«Entanto a guerra, que a ambição ateia, «Ensanguenta as campinas e as cidades; «A crua peste, que ninguem refreia, «Converte as povoações em soledades; «D'estes males crueis a terra cheia, «Cobre-se inda de mil iniquidades; «O vicio, o crime, a corrupção devora «A pobre humanidade, como outr'ora.
«Ao vêr tanta miseria, o bom padece, «O mau blasphema de teu nome sancto, «A voz dos inspirados esmorece, «O futuro se envolve em negro manto... «Eu mesmo, eu mesmo, recolhendo a prece «Que a humanidade te dirige em pranto, «Subi confuso ao eternal assento, «A depôr a teus pés meu desalento.»
Disse, e um gemido d'afflicção pungente, Semelhante a dulcisona harmonia, Soltou do peito, reclinando a frente Com celeste e ideal melancholia: Assim pendendo ao longe no occidente, Se reclina saudoso o astro do dia; Assim reclina a pallida açucena, Açoitada do vento, a fronte amena.
Depois continuando: «ó Deus, quem ha de «Sondar mysterios que teu seio esconde! «Tuas leis divinaes, tua vontade «Cumprirei sobre a terra. Eia responde: «Os passos da mesquinha humanidade «Aonde os levarei, Senhor, aonde?» Uma voz retumbou no céo radiante, Que ao anjo respondeu, dizendo:--ÁVANTE!
PARTIDA
Ai, adeus! acabaram-se os dias Que ditoso vivi a teu lado; Sôa a hora, o momento fadado; É forçoso deixar-te e partir. Quão formosos, quão breves que foram Esses dias d'amor e ventura! E quão cheios de longa amargura Os da ausencia vão ser no porvir!
Olha em roda estas margens virentes: Já o outomno lhes despe os encantos; Cedo o inverno com gelidos mantos Baixará das montanhas d'além. Tudo triste, sombrio, e gelado, Ficará sem verdura nem flôres: Tal meu seio, privado d'amores, Ficará de ti longe tambem.
Não sei mesmo, não sei se o destino Me dará que eu te abrace na volta... Ai! quem sabe onde a vaga revolta Levará meu perdido baixel? Sobre as ondas, sem norte, e sem rumo, Açoitado por ventos funestos, Sumirá por ventura seus restos Nas voragens d'ignoto parcel.
Mas ah! longe esta ideia sombria! Longe, longe o cruel desalento! Apóz dias d'amargo tormento Virão dias mais bellos talvez. Dá-me ainda um sorriso em teus labios, Uma esp'rança que esta alma alimente, E na volta da quadra florente Eu co'as flôres virei outra vez.
Mas se as flôres dos campos voltarem Sem que eu volte co'as flôres da vida, Chora aquelle que em tumba esquecida Dorme ao longe seu longo dormir; E cada anno que o sôpro do outomno Desfolhar a verdura do olmeiro, Lembra-te inda do adeus derradeiro, D'este adeus que te disse ao partir!
CANTO DE PRIMAVERA
Eis surge a quadra flórida, A quadra dos amores, Vertendo almos fulgores De seio juvenil. Tudo revive ao hálito Que a natureza aquece; Tudo rejuvenesce Á luz do ameno abril.
Os bosques odoriferos Se cobrem de verduras: Nos montes e planuras Renasce a tenra flôr; Dos perfumados zephyros Ás musicas suaves Se juntam das mil aves Os canticos d'amor.
Salvè, estação esplendida, Ó luz appetecida, Que á terra dando vida, A tudo dás prazer! Minha alma em doces extasis Festeja a tua vinda, E se ergue á luz infinda, Manancial do ser.
D'onde, ó calor benefico, Derivas teu alento? E d'onde o movimento Que dás á creação? Do fóco sempre vívido Que anima a natureza Por toda a redondeza Da terra, e da amplidão.
Como nos campos fulgidos Espalha essas estrellas, Assim as flôres bellas Nos campos terreaes: Quão bello, ó Providencia, É teu poder fecundo, Enchendo o vasto mundo D'alentos immortaes!
Debalde o immenso vortice Retoma quanto gera: Tudo se regenera No perennal crisol, E tudo canta harmonico O Ser que, das alturas, Aos gêlos dá verduras, Ás sombras novo sol.
Cantae, ó aves módulas, Cantae em côro ledo! Murmurios do arvoredo, Cantae a Jehovah! Campinas aromaticas, Erguei-lhe os mil perfumes Das flôres em cardumes Que a primavera dá!
Abriu-se o tabernaculo Da terra florescente; Todo sorri fulgente, Todo respira amor: Resoem n'elle os canticos De mystica harmonia, Dizendo noite e dia: --Hosanna ao Creador!
CATÃO
Como em tarde anuviada, Em tarde de negros véos, Para a terra contristada Sorri o iris nos céos; Mas quando o sol esmorece, O iris desapparece, Tudo é negra escuridão; O mar ruge e se encapella, E nas azas da procella Corre bramindo o trovão:
Tal ao sol da liberdade Que sobre Roma luziu, Qual iris em tempestade, Catão á patria sorriu. Mas esse astro que fulgente Das aguias brilhára á frente, Do Capitolio baixou; E elle, o iris de bonança, Elle, de Roma a esperança, Com seu fulgor expirou.
Contra as iras da tormenta, Ó forte, luctaste em vão: Que póde a virtude isenta Contra a geral corrupção? Já não luziam virtudes Como nos seculos rudes D'essa Roma consular; O templo da tyrannia A seus ministros abria As portas de par em par.
Inda infante, viste Mario De Roma o sangue beber; E envolvida n'um sudario A pobre Italia gemer. Viste Sylla, o monstro infando, Entre as cabeças folgando, Qual tigre no seu festim; E, infante, bradaste ufano: --Dae-me um ferro, e do tyranno Livremos a patria emfim!--
Não t'o deram: que lucrava O teu valor juvenil? D'um tyranno outro brotava, Nascia a guerra civil. Enxuto de Roma o pranto, Eis que envolto em negro manto Lá surge um conspirador: Scintilla a morte, a ruina No punhal de Catilina, De Catilina, o traidor.
Surge, vibora gerada Dos vicios no lodaçal! Sobre Roma descuidada Lança o veneno fatal! Eia, empunha o facho ardente! Entrega a patria innocente Aos punhaes da tua grei! E entre o sangue, á luz do incendio, N'um throno de vilipendio Vem sentar-te como rei!
Mas treme! lá sôa o brado De Marco Tullio, orador. Treme! Catão no senado Já dos teus vence o furor. Succumbiste, algoz ferino! Oh! mas vinga-te o destino Que Roma jurou perder. Catão, cobre-te de luto, Que da Gallia já escuto A guerra civil descer!
Gerou-a o triumvirato, Esse monstro d'ambição; Que as eras de Cincinnato, Essas eras já lá vão. D'olhos fitos sobre a Italia Eis desce o leão de Gallia, E Arimino já tomou. É Cezar! eil-o que assoma: Abre-lhe as portas, ó Roma, Que ás tuas portas chegou!
Eil-o parte, e já na Hespanha, Os tres legados venceu! Só em Dyrrachio lhe ganha A espada do grão Pompeu. Os mortos jazem aos centos: Sobre os seus restos sangrentos Um homem chora: é Catão. É elle que alli deplora Essa guerra assoladora, Guerra d'irmão contra irmão.
A liberdade expirava: O coração lh'o prediz. Roma, a livre, Roma escrava Ia dobrar a cerviz. Não se enganou: lá troveja O fragor d'alta peleja Em Pharsalia inda uma vez; Pompeu vacilla e fraqueia; A liberdade baqueia De Julio Cezar aos pés.
Eil-a que expira, eil-a morta... Oh que não! resurge além! Catão é vivo: que importa Quanto Cezar ganho tem? De Pharsalia aos naufragantes Sobre as areias distantes Da Lybia surge um fanal: São d'elle, d'elle as bandeiras Juntando as rotas fileiras Para um combate final.
Mas Cezar lá corre ovante, Vence Juba e Scipião; Tudo ante elle vacillante Se prostra emfim: maldição! Não tarda a hora funesta: De liberdade só resta Dentro d'Utica um fulgor. Inda Catão lá impera: É lá que o vencido espera As iras do vencedor.
Que venha, que ao seu aceno Curvado não ha de vêr Aquelle rosto sereno, Que nunca soube tremer. Caminha, Cezar altivo, E acharás em teu captivo, Em vez de preito, o desdem! Sabes vencer, porém corre, Vem saber como se morre, Aprende a morrer tambem!
Catão, Catão, eis chegado O momento de partir! Com que rosto socegado Te vejo á morte sorrir! Antes do golpe supremo Tu paras inda no extremo A meditar com Platão: Assim a aguia alterosa D'alta penha cavernosa Mede sublime a amplidão.
E depois assim como ella, Das nuvens rompendo o véo, Adeja sobre a procella, Deixa a terra, e busca o céo: Tal co'a dextra sempre ousada Cravando no seio a espada, Partiste d'alma os grilhões; E d'entre os vaivens da sorte Voaste, calcando a morte, Ás ethereas regiões.
Cezar vence, e ao Capitolio Lá sobe triumphador; Roma cahe do altivo solio, Rojando aos pés d'um senhor. Catão, o livre, expirára... No suspiro que exhalára A liberdade voou. Começava o negro imperio Que um Caligula, um Tiberio, Um Nero, monstro, gerou.
Elle entanto, sepultado Nas praias junto do mar, Lá dormia descançado Sob a lagea tumular. Alli a queixosa vaga Vinha, rolando na plaga, Beijar do livre a mansão; E inda fallar com saudade, Da patria, da liberdade, Á estatua de Catão.
IMITAÇÃO DO ISLANDEZ
Um dia eu te dizia:--se roubada Me fôres, vem buscar-me--e tu não crias Que eu podésse abraçar-te inanimada, Beijar teus olhos, tuas mãos já frias.
Mas eu não te amaria, se inconstante Te podésse esquecer na sepultura; Desbotou-se o frescor de teu semblante, Mas inda adoro tua imagem pura.
Apagou-se em teus labios o ar da vida, Mas um sôpro immortal veio animar-te; E tu inda és formosa, inda és querida Ao que na terra começou a amar-te.
Não me deixes em misero abandono; Escuta ao longe, escuta a minha prece: Quando uma noite a viração do outomno Gemer em nossas rochas, apparece!
E se a lua brilhar, se de passagem Me estenderes a mão d'etherea alvura, Eu surgirei por vêr a tua imagem, Por ouvir tua voz serena e pura.
Depois, anjo celeste, no meu seio Repousa a fronte, aperta-me em teus braços; Deixa que eu te acompanhe sem receio, D'esta existencia desatando os laços.
Sobre a aurora do polo arrebatados Vamos, no seio d'immortaes venturas, Em nuvens d'ouro e purpura embalados, Cantar, sonhar, dormir n'essas alturas.
Á MORTE
DO MEU AMIGO LICINIO F. C. DE CARVALHO
Morreste, amigo, partiste D'esta mansão passageira! Bem depressa da carreira Tocaste a méta fatal! Com a folhagem dos bosques Gelou-te o vento do outomno, E dormes o longo somno Do teu leito sepulchral!
Já tua mão extremosa Não aperta a mão do amigo Que tantas vezes comtigo Em sonhos vãos delirou. No seio da fria terra Já não me escutas nem fallas, Contando lutos ou galas Do teu viver que passou.
Oh! quantas vezes, immersos N'esses intimos enleios, Que fazem um de dous seios, Sentimos horas fugir! Quantas, sonhando horisontes De poesia, amor, ou gloria, N'uma expansão transitoria Creamos longo porvir!
E morto jazes, ai! morto, Sem poder de teus anhelos Realisar os sonhos bellos, Cruzar a vasta amplidão?! Morto sem ter dito ao mundo A palavra augusta e sancta Que a turba anciosa espanta, E que é do genio o condão?!
Morto á luz da tua aurora Sem que á luz da tua sesta Podésses, na hora funesta, Sorrir ao passado teu?! Morto, ai, morto sem ter ganho Mais lagrimas de saudade, Tão doces á soledade D'aquelle que já morreu?!
Deus! se a vida é campo ameno Onde se vem colher flôres, Porque, do sol aos fulgores, Não se hão de as flôres colher? Se é deserto ingrato e rude, Onde não brota uma fonte, Porque ha de em nosso horisonte A luz do dia nascer?
Mas dorme, descança, amigo, Que a vida é o deserto ás vezes... Estrada de mil revezes, E de voragens fataes... E que é o poeta? o viajante Que fere os pés nos abrolhos, Em quanto levanta os olhos Ás regiões divinaes.
Ave estrangeira que passa N'este clima procelloso, Com seu canto mavioso Levando as turbas d'apóz; Mas que chora de saudade Por sua patria querida, Té que a final abatida Cahe sem alento, e sem voz.
Descança! no frio leito De teu eterno repouso, Não te irá o sol formoso Cada manhã despertar; Mas tambem, da aurora á noite, Não calcarás os espinhos Que em teus agrestes caminhos Verias da flôr a par.
Lá não irão festejar-te Ruidosos echos do mundo, Que dizem, no som profundo, Qual é do genio o poder; Mas tambem tuas corôas Não regarás com teu pranto, Nem a inveja em negro manto Tua estrella ha de envolver.
Descança! que digo! surge! Ergue-te á luz, ó poeta, E revôa aonde inquieta Te levava a inspiração! Sonhaste mundos brilhantes, Sonhaste amor e poesia: No paiz do eterno dia Vae colher teu galardão!
Vae! das plagas do desterro Eis-te a final resgatado: Procura regenerado A patria que te sorri! Lá terás as harmonias Que soltam milhões d'espheras, E florentes primaveras Quaes não terias aqui.
Lá gosa! lá, sacudido Sobre a terra o terreo manto, Desprende teu novo canto De novos soes ao fulgor! E, se lá póde chegar-te Esta nota de saudade, Escuta a voz da amizade Entre os mil hymnos do amor!
O MENDIGO
Nas torres soberbas da grande cidade O sol desmaiado não tarda a morrer; Recrescem as sombras: que importa? a vaidade No manto das sombras envolve o prazer.
E o velho entretanto lá sóbe a montanha, Caminha, caminha, no cimo parou: Em frigidas gottas o rosto lhe banha Suor copioso, que á terra baixou.
Quiz, antes da morte, nas serras distantes Fitar inda os olhos cançados da luz; A aldeia da infancia saudar por instantes, Depois satisfeito depôr sua cruz.
Olhou, e um suspiro de vaga saudade Juntou a seus prantos em funda mudez; Depois, ao volver-se, topando a cidade, Que em ebrio tumulto folgava a seus pés:
«Mal hajas, cidade, que ao pobre faminto «O pão da desgraça negaste cruel! «Mal hajas, mal hajas, que a terra do extincto «Talvez lhe negáras, á tumba infiel!»
E exhausto, e sem forças, cahiu de joelhos; E a fronte cançada firmou no bordão: Passados instantes, os olhos vermelhos Ao céo levantava, dizendo: perdão!
Cahiam-lhe soltas no collo vergado As longas madeixas em brancos anneis: Que nobre semblante de rugas sulcado, Sulcado dos annos, e mágoas crueis!
«Perdão para as vozes que solta a desgraça! «Perdão para o triste, perdão, ó meu Deus! «Bem hajas, que aos labios lhe roubas a taça «De fel e amarguras, abrindo-lhe os céos.
«Já filhos não tenho, levou-m'os a guerra; «Esposa não tenho, finou-se de dôr; «Amigos não vejo na face da terra: «Que faço eu no mundo? bem hajas, Senhor!
«Ás portas do rico bati sem alento, «Eu rico n'outr'ora, mendigo por fim: «O rico sem alma negou-me o sustento, «Aquelles que amava fugiram de mim.
«Vaguei pelo mundo, nas faces myrrhadas «Colhendo os insultos que ao pobre se dão; «Sem pão, sem abrigo, por noites geladas «Poisei minha fronte nas lageas do chão.
«Que vezes a morte chamei sem alento, «Cançado dos annos, e fomes, e dôr! «A morte não veio: soffri meu tormento... «Só hoje me ouviste: bem hajas, Senhor!
«Os homens e o mundo negaram-me os braços, «Mas tu me recolhes, tu me abres os teus... «Minha alma te busca, desprende-a dos laços... «Perdão para todos, perdão, ó meu Deus!»
E um ai derradeiro soltou d'anciedade, Cahindo por terra nas urzes do chão; Ao longe, no seio da grande cidade, Brilhava das festas nocturno clarão.
A VIDA
A MEU IRMÃO
Que! luctar sempre em afanosa guerra Contra os rigores d'um feroz destino! A cada passo lacerar as plantas N'esta agra senda que nomeiam vida! Correr apóz um sonho, uma esperança Que leda nos sorria, e vêl-a ao cabo Sumir-se, desfazer-se como o fumo! Ou, se tocamos o vedado pomo, Arrojal-o de nós, murcho e vasio! Alcançar por um bem, mil dissabores! Por uma hora de gôso, mil de prantos! Soffrer, sempre soffrer, não vir um dia Em que possamos exclamar: ventura! E é este o calix de aprazivel nectar Que ao banquete do mundo nos convida? É este o eden que nos prende os olhos, E nos faz recuar ante o sepulchro?
Nascemos: com que pena á luz do dia Surgimos logo do materno seio! Filhos da dôr, obedecendo á origem, Nos vagidos da infancia a annunciamos; E ainda assim, no deslizar sereno Dos dias infantis, a vida encanta; A taça da existencia tem doçura, Como se o mel lhe coroasse a borda Para mais facil nos tentar os labios. O horisonte dos annos se dilata; Vem a idade do amor. Que bellos sonhos Em magico painel a vista illudem! Um ser, que a mente em chammas divinisa, Nosso oásis feliz anima todo, Bem como o sol anima a natureza, Ou a rosa do valle os floreos prados. Mas quantos podem na manhã da vida Colher a rosa de seu mago enlevo? Quantos a estrella que adoraram crentes Sentem passar, e desfazer-se em breve, Não luzeiro do céo, porém da terra, Meteóro fugaz que baixa ao solo, E se dissipa redobrando a noite!
As illusões do amor se desvanecem: D'esse mundo feliz o homem baqueia E devorando a mágoa segue ávante. Prometheu afanoso, eil-o procura Dar alma e vida ás creações que inventa, Ai! já não bellas, mas de impura argilla. Honras, gloria, poder, bens de fortuna, Sciencia austera, festivaes prazeres, A tudo se abalança, aspira a tudo, E em tudo encontra desenganos sempre. Ao ponto que fitára jámais chega, Ou, se o alcança, não lhe dura o gôso.
Ai do que envolto em miserandas faxas, Embalada sentiu a pobre infancia C'os gemidos da fome! Esse á ventura Quasi nem ousa levantar os olhos: Perpetuo desalento lh'os abate Á triste condição em que nascêra. Planta gerada n'um terreno esteril, Não se ergue altiva, não estende os ramos, Vive entre espinhos, e entre espinhos morre. Em vão se cança o triste: raras vezes A dura terra lhe concede o premio Do suor e das lagrimas que verte No seio ingrato d'essa mãe ferina. Um pão acerbo que amassou com pranto, É o alimento que reparte aos filhos; E o marco do caminho a cabeceira Onde desprende o moribundo alento. Ai d'elle! mas não menos desditoso O que em purpuras e ouro vendo o dia, Ou conduzido pela mão da sorte, Chegou aos cumes que a fortuna habita;
E, na posse dos bens que o mundo anceia, Palpou tremendo seu medonho nada. Este, empunhando o sceptro, empallidece Sentindo ás plantas vacillar-lhe o solio; No fastigio da gloria aquelle geme, Ao vêr o louro que lhe cinge a frente Pelo bafo da inveja emmurchecido. Um as honras consegue, e as vê sem preço; Outro as riquezas, e lamenta os dias Que mais bellos perdeu em seu alcance. Qual, a sciencia devassando ousado, Apóz longas vigilias estremece Da dúvida ante o espectro; qual ardente Das festas no rumor despende a vida, E a taça do prazer lhe deixa o enfado.
Feliz aquelle que em modesta lida, Isento da ambição e da miseria, No regaço do amor e da virtude A vida passa. Mais feliz ainda Se, das turbas ruidosas afastado, Á sombra do carvalho, entre os que adora, Sente a existencia deslizar tranquilla, Como as aguas serenas do ribeiro Que as herdades pacificas lhe banha. Mas, que digo! nem esse. Infindos males, Communs a todos, seu viver não poupam. D'um lado a crua guerra lhe sacode O facho assolador ás brandas messes;
A pallida doença, d'outro lado, Dos entes que mais ama o vae privando; E elle mesmo talvez, infausta prêsa D'essa serpente que nos liga á morte, Nos eculeos da dôr a vida exhaure. E, como se estes males não bastaram, Sua mesma virtude lhe é supplicio. Compassivo co'a dôr que os outros soffrem, A dôr alheia o atormenta ainda. Justo, adora a justiça; e, olhando em torno, A injustiça e oppressão verá reinando; Verá a innocencia victima do crime, A virtude humilhada, o vicio altivo, Os prantos da miseria escarnecidos, Por toda a parte o mal, a dôr, e as queixas. Ai d'elle, ai d'elle, se um momento pára Na atroz contemplação de tantos males! Ai d'elle, que turbado e confundido, Em maldições blasphemará terrivel Da virtude, de si, de Deus, de tudo!
Não! da vida no pélago agitado Um abrigo não ha, não ha um porto Onde possamos descançar tranquillos. Em nós, dentro em nós mesmos, ruge irada A tempestade que evitar queremos. Como a serpente no crystal da lympha, Na alma serena o soffrimento mora; Não póde o gôso dos mais bellos dias Encher o abysmo que no seio temos. Em vão, em vão anciamos a ventura: Somos na terra qual viajante exhausto Que ouve o sussurro d'escondida fonte, E morre á sêde, sem poder tocal-a.
Vida, tremenda herança d'amarguras, Eu te hei sondado nos meus proprios males, E em meus irmãos na dôr, nos homens todos: Grilhão pesado que nos dá o berço, E que depômos nos umbraes da tumba. A lucta, a mágoa, eis os teus dons funestos. Mas d'onde a causa do soffrer eterno Que as gerações ás gerações transmittem? Que um seculo, tombando de cansaço, Como um pêso importuno lega ao outro? D'onde o crime feroz que um tal castigo Sobre nós attrahiu? Se um deus é justo, Que deus, que lei, sem escutar-nos, pôde A sentença lavrar? Silencio é tudo! Em vão, para sabêl-o, em vão mil vezes Interroguei confuso o céo e a terra: O céo de bronze não me ouviu a prece, A terra obscura não me soube o enigma. Dos prophetas na voz, na voz dos sabios, A dúvida cruel achei sómente. Pedindo á morte a solução da vida, Desci ás tumbas, apalpei as cinzas; Quiz vêr se um echo da gelada campa Surgia á minha voz; mas foi debalde. Frias ossadas, carcomidos restos De quem soffreu tambem, só me disseram Que tudo acaba alli. A terra, a terra, O seio impuro dos famintos vermes: Eis o refugio, a habitação amiga Que apóz a lucta nos espera ao cabo!
Morte, morte, bem vinda sejas sempre! Em nome da existencia eu te saúdo! Tu reinas pela dôr na especie humana, E, quem sabe? talvez n'esse universo; O sol, o mesmo sol envolto em sombras, Parece reflectir-te as negras azas; E acaso á tua voz, a cada instante, Um comêta voraz fulmina um globo. Porque inda tardas a empunhar o sceptro Que n'este ao menos te pertence ha muito? Ao desterrado do eden porque deixas O resto de poder que inda te usurpa? Eia, desprende sobre a terra as azas, Sobre esta creação que abandonada Talvez por seu author como imperfeita, Qual nau perdida em tormentosos mares, Vaga sem rumo n'esse espaço ethereo!