Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa
Part 9
==Ainda existem restos do palacio do senhorio d’esta villa, o conde da Ericeira: pela parte superior de algumas janellas veem-se pedras com um leão esculpido. Estas paredes a que o povo chama o Paço, são dignas de veneração por terem servido de residencia, e quem sabe se de academia, ao nosso douto escriptor D. Francisco de Menezes.
==A meia legua ao nascente d’esta villa está aberta uma mina de barro branco no sitio chamado a Avesseira, que já tem sido explorada por conta das fabricas de louça das Janellas Verdes e Vista Alegre (Actualmente os finissimos barros dos arredores da Ericeira, que eu saiba, são explorados muito rudimentarmente pelos louceiros da Sobreira, Lapa da Serra, etc., que fabricam a louça chamada de Mafra).
==Tambem por este mesmo sitio é situado o chamado _Pinhal dos frades_, por ter pertencido ao convento de Mafra.
==É uma importante propriedade nacional assim pelo numero como pela bondade e prestimo das arvores, que excedem em diametro e altura as de todos os outros pinhaes circumvisinhos.==Agora o _Pinhal dos frades_ não tem um só pinheiro fradesco; tudo foi reduzido a lenha; é todo novo o pinhal; e que bom seria alarga-lo porque daria aos arredores da Ericeira um encanto a mais, principalmente agora que tanto se louva o _ar do pinhal_. Esses novos pinhaes que eu percorri seguindo a estrada de Mafra, e no lindo caminho para a quinta dos Chãos e Santo Isidóro, são viçosos, e recebem em primeira mão a viração pura do mar; dá prazer respirar no ar do pinhal!
Achei muito curiosa esta noticia da Ericeira, em 1844! Ora vejam como isto muda; o _forte_ está em grande parte destruido, a _escarpa_ tem falhado em muitas partes, desappareceram as _navegações longinquas_, diminuiu a _pescaria_ em muito, e o _pinhal dos frades_ perdeu as arvores venerandas.
O rei da Ericeira
Vou transcrever do _Portugal cuidadoso e lastimado_ do padre José Pereira Bayão (paginas 732-734), a narrativa do caso estranho do rei da Ericeira; um dos varios episodios da nevrose, naturalissima, que assaltou o povo portuguez nos primeiros annos da dominação hespanhola. Este, a meu ver, é dos que melhor representa o estado ancioso e tumultuario das almas; ha n’elle o mysticismo, o vago anceio, o estonteamento no começo, inconsciente, ingenuo; depois a exploração d’esses sentimentos pelo espirito patriotico, e pela influencia do meio, que leva a incidentes comicos, á desordem, á loucura sinistra, ao crime; logo, naturalmente, á intervenção da politica dominante, á força, até ao final do morticinio em massa, e do supplicio tremendo.
==Succedeu isto no anno de 1584, no mez de julho, e podendo servir de exemplo (refere-se ao caso do rei de Penamacor) para emenda de outros taes atrevimentos, foi ao contrario; pois logo no anno seguinte se viu outro ainda mais estravagante pelos mesmos termos, fingindo-se ser el-rei D. Sebastião, um moço chamado Matheus Alvares, natural da ilha Terceira, filho de um pedreiro, o qual saindo-se do noviciado dos frades arrabidos do mosteiro de S. Miguel junto á villa de Obidos, se fez tambem hermitão em uma ermida de S. Julião, junto á villa da Ericeira. Aqui fazia uma vida ao parecer mui penitente, e se introduziu a ser rei antes que ninguem o imaginasse; disciplinava-se fortemente onde pudesse ser ouvido, e dizia com triste lamentação: _Portugal, Portugal, que é feito de ti, que eu te puz no estado em que estás, oh! triste de ti Sebastião, que toda a penitencia é pouca em respeito de tuas culpas_. Começaram alguns a crer, que elle era el-rei; e entre elles um lavrador rico chamado Pedro Affonso; juntaram-se até oitocentos homens, de que se fez general, accrescentando ao seu nome o apellido de Menezes; poz o fingido Rei Casa Real, e fortificou-se, casando-se com uma filha do dito Pedro Affonso, moça bem parecida, coroando-a como Rainha, com uma corôa de prata de uma imagem de Nossa Senhora, fazendo marquez de Torres Vedras a seu pae, e conde de Monsanto, Senhor de Cascaes, e alcaide mór de Lisboa.
E assim fazia outras mercês, passando provisões e alvarás com solemnidade de sellos reaes, occultando-se sempre, e mostrando-se a mui poucos por grande favor, aos quaes contava algumas particularidades da batalha, para os ter mais seguros n’esta presumpção, e mandando recado a D. Diogo de Sousa, general da armada, que lhe fosse fallar; tanto que soube, que elle perguntára ao mensageiro pelo signal, que lhe déra, receando-se que se descobrisse o engano, ou por outra alguma razão, que não consta, lhe tornou a mandar dizer, que não fosse; e comtudo indo lá, lhe não quiz fallar, dizendo, que o fazia assim porque não ia só.
Escreveu depois ao cardeal Alberto, que lhe desoccupasse o seu paço, e se fosse embora para Castella: porque já era tempo de que abrissem os olhos tantos enganados.
Foi preso o embaixador; e soltando-o logo cobrou mais forças a opinião de ser elle el-rei, por onde, o que assim se fingia se foi ensoberbecendo, e fazendo alguns graves castigos em todos aquelles, que o não queriam reconhecer, e lhe negavam a obediencia, sendo executor o marquez, seu sogro, que era homem cruelissimo, e deshumano; e agora muito mais com a vangloria dos titulos que lhe foram dados, e considerar-se sogro de el-rei.
Vendo o Cardeal Governador que se devia atalhar tão grande desordem antes que passasse a mais, deu ordem ao corregedor de Torres Vedras para que os fosse prender, e querendo-o executar foi morto arrebatadamente com os seus officiaes por aquella gente, que os seguia: e sendo isto reprehendido por Gaspar Pereira, ouvidor d’aquella comarca, o mataram tambem; e a um filho, e a um sobrinho; saqueando-lhe a casa como em guerra justa; passando já n’este tempo de mil a gente asoldada que o seguia: vindo todos a comprar polvora e bala á cidade, diziam publicamente, que era para acompanhar a el-rei D. Sebastião.
Pelo que, e porque não crescesse mais o damno, e insolencia, foi necessario acudir com mais forte remedio. Deu-se ordem ao corregedor da côrte, e se mandáram ajuntar todos os ministros da justiça com os seus officiaes, e com quatrocentos soldados castelhanos bem armados, foram fazer a diligencia; e chegando perto do couto do novo rei, ficaram os soldados embuscados em um valle, indo a justiça adiante, e sendo descoberta pela guarda, arremeteram a elles como lobos.
Fugiu a justiça com muita pressa até os irem metter na embuscada, donde saindo com furia lhe deram uma carga de tiros com que mataram e feriram a muitos dos fautores do rei, fazendo fugir aos outros pelos montes e valles; foi preso o rei, e alguns do seu conselho, e trazido a Lisboa fez confissão, de que não era el-rei, nem pretendia sel-o, e que só intentava dar sobre Lisboa com as armas dos seus seguidores, na madrugada do dia de S. João, e vencida ella, como esperava, pertendia dizer ao reino que já o havia posto em liberdade para que fizessem rei. Foi enforcado em 14 de junho do dito anno, cortando-lhe primeiro a mão direita no Pelourinho, onde ficou pendurada, por passar provisões e alvarás falsos, fingindo-se el-rei D. Sebastião; a cabeça esteve um mez pregada na forca, e os quartos foram postos pelas portas da cidade; e no dia seguinte enforcaram e esquartejaram os outros, que foram presos com elle, um que fazia o officio de védor, que seria de quarenta annos, e outro que era pagem privado, que seria de edade de vinte annos.
Na Ericeira foram enforcados vinte homens que eram deste bando, muitos foram lançados a galés; e Pedro Affonso, marquez e conde general, e secretario do triste rei, fugiu no dia da prisão dos mais; mas pouco depois foi preso, fazendo-lhe em Lisboa o mesmo, que tinha feito ao seu soberano, e os pobres moradores d’aquelle contorno despovoaram a terra com medo, por terem seguido a voz do rei enganoso. Foram tambem presos e castigados muitos, que enganados o favoreciam de Lisboa, e lhe mandavam dinheiro, e peças de valor, como foram Antonio Simões, escrivão dos armazens, e Gregorio de Barros, ourives d’el-rei, pagando miseravelmente o zelo, com que cuidavam servir ao seu rei.
Parece que foi o intento de mandar chamar D. Diogo de Sousa, saber delle se era certo, como se dizia, que el-rei veiu na armada, porque sendo assim, e sabendo delle onde estava, e se estava prompto para entrar a governar, ajustariam ambos a fórma de occupar Lisboa e desoccupal-a dos castelhanos com aquella sua gente, e entregal-a ao dito rei, com o que ficava restituido ao seu reino, e aquelles servidores seriam bem gratificados por elle e agradecidos de todo o reino. Isto se colhe da sua confissão, e outra cousa se não deve imaginar, pelos descaminhos ou impossibilidades, a que se expunha por todas as vias; o que qualquer mediano entendimento conheceria mui bem.==
Antiguidades romanas e medievaes
Na Ericeira e seus arredores não vi antiguidades romanas; nem um signal, nenhuma pedra empregada em muro velho que denunciasse lavor de alta antiguidade; o trabalho agricola tem sido grande, o mar sabe Deus quantas escarpas tem demolido, elle que todos os dias está destruindo e abatendo os rochedos da costa. Mas n’um aro de raio de seis a dez kilometros surgem vestigios notaveis. As inscripções lapidares romanas são conhecidas; a região a norte de Cintra e Collares é rica de taes letreiros. Antiguidades pre-romanas são sabidas tambem. Não podemos esquecer o collar da Penha Verde, a grande joia prehistorica (que hoje está ennobrecendo, ao que me dizem, um muzeu inglez), o famoso dolmen de André Nunes ou Adrenunes, monumentos que provam a existencia por estes sitios de antiquissima civilisação pre-romana. Estacio da Veiga estudou as antiguidades d’estes sitios; no _Corpus_ estão transcriptas em grande numero as inscripções romanas. Na _Cintra pinturesca_ (pag. 192), se diz: «encontram-se com frequencia urnas e lapides sepulcraes em varios sitios especialmente em S. Miguel de Odrinhas, Morelino, Montelavar, etc.»
D’essas veneraveis pedras sepulcraes muitas desappareceram, ainda porém existem algumas importantes. Para as ver dei uns passeios a Odrinhas e á quinta dos Chãos.
Odrinhas fica a meio caminho entre Cintra e Ericeira. Ha ahi uma venda onde costumam parar os carros para descanço; abre-se em frente d’essa venda um caminho de aldeia que leva á egreja, S. Miguel de Odrinhas, a menos de um kilometro. É filial da parochia de S. João das Lampas. A porta principal diz a poente, uma alpendrada segue na frente e no lado sul; atrás da capella mór um espaço que serviu largos annos de cemiterio; muitas pedras de cabeceira nos seus logares, tendo nos circulos superiores esculpidas cruzes de varias fórmas, sinos saimões, e estrellas de seis pontas. Encostado á egreja um ediculo do seculo XIV. Junto da pequena porta lateral uma casa, talvez de antigo ermitão, a que chamam a casa dos ratos, que serve para metter medo a rapazes máos; sob o alpendre a grande mesa de pedra para as offertas. Ao norte da egreja, uma construcção circular, isolada, em ruina, mostrando ainda a nascença da abobada, feita de pedra miuda, vestigios de porta, e um vão na parede, que parece, seria destinado a ter um armario.
--É casa de mouros, disse alguem.
--Era onde guardavam os ossos tirados das covas do cemiterio, o ossuario, disse outro.
--Dizem que está ahi um thesouro escondido, disse uma mulher.
Parece-me que a causa principal da ruina é esta crença, com a esperança de achar o metal precioso têm nocturnos exploradores arruinado o singular edificio. E eu achei no montão de pedregulhos, e fiz destacar, em marmore lavrado, nada menos que a pedra superior de uma ara romana com seus ornatos, volutas e folhagens, de bom estylo, com a grande cavidade destinada ao fogo. No terreno proximo, nos velhos muros de pedra solta, vi tijolos pequenos, fragmentos de grossas telhas, e ainda mais cabeceiras de sepulturas com suas cruzes e saimões. É unico o que ali está, n’aquelle modesto recinto onde se conservam vestigios antigos, de epocas entre si muito afastadas.
Sob o alpendre, solta, a grande pedra com lettreiro romano onde se mencionam individuos da tribu Galeria, e entre elles o de Elio Séneca. Dentro da egreja, á direita da porta principal, a enorme lapide, fixa, de Plocio Capito. Dizem que era de homem santo, e raspam-na para com o pó curar enfermidades. Pelo visto temos aqui um exemplo nitido de cultos continuados no mesmo local desde a antiguidade romana até agora. Mas ha lendas, velhas tradições aqui. Disse-me um homem que esta egreja era tão importante em tempos antigos que a gente de Santo Isidóro, Paço d’Ilhas e Quinta dos Chãos vinha enterrar os seus mortos n’este cemiterio, fazendo a longa caminhada de quatro leguas. E logo outro companheiro, um tanto a medo, me perguntou se eu julgava possivel que uma mulher fosse capaz de trazer ás costas aquella grande pedra, a do Séneca, desde Santo Isidóro, com o cadaver do filho. É lenda mui velha que eu vim encontrar agora nesta ultima terra da Europa.
Santo Isidóro é egreja parochial que fica a uma legua além da Ericeira; fica-lhe a pouca distancia a quinta dos Chãos, que desperta a curiosidade pelo seu isolamento, a sua represa d’aguas, os pequenos aqueductos, pateo, jardim, casa de residencia e officinas, um bello exemplo de habitação rural, modificada pelo tempo e variedade de usos, mas no todo lembrando uma antiga villa rustica. Ahi, n’uma varanda sobre um arco, servindo de meza, vi a bella lapide sepulcral dos Terencianos; e no jardim ha uma pia que me pareceu uma urna ou sarcophago romano, coberto em parte de cal. Segundo uma tradição a ribeira de Paço d’Ilhas que corre no profundo valle proximo era antigamente navegavel, e um velho paredão arruinado seria o resto do caes.
A costa
Da ponta da Lamparoeira corre a costa de norte a sul, por mais de 8 milhas, quasi toda de rocha escarpada até á foz da ribeira do Porto. A 1,5 milhas a N. da dita foz fica a Ericeira. A sul da villa uma pequena enseada com boa praia, a norte outra praia; ambas separadas pela grande massa de rochedos do portinho onde entram os barcos de pesca. Este porto é desabrigado dos ventos NNE a SSO por O.
Ha duas luzes de enfiamento, branca e vermelha, a 37,ᵐ7 de altitude.
O monumento de Mafra com suas elevadas torres e zimborio, a 270 metros sobre o nivel do mar, serve de reconhecimento e marca para este porto, avistando-se a 30,5 milhas.
Da foz da ribeira do Porto a costa a S 25° O, até ao cabo da Roca, a 10,3 milhas, quasi toda escarpada e elevada, apenas rota na praia das Maçãs na foz da ribeira de Collares, e na praia Grande a S d’esta. No Focinho da Roca o rochedo levanta-se a mais de 125 metros; sobre essa escarpa está o pharol da Roca, a 137 metros acima do nivel do mar. A meia milha ao mar do cabo está a pedra d’Arca: ha outros recifes que tornam perigosa a approximação.
A serra de Cintra eleva-se sobranceira ao Cabo, correndo para o interior na direcção de ENE. A sua maior altitude é no seu estremo E no castello da Pena, que tem 529 metros de cota.
O convento da Peninha, no extremo SO, está a 488 metros, e deve avistar-se a 42 milhas. A serra de Cintra é ponto excellente para reconhecimento da costa. Os pescadores da Ericeira dão nomes ás saliencias principaes da serra, e pelo enfiamento e aspecto marcam approximadamente a sua posição no mar.
A pesca na Ericeira chegou a grande decadencia, parece querer levantar-se agora. Antigamente, ha 50 annos, não só a pescaria tinha ali grande importancia, mas a Ericeira era um viveiro de homens do mar; chegou a ser celebre pelos seus maritimos pedidos para os melhores navios da nossa marinha mercante. Eu conheço a Ericeira ha quatro annos apenas, em rapidas visitas na época dos banhos. Ha quatro annos havia uma armação, em frente do porto, e os botes de pesca, as focinheiras, pouco iam ao mar. Não havia pescada, muitos dias só havia sardinha e carapau apanhado na armação. Agora ha duas armações, e todos os dias vão barcos ao alto, que por vezes trazem muito peixe. A exploração da lagosta tambem augmentou.
Os pescadores das armações são quasi todos estranhos á Ericeira; e tem vida áparte dos naturaes da villa. É no _norte_, quer dizer no bairro do norte da villa, em casas abarracadas, caiadas, algumas com o chão forrado de plantas aromaticas, que habitam os pescadores. Casas pobres, aceiadas, com estampas de navios e santinhos nas paredes. A grande embarcação de pesca, antiga, era a _rasca_, que eu vi pintada em quadros de milagres, na egreja de Santa Martha.
Era um barco seguro e veleiro, de borda alta, pôpa redonda e prôa arrufada; convez corrido de vante á ré, cinginda em volta do costado por um espesso cinto com forte pregaria, apparelhando com quatro vélas latinas triangulares, traquete, véla grande, véla de prôa, e catita; com tripulação numerosa para a manobra.
O mastro de traquete pendia para vante, o de ré era vertical, da prôa lançava um páo para amurar a véla de prôa, á ré encostado á amurada um pequeno mastro para a verga da catita, que caçava no laes de um páo deitado pela popa servindo de retranca: singrava veloz, chegando-se muito ao vento, e aguentando-se bem nas borrascas.
A focinheira é typo unicamente usado na Ericeira, para a pesca costeira, e que vae tambem ao largo. Tem um mastro á prôa que apparelha com um latino; a prôa e a pôpa da pequena embarcação teem fórma especial, e no fundo chato e arqueado tem umas reguas ou reforços longitudinaes. É differente da chata de Cascaes ainda que se lhe avisinha.
Tenho visto na Ericeira sardinha, fataça, carapau, faneca, goraz, pargo, capatão, pescada, peixe espada, peixe gallo, cação, moreia, arraia, polvo e lagosta.
Uma vez entrou na armação um cardume de grandes pargos e capatões; e eu vi na pequena praia a fila de oitenta grandes peixes vermelhos de que os menores tinham 7 ou 8 kilos.
Este anno foi fisgado de uma focinheira um grande peixe agulha que pesou nove arrobas.
Havia muitos annos que não apparecia um peixe agulha na Ericeira, e é trivial em Setubal.
Quem visitar reparando os mercados de peixe na Ericeira, Cascaes, Setubal nota singulares differenças; nesse bocado de oceano que se avista do Cabo da Roca, ha regiões definidas, onde apparecem ou não determinadas especies de peixe.
O generoso mar dá ainda outro producto que elle traz do seu seio e vem depôr, arrumar, na areia da praia; chamam-lhe sargaço e moliço ou golfo; são as algas, os corriões, bodelha, verdelho e sebas, que o agricultor utilisa para adubo.
Em todas as praias aqui d’esta costa, Baleal, Peniche de cima e de baixo, Portinho da areia, Consolação, Seixal, Atalaya, Ribamar, Porto novo, Santa Cruz e Assenta andam os sargaceiros apanhando os vegetaes arrojados á areia, escolhem um pouco, carregam, formam medas, que entram em fermentação e se transformam em excellente adubo.
Em outros pontos do paiz a rapeira é uma furia louca que prejudica a creação do peixe, mas aqui não se dá esse caso, os sargaceiros não chegam para arrecadar a massa enorme de algas que o mar lhes offerece.
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_Banheiros._--Praia do sul: Antonio Garamanha, Braulio da Silva, Francisco Piloto, Francisco Jorge Alturas e Servando da Silva.
Praia do norte: Agostinho Alves Camacho, José Alves Camacho, José Coco e José d’Almeida Rato.
As praias são muito frequentadas nos mezes de agosto, setembro e outubro. Ha duas series de banhistas: a mais tardia é a que vem depois da vindima.
Bons typos estes banheiros, nadadores de primeira ordem, valentes sem precipitação.
Na praia do norte o mar bate um pouco mais; na do sul a força da vaga é em parte quebrada por uma restinga que surge a pouca distancia, 80 a 100 metros da praia de areia.
Na praia do norte em manhã de vaga um tanto rija vi espectaculo raro; os banhistas não tomaram banho, e os banheiros resolveram ir brincar nas vagas; brincadeira um tanto forte.
Eram tritões mythologicos, peixes não, porque estes não caem em taes experiencias; por vezes sumiam-se no concavo da vaga proxima a desabar, logo appareciam, o corpo meio fóra da agua, na cabelleira cristallina, logo destacavam na branca espumarada fervente.
É arriscado, ha movimentos enrolantes na vaga d’arrebentação, e ai do que se deixar enrolar pela onda.
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No termo da Ericeira, na encosta voltada ao mar, ha grande numero de pequenas propriedades, e muitos muros de pedra solta. Fazem esses muros para arrumar a pedra e tambem para defeza contra a rajada do mar, e não bastam; fazem ainda sebes de urzes, de ramos de pinho, de caniço; e nesses canteiros vi cepas boas, com bellos cachos.
A phylloxera estragou os vinhedos, mas nos ultimos annos teem replantado; nas chans da ribeira de Chileiros ha vinhas de importancia. Para os lados da Fonte dos Nabos, Santo Isidoro, Paço d’Ilhas vi culturas mimosas. Na Ericeira só as flexiveis hastes das araucarias resistem á furia do vendaval. Ás vezes quando no temporal as grandes vagas estouram nas arribas passam flocos de espuma por cima da povoação.
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_Nomes de barcos._--S. Joaquim, vulgo o Bailharito, Feliz Raul, Boa Viagem, Flor da Ericeira, Pombinho, etc.
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_Pombos-bravos._--São raros nesta costa; numa época vi dois casaes que pousavam nas altas rochas, sob a villa. Pouco adiante de S. Sebastião tenho-os visto tambem, poucos. São pardos-escuros, esguios, muito desconfiados; creio que é na costa algarvia, Sagres, S. Vicente, que apparecem mais; na costa da Arrabida são raros.
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_Pharoes._--Berlenga. Começou em 1840. Alcance 30 milhas.
Cabo Carvoeiro. Data de 1790. Alcance 9 milhas.
Ericeira. Luzes de direcção, anterior branca, posterior vermelha. Começaram em 1864. Avistam-se a 5 milhas.
Cabo da Roca. Data de 1772. Alcance 30 milhas.
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_Soccorros a naufragos._--Dizem que existe um posto montado, com espingarda Delvine para lançamento do cabo de vae-vem.
De barco salva-vidas nunca ouvi fallar, nem de qualquer melhoramento do acanhado portinho entre bravias rochas, muito pittorescas e perigosissimas.
Numa das ribas vi uma caixa verde com letreiro branco, assim:
SECORROS
A
NAUFRAGUS
Deve ser orthographia official. (Este anno, 1905, vi o letreiro já emendado).
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_O facho do peixe._--Se o barco que vem do alto, ou da armação, traz peixe, arvóra á prôa o _facho_, que é uma japona ou oleado de marujo; logo que das arribas avistam o reclamo descem homens e mulheres com as gigas e burrinhos para transporte da mercadoria.
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_Aroeira._--É com o suco da aroeira que tingem as redes. A planta verde é moida num lagar, por galgas movidas a braço. Na Ericeira vi um lagar, que não trabalhava. É em Ribamar que hoje moem mais. Em Santo Isidoro encontrei eu umas saloias com seus burrinhos carregados de aroeira, que iam para Ribamar.
E vi tambem ramos de aroeira ornamentando carros carregados de tojo; o verde viçoso da aroeira alegrando o tom escuro do tojo secco.
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_Phosphorescencia._--Na costa da Ericeira o mar apparece algumas vezes phosphorescente; acho isto notavel; porque no littoral portuguez em muitos sitios nunca se dá este phenomeno, na costa do Algarve é rarissimo.
A gente do mar chama-lhe _ardencia_. Nas noites de 24 e 25 de agosto de 1900 o espectaculo foi admiravel. As grandes ondas luminosas, de brilho e intensidade differentes, produziam effeito phantastico. Durou muitas horas o esplendido aspecto do mar, especialmente na arrebentação.
Em setembro de 1902 tambem houve _ardencia_, mas fraca e durando apenas umas tres horas. No livro de A. F. Simões: _Cartas da beira-mar_, descreve-se um caso de _ardentia_ ou _ardencia_ observado por elle na Figueira da Foz no mez de setembro de 1864.
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_Cartas nauticas._--Conversando uma vez a respeito de antigas cartas nauticas, indicaram-me uma senhora que possuia algumas, de parentes que tinham navegado em largas viagens. Eu pedi o favor de as vêr.