Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

Part 10

Chapter 103,805 wordsPublic domain

Um dia, na sua casa de jantar, escolhida por ser mais facil na grande meza desdobrar as cartas maiores, a senhora D. Maria disse á serviçal que fosse lá acima, ao quarto do Oratorio, buscar as pastas e os rolos, forrados de linhagem.

A creada voltou ajoujada porque era pesado o fardo da papelada. Eram as cartas que tinham servido ao avô, ao pae, aos tios e aos irmãos na vida maritima, porque durante gerações, n’aquella familia, fôra tradicional a vida do mar; ora de pilotos, ora de capitães de navio, muitos dos parentes daquella senhora fizeram longas viagens. As cartas usadas, amarelladas, conservavam o cheiro a breu; tinham as rotas marcadas a lapis, em linhas onduladas ou em zig-zagues, com pequenas cruzes e datas, nas mudanças dos rumos ou marcando singraduras; viagens da Ericeira para Larache ou Casa Branca na costa marroquina, á Terra Nova, á Irlanda, ou de Lisboa para o Brazil, Açores, Madeira, por essa costa d’Africa fóra, ou entre o Funchal e Demerára.

Ha coisas d’estas, ás vezes; começa-se por simples curiosidade, entre phrases banaes e logares communs, e de subito surge o drama. Se eu visse aquellas cartas n’uma loja nada sentiria, mas lentamente mostradas pela santa mulher! Eu ia dizendo o que via e lia, e ella ia lembrando. A carta passou a ser um documento vivo. E quanto mais recordava mais subia a commoção, avivavam-se saudades, as lembranças de anciedades passadas, as longas espéras de noticias. Certa cruz marcava um grande golpe de mar, outra o sitio em que faltou agua de beber, e a comida; esta agora um incendio a bordo.

De uma vez não houve noticias do parente nem do navio por mais de seis mezes.

Eu dobrava ou enrolava lentamente a carta, e passava-se a outra. Agora era a que servira a bordo do palhabote onde o irmão ia por piloto na sua primeira viagem, e surgiam outras recordações.

Desdobrava-se nova carta, era a de um segundo tio, capitão do navio tal, que andou trinta annos no mar, soffrendo vendavaes e calmarias, e terminou em naufragio em longinqua paragem.

E assim estivemos a ver cartas, algumas horas, e a lembrar anciedades passadas; saudades, receios, que é o manjar de quem tem parentes queridos no mar. Depois a serviçal foi levar, com muita cautella, como cousas sagradas, a pasta e os grandes rolos para o quarto de cima, ao pé do Oratorio.

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_Os primeiros christãos._--As duas inscripções romanas que ainda hoje felizmente se conservam em S. Miguel de Odrinhas teem servido de base a dissertações de auctores considerados sobre o apparecimento do christianismo n’esta região a norte de Lisboa. Principalmente a do Seneca.

O nosso D. Rodrigo da Cunha na _Historia ecclesiastica da egreja de Lisboa_, disserta sobre a pregação de S. Pedro de Rates pela beira mar até Cintra, e dá muita attenção ás duas inscripções romanas.

A razão de julgar que taes inscripções commemoram pessoas christans é porque lhes falta o D. M. S. (consagrado aos deuses manes), inicio vulgar dos lettreiros pagãos.

Base ou principal ponto de partida a respeito da existencia de christãos logo no 1.ᵒ seculo, neste extremo da peninsula, é a chronica de Flavio Dextro, que diz: _Lucius Seneca Centurio verus christianus Sintriae occumbit_. (_Ann. Chr._ 50).

Numa edição de 1619, vê-se _Senticae_, emendado para _Sintriae_ na edição de Leão (Lugduni, 1627 pag. 103).

Ora esta chronica de ha muito está mal afamada, mas percorrendo-a quasi me convenço de que merece alguma attenção; parece-me um texto antigo muito alterado e interpolado.

Ambrosio de Morales, continuador de Floriam de Ocampo, na _Coronica general de Hespana_ (Alcalá de Henares, 1575, 2.ᵒ vol. pag. 245 e segg.) consagra um capitulo a esta questão:==_El tiempo del Emperador Neron con todo lo de Seneca_ (Lib IX. C. 9) e reproduz a inscripção grande de Odrinhas. Não acho base alguma para affirmar a existencia de christãos logo no primeiro seculo no occidente da peninsula; porque é certo que os lettreiros sepulcraes de individuos christãos começam muito mais tarde; lendas, tradições devotas, sim; mas é difficil tambem marcar datas á creação de lendas piedosas.

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_Bolos._--As confeiteiras fazem cavacas, pão de ló, esquecidos, suspiros, biscoitos e marmelada. Tambem fazem queijadas, inferiores ás de Cintra. A região da queijada é outra, vae de Cintra a Bemfica, conservando o mesmo typo. Tambem ha queijadas no Alemtejo, excellentes, mas de esthetica mui diversa. O dominio do pão de ló é ao longo da costa maritima ao norte do Tejo, e o da cavaca quasi na mesma região, variando de fórma e densidade, de villa para villa; quasi se póde dizer cada terra com sua cavaca.

_S. Antonio._--É uma pequena ermida, toda caiada, que está sobre a muralha da arriba do porto.

Está ahi na parede do occidente voltada ao mar uma cruz formada por azulejos, e tambem em azulejos as imagens de Nossa Senhora da Boa Viagem e a de Santo Antonio, e data 1789.

No nicho ardia d’antes uma grande lanterna, guia dos pescadores, e ainda lá está a sineta que toca quando ha nevoeiro na costa.

_Egreja de S. Pedro_.--Foi restaurada em tempo de D. João v. As pinturas do tecto teem o caracter d’essa época. O cruzeiro ante a porta principal está datado de 1782. O prior Manuel Maria Ferreira fez obras na egreja, e o arcaz da sacristia em 1660.

Creio que a obra d’arte mais antiga que existe nesta egreja é a pequena estatua de S. Pedro, em marmore, com o seu livro e grande chave, que está sobre a porta lateral. Proximo a esta porta está o seguinte letreiro:

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--Aqui jazem José Pereira da Cruz e sua mulher Eulalia da Costa e a filha d’estes Maria Rosa e seu marido o professor Antonio Luiz Delgado e alguns filhos d’estes, entre elles o padre Octaviano Augusto Pereira Delgado primeiro e principal promotor do acrescentamento e reforma d’esta egreja o qual pede por esmola se compadeçam das almas dos que aqui jazem, 1872.--

Segundo o recenseamento official tem esta freguezia 737 fogos, com 2:519 habitantes.

_Santa Casa da Misericordia._--Foi fundada a irmandade d’esta Misericordia em 1678.

O Compromisso actual foi approvado por alvará de 4 de outubro de 1886.

O antigo compromisso era de 7 de julho de 1697.

Capital 34:650$000 em inscripções.

Capital 4:500$000 em acções do Banco de Portugal e da companhia das Lezirias.

Na média entram no hospital uns 70 doentes, annualmente.

Ha pouco teve um legado importante, do sr. Fialho, cavalheiro respeitabilissimo da localidade.

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_S. Julião._--É uma ermida toda branca, com seu alpendre, erguida na escarpa maritima, a uns tres kilometros a sul da Ericeira. Celebra-se ahi uma festa annual, em setembro, com arraial, a que concorre muita gente dos povos mais visinhos. Proximo do pequeno templo ha casas para os romeiros, para um posto da guarda fiscal, e para venda das offertas.

A disposição da ermida e seus annexos leva-nos a tempos mui antigos. A influencia do convento de Mafra tambem ali chegou, e algumas reparações teem o cunho do seculo XVIII.

A porta da ermida tem a data 1768.

Proximo de S. Julião ha uma fonte milagrosa. Tem duas bicas, que deitam aguas de nascentes diversas, de modo que teem sabôres varios. E seus azulejos com as imagens de _S. Julião e Santa Basilissa_, e a data 1788.

Teem virtude estas aguas para doenças de olhos, e outras, para todas creio eu, mas é preciso beber, ou lavar-se com as duas aguas. São complementares.

Por occasião da festa foram muitas pessoas beber das duas aguas, outras lavar os olhos nas duas pias, outras com bilhas; mas a virtude principal das duas aguas combinadas é contra as sezões.

No arraial de S. Julião vendiam-se poucos comestiveis: bolos de S. Julião, fartes, queijadas, melões e peras, pevides, favas torradas.

Os fartes ou bolos de S. Julião são feitos de massa de trigo com assucar, me pareceu, e alguma canella. São bolos locaes que segundo me affirmaram só se fabricam por occasião da festa.

Vi ahi algumas portas com fechadura especial composta de uma haste grossa, com sua travinca, e que se abre por meio de um páosinho de feitio vario.

Na Ericeira tambem encontrei essa fechadura que eu não conhecia. Um popular explicou-me:==isto é fecho com cavilhas e chaveta.

_As pedras de mysterio em S. Julião._--São umas lapides bem trabalhadas com os nomes de S. Julião, S. Basilisa, e Ave Stella matutina, e outras phrases piedosas, dispostas caprichosamente.

Assim _Juliam, Basilissa e matutina_, em caracteres capitaes muitas vezes repetidos enchem quadrados tendo no centro as iniciaes J. B. e M. e achando-se a palavra lendo para qualquer lado, até aos vertices da figura.

Proximo da ermida ha um logar, o fojo, grande fenda natural da escarpa, onde se deu um milagre; ahi numa lapide lavraram um monogramma que deve significar _Mater Christi_. E no angulo do alpendre, superiormente, um cubo de marmore com meridiana muito curiosa.

Algum frade engenhoso fez aquelles quebra-cabeças, para maravilha dos romeiros. A esta ermida se liga a historia do rei da Ericeira.

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_A bruxa da Arruda._--A celebre bruxa costuma visitar a Ericeira por fins de setembro. É muito respeitada; dizem que é rica, a pobres não leva nada; apresenta-se com muitos oiros. Tem uma filha que já entende de molestias. Em geral leva 300 réis pela consulta. Receita quasi sempre esfregas de aguardente e papas de pão de milho ralado. Mas isto varia em quantidade, tempo, calôr, e no sitio do corpo. Ouvi tambem chamar-lhe a mulher do Casal das Neves, no termo da Arruda dos Vinhos.

Nem precisa ver o doente, levam-lhe roupa do uso do enfermo, uma camisa ou camisola, e ella pelo cheiro conhece a molestia e logo receita. Costuma pousar numa casa do _norte_ da villa, e a sua chegada consta logo entre a pobre gente que a venéra e teme.

==Já teve questões com padres e medicos, já foi aos tribunaes, me disse alguem, e ficou sempre victoriosa!==

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_O brazão da Ericeira._--Tenho visto representado no brazão da Ericeira um ouriço cacheiro, e outras vezes um ouriço do mar, inteiro, com sua armadura de espinhos, visto de lado, o que me parece mais logico. Na Fonte do Cabo sobre a inscripção está uma pedra esculpida que deve ser a representação mais antiga das armas da villa, e, se me não engano, quizeram ali representar a boca do ouriço maritimo, donde divergem séries de linhas formando cruz, e um lavor ponteado que allude aos espinhos, admittindo o engano ou convenção das quatro fachas divergentes que deveriam ser cinco se o canteiro fosse mais cauteloso.

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_O primeiro foral da Ericeira._--Do primeiro foral da Ericeira guarda-se o autographo na Torre do Tombo; está publicado na integra no Port. Mon. Hist. na parte respectiva a foraes, pag. 620. E por esta razão não o transcrevo aqui. É da era 1267 que corresponde ao anno 1229. Foi concedido por D. Fernando mestre da ordem d’Aviz: _Ego frater F. magister Avis una cum omni meo conventu do atque concedo populatoribus de Eyrizeira..._ Note-se que a pronuncia local de hoje é Eiriceira embora toda a gente escreva Ericeira.

Como todos os foraes das povoações da costa maritima este se refere a barcos, a maritimos e pescadores, á pescaria, e aos impostos especiaes do pescado: por exemplo aos pescadores do alto mar, e á _baleacion_, ou pesca da baleia, então commum a todo o mar português. Faz menção especial de congros, toninhas e golfinhos; e dos apparelhos de pesca, _bigeiro, udra et rete de costana_; do pescado fresco, recente e secco. No porto entravam mercadorias: _de tota merchandia que per mare ad portum venerit et voluerint vendere dent quarentena_. Havia revendedores de peixe: _de coloneiro qui comparar piscatum pro a revender det I denarium_.

O mesmo imposto para o _bofon_, ou bufarinheiro.

Á vista do foral a condição dos pescadores não tem variado do seculo XIII para cá. Os mesmos perigos, egual miseria, e a mesma incuria, a mesma falta de protecção.

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Sentindo a brisa fortemente salgada, alargando o olhar pela magestosa amplidão do oceano, vem o desejo de saber alguma cousa do que se passa ahi, no meio aquatico, onde pullula a vida. O dr. Augusto Filippe Simões fez um livro bem interessante de vulgarisação scientifica com algumas observações pessoaes, as _Cartas da beira-mar_ (Coimbra, 1867).

Simões era um sabio e um litterato erudito, escrevendo com muita consciencia. Em linguagem facil, corrente mas cuidada, descreve-nos o oceano, os seus problemas, a salsugem, os movimentos, as marés; e a vida que se agita n’essas aguas, a zoologia e a botanica marinhas.

Um livro que recommendo para a temporada da Ericeira é o _Estado actual das pescas em Portugal_, pelo distincto official da armada, sr. A. A. Baldaque da Silva (Lisboa, 1892). Tem estampas coloridas representando peixes, crustaceos, molluscos, muitas gravuras de barcos e apparelhos de pesca; não olvidando a focinhada ou focinheira ericeirense, e a antiga rasca que passou á historia; descreve tambem a costa maritima, tão variada em aspectos e circumstancias.

Recentemente vi um livro bem interessante, de sciencia moderna; é _L’Océan. Ses lois et ses problèmes_, por J. Thoulet (Paris, Hachette, 1904).

Thoulet é um oceanographo que estuda o mar e sabe expôr com clareza as muitas questões da sciencia do mar, a oceanographia, tão moderna e já tão vasta. A chimica do mar, a formação de sedimentos de origens varias, a temperatura e a pressão nos abysmos, a formação da vaga e a razão das marés, as correntes, a vida nas grandes profundidades quietas e sem luz, apparecem-nos tratadas em largos capitulos de leitura que prende a attenção, sem fatigar o espirito.

No 4.ᵒ volume das _Maravilhas da natureza, segundo o plano de Brehm_, obra celebre, revista e ampliada na parte relativa a Portugal pelo sr. dr. Balthasar Osorio, sabio lente da Escola Polytechnica de Lisboa, trata-se de peixes, em leitura facil e agradavel.

Como tambem desperta a attenção o aspecto raro das arribas, das suas curvaturas, fendas, aberturas, cavernas, onde apparecem rochas brancas, vermelhas, negras, esverdeadas, cinzentas, umas cheias de fosseis, outras sem vestigio de vida animal ou vegetal, eu lembro a leitura no vol. 2.ᵒ de _La face de la terre_ por Ed. Suess (trad. de E. de Margerie. Paris, 1900), do capitulo intitulado: _Os contornos do Oceano Atlantico_.

Pelourinho

O concelho da Ericeira foi extincto em 1855, e reunido a Mafra. Tinha o seu pelourinho.

Certas pessoas praticas entenderam que não havendo concelho não era preciso o monumento municipal, e que os degráos de pedra eram bem bons; e aproveitaram os degráos lá para o que bem quizeram, e a columna partida, o capitel e o ornato superior foram enterrados. Isto foi por 1863. Agora (outubro de 1905), o dr. Eduardo Burnay, enthusiasta da branca villa, indagou o sitio onde ficaria o resto do pelourinho, mandou excavar, achou as pedras, e vae mandar reerguer a decorativa columna.

Pela photographia que me mostrou creio que o symbolo municipal da Ericeira pertence ao genero do de Collares, ainda completo e aprumado, e do de Cintra ha muito desfeito, mas de que ha desenho cuidadoso. Sobre este caso do pelourinho de Cintra publicou recentemente o sr. Mena Junior uma _Noticia historica_, interessante, com estampas notaveis, e uma planta do Paço da villa, no _Boletim da Real Associação dos Archeologos Portugueses_.

A columna do pelourinho da Ericeira tinha annel, a meio, como se vê no de Collares, e na estampa do de Cintra; o capitel e ornato superior são do mesmo desenho. Taes pelourinhos são do começo do seculo XVI, reinado de D. Manuel, e correspondem á grande reforma foraleira d’este monarcha.

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A respeito da villa da Ericeira varios escriptos teem apparecido publicados, artigos de jornaes, ou revistas, ou capitulos de recordações.

O sr. Eduardo da Rocha Dias no tomo 1.ᵒ e Addenda do seu valioso trabalho _Noticias archeologicas_, ao tratar da Ericeira, apresenta a bibliographia da interessante villa.

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Grande serviço tem prestado á villa da Ericeira o sr. dr. Eduardo Burnay alcançando os meios precisos para a construcção da muralha de supporte na arriba do porto. Se esta obra tardasse haveria desmoronamento prejudicial á villa, á concha do porto, e á praia apertada onde labutam os pescadores. Actualmente ha tres armações de sardinha, empregando uns duzentos homens, e todo o trabalho se faz na breve praia onde ás vezes as companhas se embaraçam. Não está ainda terminada a obra, pouco falta ao que parece; o que está feito é já muito util.

Muito melhorado tem sido ultimamente o caminho para a praia do sul, e, ao que ouvimos affirmar, vae tratar-se da rampa da praia do norte, que é muito linda tambem. Seria bom melhorar o caminho para Ribamar, que não offerece difficuldades, facilitando assim um bello passeio, util para os povos do sitio, e estabelecendo communicação facil e agradavel com a região dos pinhaes. A primeira parte da estrada de Mafra é de forte declive, uma ladeira de tres kilometros, incommoda para passeio. Assim como seria para desejar o arranjo do caminho para a Lapa da Serra, sitio pittoresco, accidentado, com arvoredo viçoso.

Na Lapa da Serra tem-se desenvolvido nos ultimos annos a industria ceramica: fabrica-se louça vidrada com seus lavôres especiaes, ás vezes de phantastica ornamentação.

Pinhaes, mais pinheiros, é que eu gostaria de vêr na moldura agreste da interessante villa.

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O sr. Adolpho Loureiro, inspector geral de obras publicas, publicou recentemente o volume segundo da sua excellente e muito util obra: _Os portos maritimos de Portugal e ilhas adjacentes_.

A pag. 303 começa a parte relativa ao porto da Ericeira, representado minuciosamente na estampa sexta do respectivo atlas.

Segundo se vê do consciente trabalho do sr. Loureiro é para desejar:==a construcção de obras de drenagem dos terrenos, consolidação das ribas, conclusão das rampas tornando-as aptas para varar os barcos de pesca, e desobstrucção do porto, removendo-se as pedras soltas que se acham na area d’elle a menos de 1ᵐ,5 a 2ᵐ abaixo da baixa-mar, e, finalmente, estudar-se a possibilidade da construcção de um pequeno molhe para abrigo das embarcações de pesca, no caso de poder aproveitar-se qualquer restinga ou pedras que possam servir-lhe de apoio==.

Parece facil a construcção de um pequeno molhe acostavel, que seria de grande vantagem para aquelles pobres pescadores.

De Bemfica á quinta do Correio-Mór

(1905)

Sabe bem de vez em quando uma excursão fóra das estradas mui trilhadas, longe de caminhos de ferro e de electricos. Pelo meio dia cheguei a Bemfica, á cocheira do largo da Cruz da Era. Cocheira pacata, bom serviço e preço modico; arranjou-se um carrinho; e seguimos pela estrada do Poço do Chão, muito socegada, entre muros de quintas, sebes de caniços, e filas de oliveiras. Passa a quinta da Granja, a da Condessa de Carnide, a do Sarmento ou Bom Nome; deixa-se á esquerda a estrada da Correia; agora o antigo chafariz e o moderno lavadouro, ambos sem agua. Á nossa esquerda fica a egreja parochial de S. Lourenço de Carnide, muito caiada, veneravel pela sua idade; estamos no Alto do Poço, de linda vista campestre. Estes sitios de Carnide e Luz são dos melhores dos arrabaldes da capital, mas infelizmente os senhores da governança não lhes teem dado attenção. Muitas vezes nem agua teem os pacificos e modestos moradores. A hygiene, a limpeza publica é quasi nulla. Facilidade de communicações não existe. Emfim carencia completa de melhoramentos municipaes. Bons ares e contentem-se. Eis agora a egreja da Luz, isto é, a monumental capella-mór e cruzeiro, porque o corpo da egreja arruinou-se pelo terremoto de 1755.

Mas o que resta pela sua architectura e decoração, principalmente pelas pinturas, é uma joia, essa fundação da inclita infanta D. Maria. Á nossa direita o grande edificio do Collegio Militar. Estamos no amplo largo da Luz, com suas alamedas que mereciam mais attenção e cuidado; a nascente o grande palacio e quinta de Oliveira, vistosa construcção, e entramos na estrada do Paço do Lumiar. Ha um lanço entre muros e vallados, logo a estrada alarga: boas vivendas antigas e modernas.

Um modesto terreiro; a meio a egreja ou antes ermida de S. Sebastião com o seu portal manuelino. Na visinhança boas casas á antiga, a da quinta do Paço por exemplo. Segue a muito nomeada quinta do sr. duque de Palmella, principesca vivenda com seus jardins em socalcos, fontes e lagos, arvoredos antigos, raros exemplares botanicos, e grande residencia. Fica-nos á direita a egreja parochial de S. João Baptista do Lumiar, de fundação muito remota. Passa a rua do Prior, a calçada de Carriche e estamos no campo. Estrada larga, aqui em bom estado, ali em máo, já uma cova, agora um pedregulho, como todas as estradas do paiz, onde todos querem estradas e ninguem trata de as conservar. Que eu tenho grande esperança nos automoveis; os excursionistas de automovel tanto hão de soffrer e gastar que levantarão celeuma provocando reparações indispensaveis.

Em alguns pontos a estrada está bem arborisada. Estamos na Povoa de Santo Adrião: reparei em certo nicho e poço que vi á direita, e numa pedra lavrada; logo fiz tenção de parar á volta para exame mais demorado. Dilata-se a varzea de Friellas, bom torrão fecundo. O saloio é bom agricultor, eximio no hortejo. Aqui, além de trigo e milho, ha grande cultura de batata e ainda mais da hygienica cebola. Pelos telhados amarellecem enfileiradas as corpulentas aboboras machadas. Avisto algumas casas boas, antigas, agora em ruina.

Evidentemente por estes sitios em tempos idos residiram pessoas abastadas; agora quem tem meios vae para a cidade para gosar e não trabalhar, nem vigiar. Estamos em Loures, eis a egreja matriz, grande templo, de fundação mui velha e reconstrucção moderna; contiguo o antigo cemiterio num abandono vergonhoso, servindo para estendal de roupas. Mais um pouco de estrada e topa-se á esquerda uma avenida bem tratada, recatada, com suas filas de oliveiras; entramos na quinta do Correio-Mór. Ainda uns minutos e chega-se a um portico monumental, elegante e bem construido, encimado pelo brasão dos _Mattas_, e entramos em bello páteo, frente e alas do palacio formando os tres lados.

O palacio está em fundo valle apertado entre altos montes vestidos de arvoredos e vinhas até meia encosta; a região inferior povoada de laranjaes, agora um pouco doentes, e de hortejo viçoso. Provavelmente edificaram o palacio naquelle covão por causa das aguas; e de facto ha agua corrente em muitos pontos da grande residencia. Um vestibulo amplissimo; começa a escadaria larga, suave, magistralmente construida; no primeiro patamar uma fonte artistica, grande taça de um só bloco de marmore, estatuas, e um lindo medalhão com busto, talvez do _Matta_ fundador do palacio. Está bem conservado o edificio; repararam ainda ha poucos annos os telhados; não chove agora nas salas; mas antes houve abandono e perderam-se ou estragaram-se alguns trabalhos preciosos.

No Correio-Mór a construcção é boa a valer, a architectura é elegante; mas ha ainda a notar nos grandes salões, nas salas e gabinetes, a variedade e o gosto da ornamentação.

Empregaram-se ali artistas de primeira ordem no seu tempo. Houve todavia alguns concertos e enxertos de máo gosto e inferior qualidade. As salas da musica, da dança, a dos apostolos, a capella, o grande salão de jantar, teem azulejos, estuques, pinturas, e obras de talha de merecimento. A cosinha é monumental, com as suas chaminés, pias de lavagem, grandes mesas de marmore, e azulejos decorativos muito especiaes. O conjuncto é uma raridade. No jardim tambem ha obras de arte, e o enorme tanque da horta, com sua guarnição de azulejos, merece ser visto.