Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

Part 11

Chapter 113,832 wordsPublic domain

Este palacio tem um historia. Luiz Gomes da Matta, homem de fartos haveres, foi nobilitado por Filippe II que lhe deu brazão:==em campo de ouro tres mattas verdes em roquette sobre penhascos verdes; timbre uma das mattas.==

Este Matta comprou tambem o fôro de fidalgo e o officio de correio-mór, e arvorou a quinta da Matta em solar. Chamaram-lhe depois a quinta da Matta do Correio-Mór. Hoje toda a gente d’aquelles sitios lhe chama o _Correio-Mór_. A quinta e palacio pertenceram á Casa Penafiel até ha poucos annos, e actualmente ao sr. Canha, negociante de Lisboa. Merece a pena um passeio a essa antiga residencia.

Azulejos

O alto rodapé da sala de jantar é de azulejos, azul em fundo branco, em grandes e pequenas composições conforme os espaços; é trabalho, e grande, feito propositalmente para ali, para aquelles vãos de parede, bem composto e executado. Uma serie de quadros representa, parallelamente, as phases da vida humana e a historia de um navio. Aqui se vê a criança de mama, ao colo da mãe, e o berço, as graciosas pequenas roupas; logo as scenas da primeira infancia, as ingenuas brincadeiras. Neste quadro rapazotes bem postos aprendem os exercicios da caça, noutro representa-se-nos uma aula, os meninos attentos á lição do mestre. Vae seguindo a construcção do navio, ali o fabrico do cavername, depois o assentar do forro, o trabalho do calafate; logo o erguer dos mastros. E toca a viajar sobre as aguas do mar, para a India ou para o Brazil; lá está o navio com o velame ao vento, prestes a sahir do porto.

Temos agora um casamento, e no quadro seguinte uma profissão em casa religiosa. Era o caminho necessario em familias antigas, de bens vinculados; o excesso de filhos trasbordava para as armas, ou para o claustro; meninas sem dote raras casavam, iam para freiras, e em certos conventos passava-se muito bem a vida. Em varios quadros scenas da vida caseira; o concerto musical; a dança animada; os prazeres campestres de boa sociedade.

Um naufragio agora, o navio torturado, pannos rotos, mastros partidos no vendaval furioso. Muitas outras scenas, bem desenhadas e compostas, com sufficiente minucia em trajos e utensilios, mesmo em attitudes, se nos deparam na interessante serie de azulejos.

Noutra sala os azulejos, em rodapé, representam as quatro estações. Na sala chamada dos Apostolos ha caçadas de montaria, do veado, do javali, do leão. Esta sala tem um esplendido tecto de madeira, em variados caixotões, formando grandes molduras com obra de entalhado, pintado e dourado, frisos de flores, e os lisos pintados a oleo representando scenas mythologicas.

Na capella os azulejos representam scenas de devoção; eremitas e frades oram e meditam; num d’esses quadros surge um anão risonho. No jardim vi tambem uma estatua de anão, bem executada.

Na cosinha, tambem ha azulejos a notar na cosinha, aparecem as peças culinarias, coelhos, perdizes, presuntos, chouriços, hortaliças. A cosinha do Correio-Mór é magnifico exemplar completo, com as suas grandes chaminés, grandes mesas de marmore, e agua corrente em abundancia.

Em rodapés de ante-salas, em alegretes de jardins, encontram-se frequentemente as scenas da comedia italiana, as serenatas, os jogos, casos de amores e ciumes, brigas de espadachins, cortezias de tafues, as varias combinações de Pulcinello, Arlechino e Scaramuccia, de Fracasso e Tagliacantoni, com Lucrecia, Colombina e a Signora Lavinia; não faltam os capitães Ceremonia e Cocodrillo, nem os casos comicos de medicos e barbeiros.

Domina sempre n’esta alegre ornamentação o typo italiano, o que não se estranha attendendo aos muitos artistas de Italia que vieram a Portugal no seculo XVIII, e á tendencia dos artistas portugueses a irem a Roma procurar a perfeição artistica. Mas ha excepções; uma bem saliente na quinta dos marquezes de Fronteira em S. Domingos de Bemfica; ha ahi azulejos hespanhoes e hollandezes de merecimento e excellente conservação.

O Matta, Correio-Mór

Foi Luiz Gomes da Matta o instituidor do vinculo ou morgado da quinta da Matta, não me parece todavia que elle fizesse o grande palacio. Seu filho e successor Antonio Gomes da Matta fez grande testamento que por quaesquer questões foi impresso:==Testamento que fez Antonio Gomes da Matta, correyo mór que foi deste Reyno de Portugal. Lisboa, off. Craesbeeckiana, 1652, in-4.ᵒ, 136 pag.==

A pag. 62 do testamento, mencionando varias propriedades, diz simplesmente==quinta da Matta com suas terras e azenha e mais pertenças propriedade que Luiz Gomes da Matta, meu pae, deixou vinculada.==

E nada mais; não falla do palacio, das obras d’arte, etc.; quando é minucioso relativamente a outras cousas menores.

É testamento interessante; o testador era homem piedoso, devoto, muito rico.

Possuia grandes predios em Lisboa, quintas na Luz, em Loures, em Almada, grandes herdades no Alemtejo, no termo de Elvas. Grande capitalista, emprestava dinheiro sobre penhores.

A sua casa de morada em Lisboa estava posta com fausto; menciona os pannos de raz, e brocateis que forravam as paredes das salas; tinha joias de grande valor, e enorme quantidade de pratas.

Fazia festas religiosas; dava cera, azeite, dinheiro para muitas imagens; no testamento contempla dezenas de corporações religiosas, de parentes, de creados, e de empregados do correio, amigos e compadres. Mas não falla de grande residencia na Matta. Por esta razão, e pelo edificio que vejo agora, creio que o palacio actual foi erguido em tempo de D. João V, soffrendo algumas modificações em época mais recente.

Mas temos em Volkmar Machado um dado importante; ao tratar do conhecido pintor José da Costa Negreiros, conta que foi discipulo do famoso André Gonçalves==cujo estylo seguia com mais sisudeza mas com menos agrado==, e que fez alguns tectos em Loures, na quinta do Correio-Mór.

Negreiros morreu em 1759.

É possivel que as pinturas da sala dos Apostolos sejam, em parte, de Negreiros; outras serão de seus discipulos Bruno José do Valle, ou Simão Baptista; mas as decorações de outras salas, e especialmente os grandes trabalhos a estuque, devem ser da segunda metade, adiantada, do seculo XVIII, pois que a furia da decoração a estuque foi posterior ao terremoto de 1755.

O officio de Correio-Mór

Parece que antes de 1520 não havia em Portugal serviço de correio organisado regularmente.

Mandavam-se proprios, e dispunham-se postas quando assim era preciso. Nos caminhos de maior transito, em intervallos de 3 a 4 leguas, as estalagens tinham cavallos para muda, que alugavam.

Em 1520 el-rei D. Manuel criou o officio de correio-mór; foi Luiz Homem, ao que dizem, o primeiro a exercer o cargo.

Em tempo de D. João III appareceu a primeira lei ou regimento postal.

O segundo correio-mór chamava-se Luiz Affonso; seu genro Francisco Coelho, foi o terceiro.

O cargo conservou-se na familia até 1606 em que falleceu Manuel Gouvêa, o quarto no cargo.

Então Filippe II mandou vender o officio; que foi comprado por 70:000 cruzados, por Luiz Gomes da Matta, em 19 de julho de 1606.

O correio-mór tinha a seu serviço estafetes, mestres e creados de posta, e varios assistentes. O serviço do correio foi sempre augmentando, sem alteração fundamental do regime até 1852, embora este ramo pertencesse ao Estado desde 1797. Neste anno, em alvará de 16 de março, D. Rodrigo de Sousa Coutinho foi encarregado de tratar com o Correio-Mór a cedencia do officio.

Manuel José da Maternidade Matta de Sousa Coutinho, o ultimo correio-mór, recebeu em indemnisação pela cedencia do officio o titulo de conde em tres vidas, a renda annual de 40:000 cruzados, pensões vitalicias a diversas pessoas, cuja somma andava por 400:000 cruzados, e um ou dois postos no exercito.

Foi este o primeiro conde de Penafiel.

O segundo conde e primeiro marquez de Penafiel foi Antonio José da Serra Gomes pelo seu casamento, em 1861, com a segunda condessa desse titulo.

Pelas quantias indicadas se vê o augmento de importancia do correio entre 1606 e 1797, ainda que nessa época pequeno progresso tivera a viação publica.

Estuques

O uso do estuque é muito antigo; ha exemplos no velho Egypto, na remota Assyria; os romanos o empregaram vulgarmente; em Pompeia ha tectos, frisos, cornijas de gesso. Bysantinos e arabes usaram do estuque, principalmente os arabes de Hespanha; os estuques pintados da Alhambra são admirados no engenho da decoração geometrica, no effeito da combinação de tons. Durante largo tempo esqueceu o estuque, para reviver no meiado do seculo XVI. Mas então renasceu e logo se desenvolveu em processo e applicação; fizeram-se frescos sobre estuque de gesso, modificaram-se as pastas, formaram-se grandes composições em alto relevo.

Em Portugal ha noticia de estuques no seculo XVII, de pouca importancia.

Poucos annos antes do grande terremoto de 1755 appareceu em Lisboa um artista italiano de grandes aptidões, João Grossi, que iniciou grandes trabalhos neste genero. Outro estucador, primeiramente simples ajudante de Grossi, Gommassa, se tornou notavel.

O marquez de Pombal empregou-os nas suas propriedades. O terremoto tornou necessarios trabalhos rapidos e os estucadores prosperaram; e vieram mais estucadores italianos, Chantoforo, Agostinho de Quadri, que introduziram novos processos. Nas Janellas Verdes, no palacio pombalino da rua Formosa, na egreja dos Paulistas, etc., ha trabalhos d’estes italianos.

O marquez de Pombal chegou mesmo a fundar uma escola de estucadores, de que foi mestre o Grossi (1766).

Trabalhou-se immenso em estuque, bem e mal, com arte ou sem ella; João Paulo da Silva trabalhou no palacio na quinta das Laranjeiras (por 1798), assim como Felix Salla, outro italiano discipulo do celebre milanez Albertoli, que fez reviver a grande ornamentação dos gregos e do imperador Augusto.

É certo que por este tempo estucadores portuguezes foram trabalhar a Hespanha, tanto se tinha aqui progredido neste ramo.

Por 1805 entrou em Lisboa um estucador suisso de grande habilidade, Vicente Tacquet que trabalhou com Francisco Espaventa e outros.

Vieram os desastres da guerra, e alguns dos melhores artistas refugiaram-se no norte do paiz, no Porto, e em Vianna do Castello, Caminha, Affife que nos tempos modernos, nos ultimos 40 annos, tem produzido bons artistas estucadores.

De Rodrigues Pitta são os tectos do palacio do marquez de Vianna (1846) ao Rato, hoje propriedade do sr. Marquez da Praia.

Em 1855 e 1856 ornamentou o salão de baile do palacio da Junqueira (actual palacio Burnay) e dois salões do palacio Costa Lobo, no campo de Sant’Anna.

Deixou trabalhos de grande folego nos palacios de José Maria Eugenio d’Almeida, a S. Sebastião da Pedreira, Gandarinha que tem magnificas escaiolas na galeria, e no do Marquez de Penafiel.

A esplendida sala do conselho de Ministros, no Ministerio do Reino, tem o tecto muito trabalhado, não de grande effeito.

Cinatti introduziu em Lisboa um artista, seu parente, Joanni, notavel imitador de marmores, e bom artista em estuque _lucido_.

Nos ultimos vinte annos a mania pelo estuque, especialmente pelas imitações de marmores, tem sido, a meu vêr, exaggerada.

E, o que é grave, na maioria esses trabalhos são mal dirigidos e executados. Tem sido um desastre.

Ha estuques carregados de relevos que em tres ou quatro annos estão fendidos e estragados.

Imitações de marmores, quasi tão caras como os modelos, estaladas em poucos mezes. Mas a mania pelos estuques não é só na capital; ao norte do paiz ainda foi, e é, mais intensa.

No Porto ha estuques antigos, dos melhores, no palacio dos Carrancas, e modernos na Bolsa.

No Minho citam-se como notaveis os do palacio da Brejoeira, obra dos Alves, de Fafe, por 1850.

Em Evora temos os mais recentes no theatro Garcia de Resende, fino trabalho do Meira.

Será rara a egreja da Provincia, onde tenha havido reparos nos ultimos annos, que não possua amostras de estuque moderno, de facil execução e de mau effeito passado o lustro dos primeiros mezes.

Nas salas do Correio-Mór ha tectos estucados a baixo relevo muito distinctos e paredes ornamentadas a esgrafito de algum effeito.

Volkmar Machado deixou-nos algumas noticias sobre estucadores, que Liberato Telles utilisou no seu trabalho publicado no _Boletim da Associação dos Conductores de Obras Publicas_. Vol. IV. 1900.

Egreja de S. Lourenço de Carnide

O logar de Carnide, que faz parte agora da capital, é muito antigo; existia já povoado e cultivado no meiado do seculo XIII.

O mosteiro de S. Vicente possuia aqui uma vinha e uma herdade, como se lê nas inquirições do reinado de D. Affonso III. Por esse documento, importante para a historia de Lisboa e seus termos, se vê que em tão remota época já nestes logares de Carnide, Charneca, Queluz, Falagueira, Odivellas, Palma e Telheiras havia culturas, vinhas e povoados que contribuiam para o rei, para as ordens militares, e para os grandes mosteiros.

Em 1342, o bispo de Lisboa, D. João, mandou edificar a egreja á honra de S. Lourenço, por Pedro Sanches, chantre da sua sé, e a deu a seu capellão João Dor. Era já egreja parochial no seculo XIV.

Em meio de amplo terreiro, murado, orlado de oliveiras, com larga vista de campos e collinas ergue-se a egreja com o seu campanario, em linhas de singela construcção. A orientação e disposição da egreja é antiga, todavia pouco se vê do seu estado primitivo.

Está bem reparada, de ha poucos annos.

É um templo alegre, com as suas obras de talha dourada, as paredes forradas com azulejos, de azul sobre branco, em grandes quadros, allusivos á vida de S. Lourenço.

Tem cinco altares, o maior, o da Senhora do Rosario, do Crucificado, de S. Miguel, e o de Jesus-Maria-José.

No altar-mór ha um quadro bom, o _lavapedes_, mal restaurado, infelizmente; algumas campas com lettreiros no chão da capella-mór; duas pias d’agua benta que são dois capiteis do seculo XIV, escavados; na sacristia um arcaz de boa madeira, com metaes bem cinzelados.

O terreiro ao redor da egreja era d’antes o cemiterio; campas e ossadas foram removidas para o cemiterio dos Arneiros (Bemfica). Ficou apenas uma grande pedra, com inscripção latina, que era o tumulo de José João de Pinna de Soveral e Barbuda, fallecido em 1710.

Para o novo cemiterio de Bemfica foi removida a campa de D. Anna Maria Guido, marqueza de Ravara, fallecida em 1752.

No alto de um cunhal, do lado do sul, está uma pedra com lettreiro em caracteres gothicos (seculo XV, talvez) que diz:--Esta sepultura he de Luis d’Abreu e de todos seus herdeiros.

Na capella-mór ha bastantes campas.

--Esta sepultura é de Joam da Costa de Mendonça e de quem nela se quizer enterrar.

--Sepultura de Francisco Jorze e de sua molher e de seus herdeiros... de 1569.

--Sepultura de George Pires e de sua molher e herdeiros. 1616.

--Sepultura de Jozeph da Costa e de sua mulher Catharina da Costa a coal faleceo a 28 doutubro de 1712 e pera todos os seus herdeiros.

--Sepultura de Guilherme Street Arriaga Brum da Silveira e Cunha e familia. 28 de outubro de 1826. P. N. A. M.

--Esta sepultura mandou fazer João Correa pera se enterrar nella e seus herdeiros.

--Sepultura de Antonio de Almeida e seus herdeiros faleceu a 14 de mayo de 1601 anos.

--Sepultura de Luiz Ramalho Pre... e de sua mulher Francisca de Almada Tiba e de seus herdeiros faleceu a X d. de junho de 1637.

--Sepultura de Bastião criado de S. M. e de seu herdeiro. Faleceo a 5 doutubro de 1796.

--Sepultura do P.ᵉ H.ᵐᵒ Machado cura que foi nesta igreja muitos annos e de seu herdeiro.

--Sepultura perpetua de Simão Moreira e sua molher Domingas Francisca e de seus herdeiros a qual lhe mandou pôr seu filho o P.ᵒ Luiz Moreira. 1678.

--Sepultura de Lianor Jorze molher que foi de Luiz Glz d’Oliveira provedor dos contos do reino faleceo a 21 doutubro de 1567, e de seus herdeiros.

Transcrevi estes lettreiros porque são ineditos.

Na frontaria da egreja está uma inscripção referente á fundação; e uma pedra com escudo d’armas que não sei explicar; não me parece portuguez, nem hespanhol esse curioso brazão em que se vê uma perna com bota, por baixo de uma estrella.

É bem interessante a modesta egreja, agora parochia da capital.

Luz

Da egreja de Nossa Senhora da Luz resta-nos o cruzeiro, e a capella-mór; o corpo da egreja abateu por occasião do terremoto de 1755. É da fundação da infanta D. Maria, senhora opulenta e de alta cultura d’espirito. Nesta egreja ha obras d’arte notaveis em esculptura de madeira e pedra, em architectura, e em pintura. A capella-mór tem 12 x 8 metros; o cruzeiro 21 x 10.

A capella-mór é ampla, alta, coberta de abobada revestida, assim como as paredes, de marmores diversos formando quadrellas; é o conhecido estylo classico dominante no findar do seculo XVI. Nichos com estatuas animam as grandes paredes. Na parede que olha ao sul estão rasgadas janellas que dão bastante claridade.

O altar-mór está elevado, sobre o pavimento da capella; quatro degraus se sobem para lá chegar.

Além do altar-mór abre-se um grande arco que abriga o sacrario, soberba obra d’arte muito elegante, em madeira entalhada e dourada; atraz fica o vasto côro, agora sacristia, no mesmo nivel da egreja. Proximo do grande altar, no chão, ha uma abertura circular que diz para a fonte de agua milagrosa.

A meio da capella-mór o singelo tumulo da fundadora.

Na capella-mór ha duas capellas lateraes; outras duas no cruzeiro.

Empregaram na construcção marmores branco e vermelho, servindo-se da pedra d’Arrabida na ornamentação; nos frisos e molduras sobresahem quadrados, losangos, ellipses feitos n’essa pedra, bem trabalhada e polida. A pedra vermelha fórma o fundo, a branca a parte saliente e ornamental.

Nos grandes nichos da capella-mór estão dezesete estatuas em marmore: Nossa Senhora com o Menino de Jesus, S. Thomé, S. André, S. João, S. Lucas, S. Matheus, S. Marcos, S. Simão, S. Mathias; estas á direita, olhando para o altar-mór; á esquerda, S. Filippe, S. Thiago Maior, S. Pedro, S. Judas Thadeu, S. Thiago Menor e S. Bartholomeu. As estatuas da Virgem e dos Evangelistas são maiores.

Estas estatuas são em marmore branco d’Estremoz, lindo marmore; o trabalho é muito pegado, os artistas não se atreveram a desligar, a destacar braços ou mãos.

No exterior do edificio, lado sul, ha outra estatua de Nossa Senhora com o Menino e, ainda uma terceira na frontaria do Collegio Militar; todas da mesma época e do mesmo estylo acanhado. São todavia de bom trabalho, e representam excellentemente o estado da estatuaria em Portugal naquelle tempo.

No altar-mór admiramos alguns baixos relevos em fino jaspe, em seis pequenas pilastras; são figuras symbolicas da Fé, Justiça, Fortaleza, etc.

Sobre a figura da Fortaleza ha um medalhão com Hercules, o leão e o centauro finamente executado.

Uma das figuras é a Astronomia, outra a Medicina. Nas pilastras que formam as esquinas do altar, as faces lateraes mostram fructas e flores, escudos e peças d’armadura. Estes bellos baixos relevos são de pura renascença, d’um estylo muito anterior ao frio classicismo da capella-mór.

Alguns dos symbolos destoam da ideia christã, parecem deslocados na ornamentação d’um altar-mór. É possivel que sejam peças destinadas a outra obra d’arte, que foram aqui aproveitadas. Nas duas capellas lateraes do cruzeiro de Santa Maria de Belem (Jeronymos) ha uns lindos baixos relevos nos altares, pouco vistos, que passam mesmo despercebidos porque teem luz escassa, que, me parece, se relacionam com estes da Luz na qualidade da pedra, e no estylo do trabalho. E no portico do poente, nos Jeronymos, superiormente, ha duas pilastras que dizem com estas da Luz[1].

[1] Devemos lembrar que Jeronymo de Ruão, architecto da Luz, tambem o foi da capella-mór dos Jeronymos

Na alta parede da frente da capella-mór ha oito quadros em disposição symetrica; o maior occupa o centro, é Nossa Senhora da Luz com o Menino, que apparecem ao pobre Pedro Martins; o milagre que deu origem á fundação da ermida primitiva.

Este quadro está assignado: _Franciscus Venegas, Regius pictor faciebat_.

Sobre este quadro está outro painel de moldura circular, que representa a Coroação da Virgem; está tambem assignado: _F. Venegas. f._ Como estes dois quadros estão bastante altos as assignaturas não se descobrem á primeira vista, mas é facil a leitura com um binoculo regular.

Á esquerda da Coroação está a Adoração dos Reis, á direita a Apresentação no Templo, em molduras ellipticas; não lhes descubro assignatura. Aos lados do grande quadro do milagre de Pedro Martins, está a Visitação á esquerda, e á direita a Adoração dos pastores; não lhes vejo assignatura; por baixo á esquerda Nossa Senhora e S. Joaquim, á direita a Annunciação, este assignado: _F. Venegas f._

Os paineis não assignados podem ser do mesmo artista _Venegas_; são pinturas em madeira, bem desenhadas e pintadas, em boa conservação. Á primeira vista estas pinturas destoam, divergem entre si; a meu vêr porque o pintor, que era excellente executante, não tratou de inventar, contentando-se em copiar, ou quasi, os bons quadros que conhecia.

Assim este quadro recorda Raphael, outro o Sarto, aquelle o Parmesão; na Coroação da Virgem, singelo grupo em fundo dourado, parece vêr-se a reproducção de quadro muito antigo de um _primitivo_; na grande composição central lembra logo a Transfiguração de Raphael; na Annunciação, que tem grande vigor de colorido, e luz intensa de grande effeito, recorda o Mazuoli. Isto é, este Venegas, excellente pintor, está completamente dominado pela escola italiana.

Na capella da esquerda está o quadro da Circumcisão. O fundo é formado por apparatoso edificio do renascimento. A figura da Virgem é admiravel; á esquerda, a Caridade, mulher com duas creanças, de bom effeito; á direita, no fundo escuro, a Humildade. No primeiro plano vê-se um tapete persa e um cãosinho felpudo, de luxo, pintado com muito cuidado.

Na capella á direita a Sacra Familia, Anjos coroando: fundos claros, edificio do renascimento em ruina. Detalhes minuciosos.

O trabalho d’esculptura em madeira dourada que reveste a grande parede da capella-mór faz bom effeito; é desegual, talvez em parte material aproveitado para encher o vão. Mas o sacrario é uma peça de grande elegancia; renascença classica de cuidadosa execução.

Na capella esquerda do cruzeiro está um quadro notabilissimo. S. Bento dá a regra aos seus monges. No primeiro plano á esquerda el-rei D. Manuel, á direita a infanta D. Maria. Um fidalgo e diversos monges formam grupo atraz da figura do rei, uma dama e muitas freiras estão depois da infanta. Todas as figuras estendem o braço direito, a palma da mão para cima como signal de acceitação da regra. O pintor para evitar monotonia variou muito as posições dos dedos; foi um verdadeiro esforço, um trabalho habilidoso e paciente o desenho de tantas mãos; a mão fina e lisa das damas novas, a nodosa e enrugada das velhas, a robusta e a gorducha dos fortes monges. D. Manuel tem o collar de Christo. A infanta veste com fausto; vestido de tissu lavrado, apertado na frente com laços de fitas com agulhetas; joias com pedras preciosas, gorgeira de fina renda, gola muito alta, collar com fita pendente de ouro e pedras. O lindo rosto juvenil da dama de côrte, vestida mais modestamente, pintado n’um tom menos brilhante, succede muito bem á magestosa grande dama, e prepara para o aspecto ascetico do grupo de freiras. Tanto estas como os frades teem phisionomias estudadas; são retratos. Por isto este painel tem o duplo valor de obra d’arte, e de documento historico, dando-nos ainda preciosos elementos de indumentaria. Ha outros retratos da infanta; e o busto de prata que se conserva em Santa Engracia (antiga egreja dos Barbadinhos) harmonisa com este em aspecto e vestuario.

As grades da capella-mór e das outras capellas são em pau santo com torcidos.