Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

Part 12

Chapter 124,015 wordsPublic domain

No cruzeiro á direita fica outro altar. É a capella do Senhor dos Afflictos; é a imagem de Jesus Crucificado, esculptura em madeira de boa execução, corpo robusto com anatomia estudada. Sob a imagem, n’um friso, ha duas taboas pintadas que merecem attenção. Em uma Santo Antonio e S. João Baptista; na outra as santas Agueda e Luzia, com os seus emblemas. São pinturas talvez do começo do seculo XVI alli applicadas.

No cruzeiro, á direita, uma porta singela dá para uma pequenina capella, agora sem culto; construcção do começo do seculo XVII. Tem rodapé de azulejos, altar e chão de boa pedra. Está aqui um tumulo com escudo de armas sem lettreiro; outro com brazão e a seguinte legenda:

--Aqui está sepultado o religiosiss.ᵒ varão da ordem de Chr.ᵒ D. F. Martinho de Ulhoa bispo que foi de S. Thomé, Congo e Angola juntamente que mandou fazer esta capella em a qual se lhe diz missa quotidiana falleceo a 8 d’agosto de 1606.--

Guarda-se na sacristia (antigo côro) um grande retabulo que servia de tapar o vão do arco da capella-mór. Representa o milagre de Nossa Senhora a Pedro Martins. É fraca pintura. Está assignado e datado: _Anno de 1714. Henrique Ferreira fez_.

Sobre o altar da sacristia está a imagem de Nossa Senhora dos Remedios.

É esculpida em madeira, e por nesta ter dado o caruncho a vestiram de seda para occultar as lesões. Merece toda a attenção. É pintada e dourada; luxuoso vestido rodado de mangas perdidas, fita de joias em relevo com imitação de pedras finas. No vestido o artista imitou rico tissu floreado.

O vestuario d’esta imagem recorda o do retrato da infanta. Deve ser esculptura do fim do seculo XVI.

Da mesma época deve ser um grande frontal com o brazão da infanta bordado no centro e aos lados; tem fachas de velludo vermelho com bordado alto a ouro e prata, sendo os vãos ou entrefachas de seda branca.

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Junto do altar-mór a abertura do poço ou fonte da agua milagrosa, um simples bocal raso com tampa de madeira.

A fonte é bem curiosa. A entrada deita para um quintal contiguo. Descemos a escada e na parede vemos alguns azulejos antigos, mouriscos, de fino esmalte e relevos. Um portico em estylo manuelino dá para o espaço onde nasce a agua; uma abobada forrada de azulejos brancos com estrellas azues; outros revestem os rodapés e paredes, em pequenos quadros formados de quatro azulejos, de diversos typos, alguns raros. O portico tem columnas torcidas e no intercolumnio uma facha com romans.

Os pintores da Luz

Filippe I (II de Hespanha) n’uma carta de 14 de março de 1583 chama a Francisco Venegas, _meu pintor_.

(Sousa Viterbo, _Noticia de alguns pintores_, Lisboa, 1903, pag. 153).

D. Sebastião, em alvará de 6 de maio de 1577, diz: _Diogo Teixeira hum dos melhores pintores de imaginarya dolio que ha nestes reynos_.

(Ibidem, pag. 142).

Na collecção de desenhos expostos no Museu das Janellas Verdes, os n.ᵒˢ 307 e 308 parecem-me representar as duas figuras que estão em baixo relevo no altar-mór da Luz.

O desenho n.ᵒ 346 (Museu das Janellas Verdes) é de Venegas; uma rubrica indica que é o projecto de um quadro para S. Vicente de Fóra, e que se executou uma réplica, menor, para S. Domingos de Setubal.

A collecção de desenhos do Museu das Janellas Verdes é muito importante, e vista com attenção dá elementos unicos para a historia da arte em Portugal. Ha mais collecções de desenhos em Portugal em estabelecimentos publicos, e na posse de particulares, que insta tornar conhecidas.

Creio que o n.ᵒ 268 é o esquisso do quadro da capella lateral, a Circumcisão; architectura á romana; o sacerdote no faldistorio, etc., nem falta o cãosinho felpudo.

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Jeronymo de Ruão foi architecto da infanta D. Maria; entre outras obras fez a capella da Luz e a capella-mór dos Jeronymos.

Nos dois capitulos _O lindo sitio de Carnide_ e _Noticias de Carnide_ dei outras noticias e publiquei lettreiros d’esta egreja da Luz, que julgo escusado repetir agora.

Para a historia da inclita infanta D. Maria é fundamental a--_Vida de la serenissima infanta dona Maria_, por fr. Miguel Pacheco (Lisboa, 1675).--Modernamente appareceu á luz um trabalho a respeito da infanta e de suas damas pela Sr.ᵃ D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos. Escusado dizer, é bem conhecida a alta intelligencia e a intensa investigação da auctora, que é escripto fóra da bitola vulgar. Nelle se dá noticia dos differentes retratos da infanta D. Maria.

Transcrevo a curta biographia que vem nos _Elogios de varões e donas_ por ser menos conhecida agora, pois esta obra tornou-se pouco vulgar.

Biographia da infanta D. Maria

A Infanta D. Maria tão illustre pelo dote da formosura, como pelo engenho, erudição, graça, e todo o genero de heroicas virtudes, que a constituiram uma das mais recommendaveis princezas do seu seculo, foi filha d’El-Rei D. Manoel, e da Rainha D. Leonor de Austria sua 3.ᵃ mulher. Seu nascimento foi na cidade de Lisboa, em sabbado 8 de junho de 1521 nos paços da Ribeira; e a 17 do mesmo mez foi baptizada pelo Arcebispo de Lisboa, D. Martinho Vaz da Costa, escolhendo El-Rei seu pai para padrinho em nome de Carlos III, Duque de Saboia, o Barão de S. Germano, Senhor de Balaison, enviado então por Embaixador a este Reino para solicitar o cazamento da Infanta D. Brites com o dito Duque; e madrinhas a mesma Infanta D. Brites e D. Isabel suas meias irmãs. Com a morte d’El-Rei seu pai no mesmo anno de 1521, e por se auzentar para Castella a Rainha sua mãi deixando-a ainda no berço, foi entregue para ser educada em idade competente á direcção da Rainha D. Catharina sua tia, tanto que chegou a este Reino, de cuja escola saiu eminente. Como era dotada de estranha viveza, memoria, e grande juizo aprendeu com facilidade as linguas especialmente a Grega, e a Latina que soube com perfeição, e escreveu com tanta propriedade como se lhe fôra natural e materna. Teve por mestres a insigne Dama Toledana Luiza Segéa exquizitamente douta em muitas linguas, e raro prodigio de sciencia, que mereceu ser celebrada dos maiores letrados d’aquella idade; e a Fr. João Soares de Urró da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, depois Bispo de Coimbra, que tambem o foi dos Principes D. Filippe, e D. João seus sobrinhos.

Ao contar dezaseis annos El-Rei D. João III seu irmão lhe deu caza propria, e separada do paço Real, composta das principaes pessoas do Reino: a qual com riquissimo dote, que seu pai lhe deixou, foi de tão grande renda e estado, que para ser igual á das maiores Rainhas da Europa não lhe faltou mais, que haver o nome de uma d’ellas. Foi Senhora de Vizeu, e de Torres Vedras de juro, e teve por El-Rei D. João III seu irmão muitas mercês, e privilegios, e consta por alguns Documentos que se guardam no Real Archivo, como são: uma carta em data de 26 de janeiro de 1545, em que se lhe concedem de padrão de juro e herdade cinco contos de réis, em virtude do contracto feito com o mesmo Rei D. João III que se acha inserto; e duas cartas expedidas á mesma Senhora Infante de privilegios, e jurisdição de suas terras, e sobre as fintas, e provimentos dos officios d’ellas em data de 2 de novembro do mesmo anno: o primeiro no Livro da Chancellaria do dito Rei a fol. 25, e os segundos no Livro 43 fol. 9, vers. e 14 verso. Creou n’este paço particular uma verdadeira Universidade de mulheres illustres em todo o genero de Sciencias e Artes, de que foi especial protectora; pois não só se encontrava quem se désse á lição dos Livros, e tocasse déstramente differentes instrumentos, mas quem com o pincel, e com a agulha procurasse nos primores da Pintura, e lavôr virtuosa emulação e seguisse os outros louvaveis exercicios: aos quaes ajuntava com tal reverencia, e edificação a pratica dos actos de piedade em todo o genero de virtudes, pela direcção de Fr. Francisco Foreiro, lustre da Ordem Dominicana, que parecia menos Paço Real, que Mosteiro reformado, que podia ser a Religiosas espelho, e doutrina de bem viver. Pela fama de tão Reaes qualidades foi pretendida para Espoza dos maiores Principes da Europa, como foram: o Delfim de França, filho de Francisco I; o Duque de Orleans, irmão do mesmo Delfim, a quem o Imperador Carlos V promettera a investidura do Ducado de Milão, ou do Condado de Flandres; e não se effeituando nenhum d’estes cazamentos, por morrerem ante tempo ambos estes Principes, El-Rei D. Fernando de Ungria, Rei dos Romanos, e depois Imperador enviou Embaixador a Portugal pedindo-a por mulher de Maximiliano seu filho; e ultimamente Filippe II de Hespanha, logo que enviuvou da Rainha D. Maria de Inglaterra. Permaneceu todavia até á morte no estado de Donzella, que havia consagrado a Deos com generoza rezolução, preferindo mais o amor da quietação de seu espirito, que a cobiça de reinar. No anno de 1558, sendo ja fallecido El-Rei D. João III, por comprazer aos dezejos da Rainha D. Leonor sua mãi que procurava anciozamente vê-la, se foi por Elvas a Badajoz com luzido acompanhamento; e demorando-se ahi com ella por espaço de vinte dias, e com a Rainha D. Maria de Ungria e Bohemia sua tia, que a receberam com muitas festas de prazer, se tornou para o Reino. Determinada a não sair de Portugal, e a não admittir propostas de despozorios continuou em religiozos exercicios praticando obras de muito louvor, como foram: a edificação do Convento magnifico de N. Senhora da Luz da Ordem de Christo, que dotou riquissimamente, com a grande obra do Hospital que lhe ficava fronteiro; o Mosteiro de Santa Helena do Calvario em Evora; o Convento de N. Senhora dos Anjos (mais conhecido hoje pelo convento do Barro), de Capuchos Arrabidos, junto da Villa de Torres Vedras, na qual teve ella seu palacio; e o Mosteiro de S. Bento na Villa de Santarem; e deixou em seu Testamento, com que se edificasse Mosteiro para as Commendadeiras de S. Bento de Aviz, que se fez em Lisboa com a invocação, como ella ordenára, de N. Senhora da Encarnação. Fundou mais a Igreja Parochial de Santa Engracia de Lisboa, alem de outras muitas obras de piedade em outras Igrejas, como no Convento da Graça da Ordem de Santo Agostinho, em que assistia muitas vezes com sua prezença e esmollas, quando vivia no Palacio do Castello, a Imagem da Senhora, cujo corpo mandou cobrir de prata primorosamente lavrada, e lhe mandou fazer Capella; e no Real Mosteiro de S. Bento, que então se fabricava, mandou fazer a Imagem grande deste Santo, que se vê no altar mór, e adornar sua Capella, e a de outros altares; e por via do Embaixador de Portugal na Côrte de Roma obteve uma Reliquia do mesmo Santo, que he uma parte da que estava no Mosteiro de S. Paulo daquella Cidade, para enobrecer este Mosteiro, e o de Santarem. Foi a Senhora D. Maria, como universal herdeira da Rainha D. Leonor sua mãi, Senhora Soberana de juro do Senescallado de Agenois em Gascunha, e dos opulentos Dominios de Verdum, e Rieux na Provincia de Languedoc; e alem de muitas baixellas de ouro, prata, joias de grande valor, de cem mil escudos que lhe pagavam os Reis de França, e Castella. Sua morte foi no anno de 1577 a 10 de outubro em idade de 56 annos, nos seus paços da Cidade de Lisboa extramuros junto do Mosteiro de Santos, deixando de si unico exemplo a todas as altas Princezas de virtude e honestidade. Tinha disposto de sua ultima vontade, como se podia esperar de sua muita sciencia, e Christandade, por Testamento de 17 de Julho do mesmo anno de 1577, e Condicillo de 31 de Agosto que fez approvar a 8 de Setembro, o que mais convinha a sua consciencia, determinando muitas obras de piedade por todo o Reino com grandes soccorros para pobres, viuvas, donzellas, orfãos, enfermos, e cativos com tamanha profusão que não houve quazi genero de pessoa, que não experimentasse a caridade, e mizericordia desta Princeza, sem faltar em nada á familia de seus criados, e a todos a quem por qualquer via era devedora de serviços passados, que a todos satisfez larguissimamente: e emquanto a seu enterro foi a primeira clauzula, que se acabasse sua vida, primeiro que estivesse concluida a Capella de N. Senhora da Luz no Convento dos Padres de Christo, que ella havia destinado, e mandára edificar para seu jazigo, a depozitassem, emquanto se acabava, no Mosteiro da Madre de Deos de Lisboa. Seu corpo foi depozitado no Capitulo do dito Mosteiro da Madre de Deos, junto da Rainha D. Leonor, mulher do Senhor Rei D. João II, e celebraram-se-lhe exequias com grande pompa, como convinha á grandeza de sua pessoa, com assistencia d’El-Rei D. Sebastião oito mezes antes de partir para Africa, do Cardial D. Henrique, e de todos os grandes do Reino. Sendo passados quazi vinte annos, por determinação de Filippe I foi trasladada para a sobredita Capella de N. Senhora da Luz a 30 de Junho de 1597. Jaz em o pavimento da Capella mór, em sepultura pouco levantada no meio della, e sem nenhuma letra, ou diviza, symbolizando-se por este signal de humildade a muita que esta Princeza guardou em seu coração por toda a vida. No meio do Cruzeiro ao lado do Evangelho se lê em pouca altura na parede uma Inscripção, gravada de letras pretas romanas em uma pedra de marmore branco de tres palmos de alto, e cinco de largo, a qual diz assim:

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--A Capella moor deste Mosteiro de N. Senhora da Luz e este Cruzeiro são da sepultura da Serenissima Infanta Dona Maria que Deos tem filha d’El-Rei Dom Manoel, e da Rainha Dona Lianor sua mulher na qual Capella e Cruzeiro se não dará sepultura a pessoa alguma de qualquer calidade que seja nem em tempo algum se fara nhum Deposito nem nhum litereiro por assi estar asentado por Sua Magestade e por contrato solene e celebrado que se fez co o Padre Prior e Padres desta Casa confirmado pelo Padre Dom Prior e mais Padres do seu Convento de Tomar cujo trelado esta na Torre do Tombo e nesta Caza de Nossa Senhora. Faleceo a dez Doutubro de 1577.--

Esta biographia vem na obra--_Retratos e elogios dos varões e donas, que illustraram a nação portugueza._ (Lisboa, 1817).

S. Sebastião do Paço do Lumiar

A ermida de S. Sebastião está isolada em alegre terreiro, moldurado de bons predios, alguns antigos, no logar do Paço do Lumiar.

Este logar é continuação do Lumiar propriamente dito, para o lado da Luz e Bemfica.

Partindo do amplo largo da Luz segue-se uma estrada entre boas quintas á Horta Nova; já proximo do Paço ha boas construcções modernas á beira do caminho.

A ermida é muito simples; chama principalmente a attenção a porta em estilo manuelino, elegante e bem conservada.

O exterior da pequenina egreja mostra que a primitiva obra do começo do seculo XVI, soffreu grandes concertos depois. Na cruz de azulejos que está no lado norte lê-se _Anno 1628_; a mesma data se mostra no azulejo que fórra o interior; houve pois grande obra alli n’esse tempo. As volutas d’alvenaria e os pinaculos lateraes do frontispicio levam-nos a crer que mais tarde, no meado do seculo XVIII, talvez depois do terremoto de 1755, houve novo e importante concerto.

Temos aqui azulejos datados d’uma época interessante, do periodo philippino, 1628. São de desenho geometrico na maioria, emquadrando porém bons trabalhos em figura.

O corpo do templo é dividido da capella por um arco e na face d’este arco estão as imagens em azulejo de S. Francisco, S. Pedro, S. Antonio e S. Paulo; sobre a porta lateral está um famoso S. Christovão empunhando respeitavel bordão, com o Menino sobre o hombro. O artista empregava varias tintas, amarello, roxo, além dos tons vulgares. Nas paredes da capella ha pequenos quadros tambem em azulejo, azul sobre branco, representando phases da vida de S. Sebastião, muito mais modernos que os do corpo do templo.

É nos azulejos do arco divisorio, infra, que está em grandes algarismos a data 1628, quasi encoberta pelos estrados de madeira.

No alizar d’este arco, ha flores pintadas com mimo; assim como no pequeno côro se vêem caixotões com pinturas.

O ladrilho é antigo e bom; com azulejos brancos entre os tijolos vermelhos. As portas são de excellente madeira, em almofadas de boa execução.

O tecto da ermida soffreu alguma ruina, talvez pelo terremoto, mas conserva ainda boas pinturas antigas, entre estuques mais modernos.

Tem alguns lettreiros em sepulturas, uns bem legiveis, outros gastos pela passagem dos devotos, o que mostra que em tempos foi esta ermida frequentada; agora poucas vezes ha alli missas.

Transcreverei algumas inscripções.

--Aqui jaz sepultado o padre Joaquim Jorge faleceo a 9 de novembro de 1783.

--S.ᵃ do P.ᵉ Antonio Pinheiro capelão que foi d’esta hirmida o qual faleceu na era de 1705.

--S.ᵃ do capitão Estevão Soares de Alvergaria cavaleiro da ordem de Christo faleceu a 11 de dezembro de 1644 e de sua molher Anna de Masedo da Maia e de sua mãi Madalena da Maia....

Tem seu escudo gravado; a cruz fioreteada, com orla de escudos, elmo e paquifes.

Outra campa é do--P.ᵉ Antonio Mamede bemfeitor desta irmida, que morreu em 1 de abril de 1791.

Em outra muito gasta pareceu-me vêr o nome Rodrigo Diniz Moreira.

Sobre a torre dos sinos ergue-se no eirado um campanario onde está o sino das horas; porque tem seu relogio a pequena ermida, com mostrador voltado para norte.

Ha na frontaria quatro argolas de ferro que serviam para segurar um grande toldo na occasião das festas.

Quando fiz o esboceto do frontispicio estive a conversar com um velhote que antigamente tratava do relogio, e armava o toldo, que era quasi sempre uma vela de navio emprestada pelo arsenal de marinha.

Embora humilde e acanhado tem o pequeno templo uma certa importancia por ser anterior ao grande terremoto de 1755, e por nos conservar além do gracioso portal manuelino, pinturas e azulejos do seculo XVII, em bom estado de conservação.

Lumiar. Quinta do Sr. Duque de Palmella

Esta egreja de S. João Baptista do Lumiar é freguezia muito antiga.

A disposição do templo mostra a sua remota fundação, grandiosa, em tres naves; mas as reconstrucções e concertos deram-lhe um aspecto moderno.

Consta que foi esta egreja fundada em 1267. Eram padroeiras as freiras de Odivellas, por doação de D. Thereza Martins, viuva de D. Affonso Sanches, filho bastardo d’el-rei D. Diniz.

Não pára aqui a historia. D. Affonso III possuia aqui uma casa de campo com sua quinta; esta propriedade pertenceu depois a D. Diniz.

Em terreno da quinta foi edificada a egreja. A posse passou ao bastardo de D. Diniz, o infante D. Affonso Sanches, e então se chamou á casa de campo o Paço de Affonso Sanches.

Este entrou nas luctas d’aquella época atormentada, os bens foram-lhe confiscados, e D. Affonso IV, o irmão, chamou-lhe o Paço do Lumiar. Mais tarde a propriedade deixou de pertencer á corôa, mas conservou sempre o nome de Paço do Lumiar; por alli se ergueram casas, fez-se povoação, e ao fim d’ella uma ermida dedicada a S. Sebastião.

O marquez de Angeja, D. Francisco de Noronha, em fins do seculo _XVIII_ edificou o actual palacio, hoje pertencente á Casa Palmella.

O duque de Palmella, D. Pedro, homem de espirito cultissimo e fino gosto, gostava immenso da sua quinta, augmentou-a com a que pertencera á casa dos marquezes de Olhão, depois ao conde da Povoa, e algumas de menor importancia, e assim formou a grandiosa quinta actual, com o seu palacio, e grande pavilhão, jardins, estufas, avenidas de grandes arvoredos, obras de arte de merecimento.

Sendo de forte declive o terreno da quinta tiveram de fazer grandes socalcos, sustentados por fortissimas muralhas o que dá effeitos raros, perspectivas inesperadas a edificios e arvoredos. Ha ahi bellos exemplares vegetaes, a Araucaria excelsa é a primeira plantada em Portugal, o dragoeiro, ainda que um pouco mutilado é bello exemplar, a Araucaria brasileira compara-se á celebre do jardim botanico de Coimbra; cedros, platanos, e ulmeiros seculares alastram fechadas sombras. Nesta quinta se deram luzidas festas no tempo do 1.ᵒ duque, e aqui se guarda, bem ordenada e conservada, a grande e preciosa livraria Palmella.

Mas dos tempos de Affonso Sanches, de Diniz? Nada, nem vestigio; nem uma pedra toscamente lavrada, ou singelo lettreiro, nada recorda esses tempos antigos.

Terremotos

Esta formosa cidade de Lisboa tem sido victima dos terremotos; impossivel calcular o trabalho perdido, a extensão e a intensidade de tanta ruina.

Em certos pontos da cidade a camada de entulhos, caliças, fragmentos de tijolos, é de 3 a 4 metros; pela abertura de cabôcos, e installação de canalisações, e muito se tem escavado nos ultimos annos por todos os arruamentos, descobrem-se na baixa, no Rocio, por exemplo, trechos de canos antigos abandonados e sobrepostos, ainda a profundidade maior.

De tremores muito antigos, e dos da alta idade média ha tradições.

O de 24 d’agosto de 1356 destruiu parte da Sé, e causou enorme devastação na cidade.

Em janeiro de 1531 houve terremotos a seguir, sendo maior e mais destruidor o de 26 d’esse mez.

O de 28 de janeiro de 1551 derribou muitos predios.

Em 27 de julho de 1597 uma parte do monte de Santa Catharina escorregou para o rio, ficando aquelle alteroso monte dividido em dois, Chagas e Santa Catharina; tres arruamentos desappareceram por completo.

Em 1755 a cidade estava maior, mais povoada; o terremoto de 1 de novembro fez muitas victimas, grande parte da cidade ficou arrasada, e o incendio causou incalculavel prejuizo.

Mencionam-se terremotos em 1598, 1699, 1724, fortes mas sem causar grande damno; os abalos de 1761, 1796, 1807; o de 11 de novembro de 1858 muito sensivel, em Setubal foi destruidor, matando gente e derribando casas.

O sr. Paulo Choffat tem trabalhos publicados sobre os ultimos abalos de terra sentidos na capital.

É certo que Lisboa está n’uma zona perigosa; devemos reparar n’isto. Nada de concentrar tudo em Lisboa, guardem-se algumas cousas em sitios mais garantidos.

E todavia ha aqui consideraveis construcções que atravessaram no seu logar e prumo essas medonhas convulsões; por exemplo uma parte consideravel das muralhas do Castello, Santa Luzia e a sua muralha, as capellas orientaes do Carmo, os arcos do Borratem, a casa dos Bicos, a frontaria da Conceição Velha; bastantes edificios anteriores ao abalo de 1755 estão de pé; alguns palacios aguentaram as suas linhas, e o labyrintho das viellas de Alfama conserva a planta medieval.

Mas basta olhar as paredes mais antigas do Carmo e da Sé para perceber pedras de anteriores construcções, fragmentos de lettreiros e lavores, empregados na enxilharia ordinaria. Na vetusta parede norte da Sé ha pedras mettidas no muro que mostram lavor bysantino. No Carmo bocados de campas com lettreiros em gothico, em diversos pontos do edificio, estão empregados como pedra vulgar de construcção. É raro encontrar nos arrabaldes de Lisboa pedras de antigo lavor, da idade média, do ogival, mesmo da primeira renascença no seu logar; Odivellas é uma excepção, assim como o casal da Quintan com o seu muro de ameias. É preciso ir a Cintra, a Torres Vedras, a Santarem para vêr algo antigo de certa importancia.

Na ultima folha de pergaminho do codice n.ᵒ 61 da collecção alcobacense da Bibliotheca Nacional de Lisboa um monge deixou noticia do grande abalo de 24 de agosto da era de Cesar 1394 (1356); fez grandes estragos prostrando castellos e torres em muitos pontos do paiz; em Alcobaça a egreja soffreu muito, no mosteiro houve ruinas, e cahiram muralhas do castello. Foi ao pôr do sol.

Outro monge na mesma pagina escreveu a memoria do terremoto de janeiro de 1531; por mais de 15 dias sentiram tremer a terra; mas no dia 26, antes do nascer do sol, foi o grande tremor; conta que em Lisboa houve grande estrago; no mosteiro houve muita ruina, não escapando a parte superior do claustro.

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O abalo de terra de 1755 foi violentissimo, mas escriptores e artistas ainda lhe augmentam as culpas. Este terremoto e a invasão dos francezes são motivos fundamentaes para explicar o desapparecimento de muita cousa, uma rica mina para encobrir o desleixo, a estupidez, a mania de estragar que é muito da raça portugueza.