Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

Part 13

Chapter 133,781 wordsPublic domain

No tomo 3.ᵒ da==_Collecçam Universal de todas as obras que tem sahido ao publico sobre os effeitos que cauzou o terramoto nos reinos de Portugal e Castella no primeiro de novembro de 1755_ (Bibl. Nac. de Lisboa, Gabinete de livros reservados), ha alguns opusculos de polemica sobre a grandeza da tremenda catastrophe: ==_Carta em que hum amigo dá noticia a outro do lamentavel successo de Lisboa_==Está assignada por José de Oliveira Trovão e Sousa (1755).

==_Resposta á carta de José de Oliveira Trovam e Sousa em que se dá noticia do lamentavel sucesso de Lisboa._ É de 1756; assignada por Antonio dos Remedios.

==_Verdade vindicada ou resposta a huma carta escrita de Coimbra._ Por José Acursio de Tavares (Lisboa, 1756). De taes escriptos conclue-se que o terremoto destruiu bem a terça parte de Lisboa e que o incendio que se lhe seguiu foi terrivelmente devastador; mas fóra da area de grande intensidade do abalo, e além do espaço que o fogo alcançou, muitos predios, bastantes palacios, grandes arruamentos ficaram salvos; agora é bem raro encontrar uma frontaria, uma janella, uma grade de varanda anterior ao terremoto. No final do seculo XVIII e no seculo XIX a transformação foi completa; basta a vulgarisação da vidraça e o desapparecimento da rotula para modificar o aspecto da cidade. Em povoações onde o terremoto não foi tão destruidor, apenas se sentiu, a transformação foi analoga. É que na verdade o portuguez é bem fraco conservador. Aqui pelos arrabaldes de Lisboa direi mesmo que é destruidor. Por isto eu dou toda a attenção ao que me parece antigo, me demoro com o anterior ao seculo XVIII, e quasi pasmo quando me surge um fragmento do seculo XVI.

Folheando qualquer _Illustração_ estrangeira se vê o carinho, o amor com que em paizes muito mais atormentados que o nosso se guardam antigos edificios, casas particulares de aspecto artistico, objectos de uso vulgar consagrados pela idade, qualquer cousa que seja documento do antigo viver. Os terremotos são damninhos, mas a indifferença, o desleixo, a ignorancia são grandes causas de destruição.

* * * * *

Este caminho entre varzeas ferteis, arvoredos mansos, collinas de grandes curvas com terras de semeadura e verdes pinhaes, por onde vamos encontrando gente do campo, scenas da vida popular, é a via tragica na historia de Portugal, brados de victoria e rumores de desespero, marchas de tropas em dias de lucta, por aqui passaram entre estas paisagens que só lembram agora frescas aguarellas; patuleias e cartistas; miguelistas e pedristas, columnas de Junot e de Wellington; castelhanos que vieram cercar Lisboa, portuguezes voltando de Aljubarrota; e provavelmente cavalleiros de Affonso Henriques, e dos mouros, dos godos e dos romanos; porque é esta a estrada que leva a Lisboa, a antiga e nobre cidade, o grande porto maritimo.

Na ida para o Correio-Mór, perto da Povoa de Santo Adrião, reparei em certa pedra lavrada de aspecto raro; na volta parei e fui vê-la; é

_Uma ara romana._

Ha um poço coberto, encravado no muro, a poucos metros da estrada; sobre um pequeno arco um nicho com a imagem de S. Pedro; perto um poial, alto, e no chão uma pedra lavrada, com funda cavidade. É um parallelepipedo de oito decimetros de comprido, por tres de altura, proximamente, de pedra vidraço; um cordão de forte relevo divide os lados em duas fachas; na superior um lavor geometrico, curvas em grega torneando saliencias circulares; na facha inferior quatro rosas entre curvas symetricas. Creio que é uma ara romana. Salvou-se junto da fonte d’agua com virtude, guardada pela tradição. Por aquelles sitios teem apparecido antiguidades romanas, ainda que são muito menos numerosas as inscripções que nos arredores de Cintra. Como esta pedra lavrada atravessou intacta tantos seculos, n’este paiz de estragados!

* * * * *

--Versos novos?!

--Umas liras! diga já, frei Simão!

Estavam no jardim, na meia laranja da cascata, á sombra do platano alteroso. Linda manhã de junho. Era o dia anniversario da senhora morgada; visitas de Lisboa animavam o palacio. A missa tinha sido ás 7, e o almoço terminára ás 9. Alguns dos senhores partiram para a tapada, outros para o picadeiro vêr os dois cavallos novos que o conde trouxera de Sevilha.

O apparecimento de frei Simão, frade jeronymo, que viera de Belem em ruidosa e balouçante caleça, foi saudado com alvoroço; o frade tinha sempre a contar anecdotas facetas, algumas muito repetidas mas que elle contava com certa graça, e noticias da gente palaciana, sempre saboreadas com delicia.

Frei Simão avançou devagar, até perto da morgada, muito serio, fez uma cortezia reverendissima, e recitou o soneto de parabens pelo feliz anniversario; era composição nova; vinha escripto em primorosa lettra num papel, com sua inicial floreada, enrolado e atado com fita de seda branca.

Depois deixando o tom ceremonioso, pondo-se muito risonho, annunciou os versos novos, umas _sonóras_, não umas _liras_...

--Diga, diga.

--É a segunda vez que as leio...

--E nós a julgarmos que tinhamos a primicia...

--A primeira vez só uma pessoa, alta pessoa, as ouviu. Por isto posso dizer a primicia.

--Quem seria a alta pessoa?

--Eu digo, senhora morgada; foi el-rei que Deus Guarde.

--Bravo! foi ao Paço? teve audiencia?

--Foi na rua, antes na estrada. El-rei viu-me passando pela estrada de Pedrouços; mandou parar o coche. E bradou-me:

--Então, oh! Santa Catharina, fizeste a resenha?

--Sim, meu senhor, e está em verso; ia levá-la a Vossa Real Magestade.

--Não precisas ir mais longe; dize lá.

Acheguei-me á porta do coche e li os versos. Eu já me sentia acanhado porque a lira é comprida, e o coche ali parado na estrada. Mas el-rei D. João V gosta de versos jocosos; não imaginam como elle ria.

--E como soube elle que Vossa Reverencia fizera a lira?

--Ora, foi assim. Em Belem, no nosso mosteiro, pela festa de S. Jeronymo, costuma haver lauto jantar, com convidados; ao jantar da casa, jantar de festa, juntam-se muitos presentes; enche-se o grande refeitorio; o d’este anno foi estrondoso. El-rei soube e encontrando-me ha dias em palacio, disse-me para lhe fazer a noticia dos pratos; e eu puz a lista em verso; fiz a lira!

--Diga, diga.

--Eu começo; frei Simão de Santa Catharina collocou-se em frente das damas; limpou lentamente a fronte, a bocca e o nariz com o lenço cheiroso a agua de rosas.

_Monarcha Soberano Pois Vossa Magestade assim me ordena O jantar deshumano Irá cantando a Musa pouco amena E em ser só se verá que foi diverso No refeitorio em prosa e aqui em verso._

A lira vae descrevendo o grande refeitorio, o adorno das janellas com estatuas, festões, grinaldas de flores naturaes, os aparadores carregados de pratas, o chão atapetado de flores.

_Estava o refeitorio num brinco._

Em cada logar da vasta meza havia os _appetites_, as pequenas iguarias, com seus adornos.

_Cobria o cuvilhete um papel retalhado, com acerto que inda que pequenete como grande queria estar coberto. Na marmelada vinha, guaposito guarnecido de flores um palito. Em cada assento havia garfo, faca, colher e guardanapo dois pães, com bizarria melancia excellente, melão guapo figos, uvas, limões, pecegos, peras sem graça, o cesto enchiam, mui devéras. A ilharga da salceira um bom tassenho de presunto havia tão magro e tão lazeira que a mim me pareceu ser porcaria tambem tinha azeitonas e alguem disse que foram d’Elvas._

Estes eram os appetites que adornavam os logares dos commensaes. Agora os pratos.

_Foi o primeiro prato uma tijella cheia em demazia de caldo de gallinha com canella que da gallinha trouxe a propriedade porque o caldo tinha ovo na verdade. Foi o segundo prato uma bem feita sopa á portuguesa que dava de barato O filis e o primor que ha na franceza._

* * * * *

_Por algum grão delito foram muitos perús esquartejados uns vêm com sambenito outros vinham sómente afogueados._

* * * * *

_Outro prato de assado que era lombo de vacca mui tenrinho. Comia afadigado outro leigo mui gordo meu visinho rollos e pombos ensopados._

Seguiram-se as frigideiras com linguas e miolos. Os coristas que serviam á meza eram muitos e andavam lestos. Appareceram as _empanadas inglezas_; tinham:

_Ade, perdiz, gallinha, frangalhada E disto vinha a olha enchouriçada. Apoz isto algumas doze tortas._

* * * * *

_Cinco ou seis pratos de ovos De pão de ló por dentro recheados Outros mal entrouxados Outros ovos tambem com corôa regia De almojavanas conto A duas mui grandes por cabeça Em assucar em ponto._

Depois d’isto _empada de vitella_ e _arroz doce_.

_Sinceramente disse aqui a verdade Falta o perdão de Vossa Magestade._

Vem agora a nota no amarellado papel que estou seguindo:

--_Indo levar o papel a Pedrouços se encontrou el-rei que mandou parar o coche e parado ouviu ler todo o papel com muito agrado._

Mas frei Simão de Santa Catharina esqueceu-se de uma cousa, e o padre geral quando viu o papel reparou logo, e zangou-se; obrigou o frade a fabricar mais versos e a levar o supplemento a el-rei.

_O caso é que na salceira me esqueceu de meio a meio, com o presunto e azeitonas pôr um pedaço de queijo._

* * * * *

_Pois vá, faça outros, e ponha (me disse o Geral severo) que não quero que diga el-rei que não dei queijo framengo._

_Saiba Vossa Magestade que tambem queijo tivemos noviços e sacerdotes coristas e frades leigos._

A _lira_ de frei Simão Antonio de Santa Catharina foi muito gabada e applaudida.

--É uma delicia!

--Um verdadeiro appetite, faz vontade de comer.

--Diga outra vez, e muitas damas insistiam no pedido. Mas a condessa observou:

--Tenham caridade, isso é incommodo para Sua Reverencia. Ainda se não lembraram de mandar vir um refresco.

Veiu logo um creado com bandeja de prata com bolos e marmellada de Odivellas; outro creado com licor de tangerina e canella, e um copo de limonada. Voltaram os senhores, fez-se grande roda, e entre risos e _ós_ admirativos repetiu-se a leitura dos versos.

--Percebe-se logo que frei Simão é um academico.

--E de varias academias.

--Da Anonyma sei eu, por ser lá meu confrade.

--E da Portugueza.

--E da Escholastica.

--É verdade, frei Simão, deve saber, ora se sabe, houve eleição renhida em Odivellas; muita gente, e da mais alta se interessou na eleição da nova abbadessa.

O frade contou o que sabia dos bilhetes, dos pedidos, das ordens, das promessas ás freiras eleitoras; foi uma bulha que durou mezes.

--E não fez versos ao caso?

--Isso merecia liras e sonóras.

--É verdade que fiz, não nego e a prova é esta; aqui está a sonóra; e do largo bolso tirou um papel.

--Leia! leia!

--Vou começar.

Os enredos, as bulhas, as trapaças Os enganos, os medos, os temores Os ardis, as astucias, as negaças Os agrados, os risos, os amores; As trombas, os focinhos, as caraças As furias, os raivassos, e os rancores Que houve em certa eleição com forte espanto Darão materia a nunca ouvido canto.

E segue a sonóra n’este tom, narrando os episodios da eleição da abbadessa, no então revoltoso convento de Odivellas, ninho de endiabradas freiras. Este frei Simão tem muitas peças poeticas algumas muito aproveitaveis para o conhecimento de minucias e particularidades da época.

* * * * *

Dias depois de um passeio a Loures e á quinta do Correio-Mór, appareceu-me um cavalheiro d’aquelles sitios, com quem eu cavaqueara, e apresentou-me uma porção de papeis velhos, manuscriptos, que me disse ter encontrado havia annos n’um gavetão da copa monumental do palacio. Percorri os papeis; pouco achei de curioso ou interessante. Entre elles vinham poesias do seculo XVIII, alguns sonetos de anniversarios, dirigidos a pessoas da familia Matta; e uma descripção de lauto banquete no mosteiro dos Jeronymos de Belem, que me pareceu bom documento da época, e singular peça poetica. Por isto a transcrevo em parte. Nos papeis não encontrei nome do auctor. Depois achei n’um cancioneiro a mesma poesia attribuida a frei Simão Antonio de Santa Catharina, e até com a mesma nota pittoresca de ter sido lida a el-rei D. João V, na estrada de Pedrouços.

Torres Vedras

Notas d’arte e archeologia

(1906)

Paineis antigos em Torres Vedras

Em rapida visita que fiz, ha pouco, a Torres Vedras, chamaram-me a attenção os quadros em madeira, antiga pintura, que vi em differentes egrejas.

Torres Vedras foi villa das rainhas, alli viveram familias nobres, houve paços reaes e casas religiosas importantes.

Já no seculo XIII as egrejas de Santa Maria do Castello, de S. Pedro, de S. Miguel e de S. Thiago existiam, como se vê das inquirições de Affonso III. Isto mostra que a villa era importante já na edade média, e explica um tanto a existencia de um numero relativamente consideravel de pinturas antigas. Só mencionarei as que me despertaram mais a attenção.

Ha alli pinturas de varios pinceis e épocas, umas anteriores á renascença, algumas do inicio d’essa época, outras do meiado do seculo XVI.

Na egreja de Nossa Senhora do Amial vi quatro quadros grandes, representando S. Paulo, S. Pedro, S. Lourenço e S. Sebastião.

Na sacristia de S. Pedro estão tres quadros em madeira; um d’elles, a Annunciação, muito lindo e em bom estado.

Na egreja, sobre o arco do cruzeiro, está um painel grande, representando S. Pedro, retocado modernamente.

Na egreja da Graça, na segunda capella á direita, seis quadros pequenos, um tanto sujos mas não arruinados; muito interessantes.

Ha um pouco de renascença nas construcções, voltas redondas nas arcadas, apenas.

Figuras principaes sem ornatos, mas as secundarias vestidas á época, grandes e plebeus, damas da côrte, mulheres humildes, com os seus trajos proprios, muito minuciosa e galantemente indicados.

Representam: o Presepe, Adoração dos Reis, Annunciação, a Virgem e Santa Isabel, S. José e Nossa Senhora, o Transito de Nossa Senhora.

Os rostos, muito finamente tocados, parecem retratos, nos vestuarios não ha phantasias, o pintor reproduziu o que tinha á vista; mesmo o agrupamento, a composição dos quadros, agrada. Tem um lindo tom; limpando um pouco, com o lenço humedecido, um cantinho de uma d’estas pinturas appareceu logo o tom de esmalte que, infelizmente, tantos outros perderam.

Esses seis quadrinhos são bem notaveis.

Na capella-mór da egreja do Varatojo vi quatro grandes paineis, bem conservados: Annunciação, Jesus resuscitado, Adoração dos Reis e Adoração dos pastores. Devem ser parte de uma série. Não lhes vejo relação com as séries do Museu de Bellas-Artes.

Na ante-sacristia, o Presepe, quadro pequeno; na sacristia, um Milagre de Santo Antonio e a Descida do Espirito Santo, paineis de grandes dimensões e em bom estado.

Em Santa Maria do Castello ha pinturas antigas em madeira, no corpo da egreja e na sacristia; estes ultimos são quadros menores, representando os episodios classicos da paixão; soffreram retoques pouco felizes; o que nelles mais padeceu foi o colorido.

O desenho das figuras; o aspecto, merece nota; tem um tom archaico; lembraram-me muito umas pinturas que existem no Museu das Janellas Verdes, em que os bigodes apparecem meio-rapados e as barbas com um córte especial.

Todos estes paineis, que vi em Torres Vedras, me parecem de origem portugueza, com ligeiras, attenuadas reminiscencias de influencia flamenga, e com pequena parte, ou nenhuma, do renascimento; por isto os achei importantes para a historia da pintura portugueza.

O Tumulo dos Perestrellos

A egreja parochial de S. Pedro de Torres Vedras tem a sua porta principal voltada a poente, como todos os templos antigos, medievos, da interessante villa. Essa porta é muito ornamentada em estylo manuelino; sobre o arco assenta um escudo bipartido com armas do rei e da rainha. Em dois arcos do cruzeiro ha tambem ornamentação no mesmo gosto, mais singela. A egreja tem tres naves, a central é coberta de madeira apainelada, com as molduras pintadas e douradas. As naves lateraes conservam ainda trechos de antigas abobadas com artezões. Parte das paredes está vestida de azulejos brancos e verdes, em uso nos seculos XVI e XVII. Ha em varios pontos da egreja e capellas outros typos de azulejo de épocas mais modernas.

Alguns quadros pintados em madeira, antiga escola portugueza, outros em tela, na egreja, na sacristia e na annexa casa dos clerigos pobres; algumas esculpturas religiosas, especialmente a estatueta de S. Pedro d’Alcantara, merecem attenção.

No cruzeiro, á direita, está um elegante ediculo com uma urna sepulcral.

É no mesmo estylo da porta principal. O ediculo é em pedra da localidade, que é rija, resiste bem ao tempo, e toma, no passar dos seculos, uma côr amarella torrada, agradavel á vista. A urna é em jaspe, em fino trabalho.

Sobre bases facetadas erguem-se columnas que sustentam arcos concentricos; ha uma facha muito lavrada, de folhas e flores, com um pequeno busto em baixo relevo, imitando medalha, que parece um retrato; mostra a cabeça coberta com um capacete um tanto raro. Busto egual se vê na porta da egreja.

No ediculo as columnas e arco exterior representam troncos arboreos cingidos por fitas.

A urna pousa sobre leões de inferior trabalho. Na face anterior tem o lettreiro e aos lados o brazão, repetido, dos Perestrellos.

N’esta urna estão os ossos de João Lopes Perestrello e de sua mulher Filippa Lourenço. Este homem foi fidalgo da côrte de D. João II. Foi para a India, capitão de uma nau, na armada de Vasco da Grama, em 1502. É um dos vultos d’essa notavel familia que tantos homens produziu que bem serviram o paiz em Ormuz, em Malaca. Um filho d’elle, Raphael Perestrello, andou na descoberta da costa da China, e esteve nas Moluccas. Outro filho jaz na mesma egreja de S. Pedro; sob uma campa enorme, de mais de dois metros de comprimento, com um lettreiro em gothico:--Aqui acerqua de seus quyrydos pais he mai Antonyo Perestrelo seu filho escolheo casa para sempre.--

É bom typo de familia d’aquella época; as grandes aventuras, as viagens ultramarinas; uns ficaram nos mares ou nas guerras, outros voltaram ricos, fizeram morgados, e arranjaram na egreja da sua terra uma capella para eterno descanço.

Capiteis romanicos

Na egreja de Santa Maria do Castello, em Torres Vedras, vi dois capiteis romanicos na porta principal, que olha para o poente. O templo tem soffrido reconstrucções, todavia as linhas principaes são as primitivas. Os portaes, de volta redonda, estão nos seus logares de origem. Aquella silva que orna a parte superior dos capiteis, formando um friso, repete-se aos lados da porta que diz para sul. Os capiteis são de calcareo muito rijo, trabalho ingenuo, relevo fundo; pouco teem soffrido do tempo. São decorativos e symbolicos; o esculptor quiz representar motivos do Cantico dos canticos; é o lyrio dos valles, a pomba do rochedo, a maçã entre a folhagem agreste; as comparações amaveis feitas á Sulamite, que a egreja christã adoptou. Obra d’arte, da alta edade média, é isto o que resta n’esse templo, alvejante entre oliveiras, aninhado entre as muralhas vetustas, cubélos e quadrelas negras do castello.

Faz-se alli festa religiosa em 15 d’agosto, porque parece que foi n’este dia que D. Affonso Henriques tomou a villa aos mouros, em 1148. Ainda no começo do seculo XIX, na noite do dia 14, vespera da festa, faziam grandes fogueiras no adro e por entre as ameias.

Perdeu-se a usança pittoresca, ante esta onda de semsaboria que vae estragando tudo.

Os priores d’esta egreja eram capellães d’el-rei; varias rainhas foram padroeiras e lhe fizeram donativos.

D. Beatriz, mãe de D. Diniz, residiu em seu paço, que ficava proximo. É difficil hoje achar vestigios de paços reaes, ou de quaesquer edificios muito antigos em Torres Vedras. Ahi residiram por largas temporadas reis e rainhas, por duas vezes se reuniram côrtes, no seculo XV, e quasi nada d’essa época se encontra na villa. Tem soffrido muito com os terremotos; a parte baixa está visivelmente muito soterrada; isto explica em parte o desapparecimento de antiguidades na historica e interessante villa.

Ermida e forte de S. Vicente

A ermida de S. Vicente fica a norte de Torres Vedras; cousa de tres kilometros do centro da villa ao alto da collina. Chega-se á varzea arborisada do Amial, passa-se o rio Sizandro, a ermida de Nossa Senhora do Amial, e do adro d’esta ermida parte uma vereda que vae trepando pela vertente, e dando volta, de modo que offerece vistas variadas da villa, que tem bonito aspecto, do seu vetusto castello, conjuncto de paredões, muralhas e cubellos ennegrecidos pelo tempo, e da multidão de collinas, quasi todas vestidas de vinhedos viçosos, salpicadas de casaes. O cume de S. Vicente está bastante superior ao castello, e ás collinas proximas, dominando largo terreno. Depois do corpo de S. Vicente entrar na sé de Lisboa houve milagres varios, e um dos devotos favorecidos foi um homem de Torres Vedras que lhe edificou uma ermidinha em agradecimento. É certo que no começo do seculo XIII já alli estava uma ermida; tão certo como não estar lá, á vista, um unico lavor ou lettreiro, nem do seculo XVII. Mas ha documentos; e bocados de pergaminho bem guardados duram mais que alvenarias expostas a pilhagens e bombardeamentos.

Na ermida venerava-se uma imagem de S. Vicente, agora na pequena egreja do Amial, e ha tradição de grandes festas que o povo torreense ahi celebrava. Arruinou-se, reconstruiu-se, e voltou o abandono; agora dormem alli pastores e cabras; se lá estão ainda algumas cantarias é pela difficuldade do transporte.

Termina a vereda n’uma passagem empedrada sobre um fosso, vê-se ainda bem o relevo da trincheira entre arbustos e silvados, depois a ermida toda em ruina e esburacada; a capella redonda tem uma pequena cupula de ar mourisco; junto da ermida havia casebres, casa do ermitão e albergue de romeiros; telhados cahidos, montões de entulho; silvados e carrasqueiros bravios; depois da ermida um planalto talvez de 60 metros de diametro, ahi dois moinhos de vento antigos, em ruina; em volta quatro grandes espaldares erguidos, de 2 metros de altura, por 10 de comprimento; na borda do planalto as baterias, os reductos; as canhoneiras ainda com o pavimento lageado, os perfis em alvenaria solida; reconstitue-se ainda perfeitamente a celebre fortificação.

Todos teem ouvido fallar das famosas linhas de Torres Vedras que defenderam Lisboa contra a invasão franceza do commando de Massena. A primeira linha fortificada dividia-se em tres districtos: 1.ᵒ Torres Vedras, 2.ᵒ Sobral de Monte Agraço, 3.ᵒ Alhandra.

Dois pontos estavam especialmente fortes, eram os _fortes grandes_, S. Vicente, e o da Serra do Arneiro.

O de S. Vicente tinha 39 canhoneiras, e estava artilhado com 23 peças de calibre 6, 9 e 12, e mais 3 obuzes. Podia abrigar 4:000 homens. Além dos reductos vejo uns vallados afastados para norte que me parecem pequenas trincheiras para abrigo de atiradores. O ponto era, e é ainda, importantissimo porque descobre os caminhos em grande extensão.

Outros fortes menores se agrupavam a este, formando um conjuncto respeitavel; nas grandes collinas de Olheiros, Outeiro da Forca, Sarges (outros dizem Ságes) e Ordasqueira havia reductos; formavam um campo fortificado.

Em dezembro de 1846 encontraram-se em Torres Vedras, tropas do Bomfim com as de Saldanha, houve combate sanguinolento, com episodios terriveis, no dia 22; Saldanha tomou o forte de S. Vicente: Bomfim encurralou-se no castello, e começou a atirar para lá com a sua peça e o seu obuz; e esburacou a ermida. Na varzea do Amial houve encontro de cavallaria, e a de Saldanha, muito superior em numero, acutilou ahi, mesmo no adro da ermida, a da Junta do Porto.