Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa
Part 14
Ahi n’esse adro do Amial, estão enterrados setenta e tantos cadaveres dos fallecidos em combate, na lucta brava da cavallaria, e no ataque de S. Vicente.
Depois da batalha, a ermida ficou em ruina, a villa soffreu immenso, e ninguem pensou mais em concertar o templosinho.
Trouxeram a imagem de S. Vicente, que escapou á batalha e ao bombardeamento para a ermida do Amial. E lá está, muito tristinha e abandonada, n’aquelle interessante templosinho, ao pé de outra imagem historica, a da Senhora de Rocamador. Merecia a pena dar alguma attenção ao Amial, e tornar mais facil a vereda para S. Vicente; é um dos melhores passeios nos arredores de Torres Vedras, a vista é linda, e é um d’estes sitios raros onde se allia a bellezas naturaes o encanto de recordações da historia patria.
Imagens de Santos
Pouca attenção se tem prestado entre nós ás imagens religiosas; refiro-me a dois pontos de vista, artistico e archeologico. No Museu das Bellas-Artes e no Carmo poucos exemplares ha. É preciso examinar as egrejas, para descobrir um ou outro trabalho interessante.
É enorme a quantidade de imagens de santos ainda existentes, atravez diversas causas de destruição; tem havido modas tambem na estatuaria religiosa; as imagens do renascimento fizeram pôr de parte as mais antigas que pareciam rudes; as luxuosas estatuetas á hespanhola, de roupagens agitadas todas bordadas a ouro, foram vencidas pelas á italiana, mais artisticas e expressivas.
Imagens gothicas de gesto solemne, hirtas, de vago olhar, esculpidas em pedra, vieram até nossos dias; em quasi todas as sés ha imagens de Nossa Senhora, do seculo XII. A da Sé de Evora com o seu collar e fita pendente que parece formada de moedas romanas, as cercaduras bordadas do vestuario, os sapatos de bico, tem ares de uma rainha medieval.
No claustro da mesma sé ha estatuas de santos, e o apostolado no portico, dos seculos XIII a XV.
Do renascimento, com anatomia estudada, posição ao natural, temos um exemplar esplendido no celebre S. Jeronymo, que está no cruzeiro de Santa Maria de Belem.
Seguem-se as estatuetas em madeira com lavores a ouro sobre fundo preto, ou vermelho, o estofado, genero que foi muito empregado em Portugal.
Dos italianos, largas roupagens, cabeças de expressão, attitudes artisticas, _póses_ estudadas, ha modelos mui significativos na antiga egreja dos Barbadinhos onde actualmente está a parochial de Santa Engracia. No seculo XVIII a estatuaria religiosa segue a corrente da época; no seculo XIX, a meio, começa a esculptura franceza a dominar com as suas fórmas gentis; vem a imagem fina, bem gravada, suavemente colorida; vem a elegante estatua da Salette, depois Lourdes, a fina dama, de cabeça pequena, fórma esguia, expressão de sonho. Nos templos agora por toda a parte domina a estatueta de gesso, e a oleographia franceza; o lindo santo risonho e muito penteado, a gentil santinha branca, a pretenciosa oleographia na sua moldura de baguette dourada. O Senhor dos Passos, de tez livida, negros cabellos, olhar severo, passaria de moda, se não estivesse firme em antiga tradição.
Na iconographia religiosa ha, atravez as idades, séries determinadas, e assim se póde vêr como os artistas de varias épocas executaram as figuras de Jesus Menino, ou imaginaram os rostos de anjos e seraphins.
Quando ha pouco se agitou a questão do santo sudario de Turim viu-se bem onde póde chegar o interesse d’estes estudos; n’este caso á origem da pintura, e dos seus processos.
Certas imagens, por exemplo, Senhor dos Passos, Senhor Morto, são, na grande maioria, da mesma época; outras são de todas as épocas, a Virgem, o Crucificado, Jesus Menino. Póde reunir-se uma série de imagens da Virgem do seculo XII para cá. E assim do rosto e cabeça do divino Nazareno. É interessante vêr como os artistas, atravez os tempos, trataram de interpretar o aspecto do sublime mestre.
Ha pouco, n’uma estação de banhos dos Cucus, tive occasião de passeiar por Torres Vedras, e andei pelas egrejas a vêr esculpturas e pinturas, inscripções, velharias.
A imagem da Senhora do Sobreiro, no Varatojo, é antiga; segundo a tradição é do seculo XII; póde ser, e todavia não me parece tão antiga como a da Sé de Evora, ou a de Santa Maria da Oliveira, em Guimarães (a primitiva imagem).
Na egreja de S. Pedro vi a imagem de S. Pedro d’Alcantara; rosto, garganta e mãos bem esculpidas, expressão de fervor na oração, arrebatamento; roupagem larga, em grandes pregas; no todo uma estatua elegante, que prende a attenção; talvez de artista italiano.
Na egreja da Graça reparei mais nas estatuas de Santa Monica e Santo Agostinho, que estão em nichos no grande retabulo de obra de talha, do seculo XVII, interessante exemplo de transição do estylo classico para o rococó usado na época de D. João V.
N’essas estatuas de Santa Monica e Santo Agostinho o estofado, ouro sobre branco e vermelho, é accentuado por fino relevo, que dá ás vestes aspecto opulento; a esculptura é muito correcta.
A estatua de S. Gonçalo de Lagos, na sua capella, é elegante: o santeiro fez-lhe a cabeça um tanto pequena, e a cintura delicada; a roupagem está bem lançada.
Na Misericordia dei mais attenção ao Senhor Morto, porque me parece o mais antigo que conheço; não se repare na encarnação; é uma estatua rigida, hirta, feita com certa rudeza mas com attenção. Parece-me anterior ao seculo XVI.
Em Santa Maria do Castello vi esculpturas boas: um Jesus Menino bem notavel e antigo.
E mais antigas ainda me parecem algumas imagens que vi na ermida da Senhora do Amial, a Senhora do Ó, o S. Vicente, e especialmente a Senhora de Rocamador talvez do seculo XIII.
Será bom reparar n’estas obras d’arte, mórmente agora por causa da invasão franceza de estatuetas e oleographias baratas.
Uma cadeira do seculo XV
A pouca distancia, uns tres kilometros, a poente de Torres Vedras fica o convento do Varatojo; é um bonito passeio a pé, atravessando a varzea, e subindo lentamente a vereda, descobrindo successivamente aquella região de serras e cabeços, em grande parte vestida de vinhedos, agora n’este mez d’agosto, mui viçosos.
Em trem, o caminho é mais longo, por causa de grande rodeio, seguindo pelo campo do Amial, onde ha uma ermida muito antiga e interessante, cortando depois os campos do Paul, e subindo a encosta por estrada um tanto ingrata; a estrada nova cheia de covas e poeira, a antiga coalhada de calhaus.
No convento vi a porta ogival da egreja, tendo aos lados as armas de Portugal, e o _rodizio_ emblema adoptado por Affonso V; o claustro, bem conservado; os portaes da casa chamada dos retratos que são do tempo de D. Manuel; a torre dos sinos de ventanas ogivaes, assim como o portal de um pateo interior; vi pinturas em madeira, um frontal de seda bordada de origem italiana, me pareceu, e, n’uma pequena dependencia da sacristia, entre variados objectos, uma cadeira extraordinaria!
É tradição antiga ter esta cadeira servido a D. Affonso V, quando visitava aquella casa. Como me disseram que ninguem a desenhara eu tirei um rapido esboço. Póde ser de Affonso V, e até anterior; é em carvalho, e está menos mal conservada; algum caruncho, mas mostra-se ainda nitido o relevo decorativo; lembra logo o estylo da Batalha. É uma cadeira do seculo XV, uma joia do mobiliario portuguez. No _Havard_ [2] vem o desenho de um exemplar quasi egual; cadeira de armario ou cofre, de braços, espaldar direito, ornamentação ogival, exactamente como no esplendido movel do Varatojo. Lá se tem conservado a veneravel reliquia e está lá muito bem, ligada pela tradição historica, mas seria bom fazer uma reproducção para o Museu das Bellas-Artes, onde abundam os exemplares de mobiliario portuguez, formando séries importantes; mas falta aquella cadeira--avó, unica, segundo creio, em Portugal.
[2] _Dictionnaire de l’ameublement et de la décoration._
Brazões da Villa
Vi em Torres tres brazões antigos:
O da Fonte Nova tem a data 1529.
O que está na escada da Camara Municipal tem a data 1518.
O do chafariz dos Canos é muito mais velho, singelo e hieratico, sem ousadias decorativas; creio que é do seculo XIV.
O da Fonte Nova apresenta duas torres ligadas por um panno de muralha com sua porta: torres de tres andares, com ameias, frestas para jogar virotes e béstas, terminando em cobertura pyramidal, com sua bandeira quadrada e uma estrella sobre a bandeira; entre as torres um escudo real, sem corôa nem castellos, só as cinco quinas com os seus besantes. Infra a data 1529 entre duas siglas, talvez F e R.
O que está na Camara mostra duas torres de cobertura conica, ligadas pela muralha sem porta; tem barbacan, ameias, sobre as torres bandeiras farpadas, sobre estas, estrellas.
Sob a barbacan um festão florido, infra um lettreiro:
Esta casa e quintal he do concelho 1518
Entre as torres o escudo das quinas.
O do chafariz dos Canos tem tres torres eguaes, separadas entre si, uma a meio do escudo mais acima, duas aos lados d’esta, mais abaixo. Cada torre sua janella de volta redonda, e quatro ameias; a ameia formada por um dado ou cubo, sobre este uma pyramide de base quadrada excedendo muito a face do cubo.
Na fonte está outro escudo com o brazão real, as quinas collocadas á antiga, as lateraes com as pontas para dentro.
Este escudo da fonte dos Canos parece-me ser o brazão antigo da villa, o primeiro, o das _turres veteres_. Depois conjugaram este com o escudo real, tirando a torre média e mais alta para dar logar ás quinas, ao que parece no tempo de D. Manuel, o reformador do velho foral, pois que o brazão que está na escada da Camara tem a data 1518.
Archivos
Camara, Misericordia, Egreja de Santa Maria
Quando estive na interessante villa de Torres Vedras lembrei-me de visitar archivos, que é onde se encontram reunidos mais documentos authenticos da vida local.
Para alguma cousa ha de servir isto de ler lettras antigas, a paleographia; porque vêr archivos e cartorios sem os entender é inutil.
Manuel Agostinho Madeira Torres na--_Descripção historica e economica da villa e termo de Torres Vedras_--, falla de antigos documentos, e na 2.ᵃ edição da sua obra os editores deixaram muitas notas em que se referem a velhos pergaminhos e papeis dos cartorios da villa.
A vida antiga, as phases sociaes, as instituições, a evolução historica, tudo apparece nos archivos a quem tiver paciencia de manusear com attenção codices e avulsos arrumados, quantas vezes esquecidos, desprezados, tristes, poeirentos, nos seus armarios.
Agora que tanto se falla de sociologia esses archivos teem ainda maior importancia; antes os estudiosos procuravam especialmente os grandes acontecimentos e as vidas dos grandes vultos, attende-se presentemente tambem á evolução das instituições, ao viver dos povos, ás manifestações moraes das classes menos brilhantes. Divaguei, pois, algumas horas pelos archivos de Torres Vedras, e vou escrever, condensando muito, do que vi.
Comecei pelo archivo da Camara Municipal, que está installado em armarios, n’uma casa ampla com muita luz.
Vi lá uma peça de primeira ordem, o Foral da villa, dado por D. Manuel.
O primeiro foral foi concedido por D. Affonso III em 1250, e conserva-se na Torre do Tombo.
Do foral de D. Manuel está o original em Torres, e bem conservado, lindamente escripto em pergaminho.
Percorri tambem alguns livros de actas da camara, bella série que começa em tempo d’el-rei D. Sebastião. Estes codices são importantes, porque não se contentaram em lavrar actas, mas incluiram o registo de documentos de maior significação. Ora o municipio e comarca de Torres foram de grande importancia em tempos volvidos, com a especialidade proveniente da preponderancia da Casa das Rainhas. Assim encontrei alli noticias de Santarem, Alemquer, etc., que não esperava achar; assim, por exemplo, foi o corregedor de Torres que em 1640 teve o encargo de regular a segurança e a administração em Cascaes, Alemquer, etc., terminado o dominio hespanhol.
Do tempo dos Filippes estão registados muitos documentos sem duvida valiosos.
Como se vê, o archivo municipal de Torres contém dados de valor para a historia do municipio e para a politica geral do paiz.
E mais, é claro, os que importam á vida municipal, os economico-administrativos, os que se referem a obras publicas, viação, preços de generos, etc.
Visitei tambem o archivo da Santa Casa da Misericordia.
Se entro sempre com respeito n’um archivo municipal, que é onde está o documento do homem, rico ou pobre, nobre ou plebeu, entro com veneração e amor n’um cartorio de Casa de Misericordia: alli está a vida do pobre, do enfermo, do engeitado, do encarcerado; alli está a meu vêr a instituição mais gloriosa que tem o povo portuguez. A beneficencia moderna nas suas multiplas manifestações não attinge a perfeição d’esse maravilhoso instituto que corresponde perfeitamente ás necessidades sociaes.
O livro mais antigo que vi data de 1608. Vi livros de tombos, accordos, receita e despeza, compromissos, e de enterros. Ha um Tombo grande, que é um formidavel infolio, do tempo de D. João V. Tem medições de propriedades urbanas e ruraes que o tornam precioso. N’este volume está a descripção minuciosa da egreja e Casa da Misericordia, feita em 1730. No termo de Torres havia hospitaes e albergarias na idade média, no Amial, Carvoeira, Turcifal, S. Gião, Ribaldeira, Azueira, S. Mamede e Dois Portos.
É extraordinario o que se fez em Portugal no ramo de beneficencia publica, nos primeiros seculos da monarchia. Creio que foi no seculo XVI, principalmente, que se realisou a concentração nas Misericordias de todas essas pequenas instituições, albergarias, gafarias, etc. De todas vi noticias no archivo da Misericordia.
Finalmente fui vêr, na amavel companhia do Prior, o archivo de Santa Maria do Castello. Esta notavel egreja, antiga capella real, conserva ainda o seu archivo! é caso raro em Portugal. Porque os archivos parochiaes, quasi todos, foram concentrados pelos prelados, e jazem ignorados nos Seminarios, alguns sem a minima organisação. Este lá está nas suas arcas velhinhas, conservado e limpinho, amado pelo digno parocho. Vi lá pergaminhos do seculo XIV, do bom rei D. Diniz, de 1307 um d’elles, e muitos dos seculos XV e XVI. É bem singular um archivo parochial com os seus velhos livros, amarellecidos pelo tempo, dos que nascem, dos que se casam, dos que morrem; dos que passaram n’este mundo de esperanças, de alegrias, de soffrimentos.
No Varatojo
Na sala do capitulo vi dois lettreiros:
Aqui descansão as cinzas do Ven.ˡ P. F. Antonio das Chagas. Miss. Apost. e instituidor deste Semin.ᵒ faleceu a 20 de outubro de 1682.
* * * * *
Fr. Joaq.ᵐ do Espirito Santo restaurador deste Seminario Fal. em Santarem 3 d’agosto 1878
Na quadra, perto da porta que deita para a matta:
Aqui jáz Felipa do Reguo molher de Nuno de Sampaio... 1530
Reparei na egreja nas seguintes pinturas:
Na capella-mór:
Annunciação Adoração dos reis Adoração dos pastores _Noli me tangere._
Na sacristia:
Milagre de Santo Antonio. O burro ajoelhado ante a sagrada particula Pentecostes.
Na ante-sacristia:
presepe, pequeno quadro em madeira, de trabalho fino, um tanto estragado.
A quadra, arcada e varanda coberta, o travejamento assente sobre columnellos, está bem conservada.
Para esta quadra ou pequeno claustro diz uma casa a que chamam dos retratos, que me parece ter sido uma aula ou casa do capitulo.
O portal desta casa é em manuelino, de trabalho apurado e em boa pedra; é uma peça nitida. Nesta casa está uma pintura em madeira, o Calvario.
A moldura do quadro é de pedra lavrada, tambem em manuelino; pareceu-me uma antiga porta ou janela aproveitada para alli.
Estes trabalhos teem intima relação com os portaes de S. Pedro, de S. Thiago, ediculo dos Perestrellos, etc. Vê-se que em Torres Vedras houve na primeira metade do seculo XVI artistas trabalhando com methodo e gosto.
* * * * *
A porta principal da egreja do Varatojo é ogival, singela, aos lados tem brazões com as armas de Portugal e o rodisio de D. Affonso V.
As ventanas da torre são ogivaes.
E vi n’uma córte contigua um portal antigo tambem de ogiva.
Por isto se vê bem que este antigo edificio soffreu reconstrucções.
A quadra deve ser da primitiva, apezar de não apresentar ogivas; o travejamento é singular; no todo singelo ha uma pureza, uma sobriedade que nos incute ideias de paz e recolhimento; como na matta, de vetusto arvoredo, frescas fontes murmurejantes, e clementes horizontes.
Bello sitio para dulcificar maguas e socegar corações attribulados. Por aqui passeou a sua grande dôr e cruel desesperança um rei, D. João II, depois do desastre de Santarem.
Uma inscripção moderna
Na egreja de S. Pedro, proximo ao pulpito, repousa Luiz da Silva Mousinho d’Albuquerque, sob campa rasa, com o lettreiro:
AQVI IAZ LVIZ DA SIL VA MOVSI NHO DE AL BVQUERQ QVE FALES CEO NESTA VILLA DE TOR RES VEDRAS AOS XXVII DE DEZEMBRO DE MDCCCXLVI
* * * * *
REQ. I. PAC.
É singular como em Torres e em pleno seculo XIX se lavrou tal inscripção; mesmo o caracter da lettra é archaico; parece que o entendido que fez o modelo para o lavor do canteiro poz esmero em imitar o antigo, e muito antigo.
Porque n’esta mesma egreja se encontram lettreiros dois seculos mais velhos sem tantos archaismos.
Sinos
Vi os de S. Pedro.
Um tem na fimbria _Sanctus Deus_ e o nome Miguel Delmaco.
Outro: _apprehende arma et scutum_.
Miguel Delmaco, 1673.
* * * * *
Sineta: tem a data 1802.
Quinta das Lapas
A quinta está na branda encosta da serra da Achada. Esta serra e as outras d’estes sitios são grandes collinas mais ou menos declivosas, de 100 a 150 metros d’altura sobre os valles que as separam. Ás vezes as faldas das collinas alastram-se, desdobram-se em suaves encostas; em pontos alargam-se os valles em varzeas ferteis. O monte coroado pelas ruinas dramaticas do castello de Torres Vedras está rodeado de varzeas amplas. Nos banhos dos Cucos a chan, onde estão os hoteis, o casino, o jardim, o edificio das thermas, está cercada de montes de forte declive, semelhando uma cratéra, quasi completa, rota apenas por breve chanfro por onde passa o rio e a estrada que leva a Torres, e uma fraca depressão, mais a sul, que vae ter ao caminho de ferro, na visinhança dos pequenos tuneis. O terreno de quasi todas estas chans é de alluvião moderna, feita pelo Sizandro. O solo em que assenta a parte baixa da villa está hoje metro e meio mais alto que no seculo XVI, o que se manifesta em antigas construcções muito soterradas.
As varzes são ferteis e bem cultivadas; nas vertentes agriculta-se tambem, as vinhas ostentam-se viçosas; pinhaes forram grandes trechos das collinas, apresentando arvores bem desenvolvidas.
E bom seria que mais semeassem ou plantassem; um pinhal é util e agradavel, dá sombra e aroma hygienico; serve a lenha, a rama, a pinha; a moderna medicina com muita razão recommenda o ar do pinhal, e, tem-se visto nos ultimos annos, o córte de pinhaes para combustivel, para construcção, para supportes de galerias mineiras, dá bom dinheiro.
Até parece que dá saude o aspecto de um pinheirinho verde, de fresco avelludado, de perfume resinoso. Por isto pinheiro cortado, pinheiro semeado, e quantos mais pinhaes melhor, por esses montes onde o sol, o solo e a aragem se encarregam de o alimentar; se elle cresce que é um encanto até nos areaes da beira-mar onde a rajada do oceano chega a ser um açoute; porque o bom pinho formoso e hygienico não exige cuidados de cultura.
Por entre pinhaes mesclados de algumas vinhas e outras culturas segue a estrada de Torres para as Lapas; a principio do caminho rompe o bucolismo da paisagem a massa alvacenta da villa, e o seu outeiro escuro encimado pelas velhas muralhas do castello, os altos muros negros da sua alcaçova ou palacio, em tragica derrocada. Faz impressão aquella ruina; suggere tempos idos, historias mui velhas.
* * * * *
Torres mais antiga, já condado, Por turdulos se crê ser erigida, Por dote das rainhas, é morgado, E de muitas já foi favorecida, O Beato Gonçalo lá enterrado Por milagres a faz ser mais luzida, Assim como João a decorou Nas côrtes que já nella celebrou.
Como diz o bom e patriota Silveira no _Côro das Musas_.
Passa uma curva da estrada, e deixa-se de avistar casaria nova e muralhas velhas; segue o caminho na verde paisagem campesina.
A estrada é boa, pouco frequentada, com aspectos variados, dominando o verde pinhal. De subito uma casaria branca de aldeia, uma egreja, e na encosta o palacio, bem ao sol, com as suas dependencias, os seus jardins, pomares, vinhas e matta de arvoredo alto.
Vê-se uma capella de boa construcção e logo uma entrada monumental, de ampla arcada; entra-se no terreiro; a um e outro lado edificações que são dependencias do palacio, na frente a fidalga residencia com larga escadaria e desafogada varanda. Todavia dá logo a impressão de edificio incompleto.
Á monumental entrada, á elegante escada não corresponde o edificio nobre que parece acanhado e por acabar. Houve alteração no plano, com certeza. A fachada que deita para o jardim é mais harmonica; a mansarda, os frisos azulejados dão-lhe graça.
O palacio, dizem, foi erguido pelo primeiro marquez de Alegrete, Manuel Telles da Silva, conde de Villar Maior. Foi feito marquez por D. Pedro II em 1687 (v. _Diario de Noticias,_ de 17 de junho de 1902). Provavelmente foi começado, houve demorada construcção, soffreu alterações; a mansarda será do meio do seculo XVIII; é possivel que a escadaria seja da época de D. João V. Para admirar seria que nesses tempos um Telles da Silva, em poucos annos, observando um só plano, conseguisse erguer um palacio, chamados, como eram, os principaes da illustre familia, para altos cargos no reino, no ultramar e no estrangeiro.
Existe na matta uma capella, incompleta, dedicada a Santo André Avelino pelo conde de Tarouca, Fernando Telles da Silva, em 1778. E ha, noutro ponto da matta, uma ermida rustica, com seu alpendre, um pouco mais antiga.
No jardim alegretes e assentos são azulejados, representando scenas de caçadas.
As salas teem tectos de madeira e rodapé alto de azulejos, como as do palacio do Correio-Mór, perto de Loures, e as do casal do Falcão, perto de Carnide, agora felizmente restaurado, segundo ouvi dizer, sob a direcção do conhecido e estimado architecto sr. Raul Lino.
Nos jardins vi magnificas hortenses e na matta ulmeiros, pinheiros mansos, seculares medronheiros, sobreiros veneraveis. O meu amavel guia disse-me os nomes de algumas arvores, conservados na tradição familiar; o mais antigo é o sobreiro dos quatro irmãos, assim chamado porque a pouca distancia do solo o tronco se divide em quatro pernadas reaes, cada uma d’ellas como uma grande arvore.
Ha uma fonte de agua ferrea na matta, e outra numa alameda de ulmeiros, com um grupo em marmore, veado filado por um rafeiro; no outro extremo d’essa alameda deliciosa fica o jogo da bola.
Essas salas de grande pé direito, de chão ladrilhado, de lambris de azulejo, e tectos de madeira, conservando o ar antigo, não estão vasias ou despidas. Estas, felizmente, teem muito que vêr e respeitar.
Vi moveis antigos, cadeiras d’espaldar com os brazões de familia, grandes leitos de pau preto, com torcidos e lavores.
Os donos da casa fizeram abrir armarios e eu vi desfilar pratas antigas marcadas; ceramicas e crystaes, porcellanas de Sèvres, de Saxe, da India e Japão, de verdade e alto valor. Vi um copo de crystal lapidado com uma vista de Santarem, pintada no crystal, bem interessante: e um dragão de prata, perfumador enorme, trabalho pouco visto, que me disseram ser feito em Moçambique.