Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

Part 15

Chapter 153,854 wordsPublic domain

Nas paredes retratos de pessoas de familia, e que familia! esta dos Telles da Silva! É vêr ahi nas genealogias as séries de paginas com descendencias e arvores de costado mais frondosas que o sobreiro dos quatro irmãos. Até o venerando D. Manuel Caetano de Sousa escreveu uma obra em dois volumes (Bibliotheca Nacional de Lisboa. Manuscriptos, fundo antigo, C-3-16 e 17. N.ᵒˢ 1048-49), a respeito d’esta familia com o seguinte titulo bem curioso.--_Corôa genealogica, historica e panegirica da Excellentissima Casa de Tarouca formada do purissimo ouro dos Silvas, illustrada com a esplendidissima pedraria dos Menezes, adornada com as augustissimas flores da Magestade, fechada com elevados semi diademas da Heroicidade, terminada na altissima esphera da Soberania, consagrada com a sempre venerada cruz da Santidade, dedicada ao ex.ᵐᵒ sr. D. Estevão de Menezes filho primogenito dos ex.ᵐᵒˢ srs. condes de Tarouca João Gomes da Silva e D. Joanna Rosa de Menezes--._

Pertence effectivamente a esta familia o celebre Beato Amadeu que tão grande fama conquistou na Italia.

Que singular encanto o de ouvir a dona da casa explicando alguns retratos de familia! Que consolação, neste paiz de gente estragada, encontrar um ninho conservado! Que rara impressão no conjuncto, milagroso entre nós, de tantas recordações e tradições, vivas, na mente, na linha, nas feições, na voz da herdeira lidima!

A um marquez de Penalva dizia o Tolentino:

Hontem soube o que podia Estilo suave e brando E quanto podeis fallando Eu o vi na Academia Nas almas fogo acendia Vossa discreta oração, Sobre a minha pretenção Vos peço que assim oreis, E que ao principe falleis Como fallaes á nação.

Pois ainda está representado na familia o estylo suave e a discreta oração, louvados pelo poeta.

Poetas houve tambem nesta familia; poetas e eruditos, homens de guerra e de diplomacia; na Bibliotheca Lusitana estão inscriptos os notaveis nas lettras e sciencias. Por estas salas, jardins e bosques passearam academicos, não faltam sitios para tranquilla meditação. E no bello terreiro desafogado com certeza se trabalhou na nobre arte da cavallaria; talvez se corressem touros e jogassem cannas; houve tambem na familia cavalleiros notaveis, mestres reconhecidos na equitação, tratadistas na especialidade.

Porque se chama quinta das Lapas? Ha por aqui algumas lapas, grutas, cavernas? Parece que houve lapas a que se attribuiam lendas de mouros. Perto de casa ha uma vinha, um grupo de pinheiros mansos, uma elevação de terreno de poucos metros de altura; ahi umas cavidades consideraveis. Parece que em tempos alguem fez excavações; acharam cacos, louças partidas. Tudo se extraviou.

Seria uma mamunha? Um d’aquelles tumulos prehistoricos, em que as sepulturas eram cobertas por um monticulo artificial? Não sei, o que hoje se vê pouco significa.

Numa construcção ou pavilhão de fresco perto do jardim fui encontrar no embrechado que reveste as paredes interiores alguns exemplares de contas vitreas coloridas de fabrico egual ao das contas de Chellas, da capella (desapparecida) das Albertas, e da cascata da Quinta do Meio. Aqui tambem estas singulares contas são acompanhadas de cylindros, discos, etc., de vidro escuro. Continúa para mim a ser um problema a proveniencia de taes objectos.

O caminho dos Cucos

Pela avenida ampla, arborisada, chega-se á estação do caminho de ferro, que nos fica á direita; está á vista o castello ennegrecido e escalavrado, no seu morro severo destacando entre as collinas; o caminho passa sob a via ferrea; passa a ponte do Rei, sobre o Sizandro; vamos entre vinhas e arvoredos; agora a arcada do aqueducto; á direita uma ermida antiga com umas construcções, ao lado um portão com seus enfeites; era a albergaria de S. Gião, ou Julião. Lá se conservam inscripções que nos dizem que os sapateiros da villa no anno de 1359 (era 1397), construiram o modesto albergue, cuja instituição se incorporou na Misericordia em 1586. Os confrades de S. Gião ahi ouviam missa aos domingos. Um respeitador de antiguidades renovou a inscripção em 1849.

Pouco adiante, á esquerda da estrada, indo para os Cucos, existe uma quinta de construcção vistosa, a quinta das Fontainhas, com seu terraço e jardim, onde se lê um lettreiro, na parede occidental da casa, que diz:

Sua Alteza Real O sern.ᵐᵒ principe o sr. D. João e a seren.ᵐᵃ princ.ᵃ a sr. D. Carlota Joaquin e o sr. infante D. Pedro Carlos jantaram n’esta quinta no dia 16 d’outubro de 1797.

Este infante D. Pedro Carlos tinha então dez annos. D. Marianna Victoria, filha de D. Maria I, casou com D. Gabriel, infante de Hespanha. Deste casamento nasceu o infante de Hespanha D. Pedro Carlos de Bragança e Bourbon, que foi almirante em Portugal. Nasceu em Aranjuez em 18 de julho de 1787, e falleceu no Rio de Janeiro a 26 de maio de 1813. Este infante casou, no Rio, em 1810, com D. Maria Thereza, princeza da Beira.

Os banhos dos Cucos são conhecidos de ha muito; a virtude singular d’esta agua já em épocas remotas attrahia enfermos.

Ainda existem as casinholas onde se abrigavam os miseros banhistas.

Hoje as installações hydrotherapicas das thermas dos Cucos são boas, feitas com largueza, direi mesmo com generosidade. O edificio das thermas, a casa dos machinismos, o amplo casino, os dois grandes chalets, e outras construcções, rodeiam um grande rocio ajardinado e arborisado. A grande obra começou em novembro de 1890; em julho de 1892 já as thermas funccionavam, provisoriamente; em 15 de maio de 1893 realisou-se a inauguração. Todavia não está cumprido o programma inicial, faltam chalets, e recreios para os banhistas, ou para as pessoas de familia que acompanham os enfermos. O principal está feito, e isto deve-se á coragem do opulento proprietario sr. José Gonçalves Dias Neiva. Á coragem e á generosidade, porque me affirmaram que embora a frequencia seja grande já, todavia nem 2% rende o capital alli empregado.

Como o estabelecimento thermal fica a dois kilometros de Torres Vedras, muitos banhistas ficam nos hoteis da villa, que são regulares, e em algumas casas particulares.

A villa lucra com isto dezenas de contos annualmente, todavia nem o municipio nem os habitantes se esforçam por tornar a villa aprazivel aos seus hospedes; nem commodidade, nem distracções; nada que realce a natural belleza d’aquelles sitios. Bem lindos são os arredores da villa, convidando a pequenos passeios campestres, mas raras as estradas que prestem, as de macadam cheias de poeira, as primitivas de barrancos e pedregulhos. Uma das questões locaes é o abastecimento de aguas potaveis; esta porém não importa muito aos banhistas, que quasi todos consomem a agua dos Cucos. Eu não bebo d’outra; faz bem e é agradavel, com o seu ligeiro sabôr salgado. Liga-se optimamente com o vinho. É uma excellente agua de mesa que os sãos, não só os enfermos, tomam com agrado. Melhoram o appetite e facilitam a digestão.

Esta agua, que tem o maravilhoso lithio, é _muito pura_ segundo a analyse microbiologica, feita em 1904, pelo illustre chimico Carlos Lepiérre.

Os pobresinhos teem tratamento gratuito nos Cucos; a poucos utilisa esse beneficio porque nos Cucos não encontram albergue ou hospital. Para isto me parece deveria olhar a Camara Municipal e a Misericordia de Torres Vedras; proximo dos Cucos um albergue gratuito para pobres seria um grande bem. E ainda outro de preço muito moderado, uma hospedaria simples, a simplicidade não exclue o asseio e hygiene, de alimentação singela e mobilia barata, onde os menos remediados encontrem agasalho.

Parece facil, isto. Naquelle chanfro do terreno que liga a grande varzea dos Cucos ao sitio dos pequenos tunneis do Caminho de ferro seria facil construir modestos albergues, pequenas moradas de construcção economica.

É generoso o coração do sr. Neiva, consideraveis os seus bens de fortuna, e effectivo o seu altruismo, mas em emprezas destas é bom interessar differentes entidades, para que se uma esmorecer, outras continuem a obra, a util obra começada.

Encontrou o sr. Neiva um ajudante dedicado no dr. Justino Xavier da Silva Freire, director medico das thermas. É um clinico sensato, naturalmente lhano, muito accessivel, attencioso aos muitos enfermos. Que longas narrativas das massadoras enfermidades elle escuta com delicada paciencia, conseguindo extrahir das confusas exposições a historia da doença, o fio do caso, os antecedentes do enfermo. Os seus relatorios annuaes das thermas são muito instructivos e tão nitidamente escriptos que qualquer cliente os comprehende, aproveitando com a leitura.

As aguas dos Cucos são chloretadas, sodicas, bicarbonatadas, sulfatadas, lithinicas, etc. Encontram os chimicos nellas o brometo de sodio, o chloreto de sodio, os bicarbonatos de calcio, de estroncio, e de manganez, o chloreto de magnesio. Pois esta complexidade toda produz uma agua limpida, muito potavel, agradavel ao paladar. Mas o que lhe dá virtude primacial é o chloreto de lithia que em 1:000 grammas entra por 0,0212.

É isto que torna esta agua preciosa para gottosos e rheumaticos. Faz bem aos intestinos, e combate a obesidade.

Casa dos Clerigos pobres

Junto á egreja de S. Pedro está a casa da irmandade dos Clerigos pobres.

Tem nas paredes quadros em azulejo que estranhei um pouco pela composição artistica. São copias de gravuras; o ingenuo pintor até copiou as assignaturas da chapa

_Author Claud. Coell. delin. Fran. Houat. sculp._

que significa Claudio Coelho desenhou e Francisco Houat gravou. No tecto d’esta casa estão pintados em tela os quatro evangelistas. Acham-se mencionados nas _Memorias de Volkmar Machado_ (pag. 318); são de Bernardo Antonio de Oliveira Goes. O pae d’este, Manuel Antonio de Goes, era pintor de figura e pintou muitos azulejos. Vi outras telas que me pareceram do mesmo pincel na egreja da Graça.

O Asylo da Conquinha

Fica este asylo a breve distancia de Torres, uns vinte minutos de agradavel passeio a pé. Segue-se a estrada da Varzea, entra-se no amplo valle, vestido de culturas, arvoredos fructiferos, bellos vinhedos; ao lado da estrada fica um edificio moderno de aspecto alegre e confortavel, convidativo, é o asylo de S. José; como o sitio se chama a Conquinha, é vulgarmente conhecido por este nome. Santa instituição! Foi este asylo fundado e dotado pela benemerita D. Maria da Conceição Barreto Bastos, fallecida em 21 de maio de 1901. Velhinhos impossibilitados de trabalhar encontram aqui agasalho e sustento, abrigo tranquillo nos seus ultimos annos de vida.

A casa é cercada por ampla quinta bem cultivada com seus jardins floridos, e bellas arvores de fructa. Tudo muito asseiado e confortavel; mais me agradou ainda o ar satisfeito dos asylados, felizes naquelle ninho de caridade. A fundadora instituiu tambem uma escola, na villa, para meninas, com ensino gratuito; a sua memoria deve ser abençoada; o seu nome gravado no marmore dos benemeritos, e no coração de todos os que veneram estes bons exemplos do incondicional altruismo christão. Quando alli estive, visita casual, era gerente ou director do asylo, o sr. conego prior Antonio Francisco da Silva, cujo nome ouvi cercado pelos asylados da Conquinha com palavras de respeito e gratidão.

Ruços, além!

Preparava-se a jornada de Ceuta.

Havia cabeças enthusiastas, e cabeças duvidosas; timidos e prudentes ao lado dos muito ousados. El-rei D. João I estava em Cintra com os infantes; mandou convocar os do Conselho para Torres Vedras; eram o conde de Barcellos, o condestavel D. Nuno, os mestres das ordens de Christo, de Santiago e d’Aviz, o prior do Hospital, Gonçalo Vaz Coutinho, Martim Affonso de Mello, João Gomes da Silva, muitos outros senhores e fidalgos.

Nesses dias Torres Vedras acolheu muitos cavalleiros de espora dourada, os grandes senhores territoriaes e militares do paiz.==El Rey partio de Cintra, e foy folgando por aquella comarca de Lisboa caminho de Torres Vedras (isto conta o Azurara, na _Chronica de D. João I_, parte 3.ᵃ, cap. 24) e antes disto chegando El-Rei a _Carnide_, o infante Dom Enrique que muito desejava por seu corpo fazer alguma cousa aventejada, chegou a seu padre e disse: _Senhor, primeiro que por estes feitos mais vades adiante, porque com a graça de Deos vem já por tal via, que viram a boa fim, eu vos peço por mercê que me outorgueis duas cousas. A primeira que eu seja hum dos primeiros, que filhe terra quando a Deos prazendo chegarmos davante da cidade de Ceita; e a segunda que quando a vossa escada real fôr posta sobre os muros da cidade, que eu seja aquelle que vá primeiro por ella, que outro algum._

Isto disse em Carnide o infante D. Henrique a el-rei D. João; estranho requerimento para a morte na vanguarda extrema, bem natural ao forte coração do rapaz. Chegou el-rei a Torres Vedras, e logo teve uma falla com o condestavel.

Este approvou o plano e prometteu ao rei a sua influencia favoravel...

Tratou-se logo do corregimento da casa para o conselho _a qual era hua sala dianteira, que está em aquelles paços de Torres Vedras, onde está a capella_.

Numa quinta-feira o rei e seus filhos ouviram missa do Espirito Santo, naturalmente na egreja de Santa Maria, que era capella real.

Celebrou-se o conselho; foi elrei que publicou o fim da reunião; depois fallou o condestavel approvando a jornada, e o infante D. Duarte no mesmo sentido. Mas havia gente duvidosa, novos que temiam o risco, e criticavam o arrojado plano. Então surgiu um dito que fez época.

João Gomes da Silva, que era homem _forte e ardido, cujas palavras sempre traziam jogo e sabor_, levanta-se no meio dos indecisos e exclama dirigindo-se a elrei==_Quanto eu, Senhor, não sei al que diga senão, ruços, alem_, apontando para o sul, na direcção do Algarve d’alem mar, e isto dizia porque elrei e os mais dos que alli estavam tinham já as cabeças cheias de cans. Elrei e os mais riram-se, e assim folgando fizeram fim de suas falas==. Terminaram o conselho a rir-se, os valentes e audazes; iam para Ceuta, para a conquista africana, o inicio glorioso dos descobrimentos, para esse triumpho e sacrificio incomparavel da nacionalidade portugueza. Pois esse grito _ruços, alem_, ouviu-se nos paços reaes de Torres Vedras. (Azurara, parte 3.ᵃ da _Chronica de D. João I_, cap. 26).

Passeio a Santa Cruz de Ribamar

No dia 27 de setembro de 1905, depois do banho e do almoço, em commodo trem, fui a Santa Cruz.

A estrada vae ao campo do Amial, pelo sopé do monte de S. Vicente, que nos fica á direita; depois pela esquerda a falda do Varatojo. A estrada segue na grande varzea, comprida e ampla, importante, onde o Sizandro abre o seu leito.

Vinhas magnificas, cepas fortissimas carregadas de esplendida uva. A estrada incómmoda pela muita poeira. Fiz uma paragem na quinta dos Chãos, á direita do caminho. Pouco dista da estrada, bem accessivel ao trem. A velha ermida serve de armazem; só me chamou a attenção uma pedra com lettreiro, do seculo XV, solta, na pequena sacristia; não tirei apontamento porque imaginei que a tinha visto publicada nas _Memorias de Torres Vedras_. Verifiquei depois que não está! seria bom, e creio que facil, recolher a pedra na Camara Municipal, onde se guardam já algumas pedras significativas na historia de Torres Vedras. Alguns homens cavavam; eu vi a descoberto um grosso paredão de alvenaria em argamassa mui antigo.

No terreno d’esta propriedade teem apparecido por vezes vestigios romanos; provavelmente existiu alli alguma _villa rustica_.

Seguindo o passeio. Passamos por boas propriedades, e alguns grupos de casaes.

Os campos estão animados, as estradas concorridas; é uma festa agora; a grande festa das vindimas. Tudo sorri com os bellos racimos do divino Baccho, doce e aromatico.

Calcula-se em 80:000 pipas a producção do vinho no termo de Torres Vedras; mas este anno ha crise de fartura, os preços estão muito baixos; queima-se por isto muito vinho para fazer aguardente, que se vende de 80 a 85 mil réis a pipa de 534ˡ,24, posta em Villa Nova de Gaya.

Todos estes terrenos são de alluvião moderna, mas passadas tres quartas partes do caminho começa a apparecer a areia maritima. Cultiva-se milho, feijão frade, grão de bico.

Passamos junto de alguns moinhos em grande businada, as cordas cheias de louça, dezenas de vasos de barro; os moleiros d’estes sitios são grandes amadores d’esta musica.

Passamos por alguns pinhaes, e chegamos a Santa Cruz, logar formado por algumas casas antigas, e bastantes modernas.

É a praia balnear de Torres Vedras. Pessoas abastadas da villa e de logares proximos aqui mandaram construir vivendas, nas arribas de ar lavado pela brisa do Atlantico. A praia é bonita; uma fita de areia branca, de brando declive, abrigada pelas escarpas não muito altas, de aspecto severo, formadas pelas rochas de colorido variado. Um grande rochedo alteroso destaca na praia. Foi accessivel em tempo, porque ainda se observa a certa altura um lanço de escada talhado na rocha; mas as vagas esboroam a base. Talvez servisse de atalaia para descobrir corsarios mouriscos, ou marcha do peixe, da baleia, por exemplo, frequente por este mar em tempos idos. Pelos piratas mouros ou corsarios argelinos foi a costa visitada, parece que com certa frequencia, ao que dizem velhas chronicas. Do alto da arriba o mar apresenta o aspecto de amplo golpho; a norte prolonga-se, entrando muito pelo oceano, a peninsula de Peniche, e em frente avistam-se nitidamente os rochedos das Berlengas e Farilhões. Notei aqui um facto talvez interessante; avista-se um largo trecho da costa, escarpas de 40, 30 e 20 metros de altura; em certo ponto a escarpa é mais baixa, chega talvez a quinze metros; por ahi sobem as areias que vão alastrar-se terra dentro; vê-se a duna encostada á rocha nos outros pontos que não vence; pára ante o obstaculo; alli vence, entra pelo chanfro.

E poderá ainda marcar-se a historia da invasão porque na chronica do Purificação ao tratar de Ribamar e do convento de Pena Firme se mostra que ainda no seculo XVII o terreno não estava vestido pelo manto de areia em tamanha extensão.

Logo de entrada encontrei, bem agradavel surpreza, o sr. Rodrigues da Silva, cavalheiro que eu já conhecia de Torres Vedras; é sabedor da historia da villa e termo, amador de antiguidades, e muito amavel companheiro; com elle fui vêr o monumento funerario mandado fazer por Valerio e Julia, que se conserva no logar marcado nas _Memorias da Villa de Torres Vedras_ (pag. 20 da 2.ᵃ ed.), e no _Corpus_. A distancia de poucos metros vê-se uma sepultura, algumas lages cravadas no solo, marcando perfeitamente o vão sufficiente para um corpo humano. Parece que em tempos se viam alli vestigios de outras sepulturas; a que existe agora está á beira da escarpa; mais alguns annos e o embate das vagas a fará desapparecer.

Na ermida de Santa Cruz, ou de Santa Helena, vi uma imagem d’esta santa que me pareceu anterior, pela rudeza e ingenuidade da esculptura, ao seculo XVI.

Na missa e no mercado

No domingo, 14 d’agosto de 1904, assisti á missa na egreja de S. Pedro. Muita gente, com bastante respeito. Á sahida fiz de janota parado á porta da egreja para vêr o desfilar dos devotos. Primeiro os homens dos campos, das vinhas, com seus varapaus; mulheres do campo de chale, lenços mal postos na cabeça, á larga. Seguiram as mulheres da villa; caras agradaveis poucas, expressões duras não estupidas nem alvares; na grande maioria cabellos castanho-escuro; cabellos pretos mais raros; algumas cabelleiras ruivas, e algumas pelles sardentas.

Cabellos corredios, na maioria, poucos em madeixas.

Alguns olhos azues, pelles avermelhadas.

Homens de construcção regular, as mulheres de thorax estreito, pouco seio, mal geitosas.

Durante a missa os homens não largam os varapaus; quando ajoelham vê-se grande numero, porque se encostam, e não deitam no chão o inseparavel.

Usam o simples marmelleiro ou zambujeiro, raros os paus ferrados.

As mulheres usam poucos ornatos, e pouco ouro.

No terreiro proximo da egreja faz-se o mercado. Vendiam melões, melancias, uvas lindas, brunhos varios, maçãs grandes, variedade de peras, aboboras, tomates, pouca hortaliça.

No mercado de peixe, atraz da egreja, sardinha e sarda, fresca e salgada, cação, gorazes; o peixe vem de Nazareth e de Peniche.

Mulheres do campo aviavam os seus cabazes; levavam pão, meio cento de sardinhas, meia duzia de sardas.

A um cantinho do mercado estavam algumas mulheres com polvo, mexilhão, caranguejos grandes. Não faltava a mulher dos tremoços e da pevide de abobora. Dois homens vendiam planta de couve. Vi ainda vendedores de enxadas, e de calçado forte, sapatos de dura.

Os homens na maioria usam botas altas.

Todo o povo d’estes sitios é calçado, só por excepção vi gente descalça. Isto de pé descalço é uma inferioridade, que talvez acabasse com um pequeno impulso.

Dizem-me que a gente hespanhola está toda calçada já, tem conseguido o sapato e a alpargata de preço baixo. Talvez que as commissões parochiaes de beneficencia podessem resolver o problema. Eu acho o pé descalço uma cousa deprimente, que entristece.

Na pequena praça do Municipio (em 1904) faz-se o mercado da batata; mal se transitava tanta era a saccaria; vende-se a batata arrobada; pareceu-me de boa qualidade. Em 1905 este mercado fazia-se no largo de S. Thiago.

Pelas lojas nas ruas proximas grande freguezia, de gente dos arredores que ao domingo vem mercar á villa.

Ha movimento commercial em Torres, lojas com muitos contos de réis em existencia. A villa é pequena mas os arredores são muito povoados.

Vi industria de ferragens e mobilia especial, com algum geito.

Pelo aspecto geral é gente que trabalha, sobria, um tanto rude.

É escusado dizer que o fomento official é nullo, depois da pobre escola primaria nada mais; algumas creanças vão de Torres ao Varatojo! para aprender alguma cousa; uma caminhada de uma hora.

Aqui em Torres seriam uteis uma aula de desenho, outra de agricultura, e uma terceira de arithmetica e geometria com ensino especial de contabilidade; porque esta villa é centro de uma região agricola importante, tem commercio grande e pequeno, e industrias que se devem desenvolver.

A feira franca

(21 DE AGOSTO DE 1904)

Na grande varzea em parte arborisada faz-se esta feira muito concorrida pela gente d’aquelles sitios; a região de Torres Vedras é bastante povoada; aldeias e logarejos, boas quintas, casaes, matizam os campos accidentados, as collinas entremeadas de valles e varzeas ferteis.

Este rocio onde se faz a feira tem ao lado a casaria da villa, ao norte o monte onde se ergue o castello, entre olivedo e paredões negros alveja a egreja de Santa Maria, muito caiada; mais longe e mais alto o monte de S. Vicente; a poente do rocio a serra do Varatojo, vestida de vinhedos. Na parte arborisada enfileiram-se barracas e tendas, no rocio nú é a feira de gados e a corredoura.

As barracas de ourivesaria agrupam-se com as dos utensilios de arame, cobre, ferro estanhado, latoaria. As dos vidros estão perto do grande estendal de louças branca e vermelha.

A louça ordinaria, popular, provém das differentes olarias do termo de Mafra, a branca vem de Alcobaça.

A notar um especialista de buzinas de moinhos de vento, aquellas vasilhas de barro, que assobiam e zumbem quando o vento apressa o movimento das quatro velas triangulares.

Vende-se calçado grosso, bastante correaria, não faltando as sogas ornadas, bordadas a pita colorida.

Pequenas quinquilherias, modestas roletas variadas formam uma rua, leiloeiros de varias qualidades chamam a gritos a attenção do povinho, perto das barracas de tiro ao alvo.

Num espaço grande estão as madeiras; o que mais dá na vista é o material vinario; é natural, estamos numa grande região vinhateira.

Cubas, toneis, balseiros, barris, celhas, tinas em abundancia; de castanho, as mais; algumas de pinho da terra, genero barato. Carros para bois, e tambem de pequenas dimensões e de construcção mais leve para burricos. Ha especialistas em arcos, e negociantes de varedo, assim como de crivos e peneiras.