Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

Part 8

Chapter 83,847 wordsPublic domain

Em 1481... vinha que parte com a ermida de Santa Maria da Luz, em Carnide.

Um documento de 1484 menciona as courellas que pagavam o quarto á quinta de Carnide, duas entestavam com a Luz e caminho que vae para o _Lomear_. Outra com estrada que vae de Carnide para Lisboa. Menciona-se um fulano morador na _Ribeira de Agoa Livre_; é um sitio da ribeira ou do valle de Carenque. Uma courella no cabo do _Rego_, outra na estrada de Lisboa e na do Lumiar.

A pag. 32 da publicação do sr. P. d’Azevedo (_Archivo Historico Portuguez_, vol. III), vem o _titulo dos canos_: F. morador na de _Dona Maria_ (é a aldeia que fica a norte de A da Beja) tinha uma courella de vinho e azeite que entesta no ribeiro do Bom Nome (a quinta do Bom Nome é agora a do Sarmento), e com o _Resyo do logar_. O rocio de Carnide era a poente da egreja de S. Lourenço, a parochial, que é do seculo XIII.

F. morador nas Fontellas, na ribeira de Loures tinha uma courella que entesta com o rio do _Bom Nome_ e com o _resyo de Carnide_. F. tinha metade de um quarto de courella. Vê-se que a propriedade estava muito dividida.

A _albergaria_ de Carnide trazia tambem um meio quarto de courella. Passou depois a pequena fazenda para o _hospital_ de Carnide.

Outra courella entesta no rio do Bom Nome e com o adro de S. Lourenço; deve ser a fazenda onde está agora uma vaccaria.

F. do _Calhariz_ possue uma terra que vem á estrada _na do Correia_... caminho de Bemfica. F. tem uns quinhões na almoinha do Machado defronte da porta travessa de Nossa Senhora da Luz. _Correia_ é o nome da quinta do sr. conselheiro Pequito. Um quinhão do lagar do Espongeiro... parte do aguião ao longo da estrada _na do Correia_, e do vendaval (sul) entesta com o caminho de Bemfica e da travessia (poente)...

No _Esparageiro_; será variante de Espongeiro? Esparageiro virá de espargo?

Agora apparece-nos um nome estranho, quinhões dos _Feytaes layrasos_, e tambem _Feytaes castelhanos_. Nada conheço agora que se lhe avisinhe. Todos estes nomes estão no titulo dos _Canos_: este era pois o nome de uma região, entre a estrada do Poço do Chão e a estrada que vae de S. Lourenço para a Porcalhota, agora, recentemente, Amadora, passando pela actual quinta da Correia. É possivel que este nome de Canos tenha a sua origem em antigos pequenos aqueductos.

Finalmente apparece-nos um documento com autos de medição de certas propriedades; é de 1554. A vinha da Coelheira que parte com caminho da Granja, tinha de largura 28 varas e de comprido 246 varas, era um tira de terra: outra vinha tinha de largura 51 varas e de comprido 280 varas, era uma fazenda com pouco mais de hectare e meio.

Esta collecção de documentos é importante para o estudo da marcha do processo civil; especialmente o grupo que pertence ao primeiro quartel do seculo XIV. Brigam no comprido pleito particulares, freiras, o convento; chegam á excommunhão. Ha instrumentos de protesto, de testemunho, de intimação, procuração, cartas regias, sentenças, recibos e obrigações, aforamento, arrendamento a longo praso, e suas condições, carta de excommunhão, posse, emprazamentos em tres vidas; todos estes variados instrumentos entram no seculo XIV, a maior parte no seu primeiro quartel (1299 a 1325).

As conclusões a que chegamos são: no termo de Carnide a propriedade estava muito dividida; havia proprietarios de meia courella, de quarto, de meio quarto de courella.

A cultura era variada, vinhas, olivaes, terras de seara ou de pão; almoinhas ou hortas. Falla-se numa vinha _velha_.

Não vejo nos nomes de proprietarios ou rendeiros nomes mouriscos; muitos teem dito que os saloios são de origem mourisca, nestes documentos não apparecem nomes desse elemento; apparecem individuos da familia Negro, judaica, proprietarios ou gente de negocio. Nestes documentos falla-se em muitos predios porque tratando da quinta de Carnide, cabeça dos predios rusticos de Urraca Martins Machado, e das suas dependencias ou terras annexas, ao mesmo tempo se mencionam varias com que confrontam. Não vejo mencionar cercas, tapadas, muros. Como noutras partes accumularam propriedades, arredondaram e muraram. Aqui a construcção dos conventos com suas cercas importantes alterou immenso a topographia dos predios.

Os conventos da Luz, de Santa Thereza, dos Carmelitas, o Hospicio das freiras de Christo, alastraram no fim do seculo XVI e no XVII os seus vastos edificios e amplas cercas de altos muros.

Todavia as estradas indicadas existem ainda hoje, a azinhaga da Fonte, o caminho de S. Lourenço para Bemfica, que é a estrada do Poço do Chão, que passa pela Granja, a estrada de A do Correia, estradas da Luz para o Lumiar, e da Luz para Lisboa. Em frente da porta travessa da egreja da Luz lá está ainda uma almoinha com suas latadas e canteiros; a quinta do Bom Nome, é agora chamada do Sarmento. A do Correia é a quinta da Correia, os logares ou aldeias de A da Beja, Dona Maria, Calhariz, Payam, Santo Eloy existem. O valle de Odivellas tão interessante conserva-se dividido em pequenas propriedades, de intensa cultura onde o saloio moureja.

Fóra d’esse valle a pequena propriedade quasi desappareceu; a tendencia é para accumular. Depois dos conventos, ou contemporaneamente, formaram as quintas depois chamadas do Oliveira, da Condessa, do Mossamedes, do casal do Falcão. Modernamente formou-se a grande quinta de Montalegre que fundiu cinco propriedades grandes; o collegio militar tambem alargou as suas terras. Só entre o logar de Carnide e o Paço do Lumiar se encontram os grandes vallados antigos, as propriedades sem muros.

A villa da Ericeira

(1903-1905)

Os caminhos mais seguidos para ir á Ericeira são os que partem de Mafra e de Cintra; este o mais frequentado.

A estação do caminho de ferro de Cintra está pittorescamente aconchegada na base do alteroso monte granitico, rochedos pardos entre manchas de vegetação verde escura, coroado pelas torres e quadrellas mouriscas terminadas na fina grega de ameias. Da estação partem os carros para a villa, para Collares e Ericeira.

Começa logo a descida, passa-se uma ponte; termina de subito a invasão das construcções modernas, e definem-se as modestas casas saloias da moda velha.

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_Lourel_, a primeira aldeia; era já povoado o sitio em tempo da dominação romana; antes de gódos e de mouros, vejam lá!

Mais cinco minutos de carro e apparece, espreitando entre agrestes collinas, a torre de Ribafria; uma residencia nobre medieval, conservando a sua linha primitiva, a torre com seu brazão, palacete, grande lago e alta cerca, naquelle fundo valle aproveitado provavelmente pela abundancia de agua nativa.

São bem raras estas residencias ruraes em Portugal, todavia restam algumas que contam a sua formação pela juxtaposição dos seus cunhaes.

A residencia de Bellas, por exemplo, que é muito interessante, onde eu julgo vêr restos ainda da alta idade media.

As arvores que bordam a estrada estão inclinadas uniformemente para suéste marcando bem a corrente dos ventos dominantes.

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_Villa Verde_, um grupo de casas com seus quintaes, muros de pedra solta, figueiras e parreiras.

A vista alarga-se pelos vastos campos, accidentados; ao longe collinas arredondadas com manchas escuras de pinhal. A serra de Cintra mostra agora a sua crista atormentada, as massas escuras de arvoredo, destoante de tudo o que a cérca; e avista-se Mafra, a enorme joia, principalmente vistosa se o sol da tarde illumina a soberba frontaria, que olha para occidente.

* * * * *

_Terrugem_, povoado alegre, amplo terreiro, egreja antiga com sua alpendrada, e seu gentil campanario do seculo XVIII; pouco adiante uma velhissima ermidinha, com portal em ogiva.

Estamos em pleno paiz saloio, onde apenas algumas pequenas explorações de pedreiras juntam fracos elementos á vida agricola. Ha poucas habitações dispersas, e nenhum povoado importante. Esta freguezia de S. João Degolado da Terrugem compõe-se de mais de vinte povos ou logares, que teem na média 10 fogos. Os mais povoados são Terrugem, Villa Verde, Alcolomba, Lameiras, Almurquim, Fajão, Cabrella, Carnessada, Goudigana, Armez. Grupos de 4, 6, 8 casaes são os logares de Toja, Da do Bispo, Alpolentim, Urmeiro, Fervença, Moleirinhos, Sequeiro, Murganhal, Alparrel, Funchal, Silva. Um ribeiro, o Fervença, corta as terras da freguezia.

Entre as designações locativas algumas merecem reparo pois mostram influencias de antigas linguagens.

E por todo o paiz saloio a população se encontra assim em pequenos grupos, sendo muito menor a parte que vive em casaes ou quintas isoladas.

* * * * *

_Odrinhas_; pára a carrinha de bancos para descanço dos animaes, e breve allivio dos passageiros.

Se o saltitante vehiculo vier completo, e entre os passageiros houver gorduchos, é caso grave; porque a diligencia foi feita para trinca-espinhas. A paragem é uma consolação, para alargar um pouco os musculos.

A um kilometro da pobre locanda, estação _central_! onde pára a carrinha, fica o meu adorado S. Miguel de Odrinhas, a velha egreja, com as suas veneraveis antiguidades, o primitivo alpendre, o cemiterio medieval, e as suas lendas bem interessantes.

Mais dez minutos e passamos perto de um cómoro cheio de enormes pedregulhos, ovoides uns, globulares outros; ali os muros das pequenas propriedades parecem feitos de pelouros, de grandes balas de pedra. É _Alvarinhos_, uma formação granitica, bem frisante entre os terrenos da grande chapada.

Segue-se um plaino pouco accidentado; casas saloias de construcção quasi cubica, escada exterior para o sobrado, e telhado de quatro aguas; grandes lages formam as divisorias; uma casa tem a sua porta abrigada por um alpendre formado por tres lages, duas a prumo e uma coberteira; cruzes de cal branca em muitas paredes, ás vezes muitas cruzes numa só parede; algumas casas mais modernas e janotas com os cunhaes pintados a azul e vermelho.

Estamos em terras da freguezia de S. João das Lampas, mais importante que a Terrugem: tem 32 povos ou logares; mas a media de fogos por logar é egual á da Terrugem.

Os povos mais importantes são: S. João das Lampas, Bolelos, Montearroio, Odrinhas, Alvarinhos, Amoreiras, Almagreira, Areias, Alfaqueques, Mouxeira, Arreganha, Seixal, Assafôra, Cortezia, Cantrivana, Arneiro, Togeira, Magute, Bolembre, Fontenellas, Gouvêa, Perningem, Codiceira.

Os ribeiros de Magute, Samarra e Barril, que vão á foz de S. Julião, cortam parte da freguezia em valles fundos, formando nos convalles pequenas veigas ferteis.

A oriente, Mafra, o soberbo zimborio, as altas torres dos sinos, os formidaveis torreões dos extremos; e a sul a serra de Cintra, decorativa por excellencia, mais azul quanto mais longe, com tons de amethysta, frequentemente variada com ligeiras neblinas.

Pouco mais e descobre-se a veiga da ribeira de Chileiros, os sulcos fortes dos seus pequenos afluentes, entre collinas de declives rapidos.

Para o poente a grande face tranquilla do Atlantico.

Uma e outra vinhasita entre muros de pedra solta; retalhos de tojaes cortados; vaccas leiteiras guardadas por creanças; grupos de pinheiros mansos de verde lustroso, poucas arvores de fructo; sobre os telhados filas de aboboras; em fins de setembro os campos estão animados, trabalha-se nas eiras na debulha do milho, e na estrada passam os carros com as uvas para as adegas.

Fica ao longe a casaria branca, baixa, de S. João das Lampas, alveja a Assafôra, e outros pequenos povos; passa um fresco pinhal, e começa a descida que leva á Carvoeira, uma aldeia na encosta; em baixo o valle agora mais amplo da ribeira de Chileiros, forrado de vinhedos novos.

Ha uma ponte nova, bem lançada; e a carrinha sobe vagarosamente a longa ladeira; vê-se a Foz, a barra de areia branca, a agua do rio mui socegada entre as escarpas altas e escuras; ouve-se o rumor da arrebentação, das grandes ondas de claro verde transparente, de franjas alvissimas que o vento pulverisa, desenrolando-se espumantes sobre a barra de areia branca, ou saltando, espadanando nas escuras rochas das ribas.

O vasto oceano impõe-se agora, de fim vago se ha neblina; se o tempo é claro sempre a mesma linha de horizonte, nitida, limite implacavel e monotono.

Termina a ladeira, salvam-se umas curvas de macadam, e apparece-nos a distancia a branca villa da Ericeira, como um bando de gaivotas pousado na riba da beira-mar.

As _arribas_ são escarpas de 30, 40 metros de altura, pittorescas em muitos pontos pelo estranho colorido, pela fórma de fragmentação; parecem ruinas de edificios gigantes.

Escuros penedos á beira-mar quebram as vagas que se empinam em cristaes, se desfazem em brancas espumas ferventes, numa lucta rithmica. Das arribas a encosta faz uma plataforma, e logo sobe rapidamente o terreno para oriente, o lado de Mafra.

Nesse largo socalco assenta a villa da Ericeira, a branca villa toda caiada, porque os habitantes até branqueam os telhados de muitas casas, e as ermidas das _arribas_, S. Julião, S. Antonio e S. Sebastião parecem talhadas em sal marinho.

Nenhuma vegetação agora rompe a nitidez do verde mar, do escuro das furnas, da cal branca faiscando ao sol; só umas delgadas, flexiveis araucarias conseguem erguer-se sobre a linha da casaria; outras arvores ao passar a crista dos muros desfolham-se e quebram-se pela ventania maritima; nos pequenos quintaes abrigados ha roseiras finas, jasmins viçosos e latadas de dourado moscatel.

Tambem tenho ido á Ericeira, passando por Mafra. Na estação do caminho de ferro apparece um carro de bancos, especie de americano de montanha, que nos leva á povoação, vencendo uma comprida ladeira. Proximo á estação, sobre uma collina, avista-se uma aldeia de aspecto interessante; as casas cubicas, com suas barracas ou quinchosos aos lados, coroam o monte, semelhando uma fortificação de torres e quadrellas. A estrada vae subindo pela meia encosta de um grande massiço; os largos declives dos montes povoados de culturas, vinhedos; nos sovacos mais humidos grupos de vaccas leiteiras.

Para cortar caminho, indo de trem, atravessa-se um canto de tapada, uma rua de platanos, e logo o assombro do monumento.

Ha ali primores de extraordinario merecimento. Que magestade imponente nas linhas geraes, que afinação, que equilibrio entre os corpos que compõem o grande conjuncto, que acabada execução! e na egreja que relevos de delicado lavor! e que bello horisonte!

N’este paiz accidentado quasi todos os monumentos teem moldura de grandiosa paizagem; não succede o mesmo em França, Inglaterra, Allemanha onde a vista pára em arvoredos proximos ou encontra planuras monotonas. Mafra tem moldura larga e rica, basta a decorativa Cintra, joia azul, o mar, e aquella vastidão de terras accidentadas, com seus povos e casaes, quintas, vinhedos e manchas avelludadas de pinhal.

Os sinos, um dos primeiros carrilhões do mundo, enchem de vibração religiosa aquelles campos; ouvem-se muito ao longe; uma vez passando em Odrinhas ouvi uma toada longa, mui grave, que me impressionou; era a sonoridade dos sinos de Mafra que chega a muitos kilometros de distancia. Outra vez ouvi no carrilhão a valsa do _Fausto_! que typo de sineiro, quando hoje ha musicas escriptas expressamente para estes grandes instrumentos de musica!

Mafra tem outra notabilidade, a velha egreja de Santo André, antiga freguezia. Cautella com os amadores, pois a vi muito abandonada.

Tem altares de azulejos mosarabes, e frontaes de couro lavrado, colorido e dourado; e duas arcas tumulares medievaes, de interesse historico e artistico. O exterior da capella mór e a torre sineira são da primitiva, e em volta está o velho cemiterio, tão pouco respeitado!

Com pequeno esforço se poderia conservar melhor essa interessante egreja de Santo André!

Muito curioso o pequeno mercado, os figos moscateis, as lindas uvas, as bellas maçãs, os aromaticos melões, as saloias com os seus cabazes de ovos. Mas que ovos saborosos! nos almoços que nas minhas passagens por Mafra consumi no Moreira ou no Duarte ou no Ricardo, eu repeti os ovos fritos na manteiga saloia.

A carrinha da Ericeira pára á porta do correio, que fica ao lado da escadaria monumental da egreja.

E partimos para o lado do mar.

Pela estrada carros com rama de pinho, rapazes com vaccas leiteiras, e grupos de crianças pedindo cincoreizinhos em cantilena nasalada.

_Sobreira_, logarejo com caixa de correio, e uma loja centro commercial, onde se vende tudo á gente do sitio, e vinho á gente que passa; o cocheiro aceita sempre o seu copito. Fabrica-se por aqui ceramica popular, louça de barro, vidrada ou não, com sua ornamentação especial. E não só na Sobreira, mas em outros povos proximos ha oleiros, até á Lapa da serra, pequeno logar já visinho da Ericeira.

Agora atravessamos trechos de pinhal; paisagem formidavel; na luz forte o grande mar, a serra de Cintra, amethista lavrada, os vastos campos accidentados, palhetados de logares e casaes brancos, as verdes manchas de pinhal, e Mafra, o imponente edificio avermelhado, saliente entre a pequena casaria branqueada da villa.

E quanto mais nos avisinhamos da Ericeira mais viçosos são os pinhaes; tudo pinhal novo, porque as velhas arvores foram derrubadas nos ultimos annos. O mar quanto mais proximo mais scintillante.

E nada da Ericeira; para esse lado, a quem vem de Mafra nem uma casa, nem uma torre de egreja mostra a villa; porque ella está no grande socalco da ribamar; quasi ao terminar a ladeira surge a casaria branca alastrada, projectando-se sobre o oceano.

Ora vamos ouvir o padre Antonio Carvalho da Costa, bom author que eu sempre recommendo, na sua mui excellente «Corografia portugueza, e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal», impressa em 1712: escreve o prestimoso clerigo e mathematico lisbonense, a pag. 42 do tomo terceiro:

Da Villa da Eyriceyra

Uma legua ao noroeste de Mafra (será escusado lembrar que havia então leguas pequenas, e leguas da Póvoa), tres ao sudoeste da villa de Torres Vedras, e sete ao Sul de Peniche, tem seu assento a villa da Eyriceyra, a quem banham pela parte do occidente as salgadas e ceruleas aguas do cubiçoso Oceano, que a faz abundante de bom pescado e excellente marisco, especialmente eyriços, donde a villa tomou o nome, o que approvam suas armas, que são um eyriço em campo branco.

Elrei D. Diniz lhe deu foral (o primeiro foral é mais antigo), que confirmou depois elrei D. Manuel, fazendo doação della ao infante D. Luiz seu filho, de quem a herdou o sr. D. Antonio, seu filho illegitimo, ao qual (sendo expulsado da successão do reino por el Rei D. Fillippe o de Castella, e vencido na ponte de Alcantara pelo duque de Alba, que com poderoso exercito entrou neste reino) lhe confiscaram todas suas rendas, e entre ellas a villa da Eyriceyra, a qual deu em satisfação de divida a Luiz Alvares de Azevedo de juro, e herdade para elle, e seus descendentes, com que ficou excluida da Corôa, como bens patrimoniaes; e pertencendo ella a uma sua filha, religiosa de S. Bernardo no mosteiro de Odivellas, a vendeu a abbadessa por 8:000 cruzados a D. Diogo de Menezes com todas suas rendas e direitos reaes, e a quinta parte do morgado da villa de Mafra, e a vintena do peixe, que se paga aos senhores da dita villa, que é em todas as partes em que fóra della pescam seus naturaes, mui exercitados neste officio.

Tem 250 visinhos com uma egreja parochial da invocação de S. Pedro, curado, que apresenta o conego da Sé de Lisboa, o qual tambem apresenta a vigairaria de Mafra: tem mais Casa da Misericordia, e estas ermidas, o Espirito Santo, Nossa senhora da Boa Viagem, S. Sebastião, e S. Martha, e ha nesta villa tres fontes perennes.

Assistem ao seu governo civil um ouvidor posto pelos condes (que nesta terra tem os oitavos do pão e vinho), dois vereadores, um procurador do conselho, um escrivão da Camara annual, que o é tambem da almotaçaria, outro escrivão dos orfãos, que o é tambem dos direitos reaes e do judicial e notas. Tem uma companhia da Ordenança, e um forte com cinco peças de artilharia, que sustentam os moradores, e os condes consultam o governador. É hoje senhor e conde desta villa D. Francisco Xavier de Menezes, cuja illustre varonia é a seguinte:==e segue uma noticia da genealogia d’essa bella familia dos condes da Ericeira, D. Diogo de Menezes, 1.ᵒ, D. Fernando de Menezes, 2.ᵒ, D. Luiz de Menezes, 3.ᵒ, D. Francisco Xavier de Menezes, 4.ᵒ, série brilhante na fidalguia portugueza.

Foi este ultimo que animou Carvalho da Costa a escrever a sua chorographia que tantos serviços presta ainda agora.

A respeito da villa de Mafra conta-nos Carvalho da Costa: o seu termo é abundante de pão, gado, e caça: tem uma egreja parochial dedicada a S. Izidoro, curado, que apresentam os moradores (note-se isto, eram os moradores que apresentavam o cura), os quaes passam de cento e sessenta divididos por estes lugares, Azambujal, Quintal Gonçalvinhos, Grocinhos, Lombo da Villa, Almada, Ribeira, Murteira, Pinheiro, Murgeira, Cachossa, Roxeira, Amoreira, Póvoa, Valle de Carreira, Caeiros, Fonte Santa, Relva, Sobreiro, Fonte Boa dos Nabos, Figueiredo, Picanceira, Penagache, Lagôa, Montegudel, Ribamar de cima e de baixo, com muitos casaes. Tem mais este termo o forte de _Milreu_, e o de Santa Susana com duas peças d’artilharia.

A corographia de Carvalho da Costa imprimiu-se em 1712; estava-se longe da importancia posterior de Mafra, realçada pelo seu colossal monumento.

O que me chama a attenção na descripção de Mafra, feita por tal authoridade em 1712 (isto é em 1709, porque 1712 é a data da impressão) é que nesse tempo, em que se conservavam ainda vigorosas as antigas instituições, no termo da villa de Mafra a freguezia mais importante era a de Santo Isidoro; e que o seu parocho curado era apresentado pelos moradores. Isto mostra que esta freguezia ou parochia era uma entidade muito sobre si: e abrangia um territorio vasto e importante, como o é ainda agora.

Em 1844 temos outra noticia a respeito da Ericeira no famoso Panorama (Serie 2.ᵃ Vol. 3.ᵒ pag. 335).

É um artigo de Henriques Nogueira. Acompanha-o uma gravura ingenua mas curiosa; mostra os rochedos, a alta escarpa, a ladeira que vem ao pequenino porto, as paredes do forte, agora em parte desmoronado, e ao longe a ermida de S. Sebastião.

==Em documentos antigos é conhecida por Oyriceira e Eyriceyra, e d’aqui vem serem as armas do concelho um ouriço.

==Os mais antigos assentos da separação da parochia de Mafra são de 1406. D. João V prestou grande auxilio á reedificação de S. Pedro.

==O estabelecimento mais importante que esta villa possue é a casa da Misericordia a qual foi fundada onde havia uma ermida do Espirito Santo, por Francisco Lopes Franco, em 1678. Este doou-lhe um padrão de juro de 480$000 réis, e os pescadores obrigam-se a pagar-lhe annualmente todo o ganho d’uma rede de pesca, cujo onus solveram pela quantia de 6$400 réis que ainda hoje pagam cada um dos dez barcos de pesca. O rendimento actual (1844) em juros e fóros é de 1:679$700 réis. Despende com encargos pios e despezas do culto 725$300 réis e com o hospital 479$300 réis. O excedente da receita é empregado em esmolas e vestuario aos pobres. Os habitantes empregam-se pela maior parte nas pescarias ao longo do nosso littoral, na costa de Marrocos, e tambem já fizeram tres expedições ao Banco de Terra Nova n’estes ultimos annos (como isto passou!). O numero de embarcações de todos os lotes, incluindo as do commercio de cabotagem é de 98, empregando 670 individuos. A população orça por 2:769 almas com 750 fogos; no principio d’este seculo tinha apenas 600.==(lembro ainda que isto se escrevia em 1844).

==O forte está sobranceiro á calçada que dá para a praia, e hoje acha-se desguarnecido. Segundo se deprehende de uma inscripção sobre a porta foi edificado por D. Pedro 2.ᵒ

==No chafariz chamado a Fonte do Cabo existe uma pedra embutida na parede com um emblema e legenda em caracteres gothicos em relevo, que parece significar: «Feita na era de mil e quatrocentos e cincoenta e sete annos.»