Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa
Part 7
O aspecto do touro no carro era extraordinario; os olhos negros e vermelhos com uma expressão de furia mais que de dôr; suava em grossas bagas; mordeu-se nos beiços até levantar a pelle. Alli, atadinho no carro, sim, que a gente podia vêr um touro de pertinho. De repente deu um puchão, e assoprou; isso é que foi panico, não sei se cahiu alguem, ouvi dizer que sim. O resto do caso foi visto de cima do muro. E lá foi o carro pela estrada fóra, á noitinha, caminho da leziria, com o seu cortejo de campinos nas suas ligeiras facas.
* * * * *
_Nomes dos animaes._--Á sombra da parreira vestida de bellos cachos; entre os alegretes azulejados, azul em fundo branco, em pequenos quadros de galanteria, episodios comicos, italianices e chinezices, á moda do seculo XVIII; proximo da nóra onde barulha a agua ao som emolliente e rhytmico do engenho, cavaqueia-se em cousas diversas; appareceu o sr. F. V. que tem lavoura e gados no Alemtejo; e logo se fallou de searas, pastagens, touros, casos de pastores...
--E sabe os nomes dos bois?
--Ora, essa! dos bois, dos cavallos, dos touros...
E eu fui tomando nota dos nomes dos animaes.
NOMES DE TOUROS.--Artilheiro--Azeitono--Barqueiro--Batoque--Bugino --Caçador--Caixeiro--Caldeiro--Camarinho--Capirote--Caraça--Carvoeiro --Corvacho--Espingardo--Estandarte--Estorninho--Estrello--Foguete --Forcado--Gaiato--Gaveto--Lanceiro--Luviano--Murtinho--Rabalvo --Rasteiro--Teimoso--Verdugo.
NOMES DE CABRESTOS.--Calçado--Caminhante--Caminheiro--Ligeiro--Pardal.
NOMES DE BOIS DE TRABALHO.--Alfayate--Bigode--Bonito--Castanho--Esperto --Formoso--Galante--Galhardo--Joeiro--Lagarto--Mourisco--Trigueiro.
Dois bois de trabalho, de egual marca, fazem uma junta; aqui por estes sitios os bois da junta teem nomes certos; se um é _castanho_ o outro é _mourisco_; o _formoso_ com o _galante_; o _galhardo_ com o _ramalhete_, e o _damasco_ com _diamante_.
NOMES DE VACCAS.--Andorinha--Bonecra--Bonita--Borracha--Branca--Briosa--Carriça --Catita--Caterina--Coimbra--Corvina--Doirada--Estrella--Gadanha--Janota --Padeira--Pomba--Rita.
NOMES DE CAVALLOS.--Carocho--Catrapim--Palmeiro--Pardal--Pirata--Tareco.
NOMES DE CABRAS.--Alvadia--Carocha--Cartaxa--Condeça--Marmella--Rasteira.
NOMES DE CÃES E CADELLAS.--Tejo--Nilo--Maltez--Leão--Navio--Norte --Beirollas--Ladina--Esperta--Belleza--Brincatudo--Digoélla (diga-o ella).
Agora em Carnide ha nomes de cães e gatos, de origem culta, Macbeth, Castor; a par da Tartaruga a Giroflée; ao lado do Rabicho e do Janota os gatos Zixacha, Gungunhana, e o Godide, de nomes gloriosos.
_Noticias várias._--O padre Anastacio resou a missa de corpo presente por alma do principe de La Rochejacquelin (Luiz), morto na furiosa carga de cavallaria nas terras do marquez de Louriçal, á Palhavan (agora dos condes da Azambuja). A missa foi celebrada na egreja de Carnide. O padre Anastacio morreu em idade muito avançada em 1896.
Carnide tem o seu papel importante nas crises da primeira metade do seculo XIX. Na Luz esteve um deposito de cavallaria organisado no tempo de Junot; aqui esteve o brilhante official que foi depois o glorioso marquez de Sá da Bandeira.
* * * * *
No palacio da quinta do Street, agora residencia da sr.ᵃ condessa de Carnide (o conde de Carnide era Street Arriaga e Cunha) esteve o quartel general de Bourmont, commandante em chefe das forças miguelistas que atacaram Lisboa.
* * * * *
Esta quinta dos condes de Carnide foi em tempo muito nomeada pelas experiencias agricolas, adubações, drenagens, empregos de machinismos, que o primeiro conde, homem instruido e grande enthusiasta da agricultura, aqui realisou. Os ultimos proprietarios não teem seguido a tradição.
* * * * *
A celebre cascata da quinta dos condes de Mossamedes, complicada fabrica de embrechados e nichos, foi destruida ultimamente.
* * * * *
Tambem a infanta D. Maria habitou em Carnide; assim o declara fr. Miguel Pacheco, na Vida de la serenissima infanta Dona Maria (Lisboa, 1675):==Vivió la senora infanta algun tiempo cerca del convento de la Luz, distante una legua de Lisboa, en un lugar que llaman Carnide (pag. 109-121)==.
A feira da Luz ainda hoje tem nome, mas em tempos antigos foi muito afamada; a gente de Lisboa abandonava a capital, empenhava tudo para ir á feira, havia brigas para obter seges, ou mesmo burrinhos. Tomavam ponche, ou limonadas, e compravam fitas, anneis, figas e corações. Isto li eu na Nova e pequena peça critica e moral; _os Carrinhos da feira da Luz_: composta por Joseph Daniel Rodrigues da Costa (Lisboa, 1784).
* * * * *
Na casa proxima á sacristia da egreja de N. Senhora da Luz, no pavimento, está uma campa com letreiro:
S.ᵃ DE DOM FREI PEDRO SANCHES, RELIGIOSO D’ESTA ORDEM E BISPO D’ANGOLA FALECEO A 30 DE NOVEMBRO DE 1671
Quando se fez o cemiterio de Bemfica, chamado dos Arneiros, transportaram para lá algumas campas do antigo cemiterio de Carnide, que era em volta da egreja de S. Lourenço. Lá está a campa da marqueza Ravara com seu letreiro:
AQUI JAZ D. AN NA MARIA GUI DO MARQUEZA RAVARA FALE CEO AOS 24 DE JANEIRO DE 1752
Nas _Memorias de Garrett_ diz-se que a quinta do Pinheiro fica em Carnide. A quinta do Pinheiro que foi de Duarte Sá está entre Palhavã e Larangeiras. Ahi se representou pela primeira vez o drama _Frei Luiz de Sousa_, a obra immortal de Garrett. Hoje installaram um hospicio n’essa bella vivenda.
* * * * *
O palacete e quinta do Sarmento onde residiu o visconde de Juromenha ficam proximos da parochial de S. Lourenço de Carnide na estrada que vae do Alto do Poço para Bemfica, a azinhaga do Poço do Chão.
O visconde de Juromenha falleceu muito velhinho. Foi n’esta casa do Sarmento que elle escreveu a sua obra classica, monumental, sobre os _Luziadas_. Esta propriedade pertence hoje por herança á sua antiga governanta.
* * * * *
Um folheto que julgo raro é a «Memoria sobre a união perpétua da paroquial igreja de Carnide ao priorado do convento de Nossa Senhora da Luz». É um opusculo de 7 pag. in-4.ᵒ, que me parece escripto por 1810.
* * * * *
_O pinto preto_.--Veiu uma mulher, da estrada do Paço do Lumiar, a comprar um pintaínho preto.
--Para que é o pinto preto?
--É para um doente que tem uma fraqueza, e não ha nada que lh’a tire. Dizem agora que só com o pinto preto... E a mulher instou que lh’o vendessem, ou emprestassem, depois traria outro.
--Não se vende, nem se empresta. Vá a outra porta. Vá á botica comprar remedios.
--Mas então, é para caldos?
--Não senhor! isto é uma crendice d’esta pobre gente. Abrem-no com uma faca pelo meio e applicam-no palpitante sobre o peito ou estomago se é fraqueza; se fôr por alguma dôr, sobre a região onde lhes dóe. É uma das taes tolices que não sáe dos cascos d’esta gente. Para estas cousas não sou capaz de vender o pobre animal.
Em livros de medicina mui velhos apparece o singular curativo; e recordo-me de ter lido que um medico de Lisboa, no seculo XVI, receitava ainda a ave aberta viva para a peste bubonica.
* * * * *
_Jogo do pião_.--Vi um grupo de rapazes jogando o pião. Nas cabeças dos piões os rapazes tinham mettido tachas de ferro de haste curta e cabeça larga de modo que os piões ficam com a cabeça protegida contra o ferrão do inimigo, é invenção nova para mim. E a isto chamam os rapazes pôr sêllo no pião, e é obrigatoria a sellagem; se apanham algum sem a cabeça couraçada, dizem logo:
Pião que não tem sêllo Vae a casa do camêllo,
e atiram com elle para o telhado mais proximo.
* * * * *
_Carnide, 1 de janeiro de 1900._--Caso novo, missa do gallo á entrada do anno. Disseram-me que por ordem do Santo Padre se transferiu a missa do Natal, por esta e a vez seguinte, para celebração do novo seculo, visto que surgiram duvidas (a meu vêr singulares) ácerca de qual é o primeiro anno do seculo XX, se é 1900 ou 1901.
Não consta que se começasse a datar do anno _zero_, do seculo _zero_; mas assim vae o mundo. Começou pois o anno santo pela missa do gallo.
Antes da missa do gallo passiei no Alto do Poço, a noite estava muito serena e agradavel, e casualmente assisti a uma scena dramatica, a chegada de um expedicionario africanista, inesperada pela familia, que móra num predio daquelle sitio. O pobre soldado, minado pela febre, embarcára mui doente em Lourenço Marques; não poude avisar a familia, chegára a Lisboa já melhor, foi á inspecção ao hospital da Estrella, e logo lhe deram licença para passar alguns mezes em casa, ares patrios; e elle assim que apanhou a guia foi direitinho a Carnide. Como elle ia nervoso, febril, vêr os seus queridos nunca esquecidos, exalçados pela ausencia larga em regiões e climas remotos.
Na familia, durante a ausencia do moço soldado, houve mortes de pessoas queridas, que não lhe participaram para o não contristar, pobre rapaz.
Chega o soldado em sobresalto febril e logo reparou nos vestidos de luto; veiu gente conhecida da visinhança e romperam em parabens e lamentos, numa confusão de lagrimas.
No theatrinho de Carnide representou-se nessa noite, espectaculo feito por alguns curiosos da localidade, e terminado o ultimo acto um grupo animado, cantarolando, veiu da quinta do Sarmento, passando pela casa do pobre expedicionario. Eram conhecidos e amigos d’elle.
Missa do gallo! annunciava a sineta do convento, n’uma vibração fina cortando a noite.
Na egreja, cheia de devotos em muito silencio, como n’um mysterio, ergueu-se a voz do capellão.
Houve exposição do Santissimo, e communhão, na grade ás religiosas portuguezas, e na capella do Senhor dos Passos ás irmans de Missão. E exposição do Menino, com o seu alegre motete executado no orgão velhinho, por uma velhinha no seu habito de Santa Thereza.
Que singular espiritualidade acho neste cantar das velhinhas religiosas, tremulo, enfraquecido, esmorecendo como a toada de um sino que se esvae no ar. E contraste ainda nestas duas instituições aqui a par, a antiga, a que se apaga, a da vida contemplativa, ascetica, a da clausura austera, orante áparte da humanidade, e a nova da actividade christan, luctadora dos hospitaes, trabalhadora das escolas, militante em regiões longinquas, arrostando os paizes das febres e dos selvagens.
Missa do gallo em noite de anno novo, foi caso inedito para mim. O meu pobre espirito estava abalado pelos contrastes que presenceára, e ao mesmo tempo lembrava-me da antiga missa do galo, na minha freguezia de Santo Antão, seguida da canja no meu lar, tudo n’uma aureola de familia e de pureza santa!
* * * * *
_D. Sebastião enamorado._--No jornal _A Arte_, de 1879 (pag. 158), se transcreve um antigo manuscripto que trata da--«Origem da desgraçada jornada de Africa que executou el-rei D. Sebastião para ruina total d’este reino».
É singular escripto e parece ter um fundo verdadeiro.
O sr. A. Pimentel tambem se lhe refere no seu bello livro _Atravez do Passado_ (pag. 119).
Alguem, talvez com o fim de deprimir a familia do duque de Aveiro, no tempo pombalino, lhe juntou ou alterou umas linhas que no meu espirito não originam duvidas sobre os factos do seculo XVI ali relatados. O que ha escripto sobre D. Sebastião tem origens muito alheias á intenção historica simples; assim como o pobre infeliz rei viveu rodeado de intrigas palacianas, assim a sua memoria serviu ainda para enredadas phantasias, e manias politicas.
Que em roda do rapaz houve lucta de influencias a proposito do casamento d’Estado, provam-no muitos papeis velhos; que um amor natural perturbasse o coração do joven rei não custa a crer; que um duque, proximo do throno, favorecesse a inclinação do rei para sua filha, é bem possivel; que D. Catharina, e os politicos, vissem com inquieto olhar esses amores, é provavel tambem. Ora é esta a essencia do papel a que me refiro, e que vou mencionar aqui por se fallar n’elle de uma quinta de Carnide.
* * * * *
--O duque de Aveiro, D. Jorge de Lencastre, teve uma filha unica chamada D. Juliana, a quem creou no Paço a rainha D. Catharina, sendo Regente d’este reino. Era dama formosa, bem feita, e muito esperta; ao menos, quando não tivesse estas qualidades, agradou-se d’ella El-Rei D. Sebastião, sendo mancebo, e veiu a declarar-se mais depois do anno de 1568 em que tomou o governo. Similhantes inclinações, que não podem ser occultas muito tempo, principalmente entre pessoas taes, chegaram á noticia da Rainha, e do duque de Aveiro; porém com differentes sentimentos, porque a Rainha receiava a consequencia d’estes amores, de que era objecto uma bisneta de el-rei D. João o 2.ᵒ, e o genio apaixonado de seu neto, que teria então 20 annos, e D. Juliana, 16, com pouca differença; e o duque com uma vaidade disfarçada, e fingindo-se ignorante, do que todos sabiam, aspirava a altas ideias, lembrando-se de que era neto de um rei, da sua grande representação e casa, e tudo isto o persuadia de que algum dia sua filha a contariam no catalogo das Rainhas de Portugal--.
Fallaram os politicos, os cortezãos, os invejosos, a Rainha fallou ao Cardeal infante D. Henrique e começaram a querer fazer casamento a D. Juliana, dando ao duque de Aveiro mais honras e mercês. E foi subindo a intriga, e D. Sebastião o bello rapaz sempre contrariado, a querer mal a D. Henrique seu tio, e a faltar ao respeito a D. Catharina sua avó.
Faltava-lhe a mãe; talvez a origem da desgraça esteja n’isto.
O rei desconfiava de todos, a camarilha enjoava-o; evitava-a quanto podia, ia caçar; andar pelos montes onde o ar é sempre puro. Os seus amigos e companheiros eram D. Alvaro de Castro, Christovão de Tavora e o duque de Aveiro.
A uma caçada em Cintra foi muita gente da côrte; o duque levou sua filha; a Rainha D. Catharina encarregou uma dama de observar os passos de D. Sebastião. E esta dama foi descobrir no alto da serra, apartados dos caçadores, o rei, e o duque de Aveiro com sua filha D. Juliana!
Outros ajuntamentos houve a seguir, affirmando-se que el-rei promovia essas festas agitadas e com muita gente para se encontrar com D. Juliana.
--Ultimamente houve um ajuntamento que muito dissaboreou a Rainha, e o Cardeal infante, e foi uma mascarada de noute, em uma _quinta no districto de Carnide_, na qual se acharam grandes senhores e o duque de Aveiro com sua filha vestida á turqueza, e muitas outras damas lusidamente ataviadas; e do que ali se passou teve a Rainha circumstanciadas informações; mas não se disse com certeza quem as dera, supposto que se presumiu ser o prior do Crato, D. Antonio, filho do infante D. Luiz--.
A Rainha D. Catharina, o tio Cardeal censuraram el-rei; e elle começou a fallar de ir á Africa.
Nem em Cintra, nem em Carnide o deixavam á vontade.
Só Africa, para casos d’estes.
A primeira ida á Africa foi effectivamente uma surpreza para a côrte. D. Sebastião foi caçar nos arredores de Ceuta e Tanger e parece que encontrou lá uma filha do Xarife que se parecia com D. Juliana.
De cá choviam os avisos da Rainha-avó, do tio Cardeal, dos bispos; custou a vir.
Parece que D. Juliana, a ladina turqueza de Carnide, foi offuscada pela filha do Xarife; encanto de moura!
Na segunda jornada o duque de Aveiro, apesar de ter perdidas as esperanças no casamento da filha, acompanhou D. Sebastião; e morreu com o seu rei e amigo.
No seu testamento, feito antes de partir, recommendava que D. Juliana casasse com D. Jorge de Lencastre; este morreu tambem na batalha.
D. Juliana, nova, herdeira riquissima, teve varias propostas de casamento com os maiores de Hespanha, que não acceitou; esperaria o rei? só dez annos depois de Alcacer casou com D. Alvaro de Lencastre, que foi o 3.ᵒ duque de Aveiro.
Agora, onde a _quinta do districto de Carnide_? Gostaria de saber, gostaria, mas é certo que não encontro vestigios a que possa attribuir grande antiguidade, nem mesmo tradição local. As grandes casas de Carnide e seu termo são do seculo XVII e do XVIII; e estas na maioria ainda modificadas e transformadas modernamente.
* * * * *
_A familia Carnide._--Em antigo codice genealogico encontro este appellido, de origem local. Um homem natural de Carnide adquiriu bens, fez serviços e alcançou a nobreza. Diz o codice: «é Carnide logar de 80 visinhos, com boas e rendosas fazendas, e entre os visinhos alguns que se tratam nobremente, e viveram em tempos antigos com abundancia e nobreza.»
O primeiro mencionado é Pedro Gonçalves de Carnide, do tempo de Affonso V. Seu filho Pedro de Carnide morou em Cintra.
Balthazar de Carnide foi moço da camara de D. Manuel. A familia Carnide apparece em seguida alliada a Gamboas e Ayalas.
Jeronymo de Carnide, moço da camara, esteve em Roma com o embaixador D. Alvaro de Castro: foi provedor de saude no periodo terrivel das pestes e contagios; basta dizer que foi guarda-mór de saude do Reino em tempo de D. Sebastião. Era natural de Cintra; viveu 120 annos (1503-1623), alcançando os reinados de D. Manuel, D. João III, D. Sebastião, D. Henrique e os Filippes I e II. Um seu filho, Balthazar de Carnide, viveu 100 annos.
Os Carnides mencionados nas genealogias são quasi todos de Cintra; é certo que ainda hoje apparece este appellido em familias de Cintra e de Torres Vedras.
* * * * *
_Propriedade territorial na idade média._--Ha documentos relativos a propriedade territorial em Carnide, nos fins do seculo XII, e primeiro quartel do XIII. É bem raro encontrar uma série tão variada de taes documentos. Não nos é todavia possivel marcar com precisão, com exactidão, o local da propriedade, ou quinta de que se trata.
Porque as propriedades variam muito, dividem-se, aggregam-se; as extremas fluctuam; os nomes alteram-se.
Os documentos de Urraca Machado, _dóna_ de Chellas, isto é, freira do mosteiro de Chellas, foram publicados pelo erudito sr. Pedro de Azevedo, no _Archivo Historico Portuguez_, vol. III, pag. 5 e seg.
Quem era esta senhora? era _dona Orraca Martins_, filha de Martim Machado, professa do Mosteiro de Chellas, que andava _fóra da Ordem_, quer dizer, ausente por muito tempo do seu convento. Tinha bens e parentes proximos em Carnide, e o seu compromisso com a Ordem. Ora constou que ella vendia e desbaratava esses bens, em damno do mosteiro, este protestou, e por isto a série de documentos muito especiaes e valiosos. O protesto é de 1299, tempo de D. Diniz; foi lavrado no concelho da cidade de Lisboa, perante o alcaide e alvazis.
No terceiro documento, de 1308, falla-se da quinta de Carnide, em que a freira tinha uma parte. No quarto documento, de 1309, se diz que as rendas de Carnide foram arrematadas a Salomão Negro, judeu. A familia judaica _Negro_ apparece em documentos do seculo XIII ao XV.
David Negro era o famoso thesoureiro de Leonor Telles, quando proprietario em Camarate e na Outra Banda. A outra parte da quinta pertencia a Martim Martins Machado, irmão da freira. O documento é interessante; trata do arrendamento, almoeda, e negocios, em que houve _malfeitoria_; o instrumento ou contracto que o judeu apresentou não afinava com a _nota_ tabellioa, havia _mentira e burla_. Este instrumento, declara o tabellião, foi escripto em papel porque não havia _porgamyo decoyro_. Acontecia isto por vezes; em cousas officiaes usava-se o pergaminho; quando este faltava, lançavam mão do papel. E certo é que papel e tinta chegaram até nós; bom papel e boa tinta; não sei quantos annos durarão certos papeis e tintas usados actualmente.
O documento n.ᵒ 7 é uma carta regia, ou sentença de D. Diniz, passada em 1311, sobre a partição dos bens da freira e de João Machado, tambem seu irmão. A monja de Chellas tinha terras em Carnide, nos sitios da Panasqueira e na Feiteira.
_Panasqueira_ é na parte norte da moderna quinta de Montalegre, formada pelo fallecido Carlos Anjos, entre as estradas de Telheiras, Luz e da Fonte.
Não é facil marcar os sitios das propriedades; diz-se _sob a fonte_, na _varzea_, na _corredoura_, designando as fazendas pelos nomes dos donos, pessoas bem conhecidas em 1311. Mas já havia no sitio _vinha velha_, moinho e almoinha ou horta, courellas e ferrageaes, adega com material vinario, tinas, toneis e cubas, já se falla das _covas_ de Carnide. Trata-se me parece de covas de guardar pão ou cereaes, silos; em 1908, modificando-se a calçada no _Alto do Poço_, appareceram duas grandes covas, abertas no solo, de dois metros de fundo por um e meio de diametro, quasi totalmente entulhadas. As paredes estavam nitidas, bem conservadas. As pessoas da localidade ignoravam o destino d’aquellas grandes cavidades, o que succede, me parece, por todo o paiz. E todavia no seculo XVI ainda se utilisavam os silos ou matamorras, e no centro de Espanha ainda hoje estão em uso. Em Lisboa, na grande obra municipal de ha poucos annos, ao Arco do Marquez do Alegrete, tambem appareceram silos, ao longo da muralha fernandina.
O documento n.ᵒ 10 é de 1312; refere-se a certa divida de João Machado a Isaac, filho de Judas Negro, outro judeu da familia Negro; e a uma courella do _Cano_, pertencente a Urraca Machado. O n.ᵒ 12, de 1313, falla-nos da courella da _Coelheira_, da qual traz as confrontações pelo _sol levante, aguião, poente_ e _avrego_. _Aguião_ quer dizer _aquilão_ ou norte, e _avrego_ vem de africo, ou vento de Africa, isto é, sul. N’este documento figura Domingas Eanes, prioreza de Chellas, e Ousenda Domingues, sub-prioreza. Já menciona a _aldeia de Carnide_ com seu _rocío_.
Em 1321, com licença do mosteiro de Chellas, a freira Urraca Machado entregava por aforamento os seus bens de Carnide a um Rodrigo Eanes, por duzentos maravedis de Portugal, pagos ás metades do anno por Paschoa e Santa Iria, mais doze almudes de vinho. Não é bem um aforamento, é um arrendamento a longo prazo, em vidas, pois só termina depois da morte do rendeiro, de sua mulher e filho. O contracto tem penas severas e condições bem determinadas, como a de o rendeiro fazer á sua propria custa almoinha ou hortejo, e plantação de vinha, concertos de casas, adegas e lagares, e de sua louça.
Em 1325 já a dóna Urraca era fallecida; mas havia freiras de Chellas na sua casa de Carnide; por causa de certa questão de posse foram ahi notarios que viram duas freiras em _uma camara sob a torre_. N’esse tempo era Clara Gonçalves prioreza de Chellas; é notavel que n’este mesmo documento se lhe chama abbadessa. N’esta época a questão chegou á maior intensidade, houve violencia, e Martim Machado foi excommungado.
Em 1390 foi a quinta de Carnide emprazada em tres vidas a Martim Annes; confrontava com as herdades de fuão e fuão, e do mosteiro de Santa Clara de Lisboa...
Era uma _quintam_ de herdades de vinhas e de pão que o dito mosteiro ha na aldeia de Carnide, termo da dita cidade (Lisboa).
A par dos elementos relativos á _quintam_, apparecem outros em razão das confrontações, das testemunhas, etc.
Assim n’um documento de 1313 se falla de uns quartos de courellas de vinhas que o mosteiro havia em Carnide no herdamento do Louro; de uma testemunha se diz: fuão morador ao Louro, no casal da _Ordim_.
Em 1352: quinta no logo que chamam _Alperiate_... casal e herdades de pão sitas em _Queylus_... uma vinha que chamam a _Coelheira, a par de Carnide_. Alperiate, ou Alpriate, é o nome de uma localidade perto da Povoa de Santa Iria.
Em 1356: courella do _Pereiro_, alem de Carnide que parte com vinha de _Santaloy_.
Deve ser Santo Eloy, no caminho da Pontinha para A da Beja.
Em 1366: vinha no _Cano_, logo, ou logar, de Carnide.
Em 1397: em Carnide... em logo que chamam a _Soeira_.
Em 1438: fulano morador na _Payãa_. Agora diz-se _Payam_.
De 1443 temos um documento interessante: trata de uns _Tintaes_ de vinha, um acerca do outeiro... confrontando com caminho da _Granja_, outro com azinhaga que foi da _fonte do Machado_; são nomes que ainda vivem.
Em 1466... vinha do morgado de _Mem de Brito_.