Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

Part 6

Chapter 63,939 wordsPublic domain

Houve missa nas freiras ás 8¹⁄₂ da manhã. Estava em exposição o _Senhor Formozo_, muito fallado na chronica convental. É o _Ecce homo_, mãos atadas, o manto d’irrisão lançado para as costas; a imagem do Divino Justo, quando foi insultado pela gente ignara, pela sociedade culta e inculta de Jerusalem. Porque então, como hoje o cultismo não implica espirito de Justiça; não vemos nós nações das mais cultas, que se dizem christãs, arvorando a força sobre o direito?

Pobre _Senhor Formozo!_ Se me não engano era uma regular pintura hespanhola, maneira energica, aspecto tragico, por isso talvez impressionava tanto as pobres antigas freiras. Era o rosto austero, o corpo já com livores de cadaver e gottejando sangue; a expressão do grande soffrimento sobrepujada todavia pelo incondicional perdão. Assustava as nervosas santas mulheres, e chamaram um grande pintor então afamado, para emendar a tela; vê-se bem que foi muito alterado no rosto; o pintor sabia do mundo, e fez um Christo precioso, de boquinha affectada, de expressão inoffensiva, incapaz de qualquer suggestão incommoda a espiritos assustadiços.

_28 de agosto de 1898. Bolinhos de Santa Quiteria._--Hoje trouxeram-me bolinhos de Santa Quiteria, muito bons para evitar a hydrophobia em pessoas, cães e vaccas.

São uns pequenos cubos de massa de trigo, passada no forno.

Depois vieram homens vestidos de opas pedir esmola para a Irmandade de Santa Quiteria, do Senhor Roubado, perto de Odivellas.

_1899. Dia de Anno Bom._--Assistiram á missa alguns alumnos do Collegio Militar, que não foram a ferias. Teem as familias muito longe... no ultramar. Depois da missa o capellão rev. Padre Louro, apresentou a imagem do Menino Jesus, em pé; as pessoas presentes foram beijar a imagem. Durante a missa o orgão executou musica solemne, e na apresentação do Menino tocou um motete alegre, com imitações de musica pastoril, de sanfona e gaita de folles. Pairava em todos um sorriso bom; só eu pensava n’um menino, n’um adoravel menino... luz que se apagou.

* * * * *

Estive hoje a lêr um livro que me deu noticias da egreja da Luz, d’este logar de Carnide: _Historia do insigne apparecimento de Nossa Senhora da Luz e suas obras maravilhosas_: Composta pelo Padre Fr. Roque do Soveral, religioso da Ordem de Christo. Lisboa, Pedro Crasbeeck, 1610.

É um volume in. 4.ᵒ de 213 pag.

O rosto do volume, gravado por Antonio Pinto, é muito interessante. A meio está o medalhão com a imagem de Nossa Senhora com o Menino no collo; e aos lados estão gravados feixes de muletas, navios pendurados, pelouros, e umas cousas que representam talvez mortalhas ou samarras de que se falla nos muitos milagres da veneravel imagem.

Tem muitas noticias este volume a respeito de pessoas e casos em diversas epochas, significantes para o estudo social e local.

Por exemplo, a pag. 52 v. a proposito da antiga romagem á Senhora da Luz, diz que este sitio de Carnide era dantes mui deserto, e depois de começarem as romagens os caminhos se tornaram mais seguros:--sendo dantes, segundo o que sabemos por tradição antiga tão espessos bosques, que para o logar de Carnide não havia mais caminho que um atalho, que se tomava no caminho de Bemfica para o tal logar, e nos mesmos bosques se recolhiam salteadores, da maneira que em Portugal na charneca de Monteargil, etc.: e cita varios bosques notaveis na Europa por serem asylo de ladrões: assim, antigamente eram tão temidas as brenhas e mattos de Carnide, que ninguem caminhava para elle sem muita junta de receios.

Feita a egreja e estabelecidas as romagens o sitio e os caminhos se tornaram mui frequentados; encontrava-se gente de todas as qualidades e nações, o hespanhol, o bretão, e o flamengo; os de pé, de cavallo e de coche, cantando e dançando, tocando violas e adufes:==disse por isso mui bem o outro, que os que vinham de Nossa Senhora da Luz, parecia virem de colher as lampas de S. João, que ou seja com canas verdes nas mãos, ou com capellas nas cabeças, sempre tornam para suas casas, como se vieram das hortas de colher cheirosas ervas.

Tanto assim que havia cinco mulheres==que só vivem e se sustentam de venderem candeias de offerecer, achando-se para isto de continuo em a egreja da Senhora. E diz depois (pag. 54 v.) das mais celebres romagens do seu tempo, em Portugal, a começar pela Senhora do Monte. O cap. II, (pag. 76 v.) é intitulado:==_Particularidades da fonte de Nossa Senhora de Luz_==, e tem muitas paginas consagradas á virtude dessa agua. E até o certificado de um medico (pag. 77 v.); mas eu não me posso demorar, e peço ao leitor curioso que veja o livro. Eu tenho que resumir. A pag. 190 conta==de algumas náos que a Senhora da Luz livrou da tormenta em que se viram perdidas, e logo abre o cap. XII:==_Como Nossa Senhora da Luz é avogada dos mariantes._

É inutil dizer que todas essas paginas teem interessante lição e importancia historica.==Escreve ácerca da náo _Luz_, em 1497, e a este respeito se cita o templo de Nossa Senhora da Luz, em Goa, fundado sem duvida em lembrança da Luz, de Lisboa. E affirma que era costume os mariantes dessa longa viagem da India virem antes de embarcar em romagem á Luz de Carnide, depois de lá chegados á Luz de Goa. Que esta romagem da Luz está ligada ás primeiras navegações não offerece duvida. Conta (cap. XIII) o caso horrivel da náo _Chagas_ (1560); e em memoria deste milagre,==hoje 7 de junho de 1570 vieram a esta casa da Luz com procissão todos os marinheiros da mesma náo.==E vem a historia da urca _Fortuna_, e da caravella de Pero Marques, a da náo hespanhola _S.ᵗᵃ Ana_, a da náo _Betancor_, e a do _Salvador_; e a de uma escotilha em que se salvou Pero Gonçalves, estando tres dias sobre ella no alto mar!

Na egreja havia quadros de milagres, imagens de cera, muletas de aleijados, grilhões de captivos, mortalhas de salvos na agonia, velas de naufragos escapos ao vendaval, pedaços de amarras de náos, pares de algemas, pelouros de artilheria grossa, (pag. 104 v.) e náos, pequeninas náos; «do côro ficam pendendo sobre a egreja quatro náos, que em fórma pequena contrafazem bem toda a fabrica das que navegam; e ha pouco tempo (note-se isto) que estavam oito que se tiraram assim por pôrem outras que vinham de novo, e não tinham lugar, como por se darem a algumas pessoas que as pediram».

E antes mais cousas havia:==na ermida antiga de todas estas cousas havia mór numero, de que tiraram algumas menos gastadas do tempo, para as mudarem aonde agora dizemos estão (pag. 204 v.)==As _samarras_, segundo a tradição, eram de uns homens que, na volta da India, naufragaram na costa da Cafraria, e andaram muito tempo perdidos pelo matto, fugindo das féras e dos pretos, até que, invocada a Senhora da Luz, lhes appareceram uns cafres misericordiosos que lhes deram suas proprias vestimentas.

Havia tambem cobras, isto é, pelles de cobras, uma de 4 varas de comprimento, provenientes do Brazil; mortas por milagres quando intentavam matar as pobres victimas nos seus anneis roliços, e com seus venenos fulminantes. Era uma collecção suggestiva essa, hoje sumida de todo perante esta moderna correcção idiota que tudo invade e vae dominando, matando arte e poesia e fé.

_Carnide. Domingo, 15 de janeiro de 1899._--Começou hoje a funcionar o ascensor Rocio-S. Sebastião da Pedreira. Fui a Carnide no carro da rua da Asumpção. Carro cheio; pessoas que iam ao collegio militar visitar os filhos. Nestes domingos de visita ha sempre no carro conversas interessantes; dos filhos que vão bem, d’outros que perderam o anno; e corre-se uma larga escala de affectos, de caracteres, e de saudades. Viuvas que vão vêr os seus filhos, amigos que vão vêr os filhos dos que estão no ultramar para lhes dar noticias, tutores que visitam pobres orphãos. Todos levam uma lembrança, um embrulho atadinho, para os rapazes. Com as senhoras vão ás vezes meninas, mui palreiras, enthusiasmadas com a visita aos pequenos militares. Que estes carros de Carnide favorecem o cavaco, com os seus pulos e solavancos; vae uma pessoa muito correcta, zás solavanco, e vem uma senhora nervosa cair-nos nos joelhos; um cavalheiro solemne e mui serio, pula o carro, e elle apanha na cara com um chapeu de plumas, ou um papeluço de bolos. Quer a gente mover-se, não póde, está presa, as taboinhas dos assentos do carro apertam abas de casacos e dobras de vestidos; não faltam os preguinhos atrevidos que rasgam tecidos e ás vezes a pelle; ha sempre episodios; depois logo ao entrar na estrada das Larangeiras, o ar é mais fino, e fresco, com perfumes campesinos; a estrada da Luz tem vista de campos, de varzeas e arvoredo. Alegram-se os olhos de vêr a paizagem e os pulmões gozam ar mais puro.

Mas hoje, 15 de janeiro, o aspecto é outro, o vento é desabrido, de rajadas, ha nevoeiro denso, humido, que mal deixa vêr as arvores proximas, num esbatido leve. Na Luz alguns carros, e varios grupos; ha corridas pedestres e de bicycletas, e prepara-se uma partida de foot-ball.

Fomos até ao casal do Falcão, e ainda mais adiante a Alfornel vêr o faval nascente. Os trigos nasceram bem mas estão amuados.

A paisagem é extraordinaria hoje, porque a nevoa tem intermitencias; é um nevoeiro muito humido, irregular, de densidade diversa, e como a camada de nevoa que está passando não tem grande espessura, de vez em quando rompe-se e apparece logo o ceu velho, e um jorro de sol.

Como isto agora tem o aspecto triste, no nevoeiro frio e humido, rasgado pelo vento convulso que vae passando; o casal tão velho, ruina tragica, as figueiras, as vinhas sem folhas, como tiritando no frio de janeiro.

Jantar de familia, casa cheia; como a sopinha quente sabe bem neste frio de janeiro, em dia de nevoa cerrada; depois algumas especialidades, os nabos guisados, a carne de porco assada, com a loura agua pé; o pudim delicioso; as raivinhas e os esquecidos do Bom Successo. Ao café, com o competente cognac caseiro, entraram os srs. Duartes, de Mafra, que trouxeram elementos novos á cavaqueira. Contaram que el-rei mandára deitar javardos na tapada de Mafra; já entraram oito de Castello Branco, e um que nasceu no parque das Necessidades. Na Tapada, a comida é pouca; em tempos antigos houve porcos bravos ali, mas acabaram com elles porque nada lhes escapava.

De subito entrou uma mascarada animada, os meninos e meninas T., uma série muito gentil, vibrantes de riso; houve piano, valsas, improvisou-se um concerto: a sr.ᵃ D. G. cantou superiormente alguns trechos.

--Já 9 e um quarto! toca a ir para o carro.

Eu fiquei; da janella do meu gabinete a vista era admiravel; estava o ceu muito estrellado, havia algum luar, o ar muito frio e sereno; a nevoa abaixára, e estava agora quieta e branca sobre as varzeas, os campos do valle; muito salientes, a massa negra do casal do Falcão, e a collina triste coroada de cyprestes do cemiterio dos Arneiros; um grande silencio frio; como uma palpebra semicerrada de agonisante, a esvaír-se de luz e de vida, a lua em minguante, muito obliqua, branqueando a toalha de nevoa quieta sobre as terras mais baixas, as varzeas humidas.

_Carnide, domingo 28 de janeiro de 1899._--Vi hoje lindas flôres do logar de Telheiras; com a inverneira que tem corrido, frios, geadas, tempestades, notei as flôres; é que o logar de Telheiras é mais ameno e abrigado, a este de Carnide mais alto e exposto ás grandes correntes do ar. O antigo oratorio, convento e egreja de Nossa Senhora da Porta do Ceu, em Telheiras, está hoje abandonado. É n’esta egreja que está a sepultura do principe de Candia, o pobre rei do Ceylão, fundador do edificio, que veiu morrer tão longe das suas florestas de canella.

O oratorio de Nossa Senhora da Porta do Ceu, de Telheiras, foi fundado pelo principe D. João de Candia. Este infeliz principe nasceu em Ceylão, por 1578, e teve de abandonar o seu throno de marfim e perolas, entre luctas politicas e religiosas; era criança ainda. Levaram-o para a ilha de Manar, depois a Gôa, e ao collegio dos Reis Magos de Bardez; veiu parar a S. Francisco de Lisboa, mais tarde a S. Francisco da Ponte, em Coimbra, e gastou o resto da vida a requerer e representar entre Lisboa e Madrid, porque então dominavam os Filippes. O que isto seria, Santo Deus! n’aquelles tempos, quando hoje basta uma burocracia para abafar e esterilisar todas as vontades, o que seria no tempo da dominação hespanhola com tantos officios e dezembargos em Lisboa e Madrid.

A historia d’este homem é interessante; pobre soberano de Candia, Cota, Ceytavaca e Cettecorlas, que veiu descançar aqui em Telheiras, cingindo o cordão franciscano.

Dizem que hoje não é assim; os soberanos desthronados vão direitinhos ás folias de Paris, e as alfayas e tapeçarias apparecem no Druot, escapando aos ministros de que falla o chronista Soledade.

Infeliz principe singalez, chamaram-lhe D. João d’Austria, e principe de Candia, e foi um martyr toda a vida; teimaram em ensinar-lhe latim e theologia, andou em bolandas pelos conventos intrigado e explorado, e nem mesmo cumpriram a sua ultima vontade. Morreu em 1 de abril de 1642, a sua morte foi um lauto regabofe para muita gente... «pelas mãos dos ministros, como ficaram todas as tapeçarias, peças de prata, e outras muitas alfayas preciosas, que elle tinha consignado á egreja d’este seu convento, as quaes levaram d’elle com violencia os ditos ministros, e sem obstarem os requerimentos dos religiosos, tudo repartiram e consumiram entre si.»

Isto escreve fr. Fernando da Soledade, na sua _Chronica serafica_, 5.ᵒ vol. n.ᵒ 893, pag. 611.

Elle diz ainda mais coisas que eu não estou para transcrever; foi uma patifaria, como tantas outras que se teem feito modernamente.

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_Paço do Lumiar, 2 de fevereiro de 1899._--Dia de Nossa Senhora da Purificação, as Candeias, como se diz vulgarmente.

Fui vêr a festa religiosa e a feira, na egreja parochial de S. João Baptista do Lumiar, e no bello adro que a cérca.

A festa é a Santa Brigida.

Na egreja esteve exposta a reliquia da Santa, uma parte do craneo, em uma urna de prata dourada, muito bem trabalhada, elegantissima: uma das urnas mais gentis que tenho visto em estylo D. João V.

Dizem que veiu esta urna do mosteiro de Odivellas.

Na feira havia gado suino alemtejano, vaccas leiteiras com bezerros, vidros, louças, queijadas e bolos.

Ha uma especialidade n’estas feiras saloias; as leitoas assadas, abertas a meio e espalmadas, seccas e rijas, de uma côr apetitosa, expostas á venda em canastras ou caixotes com ramos de louro.

O saloio com a canastra de leitoas emparelhava bem com a collareja, assentadinha, chapeu de chuva aberto, com a cesta de queijadas de Cintra.

Dois ou tres homens vendiam bordões, chibatas, varas e varapaus armados.

Na feira de S. João, em Evora, apparecem tambem saloios, uns vendendo varapaus, e outros a que chamam saloios da Nazareth com taboleiros de pederneiras para isca. Agora com as guerras á isca feitas pelos phosphoros, não sei se vão desapparecer de todo estes representantes ultimos da edade do _silex lascado_.

Passeavam lavradores invocando ou agradecendo a protecção da Santa, em volta da egreja, com juntas de bois, algumas muito enfeitadas de fitas de côres vivas, com entrançados e bordados.

Dentro da egreja, á direita da entrada, dois homens recebiam esmolas, em trigo na sua arca especial, ou em dinheiro, e vendiam _registos_, milagres de cêra, bois e peitos, e muito pavio de cêra amarella ás braçadas. O pavio amarello é bom para livrar o gado de doenças, olhados e desastres; enrola-se dando volta aos dois chifres do boi, e ahi se deixa ficar até se estragar.

Sobre o altar de Santa Brigida foram collocar alguns boisinhos de cêra.

Depois da festa houve communhão na capella da Santa, tocando o orgão, e em seguida o padre deu a reliquia a beijar; e foi muito beijada, por mais de cem pessoas, com muita devoção.

Esta Santa Brigida, protectora do gado bovino, da-me que pensar. Brigitta, Brigida, Brigides, Birgida, Birgita, Britta, etc., virgem, natural da Escocia, abbadessa de Kildare na Irlanda, morreu em 523, no 1.ᵒ de fevereiro, segundo affirmam.

As lendas d’esta Santa ligam-se com a famosa de S. Brandão (Brendanus, Bredan) abbade de Chainfort, na Irlanda, que morreu em 578 (16 de maio ou 5 de junho).

A reliquia, a cabeça da Santa, segundo diz a inscripção no exterior da capella, foi trazida por tres cavalleiros hibernios, ou irlandezes.

O que eu vi na urna pareceu-me effectivamente um fragmento de craneo, o occipital, talvez; não se vê bem por causa dos ornatos.

Que esta devoção por Santa Brigida vem pelo menos do seculo XIII, com certeza, e continúa ainda intensa; ha pouco ainda uma devota offereceu uma cabeça de prata.

Este sitio do Lumiar e Paço do Lumiar merece um estudo especial; foi aqui o paço do famoso infante Affonso Sanches; ha estreitas relações entre esta egreja e o sitio e mosteiro de Odivellas, antigos santuarios que estão no principal caminho de Lisboa para o interior, o caminho de Alvallade, onde se encontraram os exercitos na sanhosa guerra civil de D. Diniz.

A inscripção dos cavalleiros hibernios está no exterior da capella de Santa Brigida, da egreja de S. João Baptista do Lumiar, lado norte. É copia da antiga que de ha muito se sumiu. É a seguinte:

Aqvi nestas tres sepvltvras iazẽ enterados os tres caval.ʳᵒ ibernios q. trouxerã a cabeça da bẽ avẽtvrada S. Brizida virgẽ natvral da Ibernia cuia reliqvia está nesta capella p.ᵃ memoria do qval hos oficiais da mesa da bẽaventvrada S. mão darão fazer este ẽ ian.ʳᵒ de 1283.

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_Quinta feira da Ascensão, 11 de maio de 1899._--A chuva miudinha de hontem não regou bem as terras, mas abateu a poeira das estradas, e lavou as folhagens que estão viçosissimas, com o brilho setinoso, exuberante de primavera.

Chegando á rua do Norte admirei-me de vêr a calçada coalhada de folhas de rosa. Houve uma grande festa na egreja das Freirinhas, e tive pena de não ter assistido. Foi a primeira communhão a alguns alumnos do Collegio Militar; pela primeira vez, ao que me disseram, se lembraram de fazer este acto com certa solemnidade. Nem tudo póde lembrar. N’um estabelecimento de educação, internato militar, ha tanto que fazer, tamanhas responsabilidades! O ensino dos compendios, a alimentação, a disciplina, as formaturas, os toques de cornetas, não deixam tempo para pensar n’estas questões da alma. Este anno, emfim, houve ensejo de celebrar solemnemente a entrada dos jovens militares n’este primeiro gráo de consciencia responsavel com hymnos religiosos, musicas e bençãos, e mãos finas de senhoras lhes atapetaram o caminho com folhas de rosa.

Estes já tiveram na vida um dia florido, esperem outros ainda melhores, os que se seguem aos trabalhos vencidos, ás bellas acções de honra e abnegação.

Celebraram a linda festividade na egreja das freiras, ornamentada pelo dr. Sant’Anna; de todos os pontos vieram taboleiros de flôres.

Este anno os campos estão menos verdes do que no anno passado, os trigaes são menos fortes, menos densos; principalmente nos terrenos altos as seáras não encobrem o chão; _terreja_ muito; mas as oliveiras e as vinhas apresentam-se cheias de promessas.

Quando eu ia por entre as latadas da quinta, opulentas de folhagem, na paisagem quieta de searas e olivedos, lá do sul, de além do sevéro macisso de Monsanto, veiu o estrondo das salvas de grossa artilheria. Estão no Tejo duas formidaveis esquadras, ingleza e allemã, grandes navios de aço, maravilhas de construcção naval, collossos de força, suprema expressão da energia dos arsenaes. Como o ruido d’esses poderosos canhões desafina na paisagem de primavera florida! sobre esses campos e logarejos respirando a serena vida da natureza.

É o dia da _espiga_, como o povo chama aqui, nos arredores de Lisboa, á quinta-feira da Ascensão; até os carros de trabalho vão enfeitados com ramos de oliveira, espigas de trigo, rubras papoulas, brancos malmequeres; tambem enfeitam de espigas e flôres as cabeçadas dos animaes; e passam ranchos animados, palreiros e galhofantes, as raparigas com grandes ramos nas mãos, os rapazes com raminhos atados nos varapaus.

É a festa agricola que vae por esses seculos atravez raças e religiões, provavelmente até ao dia em que o espirito do homem pela primeira vez admirou e agradeceu com ternura a planta florida, a suprema graça e o divino aroma da corolla, promessa do saboroso fructo.

Na minha terra além das _maias_ do primeiro dia do mez e da festa da Ascensão, o povo da cidade e dos campos celebra tambem o dia 3 de maio, o da invenção da Santa Cruz, e ornamenta de flôres as cruzes dos logares publicos, as das vias sacras, as que marcam nos campos, nas estradas, os logares onde cairam os assassinados; a cruz de azulejo do sitio do fusilamento dos frades patriotas na catastrophe de 1808, no tempo dos francezes, a cruz na base do aqueducto junto do antigo fosso da muralha, onde se realisou o ultimo fusilamento militar.

Estes campos de Carnide são menos tragicos; hoje porém as salvas das esquadras, algumas vezes repetidas, que parece fazem estremecer o robusto massiço de Monsanto, dão uma preoccupação morbida ao espirito; para que tal apparato de força, para que a reunião das duas mais poderosas esquadras de Inglaterra e Allemanha, será apenas para mostrar ao mundo a sua boa harmonia, no grande porto do paiz pequeno e neutral? O que é com certeza é a pomposa, a estrondosa manifestação de força, convicção deprimente, expressão ultima da civilisação n’este findar de seculo de tão maravilhosas descobertas, que termina affirmando o direito do mais forte, em que tanto se luctou pelas liberdades, acabando no militarismo ruinoso, e tanto pela melhoria social, pela equação de direitos, em quanto se erguem implacaveis, cada vez mais ameaçadores, os monopolios da finança, industria e commercio.

Passam os ranchos alegres, de vez em quando roda na estrada um trem com mulheres e creanças, flôres e gargalhadas, na linda tarde de primavera. Outro rancho ahi vem agora, lento e sereno pelo trigal verde; é um grupo de religiosas de S. José de Cluny, que veiu ao campo florido respirar no ar tepido e aromatico.

Vestem os seus habitos severos, trazem nas mãos ramos de flôres do campo; andam vagarosas como cançadas ou enfraquecidas; são novas, sorriem, sorrisos de doentes em rostos palidos: interessante grupo! são convalescentes sem duvida; vieram dos hospitaes e escolas do ultramar dominadas pelas febres, procurar restabelecer a saude n’este lindo sitio de Carnide.

O que Mousinho de Albuquerque no seu livro _Moçambique_ escreve a respeito d’estas religiosas é encantador. Elle falla dos extraordinarios serviços por ellas prestados nos hospitaes de Lourenço Marques, de Inhambane, e Moçambique, nas escolas, _por uma fórma acima de todo o elogio_; e em Gaza, e no Chibuto.==O carinho e dedicação com que tratavam os doentes e feridos, procurando não só proporcionar-lhes todas as commodidades que as circumstancias permittiam, mas não se esquecendo um só momento de lhes confortar o animo, de lhes levantar o moral, sómente póde avalial-o quem o testemunhou.==Ou eu não sei o que é caridade, ou o que as Irmãs de S. José de Cluny estão fazendo na provincia de Moçambique é a sua manifestação mais elevada e commovedora==.

Em Carnide sabe-se que esses serviços ultramarinos são uma verdadeira batalha. Das que lá morrem não consta, as lévas de doentes que voltam essas todos as vêem. Algumas voltam anemicas, ás vezes tuberculosas; chegam, descansam, melhoram, e lá partem outra vez para os hospitaes e escolas.

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_Domingo, 14 de maio de 1899._--Scena inesperada; um touro da manada do conselheiro Alvares Pereira, n’uma corrida em Algés, partiu uma perna, e foi recolhido n’um pateo do casal do Falcão. É bicho de estimação, de muito genio e boa estampa. Foi amarrado sobre um carro e tratado com todos os cuidados, algodão borico, arnica, talas, ligaduras, nada faltou.