Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

Part 5

Chapter 53,788 wordsPublic domain

_Vespera de Santo Antonio._--Á noite fizeram-se sortes; quatro papelinhos, nome de senhora, nome de homem, sitio, e o que estavam fazendo. Permittem-se cousas... que fazem rir. Queimam-se alcachofras, ha a historia da moeda de cinco réis, os foguinhos de vistas, valverdes e bichas de rabiar. Uns rapazotes da visinhança estiveram n’um pateo, durante duas horas talvez, atirando bombas. A philarmonica tocou o seu reportorio no coreto armado no Alto do Poço. Junto do coreto raparigas e alguns rapazes dançavam e cantavam. Cantigas _triviaes geraes_; não ouvi nenhum cantar especial de Santo Antonio, nem na letra nem na musica. O mesmo succedeu pelo S. João; não encontrei nada particular nas celebrações populares. Brinca-se, riem, dançam, conversam sem mostrar feição local. Creio que ouvi mesmo a valsa dos _Quadros dissolventes_. Nada que recorde as cantigas do Alemtejo nem as da Beira, as fogueiras do valle do Mondego, que teem cunho especial, typos admiraveis, musicas que tão bem enquadram umas nas vastas campinas alemtejanas, outras na paisagem mimosa, nos frescos valles da Beira. É digno de reparo que estas cantigas populares de uma região não se vulgarisem fóra d’ella.

Teem suas espheras. Ao mesmo tempo ha cantigas de origem não popular que se generalisam rapidamente. A fogueira de Coimbra, arranjada no _Burro do sr. Alcaide_, a _Noite serena lindo luar_, tambem de Coimbra, que não são de origem popular, espalharam-se por todo o paiz. A valsa dos _Quadros dissolventes_ foi uma explosão; os garotos assobiavam-n’a nos bairros de Lisboa, ouvia-se em pianos nas mansardas da baixa, aos operarios de Sacavem, e a vendedores torrejanos, isto dentro de um mez.

Duram mezes, ás vezes annos, certas cantigas; esvaem-se pouco a pouco, ou desapparecem de chofre como a _Rosa tyranna_. São modas que passam, como as reformas administrativas e as leis eleitoraes. Assim passou a epidemia do _chocalhinho_, o caso da _salva brava_, o _pão de Kuhne_. Não se recordam do _Estás lá ou és de gêsso_, do _Lindos olhos tem o môcho_, do _Debaixo do sophá_, do _Vae-te embora Antonio?_

As musicas de Offenbach foram muito populares, mas para estas concorreram certamente os theatros de feiras. No Alemtejo cantigas de mondadeiras, de vindimeiras, e as de S. João, que se cantam tambem pelo Santo Antonio e pelo S. Pedro, pertencem a fundo antigo popular. Só ha tempos ouvi em Carnide uma trova que me fez lembrar o Alemtejo, a cantilena muito comprida, melancholica, de um homem que lavrava com a sua junta de bois; conversámos, perguntei-lhe de onde era; de Villa Franca. É que o Ribatejo já tem muito de alemtejano.

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_Dia de Santo Antonio, de 1898._--Fez-se a eira no casal do Falcão; ante a grande frontaria do nascente, limpou-se da erva o amplo terreiro. Com a chuva da trovoada da tarde de hontem, e da noite, o terreno estava encharcado; depois de limpo entrou um rebanho de ovelhas para calcar, com o seu moroso voltear.

Foi no dia de Santo Antonio, 13 de junho de 1898, que obtive licença para vêr algumas salas do convento. Acompanhou-nos o reverendo capellão padre Louro, protector carinhoso das velhinhas recolhidas, tão modestas e tão religiosas.

A superiora chama-se D. Maria Guilhermina de S. José. As suas companheiras são Maria de Jesus, Maria Philomena, Maria Augusta, Josephina, Olympia, Maria do Carmo e Isabel. Vivem em perfeita communidade estas santas senhoras, na virtude, na oração e nos humildes trabalhos, como se Santa Thereza em pessoa ali estivesse fazendo cumprir a sua regra.

No claustro a arcada muito clara e limpa, a cantaria lavada e as paredes caiadas, tudo muito nitido, e cheio de reflexos de sol. No meio da quadra o jardim, ainda o jardim antigo, o tanque central, e os alegretes altos azulejados. E ainda as lindas flôres antigas, as rosas e os cravos, o novelleiro, a baunilha, o jasmineiro, a alfazema e a manjerona, a malva de cheiro, e a lucialima de fina folhagem.

A capella do Senhor dos Perdões está bem conservada na sua elegante architectura. Na quadra, junto do jardim, ha duas capellas; o lado de dentro das portas d’estas capellas é pintado a oleo, com folhagens em volutas e espiraes, bom exemplar de pintura decorativa do seculo XVII.

N’um altar do claustro vi azulejos iguaes aos dos altares do cruzeiro da egreja, e da capella do Senhor dos Passos; bellos exemplares do seculo XVII.

No tanque da cêrca está um quadro em azulejo representando a _Samaritana_.

As senhoras recolhidas comem no seu refeitorio, uma casa grande mui limpa, as paredes ornadas de pequenos quadros de devoção.

Sobre a toalha branca sem uma nodoa os pratos e canecas de faiança ordinaria, com sua marca; provavelmente louça especial feita para o mosteiro em tempos antigos.

Creio que os conventos de Lisboa tinham todos louça especial com marcas proprias, insignia ou divisa, ou inicial; e ainda mesmo algumas confrarias possuiram tambem as suas louças com monogrammas ou emblemas particulares.

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_O presépe._--A casa da recreação é uma sala grande muito illuminada por janellas rasgadas em duas paredes, com lindas vistas para os accidentados arredores de Carnide.

N’outra parede fica a porta de entrada e uma capella onde estão muitas imagens; na quarta parede fica o presépe.

As portas do presépe merecem attenção; teem o lado interior com ornamentos dourados sobre fundo preto, imitando charão antigo, pintura feita por uma freira, segundo a tradicção conventual.

As figuras do presépe são de barro cosido, colorido e tambem dourado, finas esculpturas em grupos e scenas bem combinadas. N’estes grandes presépes conservou-se a tradicção dos primeiros mestres flamengos que n’um só quadro accumulavam muitas scenas, a _paixão_ toda, por exemplo, como succede n’essa maravilhosa pintura de um mestre desconhecido do começo do seculo XV, joia de alto preço, que se conserva no côro de cima da egreja da Madre de Deus (Xabregas). A scena principal é a do presépe, o Menino Jesus sobre as palhinhas entre a Virgem e S. José. Proximo o grupo vistoso, opulento, dos reis Magos. Ali a noticia, a grande nova aos pastores, além a fuga para o Egypto. Entre estes grandes grupos, outras scenas, as da vida popular tão interessante n’estes presépes antigos que sabiam combinar engenhosamente a vida humana com o sublime ensinamento religioso; de modo que hoje estes presépes além de todos os valores antigos da significação religiosa, e de merecimento artistico, teem para nós a importancia de documentos da vida popular; quantas vezes mesmo se encontram aqui notas, figurinos, por exemplo, que em nenhuma outra parte se topam.

N’este de Carnide entre os grupos ao divino das scenas da infancia do Menino ha alguns episodios profanos extraordinariamente executados: um grupo de populares sapateia a um lado com toda a bizarria; n’uma especie de gruta, a fugir da luz, dois homens jogam absorvidos; perto passa um cégo tocando sanfona; e camponezes alegres, com ovos, gallinhas, perdizes, coelhos...

Superior a tudo isto, em posição muito bem calculada para a perspectiva, um grande grupo de anjos cantando e tocando orgão, violas, e violão, e superior ainda a este grupo brilhante um anjo gentilissimo com a fita onde se lê _gloria in excelsis_, entre frescos e risonhos rostos alados de cherubins. N’essas figuras de impeccavel esculptura ha mais porém, ha em algumas grande expressão e movimento; o espanto dos pastores, a magestade bondosa dos reis, o enlevo musical do cégo, a furia nervosa dos jogadores, o enthusiasmo dos populares no seu fandango rijo, são d’um encanto irresistivel, qualquer d’esses grupos é de per si uma obra d’arte. Como isto chegou até nós, Santo Deus, atravessando estes tempos de progresso, de luzes, de leilões! bemditas as santas senhoras, tão singelas e honestas, que teem sabido conservar essa preciosidade. Cuidado com os amadores! com os poderosos, espirituosos e curiosos; é preciso conservar esse lindo presépe.

Na mesma casa da recreação ha outro presépe, pequenino, interessante, com o Menino dormente. E na capella ha uma adoravel imagem do Menino, em pé, de especial devoção antiga no convento, que tem o nome de _o menino da compaixão_. E é bem singular que a escultura do rosto dá a impressão de doce condolencia. Mas vejam como está bem afinada esta casa de recreação para as senhoras religiosas; a linda sala cheia de luz, os retratos das sublimidades da Ordem, dos modelos de virtudes e abnegação, o artistico presépe, vibrante de suggestões, a imagem consoladora do Menino, e pelas janellas largos trechos claros de paizagem variada, a paizagem campestre clemente e serena.

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No convento de Santa Thereza de Carnide vi alguns retratos valiosos, não pela arte mas como documentos historicos, especialmente aquelles que teem em seus letreiros dados biographicos dos retratados.

Por exemplo, o retrato de==_D. Fr. Luiz de Santa Thereza, carmelita descalço, lente de theologia, bispo de Pernambuco em 1738, falleceu a 17 de novembro de 1757, jaz na capella mor do convento de S. João da Cruz de Carnide._==

Pela extinção dos conventos de frades recolheram algumas pinturas e imagens nos das freiras e assim se salvaram naquelle cataclismo.

Outros: _Retrato da infanta D. Maria filha de D. João IV_.

_Retrato da Madre Micaella Margarida de Santa Anna._

_Retrato de... bispo de Penafiel confessor da princeza._

_Retrato de D. Fr. João da Cruz, carmelita, lente de filosofia e theologia, prior do collegio de Braga, e Santa Cruz do Bussaco, bispo do Rio de Janeiro em 1739 transferido para o bispado de Miranda em 1750. Falleceu a 20 de outubro de 1756._

_La hermana Leonor Rodrigues_ (d’Evora).

_S. Cassiano._--No côro de baixo ha um pequeno quadro com retrato a oleo, pintura antiga, que me tornou attento; representa um santo bispo com uma cartilha na mão; é S. Cassiano, que era mestre de meninos e todo dedicado á educação da infancia, que morreu martyrisado pelos discipulos. Exemplo raro sem duvida! No meu tempo, e desde quando viria o systema! era o mestre que martyrisava os rapazes com palmatoadas, varadas e sopapos, castigos deprimentes das pobres alminhas das creanças; e ás vezes os paes assomavam á porta da escola, e animavam de lá: «não m’o poupe, sr. mestre, não m’o poupe; ensine-me bem o rapazelho!»

Que differença tem havido nos ultimos tempos, em materia de educação, nos pontos de vista, nos processos, e meios intelligentes; mas é preciso educar as almas, para que sejam boas, fortes, livres e religiosas na grande accepção do termo.

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_Pinturas._--Os quadros da capella-mór das freiras de Carnide são de Ignacio d’Oliveira Bernardes, segundo affirma C. Volkmar Machado, na sua _Collecção de Memorias_ (pag. 94). Oliveira Bernardes (1695-1781), era tambem architecto, e n’esta qualidade trabalhou no palacio de Queluz, e na casa e quinta de Gerardo Devisme (a S. Domingos de Bemfica, onde actualmente está o collegio de meninas).

A grande tela magistral do _Transito de Santa Thereza_, é do pincel de José da Costa Negreiros, que foi discipulo do celebre André Gonçalves. Negreiros falleceu em 1759, com 45 annos. Esta familia Negreiros produziu varios artistas.

Percorrendo agora a _Collecção de Memorias_ de Cyrillo Volkmar Machado, tomei algumas notas a respeito de quadros pintados que se podem ver em egrejas dos arredores de Lisboa.

_Jeronymo de Barros Ferreira_ nasceu em 1750, em Guimarães, morreu em Lisboa em 1803; pintou o tecto da capella de Santa Brigida na egreja parochial de S. João Baptista do Lumiar.

_Vanegas_, castelhano, imitador do Parmezão; o painel do retabulo na capella-mór de N. S.ᵃ da Luz é d’este pintor (V. Machado, pag. 60).

_Diogo Teixeira_, pintor do tempo de D. Sebastião. Na Luz, ao pé dos quadros de Vanegas estão pinturas d’este Teixeira (pag. 68).

_André Gonçalves_ (pag. 88). Este pintor que trabalhou immenso, falleceu em 1736; são d’elle alguns quadros da capella de Queluz, os quadros da vida de S. João Baptista, no Lumiar, e os do côro de S. Domingos de Bemfica. Lendo estas _Memorias_ de Volkmar Machado, fica-se com impressão dolorosa; como se trabalhou em Portugal no seculo passado e ainda no primeiro quartel d’este seculo! em pintura, architectura, esculptura, ourivesaria, em tecidos, em fundições. A enorme e violentissima crise das invasões francezas, não parou essa torrente de trabalho artistico; era o rei que encommendava estatuas e quadros, era Mafra e Ajuda que foram formidaveis escolas, e as casas fidalgas que mandavam fazer retratos, capellas, decorações dos seus palacios e jardins, eram os frades a querer azulejos e telas, e entalhados, e embrexados, eram os prelados, os cabidos, e até a humilde irmandade que ao menos queria ter o seu _compromisso_ ou estatuto em bonita encadernação de velludo ou marroquim, com seus ornatos a ouro, e cantos e fecharia de prata.

Era uma corrente, uma orientação bem diversa da actual.

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_15 de junho, manhã, cedinho._--Da janella do meu quarto vejo no casal os homens de trabalho juntando mólhos em fascaes. Junto da terra do Lopes estão carregando fêno; muito está emmólhado na terra, não se póde emmédar porque está humido da chuva. Já se ceifa trigo; na terra do Castello anda um grande grupo de trabalhadores; para o lado de Falagueiras tambem. O trigo do Alto da Tonta está prompto a ceifar, está lindo, de um louro claro; á passagem do vento faz brandas ondas douradas. O da terra do Lopes tem um verde intenso. Agora distinguem-se bem os trigos de inverno e os da primavera, uns muito louros, outros em verde carregado.

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_Domingo, 19 de junho._--Festa das ervas para remedios em Alfornel, hoje em decadencia completa; vae mudando tudo. Antigamente era muito concorrida, vinha muita gente de Lisboa, que se espalhava pela serra procurando plantas medicinaes. Agora é rara a pessoa que conheça bem as ervas e saiba aproveital-as: e os ervanarios teem dado em droga.

--Nas boticas ha tanto remedio...

--Eu lhe digo, o boticario, eu ainda aqui conheci botica e boticario, comprava ervas para remedios, agora o pharmaceutico nem nada. Está tudo mudado!

O que não mudou foi a vegetação da serra, onde se encontra uma variedade singular de plantas.

Segundo o celebre Sande Elago, as plantas medicinaes dividem-se em classes correspondentes aos sete planetas: saturninas, joviaes, marciaes, solares, venereas, mercuriaes e lunares.

A versão portugueza de Elago (_Compendio de Alveitaria_ tirado de varios auctores, composto na lingua hespanhola por Fernando de Sande Elago. Lisboa, Impressão Regia, 1832, in-4.ᵒ) merece attenção por, entre outras cousas, trazer uma grande relação de plantas com os seus nomes em vulgar.

Tambem na obra classica de Felix do Avellar Brotero, a _Flora Lusitanica_ (Parte 2.ᵃ--Lisboa, 1804), a pag. 522, vem um indice de nomes vulgares das plantas.

_Montalegre, 19 e 20 de junho._--Concurso de machinas agricolas na quinta de Montalegre, bella propriedade do snr. Carlos Anjos. Foi muito concorrido, appareceram muitas charruas de varios systemas que trabalharam puxadas a juntas de bois. A machina e o adubo serão a salvação da agricultura; é preciso aperfeiçoar e augmentar o trabalho, é necessario reforçar a terra, tornal-a propria para produzir bem. A meu vêr a machina e o adubo teem ainda outra vantagem, põem o machinista, o chimico, o agronomo em contacto com o agricultor; levam a sciencia ao campo; afinam mais facilmente com a experiencia, que o veterinario, que difficilmente se tem aproximado do lavrador.

_Na obra Exposição da alfaia agricola na Real Tapada da Ajuda, em 1898_ (Lisboa, Imp. Nacional. Publ. comm. do 4.ᵒ centenario do descobrimento do caminho maritimo da India) ha uma parte referente ao concurso de charruas na quinta de Montalegre, á Luz, com photographias de charruas, grades, semeadores, ceifeiras, enfardadoras, escolhedor, tararas, etc.

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_29 de junho, S. Pedro._--Fui a Lisboa no carro de Carnide. Este carro nos ultimos tempos tem seguido varios caminhos de Carnide á rua da Assumpção, por causa dos trabalhos das Avenidas, e do ascensor Rocio-S. Sebastião da Pedreira. Hoje é o ultimo dia do caminho pelo campo de Sant’Anna; Carnide, largo da Luz, estradas da Luz e Larangeiras, Sete Rios, Palhavã, S. Sebastião da Pedreira, Matadouro, Instituto Agricola, Cruz do Taboado, Campo de Sant’Anna, R. Arantes Pedroso, R. da Inveja, Principe Real, Mouraria, Praça da Figueira, Rocio e Travessa da Assumpção. Agora passa o itinerario á Estephania, porque as obras da Avenida que vai ao Matadouro estão muito adiantadas e cortam o caminho. Ha tempo que estão a desmanchar uma parte do aqueducto que vai de S. Sebastião da Pedreira ao Matadouro. Que bella construcção antiga, de magnificos silhares bem faciados, e de alvenaria firme, solidissima, com enormes pedregulhos; aproveitam agora este material nas novas construcções da Avenida, mas teem de trabalhar devéras para o arrancar.

Estas variantes do caminho seguido pelo carro de Carnide menciono eu para marcar o desenvolvimento dos novos bairros da capital.

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_Fogueiras de S. Marçal._--29 de junho: dia de S. Pedro. Á noite muitas fogueiras pelos campos. Estas são dedicadas a celebrar S. Marçal, advogado contra os fogos.

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_3 de julho, domingo._--Pelas 9 horas da noite, eclipse parcial da lua que durou, muito nitido, até depois das 10 horas.

_Domingo, 17 de julho._--Festa a Nossa Senhora do Monte do Carmo, no convento de Santa Thereza, com os padres inglezinhos; foi ás 10 horas da manhã. Cantou a missa o rev.ᵒ P. Louro, capellão das freiras, e professor do Collegio Militar.

O côro dos inglezinhos era acompanhado a orgão. Executaram muito bem o seu solemne cantochão.

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Na chan da quinta ha um recanto isolado, silencioso; junto do alto muro velho da cêrca das freiras está um poço d’onde se tira agua por uma picota; dois robustos cyprestes, figueiras de negros troncos tortuosos espalham fechadas sombras; além do recanto a terra do trigo, a vinha, as oliveiras; parece uma paizagem grega; o olhar de Homero não a estranharia.

Estive hoje a ler ali um trecho de Ruy de Pina (o silencio do logar e a sombra do arvoredo ainda m’o tornaram mais frisante) que me falla de Carnide.

Trata-se do amargo desastre de Tanger, de como ficou preso dos mouros o infante santo, pobre D. Fernando, filho de D. João I.

--E o infante D. Pedro, como sentiu o coração d’el-rei em algum mais socego, lhe pediu licença para trigosamente, e o melhor que pudesse, de Lisboa socorrer a seus irmãos, e a el-rei aprouve, e se veio logo apóz elle á aldêa de _Carnide_ junto com Santa Maria da Luz, porque a cidade estava perigosa de pestilencia. Mas porque ordenou que o socorro fosse com muita gente e grande poder, em se aviando para isso as cousas necessarias, chegaram em tanto a Lisboa dos que vinham de Tanger, muitos navios que certificaram o caso como finalmente passara, de que el-rei foi logo avisado, e certamente foi mui aspero de ouvir, que o infante seu irmão ficava em poder de mouros; mas por saber que a mais da sua gente era em salvo, deu por isso muitas graças a Deus, e como rei virtuoso, humano e agradecido, deteve-se naquella aldêa, para vêr e agasalhar os que vinham do cerco, dos quaes muitos, ao tempo que iam fazer-lhe reverencia, em disformes semelhanças e tristes vestidos, que para isso de industria vestiam, e com palavras á desaventura conformes, se lhe mostravam, e delles fingiam ser muito mais damnificados do que na verdade o foram, com fundamento de carregarem mais na obrigação para o feito de seus requerimentos, que alguns logo faziam e outros esperavam fazer, de que el-rei recebia publica dôr e tristeza.

Mas a estes foi mui contrario o nobre e valente cavalleiro Alvaro Vaz d’Almada, capitão-mór do Mar que como quer que no cêrco de Tanger de sua fazenda perdesse muita, e da honra por merecimentos d’armas não ganhasse pouca como chegou a Lisboa, antes de ir fallar a el-rei, logo de finos pannos e alegres côres se vestiu, a si e a todos os seus, e com sua barba feita e o rosto cheio de alegria, chegou a Carnide, onde o rei andava passeiando fóra das casas, e com elle o infante D. Pedro, e depois de lhe beijar as mãos e lhe dizer palavras de grande conforto, el-rei o recebeu mui graciosamente, e louvou muito sua ida naquella maneira, que não sómente lhe apontou cousas e razões, para não dever por aquelle caso ter nojo nem tristeza, mas ainda que por elle devia ser mui alegre e contente, estimando em nada o captiveiro do Infante seu irmão, que era um homem só e mortal, em que havia muitos remedios, em respeito da grande fama que naquelle feito em seu nome se ganhára aconselhando-lhe mais o repique e alvoroço dos sinos, para honra e prazer dos vivos, que o dobrar d’elles, que ouvia, por tristeza e pelas almas dos mortos; pelo que el-rei começou a mostrar que aquelle era o primeiro descanço que seu coração recebia...

(Cap. 36 da _Chronica de D. Duarte_, de Ruy de Pina.--_Ineditos da Acad._ Tomo 1.ᵒ, pag. 172 e 173).

Onde seria o paço de D. Duarte?... não sei. Na rua do Machado ha ainda cunhaes de grossa silharia velha, restos seguros de mui antiga construcção. Por aquelles quintaes ainda se encontram vestigios antigos, não são sufficientes porém para se affirmar a existencia ali de solar ou castello. O velho paço de Carnide desappareceu. Ficou a narrativa de Ruy de Pina. Resalta ahi a figura de Alvaro Vaz d’Almada, n’uma luz e n’um ensinamento incomparavel. Coragem, para encarar perigos e reparar desastres; um homem não se prostra perante a dôr, soffre; o coração abafa de soluços, mas lucta-se sempre, engole-se a amargura, soffre-se a ferida, suga-se a esponja de fel, mas o espirito não se perturba, o animo esforça-se por não perder a sua energia.

Deixar ao lado os esmorecidos, ao longe, bem longe, os vis especuladores, e trabalhemos, sem fraquejar, ainda que as lagrimas salgadas nos queimem as faces, e a angustia nos aperte o coração; o espirito justo vence; Deus manda que se trabalhe, e que não nos deixemos vencer pela tristeza.

Antigamente no dia 17 de julho havia mercado de trigo em Mafra; era importante, servia para se saber do trigo existente, se havia mingua ou fartura, ver as qualidades, e tratar de preços. Reunia-se muita gente, importantes _quadrilhas_ de carros de bois, dos lavradores, e muitas récuas de machos dos padeiros de Lisboa.

_Agua de Santo Alberto._--Domingo, 7 de agosto de 1898. Logo que cheguei, bebi agua de Santo Alberto, que mandaram as freirinhas, em sua bilhinha de barro vermelho, com um ramo de murta florida preso na aza. É boa contra as febres. Na rua, raparigas apregoavam fogaças.

Esta agua de Santo Alberto tem fama muito antiga.--Em 7 de agosto, na capella dos Terceiros do Carmo se benze a agua com uma reliquia de Santo Alberto (_Summario de varia historia,_ de Ribeiro Guimarães. IV. pag. 240).

Fr. Estevão de Santo Angelo, fez um romance heroico dedicado á virtude d’esta agua, no seu Jardim Carmelitano. Agora ha muitas aguas virtuosas, mas os reclamos não chegam a epopeias.

_Carnide, 15 de agosto de 1898._--Ás 6 horas da manhã, estouros de morteiros, estalos altos de foguetes, e rompeu sonorosa musicata. É a festa do anniversario da _Sociedade Philarmonica 15 d’agosto de 1880_. Os bellos rapazes preparados por ensaios repetidos apresentaram-se em publico com o seu melhor reportorio.

15 d’agosto, o dia de Nossa Senhora, tão celebrado na minha terra, e em todas as que teem vida agricola. É o dia em que os lavradores de cereaes, sabem com certeza o que passou pela eira, e se vencem fóros e rendas de trigo, centeio e cevada.