Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa
Part 4
Grandes paineis de azulejos com passos da vida de Santa Thereza forram a egreja até certa altura; télas pintadas a oleo, em grandes molduras de talha dourada, illuminam a parte mais alta das paredes.
Entre estas reparo na grande téla que representa o passamento de Santa Thereza notavel na composição, no desenho e no colorido. É boa obra d’arte e documento notavel na indumentaria e mobiliario. O quadro da capella-mór é muito lindo tambem: composição importante, com muitas figuras, e bem colorido.
A obra de talha da capella-mór, relativamente moderna, é muito elegante com o seu bello portico de columnas encimado pelas grandes figuras da Fé e da Esperança.
Os altares lateraes são revestidos de azulejos polycromos, com as armas de Portugal entre ramarias e animaes, e moldura fingindo embrechado de marmore amarello sobre fundo negro. Estes azulejos devem ser tambem do seculo XVII.
O pulpito e sua escada de páu brazil em torcidos e tremidos, com applicações de metal amarello, é notavel, e merece attenção tambem a especial pintura que cerca a janella, que está sobre a porta lateral da egreja, da parte de dentro.
A infanta D. Maria, filha de D. João IV, está no côro de baixo; sob a grade d’este côro repousa uma princeza germanica.
Reproduzo a inscripção desdobrando os breves:==Aqui debaixo d’esta grade jaz a veneravel madre Michaella Margarida de Sancta Anna filha do imperador Mathias, fundadora que foi d’este convento: resplandeceu em virtudes, faleceu em 28 de setembro de 1663 de idade de 82 annos havendo entrado na religião de 4 para 5 annos.==Esta inscripção está gravada em tres linhas, com bastantes lettras inclusas.
Ha n’esta egreja uma devoção especial a «Santa Agape V. M. cujos despojos mortaes foram achados em Roma no cemiterio de Prescilla, sito na estrada Salaria Nova, e pelo santo padre Gregorio XVI concedidos á egreja de Santa Thereza de Carnide a 25 de abril de 1843... sendo expostos á veneração dos fieis em 14 d’outubro de 1846.»
No exterior, templo e convento são de extrema singeleza. Sobre a porta principal a estatueta de Santa Thereza, e sobre a portaria a de S. José.
No cunhal da esquerda da frontaria, lá está a inscripção:
M.ᴬ F.ᴬ IOANNIS IIII LVSI TANIAE REGIS HOC OP VS STRVXIT, ANNO DNI. M.DCLXII.
Este convento conheceu dias de tormenta; quantas angustias passaram atraz d’essas grades; nas grandes crises do tempo pombalino, dos francezes, das guerras civis, muitas damas, algumas das mais nobres familias de Portugal, aqui vieram asylar-se.
Aqui esteve a duqueza de Ficalho a quem um capellão esperto dava noticias dos filhos, todos no exercito do imperador, no meio de motejos e allusões que contava em voz alta ás pessoas que estavam no locutorio, em quanto a duqueza escutava em ancias na casa proxima.
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N’este convento de Santa Thereza de Carnide viveu uma religiosa celebrada no seu tempo pelas suas virtudes, lettras, prendas, e bom humor. Era insigne no cravo, escreveu prosas e versos, e desenhava muito bem. A sua biographia encontra-se n’um volume com o titulo==Vida e obras da serva de Deus e madre soror Marianna Josepha Joaquina de Jesus, religiosa carmelita descalça do convento de Santa Thereza do logar de Carnide.==(Lisboa, 1783). É obra publicada sem nome de auctor, mas sabe-se que o foi D. José Maria de Mello, filho de Francisco de Mello, monteiro-mór do reino, oratoriano, bispo do Algarve, etc. Era sobrinho da insigne religiosa; e esta era filha do conde de Tarouca, o conhecido diplomata João Gomes da Silva.
As obras da madre Marianna são escriptos piedosos, em prosa e verso, em boa e fluente linguagem. As prosas são exercicios espirituaes, instrucções para as noviças, actos das virtudes, etc. E as poesias que se leem sem enfado porque tem certa animação são todas conventuaes, celebrando, festividades; sonetos, decimas, nas festas da prelada; sortes de exercicio de virtudes para se tirarem no dia da exaltação da cruz; sortes da paixão para se tirarem no domingo de Ramos. Ha um romance.==A uma noviça attribulada.== E varios desafios poeticos no tempo do advento, exaltação e quaresma.
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A egreja parochial de S. Lourenço de Carnide está agora bem reparada; é antiga como mostra a sua orientação e disposição. Todavia pouco resta, á vista, dos seus primeiros tempos. Na frontaria á direita ha uma pedra que é precioso monumento. Diz assim:==Era de 1380, 14 de maio o bispo Dom João mandou edificar esta egreja por Pero Sanches chantre de Lisboa á honra de S. Lourenço e deu-a a João Dor, seu capellão 24 dias do dito mez e passou o dito bispo 24 de julho da dita era ao qual Deus perdôe. Amen. Isto declara o que diz a pedra antiga correspondente.==
A qual pedra não se vê hoje.
Á esquerda da frontaria está em pedra lavrada, um brazão raro; tem na parte superior uma barra com vincos obliquos, sob isto uma estrella, uma perna com meia e sapato, que pousa sobre uma nuvem.
Na igreja ha um quadro bom, o _lavapedes,_ mal restaurado infelizmente; algumas campas, duas pias de agua benta que são dois capiteis do seculo XIV escavados, e na sacristia um arcaz de boa madeira, bom trabalho, com metaes bem lavrados.
O terreno em redor da igreja era antigamente o cemiterio e ainda ahi está uma urna com inscripção que será bom registar:==Josephus Joannes de Pinna de Soveral e Barbuda speciosus forma oritur ut moriatur 23 die decembris anno 1710 et plenus gratia per merita domini nostri Jesus Christi moritur ut vivat 1.ᵒ die mayi anno 1742,==o lettreiro está na face da urna em moldura, tendo na facha superior==Deo laus honor et gloria, amen,==e na inferior==Spes et voluntas in Deo.==
Visinha da igreja de S. Lourenço está uma fonte com bello aspecto mas sem agua. Tem seu terreiro bem empedrado defendido por frades de pedra, tanque, e um corpo central encimado por uma estatua, uma figura de mulher que me intriga um tanto. Esta figura está mutilada, sem braços, e pegaram-lhe ao lado uma pedra com seu lettreiro:==Encanamento de ferro pela vereação de 1858.==Mais em baixo o dizer:==Camara Municipal de Belem, 1857.==Apesar dos lettreiros e dos canos de ferro a fonte está enxuta.
No passeio de cima chamado antigamente do Espirito Santo, agora o _alto do poço_, está uma fonte, isto é, um poço com bomba, e uma urna de pedra bem tosca com a indicação:==C. M. B. 1859.==Dizem os de Carnide que a agua da fonte de baixo era excellente. Parece que n’este caso como em tantos outros a companhia apanhou as aguas boas, misturou-as com as ruins, e fornece a mistura aos consumidores, que em certas localidades ficaram prejudicados.
Agora a respeito da estatua; é uma figura de mulher, com tunica de pregas miudas, e amplo manto cingido. Parece-me uma estatua romana, pelo trabalho, disposição, rosto e cabello. Provavelmente foi aproveitada alli como o satyro da fonte de S. Domingos de Bemfica.
Carnide tem illuminação a gaz, agua da Companhia, estação telegrapho-postal, posto de bombeiros, posto de policia civil, a sua philarmonica com aprendizes de cornetim, a pharmacia com seu gamão, um theatro particular, um club e duas escolas municipaes primarias officiaes de ensino gratuito, uma para meninas e outra para meninos que me parecem regularmente frequentadas.
As irmãs de S. José tem escola de meninas.
O que anima muito o sitio é o collegio militar, que está muito bem installado no sólido edificio que ainda conserva na sua frente o brazão da fundadora, a inclita infanta D. Maria, filha de el-rei D. Manuel.
Na procissão dos Passos faziam a guarda de honra os alumnos do Collegio Militar com as suas carabinas no braço, marchando muito garbosamente, entre o povo e as familias d’elles que os acompanhavam, cobrindo-os com os seus melhores olhares. Sentia-se um certo perfume de familia, patria, dever, brio, mocidade, um ramilhete de cousas boas, ao vêr passar, musica na frente, aquelles bellos rapazes, entre a multidão sympathica.
A igreja de Nossa Senhora da Luz é bem conhecida; eu mesmo já escrevi algures da formosa téla onde se vê retratada a infanta D. Maria (ha outro retrato no quadro da capella do collegio militar), do extraordinario altar-mór com os seus finos baixos relevos, da capella-mór que é um monumento da arte nacional, excepcionalmente bem conservado. No exterior está a fonte, a velha estatua da Virgem e uma longa inscripção repartida em duas lapides de marmore avermelhado, que diz o seguinte:
==No anno de 1463 reinando em Portugal D. Affonso V os visinhos de Carnide com devoção das revelações que Pedro Martins, natural deste logar, teve em seu captiveiro, donde sahiu milagrosamente, lhe ajudaram a fazer uma capella a nossa Senhora da Luz sobre esta fonte. O lugar como determinado pela divina providencia para este effeito se via dantes claro e resplandecente com visão e lumes do Céo, como depois se viu resplandecer com grandes e innumeraveis milagres na terra. E seguindo em tudo a ordem e revelação que a Virgem purissima inspirou a Pedro Martins, lhe puzeram o nome que tem da Luz, em cuja memoria e louvor a infanta D. Maria filha delrei D. Manuel o primeiro deste nome, rei de Portugal, e da Christianissima rainha D. Leonor infanta de Castella, mandou reedificar e levantar o templo de novo nesta ordenança e grandeza, no anno de 1575.==
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Domingo de Ramos, 3 abril 1898.
Pela manhã cedo dei um pequeno passeio até á Casa da Pontinha, proxima da estrada militar. É casa antiga, com algumas alterações modernas; na parede que deita para a estrada, a pouca altura, está um marmore com lettreiro:
Louvado seja o santissimo sacramento. -- Se quereis saber quem he o serafi co Frc.ᵒ está junto a IHS Cristo que 16 assim o te 37 mos por fee
Superior á lapide está um quadro de azulejo; a Senhora da Conceição, em azul sobre o branco, de bom desenho, em moldura de azulejos policromos.
Proximo da Casa da Pontinha, na estrada que vem para Carnide, está uma casa quadrada, na ponta da horta do casal do Falcão, n’um angulo de muro, que conserva um friso ornamentado, uma grega singela em relevo de cal, um _esgrafitto_, datado «1622».
Depois ouvi a sineta das freiras, que sôa como uma voz debil, triste, e entrei na linda igreja. O capellão lia no seu missal a grande narrativa do triumpho em Jerusalem, que foi terminar na paixão, na cruz do Calvario, verdadeiro symbolo da vida humana, que a dias de puras alegrias e risonhas esperanças faz succeder horas de desespero e uma eternidade de angustias.
O capellão lançou a sua benção sobre os ramos, folhas de palmeira sem ornato algum, e deu-os pela grade do côro de baixo ás religiosas portuguezas. Entraram processionalmente as irmãs de S. José de Cluny, com as suas tunicas azues e mantos pretos; toucas brancas moldurando os rostos; atravessaram o cruzeiro e ajoelharam no degrau da capella-mór. Ahi receberam as palmas, os ramos do grande triumpho. Não havia musicas, nem canto; um grande silencio apenas. E retiraram na mesma ordem, e no mesmo silencio para a sua clausura.
Quantas estarão de marcha para as missões africanas!
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Quinta-feira santa, 7 d’abril 1898.
Hoje o passeio foi longo, quiz verificar o que havia a respeito de certas antiguidades na ribeira de Carenque.
Ha tempos, nem me recordo porque circumstancia, folheei um opusculo intitulado==_Representações dirigidas a S. M. a Rainha e ao corpo legislativo pela Camara Municipal de Lisboa sobre o abastecimento d’aguas na Capital_==(Lisboa, 1853). Ora estas representações são acompanhadas de pequenas memorias de J. M. O. Pimentel e do engenheiro Pézerat, duas summidades do seu tempo. A de Pézerat começa a pag. 53:==Memoria sobre as conservas d’agua da Quintam até ao Salto Grande.==
Tratava-se de estabelecer tanques nos valles superiores (da ribeira de Carenque), ou conserva para a repreza de todas as aguas de sobejo fornecidas no inverno pelos differentes nascentes d’este systema de aqueducto (o das Aguas Livres). E diz Pézerat:==Descobri o valle da Quintam, com condições muito favoraveis porquanto já tinha servido em tempos remotos de conserva ou bacia para uma immensa repreza, cuja existencia está provada pelos restos do antigo paredão ou marachão com 11 metros de largura, e 9 de altura, e que os habitantes attribuiam á epocha do dominio romano, e como tal o denominam, porém mui facilmente reconheci pertencer á epocha mourisca.==
Na planta que vem com a memoria marcam-se o casal da Fonte Santa, o resto do marachão, as linhas do aqueducto de D. João V, as mães d’agua, velha e nova, a escavação de um aqueducto abandonado, o valle de Fornos, o casal da Quintam e as ruinas do Castello velho.
Eu desejava ver estas antigualhas.
Parti de Carnide á Porcalhota, ao sitio da Amadora, passei por um grande arco sob a linha ferrea, e entrei na estrada de Carenque, que vae seguindo a corrente. Um valle muito comprido, accidentado, com dois logares, Carenque de baixo, Carenque de cima, alguns grupos de casebres, azenhas, pequenas hortas, e dominando tudo a formidavel obra do aqueducto das Aguas Livres, sempre bem feita, de silharia sempre bem faciada, formidavel monumento.
A principio ia desanimando, ninguem me sabia dizer das velharias mouriscas ou romanas, nem da Quintam, e cheguei assim ao casal do Ernesto.
Ahi depois de expôr a minha questão a um grupo que nada sabia, surgiu-me um sujeito côxo conhecedor do caso, da obra dos mouros (não me fallou de romanos) e da Quintam. Este côxo providencial chama-se João Silvestre, e foi pastor na sua mocidade. Pastores sabem muito, andam pelos montes e charnecas, por atalhos e a corta-matto; são sempre bons informadores.
Com o Silvestre passei as terras do casal do Ernesto; em breve estava na ponte entre as mães d’agua; a chamada _nova_ (D. João V) é uma linda construcção oitavada, de elegantes fórmas singelas, classicas, parece uma obra grega. Pouco acima avistava-se outra obra inconfundivel, o marachão, enorme, firme, apezar das cheias, dos seculos e dos homens.
Porque já para a obra do aqueducto de D. João V tiveram de o romper a poente, e mais recentemente a nascente para a passagem de uma estrada; todavia o que existe é pouco menos do que viu Pézerat.
Nas dimensões que elle apresenta, na da largura do paredão, houve engano me parece. Contando com os encostos ou gigantes, na base, chega-se a 11 metros, mas a parede em si tem 7 metros, o que é bem respeitavel. É feito de camadas de pedregulho e argamassa, revestido de pedras grandes irregulares e mal faciadas, em fiadas; por isto me parece obra dos arabes; os romanos em obra de tal importancia empregavam os seus bellos apparelhos. O paredão tem 9 metros de altura na face do sul. Completo teria 40 a 50 metros de comprimento, e 5 ou 6 de altura sobre o terreno a montante; ora a montante segue-se uma varzea consideravel que fechada formaria uma grande albufeira. Mais acima, a 2 kilometros, fica a Quintam, um casal muito velho; ao lado restos da muralha com ameias, e um grande portal.
É de notar que junto de Odivellas, sahindo da povoação a entrar no atalho que vem ao moinho da Luz, na estrada militar, está um muro ameiado, com seu portico em ogiva, resto tambem de uma construcção fortificada. Castellos não seriam, mas habitações fortificadas talvez.
E disse-me o Silvestre,--mas por aqui ainda ha melhor, se tem tempo e vontade eu lhe vou mostrar a eira dos mouros.--Trepámos por atalho até uma chapada, proxima e inferior á crista do cerro que é formado de calcareo secundario muito fragmentado. E achei-me em face de um problema.
É uma chapada ligeiramente inclinada de poente para nascente. N’este declive traçaram um octogono regular, menos a face do nascente que está de nivel com o terreno natural. Este octogono está cercado por um muro duplo, isto é, por dois muros parallelos que entre si conservam um intervallo de meio metro; estes muros conservam a mesma altura em cinco lados do octogono, decrescem nos dois a nascente até chegar ao nivel do solo. Os muros teem 0,5 de espessura; nos cinco lados a poente, norte e sul, quasi um metro de altura na face interior, porque na exterior, a poente estão com o terreno, que é mais alto ahi. São de alvenaria bem solida. No espaço assim limitado arranjaram um centro plano e das paredes para esse centro ha declives regulares, artificiaes. Todo este espaço interior está, não calçado de pedra, mas forrado de uma forte camada de alvenaria, que assenta, como se vê n’um ponto que está escavado (por algum caçador, ou mais provavelmente por algum sonhador de thesouros; porque, notou o antigo pastor, dizem que ha muita somma de dinheiro e outras cousas enterradas por estes sitios), em grande camada de pedregulhos.
--Dizem que era aqui que os mouros se vinham divertir,--informou o Silvestre. Um theatro, uma palestra, uma praça de touros? quasi que parece; mas para que a dupla parede com a sua sanja ou caneiro? E os declives, e a solidissima alvenaria que forra o fundo? Para um fim industrial, ou assento de grande arribana, tambem não vejo; se fosse questão de aguas, tanques de lavagem, então não fariam aquella obra na altura, porque o rio corre muito abaixo. O espaço é consideravel; tem proximamente 35 metros de diametro maximo, e os lados, muito regulares, tem 15 metros cada um na face interna. Ha outras eiras de mouros, disse Silvestre, mas sem o duplo muro, n’uns outeiros mais distantes.
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10 de abril de 1898.
Hoje pela manhã fui vêr uma obra d’arte na quinta da Marqueza. A meio do jardim quadrado agora exhuberante de bellas rosas, de macissos de flôres, está um tanque de fino marmore, grande, formado de enormes blocos lavrados, com seus chanfros e curvas, decorado de quatro mascaras collossaes; sobre a borda do tanque quatro golphinhos decorativos de cauda erguida, infelizmente quebradas as extremidades, que lançam jorros d’agua para o tanque. No centro um grande grupo, um tritão vigoroso, uma formosa sereia e um genio marinho, em posições movimentadas, dando um todo agradavel de qualquer lado que se observe. É uma peça de esculptura notavel em marmore de Italia.
Depois segui para o casal do Falcão, que não tinha ainda examinado internamente. É um grande predio apalaçado, com suas dependencias; palacio e centro de exploração agricola. Da casa de residencia está metade em pé, outra que olhava ao norte, e que tinha como a do nascente a sua alta varanda coberta, com finas pilastras, foi derrubada ha muito tempo. Tem dois pavimentos; no terreo estão cosinhas e arrecadações; no superior, o andar nobre, salas e alcovas. As salas eram ladrilhadas, com altos rodapés de azulejo, e tectos de madeira em caixilhos ou almofadas.
Tem capella. Sobre a porta da pequena mas elegante egrejinha está o lettreiro:==Dedicada a Nosa Snra da Asumsão ano de 1705 (?).==
Parece-me 1705, mas os dois ultimos algarismos estão muito gastos. O altar-mór tem seu retabulo em marmores lavrados, com seus nichos, em trabalho que tem movimento. Nas paredes ha azulejos bem conservados, e em frente da pequena tribuna um lettreiro diz que alli está enterrado João Coelho que instituiu a quinta em morgado em 1647. Esta casa com suas dependencias, lagares, arribanas, abegoarias, é um bello exemplar de construcção portugueza no seculo XVII.
Entre almoço e jantar fui vêr o casal e o moinho do Castello, para lá de Alfornellos ou talvez melhor, Alfornel.
Estes nomes de Fornos, Fornellos e Alfornellos indicam a existencia de antigos fornos, os d’estes sitios provavelmente só destinados a coser calcareo e grossa ceramica; não encontrei ainda escorias de metaes.
O moinho do Castello desappareceu, está lá como testemunha a grande pedra do frechal. A altura é formada por calcareo jurassico, cujas cristas parallelas afloram sobre o solo. Não vi grandes movimentos de terra ou pedra que indiquem trincheiras bem definidas. Nem fragmentos de ceramica, escorias, ou outra qualquer cousa que indique trabalho humano. É possivel todavia que alli tenha havido alguma fortificação prehistorica; á vista e não muito distante está outro monte a que um pastor tambem chamou do Castello.
A proposito de movimentos de pedra e terra direi que nos arredores de Lisboa o archeologo precisa estar sempre lembrado de que dois formidaveis trabalhos se proseguem ha muitos seculos por estes sitios; a exploração das pedreiras, e a pesquiza e captagem das aguas.
O trabalho das pedreiras em varias epochas, depois dos terremotos da capital, foi collossal. A formação de aqueductos para Lisboa, especialmente o prodigioso trabalho da rede do Aqueducto das Aguas Livres que acompanha e alimenta o cano geral deu origem tambem a grande deslocação de material.
Seguindo do casal do Castello para Falagueiras segui eu um ramo do aqueducto, e um caneiro para regularisar a sahida das aguas do valle, tudo bem feito, com solidas fiadas de silhares, suas caixas d’agua, algumas das quaes me pareceram muito anteriores ás suas visinhas do tempo de D. João V. Exactamente, antes de chegar á queda da ribeira onde está uma grande caixa d’agua, vi muitos movimentos de terra, comoros artificiaes, que n’outra região tomaria por mamunhas ou mamoas tumulares.
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O rev. padre Pereira, actual prior de S. Lourenço de Carnide, tem colligido muitas noticias para a historia d’este logar.
Para o estudo da topographia de Carnide e seus arredores serve muito bem a carta n.ᵒ 7, publicada pelo Corpo d’Estado Maior.
A historia da egreja de Nossa Senhora da Luz, e do edificio onde actualmente se acha installado o Collegio Militar, encontra-se na _Vida da infanta D. Maria, filha de D. Manuel_, por fr. Miguel Pacheco (Lisboa, 1675); em _O Occidente,_ vol. de 1890, pag. 219; e no _Archivo Pittoresco,_ vol. de 1863, pag. 299.
O casal do Falcão mereceu estudo especial ao sr. Julio de Castilho, 2.ᵒ visconde de Castilho, gentil espirito que esmalta de poesia a mais variada erudição. O sr. visconde publicou no _Instituto_ de Coimbra, vols. de 1889-90, uma serie de artigos historiando os dramaticos amores do pintor Francisco Vieira de Mattos, o Vieira Lusitano, com a firme e leal senhora, D. Ignez Helena de Lima e Mello, que apoz dolorosos episodios foi esposa do grande artista.
Esses amores puros, honestos, bem portuguezes, que douram de deliciosa poesia os restos, agora tristes, da fidalga vivenda, de ha muito chamada o casal do Falcão, foram contados pelo proprio Vieira n’um livro: «O insigne pintor e leal esposo Vieira Lusitano, historia verdadeira que elle escreve em cantos lyricos (Lisboa, 1780)»; livro interessante porque além do poema amoroso, apresenta grande numero de quadros de costumes, scenas palacianas, festas populares, e noticias artisticas.
Noticias de Carnide
(1900)
_Domingo, 12 de junho de 1898._--No fim da tarde trovoada forte, e chuva grossa; d’estes chuveiros que no campo fazem bulha batendo nas folhagens do arvoredo; um rufar grave que se ouve a centos de metros. Em Carnide não cahiu granizo; nas Laranjeiras bastante, mais forte na Palhavã; no Matadouro a saraiva foi tão valente que partiu vidraças; e em Sacavem e Cabo Ruivo ficaram algumas propriedades arrazadas.
Não ha memoria por estes sitios de tempestade tão violenta.