Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

Part 3

Chapter 33,918 wordsPublic domain

==Por grande que deva ser a gratidão que se associa ás recordações d’aquelles que nos geraram, por funda que vá a saudade inseparavel da memoria paterna, no coração do bom filho, ha um affecto não menos puro, e não menos indestructivel, para o homem cujo espirito allumiado pela cultura intellectual tem a consciencia de que o seu logar e os seus destinos no mundo são mais elevados e nobres que os d’esses tantos que nasceram para viverem uma vida toda material e externa, e depois morrerem sem deixarem vestigio. Este affecto é uma especie de amor filial para com aquelles que nos revelaram os thesouros da sciencia, que nos regeneraram pelo baptismo das lettras; que nos disseram: «caminha!» e nos apontaram para a senda do estudo e da illustração, caminho tão povoado de espinhos como de flores, e em cujo primeiro marco milliario muitos se teem assentado, não para repousarem e seguirem ávante, mas para retrocederem desalentados, quando sósinhos não sentem mão amiga apertar a sua e conduzi-los apoz si. Tirae á paternidade os exemplos de um proceder honesto, as inspirações da dignidade humana, a severidade para com os erros dos filhos, os cuidados da sua educação, e dizei-nos o que fica? Fica um certo instincto, ficam os laços do habito, e para impedir que tão frageis prisões se partam, fica o preceito de cima que nos ordena acatemos e amemos os que nos geraram, ainda que a elles não nos prenda senão a dadiva da existencia, esse tão contestavel beneficio. Pelo contrario aquelles que foram nossos mestres, que nos attrahiram com a persuasão e com o proprio exemplo para o bom e para o bello, que nos abriram as portas da vida interior, que nos iniciaram nos contentamentos supremos que ella encerra, para esses não é preciso que a lei de agradecimento e de amor esteja escripta por Deus; a rasão e a consciencia estamparam-na no coração: cada gôso intellectual do poeta, do erudito, do sabio lha recorda, e quando elles se comparam com o vulgo das intelligencias reconhecem plenamente a justiça do sentimento de gratidão que os domina.

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Áquella mulher extraordinaria a quem só faltou outra patria que não fosse esta pobre e esquecida terra de Portugal, para ser uma das mais brilhantes provas contra as vans pertenções de superioridade excessiva do nosso sexo, é que eu devi incitamentos e protecção litteraria, quando ainda no verdor dos annos dava os primeiros passos na estrada das lettras.

Apraz-me confessa-lo aqui, como outros muitos o fariam se a occasião se lhes offerecesse; porque o menor vislumbre d’engenho, a menor tentativa d’arte ou de sciencia achavam n’ella tal favor, que ainda os mais apoucados e timidos se alentavam; e d’isso eu proprio sou bem claro argumento. A critica da senhora marqueza d’Alorna não affectava já mais o tom pedagogico e quasi insolente de certos litteratos que ás vezes nem sequer entendem o que condemnam, e que tomam a brancura das proprias cans por titulo de sciencia, de gosto, e de tudo. A sua critica era modesta, e tinha não sei o que de natural e affectuoso que se recebia com tão bom animo como os louvores, de que não se mostrava escaça quando merecidos.

Uma virtude, rara nos homens de lettras, mais rara talvez entre as mulheres que se teem distinguido pelo seu talento e saber, é a de não alardearem escusadamente erudição, e essa virtude tinha-a a senhora marqueza em grau eminente. A sua conversação variada e instructiva era ao mesmo tempo facil e amena.

E todavia dos seus contemporaneos quem conheceu tão bem, não dizemos a litteratura grega e romana, em que igualava os melhores, mas a moderna de quasi todas as nações da Europa, no que nenhum dos nossos portugueses porventura a igualou?

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Ahi verá como em todas as phases da sua larga e não pouco tempestuosa carreira ella soube dar perenne testemunho do seu nobre caracter de independencia e generosidade; verá que em quanto na terra natal primeiro a tyrannia, e depois a ignorancia e a inveja a perseguiam, ella ia encontrar entre estranhos a justa estimação de principes, e de illustres personagens da republica das lettras. Ahi verá como nascida no seculo do materialismo, vivendo largos annos no fóco das idéas anti-religiosas, acostumada a ouvir todos as dias repetir essas idéas por homens de incontestavel talento, ella soube conservar pura a crença da sua infancia, e expirar no seio do christianismo. Ahi finalmente verá como as ausencias, por vezes involuntarias, da sua terra natal, não poderam fazer-lhe esquecer o amor que devemos a esta, ainda no meio das injustiças e violencias de todo o genero. ==(_Panorama_, pag. 403 e 404 do vol. de 1844, artigo assignado por A. Herculano).

A capella do palacio

Em 11 de fevereiro de 1903 se rezaram missas de corpo presente pela alma do marquez de Fronteira na pequena capella do palacio.

É um templosinho elegante com seu portico de columnas em estylo da renascença classica. Sobre a porta tem o letreiro:

_Dicatum charitati coeli januae M.D.LXXX.IIII_

É certo que o estylo diz perfeitamente com a data 1584. É possivel que tenha havido transformação grande de outra capella anterior, porque é tradição que S. Francisco Xavier antes de partir para a India, alli celebrou a sua ultima missa em Portugal, e o santo apostolo das Indias deixou Lisboa em 1541.

Sepultura de João d’Aregas--O escudo d’armas

==É a sepultura uma grande caixa de marmore assentada sobre quatro leões, lavrada em torno de escudos de armas, quarteados em aspa, e nos campos alto e baixo em cada um sua cruz floreada da feição das da Ordem de Aviz; e nos campos de cada lado uma serpe com azas ameaçando para fóra; na lagea que a cobre está o defunto entalhado de relevo, vestido em roupas largas e barrete posto, insignias de letrado; mas acompanhado tambem das de cavalleiro, que são seu estoque á ilharga; as mãos juntas sobre o peito como quem faz oração.==(_Historia de S. Domingos_, pag. 176).

Como se disse já, a mão direita da estatua segura um livro, e segurava, sobre o peito; a esquerda que inclinava sobre o coração e se partira e extraviára, está agora substituida por outra nova, erguida, segurando um rolo de papel.

No Thesouro da Nobreza descreve-se assim o brazão:

==Escudo franxado nos campos alto e baixo em vermelho uma cruz aberta e floreteada, nos quarteis dos lados em campo d’oiro uma serpente vermelha batalhante. Timbre as duas serpentes do escudo.==

Sobre esta familia de Aregas, ou das Regras, encontro uma longa memoria de José Freire de Montarroyo Mascarenhas, no 5.° vol. dos Titulos genealogicos (B. N. L. Sec. Mss. Cod. 1034, pag. 289 e segg.)

Nomes de artistas

Percorrendo a «Collecção de memorias relativas ás vidas dos pintores, e escultores, architectos e gravadores portuguezes... por Cyrillo Volkmar Machado (Lisboa, 1823)» encontro o seguinte:

--_André Gonçalves_, o pintor da Vida de José do Egypto na sacristia da Madre de Deus, fez os quadros no côro de S. Domingos de Bemfica. Este artista falleceu em 15 de junho de 1762--. Os quadros no espaldar do côro representam a vida de N. Senhora; acham-se regularmente conservados. Entre os quadros ha figuras de anjos, em variadas posições, do mesmo pincel. Não são notaveis; parecem feitos sobre estampas vulgares; monotonos no colorido; todavia o effeito do conjuncto é agradavel.

--_José da Costa Negreiros_ (m. 1759) pintou a casa do Capitulo--. A casa que serve á Irmandade da S.ᵃ do Rosario tem pinturas que podem ser deste artista.

--_Ignacio de Oliveira Bernardes_ (n. 1695--m. 1781), esteve em Roma; foi pintor, architecto, decorador; foi este o architecto da casa e quinta de Gerardo Devisme (actualmente o collegio).--Pertencia a uma familia de artistas que trabalhou immenso em varios generos. Por muitas partes se encontram ainda producções destes homens. Os azulejos da egreja, como já disse, estão assignados por Antonio de Oliveira Bernardes.

--_Jeronimo Correia_, esculptor em madeira, fez em Bemfica os ornatos das capellas.--Se foi este que executou o sacrario, elegante obra d’arte, era sem duvida um optimo artista.

--As duas grandes imagens da capella mór, S. Domingos e S. Pedro Martyr, são obra do melhor esculptor que viveu em Hespanha, por 1651.--Acho esta noticia assim indeterminada em varias partes; creio que se referem ao esculptor português _Manuel Pereira_ (m. 1667).

Francisco d’Assis Rodrigues no seu diccionario diz que Manuel Pereira, o primeiro esculptor português, foi o autor das imagens de Christo, S. Jacintho, e S. Pedro, em S. Domingos de Bemfica.

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_D. frei Fernando de Tavora_ (m. 1577), religioso de S. Domingos, discipulo de fr. Bartholomeu dos Martyres, estimava muito a arte da pintura, e nella excedeu os melhores pintores do seu tempo; alguns dos seus paineis se conservam ainda em S. Domingos de Bemfica (_Santarem edificada_, de Piedade e Vasconcellos, 2.ᵃ parte, pag. 464).

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Na egreja vejo os bellos azulejos; o lindo trabalho, majestoso e bem equilibrado, do altar mór, o cadeirado e as pinturas do côro, alguns quadros nas capellas, e as imagens. Entre estas sobresaem as figuras do Crucificado, a da S.ᵃ do Rosario, as grandes estatuas de S. Domingos e S. Pedro Martyr. É possivel que sejam de Manuel Pereira (V. o meu artigo na _Arte Portugueza_, Lisboa, 1895, pag. 57). Careço de elementos de comparação; não encontro assignatura, monogramma ou documento. Em todo o caso o boato algo vale; e não tem duvida que as esculpturas são boas.

No domingo de Paschoa, 3 de abril de 1904, celebrou-se missa no altar mór, a primeira depois das morosas obras de concerto e reparo que durante annos impediram os exercicios do culto.

O lindo sitio de Carnide

(1898)

Março de 1898.

Por tristissimo incidente na minha vida tendo de passar uma temporada em Carnide, onde a amabilidade de uma familia excellente nos quiz espairecer da fatalidade brutal que nos feriu, eu, seguindo a velha tendencia do meu animo, comecei de indagar historias, e dar passeios pelas azinhagas solitarias; os largos passeios pelos campos que são a melhor fórma de isolamento doloroso.

Muito naturalmente, para esclarecimento, consultei alguns livros; o primeiro que abri causou-me admiração; foi o _Diccionario Popular_ publicado sob a direcção de Pinheiro Chagas.

--É sitio procurado no verão por alguns habitantes da cidade, que ali vão convidados pela sua amenidade. Gosa o logar egualmente de reputação de bons ares e abundancia de aguas, bem como alegre posição. Manda a verdade que se diga que o logar é detestavel, formado por algumas duzias de casas insalubres, dispostas em arruamentos sujissimos, para os quaes se fazem todos os despejos, e não tem passeios, nem jardins, nem quintas, nem arvoredos, nem bons pontos de vista. As aguas são extremamente escassas e os ares, por muito bons que podessem ser, resentem-se das más qualidades do sitio. Ainda assim o logar grangeou fama immerecida, e varias familias de Lisboa o procuram para terem dois mezes de campo! São gostos!--

Ora a verdade é que o sitio de Carnide me impressionou agradavelmente com as suas largas vistas, brilhantes, matizadas de verdes, as suas graciosas quintas, as suas azinhagas quietas entre vallados de madresilvas, caniços, heras, roseiras, pilriteiros e congossas nas juvenis florescencias do começo de primavera.

E abri outro livro.

Foi a _Corografia Portugueza_ do bom padre Antonio Carvalho da Costa (Lisboa, 1712), que no seu tomo 3.ᵒ trata de Carnide, mui brevemente.

Menciona a egreja parochial de S. Lourenço. Diz que o seu cura era apresentado pelos priores do convento de Nossa Senhora da Luz e que o logar tem oitenta visinhos com nobreza, duas ermidas, e muitas quintas com uma fresca alameda: e relaciona os conventos.

A alameda fresca é sem duvida a do largo da Luz.

Recorri logo ao Pinho Leal, no seu _Portugal antigo e moderno_, enorme trabalho com algum joio, é verdade, mas onde o corajoso colleccionador archivou muita noticia de valia.

--Carnide, freguezia no districto de Lisboa, concelho de Belem (hoje é freguezia de Lisboa), a seis kilometros a NNO. de Lisboa.

Tem 260 fogos.

Em 1757 tinha 250 fogos.

É freguezia muito antiga, pois já existia em 1394.

A maior parte é situada em fertil e saudavel campina, com lindas vistas. Orago, S. Lourenço.

O cura era da apresentação do prior da Luz, da Ordem de Christo, depois passou a ser vigario collado perpetuo, com 80$000 réis de renda.

A egreja de Nossa Senhora da Luz foi fundada por 1540, pela infanta D. Maria, filha d’el-rei D. Manuel e de sua terceira mulher D. Leonor. A fundadora está sepultada na capella-mór.

O terremoto de 1755 damnificou muito esta egreja; existe apenas (agora em bom estado, depois da obra recente que ali se fez) a capella-mór e o cruzeiro.

Continúo a seguir o Pinho Leal.

Convento de freiras carmelitas descalças de Santa Thereza: é antigo, foi reedificado pela infanta D. Maria, filha natural de D. João IV, por 1680.

Frades carmelitas descalços, de S. João da Cruz, fundado pela princeza Michaela Margarida, filha de Rodolpho II, imperador de Allemanha, por 1642, que n’elle está sepultada (nem o imperador se chamava Rodolpho; e a pobre princeza está sepultada no convento de Santa Thereza, como logo contaremos). A infanta D. Maria, filha de D. João IV, viveu aqui (no convento de Santa Thereza) de 1649 até 1693. Foi mestra da infanta D. Luiza, filha bastarda de el-rei D. Pedro II.

Esta D. Luiza foi reconhecida por D. João V, que a casou com D. Luiz Alvares Pereira de Mello, duque de Cadaval; por morte d’este casou com D. Jayme, seu cunhado, que ficou sendo duque de Cadaval, porque o primogenito morreu sem geração.

A infanta D. Maria, filha natural de D. João IV, veiu para aqui de tenra idade. Reedificou a egreja e o mosteiro, ampliando muito o edificio. Viveu recolhida sem professar. O reconhecimento como filha do rei foi feito solemnemente na presença da familia real e da côrte, no mosteiro. Esta senhora era muito estimada; as rainhas D. Luiza de Gusmão, mulher de D. João IV, D. Maria Francisca Isabel de Saboya e D. Maria Sophia de Neubourg a visitavam muito. O irmão, D. Pedro II, encarregou-a da educação da filha, D. Luiza, que depois foi duqueza de Cadaval.

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A procissão dos Passos de Carnide faz-se na 5.ᵃ dominga de quaresma (este anno, 1898, foi em 27 de março).

A conhecida feira da Luz, com arraial e festa, é nos dias 7 e 8 de setembro.

O cirio do Cabo visitou Carnide pela primeira vez em 1437.

Carnide está na 7.ᵃ ordem do giro. Em 1795 houve festa ruidosa porque tomaram parte no cirio o principe D. João (depois D. João VI) e sua mulher D. Carlota Joaquina.

A Senhora do Cabo tem capella propria na egreja da Luz, na capella-mór, á esquerda; ainda ahi existe um formoso frontal, com o brazão da infanta D. Maria.

Vamos ouvir o Padre Luiz Cardoso, no seu _Diccionario Chorographico,_ que infelizmente ficou incompleto. Este escreve em 1751:

--Na egreja de S. Lourenço ha cinco altares, o maior, o de N. S.ᵃ do Rosario, o de Christo crucificado, o de S. Miguel, e o de Jesus Maria José. Havia então tres irmandades: a do Senhor, a de N. S.ᵃ do Rosario, e a das Almas.

Tem (tinha) a freguezia mais as ermidas do Espirito Santo, a de S. Sebastião e a de N. S.ᵃ da Assumpção na quinta de José Falcão de Gamboa, hoje o casal do Falcão.

A fonte de N. S.ᵃ da Luz, antigamente da Machada, divide-se em duas, a fonte de dentro e a de fóra.

A de dentro está sob o altar-mór, a agua no sabor é grossa e salobra mas mui sádia, e principalmente contra a pedra tem especial virtude, e não consta que filho algum da terra padecesse semelhante achaque ou outra qualquer pessoa que d’ella usasse.--

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O _Santuario Mariano_ de fr. Agostinho de Santa Maria é repositorio de muitas informações, porque este extraordinario devoto de Nossa Senhora a proposito das imagens que descreve, dá noticias das egrejas e localidades onde se veneram.

No tomo I, pag. 98, escreve da imagem de Nossa Senhora da Luz em Carnide: e conta de como antes de 1463 foi captivo em Africa Pedro Martins, natural de Carnide; este homem teve sonhos milagrosos, fez promessas, e conseguindo livrar-se do captiveiro mourisco voltou á sua patria, onde já existia a fonte do Machado, e edificou a ermida. A fundação foi solemne, porque a ella assistiu D. Affonso V. É provavel que este Pedro Martins fosse algum antigo companheiro d’armas d’el-rei D. Affonso V, que a historia denominou o Africano, por causa das suas arrojadas emprezas e valentes brigas no Algarve d’além-mar. Pedro Martins collocou na ermida, em agradecimento, os grilhões do captiveiro.

A infanta D. Maria, filha de D. Manuel, fez a nova egreja em 1575.

A pag. 411 do mesmo tomo o padre Cardoso refere-se á imagem de Nossa Senhora da Conceição, do côro do convento da Conceição no sitio de Carnide (depois em Arroyos), sem dar noticia importante.

Fr. José de Jesus Maria, na _Chronica de Carmelitas descalços da Provincia de Portugal,_ tomo III, pag. 147, acha o logar de Carnide situado em campo alegre e de ares puros, e cercado de muitas e curiosas quintas que servem igualmente para o lucro e ao recreio.

Compõe-se o logar de 264 visinhos (elle escreve em 1753).

Falla do convento da Conceição que na sua quinta fundou Nuno Barreto Fuzeiro.

Do convento de Santa Thereza, nobilissimo seminario de infantas e senhoras... onde tantas vezes chegou a pobreza, a ponto de ás vezes não terem de comer.

Mas as freiras tinham grande repugnancia em pedir; esperavam até á ultima; nada havendo, nem a esperança, tocavam uma sineta, a sineta da fome, pedindo soccorro. O mesmo succedia com as freiras do Calvario em Evora; tinham tambem o toque da fome. Quando nada havia, nem se esperava, iam para o côro, entoavam as suas rezas ao som do triste signal. Por vezes, no convento de Carnide, houve coincidencias que pareceram milagres. Uma vez ia a pobre soror, meio desfallecida, começar o signal da fome, quando bateram estrondosamente á portaria. Era um presente de atum assado que mandava a duqueza de Aveiro.

Outra vez appareceram uns navegantes, salvos de grande tormenta no mar, com uma esmola de 20$000 réis.

Em 1646 se dispôz a madre priora Michaela Margarida de Sant’Anna a lançar a primeira pedra do convento novo. Foi o duque de Aveiro quem lançou a pedra e d’isto se lavrou a inscripção==O duque de Aveiro, D. Raymundo de Lancastre botou a primeira pedra deste convento a 2 de junho de 1646.==

Nova obra começou em 15 de outubro de 1662, commemorada em outra lapide (hoje no cunhal da frontaria da egreja):==Maria Joannis Lusitaniae Regis Filia hoc opus struxit anno Domini 1662.==

A dedicação do templo de Santa Thereza foi em 15 de outubro de 1668.

A capella-mór é de Santa Thereza.

A do Evangelho é de S. João da Cruz.

A da Epistola é da Senhora da Conceição.

Defronte da grade do côro de baixo está a capella do Senhor dos Passos, com procissão na 5.ᵃ dominga de quaresma.

No côro alto ha muitas reliquias (é um grande relicario entalhado e dourado, que se vê da capella-mór).

A infanta D. Maria, filha de D. João IV, mandou fazer os retabulos.

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Podemos affirmar, pois, que a egreja de Carnide era já parochial no seculo XIV. Que no seculo XVI era logar de certa importancia, pois a insigne infanta D. Maria, filha de D. Manuel, aqui veiu fundar egreja e hospital. Depois os differentes conventos e obras particulares; as grandes quintas com magnificas moradias, etc.

Em 1712 tinha 80 visinhos com nobreza, o que é extraordinario; verdade é que não sabemos bem onde chegaria então a freguezia de Carnide; que no termo de Carnide se encontram bastantes casas, que podemos chamar pequenas, com seus brazões em porticos e cunhaes, é verdade.

Em 1753 tinha 264 fogos.

Em 1757 » 250 »

Em 1875 » 260 »

Provavelmente a freguezia cedeu alguns fogos para a formação de outra qualquer, ou então houve largo estacionamento.

Actualmente (abril 1898) Carnide pertence ao 3.ᵒ bairro de Lisboa.

Fogos, 337.

Habitantes, 1:737.

Sendo: varões, 1:018; femeas, 719.

Solteiros, 710 varões e 404 femeas.

Casados, 277 varões e 255 femeas.

Viuvos, 31 varões e 57 femeas.

Analphabetos, 432 varões e 353 femeas.

Sabem ler, 6 varões e 18 femeas.

Sabem ler e escrever, 580 varões e 345 femeas.

É preciso lembrar que na freguezia de Carnide está o collegio militar, o que produz as grandes divergencias nos numeros dos solteiros, dos instruidos, etc.

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O sitio é agradavel, de amoravel paizagem, brilhante mesmo nos dias bons; como o terreno é variavel na sua constituição, basaltos, calcareos, argilas, as culturas diversas, e de tons que vão do claro do rebento novo da vinha ao verde intenso do trigo, produzem um matiz onde o olhar repousa sem achar monotonia. Pelas quintas ha arvoredos sombrios, ou compridas latadas e hortejos cuidados, vinhas, searas, geiras de fava ou batata. Trabalha-se, cultiva-se com intensidade, e não sobram os braços porque os salarios dos trabalhadores ruraes são maiores que em outras partes.

A par da quinta antiga com seu palacio e capella ha o _chalet_ moderno, com as suas varias traducções, vivenda, tugurio e não sei que mais. Bom exemplo de casa antiga é o casal do Falcão, com a sua varanda alta, e as suas dependencias; casa mais moderna, do começo do seculo XVIII, talvez, é a da quinta de Santa Martha, ou dos Azulejos, assim chamada por ter forradas de azulejos as paredes que deitam para o jardim, e as escadas, que são exteriores, a varanda, a nora, a parede do tanque, e as paredes dos alegretes altos, tudo em assumptos variados, em grandes quadros, em medalhões, com damas nobres, e archeiros, e deuses mythologicos, e quadrinhos que fazem lembrar o Nicolau Tolentino.

Ao lado da propriedade grande e custosa ha a pequena que o saloio rega com o suor do seu rosto, e com a agua que tira do poço ou do regato com a _cegonha_ ou picota, a grande alavanca que já figura nas esculpturas do Egypto a levantar a agua do Nilo sagrado.

De Carnide-Luz ha estradas para o Campo Grande, Telheiras, Paço do Lumiar, Sete Rios, Bemfica, Odivellas ou da Beja, mais ou menos assombradas, sempre agradaveis, por vezes com grandes vistas. A estrada militar corta grande parte da freguezia, offerecendo sempre largo horizonte.

Eu tenho caminhado por estes sitios e acho adoraveis certas estradinhas discretas, humildes carreteiras bordadas de vallados agora floridos, de madresilvas e congossas, assombradas por oliveiras, olaias, cerejeiras; de vez em quando uma palmeira rompe entre as larangeiras, um cypreste ergue a sua pyramide verde escura.

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Proximo da quinta dos Azulejos está o convento de Santa Thereza de Jesus. Eu ouço repetidas vezes a sineta com um som fraco, lamentoso, chamando á missa ou marcando as horas coraes.

Os sinos de S. Lourenço são vibrantes, mui sonoros; aos domingos tocam musicas festivas que ficam bem na grande e virente paizagem, annunciando o dia de repouso a essa gente que tanto trabalha. Gosto de os ouvir nas Ave-Marias da manhã quando o sol nascente rutila na grande vidraça da egreja do cemiterio dos Arneiros.

A egreja de Santa Thereza é bonita, de linhas sobrias, com uma só nave.

O convento divide-se agora por duas communidades diversas. Uma parte pertence ás freiras portuguezas, senhoras mui virtuosas, e com excellente tradição por estes sitios. Outra parte ás freiras francezas, irmãs de S. José de Cluny. Estas são mais numerosas e teem pupilas e postulantes. Tem escola, e enviam pessoal para as missões africanas. As portuguezas resam no côro de baixo, as francezas no côro de cima.

Todo o tecto da egreja, nave, cruzeiro, capella-mór e côro alto é de pintura antiga, de 1662 provavelmente, com as suas flores e fructos, mascaras e garças, molduras quebradas e grinaldas, grandes espiraes de folhagens, e figuras inteiras de virtudes. É muito lindo.