Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

Part 2

Chapter 23,761 wordsPublic domain

Por entre as tres colunas de huma, e outra parte, que estão sobre os pedestais, se fecha hum arco quasi da mesma altura das colunas, que fica fazendo lugar ao Sacrario (em que sempre está o Sanctissimo Sacramento alumiado com duas alampadas de prata). Do pavimento que fica debaixo deste arco se levantão oito colunas em estylo oitavado, que recebem huma charola alterosa com seu zimborio, que se remata com hum Pelicano polla banda de fóra. Debaixo desta charola se levanta hum throno em forma quadrada com quatro colunas pequenas, que fazem os cantos, com que se forma a primeira peça, na qual se abrem dous nichos, hum pera a parte do Choro, outro pera a Capella; o do Choro tem uma Imagem de nosso Padre S. Domingos, o que fica pera a Capella occupa outra de nossa Senhora de singular estimação por antiguidade, e feitio; he um meio corpo de alabastro, com o braço esquerdo abraça o minino que se sustenta em pé sobre uma almofada, e na mão direita tem hum livro, tudo da mesma pedra. Dá a estas imagens inestimavel valor a antiguidade, que em outras nações, com mais primor, e felicidade, que na nossa, avalia semelhantes obras; porque segundo a certeza que disto ha, e o Bispo tinha, estiverão estas imagens occultas, e sepultadas no muro da Cidade de Tunes, desde o tempo, que os mouros a tomarão aos Christãos, até que o Emperador Carlos Quinto lha ganhou, que então se descobriram, não sem mysteriosa circumstancia, porque batendo a artilharia o muro, e arruinando parte d’elle, cahiram as imagens sem padecer lesão alguma. O Infante Dom Luiz, que n’esta empresa se achou com o soccorro de Portugal, grandiosamente abreviado naquelle celebre galeão de 366 peças, e ajudou a ganhar a victoria, por despojo d’ella escolheo só estas imagens, que despois deu a Dom João de Castro, Avô do Bispo fundador.==

(_Historia de S. Domingos particular do reino e conquistas de Portugal, por fr. Luis de Cacegas, reformada por fr. Luis de Sousa, filho do convento de Bemfica. Ampliada por fr. Antonio da Encarnação._ Lisboa, 1866; 2.ᵃ parte do 3.ᵒ vol., pag. 198).

Quantas recordações nobilissimas nesta capella! Agora a elegante construcção está ameaçando ruina. Parece-me todavia facil acudir-lhe. A frontaria desligou-se um pouco do corpo do edificio, entra agua de chuva pela fenda produzida pelo desvio. Alguns annos de desleixo e a ruina será enorme, o concerto dispendioso. Dizem-me que esta capella está na posse de um particular, ha tempos ausente de Portugal. E não sei se ainda ha culto ahi; essa parte do edificio está habitada por uma congregação feminina, estrangeira; nada dizem, respondem sempre que não sabem da chave.

Fr. Vicente de Lisboa

D. João 1.ᵒ cedeu a Casa real de Bemfica a fr. Vicente de Lisboa para estabelecimento do instituto dominicano, em 1399.

Este fr. Vicente era provincial da sua ordem em Castella e Portugal, inquisidor geral de Hespanha, confessor e prégador de D. João 1.ᵒ Foi com certeza um vulto importante. Barbosa Machado, na Bibliotheca Lusitana falla delle, firmando-se no epitaphio que primitivamente marcava o logar de repouso das suas reliquias.

Ahi se _lia per illum_ (fr. Vicente) _in hac civitate_ (Lisboa) _et in diversis hujus regni partibus, destructa fuerunt opera diaboli et haereses erroresque, atque idolatriae._ _Edidit etiam varios libros excellentis doctrinae._

Barbosa Machado diz que não conseguiu vêr nenhum de taes livros. Mas sabe pelo epitaphio que elle combateu as crendices populares, as superstições viciosas, as praticas pagans observadas ainda no seu tempo pela gente rude. É tarefa antiga esta de combater tradições, bruxarias, costumeiras, que hoje fazem as delicias dos folqueloristas. Ainda não vi tambem livro que se possa attribuir a fr. Vicente de Lisboa; mas não se perde a esperança. É bem possivel que nalguma antiga collecção de sermões se contenham os do prégador de D. João 1.ᵒ Na livraria do infante D. Fernando havia um volume assim designado==_Item, hum livro de pregações de frey Vicente per lingoagem_. (T. Braga, _Historia da Universidade de Coimbra_, 1.ᵒ pag. 229).

Muitas obras que se julgavam perdidas teem surgido nos ultimos annos. Os tratados de alveitaria e citraria (este incompleto) de mestre Giraldo existem na Bibliotheca Nacional, assim como uma copia antiga do _Livro de Montaria de D. João 1.ᵒ_ O tratado da phisionomia, _Opus de physiognomia_, de mestre Rolando, está na Bibliotheca da Ajuda. Nos Documentos historicos da cidade de Evora dei noticia e grandes extractos dos tratados medicos, da idade media, existentes na livraria d’aquella cidade.

O sr. Leite de Vasconcellos, o nosso grande investigador, foi descobrir em Vienna, uma versão portugueza das fabulas de Esopo, que já publicou na Revista Lusitana.

Por isto não perco a esperança de ver ainda um dia alguma obra de fr. Vicente de Lisboa.

Fr. Bartholomeu dos Martyres

Uma parte do convento que olha para norte está bastante arruinada; eram ahi os dormitorios do noviciado; as janellas das humildes cellas deitam para a cerca; a vista dilata-se por aquelles campos e collinas verdejantes de Bemfica, jardins, frescos hortejos, copados arvoredos. Uma d’essas pequeninas janellas é a do quarto que por muitos annos foi habitado por um homem dos raros, dos mais raros, que tem havido em Portugal, fr. Bartholomeu dos Martyres.

Foi aqui professor muitos annos.

Primeiramente esteve, ensinando já, no convento da Batalha.

Passou ao convento de Evora porque o infante D. Luiz, desejando fazer grande lettrado seu filho o sr. D. Antonio, depois prior do Crato, infeliz rei e exilado, instou e conseguiu que fr. Bartholomeu fosse ler theologia nos dominicanos de Evora; ahi conheceu fr. Luiz de Granada, outro raro. Permaneceu em Evora alguns annos; obrigaram-no então a vir ser prior de S. Domingos de Bemfica, que era o grande noviciado de Portugal. Vivia muito pobremente, sem a minima ostentação; amigo do Convento e mais amigo da cella; dormindo pouco, comendo pouco. Enthusiasta professor estava sempre prompto a ensinar; lia aos noviços disciplinas superiores, mas se via necessidade fazia cursos d’artes elementares, aos rapazes; fazia praticas numa capella da egreja. Era um eloquente, como fr. Luiz de Granada; e ás vezes arrastado pelo calor da palavra, enthusiasmava-se, e enthusiasmava o auditorio; uma vez terminou a pratica chorando elle e todos os ouvintes.

Gostava de passear na cerca, e estava muitas vezes á janella da sua pobre cella; os noviços ouviam-no cantarolar a meia voz, tomando o ar, encostado ao peitoril da janella que dá para o campo.

As visitas contrariavam-no um pouco, o cardeal D. Henrique, o infante D. Luiz frequentavam o convento; um dia instaram com elle para que acceitasse a mitra de Braga. Do tranquillo cantinho de S. Domingos de Bemfica para o paço archi-episcopal de Braga!

Largar o convento, as aulas, a cêrca, a sua cella tão boa para o estudo! Não queria, não queria! Foi a rainha D. Catharina que o mandou; elle então obedeceu. Foi sempre um altruista, espirito cheio de abnegação. Preparou-se para a partida, teve de deixar por algum tempo Bemfica; mas antes de partir definitivamente para Braga foi passar um dia a S. Domingos, ao querido sitio de Bemfica, foi despedir-se da egreja, das aulas, da sua tranquilla cella, das arcadas silenciosas do claustro, da fonte da horta, das arvores, das flores.

E foi para Braga, para aquellas extranhas missões das montanhas minhotas, e para as solemnes discussões do concilio de Trento.

Era por indole um professor, gostava de ensinar. Tanto que se viu livre da mitra primacial elle ahi vae para o seu retiro de Vianna do Lima, ensinar rapazes; nos seus passeios pelos campos o bom velhinho, ás vezes, assentado a repousar, doutrinava os humildes pastores. Que esta raça portugueza em tempos antigos produziu mestres em sciencias e lettras que illuminaram universidades em Hespanha, Italia e França. Merece ainda attenção este homem no ponto de vista da hygiene em geral; pelo seu regime de vida, habitos e predilecções. Usava fazer grandes passeios a pé, era sóbrio, de bom humor. Lendo hygienistas modernos, Gautier (Armand--_L’alimentation et les regimes chez l’homme sain et chez les malades_) por exemplo, encontram-se conselhos para a vida dos intellectuaes, que lembram logo o methodo de vida de fr. Bartholomeu dos Martyres.

D. Isabel Maria

A infanta D. Isabel Maria residiu bastantes annos na sua casa de S. Domingos de Bemfica. Velhinha, adoentada nos ultimos tempos, cheia de recordações, por alli passeava morosamente sob as magnolias e os cedros. A quinta está contigua á cerca do convento.

O palacio parece que foi construido em tempo de um certo Devisme negociante e capitalista, grande amigo do marquez de Pombal, que tambem se importava de politica, tendo altas relações no estrangeiro, ahi pelo meio do seculo XVIII. As estatuas de marmore que ornam o jardim são d’essa época, mas o desenho, a disposição foi alterada. No palacio houve mudanças e ainda nos ultimos annos foi ampliado; está installado alli o bem afamado collegio de Jesus, Maria, José; grande numero das senhoras da fina sociedade actual passou por esse estabelecimento de educação.

Depois de Devisme pertenceu a bella propriedade á casa dos marquezes de Abrantes, illustre familia. Por morte do ultimo marquez, em 1847, foi comprada pela infanta D. Isabel Maria filha de D. João VI, e de D. Carlota Joaquina. Nasceu a infanta em 4 de julho de 1801, e falleceu a 22 de abril de 1876, pelas 3 horas da tarde.

Interessante figura; vida que em grande parte decorreu entre agitações politicas e palacianas; presidente da junta de regencia, em 6 de março de 1826, ficando de parte a rainha D. Carlota, por occasião da enfermidade de D. João VI, e por morte d’este, regente em nome de D. Pedro IV, até ao celebre dia 22 de fevereiro de 1828, em que depoz o governo nas mãos de D. Miguel. Foram um horror esses tempos de paixões violentas, de conspirações politicas, que não paravam no vestibulo do paço, e até de lá partiam, pois conspiradora foi sempre a mal aventurada D. Carlota Joaquina.

Devia ser curioso este sitio de S. Domingos de Bemfica nessa longa crise politica dos primeiros decennios do século passado, porque os Fronteiras, os Mascarenhas, entraram na tentativa de 1805, e continuaram até á ultima no liberalismo; os da casa d’Abrantes e os dominicanos inclinavam-se ao absolutismo.

Mas a infanta que no Paço viu as discordias insensatas entre pae e mãe, e na politica encontrou o tumulto entre exaltadas individualidades, entre partidos raivosos, conseguiu equilibrar-se desempenhando com superioridade o melindroso cargo de regente.

Crescendo a idade retirou-se, cada vez mais; por fim metteu-se no seu ninho de S. Domingos, nas sombras abrigadas e aromaticas das suas magnolias.

Palacio e jardim Fronteira

Entre as mais notaveis vivendas destes sitios de Bemfica sobresae o palacio Fronteira com os seus lindos jardins e fresco hortejo, singulares obras d’arte e historicas recordações.

Dizem que o primeiro marquez de Fronteira, D. João Mascarenhas, mandou fazer na sua propriedade um pavilhão de caça para receber a visita del-rei D. Pedro II, e esse foi o núcleo do palacio: isto pelos annos de 1670 a 1681. Antes certamente havia outras construcções porque a elegante capella é de 1584. O terremoto de 1755 arruinou o palacio de Lisboa; foi a familia Fronteira residir para Bemfica, e então ampliaram o tal pavilhão formando-se o palacio actual. O grande jardim, a monumental galeria e cascata, devem ser do fim do século XVII, com grande influencia do estylo italiano.

Os azulejos da magnifica sala do pavilhão referem-se á batalha do Ameixial. É pena não se conhecer bem a formação d’esta vivenda porque se póde affirmar notavelmente conservada, exemplo rarissimo em Portugal.

O jardim é um enlevo, no genero antigo, com as suas estatuas, fontes artisticas, grande peça d’agua, grutas, escadarias, varandas de balaustrada, elegantes pavilhões.

Muito regular, taboleiros geometricos e symetricos, com ruas e travessas, e pequenas praças, sendo maior a central onde se ergue artistica fonte de taça alta, ostentando em pinaculo os escudos dos Mascarenhas.

A poente a fachada do palacio, a sul a galeria dos reis; norte e nascente moldura ou parede de arvoredos, com vista para o campo; compridos assentos azulejados.

Ha estatuas no jardim, na parede do tanque, dentro do tanque, na varanda da galeria, em nichos, nos vertices dos pavilhões!

Entre matizes de flores e aromas riem faunos, dançam nymphas, os deuses teem sorrisos benevolentes.

Brilha ao sol o paganismo.

Na gruta maior que abre para o tanque está o Parnaso, um monte com o Pégaso alado e galopante, e em roda, a variadas alturas, Apollo e as Musas, estatuetas em fino marmore.

Na parede da galeria quadros de azulejo com figuras de cavalleiros, doze na frente, dois nos lados, os cavallos a galope, parecendo que vão entrar em renhido torneio.

Á esquerda, olhando para a galeria, ha muitos retratos, em azulejo, dos Mascarenhas, condes de Obidos, Torre, Santa Cruz, marquezes de Fronteira; á direita, fronteando os retratos, estão representados os brazões.

Na galeria em nichos forrados de azulejos hespanhoes, de reflexo metallico, uns acobreados, alguns de tom azul, bustos dos reis de Portugal, entrando o conde D. Henrique, e o infante D. Fernando o santo. Os ultimos bustos d’esta galeria, os de Affonso VI e Pedro II, são os de melhor trabalho. Uma porta communica para o jardim alto ou moderno; segue a segunda galeria dos reis, D. João V, D. José, D. Maria I e D. João VI. Sobre a porta entre as galerias um busto do imperador Tiberio, talvez copia de busto authentico.

Estatuas mythologicas, faunos prasenteiros, gentis nymphas dançantes, ornam plinthos no jardim, e as balaustradas. Azulejos estranhos, hespanhoes e hollandezes, fazem rodapés, representando scenas familiares, caçadas, episodios agricolas.

Embrechados finos de buzios e conchas, fragmentos de louças orientaes, vidros pretos, cristaes de rocha, bocados de escorias, em complicados desenhos, forram paredes das cascatas. N’uma grande parede do jardim molduras e ornatos em faiança, folhagens, flores e fructos no genero chamado dos Della Robia.

Neptuno e o seu cortejo, em grande quadro de azulejo; outro em relevo de alvenaria infelizmente em grande estrago, cumprimentam um rio, o Tejo, provavelmente.

Num quadro de azulejo o ratão do artista representou Jupiter, e pintou ao lado o nome assim: _Ghvptre_.

No jardim moderno, entre fetos magnificos e grande collecção de camelias, ha uma fonte central, de taça, com a estatua de Venus. O pé da taça é um grupo de golphinhos lavrado num lindo bocado de marmore com laivos avermelhados.

Dizem que a esta Venus se refére Tolentino na satyra intitulada _A funcção_.

Musa basta de rimar ................... ................... ... sincera velha Pondo contra a luz a mão E crendo que nesta rua Está São Sebastião De Venus á estatua nua Faz mesura e oração.

É bem interessante a historia dos jardins; conhecem-se exemplos do Egypto, da Assyria; celebres entre os romanos os de Plinio e de Sallustio, ornamentados de terraços, fontes, estatuas.

Cultivavam rosas, lyrios, violetas, malvas, algumas arvores e arbustos cortados e aparados em feitios caprichosos, como o louro e o buxo; estimavam muito o esguio cypreste, e a vinha como planta decorativa.

E neste ponto tinham muita razão porque a parreira faz lindo ornato, com mudança de tons, gracilidade de curvas, além do encanto do cacho, quer se applique a edificios ou se enrosque em arvores.

Mas os jardins conservaram-se regulares e symetricos durante seculos.

O jardim irregular, de imprevistos, o jardim-paisagem é mais moderno.

Ha muitos livros sobre jardins e construcções architectonicas especiaes, fontes, repuxos e grandes jogos d’agua, cascatas, terraços, caramanchões e pavilhões. Merece ver-se o livro de Alicia Amherst, intitulado: _A history of gardening_ (London, 1896), e _L’art des jardins_ por Jorge Riat, que faz parte da Bibliothèque d’Enseignement des Beaux-Arts; qualquer d’estes livros indica sufficiente bibliographia.

Em Portugal ha bonitos jardins modernos e ainda alguns antigos conservando os seus engenhosos desenhos; a invasão moderna de plantas exoticas prejudica bastante o jardim antigo, araucarias e chamerops não harmonisam bem nas combinações geometricas e symetricas, não podem substituir as cevadilhas, as balaustras, de pequeno porte, de brilhante folhagem e vistosa florescencia. Uma alta araucaria pyramidal destoa nos bordados jardins de Caxias e Queluz. Arvores variadas, exoticas ou naturaes, empregavam-se em fazer parede ou moldura de jardins, em alamedas de horta ou laranjal.

No Diccionario dos Architectos, vasto trabalho do sr. Sousa Viterbo, por vezes apparecem architectos encarregados de obras em jardins, o que não admira porque todos os jardins antigos tinham obras d’arte importantes, terraços, escadarias, balaustradas, cascatas enormes e complicadas, com jogos d’agua, pavilhões, etc. (Dicc. dos Architectos, vol. 1.ᵒ, pag. 62 e 395; 2.ᵒ, pag. 350 e 379).

Póde dizer-se que o jardim antigo é principalmente architectonico, e que o moderno é filho da pintura.

Na Bibliotheca Nacional de Lisboa, a respeito de jardins ha livros antigos notaveis, especiaes; e tambem em obras que não tratam de cultura ou architectura dos jardins por incidente se topam vistas e desenhos interessantes.

Um certo in-folio grande, impresso em Roma, adornado com boas gravuras, e o titulo _Villa Pamphilia ejusque palatium cum suis prospectibus, statuae, fontes, vivaria, theatro, areolae, plantarum viarumque ordines_ apresenta-nos grande numero de estatuas proprias para jardim e minuciosos desenhos dos terreiros ajardinados, que parecem imitar salvas de prata repoussée; sem uma arvore saliente; arbustos talhados, não muito altos, ornam os extremos. Era o jardim italiano, classico.

Numa obra de numismatica _I Cesari in metallo raccolti nel_ MUSEU FARNESE, por Pietro Piovene (Parma, 1727), ha lindas gravuras com muitos aspectos e detalhes dos jardins da Villa Madama, e do Palazzo di Caprarola (no tomo 1.ᵒ), mostrando bem a magnificencia, a nobreza d’essas bellas vivendas italianas.

Um allemão, _Hirschfeld_, escreveu uma vasta obra, de que ha versão franceza, em 4 volumes, _Theorie de l’art des jardins_ (Leipzig, 1779-1783).

É trabalho notavel: trata dos jardins em varios pontos de vista, da sua historia e da historia das plantas, do aproveitamento das arvores segundo o seu effeito ou aspecto, das combinações, dos planos differentes. No 4.ᵒ volume vi a noticia de Guilherme Kent o criador da arte dos jardins em Inglaterra; era pintor e architecto. Descreve os trabalhos de Le Notre, grande jardineiro francez. N’isto de jardins ha escólas, muito bem definidas. Foi economica, principalmente, a razão porque a escóla de Kent venceu a de Le Notre; o jardim á antiga era de grande custeio; para se conservar bem era preciso trabalhar constantemente. Só admittia flores finas, raras; na Hollanda o enthusiasmo pela tulipa, a tulipomania, attingiu excessos. Kent introduzindo arvores e arbustos fez grande economia. Ha o jardim agradavel, o risonho, o majestoso, o romanesco; o jardim fidalgo, o burguez, o campestre, o publico, o academico, o monastico, finalmente o funebre.

O tal allemão chega mesmo a projectar jardim para de manhã, do meio dia, e da tarde; jardins para effeitos crepusculares. A cultura e a disposição do jardim variam com os climas, e com a abundancia das aguas.

É impossivel imitar nos paizes frios os jardins de Hespanha ou de Italia; querer implantar nos paizes do sul os arrelvados inglezes é arrojado. A relva nada custa em Inglaterra, e em Portugal a murta, o lirio, o cravo e a rosa não precisam cuidados.

A leitura do Hirschfeld, me parece, é ainda hoje util a quem deseje tratar de jardins publicos ou particulares.

Porque ha uma esthetica de jardins, e tambem merece attenção a questão economica. Em Portugal, por exemplo, não se usa da laranjeira ou da vinha em jardins; e estão os jardins cheios de palmeiras monotonas. Vê-se gastar muito dinheiro para ter bocadinhos de arrelvado, que o sol de verão cresta numa hora.

Vêmos formar talhões com uma só essencia, o que parece esthetica de hortelão, quando as alamedas ou avenidas são muito mais pittorescas e vistosas variando a qualidade das arvores.

O jardim publico de Evora tem effeitos bonitos; foi planeado e plantado pelo scenographo Cinatti, que calculou os aspectos que arbustos e arvores dariam quando desenvolvidos. Infelizmente depois não seguiram, completamente, as indicações do artista; todavia ainda é manifesto o fino criterio que presidiu á disposição do arvoredo.

_Il reale giardino di Boboli nella sua pianta e nelle sue statue_ com o _Alticchiero_ (Padua, 1787) é livro pouco vulgar.

Muitas estampas finamente gravadas mostram os planos, os aspectos, e principalmente as estatuas.

O jardim Boboli, em Florença, tinha amphitheatro, casino, palacetes, jardim botanico, o pequeno jardim de Madama, o dos ananazes, o da ilha, o da fortaleza, e a grande pesqueira de Neptuno. No jardim de Oeiras havia tambem pesqueira; até ahi pescou á canna a rainha D. Maria I, na famosa visita que lá fez, no tempo do segundo marquez de Pombal.

Neste jardim Fronteira as tropas miguelistas em 1833 entraram sanhosas, todavia parece que o estrago não foi consideravel. Diz-se tambem que se tratou aqui da formação da Arcadia Lusitana, que os tres poetas Antonio Diniz da Cruz e Silva, Theotonio Gomes de Carvalho, e Manoel Nicolau Esteves Negrão por estes caramachões de rosas e jasmins discutiram as bases da famosa academia litteraria. O snr. Theophilo Braga (pag. 180 de _A Arcadia Lusitana_) conta que os tres poetas se reuniam em Bemfica; mas ha tradição de que era na quinta dos Fronteiras que elles frequentavam, e de que mesmo um d’elles perto morava.

José Maria da Costa e Silva, no seu poema _O Passeio_, diz que em Portugal se chamavam jardins de D. João de Castro, aos irregulares, por ter sido o famoso heroe o primeiro que os plantou na Europa:

Vêde Castro, o terror dos reis do Oriente ..................................... E o primeiro mostrar d’Europa ás gentes Dos chinezes jardins a variedade.

Em outra parte escreve:

Dos chinezes jardins chistoso typo!

A marqueza d’Alorna

Um nome de grande dama portuguesa se liga á residencia Fronteira; aqui viveu por algum tempo _Alcipe_, nome arcadico de D. Leonor de Almeida Portugal Lorena e Lencastre, condessa de Oyenhausen e marqueza de Alorna (n. 1750--m. 1839).

Mas por poucos annos. Ella esteve, menina e moça, reclusa no mosteiro de Chellas, viveu em Vienna, em Paris, em Londres, por esse mundo fóra, sempre superior dama portuguesa, de altaneira mente; depois em Portugal ora na sua quinta de Almeirim, ora na de Almada; por muitos annos na hospitaleira e fidalga casa a Santa Izabel.

Pousou em Bemfica, é verdade, em annos de aspera lucta pelo nome de sua casa; e, verdade é tambem, lá vi, na galeria envidraçada que olha para o jardim, memorias, retratos, lembranças familiares, d’essa extraordinaria senhora.

Que existencia tão rodeada de surprezas tragicas, cheia de duradouras inquietações, a d’esta nobilissima dama portuguesa, que soube responder á sorte rude com santas idéas, corajosos trabalhos, e composições de serena poesia. Parece que n’esses poucos annos que passou na vivenda de Bemfica foi que ella conheceu um moço de aspecto um tanto agreste, de firme vontade, espirito altivo, intelligencia clara, que se chamou Alexandre Herculano; muitos annos volvidos, a marqueza teve vida longa, viu ella com ineffavel prazer, o moço estudioso e attento desenvolvido no collossal escriptor.

É adoravel o que Herculano escreveu a respeito da marqueza, poucos annos depois da morte d’ella.

Vou apresentar alguns extractos d’esse notavel artigo publicado no _Panorama_, de 1844.