Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

Part 1

Chapter 13,739 wordsPublic domain

GABRIEL PEREIRA

PELOS SUBURBIOS E VISINHANÇAS DE LISBOA

LISBOA

LIVRARIA CLASSICA EDITORA

DE A. M. TEIXEIRA & C.ᵗᵃ

20, PRAÇA DOS RESTAURADORES, 20

1910

_Porto--Imp. Portugueza--Rua Formosa, 112_

S. Domingos de Bemfica

(1905)

Na falda norte da serra de Monsanto está o logar de S. Domingos de Bemfica; um antigo mosteiro em parte abandonado, rodeado de quintas fidalgas com seus palacios, jardins, cascatas e alamedas de secular arvoredo; e uma pinha de pequeninos predios antigos a entestar com o maninho da serra.

O nome de Monsanto feriu-me a attenção e procurei se por aquelles sitios haveria vestigios de templo ou edificio de remota antiguidade, tão raros no aro da capital. No meu segundo passeio deparei um grande marmore lavrado, provavelmente parte superior de uma ara romana, encostado á parede da quinta do sr. marquez de Fronteira.

Ha duvidas todavia sobre a proveniencia da pedra; julga-se não ter sido encontrada alli, sim na Ribeira velha, no antigo palacio Fronteira, por occasião de certas obras; e removida para Bemfica ha uns 40 annos.

O achado incitou-me a continuar na indagação, e num pittoresco retiro agora mal tratado da cerca monastica fui encontrar uma estatua que parece de arte romana; é na fonte do satyro, que fr. Luis de Sousa descreve na chronica do seu convento.

O celebre dominicano já conheceu a estatua e a fonte na disposição actual; lá estão ainda as cinco ardosias, duas quadradas e tres ellipticas, com o lettreiro latino, que elle tambem menciona.

Póde affirmar-se que o logar está qual estava então, apenas descurado. Ora os estragos que a estatua apresenta não teem explicação facil na posição actual. O satyro nada tem da rudeza gothica, nem das imitações classicas da renascença. O rosto apesar de muito gasto ainda tem singular expressão de alegria; segurava nas mãos uma taça ou urna que depois mutilaram para collocar uma torneira. Na cabeça e nas coxas grandes madeixas ondeadas; os musculos bem estudados nos hombros e braços. Parece uma estatua romana.

Junto da fonte estão avulsas algumas pedras lavradas, dois fechos de abobada com a esphera de D. Manuel e a cruz de Christo, parte de um friso e dois pelouros medianos.

É um encanto aquelle sitio de S. Domingos; o terreiro com seu antigo arvoredo dispõe bem o visitante da egreja, uma pobre egreja que é um ninho de recordações portuguezas.

Entrando, á esquerda, o sarcophago de «Vasco Martins da Albergaria, cavalleiro fidalgo da casa do sr. infante D. Henrique e seu camareiro mór, filho de Affonso Lopes da Albergaria, o qual passou da vida deste mundo das feridas que houve na tomada e no descerco de Ceuta aos... dias do mez de dezembro da era de Jesus Christo, de 1436 annos».

É um pequeno sarcophago de tampa alta; o letreiro na facha anterior da tampa e da arca. No meio o brazão com a cruz de Aviz sanguinha, aberta e floreteada, com oito escudetes azues das quinas reaes. Aos lados do escudo uma fita em relevo onde se lê a divisa _porêm vede bem_.

Á direita o tumulo de João das Regras, encimado pela estatua onde evidentemente o esculptor quiz reproduzir o aspecto do famoso jurisconsulto. Tem barrete e habito de lettrado; a gola larga segura por tres botões. Na mão direita sobre o peito segura um livro. Os cabellos um tanto ondeados cahindo sobre a fronte. Á esquerda da figura a espada com o cinturão enrolado. A espada está tratada com minucia, o punho lavrado em linhas, o extremo com sua flor; é uma espada direita, larga, curta. O cinto é lavrado tambem de flores, tendo bem definidas a fivella e a ponteira.

Aquella estatua é um documento precioso de indumentaria.

O tumulo tem inscripção, escudos; assenta sobre quatro leões de marmore. Não é este o unico varão illustre cujo nome se encontra no mosteiro; fr. Vicente (1401), outro amigo do mestre de Aviz, e Diogo Gonçalves Belliago (1410) teem alli as suas inscripções sepulcraes, assim como fr. Arnáo (1502).

Na capella de S. Gonçalo de Amarante ha algumas estatuas em marmore de Carrara, de valor artistico.

O sacrario é de madeira entalhada, de grande elegancia, principalmente no corpo superior.

Bons azulejos vestem as paredes, assignados por Antonio de Oliveira Bernardes.

No cruzeiro jazem muitas pessoas distinctas, principalmente da casa Fronteira e Alorna; o ultimo que alli foi repousar o célebre D. Carlos de Mascarenhas, fallecido em maio de 1861.

Na escura passagem do cruzeiro para a sacristia uma campa singelissima com um nome que illumina os espiritos, fr. Luis de Sousa.

E no claustro proximo, muito tranquillo e fresco, convidando a serena meditação, a capella e o jazigo de D. João de Castro.

É um grupo incomparavel de recordações portuguezas.

* * * * *

Isto escrevi eu na _Revista Archeologica_ de Borges de Figueiredo (vol. 3.ᵒ, de 1889, pag. 99). Querido amigo! Infeliz espirito, tão maltratado na lucta da vida!

Era archeologo, latinista e epigraphista de alto merecimento. Corpo enfermiço, franzino, tez pallida, mortiço o olhar, fraca a vista; bella intelligencia cultivada, com solida erudição e fina critica. Os seus ultimos tempos foram de doença e desgosto. Por tres vezes, se bem me recordo, visitámos juntos o sitio de S. Domingos de Bemfica; elle levava sempre a filha, nos seus passeios; uma menina delicada, debil no aspecto, cheia de meiguice. Eram inseparaveis, ella queria estar sempre junto, bem junto do pae. O meu pobre amigo falleceu na manhan de 15 d’outubro de 1890; tinha feito na vespera 37 annos. Foi professor na Escola Rodrigues Sampaio, por algum tempo ensinou num collegio particular; durante annos foi laborioso bibliothecario da Sociedade de Geographia. Escreveu livros muito apreciaveis; _Coimbra antiga e moderna, O Mosteiro de Odivellas, a Geographia dos Lusiadas_; em todos os seus trabalhos se revéla bem o espirito de investigação, e a sã critica historica. Parecia impossivel aquella actividade em tão fraco organismo. Na _Revista Archeologica_ deixou entre varios trabalhos bons, um de alta importancia sobre as inscripções em verso leonino em Portugal. A filha morreu um mez depois do pae; não soffreu aquella ausencia, finou-se a pobre creança debil, asphyxiada de morte pela saudade amarga.

* * * * *

Quantas mudanças na egreja de S. Domingos de Bemfica fez depois o bem intencionado architecto Nepomuceno! A urna do Albergaria foi para o ante-côro sombrio, para cima de duas misulas ou cachorros, á maneira de deposito de agua para não visto lavabo. O tumulo de João das Regras foi para o meio do côro, onde está bem para ser visto. A estatua jacente do insigne doutor soffreu concerto, a mão direita aperta um livro sobre o peito; a esquerda tinha desapparecido. Segundo a chronica cahia sobre o coração, como se elle estivesse orando. Nepomuceno mandou fazer a mão que faltava, erguida, segurando um papel enrolado. E parece agora que o inclito doutor está indeciso entre o livro e o rolo de papel.

* * * * *

Ha pouco tempo, já depois da obra a que se procedeu, visitei a egreja tomando notas mais minuciosas.

* * * * *

No cruzeiro da egreja ha inscripções sepulcraes de interesse historico. Na parede entre o arco da capella mór e a porta da sacristia estão dois letreiros; o superior menciona Fr. Vicente, da ordem dos prégadores, fundador, fallecido em 1401; foi prégador de D. João 1.ᵒ e autor de muitos livros.

Sob este está==Fr. Diogo Gonçalves Belliagua, frade da mesma ordem, primeiro povoador do mosteiro, isto é, o primeiro que residiu aqui, fallecido em 31 de agosto de 1410.

Estes letreiros são relativamente modernos; na Chronica se podem ver as inscripções primitivas.

Á direita da capella mór, na parede, está a==Sepultura de fr. Arnáo, da mesma ordem, fallecido em 2 de maio de 1502.

Proxima a lapide de==D. Carlos de Mascarenhas, segundo filho dos 6.ᵒˢ marquezes de Fronteira. N. em 1 d’abril de 1803. F. em 3 de maio de 1861.

A seguir==D. Maria Constança da Camara, marqueza de Fronteira e de Alorna. N. em 14 de julho de 1801. F. em 11 de setembro de 1860.

No chão está a campa da==Marqueza de Fronteira D. Helena Josefa de Lencastre. F. em 14 de março de 1763.

Perto==O sargento maior Manuel Carrião de Castanheda, cavalleiro da ordem de Christo, f. em 22 de dezembro de 1676, e sua mulher D. Sebastiana Dias Fialha.

==S. de Diogo Antunes. 1662.

==S. de Maria Coelha.

==D. G.ᵒ Velozo d’Araujo, cavalleiro fidalgo da Casa delrei N. S. e de sua molher Joanna de Bulhão, f. a 3 de março de 1603.

==S.ᵃ de João Velho Lobo... Travassos... Algumas destas campas estão incompletas, ou gastas.

Na capella do Senhor Jesus, esquerda do cruzeiro, está uma pedra com brazão; diz-nos que o instituidor foi Antonio de Freitas da Silva, fidalgo, etc., com sua mulher D. Jeronima Paes d’Azevedo, em 1677.

No corpo da egreja, segunda capella á esquerda==Capella de Enrique Mendes de la Penha, fidalgo de solar conhecido, e a comprou sua filha D. Lionor Enriques, viuva de Luis Pereira de Carvalho, em 1663.==Tem brazão.

Olhando para a capella mór, a porta á nossa esquerda abre para uma passagem que serve o côro e a sacristia, o ante-côro. Ahi, no chão, proximo dos degraos que levam ao côro, está uma campa singela.

_Aqui jaz frei Luiz de Souza. nasceu em 1553 morreu em 1632_

a seguir, na mesma campa:

Mandou collocar esta lapida o padre Joaquim Pinto de Campos natural de Pernambuco (Brazil) aos 4 de junho de 1878.

Na mesma sombria casa de passagem, ou ante-côro, na parede, sobre duas misulas, vê-se uma urna brazonada. Estava antes da ultima obra, á esquerda da porta d’entrada; agora alta como está, e na casa quasi sem luz, é difficil lêr o letreiro.

Desdobrando as abreviaturas, diz: Aqui jaz Vasco Martins da Albregaria cavalleiro fidalgo da casa do sr. infante dom Anrique e seu camareiro moor filho de A.ᵒ Lopes da Albregaria o qual passou da vida deste mundo das feridas que houve na tomada e no descerco de Cepta aos... dias do mez de dezembro da era de J. C. de 1436 annos.

Além do escudo dos Albergarias, conforme o que vem no Thesouro da Nobreza, tem escudos com sua divisa que me parece ler _Porém vêde bem_.

A meio do côro está o tumulo de João das Regras; o letreiro occupa o friso da caixa.

==Aqi: jaz: joan: daregas: cavaleiro: doutor: em: leis: privado: delrei: dom: joan: fundador: deste: moesteiro: finou: III: dias: de: maio: era: M: IIIIᶜ: XL: II: ans:==É um lettreiro, em gothico, bem lavrado; as palavras todas divididas por dois pontos.

* * * * *

Na parede exterior da casa que ora serve á irmandade da S.ᵃ do Rosario está cravada uma pedra com a inscripção:

Esta sanchristia man darão fazer os irmãos de Nossa Sra do Rozario a sua custa p.ᵃ a fabrica da sua irm.ᵈᵉ em maio de 1680.

Na sacristia uma grande campa sem lettras, com o brazão da casa de Bellas, isto é, quatro flores de liz nos angulos de uma cruz.

O Thesouro da Nobreza descreve assim o brazão dos Correias de Bellas==em campo vermelho uma cruz de oiro firmada no escudo entre quatro flores de liz do mesmo metal.

No côro ha duas grandes campas sem brazões nem letreiros; diz a Chronica que está alli o carneiro ou deposito funéreo dos Botelhos.

No cruzeiro, á direita, ao canto, ha uma porta encimada por um brazão; abre para a capellinha onde está a imagem do Senhor Jesus dos Passos. Mas o pequeno e rico edificio é dedicado a S. Gonçalo de Amarante. Uma inscripção latina declara que em 1685 o bispo fr. Manuel Pereira mandou fazer a capella. É de muito e apurado trabalho, em lindos marmores. Estatuetas de finissimo Carrara povoam os nichos. Preside S. Gonçalo de Amarante tendo aos lados a S.ᵃ do Rosario, S. José, S.ᵃ Appollonia, S. Thereza, S. João de Deus, S. Felippe, S. Domingos e S. Thomaz d’Aquino.

As columnas salomonicas aos lados de S. Gonçalo são de pedra fina da Arrabida de um trabalho apuradissimo.

Parecem-me de origem italiana estas lindas estatuetas em marmore de Carrara, delicadamente esculpidas, com a maneira usada na época.

O satyro da fonte de S. Domingos de Bemfica

A estatua do satyro conserva-se na situação em que fr. Luis de Sousa a conheceu.

Entrando no claustro d’aquelle extraordinario convento de S. Domingos de Bemfica, toma-se a porta, ao canto, que diz para a fonte e horta. Desce-se uma breve escada, entra-se n’um pequeno recinto, com assentos de pedra; ao fundo a fonte rasteira; lá está o satyro e uns pedaços de marmore com um verso latino. O muro que separa a horta do recinto da fonte é mais recente.

Felizmente eu tirei o desenho do satyro ha tempos; modernamente houve obras no edificio, e um alvanéo mais gracioso divertiu-se a lançar cal sobre a pobre estatua.

Eu estou convencido que este satyro é romano. Fr. Luis de Sousa já o conheceu assim, n’aquella posição; ora em tal posição a estatua não podia estragar-se da maneira que se vê; a superficie está desigual; ha pontos em que se conserva o primitivo estado, na parte superior do peito, nas madeixas das coxas; em outros sitios a superficie está gasta, frusta, ou por longo attrito ou por inhumação prolongada. As mãos foram arruinadas por causa da adaptação de torneiras, obra provavel dos frades; porque primitivamente a agua não sahia de taça ou urna que o satyro tivesse nas mãos; sahia do outro sitio; a estatua é pagan e bem pagan.

Apesar de frusta ainda a physionomia é notavel, e é bem propria a phrase de fr. Luis de Sousa, _simplicidade montanheza_; ha estatuas de Pan com aquella attitude e expressão.

Trabalho da renascença não me parece, nem estaria assim estragado em tempo do celebre chronista; gothico, romanico, impossivel; nunca trabalharam assim em taes tempos. Porque a estatua tem expressão, ha observação anatomica nos musculos, nos hombros, as claviculas bem marcadas, as madeixas elegantes.

É por isso que me convenço que a estatua é romana.

Ha mais antiguidades romanas alli pelos sitios, e o nome Monsanto chama logo a attenção.

Naturalmente os dominicanos encontraram, por acaso, a estatua e aproveitaram-n’a para a sua fonte; e assim a salvaram.

Que interessante e mimosa a descripção que fr. Luis de Sousa escreveu da fonte do satyro! Vem na Historia de S. Domingos (2.ᵃ parte, livro 2.ᵒ, cap. 1.ᵒ--Do principio e fundação do real convento de Bemfica). Diz assim:

* * * * *

==Passado o claustro, quem busca a horta do convento, dá poucos passos em uma praça empedrada, que ficando na parte mais alta, e como a meia ladeira da cerca, descobre grande parte do vale.

Aqui sahem os religiosos a gosar o fresco da tarde em o verão, e o soalheiro de inverno, depois que deixam o refeitorio. Porque além da vista desabafada, e larga para fóra, tem na mesma praça de uma parte uma graciosa fonte, e da outra um espaçoso tanque, que cada cousa per si alegra e deleita os olhos.

A fonte se faz em um arco, que formado de brutescos varios e vistosos, arremeda uma gruta natural. Dentro parece assentado um grande e bem proporcionado satyro, imitando com propriedade os que finge a poesia. Em toda sua figura mostra em rosto risonho e alegre uma simplicidade montanheza, com que está convidando a beber de uma concha natural, que tem apertada com o braço e mão esquerda, da qual sae um formoso torno de agua: e juntamente com a direita acode como arrependido a cobril-a; e faz geito de a querer retirar, dando com uma e negando com outra.

A agua é quanto póde ser excellente, e de uma qualidade propria das que nascem nas serras, fria e desnevada na maior força do sol do estio; temperada no inverno, como um banho.

Acompanham a gruta de um e outro lado em igual distancia dois grossos e altos pilastrões, que sendo feitos de boa cantaria para estribo de uma abobada a que se arrimam, foi a natureza cobril-os de uma hera muito espessa e viçosa, que subindo por elles até a mór altura, assim esconde e senhoreia a pedraria, que faz parecer foram fundados, mais para honra da fonte, que segurança do edificio: assim ajuda a natureza a arte, e o accidental ao bem cuidado.

E porque entre gente que professa letras é bem que nem nos satyros se ache rudeza, faz lembrança este nosso a quem folga de o ver, com um verso latino entalhado em pedaços de marmore negro, que correm a vida e os annos sem parar, nem tornar atraz, ao modo d’aquelle licor, que lhe sae das mãos. Advertencia de sabio não de rustico: que agoas e annos se se não aproveitam com bons empregos, perdidos são, e pouco de estimar. Cae a agoa, por não pejar a praça, em um pequeno tanque, deixando-o cheio some-se n’elle, e vae por baixo da terra, fazer outra fonte na boca de um leão.

É de ver aquelle rosto fero coberto de guedelhas crespas, e medonhas, que ameaçam sangue e morte, feito ministro de mansas agoas. Verdadeiro poder e symbolo da religião que amansa leões e faz Satyros doutos==.

Publiquei este artigo no _Boletim da Real Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes_ (T. VII. 1894. pag. 7), acompanhado de gravura. Então era facil visitar a fonte do satyro: agora está vedada ao publico, não sei porquê. Naquella parte do edificio installou-se uma succursal do collegio de Campolide, com aulas de theologia, ao que ouvi dizer. Não deixavam entrar no claustro. Ha tempos saíram dalli os padres; mas o edificio continúa fechado; não se sabe onde pára a chave. Não se póde visitar a fonte tão finamente descripta por fr. Luis de Sousa, nem a capella dos Castros, cuja entrada é tambem pelo claustro.

É de fr. Luis de Sousa a descripção da

Capella dos Castros

==He a obra da Capella dorica, a proporção dupla, com quarenta palmos de largo, mais de setenta de comprimento. He de huma só nave de pedraria brunida, o lageamento de pedras de cores, tambem brunidas: funda-se a mais architetura della em hum proporcionado pedestal, que em torno a circunda interiormente. Tem seis arcos com pilares interpostos sobre bases: capiteis, e simalhas tambem em torno, com seis luzes obradas com respeito á architectura. A porta principal tem no claustro do Convento, e sobre ella pende hum escudo relevado das armas do Fundador. O tecto, despois de coroado com a simalha, he tambem de pedraria, apainelada com artezães, e molduras: os dous primeiros arcos de seis, que a compoem, ficam nos Presbiterios; no da parte do Evangelho está huma porta, que dá serventia pera a Tribuna, e aposentos do Fundador: no outro da parte da Epistola, outra pera o serviço da Sachristia, os outros quatro occupão quatro sumptuosas sepulturas, de pedras de cores lustradas, que sobre as costas sustentão elefantes de pedras negras.

No primeiro arco, que fica junto ao do Presbiterio da parte do Evangelho, está a sepultura de Dom João de Castro, com o seguinte Epitaphio.

* * * * *

D. Ioannes de Castro XX. Pro Religione in vtraque Mauritania stipendijs factis, nauata strenue opera Thunetano bello fœlicibus armis penetrato; debellatis inter Euphratem, et Indum nationibus: Gendrosico Reye, Persis, Turcis vno prœlio fusis; seruato Dio, imo Reipublicæ reddito, dormit in magnum diem, non sibi, sed Deo triumphator: publicis lachrimis compositus, publico sumptu prœ paupertate funeratus: obijt Octauo Id. Iunij. Anno 1548. Aetatis 48.

* * * * *

Estão em o seguinte arco, junto a este os ossos de D. Leonor Coutinho, sua mulher.

Da parte da Epistola, em o arco que responde ao da sepultura de Dom João de Castro, está a de Dom Alvaro seu filho, com o Epitaphio seguinte.

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D. Aluarus de Castro. Magni Ioannis primogenitus, cui pené ab infantia discriminum factus pugnaram prœcursor, triumphorum Consors, œmulus fortitudinis, hœres virtutum, non opum: Regum prostrator, et restitutor in Sinai veatice eques fœliciter inauguratus: a Rege Sebastiano Summis Regni auctus honoribus; bis Romæ, semel Castellæ, Galliæ, Sabaudiæ, legatione perfunctus, obijt 4. Kalend. Septemb. Anno. 1575. Aetatis suæ 50.

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Logo no outro arco junto a este está Dona Anna de Atayde, mulher do mesmo D. Alvaro.

No vão desta Capella se fez um Carneiro com seis arcos de pedraria, em hum dos quais ha Altar pera se dizer Missa, e os mais tem repartimentos pera os ossos, e corpos dos defunctos.

Sóbe-se do pavimento d’esta Capella por seis degráos entre dous presbiterios, nos quais estão as sepulturas do Fundador, e sua Irmam: a primeira da parte do Evangelho com o Epitaphio que se segue.

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D. Franciscus á Castro, Episcopus olim Aegitanensis, hujusce Sanctuarij, ac interioris Cœnobij fundator, hunc sibi, dum viueret, tumulum posuit, in quo et requiescet post mortem.

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A segunda, com este, da parte da Epistola.

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D. Violante de Castro Cometissa relicta vidua Domini Alfonsi de Noronha, Comitis Odomirensis hic quiescit, obijt XIV, Kalendis Iulij, anno Domini DC. XXXXVI. Sorori optimæ, seu verius matri, Frater amantissimus dedit, posuit.

* * * * *

Sobre estes degráos está o Altar de jaspes brunidos, apartado do retabolo, em forma que fica emparando a entrada do Choro, que detraz do mesmo Altar tem os Irmãos da casa de Noviços; e a que se entra por entre dous pedestaes de jaspes brunidos de treze palmos de alto, nove de largura, onze de grossura. No fronstispicio delles se veem duas tarjas embutidas de jaspes brancos, cercadas de suas faxas de outros pretos, na que fica da parte do Evangelho está escripta a instituição da Capella na forma seguinte.

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Ad maiorem ineffabilis Eucharistiæ venerationem, peculiarem Deiparæ Virginis de Rosario honorem; indiuiduam Patriarchæ Dominici, Martyrum Nazarij, Celsi, Victoris, ac Innocentij confessoris memoriam, ædem hanc in penetralibus Sacratiorem Erexit, Condidit, Dicauit D. Franciscus á Castro Episcopus olim Aegitanensis, Regis, ad status consilia adsidens, rerum fidei moderator supremus. Anno Domini M.DC.XLVIII.

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Na outra tarja, que fica da parte da Epistola, se contém as obrigações dos suffragios, que por si deixou o Fundador, diz assim:

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Instituit ad altare triplex iuge sacrificium annuas pro defunctis vigilias, iuniorum cœnobitarum adsciuit excubias, habitacula coœdificauit: sibi religiose ante Dominum sepultura prouisa; maioribus suis posuit monumenta, magis pie, quam magnifice, quorum posteris subtus aram Condictorium fecit, legauit in hæc opera pietatis sexcentos annuos aureos.

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Sobre estes pedestais se levantão de cada parte tres columnas de folhagem até o meio, que proseguem em estriado, as dos cantos mais recolhidas, as outras duas mais sahidas pera fóra, e corpulentas, entre ellas se abrem nichos de alto abaixo, que recolhem varias reliquias de Sanctos engastadas em custodias de preço. Estas seis colunas, que todas são de lavores, vão receber a simalha do Altar, sobre a qual se presenta á vista um quadro da Cea do Senhor, de singular pintura acompanhado de duas colunas de macenaria galantemente lavradas, que vão receber hum remate do mesmo quadro, unido já com a abobada da Capella. Aos lados destas colunas ficão dous quartões ornados com duas pyramides exteriores.