Chapter 9
Paphnucio nascera em Alexandria, de paes nobres, e fôra por elles instruido na delicia das profanas lettras. Era de muito longe que elle tivera de partir, para chegar á perfeição santissima da sua vida de anachoreta christão.
Um dia, porém, lembrou-se por sua desgraça espiritual, ou por seu aperfeiçoamento superior, que tinha conhecido em Alexandria uma formosa actriz chamada Thaïs.
Tão bella como a mais bella das suas visões esplendidas do Paraizo e condemnada á eternidade das penas, á perdição infernal, á ignorancia absoluta do bem!...
Conhecel-a, lembrar-se nitidamente d'ella e não a salvar, não tentar salval-a ao menos!...
Paphnucio não pôde submetter-se a esta dura lei.
Deixa, pois, o deserto, procura a cidade faustosa e tentadora onde Thaïs fazia as delicias e a admiração do povo, e vae arrancar ao inferno a sua presa deslumbrante.
É necessario fazer notar que ainda bem Paphnucio não começára a premeditar esta santa empreza, já os demonios que em figuras de chacaes costumavam uivar lamentosamente em torno de sua cabana, sem comtudo lhe penetrarem pela porta sempre aberta, se permittiram entrar por ella dentro, deitando-se perto d'elle, familiarmente, como amigos velhos. Que encontrariam os demonios na alma do velho cenobita para assim procederem?...
A graça ironica, a commoção subtil com que estes quadros são traçados, podem ser indicados pelo commentador, mas não podem ser fielmente traduzidos por elle.
Ao pé do altivo asceta, que julga ter dentro de si força que baste a dominar as indominaveis, as omnipotentes paixões humanas, e se considera com direito de desafiar o Peccado e de o vencer, ha uma encantadora figura de frade laborioso e simples, que nem chega a odiar o Mal, porque lhe ignora os requintes tentadores, e que cultiva no deserto um pequenino jardim e uma horta em miniatura, aceitando o amavel convivio dos bichos e dos passarinhos, envolvendo no mesmo amor humilde e doce a vasta natureza cheia de graças e de assombros.
As gazellas vêm apoiar a fina cabeça inquieta nos joelhos do santo: as figueiras que elle trata dão grandes figos cheios de nectar cuja contemplação é para elle um regalo innocente.
Este bom homem dá de conselho ao orgulhoso apostolo que se deixe de tanto zêlo, pois que, vista a impossibilidade em que a gente está de emendar o mundo, mais vale emendar-se a si proprio de todos os peccados até d'aquelle que consiste em se julgar impeccavel.
Mas Paphnucio não o quer de fórma alguma attender; isto, seja dito de passagem, com alegria dos chacaes seus inimigos antigos e agora seus inopportunos familiares.
* * * * *
Põe-se, portanto, a caminho. Vestido tão sómente de um longo cilicio, ei-lo que se dirige para o Nilo--no designio de seguir a pé a margem lybica até á cidade fundada por Alexandre.
Que deliciosa a narração d'esta romaria, feita pela lingua de ouro de Anatole France! Ha phrases que cantam no ouvido como uma flauta da Jonia!... ha imagens que se desdobram deante de nós como uma evocação de magia!
Nem a traducção litteral poderia fazer presentir o encanto rythmico, emballador, quasi morbido, de requintado que é, d'este estylo em que as palavras se harmonisam em um concerto ideal, para formarem a mais suave, e subtil, e suggestiva das musicas.
E emquanto assim se encaminha para Alexandria, Paphnucio foge das cidades e das aldeias; tem medo de encontrar creanças a brincar na soleira das portas, mulheres paradas á beira das cisternas, sorrindo cariciosamente ao peregrino que passava, como a Nosso Senhor a Samaritana já sorrira.
Quando, ao entardecer, a aragem passava nos tamarindos em flôr, o sombrio apostolo puxava para o rosto o seu capuz escuro, tal era o receio que sentia de enternecer-se deante da belleza ineffavel, do divino mysterio das cousas...
Viu uma enorme sphinge egypcia talhada no rochedo de granito e obrigou-a a confessar o Santo Nome de Jesus Christo. Encontrou um eremita bhuddico, todo nú, de barba branca a fluctuar-lhe em ondas no peito curtido ao sol, e, depois de lhe ouvir a confissão do seu _nihilismo_ absoluto, depois de lhe escutar as blasphemias de um scepticismo sem fim, ainda tentou convertel-o à fé profunda que lhe abrazava o coração.
A paizagem luminosa e estranha desentranhava-se em maravilhas; o _ibis_ mysterioso e hieratico retratava no liquido espelho do rio o seu longo pescoço côr de rosa pallido; os salgueiros agitavam a múrmura folhagem argentea; as cegonhas voavam no céu claro; e nos cannaviaes da margem escutava-se o grito de outras aves aquaticas.
O valle perdia-se ao longe em ondulações verdes; as aguas palpitavam como um seio de virgem; a seiva, a vida, a fecundidade, o amor fremente e creador parecia pullular em tudo, em tudo...
Paphnucio, porém, só pensava na cortezã esbelta e branca, de braços côr de lyrio e olhos côr de violeta, que em Alexandria representava as traições de Helena, os delirios de Phédra, o sacrificio da candida Ephigenia, ante uma turba delirante, que a sua belleza embriagava e perdia...
II
A primeira vez que, em Alexandria, Paphnucio avista Thaïs é no theatro em que ella representava a immolação de Polyxena.
Tal contra a linda moça Polyxena Consolação extrema da mãi velha Porque a sombra de Achilles a condemna Co'o ferro o duro Phyrro se apparelha...
Não se lembram do nosso Camões? Era justamente esse lance da epopéa homerica que Thaïs traduzia pela mimica expressiva e perfeita, a qual, na decadencia da Arte antiga, suppria agora na scena, viuva dos seus grandes mestres de outr'ora, a alada, a divina poesia de Euripedes e de Menandro. Thaïs altiva e doce appareceu ao austero monge dando-lhe, como dava a todos que a contemplavam «o tragico estremecimento da sua fatal belleza.»
Segue-se então a lucta travada entre o asceta e todas as seducções pagãs que circumdavam a cortezã esplendida, para converter esta á religião dos pobres, dos miseraveis e dos simples.
Thaïs fôra iniciada em pequenina por um escravo negro da Nubia, chamado Ahmés, n'essa religião que reveste de tão voluptuosas delicias o sacrificio e a dôr.
Tinha-a mesmo baptisado, em uma época de perseguições e de angustias, o bispo proscripto de Cyreno, que pela Egreja soffrêra os mais horrendos martyrios.
E toda a dulcissima e piedosa lenda evangelica lhe fôra contada baixinho, pela voz queixosa e cantante do misero escravo negro, quando Thaïs, maltratada pelos paes, sem tecto carinhoso que lhe abrigasse o corpinho infantil, torturado de açoites, ia deitar-se á noite a um canto do estabulo, entre animaes domesticos, com Ahmés perto d'ella--sentado sobre os calcanhares, as pernas dobradas, o busto direito na altitude hereditaria da sua raça, e o rosto negro banhado n'aquella divina luz de esperança e de misericordia com que a estrella de Bethlem tem, durante dezenove seculos, inundado, casta e divina, os desherdados de todo o bem terrestre.
Portanto, não a espantou em excesso a apparição do monge, depois de uma vida consagrada ao prazer, que lhe dera o tédio sem lhe dar a felicidade.
Só um momento, durante esses vinte annos de embriaguez hyper-aguda, ella conhecêra a ephemera felicidade de amar. As lagrimas que chorou tinham tido para a pobre um sabor acre e doce ao mesmo tempo. Nesse amor encontrára tudo--até a perdida innocencia e a divina puerilidade da sua fé. A bella cortezã de Alexandria realizára o delicioso pensamento do poeta, e tambem ella, como a Marion dos perdidos amores, podia repetir exultante:
_Et l'amour m'a refait une virginité_
Mas subito esse homem, que de todos lhe parecêra diverso, appareceu-lhe tal como os outros todos, e ella fugiu espavorida, para não vêr mais a imagem da sua illusão que se partira.
Conheceu depois a gloria, os applausos, os enthusiasmos, as adorações febris, que duravam uma hora e que se tinham julgado eternas.
Por ella os philosophos se fizeram crianças credulas; os voluptuosos tiveram a coragem do suicidio; deram-lhe thesouros os avarentos; lagrimas, os egoistas; os poetas chamaram-lhe a sua Musa; os politicos esqueceram, para se demorarem aos seus pés, o bem dos Estados e os requintes que ha no prazer do mando.
E Thaïs, indifferente a todos e com todos brincando cruelmente, conservava no fundo da sua alma a recordação indistincta e vaga d'esse mundo mysterioso de que lhe tinham revelado o encanto.
Supersticiosa e cheia de ancia indefinida, tinha a sêde atormentadora do desconhecido, a que faz as santas, as arrependidas sublimes, e as loucas...
Quando Paphnucio lhe appareceu, cedeu quasi que sem resistencia á rude voz que a chamava para o aspero caminho dos penitentes. Para seguir o seu implacavel mestre deixou os banquetes em que a acclamavam, sob os bellos e poeticos nomes da poesia antiga, os homens mais opulentos e considerados da Alexandria, os poetas, os rhetoricos, os sacerdotes de Serapis, os dandys do tempo, preoccupados como os de hoje, com a arte de amestrar bellos cavallos e de enamorar bellas mulheres.
Para o seguir, deu ordem aos numerosos escravos que a serviam, que queimassem os seus thesouros de arte: os cofres de marfim, de ebano e cedro, que, entreabrindo-se, deixavam cahir corôas, grinaldas, collares esplendidos; e os seus ricos tapetes, os seus bordados de prata, as tapeçarias floridas, os leitos faustosos, os coxins macios: e as estatuas de nymphas que pareciam animadas como mortaes: e o Eros eburneo a quem se attribuiam maravilhosas e não sabidas virtudes, e que valia o seu peso centuplicado em ouro.
Para o seguir, desprezou os seus vestidos brilhantes; os mantos de purpura; as sandalias de ouro; os pentes, os espelhos, as lampadas cinzeladas por industriosas mãos de escravos artistas; as theorbas, as lyras:--todos os instrumentos da sua seducção complicada e subtil, todas as bellas cousas que representavam as recordações de uma vida de luxo, de opulencia e de amor... Não a prendeu a gloria de actriz estremecida; chamavam-lhe a clara estrella, a doce lua do céu alexandrino, e o rude solitario arrebatou-a falando-lhe em penitencias duras e em flagelladores cilicios, em lagrimas de vergonha e de amargura choradas ao pé da Cruz.
--Mulher, dizia-lhe o monge com voz colerica, arrastando-a comsigo ao longo da costa--vê esse enorme mar azul. Nem toda a agua que elle tem póde lavar as tuas manchas asquerosas!
E emquanto elle a apostrophava com a eloquencia do mais impetuoso e ardente horror, relembrando-lhe uma por uma, com minuciosidades de confessor, as ignominias em que se perdera o seu corpo, que Deus fizera tão bello, Thaïs seguia-o docilmente sob o sol abrazador, e por cima dos penhascosos caminhos, onde os seus pés nús, tão lindos, tantas vezes cobertos de beijos, se desfaziam em sangue.
* * * * *
Todas estas paginas que contam o piedoso furor do apostolo, e a humildade ineffavel da peccadora arrependida, estão escriptas com uma paixão acre e flammejante.
Vê-se bem que o inferno e todas as suas furias estão dentro d'esse orgulhoso coração de monge, que se julga acima do Peccado e que é vencido pela força irreductivel de um Poder que elle negou.
Thaïs, não; essa arrependida e submissa é em Christo que pensa e a sua alma anceia por desprender-se do impuro corpo, para subir, lavada em lagrimas, ao seio eternamente misericordioso do Homem Divino que perdoou á Magdalena, e que não consentiu que fosse lapidada a mulher adultera pelos que não tinham direito de a julgar.
A ultima parte do livro está impregnada de uma ironia, delicada como tudo que sae da penna de Anatole France, mas destoante da opulencia da côr e de estylo que inspiram as duas primeiras partes.
Consiste toda ella na narração das penitencias a que Paphnucio se entrega logo que percebe nitidamente que o zelo que o levou a salvar Thaïs conduzida por elle a um convento de mulheres--não é tão puro nem tão desinteressado como na sua illusão a respeito de si proprio elle suppuzera até alli.
As penitencias ás vezes chegam a ser de um comico _voltaireano_. Exemplo: a columna no alto da qual, mystico acrobata, elle se encarapitou um tão longo espaço de tempo, que em volta d'este novo Simão o _Stylita_ construiu-se uma grande cidade com todas as abominações mais ou menos legalisadas, que ha sempre nos centros populosos.
Paphnucio dizia, porém, aos bispos e á brilhante clerezia, que attrahidos pela fama da sua virtude rara, e dos milagres que ella operava sobre enfermos epilepticos, coxos, cégos, manetas etc., etc., vinham cumprimental-o e visital-o de muito longe:
--«Meus irmãos, a penitencia que me imponho é nada em comparação das tentações que tenho, e cujo numero e força me espantam. Um homem visto de fóra é pequeno, e do alto da columna a que Deus me elevou, vejo os seres humanos agitarem-se como formigas. Mas considerado interiormente, o homem é immenso; é grande como o mundo porque o contém em si... Tudo que se extende ante os meus olhos, esses mosteiros, essas casas, essas barcas sobre o rio, essas aldêas, e o que descubro ao longo de campos, de canaes, de areias, de montanhas, tudo isso é _nada_ ao pé do que eu tenho aqui dentro! Ha no meu coração cidades innumeras e desertos sem fim. E o mal, o mal e a morte extendidos por sobre essa immensidade, cobrem-na, como a noite cobre a terra. Eu sósinho contenho um Universo de pensamentos máus.»
Falava assim, accrescenta Anatole France, porque o _amor da mulher_, como uma serpente, se lhe enroscára no seio.
* * * * *
O final do livro, ou antes, a moral do livro é esta: Presente-se a salvação da cortezã arrependida que trouxera sempre, dentro do seu corpo manchado, a saudade nostalgica do ignoto bem, a chaga aberta e sangrenta de uma aspiração insaciada--e a perdição do apostolo orgulhoso, que déra ao seu desejo, á sua paixão terrena, a fórma de um fanatico proselytismo, e que tão rudemente falava ás gentes do Peccado e da Virtude.
Que quer Anatole France provar? pergunta a critica conspicua, um pouco escandalisada d'esta orgia de estylo, de descripções, de paizagens, de _dilettantismo_ artistico.
Cá por mim imagino que elle não quiz provar nada.
Quiz fazer divagar a sua imaginação de poeta pelos desertos onde os monges vivem penitentes e castos, e pelas cidades douradas e luxuosas onde as actrizes bebem em taças de crystal as perolas diluidas de uma adoração voluptuosa.
Quiz levar-nos ao banquete do opulento pagador das esquadras de Alexandria, onde philosophos e poetas discreteiam com a elegancia e o requinte da civilisação de Bysancio. Quiz fazer-nos penetrar na alma de uma louca mulher d'aquelle tempo, tão bella que, em ella entrando na sala do festim, coberta de flôres naturaes, parecia emprestar a estas a sua vida e receber d'ellas o mimo, a frescura o encanto virginal.
Quiz--é este o sentido profundo e philosophico do seu livro--dizer-nos que ás vezes os que apresentam mais austera virtude são os que trazem mais serpentes venenosas no coração pharisaico, incapaz de indulgencia e de perdão, e que o arrependimento, quando é sincero, humilde, e parte de uma alma sedenta do infinito e capaz de o conter em si, póde resgatar grandes erros e lavar na fonte crystallina das suas lagrimas, muita nodoa de que o mundo, o impeccavel mundo, costuma fugir enojado e austero...
Ernesto Renan
SUA OBRA, O SEU ESPIRITO, A SUA PHILOSOPHIA
I
Venho tarde para accrescentar qualquer cousa ao que n'este jornal de certo se tem dito a esta hora da vida de Renan, e da sua morte. Venho tarde para ajuntar, qualquer dado biographico, qualquer inedito incidente aos já citados aqui por informadores habeis e intelligentes.
Mas venho cedo, talvez, para conversar com os leitores ácerca d'esse espirito encantador, que desapparecendo d'entre os vivos, deixa na Europa culta uma lacuna imprehenchivel.
Não é, porém, meu intento fazer _obra de critico_, o que além de mais, seria prematuro ainda. Tentarei apenas dar a impressão, que a minha sensibilidade recebeu da leitura d'esse fino artista, d'esse poeta, que tão bem se conhecia a si mesmo, que um dia, figurando-se a si sob o nome _Léolin_, nos _Dramas Philosophicos_, dava do seu genio esta adoravelmente exacta definição:
«O que é que eu faço no mundo? Contemplo e goso. Vou a toda a parte; entro em todos os lugares e em todos comprehendo alguma cousa. Eis a minha profissão. Procuro o Bello, devorado de sêde, que jámais saciei. A verdade demanda maior dose de perseverança nos que a buscam; é por isso que ella me foge, talvez.»
Não ha convivencia mais estreita, que a que tem largos annos existido, entre mim, obscura e pobre mulher, e essa deliciosa intelligencia de artista, um dos mais requintadamente perfeitos que a litteratura tem possuido em todo o mundo.
É fóra de duvida que, para mim, o _hebraisante_, o erudito, o epigraphista sagaz, o archeologo meticuloso, o decifrador de textos assyrios, o _sabio_, emfim, que era Renan, me interessava mediocremente. Admirava que um tão grande poeta tivesse a humilde ambição de ser apenas um grande erudito; ambição que lhe era de resto cruelmente contestada por terriveis homens calvos, de oculos azues com aros de ouro e nomes impronunciaveis de terminações barbaras, que eu nunca tinha lido, e julgo aqui entre nós, que sómente se tinham lido a si mesmos...
Esses, escreviam volumes _in folio_ para provarem que o _Sr. Renan não conhecia os textos_, e o divino celta que tanta vez me fizera vibrar até ás lagrimas com as notas da sua harpa mysteriosa--desesperava-se com a incredulidade d'aquelles medonhos eruditos allemães, de que toda a gente que se presa ignora a existencia, não atinando sequer com a arrevesada pronuncia dos seus respectivos nomes...
O _hebraisante_ era-me pois indifferente, mas o historiador ficava de pé, com a sua intuição extraordinaria da alma religiosa das multidões extinctas; com a vida intensa que elle sabia dar aos personagens do passado; com a sua visão clara e profunda das cousas que já foram; com o magico poder de evocação que elle possuia, como Carlyle o possuiu, como o possuiram Michelet e Victor Hugo, mas de um modo inteiramente diverso d'aquelles todos.
Um Michelet resuscitando periodos historicos de enthusiasmo fremente e de doentia exaltação, saberá dar vida ás perturbações nervosas, aos desfallecimentos e aos extases dos seus congeneres do passado.
Um Victor Hugo dará o nitido contorno das cousas, e até para o mundo da allucinação levará o seu poder de descrever o incommensuravel, de figurar o impossivel...
Um Carlyle tera a visão ardente de um mundo como foi o puritano, capaz de produzir Cromwell; e saberá--desmontando peça a peça o machinismo complicado d'esse caracter de allucinado e de batalhador, de perfido conductor de homens, e de crente quasi fanatico--revelar-nos o segredo da quadra estranha de que elle é o producto natural, a resultante logica...
Renan saberá principalmente interpretar e traduzir problemas e sentimentos moraes, estados de consciencia. Para elle, como para o grande inglez que escreveu o _Culto dos heroes_, a historia, _é uma cousa viva, uma **cousa** ineffavel e divina_, destinada a resuscitar diante dos olhos do nosso espirito, os soffrimentos, as emoções violentas ou delicadas, as luctas, as tristezas, as fraquezas e heroicidades, dos nossos irmãos que morreram, das gerações que modelaram fatalmente a nossa, e ás quaes devemos o que somos em bom e em mau.
* * * * *
Quando a noticia da morte de Renan nos veio sorprehender dolorosamente a todos, acabava eu de passar dois mezes no campo, em uma solidão quasi absoluta, em uma isolação moral quasi selvagem, lendo apenas com intima delicia, o mais arido talvez, por ser o mais erudito, de todos os livros do grande exegeta: a sua longa _Historia do Povo de Israel_, cujo 4.^o e 5.^o volumes elle deixou para serem posthumamente publicados.
E depois de ter vencido aquelle primeiro impulso de preguiça, que um espirito de mulher indolente não podia deixar de experimentar ante um trabalho d'esta ordem--eu acabára por sentir-me irresistivelmente e deliciosamente transportada áquelles tempos obscuros em que o semita nomada, o soberbo vagabundo da Historia, enriqueceu o thesouro humano, com a mais alta noção religiosa a que á nossa especie foi dado ainda attingir, a noção de um _deus unico_, cujo espirito está em tudo, e ao qual o vasto Universo obedece submisso!...
Assim como a Grecia creou a alta cultura intellectual, a philosophia, a poesia, as artes plasticas; assim como Roma creou as fortes instituições politicas, tendo o Direito por base; o semita creou a religião de que a nossa alma se tem alimentado longos seculos, e que tão profundo cunho lhe imprimiu, que ainda hoje o mais sceptico de entre os scepticos demolidores do passado se não póde libertar da sua poderosa e absorvente influencia!
Essa genese de monotheismo, que Renan intitulou a _Historia do Povo de Israel_, é talvez de todas as suas obras aquella em que as soberbas e multiplas faculdades do seu grande espirito tiveram melhor espaço para se desenvolverem.
Nada mais bello, nada mais profundamente interessante para um espirito que pensa, do que a evolução da idéa religiosa, seguida passo a passo, com os seus periodos de impetuosa florescencia, com os seus desfallecimentos e os seus eclypses, com os desdobramentos subitos de sua apaixonada energia, com as acquisições moraes, tão laboriosamente e dolorosamente feitas atravez de violencias spasmodicas e de paroxysmos convulsionarios.
Sendo a civilisação moderna uma resultante da collaboração alternativa da Grecia, da Judéa e de Roma, as origens da historia d'essa raça mysteriosa, em cujo seio havia virtualmente _Jahvê_ e _Jesus_ não podem deixar de produzir uma ardente curiosidade em todo o espirito avido de conhecimento e de luz moral.
Eu tinha-me pois, n'essa reclusão completa em que vivera, embriagado longamente, voluptuosamente, da prosa, de Renan, capitosa e perturbadora.
E quem como elle sabia, da lingua que fallava, extrahir effeitos de harmonia, ao pé dos quaes, os das outras artes me pareciam absolutamente secundarios?
Falando do idioma hebraico, Renan diz em uma das bellas paginas da sua _Historia do Povo de Israel_:
«Uma aljava de flechas de ouro, um grosso cabo de potentes contorsões, um trombone de bronze, dilacerando o espaço com duas ou tres agudas notas: eis o hebraico.
«Uma lingua d'estas não pode exprimir nem um pensamento philosophico, nem um resultado scientifico, nem uma duvida, nem uma percepção do infinito.
«As lettras dos seus livros serão contadas como numeros, mas serão feitas de fogo como a chamma. Dirá poucas cousas essa lingua, mas as que disser, serão martelladas sobre uma bigorna.
«Derramará ondas de colera, terá gritos de raiva contra os abusos do mundo; clamará pelos quatro ventos do céo para que acudam ao assalto das cidadellas do Mal. Como os instrumentos rituaes do santuario não servirá para uso algum profano; nunca lhe será dado exprimir a alegria innata da consciencia, a luminosa serenidade da Natureza; mas clamará a guerra santa contra a injustiça, e o appello dos grandes panegyricos; será o clarão das neomenias e a trombeta do Juizo final. Felizmente que o genio hellenico comporá, para a expressão das alegrias e das tristezas da nossa alma um alaúde de sete cordas, o qual saberá vibrar unisono com tudo que é humano, um grande orgão de mil teclas igual ás multiplas alegrias da vida.
«A Grecia conhecerá toda as delicias, desde as dansas em côro nos pincaros do Taygeto até ao banquete de Aspasia; desde o sorriso de Alcibiades até á austeridade do Portico; desde a canção de Anacreonte até ao drama philosophico de Eschylo e aos sonhos dialogados de Platão.»