Pelo mundo fóra

Chapter 8

Chapter 83,831 wordsPublic domain

E, comtudo, apezar de tantas circumstancias que se reuniam para dever tornar-lhe doce a vida, depois da leitura d'aquelles _sonetos_ magistraes, em que tão requintadas amarguras e tão estranhos supplicios se crystallisavam, por assim dizer, em perolas maravilhosas, não havia leitor que não sentisse esta interrogação desabrochar-lhe nos labios: onde é que este homem tão tranquillamente e tão lucidamente desesperado encontra a força de continuar a viver?

O suicidio do grande poeta responde agora, lugubre, mas coherente, terrivel mas logico, á irresistivel pergunta.

O pessimismo de Anthero não era, como a maior parte dos que nós por ahi conhecemos, um pessimismo pessoal, egoista, limitado ás contradicções e ás tristezas do seu proprio destino.

Era um pessimismo philosophico, como o de Leopardi, como o de Schopenhauer, como o de Leconte de Lisle.

A sua concepção da vida, tão triste que faz horror e espanto, traduz-se no soneto: _A Divina Comedia_, em que elle figura os homens erguendo para os remotos céus os braços desesperados e apostrophando esses deuses que só produziram a Dôr, a Paixão, o Peccado, as Illusões, as luctas fratricidas.

«Pois não era melhor na paz clemente Do nada e do que ainda não existe Ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dôr nos evocastes?» Mas os deuses com voz ainda mais triste, Dizem:--«Homens! porque é que nos criastes?»

A Morte, não sob uma fórma repellente e odiosa, mas attrahente como esphynge, perturbante e voluptuosa como sereia que vem cantar a sua cantilena de seducção á flôr das aguas de um verde glauco, a Morte, revestida de um mysterioso encanto subjugador e estranho, paira por sobre todas os paginas d'este livro, impregnando-as de subtil e contagiosa tristeza.

Dir-se-hia que os _sonetos_ lhe são quasi inteiramente consagrados. É a _ella_ que elle vê sempre, chamando-o, chamando-o baixinho, entontecendo-o com as promessas do seu silencio eterno, da sua paz profunda e vasta, do seu mysterio que ninguem soube ainda violar.

Anthero pensára tanto que o cérebro esgotado pedia emfim misericordia. A sua ambição não fôra de vãs glorias, nem vãos triumphos; quizera levantar uma ponta d'esse véo que esconde a eterna Verdade, além da qual tantas gerações humanas têem sonhado com alguma cousa de inextinguivel e de eterno.

E essa agonia intellectual que o dilacerou exprime-se em todos os seus versos, com uma potencia maravilhosa, e uma energia devoradora que acabou por consumil-o!

_A illusão, o vasio universal_, que encarava ao sahir das suas vertiginosas contemplações metaphysicas, faziam-n'o recuar pavido e tremente. A vida não lhe dava o que elle queria; para áquem d'esse vasto mundo invisivel que a sua alma de sonhador presentia e pelo qual ella anciava, nada havia que lhe satisfizesse a sêde ideal. Por isso Anthero, fugindo voluntariamente d'elle, foi buscar a sua amiga de todas as horas, aquella que podia entregar-lhe a chave do eterno enygma que o desesperava; a

_«Morte! irmã do Amor e da Verdade»_

* * * * *

A proposito do suicidio de Anthero, falou-se muito de tres suicidios tambem famosos que o precederam; mas realmente, a não ser pela notoriedade que os assignala, eu não sei que elles tenham comparação com o d'este poeta. Nem Camillo, nem Julio Cesar Machado nem Soares dos Reis se mataram pelos motivos transcendentes que actuáram no animo de Anthero de Quental.

Os tres mataram-se porque soffriam mais do que é dado aos seres humanos soffrer sem procurarem no anniquilamento a paz invocada entre supplicios.

Um d'elles, Camillo, artista de nervos exasperados pela cegueira, temperamento de hysterico para o qual a resignação era uma virtude impossivel, matou-se para fugir ás trevas densas de uma lobrega morte em que se sentia perdido!

Julio Cesar Machado matou-se porque, no meio do mundo hostil que não satisfizera nenhuma das ambições da sua pobre alma delicada e sonhadora, elle concentrava as affeições todas do seu coração, os ultimos sonhos da sua phantasia, a esperança, a suprema gloria, no amor de um filho que se suicidára com 19 annos!--deixando-o só. O infeliz enlouqueceu e matou-se tambem...

Sobre a morte de Soares dos Reis paira uma sombra de mysterio. Quem sabe que luctas intimas, que drama de paixão intensa e dolorosa esse suicidio não veio rematar!

A morte de Anthero obedeceu a outro genero de impulsos. Não digo que para ella não concorresse tambem o estado de miseria moral e de anarchia mental em que via a sua patria (da qual havia pouco elle tinha porventura esperado qualquer acto de energica reacção contra o destino), mas a sua dôr era uma d'estas dôres de ordem aristocratica e rara, que não se originam como as da maioria dos homens no coração, mas que emanam do espirito cançado de cogitar em vão no mysterio impenetravel das cousas...

Querem vêr os espectros que enchiam de pavor sagrado as suas noites? Ouvi este _soneto_ que é, como todos os outros, pagina solta de uma confissão intellectual complicada e dolorosa, tal como um Pascal ou um Amiel a escreveram tambem cada um, já se vê, na sua respectiva esphera, um nos seus immortaes _Pensamentos_, outro no seu _jornal_ tão caracteristico e tão pouco comprehendido:

Espectros que velais emquanto a custo Adormeço um momento, e que inclinados Sobre os meus somnos curtos e cançados Me encheis as noites de agonia e susto!...

De que me vale a mim ser puro e justo, E entre combates sempre renovados, Disputar dia a dia á mão dos fados Uma parcella do saber augusto.

Se a minh'alma ha de vêr sobre si fitos Sempre esses olhos tragicos, malditos! Se até dormindo, com angustia immensa

Bem os sinto verter sobre o meu leito, Uma a uma, verter sobre o meu peito As lagrimas geladas da descrença!

Foram estas as dôres que o mataram. A sua consciencia não achava repouso em nenhuma das concepções do Universo em que alternativamente tentava acolher-se.

Ora, dirigindo-se á meiga Virgem do Catholicismo elle a invocava com infantil simplicidade; ora punha na _mão direita_ de Deus o seu coração cançado, e lhe ordenava que alli _dormisse eternamente_; ora achava que a Duvida tinha soprado sobre o mundo _um vento de ruina e de morte_, que tudo emmurchecêra, que tudo apagára, deixando apenas uma humilde e mysteriosa flôr desabrochar a medo no fundo da consciencia humana.

Aspirava ao _nirvâna_, á paz inconsciente; queria cahir n'aquelle _vacuo tenebroso_ onde na _immobilidade indefinida termina o ser inerte, ocioso_; e ao mesmo tempo a comprehensão atavica da eternidade catholica torturava-lhe em horas de lucta o inquieto espirito.

Que aspiração intensa ao ideal, a d'este formoso espirito alado! Que sublimes tormentos os seus, procurando sem descanço a verdade e a luz!...

Mas sempre, em todas as phases d'esta interna lucta que talvez fizesse sorrir alguns dos leitores dos _sonetos_ emquanto o suicidio do poeta lhe não deu o seu fundo de lugubre realidade,--Anthero chamou pela Morte, a invocou, lhe sorriu, lhe deu os nomes mais bellos, os mais doces, os mais apaixonados!

D'elle se pôde dizer que foi _um amante da Morte_, amante austero e triste, mas nem por isso menos fervoroso e ardente

Por motivos inteiramente diversos dos seus, tambem Santa Thereza, a apaixonada castelhana, chamou a Morte com aquelles mesmos arroubos de extase que nos surprehendem e nos fazem estremecer a nós, pobres creaturas feitas de carne melindrosa e fragil, a quem o soffrimento repugna, e a sepultura com a sua podridão infecta repelle formidavelmente.

Digam-me se ha em lingua alguma expressão de dôr mais completa do que a d'este _soneto_ a que Anthero pôz o titulo de _Despondency_ por não achar em portuguez um termo que rigorosamente correspondesse ao estado de resignada e tranquilla desesperança que elle traduz:

Deixal-a ir, a ave, a quem roubáram Ninho e filhos e tudo, sem piedade... Que a leve o ar sem fim da soledade Onde as azas partidas a levaram...

Deixal-a ir, á vella que arrojaram Os tufões pelo mar na escuridade, Quando a noite surgiu na immensidade, Quando os ventos do Sul se levantaram...

Deixal-a ir a alma lastimosa, Que perdeu a paz e fé e confiança Á morte quêda, á morte silenciosa...

Deixal-a ir a nota desprendida De um canto extremo e a ultima esperança... E a vida... e o amor... deixal-a ir a vida!

* * * * *

Não ha por tudo isto motivos para espanto no suicidio de Anthero. Elle não era, como já dissémos, um escriptor de officio, que de proposito exacerbasse e cultivasse em si proprio o desespero e as lagrimas, para as transformar em rhetorica _livresca_; não tinha tambem um vão amor de gloria indesculpavel em quem sondava com tão penetrante e lucido olhar o vasio de todas essas chimeras, a ephemera duração de tudo que é da terra...

Era uma alma sincera e torturada, que naturalmente desafogava o seu sentir tanta vez contradictorio e doentio, em versos de uma magia dolorosa, de uma graça delicada e triste, de uma profundidade de expressão inegualavel, e n'esses versos só uma nota era constante: _o elogio da Morte_.

Invocou-a sempre, chamou por ella, coroou-a de funebres flôres, supplicou-lhe que o accolhesse no seu regaço frio, achando emfim que depois do _mal de haver nascido_ não havia senão um bem: tornar ao Nada.

II

Quando o livro dos _Sonetos_ appareceu escrevi eu um estudo sobre elles, que não tinha, já se vê, outro merecimento além de uma sinceridade absoluta e de uma immensa sympathia.

Lembra-me de que lamentava do fundo da alma que o auctor d'essas bellas poesias tão raras na nossa litteratura,--a qual como todas as litteraturas meridionaes não pecca pelo _excesso de pensamento_--tivesse consummido a vida, que tão bellas cousas podia dar-lhe, mettido em si mesmo, n'aquella especie de meditação allucinada que se traduzia, é verdade, em versos magnificos, mas versos que eram, como as perolas, productos de uma dôr mortal.

E revoltava-me contra a solidão mental em que Anthero se concentrára, contra as hesitações do seu querer, contra as fluctuações do seu pensamento, contra o pessimismo bhuddico da sua doutrina, contra tudo que fizera d'elle um philosopho germanico, ou um sonhador nebuloso e doente, e o separava da vida, da vida que tem tantos risos no meio das suas charnecas desoladas, ou dos seus sarçaes cheios de espinhos e de reptis....

Mesmo com o risco de parecer vaidosa, não quero deixar de offerecer aos meus leitores, a carta, até hoje _absolutamente inedita_, que Anthero de Quental me escreveu então, depois de ter lido os meus artigos que se publicaram primitivamente no _Jornal do Commercio_ de Lisboa, e que hoje estão incluidos no volume intitulado _Alguns homens do meu tempo_.

Ahi vae a formosa e eloquente carta:

«Porto, 24 de dezembro.

Minha Senhora

Agradeço-lhe muito os seus artigos no _Jornal do Commercio_, e creia V. que o não faço só por civilidade, ainda que não é cousa que se deva desdenhar _par le temps qui court_. Não lhe direi que me agradaram os seus artigos, porque isso é o menos; dir-lhe-hei que me commoveram. Ha n'elles uma sinceridade, que me encantou, e um tom fraternal que me foi direito ao coração, onde quero que não morra nunca a vibração d'essas palavras amigas. Creio que V. se engana na apreciação que fez das doutrinas chamadas (quanto a mim impropriamente) _pessimistas_ e nos receios que lhe inspiram as tendencias bhuddicas que começam a manifestar-se por todos os lados, em sociedades que attingiram o _nec plus ultra_ da civilisação, ou em individuos que attingiram o _nec plus ultra_ do pensamento.

Tudo isso, é verdade, está ainda bastante obscuro e confundido com elementos estranhos e até contradictorios, e por isso me não admira que não possa ainda ser apreciado sem grandes apprehensões. O meu livrinho, apenas aqui ou alli em meia duzia dos ultimos sonetos, fere a nota exacta e sã, porque infelizmente morreu-me o dom dos versos, precisamente quando começava a pensar e a sentir alguma cousa que realmente merecesse ser posta em verso.

Não podia elle, tão incompleto e obscuro, justamente onde mais cumpria que fosse claro e amplo, dissipar aquellas apprehensões, antes era natural que contribuisse para as radicar. Mas a minha convicção é que taes apprehensões não são fundadas e que entre os sentimentos naturaes e espontaneos do coração humano, entre o seu ideal de justiça, de harmonia e de belleza, e o ponto de vista ascetico do Bhuddismo, não só não ha contradicção verdadeira, mas que, pelo contrario, é só n'essa esphera que elles encontram a sua mais perfeita expressão, libertos de muitas illusões e de muitas imperfeições que lhe andam forçosamente misturadas, e attingem a plena consciencia do que são e para que são. E seria singular com effeito que a doutrina, que entre todas, faz consistir no Bem a verdade suprema da existencia humana, pudesse collidir com aquelles espontaneos impulsos da nossa natureza, que não são, no fundo, senão fórmas e momentos, mais ou menos obscuros, mais ou menos incompletos da nossa fundamental aspiração a esse mesmo Bem!

A, verdade é que a civilisação moderna chegou, no seculo actual, como a civilisação antiga, no periodo do Imperio Romano, a um ponto em que, sob pena de completa ruina, o problema metaphysico-psychologico tem de ser sondado a uma profundidade desusada e proporcional ao gráu superior da mesma civilisação.

Hoje, como então, as questões metaphysico-psychologicas são a chave de todas as outras questões porque, tendo o proprio progresso das instituições e das idéas arruinado os antigos alicerces moraes da sociedade, a grande questão, a questão vital e inadiavel não é já a do aperfeiçoamento das instituições nem do augmento dos conhecimentos, mas a da organisação theorica e pratica da vida moral, a creação da ordem nas consciencias, em uma palavra a remodelação do _homem interior_, sem o qual o outro homem, da sociedada e da vida pratica, por forte e sabio que pareça é mais miseravel que o escravo mais embrutecido.

O progresso gigantesco do naturalismo, filho de uma civilisação poderosa e complexa como nenhuma, só poderá ser equilibrado por um progresso equivalente do ascetismo. Sem esse equilibrio a sociedade moderna, que já hoje nos causa mais terror do que admiração, poderá continuar ainda por algum tempo de poderosa, tornada formidavel, e, de formidavel, bestial: mas o homem, o verdadeiro homem, isto é, o homem moral, terá morrido: e morto elle, tudo cahirá, por que só elle sustenta a grande mólle social. A sociedade é, antes de tudo, um facto de ordem moral.

Mas não continuo com estas reflexões, porque desejo fazer d'ellas o assumpto de um escripto, até a certo ponto em resposta aos artigos de V. e que publicarei em fórma de carta, se V. levar isso a bem.

E termino, minha senhora, pedindo a V, que me consinta assignar-me d'aqui em diante, como realmente sou, seu muito amigo.--_Anthero de Quental_»

* * * * *

Esta carta tão bella na fórma, e tão profunda no pensamento, apresenta porém a contradicção fundamental a que Anthero succumbiu.

O ascetismo é a contemplação mais inerte: o Bem demanda a actividade mais incansavel, o esforço mais tenaz.

Como conciliar estes dois termos oppostos? Se para o extatico e contemplativo pensador a quem o _nirvana_ sorri como o supremo fim da sua ascensão ideal, cada homem não é mais do que um momento que toma consciencia de si e logo passa, aquelle que na terra procura o Bem e tenta pelo seu esforço creal-o, sabe que se dissolvem as fórmas em que a consciencia se encarna, mas que ella, a sublime chamma não se apaga jámais... Nós os passageiros de um dia que conseguimos por instantes guardal-a no nosso seio mortal, passamos rapidos sim, mas não antes de a transmittirmos áquelles que nos succedem sempre mais pura, e sempre mais intensa...

O patrimonio real da humanidade é este: por este lhe vale a pena padecer e luctar. Este não morre com as pobres gerações que se succedem como as folhas das arvores, como as ondas do mar...

Não é pelo Buddhismo antigo, ou pela ascetica renuncia aos bens reaes da vida que a sociedade tem de salvar-se. É pelo exercicio activo das suas energias espontaneas, é pela fé na sua missão do bem, na sua ascensão a qualquer eminencia moral, que ella ainda não antevê de longe, mas que existe decerto, mas que deve existir, ou este instincto de progresso a que obedecemos, seria mais uma ironia atroz entre outras tantas!...

A prova de que esse ascetismo a que Anthero recorre na sua bella carta é esteril, é que elle, querendo salvar por este modo a sua clara consciencia e o seu espirito genial, veiu acabar na morte voluntaria, no suicidio banal dos vencidos e dos fracos!

Infelizmente era eu, tão mesquinha, e não elle, tão grande, que tinha razão, e essa razão, foi o seu acto extremo que m'a veiu dar.

Ninguem pensára mais alto e mais justo que esse homem de uma consciencia tão delicada, de uma penetração philosophica tão subtil, e cujo entendimento parecia talhado para as mais elevadas especulações da metaphysica e da psychologia.

E no emtanto elle não achou outra resolução ao problema que está presentemente posto deante dos olhos das sociedades extra-civilisadas e dos individuos que pensam intensamente, senão a do suicidio silencioso.

É profundamente desoladora a phase do espirito humano que, de vez em quando, se manifesta em factos como este.

Como escapar a este estado de descrença absoluta em qualquer destino ulterior da nossa especie? Retroceder á boa Natureza, á primitiva ignorancia dos simples, como manda Tolstoi? Mas em primeiro logar a natureza não é boa, depois, quem _sabe_ póde porventura, e só por effeito da sua vontade começar de um dia para o outro a _ignorar_?...

Cada sociedade que chega ao extremo da sua civilisação particular, o que, exaltando de um lado o orgulho natural do homem, produz por outro, no espirito d'elle, uma irritação doentia, uma penosa desesperação resultante dos limites que este acha sempre á sua curiosidade transcendente--cada sociedade que attinge esta perigosa eminencia, está por esse mesmo facto, muito proxima da sua fatal degeneração.

Nenhuma civilisação se elevou mais alto nas abstracções do pensamento, nos arrojos da metaphysica do que esse Bhuddismo em que Anthero de Quental tentava encontrar a suprema paz da consciencia humana. E o que tem elle produzido senão resultados negativos, e allucinações doentias? A civilisação antiga, grega e romana, procurou resolver o problema do destino do homem divinisando-lhe as paixões, e fazendo a permanente apotheose da força. E todos sabem em que agonia vasquejante o mundo antigo se diluiu. A Edade Media teve uma comprehensão harmonica e grandiosa da vida e do destino humano, mas tanto exigiu do espirito e tão pouco pensou na fatal realidade, que fez de cada organismo de homem um anjo e um animal perpetuamente identificados, e ao cabo do sublime esforço, respondeu-lhe o retrocesso pagão da Renascença.

O mundo moderno quer achar na sciencia a chave do todo o eterno enygma que até hoje se conserva inviolado, a explicação do universal mysterio que o envolve e penetra, a resolução de todos os problemas complexos que se têem accumulado deante do seu espirito em dois ou tres mil annos de pensamento--e a sciencia impotente, incompleta, desconsoladora não tem agua que sacie a nossa sêde, não tem piedade que unja a nossa lenta agonia!

Os melhores abdicam ou pelo indifferentismo inerte, ou pelo suicidio; que é ainda uma victoria do espirito ultrajado sobre si mesmo!

E um véo de tristeza densa e plumbea envolve este mundo enorme, agitado, convulso, atravessado de fios electricos que em minutos transmittem de um ao outro dos seus extremos o pensamento e a palavra; cortado de locomotivas vertiginosas; abarrotado de riquezas brutas; ebrio de orgulho material, de luxo e de vaidade; persuadido de que é a realisação mais completa da felicidade e do triumpho moral do homem; mas tremendo a cada abalo subterraneo que revele quão minados estão os seus alicerces e em que movediça areia assentam os seus edificios de Babel!

Comtudo ha uma affirmação, no meio de tantas duvidas e de tanta desordem mental, que póde ser feita sem medo!

O Bem existe! A consciencia humana conhece-o mesmo quando o atraiçôa ou o desdenha. É ella que o tem creado em seculos de lucta sublime! Os humildes de coração são talvez os que estão mais perto das fontes vivas d'onde elle promana, e é pela humildade e pela acceitação resignada do seu destino incompleto e triste e eternamente obscuro, que a pobre humanidade definitivamente se salvará!

Por mais que amenos e veneremos a memoria de Anthero, não podemos pois achar justo o seu suicidio.

Contentamo-nos em achal-o explicavel.

Anatole France

I

Conhece porventura o leitor este mestre do estylo, que é francez e moderno, e podia ser grego e antigo?...

Conhece este discipulo de Renan, discipulo que dispõe de mais liberdade moral e de mais fogo juvenil que o seu querido e respeitado mestre?

Anatole France é, como Renan, um _charmeur_, mas é mais do que elle--um voluptuoso.

A sua philosophia, mais _Renanesca_ do que _Hegeliana_, move-se phantasiosamente em um universo de illusões.

E as fulgidas imagens, sempre renovadas, da sua esplendida imaginação, reveste-as uma melancolia deliciosa e morbida, como se elle as evocasse com a consciencia de que lhe mentiam, e as adorasse perdidamente, mesmo depois de as saber fugitivas, falsas, ephemeras...

Um dos melhores livros que elle tem escripto, e cujas edições se multiplicam com espantosa rapidez--apezar d'elle o ter no pensamento dedicado aos delicados, aos _happy few_ de que fala desdenhosamente Stendhal--chama-se _Thaïs_.

Thaïs é uma _lenda dourada_ dos primeiros seculos christãos, que entre parenthesis estão sendo apetecivel mina de estudos litterarios, de poesias, de erudição e de arte.

Tem o livro como personagens principaes Paphnucio, um anachoreta da Thebaida, de carne mortificada pelos longos jejuns, flagellada pelos duros cilicios, curtida pelos sóes causticantes do deserto, amachucada nas caminhadas extenuantes por sobre as penhas bravas e os quentes areaes--e Thaïs, uma gloriosa e applaudida actriz de Alexandria, bella como Venus, e intelligente como Aspasia, e prodiga de affagos como as duas, em que esplendidamente se encarnára para enlouquecer e perder os homens.

Paphnucio construira nas margens do verde Nilo uma pobre cabana feita de ramos de arvores e de lodo amassado.

Vivia alli na penitencia e na castidade; na contemplação e no ascetismo. Obedeciam-lhe e amavam-no as feras do deserto; legiões de anjos, bellos como adolescentes gregos, visitavam-no de vez em quando na sua Thebaida escondida; os demonios, com figuras de animaes immundos, vagavam uivando em torno d'elle e dos solitarios que aqui e ali tinham escolhido para morada o deserto--e tentavam em vão os santos ascetas.

Quando elles iam de manhã encher as suas bilhas do barro ao poço que os dessedentava, viam as patas dos satyros e dos faunos travessos impressas na movediça areia.

Considerada sob o seu verdadeiro aspecto, a Thebaida era um campo de batalha, onde se travavam a toda a hora, e especialmente de noite, os maravilhosos combates do inferno e do céu.

Mas tão profunda era a virtude d'esses santos cenobitas que submettia ao seu poder as proprias féras.

Quando um solitario estava para morrer, vinha um leão abrir-lhe a cova com as garras. O santo homem, logo que conhecia por este signal que Deus o chamava a si, ia beijar uma por uma as faces de todos os seus irmãos espirituaes.

Depois deitava-se sereno e calmo e adormecia no seio do Senhor.

Esta descripção do Deserto e das suas maravilhas, do ascetismo e das suas visões, da Thebaida e dos allucinados combates que ahi as paixões humanas travavam com a perfeição ideal, todo este symbolismo _humano_ e comprehensivel está traçado com mão de mestre.

Parece nos seus lineamentos visiveis a pintura de um _primitivo_, tanto é certo que só o extremo requinte na Arte sabe traduzir bem a ineffavel simplicidade.