Chapter 7
Foi então que a educação dividida em dois ramos, fez da leitura e explicação dos poetas, da critica e analyse das suas obras, a sua base fundamental.
Ainda hoje a Inglaterra, sob as suas apparencias gothicas a mais _romana_ das nações, dá aos discipulos das suas universidades aquella fórte educação classica que torna tão substancial e tão nobremente florida ao mesmo tempo a eloquencia dos seus grandes oradores.
II
Sem podermos acompanhar o livro altamente instructivo de Gaston Boissier, nos variados assumptos que elle trata, sem tentarmos resumir os quadros magistraes da vida da antiguidade que elle traçou, n'essas paginas tão ricas de informação e tão sobrias de côr, escolhamos, para d'elles dar conta aos leitores, a quem este genero de trabalho interessa particularmente, alguns dos seus capitulos mais notaveis.
A biographia de Tertuliano, um apologista do christianismo, que o mundo moderno conhece apenas de nome, apesar da sua celebridade theologica não póde, por exemplo, interessar-nos tanto como a _Conversão de Santo Agostinho_.
Este Santo que conheceu até á saciedade, até á nausea, todas as delicias da volupia pagã, este joven elegante, que frequentou com tamanha paixão litteraria as escolas de Carthago, este christão que seguiu com enlevo as procissões da _Mãe dos Deuses_, e que no theatro devorou avidamente as peças ligeiras do reportorio antigo--interessa-nos pela violenta crise mortal que determinou a sua conversão.
Elle mesmo nos confessou em um livro que será sempre avidamente lido pelos prescrutadores insaciaveis do eterno abysmo humano, todas as gradações, todos os cambiantes por que passou a sua alma sequiosa do Infinito e que procurava estancar a sêde que tinha lá dentro de verdade e de luz, correndo atraz de todas as sensações acres e pungitivas, sondando com curiosidade inquieta todos os segredos da Paixão e do Prazer.
Tanto mais meritorio é o sacrificio feito por Santo Agostinho, ao renunciar ás delicias da litteratura pagã, ás graças da musa classica, aos encantos da sociedade polida e culta, quanto era sincero e apaixonado o amor que ella tinha por todos esses prazeres da intelligencia e dos sentidos.
Admirador de Virgilio, discipulo de Cicero, elle atirou-se porém, com ardente desejo de achar n'ellas a verdade que lhe fugia, ao estudo das Escripturas. Ao principio a barbaria christã revoltou o seu puro gosto. Só mais tarde é que, através da fórma incorrecta d'essas traducções hebraicas feitas por escrupulosos e ignorantes christãos, elle poude perceber as correntes puras e limpidas, os mananciaes de vida interior, as preciosas riquezas d'alma, que jorravam dos livros sagrados, e que vinham renovar a alma humana, vazar em moldes novos as suas aspirações e os seus sonhos, crear uma nova fórma de civilisação infinitamente mais rica e mais complexa do que essa, que a formidavel depravação romana tinha gasto com os seus excessos orgiacos e os seus monstruosos e nunca vistos crimes!
Todo o capitulo consagrado a essa bella figura do christianismo primitivo, a esse grande espirito que tanto concorreu para a organisação definitiva dos seus dogmas, e em que Gaston Boissier conta as suas luctas interiores e, finalmente, o triumpho soberbo da sua conversão é de um interesse palpitante.
Teem sempre actualidade para aquelles que pensam os intimos combates de uma consciencia sincera.
Aos que fôrem verdadeiramente _homens_ nada do que é humano póde ser estranho; e onde é que a maravilhosa planta dá a sua flôr mais desabrochada e mais perfeita do que n'esses typos luminosos, nos quaes o genio concretisou todos os seus esplendores, a vontade, todas as suas sublimes energias, a consciencia, todas as suas forças mysteriosas!...
Santo Agostinho é o homem que amou, que aspirou, que conheceu a vida, que luctou e que venceu por fim, sobrepondo a todas as contingencias da existencia limitada e mesquinha o que elle na sua alta consciencia julgou ser a eterna verdade!
Subir tão alto pela acção do seu proprio entendimento é conter dentro de si, em um momento cuja memoria não mais se anniquilla, fecundando eternamente outras almas e outras existencias;--aquella porção de _elemento divino_ que é dado á frágil humanidade realisar e encarnar em si bem raras vezes.
São estas almas superiores as eternas bemfeitoras da nossa raça imperfeita, tão grande pelo que sonha, tão mesquinha pelo que consegue executar.
_As origens da poesia latina christã_, que compõem o livro 4.^o, no segundo volume, são tambem cheias de interesse e novidade para quem não está costumado--e quem o está hoje em dia?--a versar tão remotos assumptos!
A litteratura christã nasceu como já dissemos da mistura que se fez durante tres seculos da antiguidade profana e do christianismo.
Aos que conhecem e apreciam a litteratura dos grandes seculos da Grecia e de Roma, deve incontestavelmente parecer mediocre, quasi insupportavel, essa rude e incorrecta litteratura, onde o melhor era imitado ainda assim, com inconsciente impudor, dos modelos antigos.
Mas muito embora ella não tenha valor litterario, ninguem póde negar-lhe um grande valor historico.
O grande abalo moral que o Christianismo imprimira ás almas não tem comtudo, um éco que lhe corresponda na poesia d'este tempo.
Era muito imperfeito o instrumento d'essa lingua latina em dissolução na qual tantos povos varios tinham introduzido as suas locuções barbaras, e que manejada por humildes artifices ignorantes as mais das vezes, perdera o sabor e a graça ampla e perfeita da aurea latinidade.
Não póde pois ser classificada como uma obra de litteratura, a serie de escriptos, que essa era,--no entretanto fecunda e na qual se estavam surdamente e subterraneamente elaborando tantos elementos novos--produziu e nos legou.
N'esse tempo cumpria-se justamente um dos maiores acontecimentos da Historia.
O mundo estava sendo revolvido até ás suas entranhas mais profundas.
Havia dramas intimos em cada consciencia, parecidos com esse, de que Santo Agostinho nos representa o mais elevado typo; havia luctas dolorosas em cada familia; em uns a sêde do martyrio tinha voluptuosidades violentas; em outros a plenitude da paz religiosa attingia uma especie de beatifico esplendor. Que novas sensações de uma intensidade inultrapassavel conheceram então as almas! Que fontes de graça mysteriosa jorraram subitamente n'esses renovados corações! Os crentes elevaram o espirito n'um extase até alli desconhecido. A vida eterna abria as portas resplandecentes aos sequiosos do eterno _au de lá_. Jesus Christo mostrava as chagas do seu corpo, e os estygmas do seu martyrio affrontoso aos que sentiam subir na alma como uma maré mysteriosa, o novo sentimento do amor, a divina emoção da piedade fraternal, que subito fizera todos os homens irmãos, e todos os irmãos soffrendo a partilha angustiosa da mesma agonia!
O Evangelho revelava as suas lendas cheias de graça, as suas parabolas de idyllica innocencia, as suas lições de simples e ineffavel bondade, aos saciados de uma civilisação dissoluta e abominavel!
Todos tinham um quinhão n'aquella herança preciosa!
Para todos havia pão e vinho n'aquella ceia symbolica, em que as almas rejuvenescidas por um sopro de amor commungavam maravilhadas!
Não é, porém, na litteratura, mesmo nos mais rudes ensaios da litteratura christã do tempo, que este mundo de emoções novas tem o seu perduravel reflexo.
A alma do povo, na sua fecundidade prodigiosa, desatou-se, abalada por este impulso que a transfigurava e sacudia, em idéas, em typos, em imagens, em lendas, que a Arte Christã em todos os seus periodos tem largamente aproveitado. Em dois seculos, do segundo ao quarto seculo, a imaginação christã elaborou e amontoou thesouros que enriqueceram o mundo moderno.
Os evangelhos apocryphos gerados espontaneamente pela alma popular, no tempo do christianismo primitivo, são os thesouros mais ricos em que essa imaginação se desentranhou.
A mais doce, a mais imaginosa poesia do christianismo encontra-se alli. Todas as lendas que fizeram o encanto da nossa infancia, e que emballaram tambem com o seu rythmo dulcissimo a risonha infancia da alma moderna, são tiradas d'essa poesia anonyma, em que todas os almas collaboraram em um enleio religioso, e em uma fé palpitante e suggestiva, inconsciente dos prodigios que creava.
Essa é que é a verdadeira litteratura christã, aquella em que as forças espontaneas que geram os mythos e os adornam com todas as flores da mais variada poesia, se revelam com encantadora eloquencia.
* * * * *
Passando em claro os capitulos consagrados a S. Paulino de Nola, um santo gaulez que inspira uma sympathia patriotica a Gaston Boissier; o capitulo que tracta da vida e das obras do poeta Prudencio; e muitos outros que estão cheios de revelações sobre a quadra que descrevem, e em que nós os leitores podemos reconstituir com intenso colorido esse seculo estranho, em que um periodo da Historia da humanidade findava e outro principia a destacar-se nitidamente--paremos deante do _Livro quinto_ do 2.^o vol. que tem este titulo que é só por si um regalo para os _gulosos_ de taes estudos: _A sociedade pagã nos fins do seculo IV_.
Mas percebo agora que cheguei ao fim do espaço de que posso dispôr. E este capitulo de costumes,--em que uma sociedade aristocrata, culta, amiga das lettras, fastienta até ao requinte, frivola até á dissipação, muito occupada de elegancias mundanas, de convenções e de cerimonias, muito sceptica, separada por um abysmo do mundo moderno cujos representantes eram justamente os que compunham a seita que ella teimava a desprezar como plebeia, humilde e ignorante, mesmo depois de fazerem parte d'ella homens de valor moral de Agostinho,--este capitulo, digo em que uma sociedade tão parecida com a nossa com os mesmos preconceitos, com os mesmos vicios, com a mesma despreoccupação do perigo está posta de pé, com admiravel vigor, precisa de um artigo especial que muito proximamente lhe consagrarei.
III
O methodo de Gaston de Boissier é, com algumas modificações secundarias, o methodo de Taine.
Para penetrar uma sociedade, o erudito escriptor estudou a sua litteratura. Para comprehender bem a litteratura de um dado periodo elle procura conhecer e investigar cuidadosamente a vida dos seus escriptores. Cada typo representativo--_representative man_, dizem os inglezes--dá-lhe o segredo das idéas, dos sentimentos que predominavam em uma determinada época.
Assim para dar a conhecer aos seus leitores a alta sociedade romana do quarto seculo, Gaston Boissier vae lêr e faz-nos lêr a nós as cartas de Aurelio Symmachus--personagem de que muitos dos seus leitores e dos leitores benevolos d'este estudo, encurralados na extrema especialisação da educação moderna, nunca de certo ouviram falar.
Todos sabem, que as cartas de Plinio, o moço, e as cartas de Cicero lançam uma grande luz sobre a sociedade da sua época, e concorreram como documentos admiraveis para que a moderna critica, tão erudita e tão comprehensiva, reconstituisse através d'ellas a alma da Antiguidade.
Pois Gaston Boissier pede ás cartas muito menos caracteristicas de Symmachus o mesmo impagavel serviço.
N'aquelle tempo, tão proximo da hora em que Alarico viria bater ás portas de Roma, ninguem percebe a imminencia do perigo que ameaçava a sociedade antiga.
Symmachus occupa-se muito pouco dos negocios publicos; acha-os, ou «nullos ou de pequena importancia.»
Quem lê as correspondencias, aliás adoraveis dos grandes amadores da _epistolographia_ no seculo XVIII, tambem não percebe n'ellas o minimo rebate dos perigos que ameaçam o regimen que ia esboroar-se em sangue e em violencias tremendas. Nem o proprio Voltaire, tão agudo de intelligencia, tão perspicaz, tão penetrante, e que tão activamente collaborára na propaganda a que se deveu a Revolução, percebe levemente a responsabilidade que assumia, e as tempestades que elle creára com a sua palavra de fogo.
Nas vesperas das grandes crises que iam transfigurar o mundo, occupam-se todos de galantarias, de ditos graciosos, de versinhos bem feitos, de anecdotas de velado escandalo, de intrigas de amor ou de ambição.
Quem presente sequer que Danton vai trovejar e que Robespierre vai sorrir sinistramente e que d'esse trovão e d'esse sorriso vai surgir um mundo novo?
Tambem hoje, um seculo depois da Revolução, quando, feitas todas as conquistas politicas, a alma inquieta, e nunca satisfeita, do homem reclama imperiosamente a solução prompta, radical do terrivel problema da miseria--quem é que percebe nos salões de Paris, de Londres, de Nova-York e de Berlim que a terrivel liquidação está a chegar, e que uma era tenebrosa de anarchia e de lagrimas, de ruinas e sangue espera porventura os que teimarem em viver muito?
É da lei das sociedades não perceberem nunca claramente as transformações que se estão elaborando no proprio seio d'ellas.
* * * * *
Como quer que seja, a verdade é que o grande senhor romano, cujas cartas nos interessam n'este momento, se não preoccupa absolutamente nada com os negocios do Imperio. Comquanto no seu tempo o Senado seja ainda um corpo importante, elle perdeu comtudo o seu antigo esplendor.
Os Senadores deixaram de ser grandes e poderosos magistrados, mas conservam-se uma classe activa, eminentemente aristocratica, impondo, ja se vê, a moda e dominando os costumes.
É justamente a transformação que se opera na aristocracia europêa, entre o fim do seculo XVII e o principio do seculo XVIII. Occupam grandes cargos honorarios na côrte imperial, como os fidalgos francezes de que nos fala Saint-Simon--e dominam--o que tambem frequentemente lhes succedia a elles--na administração interna das provincias romanas.
Um dos encargos e das honras, que estes ultimos teem e conservam zelosamente, consiste no caro privilegio de dar jogos publicos ao povo. O _pão_ e _espectaculos_, de que fala Juvenal, continuam a ser até á final dissolução do Imperio, as unicas necessidades da plebe romana. Muitas cartas de Symmachus, que era conservador das tradições antigas, tratam exclusivamente de encommendas de feras e de animaes, feitas aos amigos que elle tinha em todo o mundo.
Na occasião de investir da pretura o seu filho primogenito gastou elle uma somma equivalente a dois milhões de francos.
Para todos os lados manda emissarios encarregados de lhe trazerem artistas de merito, bichos raros, ornamentos estranhos, sumptuosos e imprevistos, com que elle possa deslumbrar os olhos da plebe e manter a sua popularidade.
N'este ponto não podemos accrescentar que o mundo moderno tenha similhanças com a sociedade antiga. Entre as nossas eleições constitucionaes e estas festas populares com que se comprava o affecto do povo, a differença não é realmente tão pequena como isso.
Os modestos banquetes, com que entre nós o eleito obsequeia os seus eleitores não se parecem lá muito com esses prodigiosos espectaculos em que sómente para lhe agradarem a elle, ao povo-rei, senadores como Symmachus mandavam vir ursos do norte, leões da Africa, cães da Escocia, crocodilos do Nilo,--d'esse _verde_ Nilo, de que Cleopatra fôra a serpente lasciva,--cavallos de Hespanha, comicos da Grecia, gladiadores saxões, mimicos, cocheiros, de Byzancio, o inferno!... Todo o mundo, então conhecido, contribuia para o prazer cruel d'esse povo insolente!
Eis um traço de costumes que demonstra, mais que mil dissertações a distancia moral que nos separa dos homens d'esse tempo, ainda mesmo dos melhores:
Symmachus, para essa festa monumental, mandára vir como gladiadores os prisioneiros saxonios, raça valente, sobre a qual contava para o pleno successo do espectaculo. Pois na vespera vinte e nove d'esses homens de bravo coração, não querendo servir para os prazeres do povo romano, estrangularam-se uns aos outros, no carcere em que os guardavam.
Symmachus, que era um bom homem, um homem culto, que conhecia a philosophia e a litteratura antiga, que sabia, emfim, tudo que sabia o seu tempo, longe de perceber a selvagem grandeza d'este acto heroico, enfureceu-se contra os desgraçados, e exclamou de muito boa fé: «Não quero que me falem mais d'esses miseraveis, que são ainda mais perversos que _Spartacus_.»
E esta exclamação de ingenua crueldade, vale mais que uma longa analyse do caracter e da sensibilidade antigos.
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O modo externo de viver em Roma differe pouco do já conhecido pelas Cartas de Plinio. As regras de civilidade social têem-se, porém, complicado ainda mais. O tempo nas altas classes passa-se a fazer e a receber visitas, a assistir a cerimonias mundanas, taes como casamentos, investidura da tunica viril, conselhos de familia, etc., etc.
A paixão das lettras é universal na sociedade elegante--tal como no nosso seculo XVIII. Os grandes e graves personagens do tempo passam a vida a trocar entre si versinhos mais ou menos chôchos e a cumprimentarem-se com effusão pelos seus talentos litterarios.
Roma acolhe os litteratos estrangeiros sob o reinado de Theodosio, como o fazia no tempo de Trajano. Os mais illustres escrevem e applaudem quem escreve, e, como no tempo dos Medicis em Florença--os quaes, já se entende, tratavam de imitar a antiguidade--ha banquetes em que se leva a noite a discutir doutamente theorias scientificas e litterarias.
A classe alta possue grandes riquezas. O nosso Symmachus, um dos menos ricos, tem tres casas em Roma e quinze _villas_ nas mais bellas regiões da Italia. Não se excede em luxo, em graça voluptuosa, em douta cultura, em elegancia magnifica, a vida d'essa classe privilegiada, cujos avós tinham conquistado o mundo e que tratava agora de lhe gosar em paz as infinitas delicias.
* * * * *
Não se imagine, porém, que só a sociedade pagã estava contaminada d'este egoismo, d'esta preguiça epicurista, d'esta artistica e sumptuosa indolencia. S. Jeronymo, que tambem, antes de convertido, tinha saboreado o gosto d'esta vida ostentosa e anesthesiante, que tambem conversára com as mulheres de espirito, lêra avidamente os deliciosos poetas pagãos, bebêra emfim até á embriaguez essas «delicias de Roma» contra as quaes se revoltava depois, é o proprio que nos conta o modo porque os ociosos e os ricos de _ambos os cultos_ passavam a existencia.
«Em que se passa o tempo na grande cidade? pergunta elle, em uma das suas cartas. Em ver e ser visto, em receber visitas e fazêl-as. Em louvar os presentes, e dizer mal dos ausentes. Começa a conversação e não ha meios de acabar.
«Contam-se historias escandalosas. Morde-se e é-se mordido. Dilacera-se quem não está, e adula-se quem ouve.»
Não parece a descripção de uma sala do nosso tempo?
Querem vêr agora o retrato de um abbade da Regencia?
«Levanta-se muito cedo e regula desde logo a ordem das suas visitas. Procura o caminho mais curto, e vai surprehender, ao sahir do leito as damas que pretende visitar. Repara, porventura, em uma almofada, em uma toalha elegante, em algum objecto d'esta ordem. Apalpa-o, admira-o, lamenta-se de não possuir nada egual, e tanto faz, que acaba por conseguir que lhe façam presente d'elle.
«Onde quer que a gente vá, é a primeira pessoa que encontra; sabe todas as noticias; corre a divulgal-as antes de ninguem; inventa-as quando lhe faltam verdadeiras, e, em todo o caso, aformosêa-as com incidentes novos em cada vez que as conta.»
Pois este abbadesinho galante, este joven padre parasita e lisongeiro, não é tal da Regencia como eu lhes disse. É de Roma no tempo de S. Jeronymo e é elle quem o descreve, com este ironico vigor, com esta agudeza espirituosa em uma das suas _Epistolas_!
* * * * *
A differença exterior entre esta civilisação e a nossa é bem grande; os caracteres divergem extraordinariamente em resultado da distancia que vai da moral antiga á moral moderna; o elemento da _caridade_, essa base fundamental do christianismo, ainda apezar de enunciado e de prégado pelos seus apostolos não penetrára profundamente nas almas, que a religião antiga affeiçoára e modelára--mas apesar de tudo isso, quantos quadros d'esse tempo que parecem copiados do tempo actual; quantas figuras d'essa época que vemos reproduzidas na nossa; quantas paixões então dominantes, que a moral da egreja, que o sentimento religioso mais desenvolvido e mais educado, que a philosophia moderna mais piedosa e mais humana, não conseguiram ainda amordaçar.
Como essa sociedade que tripudiava no luxo colossal e na ostentosa e deslumbrante magnificencia--esquecida ou despreoccupada dos perigos que a ameaçavam,--assim a nossa sociedade de hoje, tendo attingido um gráu de civilisação e de riqueza material differente, mas não inferior ás de Roma, se estonteia no gozo egoista de todos os prazeres, e no estadear cynico de todos os vicios, sem presentir que uma seita, tão tenaz como a christã, e menos pacifica e menos espiritualista do que ella, tão capaz de abnegações heroicas e de sacrificios sublimes, e não tendo como ella o seu fim exclusivo no Reino dos Céos, no Reino que não é d'este mundo, avança subterraneamente, recrutando-se nas minas onde não ha luz, nas fabricas onde não ha Deus, nas officinas onde o trabalho é uma ignominia, nas trapeiras miseraveis onde as creanças agonisam com fome entre as blasphemias desesperadas dos pais, nas enxovias immundas onde o ar falta e onde a desesperança brama sinistramente--e se prepara energica e sombria para o definitivo assalto que ha de render a velha sociedade apodrecida!
O que queriam--não esses christãos degenerados e contagiados pelo paganismo de que fala com amargo despreso S. Jeronymo--mas os grandes christãos que sacrificavam e oravam nas catacumbas, que morriam nos amphiteatros e que escreviam com o sangue do coração os seus rudes hymnos de adoração e de fé?
Queriam o desmoronamento total d'esse imperio que era a somma do todas as iniquidades pagãs, que era a escravidão do miseravel e a apotheose do mau rico!
O que quer hoje o socialismo triumphante?
A morte d'esta sociedade, cujo esplendor maravilhoso se faz com o sangue, e as lagrimas do miseravel, do, como nunca, miseravel proletario!
Não é verdade que esta similhança basta para dar ao livro um intenso e profundo interesse?
Anthero de Quental
A SUA OBRA E A SUA MORTE
I
Hesito em falar ainda de Anthero de Quental! Succedeu um tão silencioso esquecimento ao pasmo, ao sobresalto da primeira noticia do seu suicidio!... E no emtanto, se havia physionomia complexa, suggestiva, capaz de interessar e de captivar o nosso espirito era a d'este poeta de tão requintada e extrema delicadeza de inspiração e de pensamentos.
A primeira impressão que recebi da sua morte, foi tão violenta e dolorosa que em vão tentei traduzil-a em palavras, ou mettel-a no molde imperfeito e rude de uma apreciação critica qualquer.
É hoje sómente, depois de volvido um mez ou mais sobre esse suicidio, que devia enluctar as lettras portuguezas, que eu me atrevo a conversar com os leitores a respeito d'elle.
O livro dos _Sonetos_, saudado na sua primeira apparição com sincero e quasi religioso enthusiasmo, póde considerar-se como a completa confissão d'aquella alma combalida, que procurou na Morte o extremo refugio contra as luctas asperas do Pensamento, contra as chimeras perseguidoras da Imaginação.
Se o considerarmos do ponto de vista pratico e material, d'onde a maior parte da gente se colloca para julgar os homens e as cousas, Anthero não era realmente um infeliz.
Tinha, pelo contrario, mil predicados, mil qualidades invejaveis.
Tinha, primeiro de tudo, um superior e bello talento incontestado; tinha a sufficiente abastança para _não precisar viver d'elle_--o que eu pelo menos considero o maior dos bens--tinha a adoração dos amigos (que lhe chamavam _Santo Anthero_), o respeito dos estranhos, a par de uma consciencia immaculada que no exercicio do bem encontrava permanente e ineffavel consolo; tivera até na mocidade o raro dom de uma belleza de Christo, espiritual, meiga e serena.