Chapter 6
Quanto a Cesar, esse latinisou, romanisou o mundo até então descoberto; tornando possivel a sua posterior christianisação.
Sob o sceptro dos Imperadores o mundo tinha-se feito romano, e d'alli veiu que sob o baculo dos primeiros Bispos elle poude fazer-se christão. Não havia já nem raças que mutuamente se dilacerassem, nem religiões que umas ás outras se contradissessem, nem tribus que entre si se combatessem... O Imperio novo estava maduro para receber o baptismo de uma só religião, á qual as hordas barbaras viriam successivamente submetter-se...
É ainda, por isso mesmo, que os que hoje vêem na Historia a logica successão de causas e de leis produzindo a logica successão de phenomenos que são resultados, vêem em Napoleão a força ao serviço da idéa, o instrumento de uma grande transformação social obedecendo a uma missão superior, e cumprindo-a de uma fórma perfeita. A Revolução franceza sem Napoleão, não chegaria a ser um facto historico, egual nos seus effeitos á proclamação do christianismo, superior nas suas intenções á Reforma do seculo XVI.
Essa Revolução hoje tão calumniada pelos mesmos que lhe gosam os resultados definitivos e os effeitos niveladores e libertadores, acabaria, a não dar-se o apparecimento fatidico de Napoleão, em uma anarchia ensanguentada da qual nem um principio se salvaria talvez. Napoleão sahido do meio da turba, como que encarnando em si a alma do povo, liberta da sua escravidão secular, fez da Revolução um facto, um facto irreductivel, contra o qual nem a mais reaccionaria vontade pôde nada. Em primeiro logar elle formulou em leis, as doutrinas revolucionarias; o seu codigo civil tem resistido a todas as mudanças de regimen politico que ha setenta e oito annos tem convulsionado a França á superficie, sem terem comtudo alterado a sua constituição civil e o seu regimen de propriedade; depois elle fez de uma Revolução local, que tinha por origem primeira os abusos financeiros, uma Revolução universal que levou o mundo a um dos periodos decisivos da sua marcha progressiva, e que transformou completamente a organisação social de toda a Europa moderna.
Os seus exercitos assoladores como eram, e não os defenderei mesmo contra os que lhe chamam as hostes de Attila, os seus exercitos semearam, sem o saber, sem o querer talvez, a semente da liberdade por toda a parte onde levaram o lemma da usurpação e da tyrannia. Elles passaram, e sob os pés d'essas legiões terriveis que espalhavam o assombro e o pavor, ergueram-se por encanto instituições novas, e os povos readquiriram a dignidade e a liberdade, ambas perdidas na abjecta subserviencia ao despotismo sem grandeza das modernas dynastias.
XIV
As bellas theorias optimistas dos doutrinarios que haviam proclamado os _Direitos do homem_, a Egualdade, a Liberdade e a Fraternidade, a bondade innata da especie humana, o retrocesso á boa Natureza, o Culto da razão humana como a religião melhor e a mais infallivel, tinham produzido, ninguem sabia em virtude de que sortilegio hediondo, uma horda de freneticos cannibaes, devorando-se uns aos outros com delicia selvagem e requintes de odio e covardia, ao pé dos quaes empallideciam as descripções que o passado nos legou das suas peiores tragedias.
Ninguem atinava como de tão puras premissas tinham sahido tão horrendos resultados; ninguem podia explicar como do bem se gerara tanto mal, como do progresso das luzes se tinha feito tão negra escuridão, porque motivo intenções tão sublimemente generosas tinham produzido tão monstruosos e contradictorios effeitos.
A primeira embriaguez da liberdade sem restricções e sem limites, produz sempre no homem esta demencia má. A Historia assim o diz, mas n'esse tempo era apenas uma restrictissima minoria, a que sabia lêr a Historia e colher as suas lições.
Imagine-se que Napoleão não tinha então surgido; que depois da orgia de sangue que se chamou Terror, e da orgia de lodo e vinho e que se chamou Directorio, não se erguia, mais alto que qualquer individualidade e qualquer instituição, essa força disciplinadora, organisadora dos partidos internos, subjugadora dos inimigos estranhos, tão poderosa, tão efficaz, tão capaz de querer, tão profundamente inimiga da anarchia mansa, que dissolve as nações e da anarchia brava que as esphacella.
A reacção mais desbragada e mais insolita tomaria então conta da França, que n'esse momento decapitada, mutilada, exangue e sceptica, não achava dentro de si nem uma energia redemptora, nem uma crença activa, nem uma só fibra que não estivesse morbidamente combalida.
O sublime esforço de tantos genios humanitarios seria por um longo periodo, que hoje não podemos calcular com acerto, inteiramente perdido; da Revolução restaria apenas a memoria dos seus inexpiaveis crimes. E porque havia rolado nos degraus da guilhotina a bella cabeça precocemente embranquecida de Maria Antonietta, e porque o pobre e burguez e inoffensivo Luiz XVI tinha expiado, como quasi sempre succede em politica, os erros e as faltas dos seus antecessores, acontecia que Montesquieu, Voltaire, Rousseau, Turgot, Condorcet teriam pensado, escripto, meditado, trabalhado em vão.
Quem é que seria capaz de pacificar os partidos exasperados a não ser esse homem superior a todo o seu tempo, superior á sua raça, e que pôde congregar no mesmo fim:--fazer grande e gloriosa a patria commum;--os vencidos e os vencedores, os regicidas e os ex-emigrados os que tinham escapado por milagre ás proscripções jacobinas e os que as tinham decretado, Fouché e Talleyrand, os filhos da antiga aristocracia espoliada, e os triumphantes espoliadores que estavam na posse do que fôra d'ella?...
E d'essa agglomeração de interesses contrarios, de ambições que se excluiam, de classes que eram antagonicas por instincto e por circumstancias, de adversarios que se odiavam mutuamente, quem tirou a França poderosa, affirmativa, unificada pelo mesmo codigo de justiça, enriquecida pelo mesmo regimen de propriedade, tendo conquistado a egualdade civil para todos os seus filhos, vendo abertas todas as carreiras para as individualidades que se distinguissem no seu seio, consolidadas todas as conquistas, emfim, d'essa liberdade que ameaçara suicidar-se, envenenando no seu sangue aquelles que d'elle haviam sonhado nutrir-se?
* * * * *
É este o papel cumprido por Napoleão na Historia, é esta a sua missão na França; como foi sua missão no mundo espalhar, propagar os principios da Revolução que elle, sem talvez o querer, representava como ninguem!
Os que o julgarem mais tarde hão de julgal-o assim, e hão de perdoar ou escurecer, como succede com Cesar, como succede com Alexandre, os seus erros e defeitos pessoaes, os quaes, feito o balanço final, que só o futuro fará, foram talvez mais uteis do que nocivos, porque contribuiram para o inutilisar no momento em que o seu papel deixava de estar em estreita harmonia com as circumstancias que necessitaram a sua cooperação.
Ultimamente, porém, desenvolveu-se no mundo a febre de atacar ou defender o caracter pessoal de Napoleão em _memorias_ numerosissimas, em folhetos, em livros de historia, em pamphletos, em ensaios criticos, etc., etc.
Quem deu o _branle_ a este movimento bibliographico extravagante, que tem como heróe Napoleão, foi Taine em um dos seus volumes sobre as _Origens da França Contemporanea_, em que traçou do grande homem um retrato, por todos conhecido hoje, retrato á Rembrandt, cuja belleza magistral não fere á primeira vista senão os verdadeiros entendidos, quer dizer os psychologos e os observadores e moralistas.
Taine para desenhar Napoleão serviu-se do seu velho processo de documentos miudinhos juxtapostos, que não é de certo o mais interessante para o grosso publico. Interrogou as testemunhas oculares, os criados, as damas de honor da Imperatriz Josephina, as pessoas que mais ou menos estiveram na intimidade e no contacto directo de Napoleão. Ora, é bem sabido _que não ha grande homem para o seu criado de quarto_, mas ainda assim Napoleão excede tanto a craveira commum e Taine sabe de tal modo vivificar os mortos documentos com que fórma o seu _dossier_ de investigador, a sua imaginação auxiliou-o de tal modo, indo procurar nos _condottieri_ do seculo XIV e XV, como Stendhal já fizera antes d'elle, os antepassados cuja influencia hereditaria e atavica, se fez sentir com tão pittoresco relevo no grande aventureiro do seculo XIX--que mais contribuem para a grandeza de Napoleão as accusações de Taine, que os elogios de mediocridades incapazes de entenderem a verdadeira grandeza.
Já se vê que um homem como Napoleão não póde ser julgado pelo nosso codigo moral. O seu potente cerebro, o maior de certo que a determinados respeitos tem havido no mundo, não se deixa subordinar pelas leis fatalmente restrictas, pelas quaes a simples humanidade tem de reger-se para mutuamente se supportar.
A sua imaginação portentosa põe-n'o continuamente a dous passos do crime ou da loucura; as suas paixões indomitas não conhecem regra, como não conhece obstaculos a sua vontade inflexivel.
É em virtude d'estas faculdades extraordinarias que elle é capaz de executar cousas que os outros nem em sonhos ousariam conceber.
Não admira que as _memorias_ do tempo lhe sejam muitas vezes contrarias. Elle teve de subjugar muitas vontades, de se contrapôr a muitas ambições, de humilhar naturalmente muitas vaidades, de excitar muita inveja e muito despeito, para que os seus contemporaneos mais intimos sejam capazes de perdoar-lhe a grandeza excepcional de um destino que a todos offuscava.
Mas o que ninguem póde negar-lhe é o poder singular de seducção que o seu sorriso irresistivel, que o seu olhar de aguia exerciam. Venceu e dominou todos os que se lhe approximavam, e os proprios imperantes, seus inimigos, receberam, ao contacto d'aquella grandeza simples que o distinguia, o choque electrico que se communicava fatalmente da alma d'elle ás almas com que a sua estava em contacto.
O retrato de Taine indignou, porém, apezar da sua incontestavel belleza artistica, apezar da sua expressão intensa de vida, dos toques _humanos_ que o fazem palpitar, os adoradores de um Napoleão imaginario, todo virtudes burguezas de familia, e clemencia de _Moral em acção_ e um escriptor francez para mim desconhecido, o Sr. Arthur Levy, acaba de publicar um grande volume com o fim de contrapôr o verdadeiro Napoleão, o que elle chama _Napoleon intime_, ao terrivel grande homem descripto por Taine, e de contradizer o critico francez em todas as suas asserções ácerca do caracter pessoal do Imperador.
Ora, o _Napoleon intime_ do Sr. Arthur Lévy é a mais falsa personagem historica que póde imaginar-se, embora seja todo elle composto, como um mosaico laboriosissimo, de pedacinhos de cartas escriptas por Napoleão, e de pedacinhos de documentos de uma authenticidade incontestavel.
O que mais irrita o auctor do _Napoleon intime_ é a hereditariedade italiana, que Taine tão logicamente lhe attribue. _Um burguez francez dos quatro costados e com todas as virtudes médias e as qualidades mediocres da burguezia francesa_ eis o que o Sr. Levy pretende fazer do heroe das Pyramides e de Austerlitz e de Arcole e de Wagram!...
Sobre o tumulo de soberba pedra moscovita, que a piedade de nacionaes e estrangeiros visita quotidianamente em veneravel recolhimento, poder-se-hia escrever segundo o criterio do Sr. Arthur Levy, o que sobre a sepultura de um burguez de 1830 mandou gravar a familia consternada:
_Bom esposo, bom pae, bom filho e bom guarda nacional._
_Napoleon intime_ está escripto, é verdade, com grande copia de referencias, de citações e documentos. Em primeiro logar, documentos e citações truncadas nada significam. Depois, quando muito, elles poderiam provar que uma das faces do multiplo caracter de Napoleão era essa que o Sr. Arthur Levy quer apresentar como predominante: isto é, uma certa fraqueza, que é frequente nos seres superiores para o seu _entourage_ mais intimo, para a familia, para a mulher, para os amigos, sempre que os amigos lhe não resistiam.
O heróe de mil batalhas desde as campanhas da Italia e do Egypto até essa admiravel campanha de França, a de mais superior estrategia, segundo asseveram entendidos; o organisador, o administrador, o general extraordinario em cuja visão se gravava toda a topographia de um paiz, com os seus accidentes de terreno, os seus valles, e montanhas, os seus recessos, as suas planicies, os seus pontos mais fracos e os mais fortes, e que fazia d'essa sciencia rara a applicação mais genial e a mais pratica; o homem de mil occupações simultaneas, que deslumbrava, pasmava, esfalfava os seus collaboradores subalternos; o violento, o apaixonado, o teimoso, o tyranno; o organismo de uma delicadeza de impressões, de uma violencia de impulsos, de um apuro de sensibilidade excepcionaes; o que suggeria milagres e os fazia; o que subjugou e seduziu uma nação inteira; a figura, emfim, _unica!_ em toda a Historia moderna, que foi Napoleão, nem por um momento transparece nas paginas de uniforme e banal elogio que o Sr. Arthur Levy lhe consagra laboriosamente.
Napoleão antes queria, de certo, esse retrato ás vezes de um crú realismo de toques, que Taine lhe consagrou, do que o monotono panegyrico d'este seu incommodo admirador.
Aquelle que eu fui ver aos _Invalidos_ é talvez o Napoleão de Taine, o do Sr. Levy, oh! esse é que affirmo com a infallibilidade da minha intuição de mulher, que não é de modo algum.
Segunda parte
O fim do Paganismo
(GASTÃO DE BOISSIER)
A litteratura franceza da actualidade é pouco abundante em obras fundamentaes de sciencia ou de historia, embora conte no seu seio dois dos historiadores mais brilhantes dos modernos tempos Renan e Taine. Á excepção, porém, d'estes dous grandes espiritos, que devem as linhas principaes da sua educação intellectual á Allemanha e á Inglaterra e nos quaes são profundamente sensiveis essas influencias estranhas--póde dizer-se que a grande geração dos Michelet, dos Quinet, dos Auguste Comte não deixou herdeiros capazes de nobremente a representarem.
Continúa, porém, a escrever-se muito em França, e como as qualidades eminentemente sociaveis d'esta nação privilegiada a tornam apta para o seu grande papel de propagadora, de educadora dos espiritos, póde bem accrescentar-se que nós os europêus do Occidente quasi tudo que sabemos, o sabemos passado pelos livros da França.
Ou traduzidos para francez ou assimilados pelo espirito da França, é por esse caminho que nos chegam todas as grandes idéas mais ou menos novas, elaboradas ou transformadas pela raça anglo-saxonia, pela raça germanica, ou pela raça slava.
Eu por mim lamento infinitamente que em Portugal a litteratura ingleza por exemplo seja tão incompletamente conhecida. Tenho achado tantas vezes um gozo incomparavel na leitura de escriptores inglezes, que não posso deixar de sentir que esse intenso prazer intellectual não seja mais universalmente partilhado. E é-o tão pouco que ha tempos uma amiga minha--muito instruida e _grã ledora_ por signal--me affirmava ter ouvido a um _homem de Estado_ portuguez, ministro, e não sei que mais, se mais alguma cousa póde haver que ministro, na opinião _imparcial_ de quem o é,--affirmar audaciosamente que para provar a inferioridade mental da Inglaterra bastava dizer isto: _é que a Inglaterra não tinha uma litteratura!_
Que a patria que viu nascer desde Chaucer e Spencer, até Shakespeare, Milton e Byron, desde Bacon até Herbert Spencer, desde Addisson até Macaulay, desde Richardson até Georges Elliot, desde Bunyan o inspirado da Religião até Carlyle o inspirado da Historia--perdôe as heresias do joven estadista, meu compatriota, cuja ignorancia me parece o estar realmente predestinando para governar e dirigir a nossa metaphorica Náu do Estado, por muitos annos e bons.
Vinha tudo isto a proposito de eu ter hoje, contra o meu costume, de apresentar um livro francez tão erudito, tão profundamente e facilmente elaborado, tão cuidadosamente feito sobre documentos authenticos, como se o firmasse o nome de um inglez estudioso, ou de um sabio allemão.
O livro, chama-se _O fim do paganismo_ e deve-se á penna autorisada e seria de Gaston Boissier da Academia Franceza, grande e sincero cultor da antiguidade latina e autor de obras muito importantes sobre a historia das lettras classicas.
A obra é enorme. Tem dous volumes macissos que tratam unicamente de assumptos estreitamente ligados ao seu titulo, mas apezar d'isso lê-se com immenso agrado, porque é profundo sem ser pedante, é vivo sem ser desordenado e está escripto com um sentimento intenso e profundo da época que o inspirou.
Essa época é aquella em que as ultimas luctas religiosas se travaram no Occidente entre o Paganismo que expirava e o Christianismo que irrompia ardente, impetuoso, tumido de seiva, cheio de um longo futuro das entranhas fecundas da humanidade.
Abre com o seculo IV pela conversão de Constantino, isto é, pela christianisação do Imperio Romano, e fecha com a invasão dos barbaros e com a destruição d'esse Imperio assombroso, que até ás vesperas da sua completa anniquilação fez o espanto até d'aquelles mesmos que mais soffreram d'elle, e que não podiam crêr que elle fosse destruido!
Ja se vê que nos é impossivel em um artigo, ou mesmo em uma série de artigos, resumir este trabalho que representa longos annos de estudo e de paciente investigação; que reflecte a leitura aturada do mais enfadonho e difficil de todas as litteraturas, a da egreja primitiva e a de Roma decadente.
Não queremos, porém, deixar de anunciar este livro áquella classe de leitores que amam sinceramente o estudo, e principalmente o estudo da historia, um dos mais attractivos, um dos mais interessantes que existem no mundo, porque é um d'aquelles que suggerem mais variedade de pensamentos e mais extensa série de impressões intellectuaes.
A que logo se destaca d'esta obra monumental de que tivemos a paciencia de lêr attentamente as mil e tantas paginas é esta: Como nas mais diversas épocas, os homens, tendo attingido um certo gráu de civilisação, se parecem entre si!...
Quantas similhanças frisantes, que identidade de pontos de vista encontramos entre os homens que figuraram no IV seculo da nossa éra e os homens de hoje!
Não admira, porém, isso tanto, logo que pensarmos que ha bastantes similhanças entre a phase de civilisação que atravessamos e a d'esse seculo que assistiu ao esphacelar de um immenso imperio, ao fim tragicamente melancolico de uma religião, á transição violenta e brutal na distancia, mas menos violenta de facto do que a imaginámos, de um regimen para outro que lhe era totalmente opposto.
Não é por uma historia systematicamente escripta, chronologicamente ligada pelos factos, que Gaston Boissier nos inicia n'essa quadra tão afastada de nós.
O auctor preferiu um methodo muito mais captivante e talvez um pouco menos difficil.
Traça quadros differentes e livros completos em si. Fórma como que uma galeria de figuras typicas, cuja influencia se tenha feito sentir pela sua obra escripta ou pela sua acção directa sobre os contemporaneos.
Escolhe aquelles que deixaram um nome celebre e analysa-lhes os livros, as cartas, as poesias, etc. etc. Pede á historia do tempo que lhe forneça os seus documentos mais incontestaveis e reconstrue com elles ou uma physionomia de Imperador ou uma figura de Poeta, ou uma veneravel e grandiosa imagem de Bispo ou de Doutor da nascente egreja.
Constantino, o imperador convertido, Julião, o imperador apostata, são dois estudos de alto interesse historico e psychologico. Em ambos, o auctor vê dois convertidos, dois fanaticos, um do christianismo que se apossa da sua alma e a transporta em allucinações supremas, outro dos velhos deuses, abandonados, cuja restauração prepara com paixão fogosa e arrebatamento devoto.
Nem Constantino é o ambicioso que muitos historiadores têem imaginado e descripto, nem Julião é o livre-pensador que Voltaire enthusiasticamente applaudia.
São duas almas sinceras que usáram do poder illimitado que possuiam, para imporem ás almas dos outros a fé que os transportava. Julião vingava-se assim da oppressão em que o tinham tido longos annos e associava á causa dos deuses vencidos a sua propria causa de opprimido e de victima.
* * * * *
No livro intitulado _O Christianismo e a Educação Romana_, Geston Boissier, o erudito escriptor, traça o mais brilhante quadro d'essa educação antiga, cujo poderoso encanto é tão penetrante, é tão subtil que nunca mais ella deixou de ser a base da instrucção que o mundo tem dado aos seus modernos filhos.
Foi por meio da educação, dada publicamente por mestres pagãos á mocidade christã, que os dois cultos inimigos se fundiram no coração e na imaginação da humanidade. Sem darem por isso, os christãos receberam a influencia do paganismo expirante, por meio dos livros dos seus poetas sublimes e dos seus admiraveis prosadores.
Quem bebera com o leite as inspirações de Homero e de Virgilio; quem aprendera a bem pensar com Platão e a bem dizer com Cicero; quem recebera a magistral lição da Philosophia e do Direito antigo; quem formára o seu espirito por esses moldes incomparaveis, não podia mais esquecer o mel de tão doce eloquencia, a graça de tão perfeita poesia e a lição viril de tão alta sciencia philosophica!
S. Jeronymo, Santo Antonio, Santo Agostinho, os grandes doutores, os grandes luminares do christianismo, estão todos penetrados, até á medulla, d'essa influencia suprema e invencivel.
Foi, portanto, por meio da educação, que os dois elementos, o pagão e o christão, se fundiram harmoniosamente.
É de um interesse profundo o quadro que Gaston Boissier desenha d'essa educação romana, tão propria para formar chefes politicos e chefes militares incomparaveis. Mas no seculo IV da éra christã essa educação modificara-se muito, a ponto de já não parecer a mesma, nem ser capaz de produzir os mesmos fructos. Um romano de grande familia não conhecia, nos tempos aureos da vida d'esse imperio, senão dois officios: a guerra e a politica. Aprendia no campo a guerra; a politica aprendia-a, não, lendo Aristoteles ou Platão, mas assistindo diariamente ás sessões do Senado.
Esta educação pratica de uma efficacia admiravel fazia então os valentes capitães e os famosos dominadores politicos.
A Inglaterra contemporanea, de todos os paizes modernos o que mais se parece com a Antiga Roma imperial, tambem cultiva a força viril dos seus filhos nos mais variados _sports_ que a desenvolvam; na natação, na nautica, nas corridas de cavallos, na lucta athletica, nos jogos da gymnastica moderna,--mais sabia, embora menos esthetica do que a antiga,--e tambem começa, de muito moços, a exercital-os na arte da palavra, na educação que forma os oradores, os _debaters_, os grandes parlamentares da eloquencia ou dos negocios.
Nas Universidades de Oxford e de Cambridge, ha _clubs_ especialmente destinados á discussão dos negocios publicos, onde se propõem e se debatem assumptos de interesse nacional e de politica geral.
Mais tarde, quando os professores gregos se estabeleceram em Roma, os _grammaticos_ e os _rhetoricos_ tomaram conta da mocidade, ou nas escolas publicas, ou no seio das grandes familias.
A Grecia cultivara com enthusiasmo a philosophia, a musica, a rhetorica, etc. Os Romanos, porém, de uma inaptidão esthetica tão justamente reconhecida por Mommsen--não acceitaram com prazer, de quantas artes e sciencias lhes trouxeram os seus educadores gregos, senão a grammatica e a rhetorica. A philosophia affigurava-se-lhes um palavriado vão e inutil; a geometria e as mathematicas só os captivavam pelas suas applicações de utilidade pratica; eram para elles a arte de contar e de medir.
A rhetorica, porém, essa arte de falar que tanta influencia produzia na imaginação antiga, impoz-se-lhes fatalmente após as primeiras reluctancias do instincto conservador, que detestava tudo que era innovação.