Pelo mundo fóra

Chapter 5

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Foi admiravelmente virtuosa, sem ser por isso implacavel para as paixões que a cercam, e que fazem d'esse tempo um capitulo do mais accidentado romance.

Amiga extremosa de Fouquet, vê-se em riscos de sahir levemente compromettida do processo do Intendente de finanças, em cujo cofre de galantes segredos se encontram cartas d'ella. No emtanto essas cartas são simples pedidos em favor de um ou de outro protegido da marqueza, e se provam alguma cousa é a bondade, a generosidade do seu coração prompto a acudir e a valer. Se Fouquet guardava preciosamente esses bilhetes formalistas é porque talvez no coração do galante financeiro a formosa physionomia de madame de Sevigné tivesse produzido uma impressão excepcional; mas isso não basta para comprometter uma mulher que as primeiras pessoas da côrte, em influencia e em virtude, protegem ardente e abertamente. Um dia Tonquedec, fidalgo da Bretanha, e o duque de Rohan-Chabot em casa d'ella, e por causa d'ella, armam uma especie de briga que conclue por um encontro no campo, como todas as brigas d'aquelle tempo. Nem por isso a fama de madame Sevigné soffre a mais leve arranhadura. Que culpa tem ella das loucuras e dos extremos que inspira a sua «razoavel» e formosa pessoa!

O conde de Ludre esteve vae não vae a vencer as resistencias mysteriosas d'aquelle coração de mulher que a precoce experiencia da vida endurecêra para o amor.

Mas, aquelle asseio de arminho, aquelle amor das cousas justas, rectas e claras, que é em certas mulheres um preservativo efficaz contra os desfallecimentos da vontade, e o exclusivismo ardente do seu amor materno, salvam-n'a d'essa tentação suprema, como a salvam do prestigioso amor de Turenne, da côrte persistente do principe de Conti, do amor claro ou disfarçado de tantos entre os melhores, entre os mais queridos e os mais felizes em aventuras femininas.

No meio d'esse fogo que accende, a marqueza conserva-se alegre, calma, gostando das anecdotas picarescas bem contadas, prompta a receber uma confidencia escabrosa, comtanto que lh'a façam com espirito e bom humor; indulgente para o amor da sua maior amiga pelo duque de la Rochefoucauld, indulgente para as historias mais ou menos salgadas que de todos os lados lhe vêem aos ouvidos, dotada d'aquella philosophia tolerante que a mulher virtuosa tem como ninguem, porque sabe, como ninguem, o preço da virtude.

XII

Insensibilidade? Não de certo. Amor bem entendido de mãe, e medo talvez de soffrer mais do que soffrera já na sua curta experiencia da vida conjugal, a que um duello infeliz--e por causa de uma mulher--tinha dado fim.

Quem soube no amor maternal pôr tantos requintes de sensibilidade, tão intensa paixão, tanta vida, tanta abnegação, tão louco enthusiasmo, o que seria em outra ordem de sentimento em que taes excessos são quasi naturaes? O que a salvou foi talvez o exagero da propria sensibilidade. Teve medo de si. Sondou-se e percebeu de que loucuras seria capaz, amando, aquella que da maternidade serena e calma soube fazer uma paixão tempestuosa. Tendo bebido na infancia o amor dos grandes sentimentos á Corneille, de que a propria Mlle. de Scudery, a feiissima Sapho fez na sua obra vasta uma grandiloqua caricatura; iniciada pelos seus mestres Ménage e Chapelain nas extravagancias grandiosas da litteratura hespanhola; tudo que provavelmente via em torno de si estava longe de corresponder ao seu ideal de sacrificio eterno, de inalteravel constancia. D'ahi, provavelmente, o seu proposito firme de se refugiar no amor materno, extrahindo d'elle tudo que podia formar o alimento da sua alma exigente, ambiciosa.

Depois ella viveu em uma quadra e em um meio em que o papel de espectadora tinha o maximo interesse e podia satisfazer até mesmo um espirito como o seu. Tudo que a cercava era digno de attenção e de estudo. Tudo interessava, ensinava e dava ensejo para longas reflexões.

Em cima Luiz XIV--o Jupiter que ella viu sempre com olhos de adoração, de quasi deslumbramento, olhos com que o seu tempo o viu tambem, com que a posteridade continuaria a vêl-o, se o desastre final de sua obra lhe não désse a sorte que tem sempre os vencidos, e se Saint-Simon não tivesse revelado ao mundo, com a sua espionagem genial, o monstruoso egoismo, o acanhado espirito, a mediocre envergadura intellectual d'esse idolo com pés de barro;--Luiz XIV que o amor divino e divinamente desinteressado da La Vallière envolvera em uma nuvem de olympico prestigio. Abaixo d'elle,--tudo n'esse tempo ficava muito abaixo d'elle--essa adoravel Henriqueta de Inglaterra, fina, branca, lyrial, que a prematura morte embalsamada na eloquencia sublime de Bossuet, e a vida cheia de graça, de encanto aristocratico e talvez de amor, transformaram na figura impregnada da poesia mais subtil d'aquelle periodo accidentado e romanesco. Em torno d'esses astros de primeira grandeza gravitam milhares de satellites de um brilho fulgurante e deslumbrador.

O amor e a guerra, como nos romances da cavallaria antiga, fazem d'essa côrte alguma cousa de excepcional na Historia do mundo.

A guerra já se vê, não como a faziam Frederico da Prussia ou Napoleão, mas a guerra pomposa que celebrou pomposamente Boileau; a guerra em que os banquetes, as festas, os bailes se entremeiavam aos combates; em que um cerco durava longos mezes, e cada marcha parecia uma cavalgada festiva...

_Mademoiselle_, a _grande Mademoiselle_, apaixonada por Lauzun chorava todas as lagrimas de seu corpo porque lhe não deixavam desposar o eleito do seu coração; a epopéa gentil das Longueville, das Chevreuses, das lindas e intrepidas heroinas da _Fronda_, andava ainda em todas as memorias e em todas as imaginações. Hoje era Luiza de la Vallière a mais doce martyr de um regio amor de que reza a Historia, que depois de pedir humildemente perdão á sua rival coroada do escandalo que dera, fazia da ceremonia da sua consagração a Deus um d'estes acontecimentos palpitantes com que vibra uma geração inteira; amanhã é Montespan, a altiva Wasthi, a sultana magestosa que toma posse do seu logar de favorita com um impudor, uma soberba, uma pompa theatral, que escandalisam, que emocionam, que fazem trabalhar as pennas todas da côrte em _comptes rendu_ mais ou menos pittorescos, mais ou menos eloquentes...

Depois as guerras entre os Jesuitas e Port-Royal; a lucta theologica entre Fénélon e Bossuet; o apparecimento de uma tragedia de Racine; a publicação dos _Caracteres_ de La Bruyère; as _Maximas_ do Duque de Larochefoucauld; o livro de Madame de La Fayette; um sermão do Pére Bourdaloue; um conto de La Fontaine; os acontecimentos os mais sagrados e os mais profanos, as leituras mais edificantes e as mais gaiatas, os incidentes mais comicos e os mais tragicos--tudo se succede, tudo se entrelaça, fazendo da existencia um espectaculo tão alegre, tão variado, tão divertido, tão interessante, tão _atordoador_, que facil foi a Madame de Sévigné resignar-se a não pôr na sua propria vida interesses dramaticos, que outros se encarregavam de fornecer-lhe em profusão.

_Basta a curiosidade para encher a existencia_, disse algures Fontenelle. Esta _maxima_ de egoista acha-se justificada pensando na vida de madame de Sévigné.

Onde ha espirito mais eminentemente _curioso_ no sentido elevado e espiritual da palavra do que o d'esta eminente e deliciosa personalidade femenina?

Ella tem a curiosidade intelligente de todos os phenomenos de ordem moral e intellectual. Interessa-a o espectaculo das paixões humanas e achou um theatro perfeitamente adequado ao genero de observações que mais a divertem.

A côrte de Luiz XIV, antes que madame de Maintenon tivesse desdobrado sobre ella o véo de hypocrita devoção em que tão cautelosamente se embrulhára, é tudo que ha de mais proprio a interessar, a apaixonar um observador, um moralista como Madame de Sévigné.

_Moi qui aime tant à faire des reflexions_, esta phrase vem mil vezes nas suas adoraveis cartas. E que assumpto sempre vivo, sempre palpitante para reflexões não é essa côrte, onde tudo que as paixões humanas têem de mais ardente, de mais insaciavel, de mais caracteristico, de mais desordenado, se manifesta sob os mais variados aspectos e nas fórmas mais pomposas...

O amor sem outra lei que não seja a inconstancia e o capricho; a ambição sem outra restricção e outro limite que não sejam os que fatalmente lhe impõe a fraqueza humana; a inveja, a soberba, a cubiça mais desenfreada, o orgulho ao mesmo tempo mais feroz e o mais cheio de aberrações inexplicaveis, orgulho que principalmente se compraz nos excessos mais abjectos do servilismo--e todos estes diversos sentimentos, uns simples, outros complexos, uns harmonicos, outros contradictorios, manifestados atravez de caracteres em que ha ainda relevo, contorno accentuado, individualidade inconfundivel, energia pessoal.

Póde haver espectaculo mais digno de interesse, contemplação que sem talvez elevar o espirito o divirta e o instrua mais?

Não é, porém, o jogo complicado, brutal ou subtil do interesse e das paixões pessoaes, o unico objecto de estudo para o espirito de madame de Sévigné. Ella tem uma vasta leitura, uma aptidão para se interessar pelos estudos mais aridos, quasi maravilhosa.

Quando a vida em Paris a cança, quando a sociedade habitual do seu salão começa a enfastial-a um pouco, quando as graças de monsieur de Coulanges, a extrema amabilidade de d'Haqueville (o qual é tão extraordinariamente serviçal e de tal modo se multiplica para satisfazer os seus amigos que lhe mereceu a ella a alcunha de _Les d'Haquevilles_) lhe parece um tanto massadora, quando a gotta de M. de La Rochefoucauld o faz dar gritos que lhe excitam demasiadamente a sensibilidade, quando Le Père Bourdaloue a tem fatigado de predicas, quando emfim o _meio_ habitual em que ella se move tem perdido, pela continuação, um pouco do seu interesse e da sua novidade, quando as salas que ella frequenta e das quaes é o querido adorno mais precioso e raro, não offerecem assumpto nenhum que a satisfaça, quando a côrte está em uma phase de semsaboria estacionaria, sem incidentes e sem dramas, eil-a que parte para Livry, ou para os _Rochers_, e ahi na paz deliciosa do campo, que ella e La Fontaine são no seculo XVII os unicos a _sentir_, passeia sósinha debaixo das arvores, ouve o rouxinol, o cuco, e _la fauvette_, saboreia a graça primaveril do arvoredo em flor, e consagra a noite a longas leituras em que ha de tudo, Tasso, Cervantes, Descartes, Racine, La Fontaine, até Horacio, porque a encantadora marqueza sabia latim e até o ensinou á filha.

* * * * *

O que mais celebre torna deante da posteridade Mme. de Sevigné, o seu amor pela filha, é a maior prova de quanto póde a illusão sobre um cerebro, sobre um coração de mulher! Mme. de Grignan, _la plus belle fille de France_, como lhe chamavam os que queriam por uma tocante attenção lisongear o coração da mãe, não é realmente digna por motivo nenhum da adoração que inspira. Pedante, interesseira, ambiciosa, gastadora, ingrata sobretudo, ingrata para essa mãe adoravel cujo crime unico foi preferil-a em tudo ao irmão, Carlos de Sevigné, tão sympathico quanto ella é antipathica, tão dedicado quanto ella é egoista, tão apaixonado pelas graças, virtudes e encantos da mãe, quanto ella parece ser-lhes indifferente, Mme. de Grignan tem por unica virtude a de ter inspirado essas deliciosas cartas, em que um periodo longo e interessantissimo da Historia se reflecte com incomparavel vivacidade, com uma frescura, um pittoresco, uma animação que jámais serão excedidos.

No final da minha visita ao museu, quando eu tinha achado prazer infinito em evocar estas visões do passado, e muitas outras que não podem caber no limitado espaço d'estas notas, o guia que não sei porque tinha sympathisado commigo e com meu amavel companheiro, decidiu de si para si que nós eramos dignos de ser apresentados ao conservador do museu, Monsieur Cousin, que não sei se é parente do celebrado philosopho do eclectismo.

Levou-nos, pois, a um gabinete reservado onde nos esperava uma encantadora surpreza. Monsieur Cousin vive fechado em uma pequena sala, furtada a todas as vistas profanas, imaginem com quem?

Com madame de Grignan! Não madame de Grignan em carne e osso, que isso não seria no fim de contas uma companhia por demais preciosa. Imagino que a convivencia de _la plus belle fille de France_ não era tão agradavel que a propria mãe, idolatra como era, não preferisse viverem em casas separadas, quando madame de Grignan vinha a Paris tractar das suas innumeras demandas, e discutir com juizes, advogados e procuradores como uma verdadeira _madame Pimbêche_ que era.

Não, a maneira por que madame de Grignan se achava representada n'aquelle gabinete escondido, era por meio de um esplendido retrato de Mignard. A filha da encantadora marqueza apparece alli formosissima. Cabellos de um louro fulgurante, veneziano, o louro de Ticiano, ou de Palma Vechio; pelle branca, transparente, atravez da qual se sente gyrar um sangue vivo e puro, olhos azues de uma belleza profunda e rara, penteado levantado na frente e voluptuosamente entrelaçado de rubras flôres de romeira e de flôres brancas de laranjeira.

No peito, completamente decotado, um ramo viçoso das mesmas flôres.

--Flôres de Provença, fez-me notar Mr. Cousin, com aquella nota carinhosa na voz, que revela o namoro de um velho sabio, o namoro que o seu homonymo Cousin teve pela duqueza de Longueville e pela de Chevreuse!

--Flôres do meu Portugal, atalhei eu, que ao vêl-as tivera tanta saudade do meu pequeno paiz longinquo.

Se a minha antipathia a Mme. de Grignan não fosse fundada e irreductivel, tinha-a destruido de certo este adoravel retrato que a representa verdadeiramente formosa, e o que é mais, seductora! retrato que, apezar de ser de Mignard, parece feito na maneira ampla e superior dos grandes mestres.

Assim a viu o pintor, assim a viu sua mãe, assim a vê em pensamento e feliz enlevo o velho conservador, que se fechou com ella em um quarto e que a não deixa avistar se não a raros profanos!

O meu passeio pelo Museu Carnavalet mais me confirmou na eterna ironia das cousas grandes ou pequenas!

Não posso deixar de confessar que, tirando as minhas evocações intimas, a melhor impressão que de lá trouxe, deu-m'a o retrato da minha _inimiga pessoal_.

XIII

Uma das horas mais commovidas da minha vida foi aquella em que entrei nos _Invalidos_ para vêr o tumulo de Napoleão.

Sei bem que é esta uma excursão obrigada aos viajantes da agencia Cook, aos _touristes_ prud'hommescos da provincia, aos _badauds_ de todas as origens, procedencias e classes.

Mas terão esses porventura sufficiente poder para banalisar uma figura como a do Imperador?

Depois, eu fui criada por uma mãe enthusiastica de gloria, no culto quasi fanatico de Napoleão.

Para mim elle nunca foi, como para os meus compatriotas do principio do seculo, o _ogre da Corsega_, o monstro peior que Nero e Caligula. Pelo contrario. As manchas do seu caracter só muito mais tarde a historia m'as fez conhecer. Na minha mocidade não me falavam senão nos esplendores da sua fama e nos prodigios da sua heroicidade.

Tantas mudanças teem passado pela França desde que, em uma ilha solitaria e longinqua do Oceano, o grande homem expirou, renegado e abandonado por todos os seus, que eu receiava encontrar lá muito esmorecida a sua memoria, muito apagados os vestigios de sua passagem.

Enganei-me. A lenda napoleonica resuscita com insolito vigor n'essa França de que ella foi a gloria ultima e inultrapassavel!

Havia n'essa occasião justamente em Paris a exposição dos quadros de Meissonier, e essa exposição admiravel dominavam-n'a dois quadros, que nunca mais podem ser esquecidos depois de uma vez terem sido vistos.

O primeiro quadro intitula-se _1807_. É Napoleão depois de _Friedland_, triumphante, glorioso, acclamado.

O Imperador ainda magro, esbelto e sobrio, monta o seu lendario cavallo branco, rodeia-o um estado maior de marechaes deslumbrante e numeroso, a cada titulo dos quaes esta ligado um nome retumbante de batalha e de gloria; os seus granadeiros admiraveis, a sua velha guarda fanatisada e invencivel acclama-o em gritos que positivamente se _ouvem_ na tela palpitante de Meissonier.

É o momento culminante da epopeia grandiosa. Sobejam os assombros, os crimes apparecem n'um esplendor de purpura que lembra menos a côr do sangue do que a côr da aurora!

A tyrannia já se revela em mil symptomas da vida do conquistador e da vida do imperante. Os povos já perguntam n'um brado ululante de angustia em nome de que direito derrubam os seus thronos tradicionaes e lhe invadem os seus lares pacificos!

Mas ah! mais forte do que esse gemido desolado das nações invadidas, mais forte do que o choro convulso das mães a quem arrancam continuamente os filhos, os mais bellos e os mais fortes,--é o clangor bellico do clarim que avisa a França da suas victorias incontaveis! Lodi, Arcole, Rivoli, Marengo, Iena, Austerlitz, estão em todas as boccas, produzem em todos os cerebros o assombro, o respeito, o enthusiasmo!

O segundo quadro--_1814_--é a retirada, é a derrota, é a melancolica derrocada do sonho gigantesco e sobrehumano.

O heroe vem cançado, abatido e triste. Cavallo, cavalleiro, cortejo militar, paizagem circumdante, tudo respira a mesma desolação e o mesmo abandono!

A velha guarda ficou sepulta nos gêlos da inhospita Moscovia; os marechaes cançados, são os mesmos que vão acceitar, suggerir a _déchéance_ proxima....

Entre um anno, o da gloria soberba e unica, e outro, o da derrota universal, quantos crimes de lesa-nação, de leso-direito, até de leso-entendimento. Napoleão acabára por sentir aquella embriaguez dos Cesares que os atirava ao crime e á loucura em virtude de uma attracção irresistivel e fatal.

Vencera todos e perdera o segredo indispensavel de se vencer a si proprio. D'aqui a ruina, d'aqui, depois da tragedia de Waterloo, o suplicio _prometheano_ de Santa Helena!

Bastavam estes dois quadros para dar a Meissonier o logar eminente que elle tem entre os pintores francezes. Accusam-n'o de ser minucioso em demasia, de ter uma concepção acanhada da arte, de dar muito mais attenção aos pormenores que á esthetica geral da sua obra; mas estes dois quadros desmentem todas as accusações que lhe fazem os seus detractores. Meissonier comprehendeu a verdadeira grandeza, a grandeza epica, a que inspirou Homero e Camões; a que faz ainda hoje palpitar os frios corações d'esta era de industrialismo e de interesse egoista.

O heroe que elle alli nos representa, tanto na hora estonteadora do triumpho, como na hora tragica da derrocada, é o mais importante dos _grandes homens_, no dizer de Carlyle, o que vale mais que todos os outros, porque é aquelle a quem a vontade de todos se subordina em um impeto de lealdade e adoração.

Eu tinha visto, havia pouco, os dois quadros famosos de que não posso nem sei descrever o interesse, a expressão, a intensa vida suggestiva, quando fui visitar nos _Invalidos_ o tumulo de preciosa pedra, em que as cinzas de Napoleão estão guardadas.

Lá está elle cercado por doze silenciosas estatuas de marmore que symbolisam victorias, e de bandeiras crivadas de balas que seu exercito conquistou.

Não houve nada de banalmente curioso na minha visita; era uma romaria piedosa feita a um idolo da minha mocidade, á unica figura grandiosa que a edade moderna póde apresentar em face das grandes figuras antigas que se chamam Alexandre ou Cesar.

Em toda a parte o tenho visto; a sua figura que participa da Lenda e que é da Historia, protege ainda a França como uma divindade tutelar contra a onda da _mediocracia_ que avança. N'esse paiz onde hoje apenas soam réles nomes de réles _politiqueiros_, echoa a pequena distancia um nome que vale mais que todas as outras glorias modernas. Que valem Frederico II ou Pedro o Grande, que vale Luiz XIV, que valem Condé ou Turenne ou Luxemburgo, que valem Colbert ou Vauban, que valem Guilherme d'Orange, ou Malbourough, que valem Walenstein ou Carlos XII ao pé d'este homem estranho, homem do destino, que reuniu em si, a todas as qualidades brilhantes do guerreiro, as qualidades solidas do administrador; que foi legislador e soldado, que dominou e venceu a anarchia, que levou atravez do mundo inteiro, do Sena até ao Neva e do Tejo até ao Vistula a idéa da Revolução, de que elle foi a formula tangivel, o propheta feito homem, a representação concreta e o visivel symbolo?!

É por isso que só na Antiguidade se encontram dois homens cuja missão excedeu em importancia universal aquella que Napoleão representou na Historia, e que esses dois homens são Alexandre e Cesar.

As campanhas de Alexandre tiveram no desenvolvimento intellectual da Grecia e do mundo uma influencia enorme e decisiva:

Não é para mim falar das maravilhas estrategicas d'essas campanhas, das quaes uma manobra celebre foi genialmente reproduzida por Napoleão em Austerlitz; mas o que interessa á humanidade inteira e por mim póde ser lembrado, é a impulsão gigantesca que a intelligencia do homem recebeu quando o genio grego foi pela primeira vez profundamente penetrado pelo genio do Oriente, quando os capitães e os soldados da guerreira Macedonia venceram o amollecido imperio persa, e caminharam desde o Danubio até ao Nilo, desde o Nilo até ao Ganges, vendo cada dia cousas novas, sentindo cada dia impressões e suggestões até alli desconhecidas; quando elles estremeceram ao sopro gelido que vem dos paizes que se alastram ao longo do mar Negro, e foram quasi que asphyxiados, pelo simoun ardente, pelos vendavaes de areia dos desertos do Egypto; quando se assombraram deante das Pyramides que tinham resistido a vinte seculos de velhice, e interrogaram em vão os obeliscos de Luqsor cobertos de indecifraveis hieroglyphos, e as longas fileiras de esphinges mudas, mysteriosas exhalando de si o pavor de um symbolo inexplicado! quando admiraram as estatuas colossaes de reis que na aurora do mundo haviam vivido e reinado, e se assentaram nos salões de Esar Haddon sobre os thronos dos velhos reis da Assyria que enormes leões alados estavam sombriamente guardando havia seculos e seculos...

Á Grecia revelaram-se então noções do Universo que ella ignorava; maravilhas estranhas de uma civilisação que não fôra feita como a sua de proporção e de harmonia, mas que esmagava pela grandeza, e que se impunha pela força colossal.

Pela Iliada e pela Odyssea se percebe que observadores eram os filhos subtis da alada Grecia.

Tudo que elles então viram e estudaram foi aproveitado mais tarde nas fórmas de uma civilisação nova, mixto do que a hellenica teve de mais bello e a oriental de mais grandioso.

E que sensações deliciosamente novas lhe não daria essa paisagem que elles então conheceram e na qual havia de tudo, desde os areaes sem fim até aos Jardins do Industão; desde as miragens do deserto até ás densas sombras das florestas profundas; desde as montanhas cuja crista se ia perder no seio das nuvens, até ás redondas colinas esbrumadas em nevoa de um tenue côr de rosa; desde o tigre real de salto felino e ondeante e o elephante que em Arbelle fazia tremer a terra sob o peso gigantesco do corpo desforme, até ao rhinoceronte e o hippopotamo, o camello, e o crocodilo, do Nilo e do Ganges; d'essa paisagem em que as arvores eram palmeiras e tamarindos, oleandros e verdes myrtaes; em que os homens tinham todas as côres e todos os trages; em que ao Persa acobreado succedia o Syrio queimado do sol, e o Africano côr da noite...

Tudo isto era um encantamento e uma surpreza, tudo isto continha e incluia em si resultados que assombraram o mundo.

Os conhecimentos exactos, as noções verdadeiras e positivas acêrca do universo, podem bem datar-se das campanhas famosas de Alexandre. Foi então que se fez essa união fecunda e miraculosa do espirito hellenico e do espirito oriental, a India, a Persia, a Babylonia, continham em germen Alexandria e as suas escolas, os Arabes e a sua civilisação ephemera mas deslumbrante...