Pelo mundo fóra

Chapter 4

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Tem a poesia selvagem e a graça outoniça, e saudosa. Parece um paiz devastado onde se deram lutas de titans, por onde passou o sopro de uma tempestade cyclopica, onde a natureza estrebuxa em cataclysmos tremendos, e faz ao mesmo tempo o effeito calmante e doce de um ninho de verdura que abriga a alma dolente, e a envolve no filtro subtil das suas essencias vegetaes. O outomno na floresta de Fontainebleau, quando as arvores se revestem de toda a riqueza infinita de colorido d'esse periodo divino, quando a pompa victoriosa das fortes verduras acres de seiva se degrada e decompõe em tons expirantes de um encanto mysterioso, em como que gangrenas vegetaes que desde o purpureo sangrento e o amarello alaranjado vão até ao côr de lilaz e ao côr de malva,--o outomno alli deve ser um poema de voluptuosa melancolia, d'estes que só sabem saborear os que se deleitam na tristeza como em um nectar sagrado, defezo ás profanidades do vulgo...

Não admira que n'essa floresta tenham vindo meditar e soffrer tantas grandes almas desenganadas da illusão multiforme da vida.

Conta Michelet, que perguntando a uma mulher intelligente para onde ella quereria fugir se uma grande dôr lhe désse a sêde, a necessidade de um asylo no seio da Natureza, ella lhe respondera:--Para Fontainebleau.

--E se tivesse uma alegria enorme, uma alegria que lhe dilatasse a alma até ao infinito, onde mais lhe agradaria estar:--Em Fontainebleau!

É que realmente aquella paizagem, como diria Amiel, representa todos os _estados da alma_.

Por isso S. Luiz nas suas fundas dôres, quando as idéas e os sentimentos do seu tempo agonisavam, dando-lhe um espectaculo que lhe pungia atrozmente o coração, era alli na floresta sombria que ia rezar pedindo a Deus conforto e paz.

Luiz XIV vencido e velho, corroido por esse tédio dos Cesares, a quem nada resistiu--que é de certo o estado de espirito que mais deve approximar-se da infinita desolação de Satanaz, foge de Versailles, das suas pompas, dos triumphos que os seus pintores lhe coloriam e que então não eram mais que ironias diabolicas do passado orgulho, e vem procurar, sob as arvores colossaes da floresta amiga, o repouso, o silencio, o adormecimento ás suas lancinantes dôres de rei... Francisco I, desenganado d'esse sonho da Italia, que durante os seculos XV e XVI perseguiu os reis da França, vem alli construir uma Italia franceza que o console de haver perdido a outra, a que Miguel Angelo e Raphael, Bramante e Donatello, Leonardo de Vinci e o Ticiano tinham feito tão fascinadora e tão grande!...

É em Fontainebleau que Napoleão se despede do seu sonho homerico e sublime, d'esse sonho de um Imperio Universal, que unificasse o mundo civilisado sob um despota intelligente, e que lhe foi commum com Alexandre, com Cesar, com Carlos Magno e Carlos V, com todos os grandes capitães da historia, tão raros como os grandes poetas.

É alli que essa epopéa magestosa e tremenda se lhe desfaz nas tremulas mãos que assignam a suprema abdicação do poder e da gloria.

Quantas recordações me suggere esse logar fatidico de Fontainebleau, ou seja o palacio de fadas, ou seja a grande floresta sombria e vasta, onde talvez os Celtas, ascendentes dos francezes de hoje, colherão no tronco dos annosos carvalhos o _qui_ das evocações druidicas.

E sahindo d'essas espheras da grandeza social para outra, mais ampla talvez, mas menos visivelmente pomposa, é em Fontainebleau, que Georges Sand e Musset dão aquelles ultimos passeios tão tristes, de uma melancolia feita de tanta saudade, quando _elle_ já sabe que não podia viver sem _ella nem com ella_, como diz a triste cantiga peninsular quando _ella_ começa a perceber, que, Ashaverus femenil do amor, tem de percorrer até ao fim o seu amargo e cru fadario, sem encontrar quem satisfaça a sua sêde do infinito, sem poder parar n'essa caminhada atroz em procura do _impossivel_!

Que fundo de paizagem tão triste para um fim de amor! Onde poderiam elles encontral-o que lhes saturasse a alma de mais tristeza, de mais melancolia, de mais intensa e inexoravel saudade!...

Era alli ainda que Musset voltara mais tarde evocando em soluços immortaes as melhores recordações do seu fatal amor.

Dante pourquoi dis tu qu'il n'est pire misère Qu'un souvenir heureux dans les temps de douleur Quel chagrin t'a dicté cette parole amère Cette offense au malheur!

En est il donc moins vrai que la lumière existe Et faut-il l'oublier du moment qu'il fait nuit Est ce bien ta grand âme immortellement triste Est ce tu qui l'as dit?

Non, par ce pur flambeau dont la splendeur m'éclaire Ce blasphème vanté ne vient pas de ton coeur Un souvenir heureux est peut-être sur terre Plus vrai que le bonheur

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As estatisticas dirão quantas leguas quadradas tem a floresta; os naturalistas saberão explicar quaes as diversas qualidades da sua flora, e que essencias se distillam das suas varias resinas; eu sei sómente que ella me encantou, como uma das mais bellas cousas que os meus olhos ainda contemplaram. Fui a Barbozin, a aldêa em que Millet e Rousseau pintaram as suas télas melhores, e evoquei alli as figuras da litteratura contemporanea que tem por fundo magestoso--bem mais magestoso do que ellas são grandes!--a floresta divina de Fontainebleau.

A scena capital e magistral da _Sapho_ de Daudet é alli que se passa; quando o pobre moço, empolgado pelo polvo terrivel que é para a mocidade uma mulher perdida, tenta despegar-se d'ella, quer fugir-lhe para recomeçar ao longe uma existencia calma e boa--em harmonia com as leis sociaes, protectoras para quem as respeita, inexoraveis e implacaveis para quem as despreza ou para quem as illude--e é vencido irreductivelmente pela piedade que ella lhe inspira, por aquelle bramido de animal, longo, constante, ininterrupto, com que _Sapho_ acorda e sobresalta os écos de immensa solidão ao vêr imminente a ruptura de que elle lhe fala, que elle com mil precauções lhe faz prever... Grande quadro e de uma moral acre e dolorosa mas incontestavel, que os moços deviam meditar, se é que os moços meditam, se é que a mocidade é compativel com a previdencia e o calculo.

O parisiense tem a uma hora e meia de caminho de ferro essa grande matta que é uma das maiores da Europa e a maior da França, por isso parte da litteratura contemporanea a tem para theatro das suas scenas de enthusiasmo, de paixão ou de desespero.

Os pintores vão alli procurar os effeitos maravilhosos da luz penetrando na espessura, banhando-a em purpura, recortando em fundo de ouro a renda delicada da sua folhagem, picando de pontos deslumbrantemente luminosos os seus intersticios mais miudos e mais finos; Millet arrancou-lhe em paginas immortaes o segredo da religiosidade infinita que possuem as velhas arvores; Rousseau recortou em pequenas télas retalhos de paizagem em que a alma das cousas palpita mysteriosamente.

A floresta de Fontainebleau educou uma geração de paizagistas, qual d'elles mais penetrado da melancolica poesia da natureza. Que benefica tem sido a sua calma e suggestiva influencia, que saudade eu tenho da luz a que ella me appareceu, luz primaveril, que punha tons de um tenro ineffavel em cada rebento, que rejuvenescia os velhos troncos colossaes!

É perto d'alli o lindo Castello de Francisco I, a que é preciso conduzir o leitor. Deixemos, pois, a floresta e penetremos no palacio.

X

Nos seculos XV e XVI todos os principes, todos os poderosos da terra tiveram um distinctivo commum que os caracterisa: o seu amor enthusiasta das maravilhas da arte.

Sabe-se o que foi Lourenço de Medicis, esse Mecenas da litteratura italiana, esse amante apaixonado e prodigo da erudição, da architectura, da pintura, da estatuaria. Esse homem intelligente e sagaz, poeta elle proprio, e apezar de humanista notavel, sacudindo com bastante independencia o jugo do antigo que pesava demais sobre as musas da Italia,--mereceu a gloria suprema de ficar immortal no marmore modelado pela garra de Miguel Angelo.

O _Penseroso_, das estatuas do mestre uma das mais emocionantes, uma das mais mysteriosamente e tragicamente bellas, teve por modelo o grande homem florentino, cujo tumulo havia de adornar mais tarde. Leão X, Julio II e Clemente VII, foram os papas mais doudos pela arte de que reza a historia.

Ludovico o Mouro encheu de bens e de glorias a Leonardo Da Vinci; os chefes da aristocratica Republica veneziana não hesitavam quando se tratava de pagar com prodigalidade louca aos seus soberbos pintores. Mas Francisco I, o rei da França a quem se deve a magica de Fontainebleau, esse não sómente adorava a Arte, mas era amigo apaixonado dos artistas.

Sabe-se o enthusiasmo louco com que elle acolheu na sua côrte o já octogenario Leonardo Da Vinci.

--«Hei de afogar-te em ouro, dizia elle a Benevenuto.--_Faço-te conego_--exclamou deslumbrado para o italiano Rosso no dia em que este, pela primeira vez o fez penetrar n'essa galeria esplendida, ainda hoje chamada de Francisco 1.^o--em que o rei desenganado e cançado passou depois quasi todos os ultimos annos da sua accidentada existencia. E a promessa extravagante cumpriu-se tal como se fez. Rosso teve um logar de conego na collegiada da Sainte Chapelle.

O que fizera elle para merecer tão piedosa distincção? Pintára o mais estranho e luminoso carnaval de alegria e de côr, que ainda a imaginação febril de um artista d'aquelle tempo de febre concebera e realizára.

Uma multidão pantagruelica em que ha de tudo: o bello e o horrendo, o delicioso de graça, e o grotesco; figuras virginaes a que talvez serviram de modelo para o pintor, e de encanto ephemero para o rei, as doces raparigas que alli perto ceifavam as tremulas searas, ou iam buscar as amphoras cheias de agua crystallina das rochas, ás fontes de Fontainebleau que Jean Goujon e Benevenuto vão fazer idealmente bellas.

No meio da immensa turba de mulheres e de homens, uma flora e uma fauna inteiramente novas, a flora e a fauna que os navegadores e os conquistadores da peninsula iberica acabavam, no fim das suas aventurosas viagens, de revelar ao velho mundo attonito.

A delicia de Francisco I não teve limites ao entrar n'aquelle recinto encantado em que o mundo da arte lhe desvendava os seus aspectos mais bellos!

Interrogador e curioso como era, cada quadro lhe suggeria uma pergunta e uma investigação nova.

O mundo estranho de que o Rosso pintava algumas das maravilhas ineditas fazia scismar o pagão devoto que Francisco I era, como todas essas crianças grandes da Renascença.--Mas então mentia a Biblia quando contava a creação do homem?

Essas raças, cujo segredo agora se desvendava pela vez primeira, não eram tal, não podiam ser filhas do biblico Adão?

E a terra movia-se em torno do sol? Onde ficavam n'esse caso as palavras de Josué?...

Depois contavam-lhe as magnificencias da Turquia, a magnanimidade de Solimão, as maravilhas da civilisação arabe, tão superior em certos pontos n'aquelle tempo á civilisação christã, e esta idéa de que o turco não era finalmente o ante christo, o inimigo figadal de todo o bem e de todo o bello, produzia um espanto infantil no animo de Francisco I.

Tempo encantador este de que a galeria de Fontainebleau ouviu as conversações curiosas, mixto de tudo que ha mais ingenuo e mais subtil, mais refinado e mais credulo!...

Ao lado do fauno sensual, do satyro coroado, que foi Francisco I,--o qual para contrapor aos seus vicios innumeros teve sómente a vibrante sensibilidade para tudo que é bello;--surge a Margarida das Margaridas, a encantadora, a diserta, a latinista, a intelligente rainha de Navarra. N'aquelle tempo saber latim não é um requinte de pedantismo, é uma exigencia da fina cultura.

Quem não soubesse latim não sabia nada, não tinha conhecimento nem da poesia no que ella tem de mais perfeito e mais bello, nem da Historia no que tem de mais suggestivo e de mais inspirador. Ora Margarida amava os poetas e a poesia, e ajudava seu irmão a fazer a Historia, aconselhando-o, auxiliando-o, inspirando-o, negociando por elle com os diplomatas do tempo.

A sciencia, a erudição, a poesia enchem o espirito de Margarida; quem lhe enche completamente a alma é o irmão, esse irmão grosseiro e sensual, natureza que, a não ser o amor da arte, seria feita do barro mais vil, e que mesmo salvo por esse amor, que é no fim de contas mais uma sensualidade requintada do seu temperamento que uma aspiração espiritualista, reflecte a omnipotencia dos seus instinctos animaes no soberbo, no inolvidavel retrato que d'elle fez Ticiano, o maior retratista do mundo, aquelle que melhor traduz a profunda expressão moral, a mobil physionomia, o caracter pessoal inconfundivel de cada um dos seus modelos...

Esse perfil de fauno sensual, que o Ticiano retratou, domina e absorve o coração delicado e subtil de Margarida.

Por isso eu a evocava agora, na galeria soberba, em que o sol entra a flux, ao lado do rei seu irmão, analysando com elle as bellas pinturas que fazem das paredes um kaleidoscopo tão curioso e illuminado, em que o velho e o novo mundo se confundem, discutindo--com Budé seu bibliothecario, com Duchatel seu leitor, com os dois irmãos du Bellay, os celebres humanistas da Renascença franceza, seus favoritos e commensaes,--um dialogo de Platão que tivesse acabado de lêr em grego, um verso de Virgilio de que ella houvesse ha pouco saboreado o nectar subtil, servido na lingua de ouro do seculo de Augusto; uma apostrophe de Cicero, nas suas Catilinarias, mais abrazada em rhetorica flamma; conversando com Marot, seu poeta e seu servidor, ácerca da medição e do rythmo de um hexametro ou de um hendecassyllabo; ou perguntando a todos elles, curiosamente, avidamente, informações ácerca do novo livro extravagante que um physico e antigo tonsurado chamado Rabelais acabava de dar á estampa em Lyão, contando as mirabolantes e inverosimeis aventuras de Gargantua e Pantagruel, dois gigantes de quem ninguem até alli ouvira falar, e de Panurgio, o maior sacripante que de memoria de homem fôra celebrado em lingua vulgar...

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Ao reinado do prisioneiro de Pavia segue-se o do mystico e apaixonado Henrique II. Margarida eclypsa-se na sombra, e á musa dos poetas succede a inspiradora dos artistas ébrios de enthusiasmo...

No céo da Renascença azul e ouro, é Diana quem desponta... A Salamandra, emblema e symbolo do rei que arde continuamente na flamma impura do desejo, sem jámais chegar a consumir-se, é substituida pela inicial de Henrique enlaçada por dois crescentes symbolicos, e esta data assim poeticamente indicada vale para a posteridade muito mais que a mais rigorosa chronologia marcada pelos sabios. Este anagramma amoroso representa um grande amor, um estranho sentimento que participa do mysticismo cavalleiresco e do sortilegio magico, do ideal mais puro e do _envoûtement_ mais pavoroso.

Quem é esta esbelta Diana, ligeira, airosa e bella? Não o perguntem á Historia, que essa, implacavel como a verdade, falar-lhes-ha de uma velha furia, sedenta de dinheiro e de vinganças, esmagando os povos, que a maldizem, com o peso das contribuições mais engenhosas, das que tiram o sangue e a pelle á plebe opprimida que se lamenta em vão.

Perguntem-n'o á Arte, a magica divindade que transfigura tudo aquillo em que toca. Responder-lhes-ha a Diana de Jean Goujon, encostada familiarmente ao veado manso e bello que lembra o principe encantado das lendas, ou mais longe ainda, sempre modelada pelo sublime artista, contemplando amorosamente o mesmo bicho symbolico, que approxima da bocca finamente recortada da deusa a sua bocca de animal, como que a pedir o beijo mysterioso que quebre o encanto que o tem encarcerado n'aquella fórma inferior e que o restitua bello e victorioso á antiga fórma humana.

Responde-lhes a Nympha de Benevenuto Cellini, ora entre as féras que caçou e os galgos que as perseguiram, ora estendendo-se voluptuosa junto á frescura das fontes, ora caminhando nua pelos campos, seguida pelo cortejo das nymphas que ella, a Diana immortal, a inspiradora dos eternos amores que não se extinguem, domina inalteravelmente pela altiva elegancia e pelo magestoso porte regio.

De todas estas imagens estranhas, inverosimeis, de corpo longo e flexivel, que parecem copiar na pedra dura a fluidez das aguas correntes, o baloiço ondeante das hervas altas, a voluptuosa flexibilidade das lianas que se enredam e entrelaçam,--de todas estas imagens que a arte prodigalisou aqui, a nossa imaginação compõe uma só figura, um só vulto, uma só imagem que as concretiza a todas.

É a mulher amada e triumphante, a Diana dos encantos invenciveis e inviolados, a que pediu á deusa, sua madrinha o segredo dos filtros que fazem parte do seu culto antigo, para ser eternamente amada, contra o tempo, contra a fortuna, contra tudo...

A arte que a immortalisou no marmore devia-lh'o. Ninguem como ella fez da arte uma auxiliar, uma amiga, uma feiticeira cumplice dos seus encantamentos de mulher. Que importa o que diz a historia de Diana de Poitiers? Quem fala verdade é a Arte. De todas as mil illusões de que a vida se faz e se compõe, só ella é mais intensa do que a realidade, e mais verdadeira do que a verdade!

XI

Uma das excursões feitas por mim com mais prazer é a dos Museus, tanto artisticos como historicos.

Deixo para mais tarde falar no que senti em frente de alguns quadros do Louvre ou do _Museu de Madrid_ e vou falar agora da minha visita ao museu Carnavalet. O palacio em que este museu está estabelecido pertenceu a Madame de Sévigné e foi habitado por ella; d'aqui a quantidade de recordações d'esta mulher encantadora, que o povoam e para mim o tornam particularmente interessante.

Ha logo á entrada um busto d'ella que me fez parar enlevada em contemplação de uma das physionomias mais espirituosas e mais sympathicas que o Passado legou aos nossos dias.

O _nez carré_ de que ella fala nas suas cartas, e que tornaram celebre os seus contemporaneos referindo-se tantas vezes a elle, lá está, mas sem diminuir, antes accentuando o encanto da sua expressão. Os lindos cabellos penteados ao _nome d'ella_, (porque aquelle penteado de caracoes que enquadra tão graciosamente o rosto feminil ficou sendo chamado _á Sevigné_) dão um caracteristico especial á sua bella cabeça de juvenil matrona adoravel. O bom humor, a graça gauleza sorriem na bocca espirituosa e finamente recortada.

A gente não se espanta, ao ver este lindo busto de mulher, de que o original inspirasse verdadeiras e ardentes paixões, e que até aos sessenta annos houvesse, não quem a requestasse á moda de Ninon ou de Catharina da Russia, mas quem quizesse casar com ella, como quiz o duque de Luynes, que por signal foi repellido.

Para mim, digo francamente, o _Museu Carnavalet_ é Madame de Sevigné e não é mais nada. Este museu, extravagante contraste! está cheio de recordações revolucionarias. Lá está uma reducção feita, creio que em pedra, da Bastilha, lá está uma galeria, por signal detestavel, de retratos dos vultos principaes da revolução.

Por debaixo da fileira de retratos em que figuram Mirabeau, Robespierre e Marat, está a cadeira em que expirou Voltaire. A collocação pareceria propositadamente feita, senão fosse antes uma necessidade de symetria, pois que, encostada á mesma parede na outra extremidade da sala, está tambem a cadeira em que expirou Béranger.

Entre Voltaire e os homens da Revolução a affinidade é vizivel para o espirito, mas o pobre Béranger é que não vem aqui ao caso para cousa alguma, de modo que a intenção philosophica que eu á primeira vista attribui aos conservadores do museu ficou prejudicada pela segunda idéa que elles tiveram de collocar a cadeira de Béranger em symetria com a de Voltaire.

Uma conclusão apenas me atrevo a tirar: é que em França quem sahe do vulgar morre _de cadeira_. Incommodissima maneira de dar a alma ao Creador! Ainda bem que nem a Béranger posso aspirar, quanto mais a Voltaire; isto augmenta as minhas probabilidades de morrer deitada na propria cama, unica maneira pela qual me appetece sujeitar-me á sorte commum de todos os mortaes.

Não venho, já se vê, fazer uma descripção miuda do _Museu Carnavalet_. Além de não ter fixado tanta cousa que vi--e que vai desde os troços de ruinas e dos barros romanos achados em diversas excavações recentes ou antigas, desde truncados monumentos, ou fragmentarios tumulos, pertencentes a epocas ainda anteriores ao dominio romano, até a centenas de reliquias da Revolução--não acho que isso seja sufficientemente interessante para o leitor, a quem não posso communicar impressões que não recebi.

Ha, por exemplo, no _Museu_ uma collecção enorme de caricaturas da época de Luiz Filippe, feitas, creio, que em barro. São hediondas. Tudo que teve um nome no reinado d'esse rei dos burguezes, burguez elle proprio dos pés até á cabeça, alli está representado sob uma fórma que produz _cauchemar_, á força de irritantemente feia.

Lembro-me por exemplo de uma cousa que me impressionou: uma ordem autographa de Luiz XVI ordenando aos suissos da sua guarda que cessassem o fogo que estavam fazendo contra o povo. Ora, esta ordem--a ultima que elle assignou como rei--encerra nada menos que a sua abdicação e a sentença da sua morte e dos seus.

Acabada a resistencia, o monstro jacobino pôde refocilar-se á vontade no sangue regio. Ninguem mais se levantou deante d'elle para obstar ao direito da sua vingança secular.

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Tudo isso que em outro logar e em outra ordem de idéas me produziria a maior impressão, alli apparecia-me inopportuno e deslocado.

Como aquelles objectos friamente classificados me pareciam estranhos ao tempo de febre de que elles são as reliquias, por assim dizer, mumificadas!... É preciso, para que certas recordações do passado nos «empolguem», se apossem ardentemente de nós, que as evoque a imaginação omnipotente e creadora de um Michelet ou de um Carlyle! De outro modo, em vez de nos tornarem mais «vivo» o tempo a que se referem, parece que o recuam indefinidamente nos limbos do passado.

Um «museu» tira a vida aos objectos que encerra; não os conserva.

Assim como o processo de enterramento dos egypcios, creado em odio á morte, concorre para tornar mais saliente a idéa da morte, assim tambem o desejo de conservar certas reliquias parece que lhes diminue a realidade no passado. É possivel que eu exprima muito vagamente uma cousa que sinto sem a saber muito bem traduzir, mas o leitor intelligente, que tem visto muitos museus e tem talvez sentido esta mesma desconsolação, comprehende perfeitamente o que ella significa!

Repito, pois: o encanto do museu Carnavalet tirei-o eu de mim mesma, evocando n'aquellas frias salas que percorri, acompanhada pelo indispensavel guia, as figuras que outr'ora as encheram de animação e vida.

Vi madame de Sevigné e o seu querido tio, o bom abbade de Livry, que tão bem se sahiu da educação da sua querida e intelligente pupilla.

Pareceu-me escutar as finezas hyperbolicas, que á moda do tempo, Ménage e Chapelain, dirigiam cada um por seu lado á amavel e gentil Maria. Ménage resolveu ensinar-lhe italiano e hespanhol, e resolveu, o que é peior, apaixonar-se loucamente por ella. O bom pedante perdeu, já se vê, o tempo e o feitio que não era de amoroso, como egualmente o perdeu um homem que é o perfeito contraste d'elle, o cynico, o duellista, o _donjuanesco_ Bussy Rabutin, que, depois de amar Madame de Sevigné, a odiou de morte, e depois de a odiar tornou a querer-lhe muito, encontrando-a sempre de pedra pura os seus transportes, mas capaz de apreciar o que havia de scintillante e caustico no seu espirito, de intrepido no seu valor, de melhor no seu pouco bom caracter. Viuva com vinte e dois annos, e em uma côrte licenciosa, em que ella propria se mostra cheia de estranhas indulgencias para os peccados alheios--tudo passou por ella sem lhe macular de leve a fimbria do seu vestido branco.