Pelo mundo fóra

Chapter 3

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Transposta a grande porta, que lembra o portão de uma das nossas quintas, achámo-nos dentro de um cerrado bastante vasto, em que o chão é musgoso e esverdinhado, em que ha recantos de herva alta e viçosa, e por sobre os muros do qual, verdes ramarias de arvores espreitam curiosamente...

A dois passos do vertiginoso movimento de Paris respira-se aqui uma paz profunda, uma quasi solidão melancolica e doce.

Aqui e alli, enormissimos blocos de marmore de fórmas diversissimas, de côr frigida e branca, de arestas que brilham como aço ou como vidro ao sol de abril, de veias azuladas em que parece gyrar um mysterioso sangue...

Dormem na severa prisão cyclopica d'esses blocos brutaes corpos airosos, leves, esbeltos de nymphas florentinas, bustos delicados de Eva adolescente, divinas nudezas de que esses marmores são a primeira fórma rude, fórmas delicadas em que o genio do artista accenderá uma chispa mysteriosa de vida immortal.

Que deliciosas figuras de mulher um cinzel magistral arrancará d'essa massa dura e informe!

Como elle saberá flexibilisal-a em membros de uma graça serpentina, arredondal-a em braços que se abrem em uma curva deliciosa e suggestiva, derramar, sobre niveas espaduas nuas, a vaga fluida e revolta de uma cabelladura crespa e magnifica, entreabrir em um sorriso enygmatico finos labios femenis, allumiar de ignota chamma o globo cavado de uns olhos, desabrochar em molles curvas a flôr de um seio virginal...

Todas estas visões de um mundo increado nos são suggeridas pela vista d'esse campo cheio de pedras enormes, que á tarde, na luz rosea e violeta do crepusculo, parece--disse-nos alguem--uma charneca semeada de gigantescos tumulos...

Sobre esse armazem de pedra ao ar livre abrem as portas baixas dos «ateliers» de esculptores que alli vieram buscar a commodidade e a solidão. Um d'elles é o atelier de Rodin, que eu ia visitar.

* * * * *

Infelizmente, foi trahida a minha anciosa espectativa. O mestre não estava, e o discipulo, que trabalha com elle,--um rapaz do Norte, de immensa distincção de aspecto,--nem sequer pôde mostrar-nos a esplendida _Porta_, que estava no compartimento fechado contiguo áquelle em que nós entrámos, para admirar alguns grupos de marmore, em que a poderosa _griffe_ do grande esculptor se imprimira profundamente.

O talento de Rodin é tão pessoal, é tão inconfundivel a sua maneira, que, depois de se ter visto um corpo humano modelado por elle, não tornamos a confundir este poderoso manejador do cinzel com nenhum dos seus contemporaneos celebres.

Discipulo de Barye e de Carrier-Belleuse, a originalidade de Rodin destaca, comtudo, em uma energia indominavel.

E original é ainda o assumpto que elle escolheu para essa _Porta_ monumental, apesar de arrancado á Divina Comedia Dantesca. É uma transformação da idéa do poeta, não é uma copia do seu pensamento, nem um reflexo exacto da terrivel visão florentina.

Transcrevo de um critico eminente que fez a analyse da obra do esculptor a descripção d'essa obra soberba, que eu tanto quizera ter visto.

Mas, antes d'isso, o retrato do esculptor tal como elle apparece, envolto no prestigio de uma sympathia merecida, aos seus admiradores que se contam por milhares.

Rodin é baixo, atarracado e placido de aspecto.

A barba loura cahe-lhe em ondas fartas por sobre o peito, enquadrando um rosto friamente espiritual, um d'estes rostos de homem que valem principalmente pela luz interior que os illumina, e que ora traduz a serenidade silenciosa do trabalhador satisfeito com a sua obra, ora a distracção absorvente do artista em lucta com as difficuldades ingentes da execução manual, ora a preoccupação dolorosa do investigador insaciavel em busca do novo e do perfeito. A fronte de mystico, um pouco ogival na fórma, é vasta bastante para conter um cerebro potente de pensador e de poeta.

O olhar e a voz estão em harmonia absoluta; olhar agudo, brilhante, que concentra em si a luz; voz doce, intima, penetrante, que se insinua, e onde um toque de causticidade põe não sei que estranho realce...

Tal o artista de tenaz vontade, a quem a estatuaria moderna, complicada e symbolica, revela os seus segredos mais subtis.

Como typo representativo da arte moderna, não o ha mais culto, mais philosophico, mais apto para entender tudo e tudo realisar.

E porque elle é assim, absolutamente incompativel com o simples ideal grego, é que procurou no grande poeta da Idade Média o assumpto da sua obra definitiva e magistral, obra de metaphysico e de observador, ao mesmo tempo que é obra de artista; representação tragica, complexa e soberbamente executada, da Natureza e da Vida, em alguns dos seus aspectos mais inquietadores.

VII

Tem seis metros de altura a famosa _Porta_. As estatuetas do alto, alguns grupos dos paineis, e os baixos relevos inferiores estão completos ou quasi completos, mas ha pela vasta officina, espalhadas no chão, nos sofás, nas cadeiras, em _ètagères_, estatuetas de todas as dimensões, em todas as posturas incoherentes, convulsas; de supplica, ou desespero, de agonia ou de dôr, dando a impressão de um campo de batalha em que os combatentes se conservassem todos vivos, ou de um cemiterio que houvesse resuscitado inteiro, em virtude de qualquer galvanismo prodigioso...

O escriptor a que me estou referindo considera esta multidão de estatuas um agrupamento humano tão significativo, tão eloquente, tão expressivo em cada uma das suas mil attitudes, que só o apreciará quem o estudar individuo por individuo, como se folheia um livro pagina por pagina, como se lê uma partitura nota por nota, como se analysa um corpo fibra por fibra...

É a _Porta do Inferno_, quer dizer a agglomeração n'um drama cheio de movimento e de vida dos Instinctos, das Fatalidades, das Paixões inclementes que no homem vivem intensamente, dominando-lhe a vontade, vencendo-lhe a razão, subjugando-lhe as resistencias, dobrando-o sob a sua acção irreductivel, fazendo d'elle o instrumento inconsciente de uma força da natureza que a sua intelligencia não comprehende, e que a sua virtude não submette...

Sob o cinzel d'este artista genuinamente, apaixonadamente, sentidamente _moderno_ que é Rodin, o poema do vate gibelino não conservou a côr local, nem tão pouco o colorido catholico que o especialisa.

O esculptor despiu o seu symbolo de toda a significação italiana e medievica, e sómente aproveitou a moldura que elle lhe prestava para exprimir dentro d'ella os aspectos humanos e universaes, que o tempo não transforma e que o meio não pode alterar.

A _Porta_ ainda está por concluir; sómente o enquadramento do poema esculpido se póde julgar executado e completo.

As divisões principaes, todavia, já podem ser imaginadas.

Começando pela parte inferior da _Porta_ vê se que os baixos-relevos por sobre os quaes se vae erguer a composição principal, têem nos paineis centraes mascaras inolvidaveis, contrahidas por todas as expressões da Eterna Dôr.

Corre em doida grinalda viva, em roda d'essas physionomias atormentadas, uma dança vertiginosa de mulheres, de satyros e de centauros.

Pelos dois humbraes da Porta, sobe uma _theoria_ de figuras apertadas no estreito espaço, alongadas, fluidas, em alto relevo parcial.

São as doces apaixonadas, as criminosas felizes da paixão illicita, os amantes que a mesma angustia entrelaça, e as velhas, que já perderam o que tinham de humano, e as creanças inconscientes, nascidas de pouco tempo e já marcadas pela garra adunca da Vida, tentando em vão prescrutar com os seus olhinhos cegos o limbo incolor onde os membros rachiticos se lhes agitam convulsamente.

No alto, sobre o frontão ha tres homens que são a representação viva do distico dantesco: _Lasciate ogni speranza_. Inclinam-se uns sobre os outros na attitude da desolação inconsolada. Apontam com os braços extendidos para um ponto ignoto, a região do irreparavel, do horrendamente irreparavel.

Por debaixo d'elles á frente das multidões movediças, que constituem o primeiro circulo do inferno, um poeta nú, sem nenhum dos distinctivos que marcam uma época ou uma nacionalidade, medita, mas em uma postura de repouso.

Os membros fortes são feitos para as longas caminhadas e para as luctas asperrimas, o rosto inquieto e intrepido, que se crispa na obsessão de uma idéa fixa, reflecte e repercuta a piedade, a indignação, a tristeza, todas as sensações que excitam o pensador até ao enthusiasmo, e o commovem até á lamentação dolorida e tragica.

Aos pés d'elle, sob o seu triste olhar meditativo passa em turbilhão vertiginoso, cahe no espaço vasio, ou rasteja dolorosamente a humanidade inteira, na sua teima feroz de viver, de viver atravez da lucta dilacerante, de viver despedaçada, torturada, sangrenta, com espasmos violentos de gozo que fazem soffrer mais do que as dôres, com agonias d'alma que lembram arroubamentos de extase!..

Extraordinaria a concepção do Mestre! Dizem que esses esboços, esses estudos, essas realisações plasticas bastam para provar a tenacidade de trabalho do obreiro maravilhoso, a actividade genial de um creador de seres vivos!

Cada figura isolada, cada grupo freneticamente enlaçado, cada representação de uma das mil paixões que cingem nos seus tentaculos de polvo o corpo fragil e a alma dolorida da pobre humanidade, affirma victoriosamente não só a destreza magistral do estatuario, como tambem a ardente visão do poeta e a comprehensão soberba do pensador.

Ha entre centenas de outros, cuja descripção acabo de ler enlevada, com pena inconsolavel de os não ter chegado a vêr com os meus proprios olhos, um que bastaria, segundo a mais exigente critica assegura, para confirmar a grandeza de concepção, a força tranquilla e a doçura melancholica d'este grande artista, que em fórmas asperas, atormentadas, sem a molleza amaneirada de que hoje a estatuaria reveste o corpo humano,--soube encerrar e traduzir o infinito das tormentas moraes e a variedade horrorisante das dôres physicas.

Esse grupo é o de _Francesca e Paolo_, ou antes, tão supprimidas estão todas as condições do tempo e do logar, tanto escrupulo houve da parte do artista em conservar os caracteres geraes e puramente humanos, este grupo é o do amante e da amante, quer dizer do Amor.

Do Amor, não como a Grecia o pintou nos seus mythos risonhos, mas do Amor ardente, apaixonado, cruciante e doloroso, cruel e divino, prodigo em extasis e em torturas, em espasmos e em lagrimas, tal como a morbida imaginação de hoje o concebeu e creou!...

O homem é alto e forte, esbelto e flexivel. A mulher, em pleno desabrochar da puberdade, está sentada com tal ligeireza e tal meiguice sobre o seu joelho esquerdo, que parece pesar apenas o que pesaria uma ave.

A mesma doçura de contacto é perceptivel aos sentidos no gesto com que elle, fazendo do braço um collar quente e caricioso, a prende a si, emquanto que a outra mão lhe toca no corpo com delicada ternura... Essa mão forte e musculosa, feita para se imprimir pesadamente nas cousas, tem a leveza divina do contacto de uma flôr.

O abandono da amante é completo. Enlaça-o como uma liana, enrola-se n'elle com um carinho em que ha a gratidão do amor feliz e a avidez insaciavel de caricias; e com a mão que lhe fica livre d'este abraço apaixonado toca femenilmente nos cabellos com um geito feito de timidez e de graça pueril.

A cabeça do homem inclina-se, a cabecinha da mulher ergue-se para elle e as duas boccas encontram-se em um beijo que é como que a união mystica de dois seres!

A extraordinaria magia d'esse beijo consiste n'isto: é um beijo visivel! Visivel na impressão violenta que contorce em uma attitude de sedenta adoração o corpo do homem; visivel no arroubamento da mulher todo ardor e todo graça!

É triste e deliciosa essa representação sublime e symbolica do amor humano. Envolve-a como que o nimbo da tristeza que envolve aos nossos olhos tudo que é bello, intenso de vida e condemnado á morte!...

Como vêm, a inspiração de Rodin participa do que mais agudo tem a observação da vida real, da vida verdadeira em todas as suas manifestações e fórmas physicas, e de tudo que mais alto e subtil tem a poesia das cousas e que d'ellas se destaca como um perfume inebriante, capitoso e perturbador!

O que elle principalmente traduz é o amor nas suas infinitas modalidades tragicas ou divinamente bellas...

O amor dos nervos, o amor da carne e o amor da alma entrelaçados e produzindo esse mixto doloroso, que embriaga como um filtro, que corróe como um veneno, que contrahe como uma convulsão, que entontece os sentidos e dá ao coração as revelações da infinita Dôr!

D'entre os criminosos de Dante, elle escolheu para os modelar pela sua mão genial de grande artista pensador, os criminosos que o amor subverteu no abysmo infernal.

Elles exprimem o cançasso devastador da saciedade que já nada espera; o phrenezi do extase que nada satisfaz; a ternura desbordante que a morte ha de breve estancar; as fadigas as aspirações, os sonhos morbidos, as angustias e as melancholias que essa paixão entre todas omnipotente inflinge aos seus condemnados escravos.

O amor que Schopenhauer descreve como a astucia suprema da Natureza que se recusa a morrer, e que a maior parte das vezes não passa de um arrebatamento ephemero, de uma illusão rapida e momentanea; o amor que é a impossivel aspiração que leva dois seres a quererem formar essa Unidade mysteriosa que seria o supremo triumpho da Vida sobre a Dôr,--aspiração que remata no tragico desengano e na fallencia absoluta do Ideal sonhado, pois que nunca uma alma consegue penetrar absolutamente outra alma, nunca dois entes estranhos conseguem ser apenas um _ser unico_, e não ha agonia mais tragica do que esse luctar angustioso para alcançar um impossivel bem,--o amor tal como á triste lucidez dos nossos dias elle apparece, doloroso, violento e cheio de ardentes lagrimas: eis a inspiração, senão unica, principal do grande traductor plastico da sombria epopéa dantesca!

Como é triste, como representa bem o _Terror_ sentido perante as duras revelações da Vida, a sua Eva admiravel que, levantando os dois braços em um gesto de espavorida angustia, e como que esmagando com elles os seios tumidos da humanidade futura, tapa com as mãos entrelaçadas os olhos que tanta miseria têm de ver ainda na terra...

É triste, soberba e bella, rica sobretudo de maravilhosas interpretações a concepção que Rodin fórma da estatuaria moderna. E por elle ser, d'entre os esculptores modernos, o que mais frisantemente e voluntariamente se afasta do ideal da Antiguidade, é que eu, em face da Venus de Milo radiosa, tranquilla, serena e pura, quiz levantar deante dos olhos do leitor um esboço ao menos rude e tosco embora, d'essa tragica _Porta do Inferno_, pela qual o esculptor nos faz penetrar na gehenna das loucas paixões insaciadas, que erguem na sombra o seu brado ululante de intraduzivel dôr...

VIII

Quando a gente de longe evoca a grande cidade do luxo, da vida intelligente, da industria genial, pensa em tudo menos na belleza ideal das suas arvores. A mim, vejam que estranha cousa!--foi isso que positivamente me deslumbrou.

O arvoredo em Paris, nos arredores de Paris, nos jardins, nos parques, nos bosques de Paris, é verdadeiramente delicioso e de um encanto incomparavel e unico.

N'aquella fornalha tudo parece possivel menos o permanente idyllio que as arvores representam, pois nem Cintra, essa orgia de verdura, me consolou tanto a alma a este respeito como Paris. Vê-se que o culto da arvore, a paixão da Natureza, vive em um canto do coração d'esse pagão extra-civilisado, que se chama o parisiense. E depois será realmente extra-civilisado como nós julgamos o parisiense genuino? Não haverá n'essa immensa cidade cosmopolita, a par de uma minoria pequena de artistas de talento, uma incontestavel multidão de almas ingenuas que representam de boa fé toda a especie de comedia, desde o scepticismo _à outrance_, até ao chauvinismo á Boulanger? Será verdade o que dizem d'elle os que o pintaram com uma amargura tão acre, F. Flaubert e Balzac, por exemplo?

Como quer que seja, sceptico ou sentimental, o parisiense adora as arvores, as flores, a natureza em todo o seu idyllico e sereno encanto.

Um passeio ao domingo, em Auteuil, em Saint Cloud, em Neuilly, nas avenidas do Bois, bastaria para nos esclarecer a tal respeito. É que tambem alli as arvores são incomparaveis. Ha alamedas longas e deliciosas, em que o arvoredo de um verde um pouco ruço se recorta no azul levemente grisalho do céo! Ha longe verduras em Auteuil, por exemplo, que dão vontade de chorar, que penetram a alma de uma saudade doce e amarga a um tempo, a saudade que Adão teve de certo do Paraiso, de onde foi expulso! Os horisontes desdobram-se tão longos, tão calmos! Quem dirá que alli, a dois passos, se desenrola a multipla fita dos _boulevards_, onde a febre da vida é tão tentadora e tão intensa! Auteuil parece ser o fim do mundo, tão sereno e vagamente adormecido é o seu aspecto, tão ineffavel bucolismo se exhala da sua tranquilla paizagem. Para cada lado que lancemos os olhos, se abrem larguissimas avenidas ao lado de arvoredos, com uns fundos longiquos, em que ha toda a especie de cambiantes.

O ceu de um azul muito lavado, em que parece ter-se extendido um véu diaphano de vapor, é bem differente do meu céu portuguez de uma côr tão quente, ás vezes deslumbradora e excessiva! A agua parece crystallina, ou sombreada de verde, de uma transparencia deliciosa ou de uma côr glauca, atravéz das rendas do arvoredo, movediças e multicôres.

Abril tudo em flor, atira em flocos a sua neve perfumada aos troncos ha pouco despidos; os castanheiros agitam os seus pennachos brancos; os lilazes saturam a atmosphera do seu cheiro estonteador; ha uma expansão risonha n'este paraiso artificial creado pelo homem, que se não encontra infelizmente nos nossos paizes do Sul, onde o solo é tão fecundo, onde a Natureza um pouco acariciada e auxiliada se desentranharia em maravilhas de producção!

A nós basta-nos o sol ardente e a vida brutal de que as cousas palpitam no nosso verão africano; não sabemos pelo trabalho incessante, intelligente e methodico crear estes paraisos, onde repousa depois ineffavelmente a frenetica actividade do homem do Norte.

A mim, filha de um paiz accidentado, esta paizagem plena, em que as alamedas se desdobram lentas, magestosas _à perte de vue_, faz-me uma impressão de deliciosa calmaria. Não me canso de olhar para as arvores, as formosas arvores, enormes, colossaes, de um verde tenro, de um verde ruço, de um verde _mauve_, de todas as gradações imaginaveis do verde, e em que a nota do verde esmeralda, mais rara, apparece de vez em quando como uma estridula fanfarra de côr.

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Do alto da torre de Eiffel, Paris apparece todo entrecortado de manchas negras de arvoredo--«Não ha cidade com mais arvores», digo eu verdadeiramente abysmada ao meu companheiro e _cicerone_ que me responde:--«Londres ainda tem mais!»

Só nós portuguezes, com uma terra maravilhosa, um céu esplendido, um clima em que a flora de todas as zonas egualmente se domestica, somos incapazes pela nossa inercia proverbial de ter esta abundancia adoravel de arvoredo, de verdura massiça em torno de nós!

As alamedas de Saint Cloud, com os cimos verdes entrelaçados, formando a abobada sobre a cabeça dos transeuntes, pareceriam um bocadinho de floresta selvagem, se não fosse a invasão da burguezia e do povo vestido de gala que ao domingo positivamente as inunda e banalisa, tirando ao sonhador que alli foi acariciar a sua chimera intima todo o gozo que elle podia beber na solidão.

Quando de Saint Cloud, por uma tarde serena e dôce e luminosa de Abril, se regressa a Paris, como eu regressei, pelo caminho ao longo do Sena, entre o renque fino e tenro dos choupos que se debruçam nas aguas do rio, e os _chalets_ e os palacetes que espreitam do outro lado da estrada do meio dos jardins coalhados de lilazes e de rosaes em flôr, não ha coração por mais secco e positivo que resista ao encanto embalador d'este passeio.

Surprehende-se uma pessoa a ser moça outra vez, moça e romanesca e a arranjar na phantasia uma existencia que quereria ter vivido alli, n'aquella paz tão proxima da infinda agitação, n'aquelle ermo tão chegado ao borburinho de uma vida em festa.

Deve ser bom viver e sonhar alli, perto do mundo e tão longe d'elle, a minutos de distancia do _boulevard_ da Yvette Guilbert, a deusa da _chansonnette_ moderna, da _Comedie_ e da sua classica e correcta interpretação da arte, do _Chat Noir_ e da sua phantasia revoltada, e ao mesmo tempo tão longe de tudo isto, no silencio do arvoredo em flôr, na serenidade pantheista da dormente e calma Natureza, no seio inebriante dos lilazes e das rosas que estillam voluptuosa lethargia de cada petala da sua flôr avelludada e tenra...

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A vida para certos organismos de eleição só se comprehende n'estes dois pólos contrarios. Ou tudo que a civilisação tem de mais quintessencial e de mais extremo, ou tudo que a natureza tem de mais calmo e de mais _permanente_.

Juntar as duas cousas seria para o verdadadeiro artista o ideal, mas que poucos são os que as sabem ou querem reunir!...

Pensava eu estas cousas vagas, ao passar deante de _Bagatelle_, a casa campestre e o lindissimo parque, que surdiram com tão vertiginosa rapidez de uma aposta entre a infeliz e então leviana Maria Antonietta e o Conde de Artois, e que hoje, depois de varias vicissitudes--as casas e os homens passam egualmente por ellas--pertence aos herdeiros do celebre philanthropo William Wallace. A lembrança d'esse tempo, d'essa côrte, d'essa mulher, cujo nome se fez prestigioso no martyrio, levaram a minha imaginação para longe, para bem longe no passado.

Fazia justamente cem annos que tanto luxo tanto prestigio, tanta gloria tradicional se tinham afogado tragicamente em ondas de sangue.

_Noventa e tres_, o anno fatal, surgia sangrento e tragico ante os meus olhos, produzindo em mim aquelle espanto e aquella fascinação que eu sempre sinto quando voluntaria ou involuntariamente o evoco.

Tambem ella, a pobre rainha martyr, quiz experimentar essa suprema sensação da vida feita de contrastes fortes; tambem ella quiz, ao lado das pompas de Versailles, a deliciosa pastoral do Trianon; tambem ella, despindo os pesados brocados e as sedas tecidas com ouro da côrte, quiz enfiar, ligeira e garrida, o vestidinho de cassa, com o lenço castamente cruzado sobre os seios opulentos; a sua imaginação romanesca de leitora de Rousseau, de admiradora de Gluck, tambem se soube comprazer n'esta delicia das experiencias contrarias que é o sol do _dilettantismo_, mas nem porque viveu intensamente a vida e gozou tudo que ella tem de melhor, desde a amisade até á arte, lhe foi menos pesada a sua cruz, nem menos cruel a sua dolorosa via desde Versailles até á Guilhotina.

O ambicioso coração humano deseja tudo, a tudo aspira e tudo quer!

E para que, no fim de contas? lá o diz Pascal na sua phrase incisiva e sombria: «o remate é sempre identico, qualquer que tenha sido a comedia ou a tragedia que o antecedeu».

E aqui está como a vista do arvoredo de Bagatelle me levou para longe do bucolismo, encontrado, onde meu Deus?... a dois passos da fornalha de Paris!...

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A mais completa visão de arte e de magnificencia que ainda os meus olhos tiveram, de que elles guardarão para sempre o reflexo illuminado, foi em Fontainebleau que a recebi.

Fontainebleau está para Versailles como uma joia de Benevenuto está para um vaso de macissa prata imperfeitamente burilado. Não ha comparação entre os dois, e para um artista não ha hesitação na escolha.

Como paizagem, aquelle sitio, aquella poetica e enorme floresta consagrada por tantas recordações artisticas, litterarias e historicas, é tudo que póde haver de mais estranhamente bello.