Chapter 10
Este admiravel, este soberbo trecho, que acabamos de traduzir integralmente, em que o genio das duas linguas toma forma, em uma outra lingua, nunca fallada com tal melodia e tal poder, quizera eu que fosse posto como epigraphe á _Historia do Povo de Israel_, em que Renan traduziu genialmente sob a divina inspiração do genio Grego, a alma tumultuosa e sombria, agitada e sequiosa de justiça, dos prophetas da raça semitica.
Oh! como elles renascem alli nas paginas do grande escriptor, os fundadores de quanto ha de tremendo e de sombrio na religião que veio depois a dominar o mundo!
Como alli se reflecte igualmente, na prosa divina do Mestre, a Grecia que _sobre a Acropole_ lhe revelou o segredo dos seus primores! O assumpto é o semita, mas a lingua em que essa sublime evocação se fez, o magico instrumento, atravez do qual nós communicamos com o arido e difficil assumpto, a inspiração adoravel, que presidiu a este trabalho de reconstituição historico-religiosa, a arte plastica, com que elle é genialmente modelado, tudo isso foi colhido pela alma de Renan, abelha ébria de luz e de perfume e de succos balsamicos, no coração da Grecia!
É só ahi que a Belleza e a Razão têem a mesma fórma e a mesma essencia; é só ahi que a Venus Amphytrite sorri á musa de Socrates e que a Poesia e a Religião enredam voluptuosamente a fantasia e a sensibilidade do homem na mesma rede azul e ouro tecida de sonhos, que são symbolos e de chimeras entontecedoras, que sao divinas verdades.
Mas quem leu sómente de Renan a _Historia do Povo de Israel_ ficará conhecendo todo o genio complexo do escriptor?
Decerto que não. Elle é um grego pelo amor da belleza plastica, mas é um celta pela sensibilidade doentia, pela delicadeza concentrada do seu genio.
Os que desejarem conhecel-o, precisam de ler tudo que elle escreveu.
Precisam de seguil-o atravez dos meandros, alguns quasi inaccessiveis, da sua _Historia das origens do Christianismo_.
Precisam de penetrar bem no estranho mysticismo que ha no fundo d'este temperamento de sceptico; precisam de interrogar os escaninhos inesperados d'esta imaginação de poeta, que em certas paginas,--como por exemplo, no sonho de Leolino, na _Eau de Jouvence_, invocando a alma da adorada irmã morta; nas paginas dulcissimas dos _Souvenirs de Jeunesse_; na symphonia esplendida que se chama _La Prière sur l'acropole_; na dedicatoria de um dos seus livros celebres; em trechos dos seus estudos de _Historia Religiosa_;--attinge uma _virtuosidade_, um poder de harmonia, excita uma emoção, faz vibrar tão intensamente os nervos do leitor, que póde bem dizer-se que a lingua falada e escripta se transforma sob os seus dedos de magico em musica transcendente que parece vir d'além da terra, em musica que penetra no coração e o desfallece de delicioso extase.
II
Este conhecimento da obra total do grande escriptor, que eu considero imprescindivel em quem, com acerto e justiça, quizer falar d'elle, não o tinham, estranho é dizel-o, senão com rarissimas excepções, os que em França, no jornalismo, commemoraram luctuosamente o passamento de Renan. A accusação que eu aqui deixo, fêl-a, com a sua graça incomparavel Julio Lemaître no artigo que ao seu querido philosopho consagrou no _Jornal dos Debates_. Porque Renan escreveu muito, escreveu immenso. Durante cincoenta annos trabalhou dez horas por dia, o que é extraordinario.
E além das monographias scientificas e dos estudos especiaes que publicára nas _Revistas_ e nos Jornaes de Sciencias, além da _Historia das Origens do Christianismo_, que vae de _Jesus_ a _Marco Aurelio_, e que se compõe de sete grossos volumes, além da _Historia do Povo de Israel_ de que ha publicados tres volumes e para publicar dois, elle passou as horas que não consagrava á sua principal tarefa, a escrever toda a especie de artigos litterarios: _ensaios criticos_; _dialogos philosophicos_ á maneira de Platão, como os que publicou em volume com o titulo que acima démos; comedias e dramas á moda e na tradição de Shakespeare como o _Prêtre de Nemi_, _L'eau de Jouvence_, _Caliban_, etc. etc.; cartas que são celebres como aquella escripta _à un ami d'Allemagne_, e outra a _Mr. Berthelot_; fragmentos de historia religiosa; estudos de moral; trechos adoraveis como o consagrado a Francisco d'Assis, o santo que teve a adoração de Michelet e de Renan, etc. etc.
As mil faces do talento de Renan só as conhece o que leu essa obra vastissima atravessada por uma flecha ideal de encanto e de magia; para a saber apreciar devidamente, é comtudo, necessario mais do que havel-a lido, porque então, n'esse caso estava a minha humilde pessoa, a qual se recusa a tão elevada empreza.
Uma das accusações feitas a Renan, até pelos seus criticos mais benevolos, é a de contradictorio e a de incoherente.
Baptisáram de _renanismo_ uma certa qualidade requintada e subtil de duvida amavel, que acolhe todas as idéas, que acha em todas alguma cousa de verdadeiro e muito de falso, que se balouça voluptuosamente entre doutrinas adversas, que se inclina ora para uma ora para outra das mil fórmas da vida sem se dar completamente a nenhuma d'ellas, que em cada chimera acha um fundo de verdade, e em cada verdade acceita e indiscutida um fundo de inanidade e de illusão, que ante a Natureza,--Isis de mil faces,--se limita a comprehender e acceitar as contradicções do Universo, explicando-as se póde, e admittindo a legitimidade absoluta dos mais variados pontos de vista, sem ter nenhuma das qualidades estreitas e limitadas do sectario ou do fanatico.
Ora esse modo de ser intellectual é tanto da nossa época, que Renan, professando-o, não fez mais do que representar em uma condensação superior de pensamento e de critica, a philosophia do seu tempo.
Que culpa teve elle de nascer justamente em um periodo da civilisação em que estes caracteres da intelligencia são justamente os que assignalam o _homem superior_, o artista consciente, o _representative man_ de uma phase do pensamento humano.
De resto, querendo dizer a verdade toda, esse estado de espirito de Renan, é-lhe commum com as intelligencias mais altas de todos os tempos. Shakespeare, que foi tambem um _dilectando_ genial não dizia já que o _homem è talvez feito do mesmo estofo que os seus sonhos_?
A interpretação dos phenomenos visiveis do mundo é feita por esses espiritos, não de um modo racionalista e logico, mas consoante a fugitiva inspiração do momento que passa.
A raiz de toda a realidade mergulha em um abysmo insondavel e obscuro, em que elles gostam de debruçar-se, ora trementes de pavor, ora gelados pela duvida...
Mas a justiça, que nem sempre fazem a Renan e que é necessaria fazer-lhe, exige que se accrescente a esses traços por assim dizer exteriores de seu talento esta qualidade fundamental que resalva o que elles podiam ter de perigoso para os discipulos de sua philosophia.
Ha uma cousa em que elle acreditou sempre, da qual não negou nunca a existencia _necessaria_, embora lhe contestasse ás vezes nos caprichos da sua ondeante palavra, cariciosa e triste, os resultados uteis, ou as compensações interesseiras; essa cousa é a _moral_!
«A moral é a cousa séria e verdadeira por excellencia; basta ella para dar um sentido e um fim á vida humana, diz elle no prologo dos seus _Ensaios de Moral e de Critica_.
«Escondem-nos véos impenetraveis o segredo d'este mundo estranho, cuja realidade se impõe a nós e nos esmaga; a philosophia e a sciencia procuram eternamente, sem jámais a encontrarem, a fórmula d'esse Proteu que a razão não limita e que a linguagem não exprime. Mas ha uma base indubitavel que o scepticismo por mais completo não póde abalar, onde o homem achará até ao termo dos seus dias o ponto fixo de todas as incertezas; o bem é o bem; o mal é o mal. Para odiar um e amar outro, não é necessario qualquer systema, e é n'este sentido que a fé e o amor, que na apparencia não têem ligação alguma com a intelligencia, são o verdadeiro fundamento da certeza moral e o unico meio que o homem possue para comprehender alguma cousa do problema da sua origem e do seu destino.»
Por estas palavras sinceras e que Renan honrou tão nobremente, em uma longa existencia laboriosa, honesta e casta, consagrada ao trabalho incessante, á desinteressada investigação da verdade, ás sondagens tão difficeis da Historia,--por estas palavras se percebe bem claro, que o renanismo não significa indifferença moral, mas sim benevola sympathia por ideaes diversos, contemplação amorosa dos phenomenos que se succedem em perpetua fluidez, em perpetua transformação, embevecimento perante as mil fórmas alliciadoras com que a eterna illusão nos tenta, nos seduz, nos anesthesia, para nos fazer aceitar o pesado encargo da vida...
A riqueza extraordinaria d'esta intelligencia consiste na quantidade de contrastes, de aspectos e de _nuances_ que n'ella se conciliam e n'ella se contém. Os contrastes de um caracter são o sêllo da sua individualidade, da sua vida exuberante e intensa. Os contrastes de idéas cabendo em uma intelligencia dão a medida do seu grande valor.
As contradições que desnorteiam uma logica vulgar, não assustam por exemplo o pensamento allemão de uma tão extraordinaria complexidade. A concepção, a synthese magnifica de um Hegel envolve e concilia os mais contrarios termos no seu vastissimo seio. Ora, em Renan, além da influencia da Biblia, tão accentuada no seu modo dizer e de sentir, além da influencia grega tão esplendidamente demonstrada na _oração sobre a acropole_, que vem inserta nos adoraveis _Souvenirs de jeunesse_, actuou de um modo profundo, decisivo a influencia da Allemanha.
Na sua moral Renan obedece á inspiração de Kant, na sua concepção do Universo, Renan é Hegeliano. E senão vejamos esta phrase caracteristica:
«Deus é immanente no conjunto do Universo, e em cada um dos seres que o compõem. Não se reconhece, porém, egualmente em todos. Reconhece-se mais na planta que no rochedo, mais no animal que na planta, mais no homem que no animal, mais no homem intelligente que no cerebro limitado, mais em Socrates que no homem de genio, mais em Buddha que em Socrates, mais em Christo que em Buddha.»
Eis o resumo de toda a theologia hegelina e _renanesca_.
Se accrescentarmos a isto a affirmação de que nenhuma vontade particular se tem manifestado até hoje, nem poderá jámais manifestar-se na evolução do Universo, ou na marcha da humanidade, mas que esse Deus, de que elle nega a existencia pessoal, está por assim dizer em formação no tempo e no espaço, á proporção que o mundo vai attingindo a consciencia sempre mais perfeita de si proprio, e que o homem vai descobrindo as eternas leis da verdade, da belleza, da virtude e do bem; de que o Universo tem um fim idéal, aspira a um divino objectivo e não é nem póde ser a resultante de uma agitação inane, inutil e vã; que a razão, reinando mais e mais sobre a humanidade, acabará por _crear Deus_, creando o bem absoluto, e a divina harmonia das cousas;--nós teremos completado a philosophia de Renan, nem sempre original, e em todo caso pouco consoladora para os humildes e para os pobres de espirito que em nada collaboram para a formação definitiva d'esse Deus, que está em via de apparecer vizivel aos homens que hajam attingido o mais alto ponto da consciencia...
Esta philosophia reveste-se porém, das mais deliciosas fórmas, ella tem para se desenvolver e para se reduzir a preceitos geraes, um instrumento incomparavel, de uma graça que nenhum artista ainda egualou.
Esse instrumento, que é a prosa de Renan, é que o torna principalmente querido entre os que lêem...
A sua melancolia de celta, a sua sensibilidade doentia, a doçura estranha, inspirada de algumas das suas phrases, tem tido sobre a minha alma de mulher o poder inexplicavel de um sortilegio.
III
O desinteresse levado quasi a um extremo irritante para os praticos homens de hoje, a fidelidade tocante a todas as causas vencidas; um amor das tradições da raça, que se exalta até á poesia, uma fórma de imaginação absolutamente singular e inconfundivel caracterisam os Celtas, a cuja raça Renan tanto se orgulhava de pertencer.
«Em parte alguma, diz elle, a eterna illusão se adornou de mais seductoras côres, e no grande concerto da especie humana nenhuma familia egualou esta, nos sons penetrantes, que vão até o coração. Os seus cantos de alegria acabam em tom elegiaco; nada eguala a deliciosa tristeza das suas melodias nacionaes; dir-se-hiam emanações do céu, que, deslisando gotta a gotta dentro d'alma, a penetram, como reminiscencias de outro mundo.
«Ninguem, como ella, saboreou jámais tão longamente essas volupias solitarias da consciencia, essas reminiscencias poeticas, em que se cruzam simultaneamente todas as sensações da vida, tão vagas, e profundas e penetrantes, que, a prolongarem-se muito, fariam morrer, sem que pudesse dizer-se se era de delicia ou de amargura.
A infinita delicadeza de sentimento que caracterisa a raça celtica está estreitamente ligada á sua necessidade de concentração... D'ahi esse pudor delicioso, esse _não sei quê_ de velado, de requintado, de sobrio, a egual distancia da rhetorica do sentimento tão familiar aos povos latinos e da ingenuidade reflectida que tanto se faz sentir nos allemães.
«Essa raça quer o infinito; tem sêde d'elle; procura-o a todo o preço, para além da tumba, para além do inferno...»
Estas phrases de Renan, colhidas no seu esplendido estudo sobre a _poesia das raças celticas_ são o segredo de mil particularidades d'aquella fina sensibilidade de artista.
O que elle diz dos cantos nacionaes da sua raça, podia egualmente applicar-se ao genero indefinivel de encanto quasi physico que a sua prosa exerce em temperamentos accessiveis a certa ordem de emoções.
A estranha combinação que n'elle se fez de duas inspirações tão oppostas e ambas tão pronunciadas no seu espirito, a da poesia biblica e a da poesia dos Celtas; a alta cultura complexa que o seu entendimento assimilou de um modo tão feliz; o dom irresistivel da ironia que a fada que presidiu ao seu nascimento lhe trouxe occulto entre as mais finas flores de uma sensibilidade morbida; o optimismo de um temperamento são e de uma calma existencia, luctando com a noção pessimista que a sciencia lhe deu do Universo e da vida; as suas tendencias de _dilettante_ e de aristocrata, desenvolvido em um meio de brutal democracia e de _lucta pela vida_ phrenetica; a hereditariedade de uma mãe da Gasconha e de um pae bretão; até a estranha circumstancia de elle ter ouvido--nos braços maternos e dos labios queridos de onde lhe escorria o mel dos unicos beijos que não mentem,--contados com a mais graciosa florescencia de incidentes e detalhes, todas as nebulosas tradicções do Cyclo de Arthur, todas as lendas poeticas de Bretanha, isto por uma deliciosa voz ironica, que não acreditava n'ellas, e que era como o acompanhamento musical da serenata de D. Juan, o risonho desmentido áquella poesia tecida em sonhos;--todos estes contrastes, todas estas influencias contradictorias, composeram em não sei que mysterioso laboratorio, a essencia rara que era o genio de Renan.
Esse philtro capitoso, inebriante, seria salutar? Parece-me, receio bem que não! Renan era muito do seu tempo para não ter d'elle a pontinha de corrupção intellectual, que, em temperamento physico menos equilibrado, levaria ao scepticismo dissolvente, á egoistica indisciplina que se traduz pela satisfação de todas as paixões, ainda as mais funestas.
Elle, que era um santo na pratica da vida, e que, sahindo do seminario, quiz trazer para o trato social as virtudes, a castidade, a serena despreoccupação de sentimentos que o agitassem, que lhe haviam sido recommendadas pelos padres que o creáram; elle, que era um santo na moral, podia na vida intellectual ser esse delicioso _diletante_ que se comprazia em perder-se nos complicados meandros do pensamento, amando como Socrates a virtude e chamando-lhe como Bruto um _nome vão!_ glorificando o martyrio e notando ao mesmo tempo a impossibilidade que ha para o homem superior em morrer por _uma idéa_, necessariamente falsa, pois que nunca a verdade póde estar em uma só face de qualquer doutrina; recommendando a _moral_ como «a cousa por excellencia verdadeira e séria» e dizendo aos homens, aos fracos mortaes a quem o desinteresse custa tanto, que nenhuma recompensa lhes advirá dos sacrificios feitos a essa abstracção sublime; negando a intervenção de Deus na obra universal e affirmando que o Universo tem um fim divino; sentindo e communicando aos que o lêem, as sensações mais dubias e as mais contradictorias; vibrando ao influxo das idéas mais diversas, desde o mysticismo até a transcendente ironia, tendo feito a viagem á roda do mundo do pensamento, e vindo de lá, da sua longa e laboriosa romaria, egualmente indifferente ou egualmente benevolo para todas as doutrinas, para todos os estados da alma, menos para o fanatismo dos sectarios, que lhe inspirava um desdem piedoso, e que ainda assim comprehende, porque ninguem entendeu melhor Jeremias e Ezéchias, os prophetas da feroz Jerusalem!
Elle podia ser essa encarnação suprema do genio da critica moderna. Mas os que não têem o mesmo dom feliz de separar a vida da intelligencia da vida dos sentidos? Mas os que vivem a sua philosophia e traduzem em actos as suas theorias?...
Oh! para esses, a doutrina d'esse santo será o mais corrosivo dos venenos; o encanto miraculoso d'aquelle genio ondeante, cujo pessimismo desabrochava na flor de um sorriso e cuja esperança se afundava, mysteriosa e lugubre nymphéa, no pantano glauco de uma negação sombria,--seria a mais desorganisadora e a mais corruptôra das lições!
* * * * *
Mas esquecemos o que houve de triste e de negativo n'essa philosophia, cujas raizes mergulham no complicado e sceptico pensamento germanico!
Nós, as mulheres, amemo-lo pela graça--esse dom feminino, que elle possuiu como ninguem mais, pela linguagem divina, de que elle revestiu as suas idéas, por milhares de trechos verdadeiramente impeccaveis, de uma unctuosidade evangelica, de uma pureza transcendente, de uma poesia ineffavel, com que elle enriqueceu a litteratura universal.
Como havia em Rénan de tudo,--e é este o seu caracteristico mais singular, e é este, em face da estricta logica, o defeito mais reprehensivel da sua intelligencia--podia um admirador consciencioso e delicado extrahir, dos seus livros innumeros, um livro piedoso, especie de _Imitação_, menos ascetico, porém, mais perfumado das flôres do Evangelho primitivo; livro para ser lido em hora de crise d'alma, livro para ser decorado pelos delicados, pelos contemplativos, pelos tristes...
No prefacio dos seus _Estudos de Historia religiosa_, diz Renan pouco mais ou menos isto mesmo.
Formúla o voto de que alguem, das perolas soltas do seu escrinio, que sabemos ser de millionario, compozesse uma especie de _livro d'horas_, para ser folheado depois da sua morte, por finas, esguias e brancas mãos patricias, na paz obscura e calmante das cathedraes.
Oh! Como a subtil ironia que atravessa, flecha de luz aeria, este voto estranho, é bem d'elle! D'esse aristocrata, que deveu á democracia a liberdade que amplamente gozou; d'esse _dilettante_, d'esse mystico que desejaria ser enterrado na nave lateral de uma sombria egreja catholica; d'esse ironista que manejou tanta vez o arco de Voltaire com settas mais finas, settas feitas de ouro; d'esse philosopho que prégou a inanidade da sabedoria; d'esse sabio que se ria da sciencia; d'esse iconoclasta dos templos que ungiu de balsamos tão inneffavelmente doces os pés de Jesus Christo, e que achou na piedade da sua alma uma fórmula de scepticismo mais respeitosa que muitas orações, de um realismo por assim dizer concreto e material...
* * * * *
Se eu pude traduzir a impressão que elle me dava, impressão confusa e deliciosa, indefinivel e querida, impressão que era ao mesmo tempo receio de me deixar seduzir, encanto ao sentir-me arrastada na corrente d'aquelle feiticeiro perigoso; se eu pude dizer todo o amor com que lhe quiz, e todas as restricções com que este sentir me subjugára, dou-me por feliz, porque a fazer a critica da obra de Renan, a isso nunca eu ousaria aspirar.
Oliveira Martins
I
Tres mezes decorreram já desde que a negra terra do cemiterio o encobriu aos olhos dos que o amavam, e não está de molde o mundo moderno, que tumultua desvairadamente anarchico para chorar os seus mortos ou para commemorar os seus heróes!
Desde que elle morreu, esta pobre nacionalidade portugueza que a sua alma soube tão bem estudar, comprehender, amar nos momentos typicos da sua grandeza, chorar nos espasmos convulsivos ou no torpôr comatoso da sua longa agonia, desde que elle morreu, já esta pobre patria, tão sua amada, se tem deixado afundar mais alguns gráos no abysmo de uma decadencia para que não ha cura.[1] Quasi todos o esqueceram, a elle, ao grande melancolico que, durante mais de vinte annos, se não cansou de avisar os despreoccupados, de accusar os cynicos, de analysar cruamente ou desalentadamente o lento processo por que uma nação se desagrega e esphacella e para quem a historia foi mais uma obra de moralista do que um trabalho de laboriosa e minuciosa erudição.
Quasi todos o esqueceram, ou se recordam apenas do que mais ephemero e contingente houve no seu espirito, e uma das coisas que mais dóe é este silencio, mortalha peior que todas as mortalhas, que na hora seguinte ao desapparecimento de um grande espirito lhe envolve nas funerarias dobras o nome que parecia tão brilhante em vida!
Depois, mais tarde, é certo que a posteridade vinga esse nome da indifferença da geração a que elle devia ser mais querido, mas isso não impede que a impressão geladora de tão duro esquecimento faça soffrer algumas almas raras que não esquecem o que amaram...
Para mim, a morte de Oliveira Martins foi um golpe dolorosissimo...
Feridos os dous por uma doença traiçoeira que se apresentava no empobrecido organismo de ambos, egualmente ameaçadora de morte proxima e que para elle tão cedo realizou a negra ameaça, ambos tinhamos partido com differença de dias apenas para Cascaes.
Eram contiguas as casas que habitavamos, davam ambas para o lindo parque que o fallecido Visconde de Gandarinha alli plantou luxuosamente.
A primavera tinha desdobrado pelo parque todo em viço e pela extensão dos campos um enorme estendal das flôres mais frescas, mais vivas, mais cheias de mimo e côr. Inundavam-nos as salas os lyrios amarellos, as rubras papoulas, os malmequeres brancos e dourados, as verdes espigas, toda essa divina e inoffensiva flóra dos campos que consola os doentes sem os envenenar.
Através das rendas transparentes do arvoredo em que todos os tons, todas as _nuances_ do verde se casavam em uma gamma opulenta e maravilhosa, avistava-se, das janellas dos dous convalescentes, o mar, o grande mar azul, em que Oliveira Martins lêra tão commovedoramente a lenda do nosso destino nacional, a historia gloriosa e tragica da vida e da morte da Patria Portugueza.
Barcos de véla passavam a cada instante, e elle sabia conhecer cada typo de embarcação.
Cada véla que atravessava o mar longinquo, palpitando ao vento fresco de abril, tinha para elle uma suggestão viva, uma lembrança saudosa ou pittoresca.
A luz, a luz embriagante da primavera de Portugal, derramada em caudaes da concava saphyra dos Céus, reanimava-o dia a dia, dava-lhe aspirações frementes de vida, de alegria, de trabalho, de actividade mental.
Ouvi-lo era um encanto.
Menos abatido de espirito, e mesmo de corpo, que eu, era elle quem, descendo a escada da sua casa e subindo a da minha, vinha sentar-se na pequenina sala onde eu quotidianamente esperava aquella visita deliciosa.