Parnaso portuguez moderno

Part 9

Chapter 93,667 wordsPublic domain

Mas essa luz que sempre foi seu norte, Um dia a apaga a purpura devassa: Do carcomido imperio segue a sorte.

Antepondo á Justiça, arbitrio ou Graça, Vae, Paulo! agora é tempo, e entra em Roma, Se fallas em Justiça, a plebe passa...

Ella não te percebe! Ah Paulo, dóma A plebe ignava com o doce engano De cousa que se palpe e que se coma...

Da bem aventurança pinta o arcâno; Mas a doutrina só será fecunda Quando o teu Christo se tornar romano. .......................................

THEOPHILO BRAGA

* * * * *

PHRASE DE MIGUEL ANGELO

I

Oh Dante! oh nova aurora da Poesia, Duro juiz da inulta liberdade! Quando entraste dos prantos na Cidade, Perguntaste a Virgilio, ao doce guia:

--D'onde vem tal fragrancia e harmonia? Vozes de amor de tanta suavidade? Que se aclara a amplidão da escuridade Sobre o estertor da hórrida agonia?--

Viste pairando em nuvem diamantina Voar Paulo e Francesca, triste e amante; Quizeste ouvir que dôr é que os fulmina.

Interrogaste o mestre n'esse instante; Mas respondeu a bella florentina: _La bocca me bacció tutto tremante_.

II

Fria, dentro de um féretro estendida, Eu vi passar tambem, d'esta janella, Ai! para sempre e nunca mais, aquella Que fôra para mim ideal e vida.

Ah Vittoria Colonna, não vencida; Vae-se-me da esperança a luz com ella; Sem rumo e sem phanal, d'entre a procella Que eu fique como a nave já perdida.

O espirito se abysma em vacuo immenso, A solidão é vasta mas suffoca; Da dor irremediavel me convenço:

Eu pergunto--que mão lethal me toca? Vel-a morta levada... ah scismo e penso: _Sem nunca ter beijado aquella bocca!_

THEOPHILO BRAGA.

* * * * *

O PRISIONEIRO

(Diante de uma cabeça de Miguel Angelo)

Uma palavra diz toda a desgraça: --Ter por si a rasão, eis o seu crime!-- O despota o conhece; busca traça Para esconder a victima que opprime.

Ferros! vossos anneis encadeados Venham soldal-o para sempre ao muro; Abobadas! calae-lhe ardentes brados, Trevas! summi-o no estertor do escuro.

Mas tudo é pouco. O prisioneiro pensa No rancor do tyranno e adormece; A natureza é mãe: na dor immensa Accolhe o que nas ancias desfallece.

Então, em somno longo e descuidoso Aos sitios mais queridos d'outras éras, A mente vôa e aviva com repouso Passadas illusões, doces chimeras.

Quem cuidará que o inerme prisioneiro Esquecido do peso das algemas Ouve os colloquios do amor primeiro? Do adeus final as expressões extremas?

Ali lhe transparece sobre os labios O arpejo ignoto de suave riso, Sereno como a profundez dos sabios, Triste como o luar quando indeciso.

Pensa que é livre! o somno é liberdade Para esse a quem nenhum consolo reste; Qual será mais feliz? a auctoridade Nunca logrou um instante como este.

Vela o tyranno, tendo álerta os guardas, Entre canhões, muralhas, torres, fossos; Lá quando o somno chega em horas tardas, Ouve ais, vê sangue, estrepitos, destroços:

Escuta os gritos surdos da revolta Do povo que a si mesmo faz justiça; É negro o pezadello, o horror o escolta, Quer despertar, remorso o infeitiça.

Este, dormindo, já se sente escravo, Arrastado por praças, com vergonha; Mas quem jaz mudo sob o iniquo aggravo Que é livre, livre, ai prisioneiro, sonha.

Qual será mais feliz? um quando dorme, É só para sentir terror, fraqueza; E áquelle que succumbe ao peso enorme Diz-lhe ser livre, a santa natureza.

Bem haja a eterna força que lhe inspiras Que não conhece algemas--a vontade! Prepotentes! quebrae ante ella as iras, Embalem-nos os sonhos da verdade.

(Junho, 25--1872.) THEOPHILO BRAGA.

* * * * *

NAPOLEÃO MORIBUNDO

Como o grande astro, pallido e já frio Vae a afundar-se lento no horisonte! Olhos vagos, de extremo desvario Dão um sinistro aspecto áquella fronte! A fronte sombra gélida a cobriu Como os nimbos no vertice do monte; Aguia, que vae morrer sacode as azas, Tal se agitou, e disse então: --Las-Casas!

Estás ahi? És sempre o egual amigo, Mais vinculado a mim pela desgraça! Attenta nas palavras que te digo... A custo sae a voz já surda e baça! Um pezo enorme aqui, duro castigo, Me opprime o peito, augmenta e ameaça. Repara, arquejo de agonia e medo, Tira de sobre o peito este penedo!

Sim, um penedo! alguem o detem sobre O peito exhausto para meu desdouro; Serei eu como o sapo que se encobre Sob a pedra? ou recondito thezouro? Mais opprime! sem ár e luz que sóbre Acovarda-me o pezo d'esse agouro... A pedra o gello seu me communica, E como a pedra o corpo inerte fica!

Ouve. Acordei de um sonho longo e aziago Na vertigem da febre que devora; Prostra-me o pezadello máo, persago, Que me levou alem dos mundos fóra. Por onde eu ia me seguia o estrago, Pude então meu destino ler; e agora A mim voltei; ah, sobre mim o bloco Assim encontro... E como o palpo e toco!

Fatalidade immensa; fim medonho! Menos que Prometheu, do mundo antigo! Como Sysipho á fraga não me opponho, Nem faço como Ajax da rocha abrigo. Sucumbo! escuta o tenebroso sonho, Attenta na visão que aqui te digo, Verás d'onde caíu este penedo De que fiz pedestal... guarda segredo:

VISÃO DO PAROXISMO

Vi-me perdido, como outr'ora Dante, Não na floresta escura, mas bem perto D'uma montanha que encontrei diante Do passo temerario, vão, incerto; No flanco da montanha, a mais gigante, Deparei antro lóbrego e aberto, Quiz conhecer o goso de ir perdido, E entrei, com esperança, destemido.

Era um algar profundo, escuro, mudo, Gotejando a humidade e a doença; Frio, como o terror! e mais que tudo Ermo, como o que nunca teve crença! Com a audacia da edade o passo ajudo, Através da visagem feia e densa; Quero ir lá dentro ouvir a Pythonissa Na solidão dos que só tem justiça.

Era a via subterrea, má, sem tento, Debaixo da Montanha aos céos erguida, Interminavel como o soffrimento, Desconhecida como o entrar da vida. Foi impavido adiante o pensamento, Quem romperia a tétrica avenida? Oh, não foram por certo as alimarias Sim, bem o sei, foi geração de Párias.

Parecia que o pezo da montanha Já o sentia no offegar cansado; A crassa escuridão era tamanha Que ultrapassava os dogmas do peccado. A tristeza que o peito ali me banha Similhava a do homem ultrajado; Silencio, egual ao seculo confuso, Que não deixou protesto contra o abuso.

E tacteando trépido prosigo Como o que deu por falta, e em vão procura; Mas como a tradição de um tempo antigo Paralisou-me uma humidade escura! Senti-me vérme dentro de um jazigo, E vi que a vida quer a luz só pura; E dentro, lá nos infimos cancéllos Ouvi ruido como de martellos;

Pancadas longas, de quem rompe e escava Na compacta pedreira e a derruba, O som pela caverna retumbava; Fui avançando! quer eu desça ou suba Mais se distingue a varia faina brava, Como o leão, quando sacode a juba! Ais e vivas, lamentos e cantigas Soam como animando nas fadigas.

Cheguei mais perto. Vi-os! eram tantos... Cataduras de Cyclopes, de athletas! Rostos sulcados por calados prantos, Peitos transidos por ignotas setas; Na expressão moral, brutos e santos; Tão ingenuos como almas de poetas; Rudes, leaes, e rotos mas contentes; Chamam isto--trabalho--aquellas gentes:

Levantavam os malhos contra a rocha, Responde ella com afiadas lascas; E quando no trabalho a força afrouxa, Um canto anima as vacillantes vascas! O canto ou grito da agonia roxa, _Çà ira!_ voz das intimas borrascas, Vinha ao bater dos malhos dar compasso, Trazer alento no mortal cansasso.

Muitos caíam já sem força, em terra, Mudos, outros ficavam sepultados Nas barreiras por culpa d'este que erra Indo minar em perigosos lados. Mas que poder sublime o canto encerra! _Çà ira!_ levam eccos prolongados; E ao trabalho de novo metem hombros, Na dor e na coragem sempre assombros.

Cheguei mais perto, ao perto dos mineiros: --Oh raças condemnadas ao trabalho, Criadas na fadiga, e os primeiros Que procuraes romper tão duro atalho! E para quem do Golgotha o madeiro Só produziu o secco e esteril galho, Que sentença condemna a essa luta De vencerdes a natureza bruta?

«Vamos minando o alteroso Monte. Temol-o atravessado pela base! Procuramos a luz d'outro horisonte, Nós sentimol-a! é esta a nossa phrase. Sem um astro que a via nos aponte, Vamos errantes, acertando quasi, Mergulhados no frio e escuridade, Dá-nos calor o ideal da liberdade.

«Ha gerações que aqui nasceram méstas; E que se nasce livre aquella ignora! Outra trabalha equiparada ás bestas, E pensa que só vive quando chora. Umas cáem na vala, restam estas Na esperança de achar a nova aurora! Sobre nós a montanha peza horrenda Na tradição de seculos tremenda.

_«Çà ira!_ Pois Encélado palpita, Sacudindo a montanha sobre o dorso; A montanha é a tradição maldita, Immovel como os dogmas do remorso, Impassivel como uma lei escripta... Nós proseguimos no baldado esforço Porque os filhos de nossos filhos vejam A luz que os nossos olhos tanto almejam.

«Nós transmittimos o fatal legado Que herdámos sem saber como nem quando...» E quando olhava para aquelle lado Lá onde o _Çà ira!_ ia levando, De repente ficou tudo calado! Vi transluzir clarão suave e brando... Jôrros de luz, que as trevas longe sómem, Eu conhecí, era--_Os Direitos do Homem_!

Por ti, que gerações foram á vala Afirmando o que a tradição mais nega! E emquanto o pranto em cada rosto falla, E a vêr a claridade cada um chega; Lembrou-me a mim dever eu gradual-a, A diáphana luz que a olhos céga; --Oh, parae um instante! sabei que essa Luz repentina é como a treva espessa.

Confiae hoje em mim; que eu vá adiante A vêr se algum abysmo aí está aberto; Quem sae da escuridão não vê distante, Sustae o passo trépido e incerto!-- Como entra o mensageiro alegre, ovante Na Promissão, saindo do dezerto, E emquanto choram n'uma effusão terna, Cheguei então á bocca da caverna.

Que mundo extranho, que planicie infinda, Que ár saudável, tépido e fagueiro! Que céo azul, que paizagem linda, A harmonia embalava o mundo inteiro. Bloco enorme de pedra estava ainda Na bocca da caverna sobranceiro, Cresceu-me esta ambição danada minha, E vi a fragil lasca que o sustinha.

Á posse d'esse mundo a mente eu alço; Sentí o egoismo de querer tal mundo Só para mim; e eu, misero e falso, Inda escutava o cantico jocundo, De prompto o bloco intrepido descalço! Rolou o pedra da caverna ao fundo; Como se entaipa n'uma furna o urso, Pensei interromper do tempo o curso.

Sepultos outra vez deixei em trevas Miseraveis que seculos luctaram; Abafei-te, hymno ardente, que sublevas, Puz um dique aos golphões que extravasaram; Cobri o quadro das angustias sévas Que a tradição e a ordem ameaçaram; Sobre essa pedra eu presenti a gloria Fiz o meu pedestal perante a Historia.

Ouves, Las-Casas? choras, fiel amigo? A custo sae-me a voz já surda e baça... O meu destino foi, á força o digo, Missão de um blóco em sua inerte massa. Eu o sinto opprimir-me por castigo O peito, e com seu pezo me ameaça; No estertor de Job, ai se me ouvissem! _Melius erat si natus non fuissem._--

* * * * *

Como se afunda do alto no oceano A mó do Apocalypse amaldiçoada, Tal para sempre no desprezo humano Se imerge essa existencia egoista, errada. Vomitou destruição o ignobil cano, Da morte e do que é morto fez parada! E se a dor sente alivio no improperio, Sirva-lhe de alvo sua vida e imperio!

1874 THEOPHILO BRAGA

ÁS MÃES

Oh santas, que embalaes os berços das crianças, E assim lh'o revestis de floreas esperanças; Que andaes sempre a cuidar das almas por abrir, E a verter-lhes no seio o germen do porvir! Sois vós que, pela mão, da gloria á vida inquieta Levaes um vosso filho, um pallido propheta, Que é Newton ou Petrarcha, Angelo ou Raphael, Com o pincel e a pena, o compasso e o cinzel, Fazendo enobrecer quem lhes seguir o exemplo! Sois vós que o conduzis ao portico do templo Onde o porvir corôa os genios immortaes, E mal chegadas lá de todo o abandonaes Sem aguardar sequer, nas sombras d'uma arcada, A grande acclamação que festeja a entrada! E modestas que sois! tornaes a vosso lar E só vos contentaes em vel-o atravessar Coroada de laureis a frente scismadora, Um arco triumphal, que o cérca d'uma aurora. Mas nós, cabeças vans, escravos pelo amor, Andamos a dizer; «Beatriz! Leonor!» E o nome vosso, oh mães, não lembra um só instante. Quem sabe o nome vosso, oh mães de Tasso e Dante?

Oh santas! perdoae; lá tendes o Senhor Que vos cobre de luz, de bençãos e de amor, Fazendo abrir ao sol as vossas esperanças! Oh santas, emballae o berço das crianças!

1864 GUILHERME BRAGA, _Grinalda_ t. V, p. 25.

* * * * *

AMIGOS...

Era da Terra-Nova: um formidavel cão. O homem que m'o vendeu, chamava-lhe--Sultão, E creio que o trazia ha dois annos comsigo; Eu só lh'o quiz comprar para ter um amigo ...

Depois que lh'o paguei, o soberbo animal Lançou-lhe um triste olhar d'estes que fazem mal, Que envolvem um adeus, talvez o derradeiro! O dono, distrahido a contar o dinheiro, Nem mesmo reparou n'essa muda afflícção, E disse-me a sorrir; «É um bravo, este Sultão! Bem nutrido e leal: dedicado e robusto! Mas... pode acreditar que lh'o dou pelo custo... Já me salvou a vida uma vez no alto mar.» Disse isto, e cortejou-me e partiu... A scismar N'aquella ingratidão, que tantas me recorda, Do pescoço do cão desamarrando a corda, Em voz alta eu bradei: Bem o dizias tu, Oh poeta immortal: _Le chien c'est la vertu Qui ne pouvant se faire homme, s'est faite bête_. E como em todo o olhar uma alma se reflecte, A alma d'aquelle sêr que vinha atraz de mim... Curvo, humilde, ou talvez resignado por fim, No olhar que então lhe vi, das sombras do seu nada Parecia dízer-me:--Obrigada, obrigada!

1866 GUILHERME BRAGA, _Heras e Violetas_, p. 239. Porto, 1869.

* * * * *

PLATÃO

Quando ao cair das sombras, o sol já semi-morto Tornava côr das rosas o anil do mar Egeo Onde veleiras cymbas singravam para o porto Abrindo as azas brancas, como as aves do céo;

Do promontorio Sunium ao viso magestoso, Que banha o pé nas aguas, ascendia Platão; E, como lendo as folhas de um livro mysterioso Derramava seus olhos na infinita amplidão...

O sol desce! o sol desce! seu derradeiro lume Diz aos montes e ás vagas melancolico adeus, E o sabio sempre immovel no purpurado cume, Com a vista no espaço finge a estatua de um deus.

Sobre a roca de Egina, vem surgindo a seu turno Vésper, tingindo as aguas de azulado fulgor; As estrelas despontam, e o sabio taciturno Com o dedo nos labios pensa no infindo Amor.

Mas, eil-o que estremece! n'um transporte impetuoso Do seu negro, amplo manto se desembuça então, Depois estende os braços ao plaino rumoroso, E brada, erguendo os olhos á etherea solidão:

«D'este grande poema, portentos, harmonias, D'esta hora, só d'esta hora, mysteriosa assim, Só d'esta hora de doces e santas alegrias, Eu aprendo o que podes, oh Potencia sem fim!

És tu, oh Natureza que a rigidez me ensinas, Que os sophistas da Eschola, na Eschola assombrará, Em ti bebo a Sciencia, que das coisas divinas Tenho, que o mundo busca, mas no mundo não ha!

Que logar fica á duvida em corações, que o effeito Mago d'estes momentos faz d'amor palpitar? Oh virações do empyreo, purificae-me o peito, Para que os meus bons Genios o possam habitar.

Descei, oh meus patronos! descei do excelso empyreo! Já minha alma está pura! homem novo já sou! Não pezam em mim sombras e duvida e delirio! A luz da eterna aurora para mim já raiou.

Chamma d'amor celeste me aquece a intelligencia, Minha rasão, qual aguia, paira no extremo céo, E, á luz mysteriosa da minha consciencia, Vejo através da tumba, da morte rasgo o véo!

Immortal! que presagios. Immortal! que delirio, Immortal! que alegrias. Que crêr e que esperar! Purificae-me o peito, vós, virações do empyreo, Para que os meus bons Genios lá possam habitar!»

Diz--e do Promontorio deixa o cume elevado, Que dos Genios da Noite já cercam turbilhões, E, ao rir da nova aurora, com a voz de inspirado, Descreve á turba absorta suas grandes visões!

1871 LEONEL DE SAMPAIO (VICENTE DE FARIA) _Grinalda_, vol. III, p. 88.

* * * * *

N'UM TUMULO

Envolve-se a existencia em dois mysterios: Berço e campa--dois óvulos diversos; Dos berços faz-se o pó dos cemiterios, Das campas sae o pollén dos berços.

Mysterioso circulo da vida Que esmaga em cada giro uma alma, um ente, Que rasga em cada volta uma ferida, Que deixa em cada sulco uma semente.

ALEXANDRE DA CONCEIÇÃO.

DILEMMA

Eu, quando aos labios teus o pejo assoma Como no céo a nuvem matutina, Ou, quando esse rubor que te illumina Occultas entre as ondas da aurea cóma,

Parece que estou vendo, n'esse pejo, A timidez da pomba que tem medo Do mais leve sussufro do arvoredo, Cuidando que o rumor lhe pede um beijo

A ti também, meu Deus! tudo te assusta! Que medo podes ter quando eu te fallo? Porque córas assim quando me calo?... Parece que até mesmo a olhar te custa!

Se te fallo de amor não me respondes, Se te tento beijar, sorris córando; E concedes o beijo, mas, curvando A fronte ao seio aonde tu a escondes.

Esconde; olha, eu por mim não me arrenego; O que te digo é que esse teu receio Faz ás vezes com que eu te beije o seio Como errando o caminho... se estou cego!...

Desterra para longe esse embaraço! Vamos, olha para mim, mas sem tal pejo!... Vamos, se não córares dou-te um beijo, Se córares... então dou-te um abraço.

ALEXANDRE DA CONCEIÇÃO, _Grinalda_, vol. V, p. 29.

* * * * *

SIC TRANSIT...

Um dia frei Manuel das Bentas Chagas Limpava ás sujas mangas da batina Do seu teimoso pranto as grossas bagas, Sentado á sombra de uma velha ruina.

Ruíra, ha muitos annos o convento, Onde lédo passara a mocidade, E vinha agora alí, por seu tormento Curtir as agras dores da saudade.

«Frei Manuel, (lhe pergunto) que pezares Turvam teu rosto que em tal pranto lavas? Tens culpa que ruissem os altares Do templo, onde ao Deus vivo celebravas?

Não tens culpa, bem sei, choras os damnos Da santa religião, pois viste um dia O que fôra trabalho de mil annos Cair ás mãos da ignara hypocrisia?»

Frei Manuel me responde:--Esse tão bello Tempo da vida asceta não lamento; Choro, sim, mas por vêr o carmatello Não respeitar a adega do convento.

J. SIMÕES DIAS.

* * * * *

A BENÇÃO DA LOCOMOTIVA

A obra está completa. A machina flammeja, Desenrolando o fumo em ondas pelo ár; Mas antes de partir, mandem chamar a Igreja, Que é preciso que um bispo a venha baptizar.

Como ella é com certeza o fructo de Caim, A filha da Rasão, da independencia humana, Botem-lhe na fornalha uns trechos em latim, E convertam-n'a á fé catholica-romana.

Devem n'ella existir diabolicos peccados, Porque é feita de cobre e ferro; e estes metaes Saem da natureza, impios, excommungados, Como saímos nós dos ventres maternaes.

Vamos, esconjurae-lhe o demo que ella encerra, Extrahi a heresia ao aço lampejante! Ella acaba de vir das forjas de Inglaterra, Ha de ser com certeza um pouco protestante.

Para que o monstro côrra em férvido galope, Como um sonho febril, n'um doido turbilhão, Além do machinista é necessario o hyssope, E muita theologia... além de algum carvão.

Atirem-lhe uma hostia á bocca famulenta, Preguem-lhe alguns sermões, obriguem-n'a a resar, E lancem na caldeira um jorro d'agua benta, Que com agua do céo talvez não possa andar.

GUERRA JUNQUEIRO.

* * * * *

O URSO BRANCO

Elle é descommunal, titânico, felpudo; Anda sinistramente a farejar na treva, E causa-nos horror, como um gigante mudo.

Vive na escuridão phantastica do Neva, E já ouvi dizer que essa alimaria informe É também como nós filho de Adão e Eva.

Rasteja pela sombra; e mesmo quando dorme Conserva sempre aberto um olho coruscante Como um cacto real ensanguentado, enorme.

É o despota feroz o Cesar triumphante D'uma crepuscular, longinqua Babylonia, Que é como um pezadelo, uma visão do Dante.

Nas convulsões febris da bestial insomnia Estorce-se a lamber as garras sensuaes, Ruminando lá dentro o craneo da Polonia.

Anda espreitando ao longe as torres orientaes, As flexas de Stambul, as morbidas almêas Com o riso cruel dos lobos imperiaes.

Tira o sangue do povo e manda abrir-lhe as veias, E os duques-generaes e os bispos-cortezãos, Misturam-no com vinho e bebem-no nas ceias.

Satanaz é seu pae, e os tigres seus irmãos, Depois de realisar doidas carnificinas, Lava com agua benta as sanguinarias mãos.

Sobre os campos do mal semeia as guilhotinas, Mergulha brutalmente a plebe esfarrapada Na bronzea escuridão de tenebrosas minas:

Por isso quando vae de fronte levantada, Entre o clamor febril da guarda pretoriana, Erguendo para a luz a flammejante espada,

Debaixo de seus pés, em confusão insana, Sente-se revolver um mar de imprecações, Que abala o fundamento á consciencia humana.

Justiça! vae abrir as furnas dos leões! Desce d'aquelle inferno ás gélidas entranhas, E arranca-me de lá os tristes corações,

Que sentem sobre si o peso das montanhas. Transforma n'uma lança os ferros das algemas! Vae aos gelos do norte, as solidões estranhas...

Procura a fera brava; eia, mulher, não tremas! Embebe-lhe sem dó no musculoso flanco A lança virginal das coleras supremas.

Monta no teu corcel! Agarra o urso branco: Ensina-lhe a dansar umas grutescas dansas, E dá-o de presente a um magro saltimbanco

Que o mostre n'uma feira aos risos de crianças.

GUERRA JUNQUEIRO

* * * * *

NOVO PETRARCHA

Ia o sol desmaiando no occidente, E disseste-me então: «Ah! doce amante, Ditosa eu fôra se inspirasse um Dante: Em seus cantos vivera eternamente!»

Fez-se em minh'alma a luz. Um poema ingente Inspirado encetei desde esse instante. Aqui o tens, oh musa; em tom vibrante N'elle celebro o nosso amor ardente.--

E mais lhe disse o trovador:--No Pindo, E na fronte ao deus loiro consagrada, Estes versos compuz de amor infindo.--

E ella com voz doce e namorada: «Oh! como és bom, e que poema lindo: Excede a _Joven Lilia abandonada_.»

JOÃO PENHA.

* * * * *

TO BE, OR NOT TO BE

Não te parece esta existencia clara, E deploras em o vate da tristeza Abandone com tanta ligeireza Quanta mulher gentil ancioso amára.