Part 8
Não sei que tem a pallidez do outono, E o frémito das folhas desbotadas; Lembra-me em noites no prazer passadas Um sonho de ternura antes do somno.
Alguma cousa vaga e transparente Que enlaça co'a visão a realidade, Que affaga e que sorrí, mas faz saudade Por que enche d'agua os olhos do vidente.
Eu vi-a e senti n'alma que a adorava, Que fragancia! que flor! que novidade! É que a mystica luz da eternidade Já da entre-aberta campa a illuminava.
E eu louco ante visão tão pura e bella, Nem via em tanta luz sombra da morte, Nem me lembrei da minha ingrata sorte, E eu sabia que amal-a era perdel-a!
Adeus!... Se existe o céo... a eternidade?... Se nos veremos no paiz risonho?... A vida transitoria e a morte... é sonho?... Meu Deus! porque nos dás esta saudade?
1869 THOMAZ RIBEIRO, _Grinalda_, t. VI, p. 7.
A VIDA
Foi-se-me pouco a pouco amortecendo A luz que n'esta vida me guiava, Olhos fitos na qual até contava Ir os degraus do tumulo descendo.
Em se ella annuveando, em a não vendo, Já se me a luz de tudo annuveava; Despontava ella apenas, despontava Logo em minha alma a luz que ia perdendo.
Alma gémea da minha, ingenua e pura Como os anjos do céo (se o não sonharam...) Quiz mostrar-me que o bem, bem pouco dura.
Não sei se me voou, se m'a levaram, Nem saiba eu nunca a minha desventura Contar aos que inda em vida não choraram.
Ah! quando no seu collo reclinado --Collo mais puro e candido que arminho, Como abelha na flor do rosmaninho Osculava seu labio perfumado;
Quando á luz dos seus olhos... (que era vel-os, E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!) Lia na sua bocca a Biblia santa Escripta em letra côr dos seus cabellos;
Quando a sua mãosinha pondo um dedo Em seus labios de rosa pouco aberta, Como tímida pomba sempre álerta, Me impunha ora silencio, ora segredo;
Quando, como a alvéola, delicada E linda como a flor que haja mais linda Passava como o cysne, ou como, ainda Antes do sol raiar, nuvem doirada;
Quando em balsamo d'alma piedosa Ungia as mãos da supplice indigencia, Como a nuvem nas mãos da providencia Uma lagrima estilla em flor sequiosa;
Quando a cruz do collar do seu pescoço Estendendo-me os braços, como estende O symbolo d'amor que as almas prende, Me dizia... o que ás mais dizer não oiço;
Quando, se negra nuvem me espalhava Por sobre o coração algum desgosto. Conchegando-me ao seu candido rosto, No perfume d'um riso a dissipava;
Quando o oiro da trança aos ventos dando E a neve de seu collo e seu vestido --Pomba que do seu par se ia perdido, Já de longe lhe ouvia o peito arfando;
Tinha o céo da minha alma as sete côres, Valia-me este mundo um paraiso, Distillava-me a alma um doce riso, Debaixo de meus pés nasciam flores.
Deus era inda meu pae. E emquanto pude Li o seu nome em tudo quanto existe --No campo em flor, na praia árida e triste, No céo, no mar, na terra e... na virtude!
Virtude! Que é mais que um nome Essa voz que no ár se esvái, Se um riso que ao labio assome N'uma lagrima nos cae!
Que és, virtude, se de luto Nos vestes o coração! És a blasphemia de Bruto --Não és mais que um nome vão.
Abre a flor á luz, que a enleva, Seu calix cheio d'amor, E o sol nasce, passa e leva Comsigo perfume e flor!
Que é d'esses cabellos d'oiro Do mais subido quilate, D'esses labios escarlate, Meu thezoiro!
Que é d'esse halito, que ainda O coração me perfuma! Que é do teu collo de espuma, Pomba linda!
Que é d'uma flor da grinalda Dos teus doirados cabellos; D'esses olhos, quero vel-os, Esmeralda!
Que é d'essa alma que me déste! D'um sorriso, um só que fosse, Da tua bocca tão doce, Flor celeste!
Tua cabeça, que é d'ella, A tua cabeça d'oiro, Minha pomba! meu thesouro! Minha estrella.
De dia a estrella d'alva empallidece; E a luz do dia eterno te ha ferido. Em teu languido olhar adormecido Nunca me um dia em vida amanhecesse.
Foste a concha da praia. A flor parece Mais ditosa que tu. Quem te ha partido, Meu calix de crystal, onde hei bebido Os nectares do céo... se um céo houvesse!
Fonte pura das lagrimas que chóro! Quem tão menina e moça desmanchado Te ha pelas nuvens os cabellos d'oiro!
Sóme-te, vela do baixel quebrado! Sóme-te, vôa, apaga-te, meteoro! É n'este mundo mais um desgraçado.
E as desgraças, podia prevel-as Quem a terra sustenta no ár, Quem sustenta no ár as estrellas, Quem levanta ás areias o mar.
Deus podia prevêr a desgraça, Deus podia prevêr e não quiz; E não quiz, não... se a nuvem que passa Também póde chamar-se infeliz!
A vida é o dia d'hoje, A vida é ai que mal sôa, A vida é sombra que foge, A vida é nuvem que vôa; A vida é sonho tão leve Que se desfaz como a neve E como o fumo se esvae; A vida dura um momento, Mais leve que o pensamento, A vida leva-a o vento, A vida é folha que cae!
A vida é flor na corrente, A vida é sôpro suave, A vida é estrella cadente Vôa mais leve que a ave; Nuvem que o vento nos ares, Onda que o vento nos mares, Uma apoz outra lançou, A vida--penna cahida Da aza d'ave ferida-- De valle em valle impellida, A vida o vento a levou!
Como em sonhos o anjo que me afaga Leva na trança os lyrios que lhe puz, E a luz quando se apaga Leva aos olhos a luz;
Como os ávidos olhos d'um amante Levam comsigo a luz d'um doce olhar, E o vento do levante Leva a onda do mar;
Como o tenro filhinho quando expira Leva o beijo dos labios maternaes, E á alma que suspira O vento leva os ais;
Ou como leva ao collo a mãe seu filho, E as azas leva a pomba que voou, E o sol leva o seu brilho, O vento m'a levou.
E tu és piedoso, Senhor! és Deus e pae! E ao filho desditoso Não ouves um só ai! Estrellas déste aos áres, Dás perolas aos mares, Ao campo dás a flor, Frescura dás ás fontes, O lirio dás aos montes, E tiras-m'a, Senhor!
Ah! quando n'uma vista o mundo abranjo, Estendo os braços, e, palpando o mundo, O céo, a terra e o mar vejo a meus pés; Buscando em vão a imagem do meu anjo, Soletro á froixa luz d'um moribundo Em tudo só--talvez...
Talvez é hoje a Biblia, o livro aberto Que eu só ponho ante mim nas rochas, quando Vou polo mundo vêr se a posso vêr; E onde, como a palmeira do deserto, Apenas vejo aos pés, inquieta, ondeando A sombra do meu sêr.
Meu sêr voou na aza da aguia negra Que levando-a, só não levou comsigo D'esta alma aquelle amor! E quando a luz do sol o mundo alegra, Chrysalida nocturna, a sós commigo, Abraço a minha dôr!
Dôr inutil! Se a flôr, que ao céo envia Seus balsamos, se esfolha, e tu no espaço Achas depois seus atomos subtis; Inda has de ouvir a voz que ouviste um dia, Como a sua Leonor inda ouve o Tasso... Dante... a sua Beatriz!
--Nunca; responde a folha que o outono, Da haste que a sustinha a mão abrindo, Ao vento confiou; --Nunca; responde a campa, onde, do somno, E quem talvez sonhava um sonho lindo, Um dia despertou.
--Nunca; responde o ai que o labio vibra; --Nunca; responde a rosa que na face Um dia emmurcheceu: E a onda, que um momento se equilibra Em quanto diz ás mais: deixae que eu passe! E passou e... morreu!
JOÃO DE DEUS, _Flores do Campo_, p. 160. 2.ª ed. Porto, 1876.
ADORAÇÃO
Vi o teu rosto lindo, Esse rosto sem par! Contemplei-o de longe, mudo e quedo, Como quem volta d'aspero degredo E vê, ao ár subindo, O fumo do seu lar!
Vi esse olhar tocante, D'um fluido sem igual! Suave, como lampada sagrada, Bemvindo, como a luz da madrugada, Que rompe ao navegante Depois do temporal.
Vi esse corpo d'ave Que parece que vae Levado, como o sol ou como a lua, Sem encontrar belleza egual á sua, Magestoso e suave, Que surprehende e attrae!
Attrae, e não me atrevo A contemplal-o bem; Porque espalha o teu rosto uma luz santa, Uma luz que me prende e que me encanta, N'aquelle santo enlevo D'um filho em sua mãe!
Temo, apenas presinto A tua apparição! E se me aproximasse mais, bastava Pôr os olhos nos teus, ajoelhava! Não é amor, que eu sinto, É uma adoração!
Que azas previdentes Do anjo tutelar Te abriguem sempre á sua sombra pura! A mim basta-me só esta ventura De ver que me consentes Olhar de longe... olhar!
JOÃO DE DEUS, _Folhas soltas_, p. 31. Porto, 1876.
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SYMPATHIA
Olhas-me tu Constantemente: D'aí concluo Que essa alma sente!... Que ama, não zomba, Como é vulgar; Que é uma pomba Que busca o par!...
Pois ouve; eu gemo De te não ver! E, em vendo, tremo Mas de prazer!... Foge-me a vista... Falta-me o ár... Vê quanto dista D'aqui a amar!
JOÃO DE DEUS, _Folhas soltas_, p. 131.
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A CIGARRA E A FORMIGA
Como a cigarra o seu gosto É levar a temporada De junho, julho e agosto N'uma cantiga pegada, De inverno tambem se cóme, E então rapa frio e fome...
Um inverno a infeliz Chega-se á formiga, e diz: --Venho pedir-lhe o favor De me emprestar mantimento, Matar-me a necessidade! E, em chegando a novidade, Faço até um juramento, Pago-lhe, seja o que fôr!
«Mas, (pergunta-lhe a formiga,) O que fez durante o estio? --Eu, cantar ao desafio. «Ah! cantar? Pois minha amiga, Quem leva o estio a cantar Leva o inverno a dançar.
JOÃO DE DEUS, _Folhas soltas_ p. 66.
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O DINHEIRO
O dinheiro é tão bonito, Tão bonito, o maganão! Tem tanta graça o maldito, Tem tanto chiste o ladrão! O fallar? falla de um modo... Todo elle, aquelle todo... E ellas acham-n'o tão guapo ... Velhinha ou moça que veja, Por mais esquiva que seja, _Tlim!_ Pápo.
E a cegueira da justiça Como elle a tira n'um ai! E sem pegar n'uma pinça, E só dizer-lhe: Ahi vae... Operação melindrosa Que não é lá qualquer cousa; Catarata! tome conta; Pois não faz mais do que isto, Diz um juiz que o tem visto: _Tlim!_ Prompta.
N'essas especies de exames Que a gente faz em rapaz, São milagres aos enxames O que aquelle diabo faz. Sem saber nem patavina De grammatica latina, Quer-se a gente d'ali fóra? Vae elle com taes fallinhas, Taes gaifonas, taes coisinhas... _Tlim!_ Ora...
Aquella physionomia E lábia que o diabo tem! Mas n'uma secretaria Ahi é que é vel-o bem! Quando elle, de grande gala, Entra o ministro na sala Aproveita a occasião: Conhece este amigo antigo? --Oh meu tão antigo amigo! (_Tlim!_) Pois não!
JOÃO DE DEUS, _Flores do Campo_, pag. 147.
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AMORES... AMORES...
Não sou eu tão tola Que caia em casar; Mulher não é rola, Que tenha um só par. Eu tenho um moreno, Tenho outro de cór, Tenho um mais pequeno, Tenho outro maior.
Que mal faz um beijo, Se apenas o dou, Desfez-se-me o pejo E o gosto ficou? Um d'elles por graça Deu-me um, e depois, Gostei da chalaça, Paguei-lhe com dois.
Abraços, abraços Que mal nos farão? Se Deus me deu braços, Foi essa a rasão. Um dia que o alto Me vinha abraçar, Fiquei-lhe de um salto Suspensa no ár.
Amores, amores, Deixal os dizer; Se Deus me deu flores, Foi para as colhêr. Eu tenho um moreno, Tenho um de outra côr, Tenho um mais pequeno, Tenho outro maior.
JOÃO DE DEUS, _Flores do Campo_, p. 71. 2.ª ed.
A SOMBRA
Quando Christo sentiu que a sua hora Em fim era chegada, grave e calmo, Sereno se acercou dos que o buscavam. A turba vinha em armas! Mas, de tantos, Nem um só se atreveu a dar um passo, A pôr a mão no Filho do Homem.--Todos De olhos no chão, as armas encobriam Ante Jesus inerme. Então aquelle Que o tinha de entregar, aproximando-se, O tomou nos seus braços, murmurando: «Que Deus te salve, Mestre!» E, sobre a face O beijou, como fôra contractado. Então os mais, chegando-se, o prenderam.
Mas Jesus, sem os vêr, lhes perdoava; De olhos no céo, seguía-os sereno. Era duro o caminho. Sobre um monte Iam, e dos dois lados, lá em baixo, Cobria a treva a terra toda. Quando, Porém, sobre o mais alto d'esse monte Foram emfim chegados, de repente Viu-se-lhe uma das faces alumiar-se De uma luz doce e branda, mas immensa! E quanta terra, desde o monte ao oceano, Lhe ficava do lado aonde virada Lhe estava aquella face, reflectindo-a, Tudo se esclarecia--valle e serra E a metade do céo--apparecendo Como em puro luar, ou qual se fosse Vir nascendo uma aurora d'esse lado. E essa face radiante era a que Judas Não chegára a tocar. Porém a outra, Que elle beijara, conservou-se escura, Como se o crime d'elle ali guardasse... Onde a virava, era uma noite immensa, Coberto o horisonte de nevoeiro... Partido o mundo em dois, essa metade Era a que se ficara envolta em sombras. ........................................ Foi d'essas sombras que se fez a Egreja!
1865 ANTHERO DE QUENTAL, _Odes modernas_, p. 129. 2.ª ed. Porto, 1875.
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Como o vento ás sementes do pinheiro Pelos campos atira e vae levando... E, a um e um, até ao derradeiro, Vae na costa do monte semeando;
Tal o vento dos tempos leva á Idéa, A pouco e pouco, sem se vêr fugir... E nos campos da vida assim semêa As immensas florestas do porvir!
ANTHERO DO QUENTAL, _Odes modernas_, p. 135
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Ha dous templos no espaço--um d'elles mais pequeno; O outro, que é maior, está por cima d'este; Tem por cúpula o céo, e tem por candelabros A lua ao occidente, e o sol suspenso ao éste.
De sorte que quem stá no templo mais exiguo Não póde vêr nascer o sol, nem póde vêr As estrellas no céo,--que os tectos e as columnas Não o deixam olhar, nem a cabeça erguer.
É preciso abalar-lhe os tectos e as columnas, Porque se possa erguer a fronte até aos céos... É preciso partir a Egreja em mil pedaços Porque se possa vêr em cheio a luz de Deus.
1864 ANTHERO DO QUENTAL, _Odes modernas_, p. 155.
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VERSOS ESCRIPTOS NA MARGEM D'UM MISSAL
Bem póde ser que nossos pés dorídos Vão errados na senda tortuosa, Que o pensamento segue nos desertos, Na viagem da Idéa trabalhosa...
Que a arvore da sciencia, sacudida Com força, jámais deite sobre o chão, Aos pés dos tristes que ali 'stão anciosos, Mais do que o fructo negro da illusão...
Que o livro do Destino esteja escripto Sobre folhas de lava, em letra ardente, E não chegue a fital-o o olho humano Sem que se offusque e cegue de repente...
Póde ser, que na lucta tenebrosa Que este seculo move sob o céo, venha a faltar-lhe o ár, por fim, faltando-lhe A terra sob os pés, bem como Anteo...
Que do sangue espalhado nos combates, E do pranto que cae da triste lyra, No árido chão da esperança humano Mais não nasça que a urze da mentira...
Que o mysterio da vida a nossos olhos Se torne dia a dia mais escuro, E no muro de bronze do Destino Se quebre a fronte--sem que ceda o muro...
E que o pensamento seja só orgulho, E a sciencia um sarcasmo da verdade, E nosso coração, louco vidente, E nossas esperanças só vaidade.
E nossa lucta, vã! talvez que o seja! Cego andará o homem cada vez Que vê no céo um astro! e os passos d'elle Errados pelo mundo irão, talvez! Mas, oh vós que prégaes descanço inerte, No seio maternal da ignorancia, E condemnaes a lucta, e daes ao homem Por seu consolo o dormitar da infancia;
Apostolos da crença,... na inercia... Vós que tendes da Fé o ministerio E sois reveladores, dando ao mundo Em logar de um mysterio... outro mysterio;
Se quanto o Universo tem no seio, E quanto o homem tem no coração, O olhar que vê, e a alma que adivinha, O pensar grave e a ardente intuição,
Se nada--em terra e céo--pôde ensinar-nos, Do fado humano o immortal segredo, Nem os livros profundos da sciencia, Nem as profundas sombras do arvoredo,
Se não ha mão audaz que possa erguel-o O tenebroso véo do Bem e Mal... Se ninguem nos explica este mysterio... Tambem o não dirá nenhum Missal.
1865 ANTHERO DO QUENTAL, _Odes modernas_, p. 143.
ONDA VIVA
--Chame-te Sudra quem servil te nota, Deixem-te as castas com horror sagrado, Calquem-te, Pária, Fellah, bronco Ilóta, Façam-te Escravo em Roma, ai, é baldado; És sempre o mesmo homem ultrajado!
A natureza deu-te a força, e vida Que não succumbe á violação proterva! Como a prancha que arrasta onda batida, Como revive a amaldiçoada erva, Assim poder extranho te conserva.
Erva, cujas raizes derrocaram De ergástulos e templos velhos muros, Que nas ruinas seu vigor mostraram, Cobrindo de verdura os seixos duros, Só com ter de ár e luz uns haustos puros.
Os que te viram sob o aspecto novo, A ti, o ignobil da vetusta edade, Como lisonja te chamaram Povo; E envolvidos na pávida anciedade Deixaram-te provar da egualdade.
Como foi que subiste a tanta altura? Não és aquelle mesmo intonso e hirsuto, Sem vontade ou direito; por ventura Bebendo o choro mudo, nunca enxuto? Vivendo equiparado sempre ao bruto?
Não és aquelle a quem o sol aquenta Pela graça dos reis, pois que um relance Das Bastilhas te arroja á morte lenta? Da crassa escravidão deixaste o alcance? Da gleba adscripta sacudiste o transe?
Como ousaste pensar por ti um dia, Rodeado de bonzos como andáras? Chamaste a Providencia; a Theologia, A escarnecer-te com devotas caras, Respondia queimando-te nas áras.
E foi possivel germinar a ideia, Sob esse craneo duro, tantas vezes Decepado nas praças, porque cheia Um dia trasbordára a taça as fézes, E ousaste resistir a mil revézes?
Explorado do berço á sepultura, Tu, conservado estupido por plano, Como foi que subiste a tanta altura? Lançando da cerviz o jugo insano, Reclamando isso que é do sêr humano?
* * * * *
«Perguntas bem! Direi toda a verdade: De luz, terra e trabalho, de ár e ideia, Da santa aspiração da liberdade, De tudo quanto o peito vivo anceia, Um dogma nos privou por culpa alheia.
O velho egoismo nos privou de tudo! Fomos baixando até cahir exangue; Rasgava-nos o peito o ferro agudo, E quando estava já para a dor mudo Só não poderam esgotar-lhe o sangue.
E o sangue correu sempre,--e quente arrasta Provocando a embriaguez da liberdade, Lavando o stigma que separa a casta, Minando a secular fatalidade Que fez do atroz arbitrio Auctoridade!
Quando o rei paternal, d'entre o arminho Triumphante exclamava:--Quero e posso! Lançava ao ár o cópo cheio de vinho; Tambem ao derrubar o alto colosso, Nos derramámos sempre o sangue nosso.
O sangue, o sangue nosso! o vinho forte Da garantia cívica romana! Na sua enchente rompe o dique á sorte. Como Christo augmentou o vinho em Cana, O sangue fez a egualdade humana.
THEOPHILO BRAGA.
O SEPULCHRO DE VIRGILIO
I
Era chegado o Apostolo eloquente Cansado, e firme n'uma fé robusta, Da romagem longinqua do Oriente, Por hordas sevas da região adusta: Vinha trazer á Capital da Gente Que impera no orbe e com poder assusta De armas e leis, poder egual não visto, O Verbo novo que dissera Christo.
Vira o Apostolo uma fresca gruta, Entrou, sentou-se em vago esquecimento. Queria forças para entrar na lucta, E repouso de quem recobra alento; Santos carmes do velho Lacio escuta Agitando-lhe o incerto pensamento. É bem que te extasies e arrebates Co'a a lingua dos Juristas e dos Vates!
Sentou-se extenuado sobre as bordas Do tumulo sagrado de Virgilio! Transpondo os mares, e sedentas hordas, Mal comprehende o Apostolo esse idylio Que resôa das invisiveis cordas Da alma grega no etrusco domicilio. Elle quer possuir essa magia Para espalhar a fé viva que o guia.
Virgilio! A natureza era serena! Com mansidão o mar longe estuava Na forte placidez de quem sem pena Do promontorio os vinculos quebrava. Atito pesaroso de uma avena Graça de infancia á paisagem dava; Era limpido o ár! Cariz de Italia... Quem tiver mais poesia n'alma exhale-a.
Havia o quer que é, de mysterioso Que perturbava o Apostolo fervente, A revelar-lhe com tristeza e goso, Que vinha tarde ás bandas do Occidente, Fallar do Verbo novo e doloroso Da liberdade humana florescente! Sobre o tumulo d'esse augusto Vate Medita nas palavras do resgate.
Repousou a cabeça somnolenta Da campa de Virgilio sobre a lagem; A mente em sonho vago representa Que chegou tarde tarde da romagem. E chorou como aquelle que se ausenta Do seu amigo, para a eterna viagem, E chorou! Concentrou-se a natureza Para ouvil-o em sua intima tristeza:
II
«Oh alma bem fadada, só nascida Para sentir o bello e a verdade! Para ti minha vinda foi perdida.
«Ao conhecer-te, quem chorar não hade Vendo morrer no erro e culpa d'Eva O melhor coração da antiguidade?
Tu foste como o guia, quando leva A luz adiante, e a todos alumia; Só para si não vae rompendo a treva!
Ah, presentiu a ideal melancholia Que faz do novo dogma a essencia, quando _Sunt lacrymae rerum!_ proferia.
Virgilio! Ah, como apostolo seria O que dava á verdade essa linguagem Profunda, humana e viva da poesia!
Se Paulo, ai, tarde! da longiqua viagem Pudesse vir a tempo, em tua procura, Do Verbo novo dando-te a mensagem!
Ter eu vindo tão tarde! desventura. E ser já tarde! que lethal tristeza, Para salvar esta alma ingenua, pura!»
E chorou! concentrou-se a natureza.
III
Longo foi o silencio, como aquelle Que procede o ruir da tempestade, Antes que o vendaval rijo atropelle As ondas, contra as quaes urrando brade! Paulo chorava por essa alma imbelle,
Com magua e suavissima saudade Ás lagrimas, da compunção alarde, Respondeu-lhe uma voz:
--Não vieste tarde.
Não vieste tarde! E vê se poderias Ao maximo pontifice do Justo Leval-o a crêr na Graça que annuncias?
Não podera esquecer a todo o custo O nexo da harmonia das vontades, Por um dogma de privilegio augusto.
Cuspido ás praias pelas tempestades Vieste Paulo, a tempo a dar a nova D'esse mysterio ás immoraes cidades.
Em quanto da Justiça déra prova Roma! foi grande, soberana e forte. Quem haverá que a outra ideia a mova?