Parnaso portuguez moderno

Part 7

Chapter 73,693 wordsPublic domain

Não! Embora as nações caiam por terra Com seus templos, suas leis, seus monumentos; Tu passarás tranquillo, á luz da guerra, Por cima dos cadaveres sangrentos.

Rica de magestade, á flôr dos mares, Bella n'outr'ora a Atlantida reinava, Casando o torvo som d'impios folgares Do rude oceano á voz ruidosa e cava.

Debalde em torno d'ella a tempestade Soltava, ás noites, infernal lamento... Deus mandava-lhe ignota mocidade No rugir dos trovões, na voz do vento,

E ella rindo vaidosa, á luz errante Que o céo, a terra, e as ondas accendia, Clamava ao mar revolto:--«Eia, oh gigante, Repete a voz de Deus, responde á orgia.

Que tens? Porque deitado ao pé das fragas, Gemes a custo em vil torpor submerso? Brinca tambem, oh mar, enrola as vagas, E vem se pódes embalar meu berço.»

Mas um dia fatal, em torno d'ella, A sombra d'Elohim pairou nos ares, E ao som ruidoso de infernal procella, Passou rente c'o a terra erguendo os mares.

E ella, qual flôr secca e mirrada, Que a lava arroja em turbilhões de fumo, Sentiu metter-lhe os hombros a rajada, E arrastal-a no chão sem lei, sem rumo.

E hoje, que é d'ella, oh Sol? N'essas paragens Ainda em pé, na gavêa, o marinheiro Ergue altivo seus canticos selvagens Procurando um albergue hospitaleiro:

Mas em torno de si, no mar deserto, Só vê mil rolos de fervente espuma, E a gaivota que fende em giro incerto Do horisonte longinquo a densa bruma.

E tu, oh sol, tu passas como d'antes, Sereno, magestoso e solitario, Doirando as vastas solidões fluctuantes, Que são da pobre Atlantida o sudario.

Deus creou-te immortal. Seu braço immenso Gravou no teu clarão: Gloria e mysterio. E entre nuvens de canticos e incenso Deu-te de ignotas solidões o imperio.

Eia, caminha pois--esparge ufano N'esses ermos sem fim teus mil fulgores, E deixa o homem levantar insano D'um orgulho infundado os vãos clamores.

Eu já li nas canções de antiga raça Que um dia cahirás do excelso throno, Como as penhas, que o raio despedaça, Ou como as folhas que desprende o outono.

E ri-me. O vérme insano, o rei obscuro Por suas mãos em farça vil coroado, Imaginar-se um deus, lêr no futuro, E erguer aos astros pavoroso brado!

Elle, que ao teu clarão surgindo ufano Do seio inerte da brutal materia Nem vê nos céos, nos montes, no oceano De seu fadario horrivel a miseria!

Elle julgar-se um deus!... Mas n'outra edade Também eu te bradei louco d'amores: --A ti, a ti, oh sol, a immensidade, Mas a nós... as paixões, a crença e as flores.--

Doido! Que importa caminhar na terra Ebrio de amor, d'aspiração e gloria, Se tudo, tudo que este mundo encerra Tem de esquecer por fim nossa memoria?

Que vale, oh sol, n'um extasis profundo Crear mil sonhos de immortal belleza, Se nem um élo, um só, nos prende ao mundo? Se nada tem comnosco a natureza?

Segue, segue o teu curso, astro bemdito, Que entre milhões de sóes vaidoso passas Derramando nos seios do infinito O ardente germen de futuras raças.

Tu, sim, és immortal.--Na tua frente Reluz etherea, inextinguivel chamma, Que sempre, sempre, á voz do omnipotente, De novas éras o raiar proclama.

Tu sim, és immortal. Embora o dia Perdido, ao longe, na veloz carreira Deixes de novo a terra arida e fria Buscando n'outros céos a errada esteira;

Embora; ao teu clarão todo o universo Clamará ao Senhor: «Senhor, piedade!» E elle fendendo os céos em luz submerso, Te mostrará de novo a immensidade.

1854 ALEXANDRE BRAGA, _Grinalda_, t. II, p. 134.

* * * * *

HYMNO Á LUA

Levanta-te! surge, rainha modesta, Que vens pudibunda da noite na festa Teu sceptro tomar; De traz das montanhas, o que é que tu sondas? O sol? não o temas, que ha muito nas ondas Se foi occultar.

E a noite é tão triste sem ti, meiga lua!... Sem ti o regato perdido fluctúa, Não sabe onde vae; Pratêa-lhe as aguas co'a luz argentina, E as margens lhe alegra, que a densa neblina Ao ver-te, se esvae.

A noite é bem triste sem ti, astro lindo; Mas quando apparecer, das nuvens abrindo Os pallidos véos, Tão linda e tão seria, teu gesto profundo Parece o de virgem que vaga no mundo, Mas scisma nos céos.

Sem ti as montanhas que ondeam distantes No pardo horisonte, não tem habitantes, Ninguem móra lá; Mas quando as envolve de candidos mantos, Visões namoradas de aérios encantos Teu brilho lhes dá.

Eu amo-te sempre! quer brilhes entre ondas, De nuvens gigantes, que timida escondas O casto fulgor; Bem como o futuro que sonha o poeta, Nos sonhos incertos, de mente inquieta Já gôso, já dor.

Ás vezes amiga das velhas ruinas, O antigo mosteiro calada illuminas Beijando-lhe a cruz; E a cruz mutilada, já meio pendida, Ao ver-te, remoça; que tu lhe dás vida Co'a magica luz.

Ás vezes espreita por entre cyprestes A estancia dos mortos, e os tumulos véstes Com mantos de dó; Alli surprehendes a virgem que, leda Se crê isolada... e um nome segreda, Que tu ouves só.

E o homem não ama teus palidos mantos; Á vida aspirando, dedica seus cantos Do sol ao fulgor; Mas quando são findos os sonhos da vida, Quem vem afagal-o na extrema guarida? Teu mystico amor.

Eu não, eu não gosto da luz orgulhosa D'esse astro que alegra co'a chamma pomposa Da vida o festim... O sol! não é elle que pinta os martyrios, Nem roxos amores, nem candidos lyrios; Mas tu, lua, sim.

Que digam os sabios, que o sol sempre ardente, Se para nós surge n'um outro occidente Sumir-se lá vae... Mas eu, n'este mundo tambem passageiro, Quero antes a lua modesto lazeiro, Que vive e se esvae.

J. S. DA SILVA FERRAZ, _O Novo Trovador_, p. 163. Coimbra, 1856.

A VIDA

A CRIANÇA:

Ao longe! ao longe! quem ir lá me déra Colher virente louro, ou linda flor, N'esse jardim d'eterna primavera, Todo cheio de luz e esplendor.

O HOMEM:

Tem o louro, veneno em suas bagas... Tem espinhos as rosas mais gentis... Avante! talvez possa minhas chagas Curar na solidão, viver feliz.

O VELHO:

Quem é d'esses jardins que vi formosos, Cobertos de perfume e de verdor?... Nos espinhos até sentia gozos, Agora de não vel-os sinto a dor.

A ESPERANÇA:

Caminha, louca, alem; caminha ávante! O que julgas o nada é tenue véo: Depois d'elle corrido, tens adiante Bem mais lindo jardim, bem mais, o céo.

1853 A. C. LOUZADA, _Grinalda_, t. VI, p. 43.

* * * * *

A FILHA DA MOLEIRA

Oh senhora mãe, Deixe-me ir á festa, Que não ha nenhuma Mais linda do que esta.

Arcos, fogo e musica, Arraial tão lindo!... E moços e moças Conversando e rindo.

Ir lá tambem posso; Já não sou pequena, Sou da mesma edade Da Rita Morena.

Estou já crescida, Sou quasi da altura Da Rosa, que em breve Casa o senhor Cura.

Já sei molinhar Como um bom moleiro, No moinho do milho, E mais no alveiro.

Já posso co' trigo; Já chego á moéga, Vou mesmo ao travouco, Se ás vezes adrega.

Se no tremonado A farinha é grada, Sei dar na estadêa Geitosa pancada.

E se o grão cae pouco Sobre a segurelha, Desando o torno, Desço mais a quelha.

Quem faz d'estas cousas Já não é criança: Já póde ir ás festas, Já canta e já dança.

Dê-me o chapéu fino, E a roupa asseada, Que eu ir lá não devo Toda enfarinhada.

Heide ir de chinellas, De meias de linho, Camisa mui branca... Mas não de farinha.

Não quero se ria De mim todo o povo; Dê-me a saia verde, Quero o gibão novo.

Que se eu levo o outro Tão coçado e antigo, Não virão os moços Conversar commigo.

Eu quero mostrar-me No largo da egreja, E mordam-se as outras Embora de inveja.

E se perguntarem Quem é a gaiteira, Saibam pois que é filha Da Thereza moleira.

HENRIQUE AUGUSTO, _A Grinalda_, t. III, p. 7. Porto, 1860.

A TROCA DA MINHA LYRA

Uma vez que eu recolhia, Para dar aos meus amores, No jardim da poesia Um ramo de varias flores, Trouxe, pousada na rosa, Leve e gentil mariposa.

Olhando-a então mais de perto, Reconheci que a belleza Excede muito, de certo, Nos reinos da natureza Aquella que um vate gera, E á qual eu já culto déra!

Vi as escamas subtis Em forma de bellas pennas, Que dão ás azas matiz, E as delicadas antennas: E comecei a ver mais, Estudando os animaes.

Vi a próvida formiga, Vi a aranha tecedeira, Vi a abelha nossa amiga, Vi a vêspa carniceira: E o sirgho, que a sêda tece, Com que os homens enriquece.

Vi as conchas variadas Na fórma, grandeza e côres, Umas nas aguas salgadas, Lá vivem com seus amores; Outras nos rios e fontes; E outras nos valles e montes.

Que bizarra a creação! Que o cantinho mais escuro Não deixara na exempção D'um habitante seguro! Que as entranhas d'outros têm Entes com vida tambem.

Se á lyra desafinada Já cantei a noite e o sol, Hoje, sem lyra, sem nada, Serei tambem rouxinol: Cantarei da natureza Solida graça e belleza; E porque amor não me inspira, Já troquei a minha lyra Pela casca d'um caracol.

1862 AUGUSTO LUSO, _Grinalda_, t. VI, p. 103.

A ESMOLA DO POBRE

Nos toscos degráos da porta De egreja rustica e antiga, Velha trémula mendiga Implorava compaixão. Quasi um seculo contado De atribulada existencia, Eil-a, enferma e na indigencia, Que á piedade estende a mão.

Duas crianças brincavam A distancia, na alameda; Uma trajava de sêda, Da outra humilde era o trajar! Uma era rica, outra pobre, Ambas loiras e formosas, Nas faces a côr das rosas, Nos olhos o azul do ár.

A rica, ao deixar os jogos, Vencida pelo cançasso Viu a mendiga,--e ao regaço Uma esmola lhe lançou. Ella recebe-a; e a criança, Que a soccorre compassiva, Em préce fervente e viva, Aos anjos encommendou.

De um ligeiro sentimento De vaidade possuida, Á criança mal vestida Disse a do rico trajar: «O prazer de dar esmolas A ti e aos teus não é dado; Pobre como és, coitado, Aos pobres o que has de dar?»

Então a criança pobre, Sem más sombras de desgosto, Tendo o sorriso no rosto Da egreja se aproximou, E após, serena, em silencio, Ao chegar junto da velha, Descobrindo-se, ajoelha, E a magra mão lhe beijou.

E a mendiga, alvoroçada, Ao collo os braços lhe lança, E beija a pobre criança, Chorando de commoção! É assim que a caridade Do pobre ao pobre consola; Nem só da mão sae a esmola, Sae tambem do coração.

JULIO DINIZ, (GOMES COELHO) _Grinalda_, t. VI, p. 115.

PORTUGAL VELHO NO SECULO XIX

Os nossos avós jarretas, Lá nos tempos carunchosos, Ao lume, contando pêtas, Entre creados idosos, Passavam noutes seletas.

Polkas, chás e contradanças São cousas que nunca viram! Todas as suas mestranças D'Africa os mouros sentiram Na ponta das fortes lanças.

Tinham barbas não pequenas, Bigode em fórma avultada; Cabelleiras nazarenas, Nunca usaram nem pomada Que lhes ungisse as melenas.

Vinha o padre capellão As vidas dos santos lêr, E muitas vezes então, Quem a Asia fez tremer Chorava de compunção!

Crença tão sincera e pia Creou quasi homens divinos! Da descrença hoje a mania Cria apenas figurinos Com fórmas varias de enguia!

Môsca subtil hoje pende Sob mesquinho bigode... Quem a tal miséria attende Com razão duvidar póde D'onde esta barba descende!

Palavra de um portuguez Valia como escriptura: Da barba cabellos trez Hypotheca eram segura Quando o grande Castro a fez!

Palavras hoje, aos milhões, Não faltam,... isso é verdade; Mas vê-se tremer sezões, Quem teve tanta bondade Que emprestou os seus tostões!

No castello de Faria Sustentou leal soldado Essa herdada valentia, Com que um cidadão honrado A vida á patria offer'cia!

Soube n'Africa o Menezes, Soube n'India o Mascarenhas, Mostrar ao mundo, mil vezes, Que eram mais firmes que penhas Os peitos dos portuguezes.

Hoje a walsa e a contradansa ... Suprem bem Tanger e Diu; Foi outr'ora o Gama um pança, E o Albuquerque um sandio Que nem merecem lembrança!

Do bom Faria a firmeza Faz hoje morrer de riso! Imbecil por natureza Cuidava, o pobre sem siso, Achar na morte a nobreza!

Que parvo! Se se entregára Com geitinho aos castelhanos, Talvez dinheiro alcançára Com que rico aos lusitanos Para outra vez se passára!

Com estes passos e trespasses Descobriu-se um grande int'resse! Os heroes são os cachaços, Que onde dinheiro apparece A honra lhes cae nos braços!

Sópre o norte com excesso, Sópre o sul, leste ou poente, É bom vento, e bom succeso! Quem crava melhor o dente Toca a méta do progresso!

Ao antigo Portugal Parece estar bem provado Quanto o louvor caiba mal... Que é tontura ser honrado Sem n'isso ganhar real.

1867 VISCONDE DE AZEVEDO, _A Grinalda_, t. VI, p. 20.

* * * * *

AVE CAESAR

(Á morte de Carlos Alberto, rei do Piemonte)

I

Eil-o, o teu defensor, oh liberdade; Eil-o, no extremo leito! Á humanidade O tributo pagou! Da nobre espada á lamina abraçado, Viveu soldado-rei, e, rei-soldado Sobre a espada expirou.

Rasgou-lhe ovante as margens do destino; Foi-lhe rôta bordão de peregrino Essa espada leal! Hoje é cruz. Do aço puro a cruz só resta, Sentinella da campa ao mundo attesta Que o heroe era mortal.

Os Œdipos de um drama incerto e vario Talharam-te na purpura o sudario; Deixaram-te ermo e só! Salve, oh rei! Rei no solio e no abandono; Mais rei no exilio do que os reis no throno, Rei até sobre o pó.

II

Salve, oh martyr, coroado Dos espinhos da paixão; N'uma nova cruz pregado D'uma nova redempção! O teu Golgotha foi este. Aqui te cobre um cypreste Muita gloria e muita dôr; Aqui teus mares plantaste; Vencido, aqui triumphaste De ti mesmo vencedor!

O calix já trasbordava: Bebeste-o. Foi Deus que o quiz!... Deu a vida á Italia escrava, E a sua alma ao seu paiz. Não dobra a fronte suprema: Impondo o pó no diadema Dos extranhos foge á lei, E, holocausto derradeiro, Expia a dor do guerreiro Na sepultura do rei!

Foi longa aquella agonia! Foi curta aquella afflicção! Desceu rapida n'um dia Da cabeça ao coração. Entre as balas despedidas, Entre as phalanges caídas, Ficou tranquillo e de pé, Como o cedro da montanha, Que, da tormenta na sanha, As selvas prostradas vé!

Pela Italia, Hespanha e França Depois, calado, galgou; E por momentos descança Onde o somno lhe faltou! Chega, observa, scisma e pára. O soldado de Navára Quer ter por leito final, Quer por leito das batalhas Este berço de muralhas Que fez livre Portugal;

Onde a nossa liberdade Martyr, heroica nasceu, Pela sua magestade Heroica e martyr morreu. Das glorias tuas, oh Douro, Accrescentaste o thesouro O que é ligando ao que foi, Cingiu teu braço robusto D'um heroe ao resto augusto A memoria d'outro heroe!

Ambos firmes combateram Para a patria libertar; Ambos do throno desceram, Para a vida á patria dar; Ambos reis, ambos soldados, Ambos fieis a seus fados, Mostraram que no provir Podem ambos muitas vezes, No triumpho ou nos revezes Eguaes da historia surgir.

III

Ferve o sangue, troveja a batalha! Tine o ferro, rebomba o canhão! Pavorosa sibila a metralha, Varre as filas, dispersa-as no chão.

Lá galopam, se imbebem, se enlaçam Uns aos outros, rivaes esquadrões; Corpo a corpo ferventes se abraçam Em sangrentos, crueis turbilhões.

No lampejo do gladio vermelho Fulge o raio que a morte vibrou!... Sem seu filho a gemer deixa um velho, Seu esposo uma esposa deixou.

D'essa immensa procella da guerra, D'esse ardente, confuso stridor, Que ficou? Uma corôa por terra, Uma bella cativa, um senhor!

Pobre Italia, tão bella e tão triste No teu vasto, florído jardim! Foi-te ingrata a fortuna, cahiste; Mas a quéda de um povo tem fim.

Infelizes! Da turba guerreira Fica um resto, que, prompto a morrer, Cobre a face co' a rôta bandeira, Para ao menos a affronta não vêr.

Mudos prantos os rostos consommem, Dos valentes de Goito... Que adeus! Era a sombra de um rei e de um homem, Que passava em silencio entre os seus.

E passava. Expirar não lograra Sob o golpe que em vão procurou; Mas a vida que o céo lhe deixára Entre os braços da patria a deixou.

IV

Salve, salve, oh magestade Moribunda a succumbir! Como o espinho da saudade Te havia fundo pungir! Como o homem soffreria Do monarcha na agonia! Longe do que era tão seu, Da esposa e filhos briosos, E dos campos seus formosos, E do seu formoso céo!

--Patria, adeus! Italia minha, Oh terra que tanto amei! Se te não fiz ser rainha, Não quiz mais tambem ser rei! Adeus, margens do Tessino, Sentença do meu destino! Adeus, povo que escolhi; Sê tu justo e livre e forte, Possa dar-te a minha morte O que em vida não vencí.--

Assim dizia; e lançando Os olhos em derredor, E vendo afflicto chorando Outro povo aquella dor, Resoluto accrescentara: --O soldado de Navára Morre contente afinal, Morre ao ecco das batalhas, N'este berço de muralhas, Que fez livre Portugal.--

J. S. MENDES LEAL, _Canticos_, p. 227. Lisboa, 1858.

SE CÓRAS NÃO CONTO

Tu queres que eu conte um sonho que tive, Não sei se acordado, não sei se a dormir: Foi todo singelo, foi todo innocente, Tu córas--sorris-te; tens medo de ouvir?

Não córes, escuta; não fujas de mim, Que o sonho foi sonho de casta invenção; Já crês--não duvidas--verás como é lindo O sonho innocente do meu coração.

Eu via em teus labios um meigo sorriso, Em teus olhos negros um terno mirar, Teu seio de neve a arfar docemente. Sentia nas faces o teu respirar.

E tu não fallavas, mas eu entendia, E tu não fallavas,--mas eu bem ouví Amor!--na minh'alma a voz me dizia, E um beijo na fronte não sei se o sentí.

Já vês, o meu sonho é sonho innocente, O resto eu te conto; como hades gostar! É todo singelo--de amores sómente, Verás que ao ouvil-o não hasde córar.

Depois apertando teu corpo ligeiro, Cingindo teu collo no braço a tremer, Ouvi uma falla--e o que ella dizia Agora acordado não posso dizer.

Não posso contar-t'a, só pude sentil-a, Não posso contar-t'a senão a sonhar No sonho innocente--no sonho de amores Que tu, duvidosa, julgavas córar:

Não posso contar-t'a, nem sei se acordado O que ella dizia se póde entender; Eu sei que sonhando pensei que era sonho, E agora acordado a não posso esquecer.

Mas tu porque escondes a face córada? Não tem nada o sonho que faça córar? É todo singello--é todo innocente, Que importa um abraço, se é dado a sonhar?

Mas tu não te escondas, que eu fico calado, Não quero offender-te a casta isempção, Não torno a contar-te depois de acordado O sonho innocente do meu coração.

R. DE BULHÃO PATO.

O DOIDO

Passei!--O povo na praça Se apinhava todo alli; Olha-me a turba devassa, E chama-me doido, e rí. Retiniu a gargalhada, Soturna, fria, pausada, Perdeu-se ao longe,--pensei Um momento em mim;--vaidade! Á turba dei, por piedade, O meu desprezo, e passei!

Porque luctas, sociedade, Contra o genio?--Não venceu Teus sophismas a verdade Nos labios de Galileu? E era um doido! De demencia Alcunhaste a intelligencia Cujo peso te esmagou; Não chamaste louco ao Tasso Por fender n'um vôo o espaço Que o talento lhe apontou?

E eu, doido; porque sósinho Não imploro amor, nem dó! Firme trilho o meu caminho, Mas quero trilhal-o só. Ver-me só n'este degredo, Não profanar um segredo, Nem ir, mendigo servil, Pedir gloria; não careço De vender-me pelo preço De um sorriso estulto e vil.

Se soffrí muito... calei-me, Repreza ficou a voz; No inferno d'alma abrazei-me... Mas eu era e a dor a sós. A ninguem pedi esmola De uma lagrima que rola Nas faces por compaixão; Foram só meus gemidos, Não quiz vêr prostituidos Mysterios do coração.

Tantas fui n'esta alma ardente Visões lindas conceber!... Que desengano pungente! Encontrei uma mulher Em vez das visões divinas, Colloquei-me entre as ruinas Do meu passado e porvir; Olhei a vida de perto, Tinha um horisonte incerto, Quiz força para reagir;

E tive-a. Da dependencia As algemas quebrei eu; Nem sequer a esta existencia Pedí o influxo do céo; Porque uma vez, não me esquece, Balbuciei uma prece, D'angustia soltei um ai, Da magoa o brado no anceio Que não teve ecco no seio De um senhor, que é Deus... que é pae!

Ao soffrimento puz termo, Suffoquei n'alma as paixões, E no peito achei um ermo De affectos, de sensações; Parto de um golpe as cadeias Que me anciavam: e nas veias Livre o sangue tem calor; Encontro-me só, mas forte, Salvo o espirito da morte, De um marasmo assustador.

D'estes hombros, n'um momento, Arrojei ao longe a cruz; E pedí ao pensamento Em vez das trevas a luz. Quiz ver e vi: que não sente Ninguem, que a palavra mente Que quer dizer--coração; É o homem meu inimigo, E ao que me bradou--amigo,-- Recusei volver lhe a mão.

Da mulher á face impura Que me fallou em amor Com hypocrita candura, Com calculado fervor, Com mentido enthusiasmo, Cuspi acerbo sarcasmo; Forcei-a aos olhos baixar; E a mulher e o homem vingáram Tamanha affronta e bradaram: Deixem o doido passar!

O doido passa; não venha Ser-lhe de estorvo ninguem, N'um abysmo se despenha Rindo ao mal e rindo ao bem! Que vos importa se espande Sua alma assim?--se elle é grande Porque em si é grande a fé; Se vós tremeis por bem pouco... Porém vêdes sempre o louco Firme, impassivel, de pé.

ERNESTO MARECOS, _Primeiras Inspirações_, p. 119. Lisboa, 1865.

MORTA!

Ella morreu?... Pois d'ella nada existe?... Triste do sêr que só na vida colha Os resquicios da flor que se desfolha, E o riso que desmaia!... Ai, triste, triste!...

Que tudo o que eu amar logo se extingue! No cuidado jardim dos meus amores, Que nem uma só flor, de tantas flores, Heide vêr e querer que vice e vingue!

Que sina é pois, meu Deus, a minha sina? Parece que ando sempre adstricto á morte; Fujo do que é vivaz e alegre e forte, Busco tudo o que chora e a fronte inclina.

Mais quero ao pôr do sol que á rósea aurora; Mais que ao botão acceso, á flor que pende; Mais que ao peito que lucta, ao que se rende; Mais que ao riso feliz, á voz que implora.