Parnaso portuguez moderno

Part 6

Chapter 63,671 wordsPublic domain

Oh que foi! deixaste o brilho Nos montes de Portugal, Lá onde nasce o tomilho, Onde ha fontes de cristal; Lá onde veceja a rosa, Onde a leve mariposa Se espaneja á luz do sol; Lá onde Deus concedera Que em noites de primavera Se escutasse o rouxinol.

Tu vens ó lua, tu deixas Talvez ha pouco o paiz Onde do bosque as madeixas Já têm um floreo matiz; Amaste do ár a doçura, Do azul céo a formosura, Das aguas o suspirar! Como hasde agora entre gelos Dardejar teus raios bellos, Fumo e nevoa aqui amar?

Quem viu as margens do Lima, Do Mondego os salgueiraes, Quem andou por Tejo acima, Por cima dos seus cristaes; Quem foi ao meu patrio Douro, Sobre fina areia de ouro, Raios de prata espargir, Não pode amar outra terra, Nem sob o céo de Inglaterra Doces sorrisos sorrir.

Das cidades a princeza Tens aqui; mas Deus, egual Não quiz dar-lhe essa lindeza Do teu e meu Portugal; Aqui a industria e as artes, Alem de todas as partes A natureza sem véo; Aqui ouro e pedrarias, Ruas mil, mil arcarias, Além... a terra e o céo.

Vastas serras de tijolo, Estatuas, praças sem fim Retalham, cobrem o sólo Mas não me encantam a mim; Na minha patria uma aldêa, Por noites de lua cheia É tão bella, e tão feliz! Amo as casinhas da serra, C'o a lua da minha terra, Nas terras do meu paiz.

Eu e tu, casta deidade, Padecemos egual dôr, Temes a mesma saudade, Sentimos o mesmo amor; Em Portugal o teu rosto De riso e luz é composto; Aqui triste e sem clarão; Eu lá sinto-me contente, E aqui lembrança pungente Faz-me negro o coração.

Eia, pois, oh astro amigo, Voltemos aos puros céos, Leva-me, oh lua, comtigo, Preso n'um raio dos teus; Voltemos ambos, voltemos Que nem eu nem tu podemos Aqui ser quaes Deus nos fez; Terás brilho, eu terei vida, Eu já livre, e tu despida Das nuvens do céo inglez.

Londres 30 de março de 1847

JOÃO DE LEMOS, _O Trovador_, p. 362. Coimbra, 1848.

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A VIDA

O homem chora mal nasce, Adulto chora tambem; Curvado já sobre a campa, Mais dor no peito inda tem.

Aos vinte chora, porque ama, Aos trinta vêr-se illudido; E quando desce ao sepulchro, Até por ter existido.

D. JOÃO DE AZEVEDO, _Ibid._ p. 303.

TASSO NO HOSPITAL DOS DOIDOS

São negras estas arcadas, Sepulchral este lagedo, Lugubres estas escadas, Estas paredes põem medo; Estas prisões são soturnas, São medonhas como as furnas, Escondidas sob o chão; Nenhum bem aqui me afaga, Tudo aqui a mente esmaga, Tudo opprime o coração!

Nem do norte a meiga brisa, Nem um lampejo da lua, Nem raio do sol deslisa N'esta caverna tão núa: Lá d'essas grades do fundo Vem-me, n'um côro profundo Gargalhadas infernaes; Surgem lá rostos desfeitos, Que em visagens, em tregeitos De loucura dão signaes.

Santo Deus, que sina a minha! Onde estou ninguem m'o disse, Mas um poeta adivinha; É nas covas da doudice: Vivo n'esta horrivel casa, Onde a mente se me abrasa Té o martyrio tocar; Onde a rasão se entibia, Onde triste, dia a dia, Vejo as forças acabar:

Onde a mudez mais pungente Me torna vil a pobreza, Onde ninguem se consente Que me afague na tristeza; Onde a sêde me devora, Onde debalde se implora Uma palavra d'amor; Onde o frio me consomme, Onde, longe em longe, a fome Vem augmentar este horror.

Eu, doudo! Dizei-o, montes De Solima encantadora! Fallae, vastos horisontes, D'essa Asia abrasadora! Dize-o tu, oh Godofredo, Ou tu, valente Tancredo, Que em meus versos exaltei! Dizei, Armida formosa! Dizei, Clorinda famosa! Dizei todos que eu cantei!

Eu doudo! Erguei-vos juntos, Defendei vosso cantor! Fallae, oh santos assumptos Que eu cantei com tanto amor! Falla tambem Aguia d'Éste, Que por mim teu vôo ergueste Inda dos mundos alem! Fallae, sepulchro de Christo, Falle o canto nunca visto, Falla tu, Jerusalem!

Tasso, Tasso que fizeste Para tal condemnação? Á corôa os olhos ergueste Sem te importar o brazão! Foste amar uma princeza, Não tendo tanta riqueza, Não tendo nobreza egual; Teu amor é o teu crime, É o grilhão que te opprime N'esta masmorra fatal!

Sou doudo por ter amado A bella irmã de um reinante! Sou doudo por ter logrado Da princeza amor constante! Doudo, sim, doudo por ella, Por ella que é minha estrella, Por ella, por mais ninguem; Por ella, que é minha vida, Sim por ella, a mais querida Das damas que o mundo tem.

Por ella, que o viu pobre Só das musas bemfadado, E desceu do solio nobre, Deu amor ao desgraçado; Por ella, tão extremosa, Que rejeita desdenhosa D'altos principes a mão, Para não ir n'outros braços Partir nossos doces laços, Dar a outro o coração.

Eis o crime, o crime horrendo, Que me deu prisão tão dura, Onde entre doudos gemendo Vou correndo á sepultura! Eu amei e fui amado, Era assás. Sou desgraçado, Não nasci para o prazer; No livro do sello eterno Estava escripto este inferno, Na desgraça heide morrer.

Não importa! é minha herança Soffrer sempre e não gosar; Se a Affonso cabe a vingança, Ao Tasso cabe o chorar: Se a elle um peito de féra, Onde só vingança impera, Se a elle a corôa ducal, Ao Tasso cabe a poesia, Cabe a fonte da harmonia, Cabe a corôa que mais val.

Eu não troco a sorte avara, Que é meu mesquinho condão, Por teu sceptro de Ferrara Manchado de ingratidão. Se não morres, é que eu pobre Dei a penna á casa nobre, Em cantos a celebrei; Eu não morro, porque o céo Eternos versos me deu Com que as Cruzadas cantei.

A. XAVIER RODRIGUES CORDEIRO.

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LUIZ DE CAMÕES

Que poeta que não era Da linda Ignez o cantor! Quem mais de que elle dissera D'esse fero Adamastor! Era um astro fulgurante, Era um poeta gigante, Tinha mais alma que o Dante, Cantava com mais amor!

No peito coberto de aço Lhe batia um coração, Que nem os cantos do Tasso Sonharam maior paixão! Era um cantor e soldado, Era um vate enamorado, Foi um poeta inspirado, Como os de hoje já não são.

Bem nos cantos se lhe marca O signal do seu pensar; Nascera, como Petrarcha, Já fadado para amar! Vêde bem o sentimento Com que dá, sôltas ao vento, Queixas mil do seu tormento, Tristezas do seu trovar!

A sorte fel o poeta, Das cinzas da pobre Ignez; O mundo fel-o propheta Do destino portuguez! Poeta da desventura, Previu a sorte futura, Escreveu com mão segura A prophecia que fez!

Deus, que deu aos portuguezes D'alem mar as regiões, Que nos livrou dos revézes, Deu-nos o rei das canções, Fômos o povo escolhido; O nosso nome temido Hoje só é conhecido Pelos cantos de Camões.

Foi-se-lhes a vida em desgosto, Ao que a patria assim cantou; Mais poeta que Ariosto, Que belleza nos legou! Pungido de acerbas dores, Pelo Tejo, seus amores, Foi o rei dos trovadores, Foi o cysne que expirou.

Como Ovidio, desterrado Lá na gruta de Macáo, Só tem o pranto enxugado Pela mão do pobre Jau; De escravo tornou-se amigo, E no peito, só comsigo, Supportou cruel castigo, Mas nunca se tornou máo.

Debruçados sobre os Cantos, Da nossa fama padrão, Bem juntos verteram prantos Sobre a nossa escravidão! Mas Camões... a vil tutella D'essas hostes de Castella... Não pôde chorar sobre ella, Morrera-lhe o coração.

Que poeta! e que soldado! Que trovador tão leal! De todos abandonado Só achou um hospital! Mas a fama portugueza, N'este sec'lo de torpeza, Só tem por toda a grandeza A Camões por pedestal.

Alli vivem as victorias Já do povo, já do rei; Alli vivem as memorias Alcançadas pela lei; É pharol de nossa fama, Alli vive o Castro e o Gama, Em versos alli proclama Triumphos da nossa grey.

A Camões por monumento Só resta um livro, não mais; D'aquelle genio portento Não temos outros signaes; Mas que importa, se a memoria Do cantor da nossa gloria Alcançou maior victoria Nos seus cantos colossaes!

L. A. PALMEIRIM, _O Trovador_, p. 323.--_Poesias_, p. 112.

INFANCIA E MISERIA

Se eu tivera o pincel omnipotente De Raphael, de Rubens ou d'Apelles; Se o milagroso escôpro de Canova A minha dextra ousada manejasse; Se na pedra ou na téla a vida eterna Eu podésse infundir c'um leve sôpro, Que magestoso, que eloquente grupo Ou na téla ou na pedra hoje criára!

Era um grupo formoso, um quadro augusto, Qual antes nunca vi, qual vejo ainda No fulgor da verdade ante meus olhos, Que de vêl-o e descrel-o se não cançam; Não, não era, não foi visão nem sonho, Mas verdade sómente... a existencia N'uma phase commum... a humanidade No relêvo dos factos cinzelada!

Era um grupo formoso, um quadro augusto, Não de amor, de ventura ou de alegria, Mas de infortunio e dôr, e de miseria, Casados por ludibrio á innocencia! Era a infancia dormindo na desgraça, Esquecendo risonha a voz da fome, Era a vida a raiar entre os andrajos, A indigencia assentada ao pé do berço!

Quasi ás portas de um templo consagrado Ás artes, ao prazer, ao luxo, aos ricos, Quando a turba pejava as aureas portas Do marmoreo edificio... ao pé, bem perto Sobre as humidas pedras do lagedo, Jaziam abraçadas tres crianças Cujo anjo tutellar, e cujo amparo Era apenas o somno da innocencia!

Dormiam todas tres; quanto era bello Vel-as unidas, enfeixadas n'uma, Repartindo o calor dos tenros corpos, Como o pão que despertas mendigavam! Quanto era bello o vel-as--como a ave Que em presença da morte esconde n'aza A plumosa cabeça--reclinadas No regaço da fome e da miseria!

Dormiam todas tres; talvez bem doce Roçando levemente aquellas almas Um breve, meigo sonho de alegria Fizesse palpitar-lh'os debeis peitos! Mas não, não pode ser... não pode o Eterno Deslumbrar-nos em sonhos co' a ventura Quando se hade acordar á voz da fome Estendendo a quem passa a magra dextra!

Como eram já sombrios, macilentos, Aquelles infantis, serenos rostos Onde a vida em botão abria a custo, Como a flôr que desponta em plaga extranha! Nas pallidas feições como se liam De um precoz soffrimento os negros traços? Como a livida fome lhes roubava O placido sorriso da innocencia!

Que triste sorte e amargurada vida Arrastavam sem queixa aquelles anjos! Em logar dos brinquedos innocentes E dos gosos sem par da curta infancia, Mendigavam, coitadas, no abandono O pão negro e acerbo da indegencia, Sem um tecto a não ser o céo da patria, E sem mãe... se não tu, oh caridade!...

Até quando, oh meu Deus, até que dia Se hade ver no banquete da existencia Um manjar que não seja para todos, Um logar de que alguem possa expulsar-se? Até quando será o mundo inteiro Patrimonio d'alguns, e para os outros A penuria, a nudez, o desamparo, E por só privilegio a fome e o carcere?

Dormiam todas trez; que meigo somno O veneno da vida lh'adoçava! Como em cada feição se via impresso O benefico olvido da existencia! Irmãs no sangue, e na desgraça gémeas, Embaladas talvez no mesmo berço, Dormiam todas tres na mesma pedra Igual somno da infancia e desconforto!

Eu vi aquelle grupo! era formoso De soffrimento e graça; illuminava-o De um extranho fulgor a magestade Sinistra, mas augusta, da miseria! Eu vi aquelle grupo! assim não visse N'aquelle estreito quadro a negra historia De muitas gerações... assim não lesse Teu pungente epigramma, oh sociedade!

AUGUSTO LIMA, _Murmurios_, p. 91. Lisboa, 1851.

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ÁS ESTRELLAS

Lindas, mimosas saphiras Que o véo da noite bordaes, Dizei-me, estrellas, dizei-me, Se é de amor que palpitaes? Vós... que sempre bemfazejas, A luz tão pura nos daes, Não tereis lá nas alturas Quem escute vossos ais? Haveis de ter só por fado Luzir, luzir, e não mais? Não creio, estrellas, não creio. Sois tão formosas!... amaes.

AUGUSTO LIMA, _O Trovador_, p. 196.

O FIRMAMENTO

Gloria a Deus! eis aberto o livro immenso, O livro do infinito, Onde em mil letras de fulgor intenso Seu nome adoro escripto! Eis de seu tabernáculo corrida Uma ponta do véo mysterioso: Desprende as azas, remontando á vida, Alma que anceias pelo eterno goso!

Estrellas que brilhaes n'essas moradas, Quaes são vossos destinos? Vós sois, vós sois as lampadas sagradas De seus umbraes divinos. Pullulando do seio omnipotente, E sumidas por fim na eternidade, Sois as faíscas de seu carro ardente Ao rolar através da immensidade.

E cada qual de vós um astro encerra, Um sol que apenas vejo, Monarcha d'outros mundos como a terra Que formam seu cortejo. Ninguem pode contar-vos: quem pudera Esses mundos contar a que daes vida, Escuros para nós qual nossa esphera Vos é nas trevas da amplidão sumida?

Mas vós perto brilhaes, no fundo accêsas Do throno soberano; Quem vos hade seguir nas profundezas D'esse infinito oceano? E quem hade contar-vos n'essas plagas Que os céos ostentam de brilhante alvura, Lá onde sua mão sustem as vagas Dos sóes que um dia romperão na altura?

E tudo outr'ora na mudez jazia Nos véos do frio nada; Reinava a noite escura; a luz do dia Era em Deus concentrada. Elle fallou! e as sombras n'um momento Se dissiparam na amplidão distante! Elle fallou! e o vasto firmamento Seu véo de mundos desfraldou ovante!

E tudo despertou, e tudo gira Immerso em seus fulgores; E cada mundo é sonorosa lyra Cantando os seus louvores. Cantae, oh mundos que seu braço impelle, Harpas da creação, fachos do dia, Cantae louvor universal áquelle Que vos sustenta e nos espaços guia!

Terra, globo que geras nas entranhas Meu sêr, o sêr humano, Que és tu com teus vulcões, tuas montanhas, E com teu vasto oceano? Tu és um grão d'areia arrebatado Por esse immenso turbilhão dos mundos, Em volta de seu throno levantado Do universo aos seios mais profundos.

E tu, homem, que és tu, ente mesquinho Que soberbo te elevas, Buscando sem cessar abrir caminho Por tuas densas trevas? Que és tu com teus imperios e colossos? Um átomo subtil, um frouxo alento; Tu vives um instante, e de teus ossos Só restam cinzas que sacode o vento.

Mas ah! tu pensas, e o girar dos orbes Á razão encadeias; Tu pensas, e inspirado em Deus te absorves Na chamma das ideias: Alegra-te, immortal, que esse alto lume Não morre em trevas de um jazigo escasso! Gloria a Deus, que n'um atomo resume O pensamento que transcende o espaço!

Caminha, oh rei da terra! se inda és pobre, Conquista aureo destino, E de seculo em seculo mais nobre Eleva a Deus teu hymno! E tu, oh terra, nos florídos mantos Abriga os filhos que em teu seio geras, E teu canto de amor reune aos cantos Que a Deus se elevam de milhões de espheras!

Dizem que já sem forças, moribunda, Tu vergas decadente: Oh! não, de tanto sol que te circumda, Teu sol inda é fulgente! Tu és joven ainda: a cada passo Tu assistes d'um mundo ás agonias, E rolas entretanto n'esse espaço Coberta de perfumes e harmonias.

Mas ai! tu findarás! além scintilla Hoje um astro brilhante; Ámanhã, eil-o treme, eil-o vacilla, E fenece arquejante: Que foi? quem o apagou? foi seu alento Que extinguiu essa luz já fatigada; Foram seculos mil, foi um momento Que a eternidade fez volver ao nada.

Um dia, quem o sabe? um dia, ao pêso Dos annos e ruinas, Tu cahirás n'esse vulcão accêso Que teu sol denominas. E teus irmãos tambem, esses planetas Que a mesma vida, a mesma luz inflamma, Attrahidos emfim, quaes borboletas, Cahirão como tu na mesma chamma.

Então, oh sol, então n'esse aureo throno Que farás tu ainda, Monarcha solitario, e em abandono, Com tua gloria finda? Tu findarás tambem, a fria morte Alcançará teu carro chammejante: Ella te segue, e prophetisa a sorte N'essas manchas que toldam teu semblante.

Que são ellas? talvez os restos frios D'algum antigo mundo, Que inda referve em borbotões sombrios No teu seio profundo. Talvez, envolta pouco a pouco a frente Nas cinzas sepulchraes de cada filho, Debaixo d'elles todos de repente Apagarás teu vacillante brilho.

E as sombras poisarão no vasto imperio Que teu facho allumia; Mas que vale de menos um psalterio Dos orbes na harmonia? Outro sol como tu, outras espheras Virão no espaço descantar seu hymno, Renovando nos sitios onde imperas Do sol dos sóes o resplendor divino.

Gloria a seu nome! um dia meditando Outro céo mais perfeito, O céo d'agora a seu altivo mando Talvez caia desfeito. Então, mundos, estrellas, sóes brilhantes, Qual bando d'aguias na amplidão disperso, Chocando-se em destroços fumegantes, Desabarão no fundo do universo.

Então a vida, refluindo ao seio Do fóco soberano, Parará concentrando-se no meio D'esse infinito oceano; E acabado por fim quanto fulgura, Apenas restarão na immensidade-- O silencio, aguardando a voz futura, O throno de Jehovah, e a eternidade!

A. A. SOARES DE PASSOS, _Poesias_, 145. 2.ª ed. Porto, 1858.

* * * * *

ANHELOS

Que immenso vacuo n'este peito sinto! Que arfar eterno de revolto mar! Que fogo ardente, que já mais extincto Sómente afrouxa para mais queimar? Ai! esta sêde que meu peito rala, Talvez a apague mundanal prazer: Ali ao menos poderei fartal-a, Ou n'um lethargo sem paixões viver.

Mas d'essa taça já pensei... não quero! Quero deleites que inda não sentí... A lucta, os riscos d'um combate féro! Talvez encantos acharei alli.

A lucta, os riscos, em acção travadas Guerreiras hostes disputando o chão; O sangue em jorros, o tinir d'espadas, O fumo e o fogo de voraz canhão! Ali os gosos de um feroz delirio Á luz das armas sentirei em mim, Ou n'uma d'ellas o funéreo cirio Que á paz dos mortos me conduza emfim.

Mas não, não quero sobre a terra escrava A vós tyrannos immolar o irmão... O mar, o mar, que em sua furia brava Ninguem domina com servil grilhão!

O mar, o mar! sobre escarcéus revoltos Em fragil lenho fluctuar me apraz Ao som das vagas e dos ventos soltos, E das centelhas ao clarão fugaz. Alli sorrindo da feroz tormenta, E dos abysmos que me abrir aos pés, Dentro d'esta alma de prazer sedenta Sublime goso sentirei talvez.

Mas o mar livre tem um leito ainda Que os meus anélos poderá suster... O espaço! o espaço! na amplidão infinda Talvez que possa o coração encher.

O espaço, o espaço! qual ligeiro vento Irei lançar-me n'esse mar sem fim, E a longos tragos aspirar o alento, Sentir a vida que desejo em mim... Ora aguia altiva, desprezando o sólo, O rei dos astros buscarei então, Ora entre as neves do gelado pólo Voarei nas azas do veloz tufão.

Mas solitario, sem cessar errante, De que valêra na amplidão correr?... A gloria, a gloria, que em painel brilhante Me offerece a imagem d'um maior prazer!

A gloria, a gloria, mil trophéus ganhados, Mil verdes palmas e laureis tambem; Triumphos, c'rôas e sonoros brados Da turba: É elle!--repetindo alem... Então em sonhos d'uma vida infinda Verei a chamma d'immortal pharol, Que em meu sepulchro resplandeça ainda, Bem como a lua quando é morto o sol.

Mas não, que a inveja com a voz mentida, A luz em sombras poderá tornar... O amor, o amor, que redobrando a vida, A vida n'outrem me fará gosar!

O amor, o amor, celestial perfume Que a mão dos anjos sobre nós verteu, Doce mysterio que n'um só resume Dous pensamentos aspirando ao céo! O amor, o amor, não mentiroso incenso Que em frios labios só no mundo achei, Mas immutavel, mas sublime e immenso Qual em meus sonhos juvenís sonhei...

O amor! só elle poderá n'esta alma Risonhas crenças outra vez gerar, De minha sêde mitigar a calma, E inda fazer-me reviver e amar.

A. A. SOARES DE PASSOS, _Poesias_, pag. 43.

UMA PHANTASIA DE THALBERG

Foi n'uma negra noite... Sósinho, á beira mar... Ai, toca-me esses cantos Que m'a fazem lembrar!

E o vento era tão frio! Chamei então por Deus... E Deus foi mudo, e mudos A terra, o mar e os céus.

Sorri-me!... Era uma vaga Que alem vinha a bramir... Ai, toca-me esses cantos, Que gosto de os ouvir!

Um véo de negras nuvens Não vem o céo turbar? Ás vezes ha prazeres N'um triste recordar.

E que saudade eu sinto Lembrando-me d'então! Ai, toca-me esses cantos, Que tão saudosos são.

Oh, longe, longe! E ouvi-te... Não penses que eu menti... Que diga o vento e as rochas O que eu chamei por ti.

E não me ouviste. O oceano Gemendo ouviu meus ais!... É tam triste esta musica!... Ai não m'a toques mais.

S.--_A Grinalda_, vol. I, pag. 28.

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AO SOL

Que te importam a ti, astro fecundo, Essas mil gerações de fragil barro, Que vês, qual denso pó, brotar no mundo Sob as ardentes rodas do teu carro?

Quando, nuncio da vida, a mão do eterno Te fez brilhar no espaço a vez primeira, Medonhas sombras, e continuo inverno Cobriam a teus pés a terra inteira.

Mas apenas a luz doirando os ares, Veiu annunciar-lhe, oh sol, o teu destino, O gelo róla convertido em mares, E a terra sólta da existencia o hymno,

Que mais querias tu? No immenso grito Que exhalava, acordando, a natureza, Nas ondas, nas florestas, no infinito Vias gravado, oh sol, tua grandeza.

E disseste comtigo:--A vida e as flores São o rastro que deixo em meu caminho, Quando, cingido d'immortaes fulgores, Em mortas solidões rólo sósinho.

Disseste; e proseguindo o immenso trilho, N'outras regiões entraste socegado, E em cada globo a que chegou teu brilho, D'um novo genesís ouviste o brado.

Que te importava o mundo? Á luz immensa De teus lucidos mantos desprendida, Já o verme infeliz que vive e pensa Para te festejar saudára a vida;

E se acaso de novo, oh sol fecundo, Encontrasses a terra erma e gelada, D'entre as ruinas fataes do antigo mundo Fizeras mil nações surgir do nada.

Que tinha, pois, comtigo a obscura raça Que só diz grande, e bella e omnipotente, Mas que, envolta no pó, sussurra e passa, Sem jámais encarar teu brilho ardente?

Deus o mandou, oh sol. Ás tuas plantas Nunca da terra o passageiro grito Irá turbar as harmonias sanctas Das espheras que vagam no infinito.