Part 5
_Harpa do Crente_, por Alexandre Herculano, 1860.
_O Trovador_, Coimbra, 1848.
_Poesias_, de Luiz A. Palmeirim.
_Murmurios_, por Augusto Lima, 1851.
_Poesias_, por A. A. Soares de Passos, Porto, 1858.
_A Grinalda_, vol. I-VI. Porto.
_O Novo Trovador_, Coimbra, 1856.
_Canticos_, de J. S. Mendes Leal, Lisboa, 1858.
_Versos_, de R. de Bulhão Pato.
_Primeiras Inspirações_, por E. Marecos, Lisboa, 1858.
_Flores do Campo_, por João de Deus, Porto, 1876.
_Folhas soltas_, por João de Deus, Porto, 1876.
_Odes modernas_, por Anthero do Quental, Porto, 1875.
_Visão dos tempos_, por Theophilo Braga, Porto, 1870.
_Heras e Violetas_, por Guilherme Braga, Porto, 1869.
_Rimas_, de Alberto Telles, Coimbra.
_A Alma nova_, por Guilherme de Azevedo, Lisboa, 1874.
_Harmonias phantasticas_, por Sousa Viterbo, Porto, 1875.
_Poema da Miseria_, por Candido de Figueiredo, Coimbra, 1874.
_Claridades do Sul_, por Gomes Leal, Lisboa, 1875.
_Scenas contemporaneas_, por Claudio José Nunes, Lisboa, 1873.
* * * * *
_Obras_, de Àlvares de Azevedo, Rio de Janeiro, 1862.
_Cantos_, por Gonçalves Dias, Leipzic, 1860.
_Novos Cantos_, pelo mesmo.
_Ultimos Cantos_, pelo mesmo.
_Primaveras_, por Casimiro de Abreu, Lisboa.
_Contradicções poeticas_, por Junqueira Freire.
_Suspiros_, por Gonçalves de Magalhães, Paris, 1859.
_Cantos do Ermo e da Cidade_, por Fagundes Varella.
_Poesias_, por Castro Alves, Bahia, 1870.
_Quadros_, por Joaquim Serra, Rio de Janeiro, 1873.
_Ideias e Sonhos_, por Sousa Pinto, Lisboa, 1872.
_Novas Poesias_, por Bernardo Guimarães, Rio de Janeiro, 1876.
_Phalenas_, por Machado Assis.
_Flores e Fructos_, por Bruno de Seabra, Rio de Janeiro, 1872.
_Alvoradas_, por Lucio de Mendonça, Rio de Janeiro, 1875.
_Nebulosas_, por Narcisa Amalia, Rio de Janeiro, 1872.
_Flores sylvestres_, por Bettencourt Sampaio, Rio de Janeiro, 1860.
_Parnaso Maranhense_, Maranhão, 1861.
_Poesias_, de Franco de Sá, S. Luiz do Maranhão, 1869.
_Consoladoras_, por Filgueiras Sobrinho, Paris, 1876.
_Miniaturas_, por Gonçalves Crespo, Coimbra, 1871.
_Estrellas errantes_, por Quirino dos Santos, Campinas, 1876.
_Peregrinas_, por Octaviano Hudson, Rio de Janeiro, 1874.
* * * * *
_Cantares gallegos_, de D. Rosalia Castro de Murguia, Madrid, 1870.
_Trovas e Cantares_, Madrid, 1859.
_Espinas, frores e follas_, por Valentin T. Carvajal.
_La Galicia_, periodico.
PARTE I
* * * * *
OS LYRICOS PORTUGUEZES
OS CINCO SENTIDOS
São bellas, bem o sei, essas estrellas, Mil côres divinaes tem essas flôres; Mas eu não tenho, amor, olhos para ellas; Em toda a natureza Não vejo outra belleza Se não a ti, a ti!
Divina, ai! sim, será a voz que afina Saudosa, na ramagem densa, umbrosa, Será; mas eu do rouxinol que trina Não oiço a melodia, Nem sinto outra harmonia Se não a ti, a ti.
Respira, n'aura que entre as flôres gira, Celeste incenso de perfume agreste. Sei... não sinto: minha alma não aspira Não percebe, não toma Se não o doce aroma Que vem de ti, de ti.
Formosos são os pômos saborosos, É um mimo de nectar o racimo; E eu tenho fome e sêde... sequiosos, Famintos meus desejos Estão... mas é de beijos, É só de ti, de ti.
Macia, deve a relva luzidia Do leito ser, por certo, em que me deito; Mas quem, ao pé de ti, quem poderia Sentir outras caricias, Tocar n'outras delicias Se não em ti, em ti!
A ti! ai, a ti n'os meus sentidos Todos n'um confundidos, Sentem, ouvem, respiram; Em ti, por ti deliram. Em ti, a minha sorte, A minha vida em ti; E quando venha a morte, Será morrer por ti.
ALMEIDA GARRETT, _Folhas Cahidas_, p. 169. Lisboa, 1869.
* * * * *
RETRATO
(N'um album)
Ah! despreza o meu retrato Que eu lhe queria aqui pôr! Tem medo que lhe desfeie O seu livro de primor? Pois saiba que por despique Eu sei tambem ser pintor: Co' esta penna por pincel, E a tinta do meu tinteiro, Vou fazer o seu retrato Aqui já de corpo inteiro.
Vamos a isto. Sentada Na cadeira _moyen-âge_, O cabello _en chaitellaines_, As mangas soltas. É o traje.
Em longas prégas negras Caía o velludo e arraste, De si com desdem regio Com o pésinho o affaste...
N'essa attitude! Está bem: Agora mais um geitinho; A airosa cabeça a um lado E o lindo pé no banquinho.
Aqui estão os contornos, são estes, Nem Daguerre lh'os tira melhor; Este é o ar, esta a _pose_, eu lh'o juro E o trajar que lhe fica melhor.
Vamos agora ao difficil: Tirar feição por feição; Entendel-as, que é o ponto, E dar-lhe a justa expressão.
Os olhos são côr da noite, Da noite em seu começar, Quando inda é joven, incerta E o dia vem de acabar.
Tem uma luz que vae longe, Que faz gosto de queimar: É uma especie de lume Que serve só de abrazar.
Na bocca ha um sorriso amavel, Amavel é... mas queria Saber se é todo bondade Ou se meio é zombaria.
Ninguem m'o diz? O retrato Incompleto ficará, Que n'estas duas feições Todo o sêr, toda a alma está.
Pois fiel como um espelho É tudo o que n'elle fiz; E o que lhe falta, que é muito, Tambem o espelho o não diz.
ALMEIDA GARRETT, _Folhas Cahidas_, p. 208.
* * * * *
VIBORA
Como a vibora gerado, No coração se formou Este amor amaldiçoado Que á nascença o espedaçou.
Para elle nascer morri; E em meu cadaver nutrido, Foi a vida que eu perdi A vida que tem vivido.
ALMEIDA GARRETT, _Folhas Cahidas_, p. 196.
ESTE INFERNO DE AMAR
Este inferno de amar como eu amo! Quem m'o poz aqui n'alma... quem foi? Esta chamma que alenta e consomme, Que é a vida, e que a vida destroe, Como é que se veiu a atear, Quando, ai quando se hade ella apagar?
Eu não sei, nem me lembra, o passado, A outra vida que d'antes viví Era um sonho talvez... foi um sonho, Em que paz tão serena a dormí! Oh que doce era aquelle sonhar... Quem me veiu, ai de mim! despertar?
Só me lembra que um dia formoso Eu passei... dava o sol tanta luz! E os meus olhos, que vagos giravam, Em seus olhos ardentes os puz. Que fez ella? eu que fiz? Não n'o sei; Mas n'essa hora a viver comecei...
ALMEIDA GARRETT, _Folhas Cahidas_, p. 149.
QUANDO EU SONHAVA
Quando eu sonhava, era assim Que nos meus sonhos a via; E era assim que me fugia, Apenas eu despertava, Essa imagem fugidia Que nunca pude alcançar.
Agora que estou desperto Agora a vejo fixar... Para quê?--Quando era vaga, Uma ideia, um pensamento, Um raio de estrella incerto No immenso firmamento, Uma chimera, um vão sonho, Eu sonhava--mas vivia: Prazer não sabia o que era, Mas dôr, não n'a conhecia... ............................
ALMEIDA GARRETT, _Folhas Cahidas_, p. 190.
CASCAES
Acabava alli a terra Nos derradeiros rochedos, A deserta árida serra Por entre os negros penedos Só deixa viver mesquinho Triste pinheiro maninho.
E os ventos despregados Sopravam rijos na rama, E os céos turvos, annuviados, O mar que incessante brama... Tudo alli era braveza De selvagem natureza.
Ahi, na quebra do monte, Entre uns juncos mal-medrados, Sêcco o rio, sêcca a fonte, Hervas e matos queimados, Ahi n'essa bruta serra, Ahi foi um céo na terra.
Alli sós no mundo, sós, Sancto Deus! como vivemos! Como eramos tudo nós E de nada mais soubemos! Como nos folgava a vida De tudo o mais esquecida!
Que longos beijos sem fim, Que fallar dos olhos mudo! Como ella vivia em mim, Como eu tinha n'ella tudo, Minh'alma em sua razão, Meu sangue em seu coração!
Os anjos aquelles dias Contaram na eternidade: Que essas horas fugidias, Seculos na intensidade, Por millennios marca Deus Quando as dá aos que são seus.
Ai! sim, foi a tragos largos, Longos, fundos que a bebí Do prazer a taça:--amargos Depois... depois os senti Os travos que ella deixou... Mas como eu ninguem gosou.
Ninguem: que é preciso amar Como eu amei--ser amado Como eu fui; dar e tomar Do outro sêr a quem se ha dado, Toda a razão, toda a vida Que em nós se annulla perdida.
Ai, ai! que pesados annos Tardios depois vieram! Oh! que fataes desenganos, Ramo a ramo, a desfizeram A minha choça na serra, Lá onde se acaba a terra!
Se o visse... não quero vel-o Aquelle sitio encantado; Certo estou não conhecel-o, Tão outro estará mudado, Mudado como eu, como ella, Que a vejo sem conhecel-a!
Inda alli acaba a terra, Mas já o céo não começa; Que aquella visão da serra Sumiu-se na treva espessa, E deixou núa a bruteza D'essa agreste natureza.
ALMEIDA GARRETT, _Folhas Cahidas_, p. 177.
DESTINO
Quem disse á estrella o caminho Que ella hade seguir no céo? A fabricar o seu ninho Como é que a ave aprendeu? Quem diz á planta: florece! E ao mudo verme que tece Sua mortalha de seda Os fios quem lh'os enreda?
Ensinou alguem á abelha Que no prado anda a zumbir Se á flôr branca ou á vermelha O seu mel hade ir pedir? Que eras tu meu sêr, querida, Teus olhos a minha vida, Teu amor todo o meu bem... Ai! não m'o disse ninguem.
Como a abelha corre ao prado, Como no céo gira a estrella, Como a todo o ente o seu fado Por instincto se revela, Eu no teu seio divino Vim cumprir o meu destino... Vim, que em ti só sei viver, Só por ti posso morrer.
ALMEIDA GARRETT, _Folhas Cahidas_, p. 151.
NÃO ÉS TU
Era assim, tinha esse olhar, A mesma graça, o mesmo ár, Córava da mesma côr, Aquella visão que eu vi Quando eu sonhava de amor, Quando em sonhos me perdi.
Toda assim; o pórte altivo, O semblante pensativo, E uma suave tristeza Que por toda ella descia, Como um véo que lhe envolvia, Que lhe adoçava a belleza.
Era assim; o seu fallar, Ingenuo e quasi vulgar, Tinha o poder da rasão Que penetra, não seduz; Não era fogo, era luz Que mandava ao coração.
Nos olhos tinha esse lume, No seio o mesmo perfume, Um cheiro a rosas celestes, Rosas brancas, puras, finas, Viçosas como boninas, Singelas sem ser agrestes.
Mas não és tu... ai! não és: Toda a illusão se desfez. Não és aquella que eu vi, Não és a mesma visão, Que essa tinha coração, Tinha, que eu bem lh'o senti.
ALMEIDA GARRETT. _Folhas Cahidas_, p. 188.
* * * * *
GOSO E DOR
Se estou contente, querida, Com esta immensa ternura De que me enche o teu amor? --Não. Ai, não! falta-me a vida, Succumbe-me a alma á ventura: O excesso do goso é dor.
Doe-me alma, sim; e a tristeza Vaga, inerte e sem motivo No coração me poisou. Absorto em tua belleza, Não sei se morro ou se vivo, Porque a vida me parou.
É que não ha sêr bastante Para este gosar sem fim Que me inunda o coração, Tremo d'elle, e delirante Sinto que se exhaure em mim Ou a vida--ou a rasão.
ALMEIDA GARRETT, _Folhas Cahidas_, pag. 153.
EU, ANTÃO VERISSIMO E A MOSCA
(Parabola)
Eu tive um condiscipulo amantissimo Que era um santo rapaz, e nada cábula, Trasmontâno: por nome Antão Verissimo, E, como eu, estudava para rábula. Tinha por vil a herdada vida agricola, E rindo-se, assignava na matricula.
Sapato engraixadinho, e meia fina Substituiu á tamanca costumada; Á véstea de burel--capa e batina, Gôrro ao grosso chapéo, Paschoaes á enxada; A senhoria ao tu, á brôa o trigo... E um viver novo ao seu viver antigo.
Se o habito por si fizesse o monge, Sem precisar disposições internas, Se para um côxo em pouco tempo ir longe Lhe bastasse o cuidar que tinha pernas; Sem duvida seria Antão Verissimo Estudante, e estudante chapadissimo.
Como lavrando desbancava a mil, Suppoz, que estudar leis e segar erva Seria o mesmo, não sabendo o: _nil Invita dices, faciesve Minerva_; E um Canon de Genuense (que diz muito!): Não tentes o que excede o teu bestunto.
Os termos de Paschoal e Cavallario Gastava a procurar o dia inteiro No martyr, descosido diccionario; E á noite decorava ao candieiro. Ir á aula, almoçar, jantar, cear, Só tinha vago; o mais era estudar.
Dizem, que--quem porfia mata caça; Julgo proverbio de cabeça tôsca. Vamos á historia: Um dia na vidraça Viu o nosso doctor azoada môsca Esvoaçar, zunir, andar marrando, Passagem pelo vidro procurando.
Pôz de parte um momento a Lei Mental, E co'os olhos no insecto, exclama assim: «Oh! que teimoso e estupido animal! Embora teimes, teimarás sem fim: Por entre ti e o sol não vês que está Um vidro, que passagem te não dá?
«Segue o exemplo das mais, que andam com gosto A dançar sobre aquelle assucareiro; Do amigo que ali dorme chucha o rosto, Depois esmóe a andar no travesseiro.» Eu, que dormir fingia, e não dormia, Da tal offerta em troco assim dizia:
--Déste á môsca um conselho prudentissimo; Tão bons os dês tu sempre em sendo rábula! Mas és qual Frei Thomaz, Antão Verissimo, Ou como o homem da tranca, na parabola, Dez vidros furaria esse animal Antes que entendas uma Lei Mental.
Entre ti e a sciencia ha vidros baços; Nem tu, nem cem de ti os romperiam; Vende o candieiro, a lôba, os calhamaços, Torna-te ás terras que batatas criam. É melhor ser um farto lavrador, Do que um mirrado e estupido doctor.
Manda ao inferno os livros sybillinos, Vem para a cama conversar commigo; De Horacio eu fallarei, tu de pepinos, Depois eu de Virgilio e tu de trigo. Tire das leis com que dar uso aos queixos Quem póde; e cada qual gire em seus eixos.--
* * * * *
N'esta fabula historica se intíma O que ninguem ignora e não se observa: A tal sentença velha, obra mui prima Do: _Nada faças, se o não quer Minerva_. Isto é, que um genio, que nasceu de encôlhas Não vá metter-se a redactor de folhas:
Que um mestre sapateiro afreguezado, Não vá ser na tragedia actor primeiro, Que em transportes de principe ultrajado Ralhará como mestre sapateiro; Quem nasceu para chufas e chalaça Nem epopêas, nem tragedias faça;
Que aquelle que nasceu para ladrão, Seja ladrão de estrada e não juiz; Procurador, letrado ou escrivão;
Que um bóde se não metta a ser derviz, Nem um burro a academico; nem... nem... Exemplos d'isto numero não têm.
A. F. DE CASTILHO, _Excavações Poeticas_, p. 138. Lisboa, 1844.
MOCIDADE E MORTE
Solevantando o corpo, os olhos fitos, As magras mãos cruzadas sobre o peito, Vêde-o, tão moço, velador de angustias, Pela alta noite em solitario leito.
Por essas faces pallidas, cavadas, Olhae, em fio as lagrimas deslizam; E como o pulso, que apressado bate, Do coração os éstos harmonisam!
É que nas veias lhe circula a febre, É que a fronte lhe alaga o suór frio; É que lá dentro á dôr que o vae roendo, Responde horrivel intimo cicío.
Encostado na mão o rosto acceso, Fitou os olhos humidos de pranto Na alampada mortal ali pendente, E lá comsigo modulou um canto.
É um hymno de amor e de esperança? É oração de angustia e de saudade? Resignado na dôr saúda a morte, Ou vibra aos céos blasphemia d'impiedade?
É isso tudo tumultuando incerto No delirio febril d'aquella mente, Que, baloiçada á borda do sepulchro, Volve apóz si a vista longamente.
É a poesia a murmurar-lhe n'alma, Ultima nota de quebrada lyra; É o gemido do tombar do cedro; É triste adeus do trovador que expira:
DESESPERANÇA
«Meia-noite bateu, volvendo ao nada Um dia mais, e caminhando eu sigo! Vejo-te bem, oh campa mysteriosa... Eu vou, eu vou! Breve serei comtigo!
Qual tufão que ao passar agita o pégo, Meu placido existir turvou a sorte. Halito impuro de pulmões ralados Me diz que n'elles se assentou a morte.
Em quanto mil e mil no largo mundo Dormem em paz no mundo, eu velo e penso, E julgo ouvir as preces por finados, E ver a tumba e o fumegar do incenso.
Se dormito um momento, acordo em sustos; Pulos me dá o coração no peito, E abraço e beijo de uma vida extincta O ultimo socio, o doloroso leito.
De um abysmo insondado ás agras bordas Insanavel doença me ha guiado, E disse-me:--No fundo, o esquecimento: Désce; mas desce com andar pausado.--
E eu lento vou descendo, e sondo as trevas: Busco parar; parar um só instante! Mas a cruel, travando-me da dextra, Me faz cair no fundo, e grita--Avante!--
Por que escutar o transito das horas? Algumas d'ellas trar-me ha conforto? Não! Esses golpes que no bronze ferem, São para mim como dobrar por morto.
Morto! morto!--me clama a consciencia; Diz-m'o este respirar rouco e profundo; Ai! porque frémes coração de fogo, Dentro de um peito corrompido e immundo!
Beber um ár diáphano e suave, Que renovou da tarde o brando vento, E convertel-o, no aspirar continuo, Em bafo apodrecido e peçonhento!
Estender para o amigo a mão mirrada, E elle negar a mão ao pobre amigo; Querer unil-o ao seio descarnado, E elle fugir, temendo o seu perigo!
E vêr após um dia inda cem dias, Nús de esperança, ferteis de amargura, Soccorrer-me ao provir, e achal-o um ermo, E só, bem lá no extremo, a sepultura!
Agora!... quando a vida me sorria, Agora... que meu éstro se accendêra, Que eu me enlaçava a um mundo d'esperanças, Como se enlaça pelo campo a hera,
Deixar tudo e partir, sósinho e mudo; Varrer-me o nome escuro esquecimento, Não ter um ecco de louvor, que afague Do desgraçado o humilde monumento!
Oh tu, sêde de um nome glorioso, Que tão fagueiros sonhos me tecias, Fugiste, e só me resta a pobre herança De vêr a luz do sol mais alguns dias.
Vestem-se os campos de verdor primeiro: Já das aves canções no bosque eccôam; Não para mim, que só escuto attento Funéreos dobres que no templo sôam.
E eu que existo, e que penso, e falo e vivo, Irei tão cedo repousar na terra?! Oh, meu Deus, oh meu Deus! um anno ao menos; Um louro só... e meu sepulchro cerra;
É tão bom respirar, e a luz brilhante Do sol oriental saudar no outeiro! Ai, na manhã saudal-a posso ainda; Mas será este o inverno derradeiro!
Quando de pômos o vergel fôr cheio; Quando ondear o trigo na planura, Quando pender com aureo fructo a vide, Eu tambem penderei na sepultura.
Dos que me cercam no turbado aspecto, Na voz que prende desusado enleio, No pranto a furto, no fingido riso, Fatal sentença de morrer eu leio.
Vistes vós criminoso que hão lançado Seus juizes nos trances da agonia, Em oratorio estreito, onde não entra Suavissima luz do claro dia;
Diante a cruz, ao lado o sacerdote, O cadafalso, o crime, o algoz na mente, O povo tumultuoso, o extremo arranco, O céo e inferno, e as maldições da gente:
Se adormece, lá surge um pesadello, Com os martyrios da sua alma accorde: Desperto logo, e á terra se arremessa, E os punhos cerra, e delirante os morde.
Sobre as lageas do duro pavimento De vergões e de sangue o rosto cobre; Ergue-se e escuta com cabellos hirtos Do sino ao longe o compassado dobre.
Sem esperança!... Não! Do cadafalso Sóbe as escadas o perdão ás vezes; Porém, a mim... não me dirão: És salvo! E o meu supplicio durará por mezes.
Dizer posso:--Existi! que a dor conheço! Do goso a taça só provei por horas; E serei teu, calado cemiterio, Que, engenho, gloria, amor, tudo devoras.
Se o furacão rugiu, e o debil tronco De arvore tenra espedaçou passando, Quem se doeu de a ver jazendo em terra? Tal é o meu destino miserando!
Numem do santo amor, mulher querida, Anjo do céo, encanto da existencia, Ora por mim a Deus, que hade escutar-te, Por ti me salve a mão da provídencia.
Vem; aperta-me a dextra... Oh foge, foge! Um beijo ardente aos labios te voára; E n'este beijo venenoso a morte Talvez este infeliz só te entregára!
Se eu podesse viver... como teus dias Cercaria de amor suave e puro! Como te fôra placido o presente; Quanto risonho o aspecto do futuro!
Porém, medonho espectro ante meus olhos Como sombra infernal perpetuo ondeia, Bradando-me, que vae partir-se o fio Com que da minha vida se urde a teia.
Entregue á seducção emquanto eu durmo, No turbilhão do mundo heide deixar-te! Quem velará por ti, pomba innocente? Quem do prejurio poderá salvar-te?
Quando eu cerrar os olhos moribundos Tu verterás por mim pranto saudoso; Mas quem me diz que não virá o riso Banhar teu rosto triste e lacrimoso?
Ai, o extincto só herda o esquecimento! Um novo amor te agitará o peito: E a dura lagea cubrirá meus ossos Frios, despidos sobre terreo leito!
Oh Deus, por que este calix de agonia Até ás bordas de amargor me encheste? Se eu devia acabar na juventude, Por que ao mundo e aos seus sonhos me prendeste.
Virgem do meu amor, porque perdel-a? Porque entre nós a campa hade assentar-se! Tua suprema paz em goso ou dores Do mortal que em ti crê, póde turbar-se?
Não haver quem me salve! e vir um dia Em que de minha o nome inda lhe désse! Então, senhor, o umbral da eternidade, Talvez sem um queixume transpozesse.
Mas, qual flôr em botão pendida e murcha Sem de fragancias perfumar a brisa, Eu poeta, eu amante, ir esconder-me Sob uma lousa desprezada e lisa!
Porque? Qual foi meu crime, oh Deus terrivel? Em te adorar que fui, senão insano?... O teu fatal poder hoje maldigo! O que te chama pae, mente: és tyranno.
E se aos pés de teu throno os ais não chegam; Se os gemidos da terra os áres sómem; Se a providencia é crença van, mentida, Porque geraste a intelligencia do homem?
Porque da virgem no sorrir poseste Santo presagio de suprema dita, E apontaste ao poeta a immensidade Na ancia da gloria, que em sua alma habita!
A immensidade!... E que me importa herdal-a, Se na terra passei sem ser sentido? Que val eterno vaguear no espaço, Se nosso nome se afundou no olvido? ..........................................
ALEXANDRE HERCULANO, _Harpa do Crente_, p. 63. 2.ª edição. Lisboa, 1860.
A LUA DE LONDRES
É noite; o astro saudoso Rompe a custo o plumbeo céo; Tolda-lhe o rosto formoso Alvacento, humido véo. Traz perdida a côr de prata, Nas aguas não se retrata, Não beija no campo a flor; Não traz cortejo de estrellas, Não falla de amor ás bellas, Não falla aos homens de amor.
Meiga lua, os teus segredos Onde os deixaste ficar? Deixaste-os nos arvoredos Das praias d'alem do mar? Foi na terra tua amada. N'essa terra tão banhada Por teu limpido clarão? Foi na terra dos verdores, Na patria dos meus amores Patria de meu coração?