Part 10
Mais frio em Blondin sobre o Niagára, Julgas minh'alma em vis paixões accesa; E comtudo, nas ostras da belleza Eu só procuro o amor, pérola rara.
Seja a mulher como um reptil hedionda, O typo ideal da estupidez suprema, Um monstro informe que da luz se esconda;
Ou seja a Venus do marmoreo poema, Um modelo de artistas, a Gioconda; Ser ou não ser amado, eis o problema.
JOÃO PENHA.
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STELLA-MARIS
Soltava a barca da pesca As azas brancas de neve Aos mansos ventos do sul! Estava a tarde tão fresca; Estava o céo tão azul.
Ella corria assim leve Como a espuma que fazia Na carreira que levava! Se a vela toda se enchia A borda toda virava; Se a vela cheia tombava A barca toda se erguia!
Era assim que a mariposa D'aquelle vasto oceano Volitava em manso abril, Sobre a onda buliçosa Que ia e vinha, em giro eterno, Beijar as fragas, sutil.
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Eu na rocha mudo e quedo Seguia a vela co'a vista De quem vê a que é só vista Com suave e doce medo!
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E n'aquelle engano d'alma Que arrobada trazia, Sem saber que confundia A que o fogo, branda, accalma, A que o éstro accende em mim, Com a barca fugidia Que corre, e corre, perdido O rumo e norte sem fim... Até d'ella me esquecia! Que pois me era esquecido D'este mundo em que vivia.
Foi então, Deus meu, que assombro! Que um não sei que de tão leve Sentí poisar no meu hombro... --Mão de neve, D'onde vens? Quem te deu, gentil mãosinha, Esse aroma, essa magia, Que tu tens? Esse encanto d'onde vinha? D'onde vens?
Louco de mim, que não via Luz que doiras o meu dia, Que eras tu... Perdido n'aquelle enlevo... Eu, que a ventura te devo Que possúo.
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Depois, inclinada a face Como o céo que lá se arquêa, Apontaste ao longe a aldêa Que sobre o monte renace Á luz de cada manhã, Como rosa, que sobre haste Abre as pétalas mimosa, E a barquinha me apontaste Que se ía librando airosa Tão louçã!
Uniste as mãos; e olhando, Co'esse olhar que amor te dá, O céo, que a tarde incendeia, Murmuraste suspirando, E com voz de magoa cheia --A vida... lá!
ALBERTO TELLES.
Através da transparencia Do teu bello rosto oval, Ve-se-te a alma--como chamma N'uma urna de crystal.
ALBERTO TELLES.
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Quando te vejo, é como se no mundo Ninguem mais existisse alem de nós. Não vejo mais ninguem: reinas a sós, E em ti com tudo o mais eu me confundo.
A terra, o vasto mar, o céo profundo São accessorio teu; e na tua voz Ouço a toada harmonica e veloz De quanto ha n'este espaço em que me inundo.
Nas dobras d'este manto universal, Em que tudo o que é, se involve e alista, Creio que só de ti vem bem e mal;
Tudo se move, e move-o a tua vista, E, se a verdade queres que te fale, Não sei se Deus és tu, se um Deus exista...
SANTOS VALENTE.
FALA A ORDEM
Pequeno, d'onde vens cantando A _Marselheza_? Da barricada infame? ou d'outra vil torpeza?
Que esplendido porvir! Do nada apenas saes, Começas a morder as purpuras reaes, Oh filho trivial da livida canalha! E, vamos! deixa ver... guardaste uma navalha? Não tremas, que eu bem vi! que trazes tu na mão? Intentas já limar as grades da prisão, Fazendo scintillar um ferro contra o solio, Archanjo que adejaes nos fumos do petroleo?...
Mas, vamos! abre a mão; não queiras que eu te dê.
Bandido, eu bem dizia!--A carta do A B C...
GUILHERME DE AZEVEDO, _A Alma nova_, p. 37. Lisboa, 1874.
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Ó machinas febrís eu sinto a cada passo, Nos silvos que soltaes, aquelle canto immenso, Que a nova geração nos labios traz suspenso Como a estancia viril d'uma epopêa d'aço!
Emquanto o velho mundo arfando de cansaço Prostrado cae na lucta; em fumo negro e denso Levanta-se a espiral d'esse moderno incenso Que offusca os deuses vãos, annuviando o espaço!
Vós sois as creações fulgentes, fabulosas Que, vibrantes, crueis, de lavas sequiosas, Mordeis o pedestal da velha Magestade!
E as grandes combustões que sempre vos consommem Começam, n'um cadinho, a refundir o homem, Fazendo resurgir mais larga a humanidade.
GUILHERME DE AZEVEDO, _Ib._ p. 69.
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A REPUBLICA
Tremeis? Vêde-a dormindo socegada, A deusa dos combates sempiternos: Rugem-lhe em torno os horridos invernos, E tudo é para ella uma alvorada.
Não penseis que ella durma, embriagada No somno grato dos reaes phalernos; Como Dante, desceu aos vís infernos, E repousa momentos da jornada.
Filhos do negro val, filhos da serra, Erguei os vossos gladios coruscantes, Á luz d'aquelle olhar que se descerra.
Ide, apertae-lhe os seios uberantes!... De cada gota que cahir na terra Hão de surgir impavidos gigantes.
SOUSA VITERBO, _Harmonias phantasticas_, p. 97. Porto, 1875.
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HETAIRAS
Vós envolveis o corpo nas roupagens Mais finas, elegantes, caprichosas; Vêdes passar, alegres, voluptuosas, Do amor fidalgo as lubricas imagens.
Adormeceis nas plácidas carruagens, Murchaes no seio as pudibundas rosas, E queimaes essas boccas sequiosas Nas boccas feminis dos louros pagens.
Tendes tudo; os theatros, a riqueza, As noites de delirio e morbideza, Todas as tentações, todos os brilhos!
E só não tendes nas estereis pomas, Oh Venus das esplendidas Sodomas, Uma gota de leite para os filhos!
SOUSA VITERBO, _Harmonias phantasticas_, p. 145.
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AO SOL
Tu sim, tu é que tens d'um deus a essencia! Reconhece-se a tua divindade Na branca luz formada de bondade, Mais bella de que o peito da innocencia.
Teus raios são os raios da existencia, Espadas da justiça e da verdade, E, n'esse livro azul da immensidade És em letras de fogo a Providencia.
Ah! se um dia a materia desvairada, Perdendo-se em seu proprio cataclismo, Te congelar a esphera abrazeada.
Hade a terra chorar no teu abysmo, E quando apalpe a immensidão do nada, Ha de soltar rugidos d'atheismo.
SOUSA VITERBO, _Harmonias phantasticas_, p. 151.
TREVAS
Quiz vêr o carcere. Só n'elle havia Uns vultos pálidos de torvo aspecto, Respirava-se a custo, e parecia Que me esmagava o ennegrecido tecto.
Era um mar de paixões, em calmaria; Mar outr'ora revôlto e irrequieto; Apenas pela abobada sombria Revoava, a zumbir, nocturno insecto.
Cheguei-me á turba vil, encarcerada, Em cuja face se cravára o stigma Do crime, que nos faz estremecer.
E perguntei:--Que dolorosa estrada Vos trouxe aqui?--E a turba, a esphinge, o enigma Rugir na sombra:--«Não sabemos lêr...»
CANDIDO DE FIGUEIREDO, _Poema da Miseria_, p. 153. Coimbra, 1874.
OURO
Dizia o ouro á pedra: «Ente mesquinho, Que profundo scismar sempre te prega Á beira d'uma estrada, ou d'um caminho, Pasmada, mas sem vêr, eterna cega?
Em vão o orvalho a ti te lava e rega! Em ti não cresce nunca pão nem vinho, Dura e inutil--o lodo é teu visinho, E o homem só, por te pisar, te emprega.
Em ti só medra e cresce o cardo, os lixos, Tu serves só d'abrigo ao lodo e aos bichos, E ensanguentas os pés descalços, nús.
Oh pedra! quanto a mim sou a riqueza!» A cega disse então, com singeleza: --Eu tambem guardo no meu seio a luz!
GOMES LEAL, _Claridades do Sul_, p. 33. Lisboa, 1875.
A CANALHA
Eu vejo-a vir ao longe perseguida, Como d'um vento livido varrida, Cheia de febre, rota... muito além... --Pelos caminhos asperos da Historia-- Emquanto os Reis e os Deuses na gloria Não ouvem a ninguem!
Ella vem tríste, só, silenciosa, Tinta de sangue... pallida, orgulhosa, Em farrapos, na fria escuridão... Buscando o grande dia da batalha, --É ella! É ella! A livida _Canalha_! --Caín, é vosso irmão!
Elles lá vêm famintos e sombrios, Rotos, selvagens, abanando aos frios, Sem leito e pão, descalços, semi-nús... --Nada, jámais, sua carreira abranda! Fizeram Roma, a Inglaterra e a Holanda, E andaram com Jesus!
São os tristes, os vis, os opprimidos, --Em Roma são marcados e batidos, Passam cheios de vastas afflicções!... Nem das mezas lhe atiram as migalhas! Morrem sem nome, ás vezes, nas batalhas, E andam nas sedições.
Vêm varridos do aspero destino! Em Roma e velha Grecia erram, sem tino, Nos tumultos, enterros, bacchanaes... Nas praças e nos porticos profundos... E disputam, famintos e immundos, O lixo aos animaes!
São os párias, os servos, os _illotas_, Vivem nas covas humidas, ignotas, Sem luz e ár; arrancam-lhes as mães... --Passam, curvados, nas manhãs geladas! E, depois de já mortos, nas calçadas, Devoram-os os cães.
Elles vêm de mui longe... vêm da Historia, Frios, sinistros, maus como... a memoria Dos pesadellos tragicos e maus... --Eu oiço os reis cantando em suas festas! E _elles_, _elles_--maiores do que as florestas-- Chorarem nos degraus!
É uma antiga e lugubre legenda! --Vão, sempre, sempre, sós na sua senda, Sublimes, heroicos, rotos, vis... Cheios de fome, ás luzes das lanternas, Cantando sujas farças, nas tabernas, Chorando nos covís.
--Alguns dormem em covas quaes serpentes! Viveram, entre os povos, e entre as gentes, Vergados d'um remorso solitario... --Sabem, de cór, os reinos devastados! E vieram, talvez, ensanguentados Da noite do Calvario!
Têm trabalhado, occultos, noite e dia, Ó réis! ó réis! as luzes da orgia De subito, que vento apagará! --Corre no ár um ecco subitaneo, E escuta-se, no seu subterraneo, O riso de Marat!
Chega, talvez, a hora das contendas! Ó legionarios! desertae as tendas, Já demolem os porticos reaes... Os que tem esgotado a negra taça, --Cantam, ao vento, os psalmos da _Desgraça_, E a historia dos punhaes!
Vão, ha muito, na sombra, foragidos, Pelas neves, curvados e transidos, Emquanto Deus se aquece nos seus Céos! --Vem do Sul uma lugubre toada, E escuta-se Rousseau, na agua furtada, Gritar--_Que me quer Deus!?_
Erguem-se ebrios de mortes, de vinganças, Assoma lá ao longe um mar de lanças, Resôam sobre os thronos os machados... E a Europa vê passar, cheia de assombros, Ferozes, em triumphos, aos seus hombros, --Seus reis esguedelhados.
Á voz das legiões rotas, sombrias, Desabam pelo mundo as monarchias... Tremem os graves bispos... e depois... Que mais farão? perguntam, desolados, --Vão ser, inda depois, crucificados Os deuses e os heroes!
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Vae prolongada a barbara orgia! No silencio da noite intensa e fria, Vem uns echos perdidos de batalha... Como uns ventos do norte impetuosos, São uns passos, nas trevas, vagarosos, Os passos da _Canalha_!
Elles vêm de mui longe... mui distantes Como sonoros batalhões gigantes, Como ondas negras de afflicto mar... N'uma viagem tragica e ingloria, --Ha muito, pela noite da Historia, Que os oiço caminhar!
Quem sabe quando vêm... é longa a estrada, D'esta comprida e aspera jornada Quem sabe quando, emfim, descançarão? Atapetem as pedras de flores, Lá vêm queimados, rotos, vencedores, Altivos e sem pão.
Não raiou inda o dia da Justiça!... Mas, breve, talvez, se oiça a nova missa, E dispersem-se tetricos caudilhos... Vão talvez, vir os tempos desejados! --E, então, por vossa vez, ó reis sagrados, --_Saude aos maltrapilhos!_
GOMES LEAL.
AO COMBATE!...
Retumba pelo espaço desolado Como que um brado immenso, prolongado, Como os eccos sinistros de batalha; Anda no ár um fluido mysterioso, E ouve-se, ao longe, o passo vagaroso Da «livida _canalha_».
É ella, é ella, a triste, a desherdada, Cheia de lodo vil, esfarrapada, Arrastando, nas trevas, as algemas: Caminha em busca de um ideal mais puro, E vae fundir, nas chammas do futuro, Os sceptros e os diademas.
................................. E eil-a que assoma, no horisonte escuro, Essa phalange heroica do futuro, Como as vagas do mar phosphorecente: Vem perseguir as sanguinosas féras, Os monarchas e as lúbricas pantheras, A prostituta gente.
Vêm caminhando sempre; nada impede A carreira ao colosso que nem cede Ás legiões dos cezares sombrios. Trazem nas mãos as paginas da Historia, E a Justiça e o Direito e, na memoria, A fome, a sêde e os frios.
São elles os escravos e opprimidos, Esses que dormem tristes, escondidos, Nas ruinas das velhas cathedraes: Andam minando a antiga sociedade E hão de, em breve, sentar a Liberdade Nos thronos imperiaes,
Andam cavando a sepultura immensa Que ha de involver, na escuridão intensa, As venenosas viboras reaes; Revigora-os a força do heroismo, E hão de calcar, aos pés, o despotismo E os tigres e os chacaes.
Hão de esmagar-vos, sim! ó reis sagrados, Vós, os deuses dos seculos passados, Tereis mais de um Calvario, em breve... agora; Mas não vereis um pranto piedoso, Heis de morrer, ao grito tumultuoso, Dos miseros d'outr'ora;
Miseros que hão de ser mais que gigantes, Que hão de arrancar, com suas mãos possantes, O fundamento ás velhas monarchias; Que hão de lançar ás trevas do passado O velho despotismo, ensanguentado, E gasto nas orgias;
Miseros, sim! mas d'esses cuja gloria Se ha de inscrever nas paginas da Historia Dos sublimes combates da Justiça; Miseros!... e vós, ó reis repletos, Sereis como que uns symbolos completos D'uma feroz cubiça:
Tendes nas mãos o ferro dos destroços, E levantaes os thronos sobre os ossos De milhares de povos immolados; Bebeis com sangue o vinho, em aurea taça, E adormeceis, ao grito da desgraça, Sinistros e embriagados.
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Lançaes, por toda a parte, o luto e a morte... Mas vae haver uma vingança forte... Tremei agora, ó grandes criminosos; --Approxima-se a hora da batalha... Eil-a, já perto, a livida _canalha_, Os vís, os asquerosos.
São elles os _plebeus_, os desgraçados, Cheios de fome, tristes, descarnados, Como espectros das lendas tenebrosas; Deixam as trevas de um passado escuro, E vão depôr nas aras do futuro As--palmas victoriosas.
Vêm terminar a noute dos horrores, E hão de sair altivos, vencedores, Da luta contra a velha realeza; Ha de unil-os o braço da Egualdade, E inundal-os a luz da Liberdade, Ao som da _Marselheza_.
..................................... Mas percorra-se, breve, a longa senda, Conquistemos os louros da contenda, Abram-se agora as jaulas imperiaes; Á luta! irmãos! á luta!... «_Democratas, Poisae o pé sobre as cabeças chatas Das viboras reaes!_...»
A. BETTENCOURT RODRIGUES.
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UM HEROE
É dia de batalha! Em fumo suffocados Desde o romper do sol, duzentos mil soldados Luctam a ferro e fogo. Um d'elles,--um dragão Curvado no selim, e em frente do esquadrão, Como racha uma cunha os tóros de um pinheiro, Embebe-se feroz n'outro esquadrão fronteiro, Fazendo-o rebentar em rotos vagalhões. Qual se na mão vibrára um raio, as multidões Vergam, fundem-se á luz do aço de sua espada. Apoz o lampejar de cada cutilada Chovem jorros de sangue em meio d'essa mó Que aos pés do seu cavallo, e em turbilhões de pó, Desenlaça os cordões do seu dobar confuso. Incendeia-lhe a raiva o torvo olhar diffuso Por tudo o que inda vive! e do seu labio á flor Fuzila a imprecação, se o fatigado açor Da morte, um só momento, encolhe a garra curva.
Depois a noite desce, enregelada e turva, Co'as brumas d'esse mar de sangue. Desde então Findára a lucta horrenda; e o esplendido dragão, O grande heroe do dia, após tão bom regalo, Limpa tranquillo a espada ás clinas do cavallo. De repente uma voz interrogal-o vem, Qual se de dentro d'elle a voz partira: «Quem Venceu n'esta batalha em que mataste tanto? Que salvadora ideia, ou que principio santo No sangue baptisaste? e, cego de furor, Porque te foi prazer a ancia da alhêa dôr? Das lascas do metal dos elmos, que partiste, O que forja a victoria? aguda lança em riste De encontro aos peitos nús de alguns de teus irmãos? Ou martello que parta os ferros em que as mãos Lhes roxeiam no cêpo, ambas acorrentadas? Que lumes surgirão do choque das espadas, Em que se aqueça mais a cinza do teu lar, Quando--volvido á choça onde te foi buscar A guerra--em torno a ti pedirem as crianças Calor, abrigo, e pão? Que férvidas vinganças Reclamarás de quem, pela primeira vez, Tu viste hoje e que ainda, ha bem pouco, talvez A mil leguas de ti, em vez de humanas vidas Ceifava, como tu, as messes resequidas Á luz do sol do céo e do outro sol da paz? De que lado partiu o desafio audaz? Da força do direito, ou do empuxão da força? O que faz com que o ferro esmague, quebre e torça Armas e corações em funebre tropel? Que sabes tu, que sabe o teu feroz corcel De mappas ou de leis, de imperios ou de raças, Para que, contemplando os rombos das couraças D'onde sae pingo a pingo a vida a gottejar, Tranquillo o coração e indifferente o olhar, Escutes o estertor e as ancias da agonia De uns pobres como tu?» O grande heroe do dia Os hombros encolheu em frente á mortal grei, Sorriu bestialmente, e respondeu: «Não sei!»
CLAUDIO JOSÉ NUNES. _Scenas contemporaneas_, p. 73. Lisboa, 1873.
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ESPOSA, FILHA E MÃE
Passou por mim n'um dia venerando Um grupo que em minh'alma ainda hoje brilha: Uma linda creança hia guiando Um velho cego e triste. Ao vêr como o guiava, eu disse: «Existe O santo amor de filha.»
Annos depois--não sei como, nem quando-- Encontrei o botão já feito rosa... Fitava o meigo olhar que mal esconde Thesouros de meiguice, N'um homem, por tal fórma que quem visse Diria: «Amor de esposa.»
Encontro-te hoje a mesma, apenas vejo Novos cuidados que ao teu rosto vêm, E ao vêr com quanto amor tu dás um beijo N'um sêr que tens ao peito, Digo: «Bemdito Deus, que assim te ha feito Esposa, filha e mãe.»
LUIZ DE CAMPOS.
PARTE II
OS LYRICOS BRAZILEIROS
SONHANDO
Na praia dezerta que a lua branqueia, Que mimo! que rosa, que filha de Deus! Tão pallida--ao vel-a meu sêr devaneia, Suffoco nos labios os halitos meus. Não corras na areia, Não corras assim! Donzella, onde vaes? Tem pena de mim.
A praia é tão longa! e a onda bravia As roupas de gaza te molha de escuma; De noite aos serenos--a areia é tão fria, Tão humido o vento que os áres perfuma! És tão doentia! Não corras assim! Donzella, onde vaes? Tem pena de mim.
A brisa teus negros cabellos soltou, O orvalho da face te esfria o suor; Teus seios palpitam--a brisa os roçou, Beijou-os, suspira, desmaia de amor. Teu pé tropeçou... Não corras assim! Donzella, onde vaes? Tem pena de mim:
E o pallido mimo da minha paixão N'um longo soluço tremeu e parou; Sentou-se na praia; sósinha no chão A mão regelada no collo pousou! Que tens, coração, Que tremes assim? Cansaste, donzella? Tem pena de mim.
Deitou-se na areia que a vaga molhou, Immovel e branca na praia dormia; Mas nem os seus olhos o somno fechou, E nem o seu collo de neve tremia. O seio gelou?... Não durmas assim! Oh pallida fria, Tem pena de mim.
Dormia--na fronte que niveo suár! Que mão regelada no languido peito! Não era mais alvo seu leito do mar, Não era mais frio seu gélido leito! Nem um resonar!... Não durmas assim! Oh pallida fria Tem pena de mim.
Aqui no meu peito vem antes sonhar, Nos longos suspiros do meu coração, Eu quero em meus labios teu seio aquentar, Teu collo, essas faces e a gélida mão! Não durmas no mar! Não durmas assim Estatua sem vida, Tem pena de mim!
E a vaga crescia seu corpo banhando, As candidas formas movendo de leve! E eu via-a suave nas aguas boiando, Com soltos cabellos nas roupas de neve! Nas vagas sonhando Não durmas assim; Donzella, onde vaes? Tem pena de mim!
E a imagem da virgem nas aguas do mar Brilhava tão branca no limpido véo! Nem mais transparente luzia o luar No ambiente sem nuvens da noite do céo! Nas aguas do mar Não durmas assim! Não morras, donzella, Espera por mim!
M. A. ALVARES DE AZEVEDO, _Obras_, t. I, p. 67. Rio de Janeiro, 1862.
SONETO
Pallida, á luz da lampada sombria, Sobre o leito de flores reclinada, Como a lua por noite embalsamada, Entre as nuvens do mar ella dormia!
Era a virgem do mar, na escuma fria Pela maré das aguas embalada! Era um anjo entre nuvens d'alvorada Que em sonhos se banhava e se esquecia!
Era mais bella! o seio palpitando... Negros olhos as palpebras abrindo... Fórmas núas no leito resvalando...
Não te rias de mim, meu anjo lindo! Por ti--as noites eu velei chorando, Por ti--nos sonhos morrerei sorrindo!
ALVARES DE AZEVEDO, _Ibid._ t. I, p. 131.
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LEMBRANÇA DE MORRER
Quando em meu peito rebentar-se a fibra Que o espirito enlaça á dor vivente, Não derramem por mim nem uma lagrima, Em palpebra demente.
E nem desfolhem na materia impura A flor do valle que adormece ao vento: Não quero que uma nota de alegria Se cale por meu triste passamento.
Eu deixo a vida como deixa o tedio Do deserto, o poente caminheiro, --Como as horas do meu longo pesadello Que se desfaz ao dobre de um sineiro;
Como um desterro da minh'alma errante, Onde fogo insensato a consummia; Só levo uma saudade--é d'esses tempos Que amorosa illusão embellecia.
Só levo uma saudade--é d'essas sombras Que eu sentia velar nas noites minhas... De ti, oh minha mãe, pobre coitada, Que por minha tristeza te definhas!
De meu pae... de meus unicos amigos, Poucos--bem poucos--e que não zombavam Quanto, em noites de febre endoidecido. Minhas pallidas crenças duvidavam.