Part 11
Se uma lagrima as palpebras me inunda, Se um suspiro nos seios treme ainda É pela virgem que sonhei... que nunca Aos labios me encostou a face linda!
Só tu á mocidade sonhadora Do pallido poeta déste flores... Se viveu, foi por ti! e de esperança De na vida gosar de teus amores.
Beijarei a verdade santa e núa, Verei cristallisar-se o sonho amigo... Oh minha virgem dos errantes sonhos, Filha do céo, eu vou viver comtigo.
Descancem o meu leito solitario Na floresta dos homens esquecida, Á sombra de uma cruz, e escrevam n'ella: --Foi poeta--sonhou--e amou na vida.
Sombras do valle, noites da montanha, Que minha alma cantou e amava tanto, Protegei o meu corpo abandonado, E no silencio derramae-lhe canto!
Mas quando preludia ave d'aurora E quando á meia noite o céo repousa, Arvoredos do bosque, abri os ramos... Deixae a lua pratear-me a lousa.
ALVARES DE AZEVEDO, _Ibid._ t. I. pag. 198.
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NO DIA DO ENTERRO DE...
A vida é uma comedia sem sentido, Uma historia de sangue e de poeira, Um deserto sem luz... A escara de uma lava em craneo ardido... E depois sobre o lodo... uma caveira, Uns ossos e uma cruz!
Parece que uma atroz fatalidade A mente insana no provir alenta E zomba da illudida! O frio vendaval da eternidade Apaga sobre a fronte macilenta A lampada da vida.
Não digas, coração, que alma descança Quando as ideias no prazer enfurda O escarneo zombeteiro... Que loucura!... a manhã o peito cansa, Resta um enterro... e uma resa surda... E depois... o coveiro!
Fermente a seiba juvenil do peito, Vele o talento n'uma fronte santa Que o genio empallidece... Embalde! á noite, ao pé de cada leito O phantasma terrivel se levanta... E seu bafo entorpece!
E comtudo essa morte é um segredo Que gela as mãos do trovador na lyra E escarnece da crença; Um pesadêllo--uma visão de medo... Verdade que parece uma mentira E inocula a descrença!
E quem sabe? é a duvida medonha! Quem os véos arregaça do infinito E os tumulos destampa? Quem, quando dorme, ou vela, ou quando sonha Ouviu revelações no horrendo grito A rebentar da campa?
E quem sabe? é a duvida terrivel: É a larva que aos labios nos aperta Entreabrindo o sudario! A realidade é um pesadêllo incrivel! Semelha um sonho a lápida deserta E o leito mortuario!
E quando acordarão os que dormitam? Quando estas cinzas se erguerão tremendo Em nuvens se expandindo? Perguntae-o aos cyprestes que se agitam, Ao vento pela treva se escondendo, Nas ruinas bramindo!
E comtudo parece um desvario, Blasphemia atroz o cantico atrevido Que rugem os atheus; Sem a sombra de Deus é tão vasio O mundo--cemiterio envilecido!... Oh! creiamos em Deus!
Creiamos, sim; ao menos para a vida Não mergulhar-se n'uma noite escura... E não enlouquecer... Utopia ou verdade, a alma perdida Precisa de uma ideia eterna e pura --Deus e céo... para crêr.
Consola-te! nós somos condemnados Á noite de amargura: o vento norte Nossos pharoes apaga... Iremos todos, pobres naufragados, Frios rolar no littoral da morte Repellidos da vaga!
ALVARES DE AZEVEDO, _Ibid._, t. I, p. 335.
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TRINDADE
A _vida_ é uma planta mysteriosa Cheia de espinhos, negra de amarguras, Onde só abrem duas flôres puras Poesia e Amor...
E a _mulher_... é a nota suspirosa Que treme d'alma a corda estremecida, --É fada que nos leva alem da vida Pallidos de languor!
A _poesia_ é a luz da mocidade, O amor é o poema dos sentidos; A febre dos momentos não dormidos E o sonhar da ventura...
Voltae, sonhos de amor e de saudade! Quero ainda sentir arder-me o sangue, Os olhos turvos, o meu peito langue, E morrer de ternura.
ALVARES DE AZEVEDO, _Ibid._, t. III, p. 47.
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SE EU MORRESSE ÁMANHÃ!
Se eu morresse ámanhã, viria ao menos Fechar meus olhos minha triste irmã; Minha mãe de saudades morreria, Se eu morresse amanhã!
Quanta gloria presinto em meu futuro! Que aurora de porvir e que manhã! Eu perdera chorando essas corôas Se eu morresse ámanhã!
Que sol! que céo azul! que doce n'alva Acorda a natureza mais louçã! Não me batera tanto amor no peito, Se eu morresse ámanhã!
Mas essa dôr da vida que devora A ancia de gloria, o dolorido afan... A dor no peito emudecera ao menos, Se eu morresse ámanhã!
ALVARES DE AZEVEDO, _Ibid._, t. I, p. 343.
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PEDIDO
Hontem no baile Não me attendias! Não me attendias Quando eu fallava.
De mim bem longe Teu pensamento! Teu pensamento Bem longe errava.
Eu vi teus olhos Sobre outros olhos, Sobre outros olhos Que eu odiava.
Tu lhe sorriste Com tal sorriso! Com tal sorriso Que apunhalava.
Tu lhe fallaste Com voz tão doce! Com voz tão doce Que me matava.
Oh não lhe falles Não lhe sorrias, Se então querias Experimentar-me.
Oh não lhe falles Não lhe sorrias, Não lhe sorrias Que era matar-me.
A. GONÇALVES DIAS, _Cantos_, p. 22. Leipzic, 1860.
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LYRA
Se me queres a teus pés ajoelhado, Ufano de me vêr por ti rendido, Ou já em mudas lagrimas banhado; Volve, impiedosa, Volve-me os olhos, Basta uma vez!
Se me queres de rojo sobre a terra,, Beijando a fimbria dos vestidos teus, Calando as queixas que meu peito encerra, Dize-me, ingrata, Dize-me: Eu quero! Basta uma vez.
Mas se antes folgas de me ouvir na lyra Louvor singelo dos amores meus, Porque minha alma ha tanto em vão suspira; Dize-me, oh bella, Dize-me: Eu te amo! Basta uma vez.
GONÇALVES DIAS, _Ib._, p. 117.
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O SOMNO
Nas horas da noite, se junto ao meu leito Houveres acaso, meu bem, de chegar, Verás de repente que aspecto risonho Que toma o meu sonho, Se o vens bafejar!
O anjo, que ao somno preside tranquillo, Ao anjo da terra não cêda o logar; Mas deixe-o amoroso chegar-se ao meu leito, Unir-se ao meu peito, D'amor offegar.
As notas que exhalam as harpas celestes, Os gosos que os anjos só podem gosar, Talvez tambem frúa, se ao meu peito unida Te encontro, oh querida, No meu acordar!
GONÇALVES DIAS, _Novos Cantos_, p. 186.
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MEU ANJO, ESCUTA...
Meu anjo, escuta: quando junto á noite Perpassa a brisa pelo rosto teu, Como suspiro que um menino exhala; Na voz da brisa que murmura e falla Brando queixume, que tão triste cala No peito teu? Sou eu; sou eu; sou eu!
Quando tu sentes luctuosa imagem D'afflicto pranto com sombrio véo, Rasgando o peito por acerbas dôres; Quem murcha as flores Do brando sonho?--Quem te pinta amores De um puro céo? Sou eu; sou eu; sou eu!
Se alguem te accorda do celeste arroubo, Na amenidade do silencio teu, Quando tua alma n'outros mundos erra, Se alguem descerra Ao lado teu Fraco suspiro, que no peito encerra; Sou eu; sou eu; sou eu!
Se alguem se afflige de te vêr chorosa, Se alguem se alegra co'um sorriso teu, Se alguem suspira de te vêr formosa O mar e a terra a enamorar o céo; Se alguem definha Por amor teu, Sou eu; sou eu; sou eu!
GONÇALVES DIAS, _Ultimos Cantos_, p. 378.
AMOR E MEDO
I
Quando eu te fujo e me desvio cauto Da luz de fogo que te cerca, oh bella, Comtigo dizes, suspirando amores: «Meu Deus! que gelo, que frieza aquella!»
Como te enganas! meu amor é chamma Que se alimenta no voraz segredo, E se te fujo, é que te adoro louco... És bella,--eu moço; tens amor,--eu medo!...
Tenho medo de mim, de ti, de tudo, Da luz, da sombra, do silencio ou vozes, Das folhas seccas, do chorar das fontes, Das horas longas a correr velozes.
O véo da noite me atormenta em dores, A luz da aurora me entumece os seios, E ao vento fresco do caír das tardes Eu me estremeço de crueis receios.
É que esse vento, que na varzea--ao longe, Do côlmo o fumo caprixoso ondeia, Soprando um dia, tornaria incendio A chamma viva que teu riso atêa.
Ai! se abrazado crepitasse o cedro, Cedendo ao raio que a tormenta envia, Diz:--que seria da plantinha humilde Que á sombra d'elle tão feliz crescia?
A labareda que se enrosca ao tronco Torrára a planta qual queimára o galho, E a pobre nunca reviver podera Chovesse embora paternal orvalho!
II
Ai! se eu te visse no calor da sesta, A mão tremente no calor das tuas, Amarrotado o teu vestido branco, Sôltos cabellos nas espaduas núas!...
Ai! se eu te visse, Magdalena pura, Sobre o velludo reclinada a meio, Olhos cerrados na volupia doce, Os braços frouxos--palpitante o seio.
Ai! se eu te visse em languidez sublime, Na face as rosas virginaes do pejo, Trémula a falla a protestar baixinho... Vermelha a bocca, soluçando um beijo!...
Diz:--que seria da pureza d'anjo, Das vestes alvas, do candor das azas!... --Tu te queimáras, a pizar descalça, Criança louca, sobre um chão de brazas!
No fogo vivo eu me abrazára inteiro! Ebrio e sedento na fugaz vertigem; Vil, machucára com meu dedo impuro As pobres flores da grinalda virgem!
Vampiro infame, eu sorveria em beijos Toda a innocencia que teu labio encerra, E tu serias no lascivo abraço, Anjo enlodado nos paúes da terra.
Depois... desperta no febril delirio, Olhos pisados, como um vão lamento, Tu perguntáras: que é da minha corôa?... Eu te diria: desfolhou-a o vento!...
Oh! não me chames coração de gelo! Bem vês; trahi-me no fatal segredo. Se de ti fujo, é que te adoro e muito, És bella,--eu moço; tens amor, eu--medo.
CASEMIRO DE ABREU, _Primaveras_, p. 131. Lisboa.
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NA RÊDE
Nas horas ardentes do pino do dia Ao bosque corri; E qual linda imagem dos castos amores, Dormindo e sonhando cercada de flores Nos bosques a vi! Dormia deitada na rêde de pennas, O céo por docel, De leve embalada no quieto balanço, Qual nauta scismando n'um lago bem manso, N'um leve batel.
Dormia e sonhava;--no rosto, serena, Qual um seraphim; Os cilios pendidos nos olhos tão bellos, E a brisa brincando nos sôltos cabellos, De fino setim!
Dormia e sonhava--formosa, embebida No doce sonhar, E doce e sereno, n'um magico anceio Debaixo das roupas batia-lhe o seio No seu palpitar.
Dormia e sonhava,--a bocca entre-aberta, O labio a sorrir; No peito cruzados os braços dormentes, Compridos e lisos quaes brancas serpentes, No collo a dormir!
Dormia e sonhava--no sonho d'amores Chamava por mim; E a voz suspirosa nos labios morria Tão terna e tão meiga qual vaga harmonia De algum bandolim!
Dormia e sonhava--de manso cheguei-me Sem leve rumor, Pendi-me tremendo e, qual fraco vagido, Qual sopro da briza, baixinho ao ouvido Fallei-lhe de amor! Ao halito ardente o peito palpita... Mas sem despertar; E como nas ancias de um sonho que é lindo, A virgem na rêde córando e sorrindo... Beijou-me a sonhar!...
CASIMIRO DE ABREU, _Ibid._, p. 95.
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MARTYRIO
Beijar-te a fronte linda: Beijar-te o aspecto altivo, Beijar-te a tez morena; Beijar-te o rir lascivo.
Beijar o ár que aspiras, Beijar o pó que pisas, Beijar a voz que soltas. Beijar a luz, que visas.
Sentir teus modos frios, Sentir tua apathia, Sentir até repudio, Sentir essa ironia;
Sentir que me resguardas, Sentir que me arreceias, Sentir que me repugnas, Sentir que até me odeias;
Eis a descrença e a crença, Eis o absyntho e a flor, Eis o amor e o odio, Eis o prazer e a dor!
Eis o estertor da morte, Eis o martyrio eterno, Eis o ranger dos dentes Eis o penar do inferno.
JUNQUEIRA FREIRE, _Contradicções poeticas_, p. 79.
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TAMBEM ELLA
Ella tambem ouviu o som das vagas Sobre os rochedos--e talvez dissesse: --O som das aguas que embellece os outros, Não me embellece.
Ella tambem sentiu a fresca aragem Sobre os cabellos--e talvez dissesse: --A fresca aragem que adormece os outros Não me adormece.
Ella tambem deitou-se no sereno Sobre estas relvas--e talvez dissesse: --Este sereno que empallece os outros Não me empallece.
Ella tambem olhou estas montanhas Sobre as campinas--e talvez dissesse: --A vista d'ella, que embevece os outros Não me embevece.
Ella tambem andou ao sol ardente Sobre as planicies--e talvez dissesse: --O sol ardente que enrubece os outros Não me enrubece.
Ella tambem provou dos cardos frescos Sobre as areias--e talvez dissesse: --O gosto d'elles, que arrefece os outros, Não me arrefece.
Elle tambem sentou-se n'este muro, Sobre estas pedras--e talvez dissesse: --Esta quadra gentil que encanta os outros Já me aborrece.
Este quadro gentil agrada aos outros, É bello todo--ella talvez dissesse! --Porém tão longe o meu amor! oh, tudo Tudo fallece!
Sim, ella o disse merencoria e amante, Impios não duvideis que ella o dissesse: --Tão longe d'elle assim! sem vida tudo, Tudo parece!
JUNQUEIRA FREIRE, _Ibidem_, p. 117.
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A FLOR SUSPIRO
Eu amo as flores Que mudamente Paixões explicam Que o peito sente, Amo a saudade, O amor perfeito, Mas o suspiro Trago no peito.
A forma esbelta Termina em ponta, Como uma lança Que ao céo remonta. Assim, minha alma, Suspiros geras Que ferir podem As mesmas féras.
É sempre triste, Ensanguentado, Quer secco morra, Quer brilhe em prado. Taes meus suspiros... Mas não prosigas, Ninguem se move Por mais digas.
D. J. GONÇALVES MAGALHÃES, _Suspiros poeticos_, p. 239. Pariz 1859.
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LYRA
Quando me volves teus formosos olhos, Meigos, banhados de celeste encanto, Rasgo uma folha da carteira, e a lapis Escrevo um canto,
Quando nos labios do rubim mais puro Mostras-me um riso seductor, faceto, Encommendo minh'alma ás nove muzas, Faço um soneto.
Quando ao passeio, no mover das roupas, Deixas de leve vêr teu pé divino, Sinto as arterias palpitarem tumidas, Componho um hymno.
Quando no marmor das espaduas bellas, As negras tranças a tremer sacodes, Ebrio de amor, sorvendo seus perfumes, Rimo dez odes.
Quando á noitinha, me fallando a medo Elevas-me do céo á luz suprema, Esqueçoi-me do mundo e de mim mesmo, Gero um poema.
L. N. FAGUNDES VARELLA, _Cantos do ermo e da cidade_, p. 149.
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O MESMO
Desde a quadra a mais antiga De que rezam pergaminhos, Cantam a mesma cantiga Na floresta os passarinhos;
Tem o mesmo aroma as flores, Mesma verdura as campinas, A briza os mesmos rumores, Mesma leveza as neblinas;
Tem o sol as mesmas luzes, Tem o mar as mesmas vagas, O dezerto as mesmas urzes, A mesma dureza as fragas;
Os mesmos tolos o mundo, A mulher o mesmo riso, O sepulchro o mesmo fundo, Os homens o mesmo siso;
E n'este insipido giro, N'este vôo sempre a esmo, Vale a pena, em seu retiro, Cantar o poeta, mesmo?
FAGUNDES VARELLA, _Ibid._, p. 151.
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SERENATA
Em teus travessos olhos, Mais lindos que as estrellas Do espaço, ás furtadelas Mirando o escuro mar; Em teu olhar tyrannico, Cheio de vivo fogo, Meu sêr, minh'alma afógo De amor a suspírar.
Se teus encantos todos Eu fosse a enumerar!...
D'esses mimosos labios Que ao beija-flor enganam, D'onde perpetuos manam Perfumes de encantar; D'esses lascivos labios, Macios, purpurinos, Ouvindo os sons divinos Me sinto desmaiar.
Se teus encantos todos Eu fosse a enumerar!...
Tuas madeixas virgens, Cheirosas, fluctuantes, Teus seios palpitantes Da sêde do gozar; Tua cintura estreita, Teu pé subtil, conciso, Obumbram-me o juízo, Apagam-me o pensar.
Se teus encantos todos Eu fosse a enumerar!...
Ai quebra-me estes ferros Fataes que nos separam, Os doudos que os forjaram Não sabem, não, amar. Da-me o teu corpo e alma, E á luz da liberdade, Oh minha divindade Corramos a folgar.
Se teus encantos todos Eu fosse enumerar!...
FAGUNDES VARELA, _Ibid._, p. 43.
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ESTANCIAS
O que eu adoro em ti não são teus olhos, Teus lindos olhos cheios de mysterio, Por cujo brilho os homens deixariam Da terra inteira o mais soberbo imperio.
O que eu adoro em ti não são teus lábios, Onde perpetua juventude móra, E encerram mais perfumes do que os valles, Por entre as pompas festivaes da aurora.
O que eu adoro em ti não é teu rosto Perante o qual o mármor descorára, E ao contemplar a esplendida harmonia Phidias, o mestre, seu cinzel quebrára.
O que eu adoro em ti não é teu collo Mais bello que o da esposa israelita, Torre de graças, encantado asylo Aonde o genio das paixões habita.
O que eu adoro em ti não são teus seios, Alvas pombinhas que dormindo gemem, E do indiscreto vôo de uma abelha Cheias de medo em seu abrigo temem.
O que eu adoro em ti, ouve, é tu'alma Pura como o sorrir de uma criança, Alheia ao mundo, alheia aos preconceitos, Rica de crenças, rica de esperança.
São as palavras de bondade infinda Que sabes murmurar aos que padecem, Os carinhos ingenuos de teus olhos, Onde celestes gozos transparecem!...
Um não sei que, de grande, immaculado, Que faz estremecer quando tu fallas, E eleva-me o pensar além dos mundos, Quando abaixando as palpebras te callas.
E por isso em meus sonhos sempre vi-te Entre nuvens de incenso em aras santas, E das turbas solicitas no meio Tambem contricto hei te beijado as plantas.
E como és linda assim! Chammas divinas Cercam-te as faces placidas e bellas, Um longo manto pende-te dos hombros, Salpicado de nitidas estrellas!
Na douda pyra de um amor terrestre Pensei sagrar-te o coração demente... Mas ao mirar-te deslumbrou-me o raio... Tinhas nos olhos o perdão sómente!
FAGUNDES VARELLA, _Ibid._, p. 68.
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O CANTO DOS SABIÁS
Serão de mortos anjinhos O cantar de errantes almas? Dos coqueiros florescentes A brincar nas verdes palmas, Estas notas maviosas Que me fazem suspirar?
São os sabiás que cantam Nas mangueiras do pomar.
Serão os genios da tarde Que passam sobre as campinas, Cingindo o collo de opalas, E a cabeça de neblinas, E fogem, nas harpas de ouro Mansamente a dedilhar?
São os sabiás que cantam, Não vês o sol declinar.
Ou serão talvez as preces De algum sonhador proscripto, Que vagueia nos desertos, Alma cheia do infinito, Pedindo a Deus um consolo Que o mundo não póde dar?
São os sabiás que cantam. Como está sereno o mar!
Ou quem sabe as tristes sombras De quanto amei n'este mundo, Que se elevam lacrimosas De seu tumulo profundo, E vêm os psalmos da morte No meu desterro entoar?
São os sabiás que cantam. Não gostas de os escutar?
Serás tu, minha saudade? Tu meu thezouro de amor? Tu que ás tormentas murchaste Da mocidade na flor? Serás tu? Vem, sê bem vinda, Quero-te ainda escutar!
São os sabiás que cantam Antes da noite baixar.
Mas ah! delirio insensato! Não és tu sombra adorada! Não ha canticos de anjinhos, Nem de phalange encantada Passando sobre as campinas Nas harpas a dedilhar!
São os sabiás que cantam Nas mangueiras do pomar!
FAGUNDES VARELLA, _Ibidem_, p. 34.
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O ADEUS DE THEREZA
A vez primeira que eu fitei Thereza, Como as plantas que arrasta a correnteza, A walsa nos levou nos giros seus... E amámos juntos... E depois na sala Adeus!--eu disse-lhe, a tremer co'a falla...
Ella, córando, murmurou-me:--Adeus!
Uma noite... entreabriu-se um reposteiro... E da alcôva sahia um cavalleiro Inda beijando uma mulher sem véos... Era eu... Era a pallida Thereza! Adeus!--lhe disse, conservando-a preza...
E ella entre beijos murmurou-me:--Adeus!
Passaram tempos... sec'los de delirio, Prazeres divinaes... gozos do empyreo... Mas, um dia volvi aos lares meus, Partindo eu disse: Voltarei, descança!... Ella chorando mais que uma criança,
Ella em soluços murmurou-me:--Adeus!
Quando voltei, era o palacio em festa!... E a voz d'ella e de um homem lá na orchestra Preenchiam de amor o azul dos céos. Entrei... Ella me olhou branca, surpreza! Foi a ultima vez que eu vi Thereza!...
E ella arquejando murmurou-me:--Adeus!
CASTRO ALVES, _Poesias_, p. 47. Bahia, 1870.
IMMENSIS ORBIBUS ANGUIS
I
Resvala em fogo o sol dos montes sobre a espalda E lustra o dorso nú da india americana... Na selva zumbe emtanto o insecto de esmeralda, E pousa o colibri nas flores da liana.
Ali, a luz cruel, a calmaria intensa! Aqui, a sombra, a paz, os ventos, a cascata... E a pluma dos bambús a tremular immensa... E o canto de aves mil, e a solidão, e a mata...
É a hora em que, fugindo aos raios da esplanada, A Indigena, a gentil matrona do deserto, Amarra aos palmeiraes a rêde mosqueada, Que, leve como um berço, embala o vento incerto...
Então ella abandona-lhe ao beijo apaixonado A perna a mais formosa, o corpo o mais macio, E, as palpebras cerrando, ao filho bronzeado Entrega um seio nú, moreno, luzidio.
Porém d'entre os espatos esguios do coqueiro Do verde gravatá nos caxos reluzentes, Enrosca-se e desliza um corpo sorrateiro E desce devagar pelos cipós pendentes.
E desce... e desce mais... á rêde já se chega... Da india nos cabellos a longa cauda sóme... Horror!... aquelle horror ao peito eis que se apega! A baba quer o leite! A chaga, sente fóme!
O veneno quer mel! A escama quer a pelle! Quer o almiscar perfume! O immundo quer o bello! A lingua do reptil--lambendo o seio imbelle!... Uma cobra por filho... Horrivel pesadello!...
II
Assim, minh'alma, assim um dia adormeceste Na floresta ideial da ardente mocidade... Abria a phantasia a pétala celeste... Zumbia o sonho d'ouro em doce obscuridade...
Assim, minh'alma, déste o seio (oh dor immensa!) Onde a paixão corria indómita, fremente! Assim bebeu-te a vida, a mocidade e a crença Não bocca de mulher... mas de fatal serpente...
CASTRO ALVES, _Ibid._, p. 170.
QUANDO EU MORRER