Parnaso portuguez moderno

Part 12

Chapter 123,666 wordsPublic domain

Quando eu morrer... não lancem meu cadaver No fosso de um sombrio cemiterio... Odeio o mausoléu que espera o morto Como o viajante d'esse hotel funéreo.

Corre nas veias negras d'esse marmore Não sei que sangue vil de messalina; A cova, n'um bocejo indifferente Abre ao primeiro a bocca libertina.

Eil-a, a náo do sepulchro--o cemiterio... Que povo extranho no porão profundo! Emigrantes sombrios que se embarcam Para as plagas sem fim do outro mundo.

Tem os fogos-errantes por santelmo, Tem por velâme os pannos do sudario... Por mastro o vulto esguio do cipreste, Por gaivotas--o mocho funerario...

Ali ninguem se firma a um braço amígo, Do inverno pelas lugubres noitadas... No tombadilho indifferente chocam-se, E nas trevas esbarram-se as ossadas...

Como deve custar ao pobre morto Vêr as plagas da vida além perdidas, Sem vêr o branco fumo de seus lares Levantar-se por entre as avenidas!

Oh! perguntae aos frios esqueletos Porque não tem o coração no peito... E um d'elles vos dirá: Deixei-o á pouco De minha amante no lascivo leito.

Outro: Dei-o a meu pae. Outro: Esqueci-o Nas innocentes mãos de meu filhinho... Meus amigos! Notae: bem como um passaro O coração do morto volta ao ninho.

CASTRO ALVES, _Ibid._, p. 187.

OS PERFUMES

O perfume é o invólucro invisivel Que encerra as fórmas da mulher bonita, Bem como a salamandra em chammas vive, Entre perfumes a sultana habita.

Escrinio avelludado onde se guarda Collar de pedras--a belleza esquiva, Especie de crysálida, onde móra A borboleta dos salões, a diva.

Alma das flores--quando as flores morrem, Os perfumes emigram para as bellas, Trocam labios de virgens por boninas, Trocam lirios por seios de donzellas.

Ali--sylphos travessos, traiçoeiros Vôam cantando em languido compasso, Occultos n'esses cálices macios Das covinhas de um rosto ou d'um regaço.

Vós, que não entendeis a lenda occulta, A linguagem mimosa dos aromas, De Magdalena a urna olhaes apenas Como um primor de orientaes redomas.

E não vêdes, que ali na myrra e nardo Vae toda a crença da judia loura... E que o oleo que lava os pés de Christo É uma resa tambem da peccadora.

Por mim eu sei que ha confidencias ternas, Um poema saudoso, angustiado, Se uma rosa de ha muito emmurchecida Róla acaso de um livro abandonado.

O espirito talvez dos tempos idos Desperta ali como invisivel nume... E o poeta murmura suspirando: Bem me lembro... era este o seu perfume!

E que segredo não revela acaso De uma mulher a predilecta essencia? Ora o cheiro é lascivo e provocante! Ora casto, infantil, como a innocencia!

Ora propala os sensuaes anceios D'alcôva de Ninon ou Margarida, Ora o mysterio divinal do leito Onde sonha Cecilia adormecida.

Aqui, na magnólia de Celuta Lambe a solta madeixa que se estira; Unge o bronze do dorso da cabôcla, E o marmore do corpo da Hetaíra.

É que o perfume denuncia o espirito Que sob as fórmas feminis palpita... Pois como a salamandra em chammas vive, Entre perfumes a mulher habita.

CASTRO ALVES, _Ibid_., p. 167.

RASTO DE SANGUE

É a hora do crepusculo, Que viração tão grata! Geme o riacho quérulo, Nem um cantor na mata.

Desce a ladeira ingreme Um touro de repente, E vae nas frescas aguas Fartar a sêde ardente.

Os juncos tremem, subito Sôa, medonho ronco, E o jaguar precípite Pula de traz de um tronco.

Debalde o touro curva-se, Recúa, dá um salto, E o jaguar mais flacido Sabe pular mais alto.

O touro parte célere Soltando um grito horrendo! Sobre elle a féra escancha-se, Tambem lá vae correndo.

Vôam por esses páramos, O touro em grandes brados; Soltar querem das órbitas Os olhos inflammados.

Espuma, arqueja! a lingua Da bocca vae pendente! Garras e dentes crava-lhe A fera impaciente.

Largo rastilho rubido Embebe-se na areia, O sangue jorra calido Da lacerada veia.

Contrae-se a forte victima Luctando com braveza! Porém o algoz impavido Lá vae... não deixa a prêza!

Correram mais! que insania! Que scena pavorosa, Passada no silencio Da selva escura, umbrosa.

Emfim n'um precipicio Os dois vão baquear... Cahiram lá exânimes O touro e o jaguar.

JOAQUIM SERRA, _Quadros_, pag. 45. Rio de Janeiro, 1873.

A MINHA MADONA

Alva, mais alva do que o branco cysne, Que alem mergulha e a pennugem lava; Alva como um vestido de noivado, Mais alva, inda mais alva!

Loura, mais loura do que a nuvem linda Que o sol á tarde no poente doura: Loura como a virgem ossianesca, Mais loura, inda mais loura!

Bella, mais bella que o raiar da aurora Apoz noite hybernal, negra procella; Bella como a açucena rociada, Mais bella, inda mais bella!

Doce, mais doce, que o gemer da brisa; Como se d'este mundo ella não fosse... Doce como os cantares dos archanjos, Mais doce, inda mais doce!

Casta, mais casta, que a mimosa folha Que se constringe, que da mão se afasta, Assim como a Madona immaculada Ella era assim tão casta!...

JOAQUIM SERRA, _Ib._, p. 121.

AS DUAS ESCRAVAS

Eu vejo-as abraçadas, Ambas em luto envoltas, Co' as loiras tranças soltas, Cobrindo os hombros nús; A desprender gemidos Dos seios palpitantes, E os olhos supplicantes Fitos na mesma cruz.

E pende-lhes dos pulsos A mesma atroz cadeia, Seus labios incendeia A mesma imprecação: «Infamia eterna! (exclamam) Aos nossos oppressores! Senhor! vêde os horrores Da nossa escravidão!»

--Mas quem sois vós, augustas Imagens do martyrio? Que assustador delirio Vos tem curvado assim? Em vossos rostos leio A dor, a magoa, a insonia: «Eu chamo-me--Polonia. --E eu sou a pobre Erin...»

A. DE SOUSA PINTO, _Ideias e Sonhos_, p. 11. Lisboa, 1872.

CANTIGA

Aqui n'este arvoredo, Das sombras no segredo, Oh, vem! Por estes arredores O bosque outros melhores Não tem.

O ruivo sol da tarde Já nas montanhas arde, D'além! A lua alvinitente, Nas portas do oriente Lá vem.

A viração fagueira A rapida carreira Detem, E dorme preguiçosa No calix da mimosa Cecem.

Ninguem na sombra escura Verá nossa ventura, Ninguem! Sómente os passarinhos Occultos nos seus ninhos Nos vêm.

Do bosque entre os verdores Se occupam só de amores, Tambem! E a lua, que desponta, Jámais segredos conta De alguem.

Debaixo do arvoredo, Na gramma do vargedo Oh, vem, Á sombra d'este abrigo Fallar a sós commigo, Meu bem.

BERNARDO GUIMARÃES, _Novas Poesias_ p. 143. Rio de Janeiro, 1876.

QUANDO ELLA FALLA

Quando ella falla, parece Que a voz da brisa se cala; Talvez um anjo emudece Quando ella falla!

Meu coração dolorido As suas maguas exhala, E volta ao gozo perdido Quando ella falla.

Pudesse eu eternamente Ao lado d'ella escutal-a, Ouvir sua alma innocente Quando ella falla.

Minha alma já semi-morta, Conseguira ao céo alçal-a, Porque o céo abre uma porta Quando ella falla.

MACHADO ASSIS, _Phalenas_ p. 29.

O LEQUE

(De Tan-Jo-Lu)

Na perfumada alcova a esposa estava, Noiva ainda na vespera. Fazia Calor intenso; a pobre moça ardia, Com fino leque as faces refrescava. Ora, no leque em boa lettra feito Havia este conceito:

«Quando, immovel o vento e o ár pesado, Arder o intenso estio, Serei por mão amiga ambicionado; Mas volte o tempo frio, Ver-me-heis a um canto logo abandonado.»

Lê a esposa este aviso, e o pensamento Volve ao joven marido: «Arde-lhe o coração n'este momento (Diz ella) e vem buscar enternecido Brandas auras de amor. Quando mais tarde Tornar-se em cinza fria O fogo que hoje lhe arde, Talvez me esqueça e me desdenhe um dia.»

MACHADO ASSIS, _Phalenas_, p. 121.

LAURA

--D'onde vens, Laura? «De casa.» --Vaes á festa? «Já se vê.» --Tão sósinha? «O que tem isso?» --Vou comtigo... «Para o que?»

--Para ensinar-te o caminho... «Agradeço-lhe o favor; Eu sei de cór estas bandas, Obrigada, meu senhor.»

--Olha o demo se te encontra... «Pergunto ao demo o que quer.» --E se elle quizer um beijo? «Dou-lhe até mais, se quizer.»

--Ora, anda cá; dá-me o beijo, Porque o demonio em mim vês... «Já me estava parecendo...» Ficará para outra vez.

--Vá d'esta vez um abraço... «Abraço?»--Sim; o que tem? «Mamãe me disse outro dia...» --O que te disse a mamãe?

«Que a rapariga solteira Em abraçando um rapaz... Ferve-lhe o sangue nas veias, E depois...» --E depois? «Zás!»

* * * * *

Arregaçando o vestido Deitou-se Laura a correr; Deixando-me boquiaberto, Co'o sangue todo a ferver.

BRUNO DE SEABRA, _Flores e Fructos_, p. 115. Rio de Janeiro, 1862.

A PROTECÇÃO DOS REIS

Ai do poeta que se accolhe a um throno, E que implora de um rei mão protectora! Ai d'elle! n'esse putrido ambiente Pende-lhe morta a fronte sonhadora.

Assim ao viajor da Africa adusta Hospitaleiro abrigo lhe similha Uma arvore gigante; e elle adormece Morto á sombra lethal da mancenilha!

LUCIO DE MENDONÇA, _Alvoradas_, p. 149. Rio de Janeiro, 1875.

FRAGMENTOS

Minh'alma é como a rôla gemedora Que delira, palpita, arqueja e chora, Na folhagem sombria da mangueira; Como um cysne gentil de argenteas plumas, Que fallece de amor sobre as espumas A soluçar a queixa derradeira.

Meu coração é o lothus do Oriente, Que desmaia aos languores do occidente, Implorando do orvalho as lácteas pérolas; E na penumbra pallida se inclina, E murmura rolando na campina: --Oh brisa, me transporta ás plagas cérulas.

Ai, quero nos jardins da adolescencia Esquecer-me das urzes da existencia, Nectarisar o fel de acerbas dôres! Depois... remontarei ao paraiso, Nos labios tendo os lirios do sorriso, Sobre as azas dos mysticos amores.

NARCISA AMALIA, _Nebulosas_, p. 59. Rio de Janeiro, 1872.

AI DE MIM!

Ai! dizes que não me queixe? Que de vogar eu me deixe N'um mar de scismas sem fim? Que não lamente meu fado, Desprezado, Desprezado sempre assim! Ai de mim!

Que distante dos teus olhos, Nas trevas por entre abrolhos, Vagando ás tontas sem fim, Não maldiga a triste vida Dolorida, Dolorida sempre assim? Ai de mim.

Ai, se tu és minha estrella, Que luz, que brilha tão bella N'esse horisonte sem fim, Porque te occultas? Sem norte... Cruel morte, Cruel morte eu soffro assim! Ai de mim.

BETTENCOURT SAMPAIO, _Flores sylvestres_, p. 26 Rio de Janeiro, 1860.

* * * * *

A--

Teus olhos brilhantes Me cegam de luz; São vivos diamantes De raios cingidos Da noite embutidos Em dois cilios nús. Teus olhos que agitam, Que queimam, que fitam, Teus olhos brilhantes Me cegam de luz.

Mas ai! não pudessem Teus olhos ser taes! Que morte elles dessem, Não fogo e martyrio Da mente ao delirio, Do peito a meus ais! Se nunca elles matam, Mas se alma arrebatam, Ai! nunca pudessem Teus olhos ser taes!

Teu corpo fluctúa Qual concha no mar, Mais doce que a lua, Mais frouxo que a espuma, Mais tenue que a pluma Nos braços do ár; Se a dansa os vestidos Te agita--aos sentidos Teu corpo fluctúa Qual concha no mar.

Mas ai! nunca eu visse Como és tão gentil! Que nunca sentisse Teu corpo engraçado Voar balançando Na dansa subtil! Se roe-me o desejo, De ver-te e não vejo, Ah! nunca te visse Como és tão gentil.

Teus seios me turvam A vista e a rasão: Nas roupas se curvam Tão presos, tão vivos... Oh! doces cativos, Quebrae tal prisão, E inquietos, travessos Do collo nos gêssos Teus seios me turvam A vista e a rasão.

E Deus faz na terra Mulheres assim! E quando o homem erra, Perdido de amores, Será, meus senhores, Um doudo por fim? Se o peito suspira, Se a mente delira, Se Deus faz na terra Mulheres assim?

F. DIAS CARNEIRO, _Parnaso maranhense_, p. 115. Maranhão, 1861.

* * * * *

O PASSEIO

Não foi nos campos, onde a vida corre Placida, longe do rumor do mundo, Onde um suspiro, que nos labios morre, Traz o segredo de um amor profundo;

Onde o arroio de cristal deslisa Por entre o aroma de mimosas flores; Onde parece que a formosa lua Respira e sente, como nós, amores!

Não foi nas praias onde as brandas vagas Vem á tardinha soluçar, gemer; Onde os amantes com o sorrir nos labios Sonham venturas de um feliz viver;

Onde a donzella que só pensa e scisma Em aureos sonhos, que os amores tem, Meiga suspira e arroubada escuta Canções do nauta, que do mar lhe vem.

Não; essa noute em que eu feliz sentia Sobre o meu braço tua mão pender, Entre os ruidos d'esse mundo louco Serena vimol-a perpassar, correr!

E no bulicio d'este mundo frivolo Entre essa turba sempre louca e van, Eu recolhia tuas phrases soltas No imo peito com fervor e afan!

Que de venturas em aspirar teu halito; Fixar teus olhos que o pudor baixava! Manso, bem manso te batia o seio, Que eu em delirio contra o meu chegava.

E a voz tão fresca e argentina e pura, Que me parece estar ouvindo ainda! Se n'este mundo já gozei ventura, Foi n'essa noute, n'essa noute linda.

Em puro extasis minha voz tremia, Talvez te lembres, descórado estava! Tudo o que eu vi era só pompa e risos, Tudo de amores e prazer fallava.

Que noite linda, que luar formoso! Meu peito ardente de prazer tremia! De tuas tranças aspirava o aroma, Sobre o meu braço tua mão pendia.

E no bulicio d'este mundo frivolo Serena vimol-a perpassar, correr A noite linda que me deu prazeres, Sonhos, venturas de um feliz viver!

F. VIEIRA DE SOUSA. _Parnaso maranhense_, p. 119.

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MEUS ANHELOS

Se bem o digo, mulher, a hora infausta. Em que da vida a luz primeira eu vi, Se ao duro embate de uma cruel sorte Até hoje, mulher, não succumbí, O devo a ti!

Se presinto glorias n'um provir remoto, E vejo estrada nova que não vi, Se eu aspiro, mulher, do louro as palmas, E ás duras provações, não esmoreci, O devo a ti!

Se morte ingloria receioso temo, Se a vãos perigos sempre me sorri, É p'ra dizer-te no momento extremo: Vivi! em vão luctei, morro por ti!

F. G. F. DE MATTOS, _Parnaso maranhense_, p. 125.

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UM AMOR

Eu sinto a fronte palpitar de idéas, Eu sinto o peito palpitar de ardor! O que me falta pois? o que preciso? Um amor!

Um amor, um amor de virgem bella, Cheia de mocidade e de pudor! Eu só procuro, só desejo e quero Um amor!

Não permittas, meu Deus, que triste passe De minha juventude toda a flor, Sem que ao menos inspire, e sinta e gose Um amor!

A. J. FRANCO DE SÁ, _Poesias_, p. 55. S. Luiz do Maranhão, 1869.

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QUEM SABE? TALVEZ!

Existe uma virgem que o céo me destina, Com quem delirante meu peito já sonha; Eu vejo-a na fórma da virgem risonha, Do céo nas estrellas, na flôr da campina, Á noite, do bosque por entre a mudez; Na brisa que passa por entre os palmares, A voz bem lhe escuto que falla inda a medo... Eu sinto na fronte seus meigos olhares!... Quem dera-me ao peito cingil a bem cedo... Quem sabe? talvez!

E tu nada sentes? tu nada procuras? Nos quadros tão lindos que tu phantasias Um dia brilhante de occultas magias, De amores ardentes, de infindas venturas, Ó virgem! não viste siquer uma vez? Nos breves delirios, nos teus devaneios, Nos vagos desejos da mente inquieta, Que o peito te abalam, arfando-te os seios, Não sonhas ás vezes o amor de um poeta? Quem sabe? talvez!

Tu sonhas; que virgem não sonha de amores? Tu sonhas um doce viver duplicado, Viver como os anjos de amor exaltado, Viver de perfumes, de luz, como as flores, Que Deus como as flores e os anjos te fez; E uma alma formada de amor como a tua No mundo que habitas procuras de certo... Debalde... tua vista vacilla, fluctua... E esse ente, quem sabe si existe bem perto? Quem sabe? talvez!

Quem sabe si a virgem que o céo me reserva, Que pura e formosa diviso na mente, Que o peito me pede, que o peito presente, P'ra quem puro, isento, fiel se conserva, Quem sabe si és tu? no riso, na tez, Nos olhos... na face tão pallida e bella... Uns áres, uns visos comtigo lhe noto... Nos longos cabellos... Quem sabe si és ella? Aquella a que em sonhos minha alma já voto? Quem sabe? talvez!

Quem sabe? de tarde seguindo teus passos O anjo dos sonhos parece que vejo, Meu peito palpita, e vem-me o desejo, De, louco de amores, voar a teus braços, Beijar-te os cabellos, morrer a teus pés!... E tu não presentes, oh virgem! que eu ardo E quando teus olhos de encanto celeste Os olhos ardentes encontram do bardo, No peito de virgem tu nunca disseste: Quem sabe? talvez!

Ah! dize... si és tu, fugir-me não tentes, És tu que procuro? ah! dize, que eu creio... Tu flores bem frescas abrigas no seio? Bastantes perfumes no peito tu sentes? Um céo de ternura tu tens que me dês? Ah! falla, responde, teu dito me traga Um mar de delicias, de amor, de ventura; Ah! dize-me---sim,--do peito me apaga A phrase terrivel, que a mente murmura: Quem sabe? talvez!

A. J. FRANCO DE SÁ, _Poesias_, p. 63. S. Luiz do Maranhão.

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O AMOR UM DIA NOS PRENDEU, QUERIDA

O amor um dia nos prendeu, querida, Como dous élos de uma só cadêa; Sômos dous sôpros de uma mesma vida, As duas azas de uma mesma idéa:

Dous pensamentos n'uma mesma alma, Nascendo juntos e sorrindo apoz; Somos dous ramos de uma mesma palma, Somos dous eccos de uma mesma voz.

As duas aves que em jardim volteiam, Buscando flores para o ninho olente, Ou duas nuvens que nos céos vaguêam Illuminadas pelo sol nascente.

Se cantas, gemo, e no scismar suspira Minha alma em sonhos ideaes, azues; Somos dous cantos de uma mesma lyra, Somos dous raios de uma mesma luz.

Se ris, me rio, e no prazer unidos, O mundo diz-nos: «São felizes, sabios...» Se soffres, chóro; somos dous gemidos De um mesmo peito a nos morrer nos labios.

Quaes duas vagas que tu vês, rolando, N'uma se unir, no mesmo mar correr, Os nossos peitos foram-se abraçando No mesmo affecto que nos faz viver.

Deos nos fizera de uma egual natura, Nós nos sentimos como irmãos no amor; Somos dous risos de uma só ventura, Somos dous prantos de uma mesma dôr:

As duas folhas, de pureza francas, Do livro santo onde tu lês--amar! Que somos nós? as duas velas brancas Ardendo vivas, sobre um mesmo altar.

Que as nossas almas, uma á outra unida Vôem no sonho de um eterno afago, Bem como vogam na indolente vida Dous brancos cysnes sobre um mesmo lago.

No mesmo fogo o nosso olhar queimemos: Na mesma fé as nossas almas crentes; No mesmo aperto as nossas mãos liguemos, No mesmo beijo os nossos labios quentes.

FILGUEIRAS SOBRINHO, _Consoladoras_, p. 52. Paris, 1876.

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A SÉSTA

Na rêde, que um negro moroso balança, Qual berço de espumas, Formosa creoula repousa e dormita, Emquanto a mucamba nos áres agita Um leque de plumas.

Na rêde perpassam as trémulas sombras Dos altos bambús;

E dorme a creoula de manso embalada, Pendidos os braços da rêde nevada Mimosos e nús.

A rêde, que os áres em torno perfuma De vivos aromas, De subito pára, que o negro indolente Espreita lascivo da bella dormente As tumidas pômas.

Na rêde suspensa dos ramos erguidos Suspira e sorri A languida moça cercada de flores; Aos guinchos dá saltos na esteira de côres Felpudo saguí.

Na rêde, por vezes, agita-se a bella Talvez murmurando Em sonhos as trovas cadentes, saudosas, Que triste colono por noites formosas Descanta chorando.

A rêde nos áres de novo fluctua, E a bella a sonhar! Ao longe nos bosques escuros, cerrados, De negros captivos os cantos magoados Soluçam no ár.

Na rêde olorosa, silencio! deixae-a Dormir em descanço!... Escravo, balança-lhe a rêde serena; Mestiço, teu leque de plumas acena De manso, de manso.

O vento que passa tranquillo, de leve, Nas folhas do engá, As aves que abafem seu canto sentido; As rodas do Engenho não façam ruido, Que dorme sinhá.

A. C. GONÇALVES CRESPO, _Miniaturas_, p. 14. Coimbra, 1871.

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O FILHO DA LAVANDEIRA

Um dia, nas margens do claro Atibáia, Estava a cativa sósinha a lavar; E um triste filhinho do rio na praia, Jazia estendido no chão a rolar. A pobre criança que o vento açoitava, De frio e de fome chorava e chorava.

A misera negra, co'o rosto banhado, No pranto que d'alma trazia-lhe a dor, Prendeu-a com força no seio abrazado De magoas, de angustia, de susto e de amor. Pendendo a cabeça no collo da escrava A pobre criança chorava e chorava.

«Meu filho querido, no meio dos mares, Lá onde governa sómente o meu deus, Lá onde se estendem mais lindos palmares, Porque não nasceste cercado dos meus?» E a pobre criança no seio da escrava, Fitando-a tristinha, chorava e chorava.

«Meus paes lá ficaram; são livres, cantando Que vida contente que passam por lá! E tu, meu filhinho, commigo penando, Esperas a morte nas terras de cá.» Os ventos cresciam: o sol declinava, E a pobre criança chorava e chorava.

«Ai, não! que dos pretos as almas não morrem! Havemos ainda p'ra os nossos voltar: As aguas tão mansas dos rios que correm Nos levam bem vivos ao largo do mar.» Nas aguas já meio seu corpo nadava, E a pobre criança chorava e chorava.

«As aves, os bosques, as serras que vemos, Não são como aquellas de onde eu nasci! Tão doces folgares risonhos quaes temos, Tão bellos, tão puros não ha por aqui.» E os fundos gemidos o ecco levava, E a pobre criança chorava e chorava.

«Oh vamos, meu filho, ao sólo jocundo Aonde a existencia nos corre gentil; Emquanto cativos houver n'este mundo Os negros não devem viver no Brazil.» A casa era perto; chamavam a escrava, E a pobre criança chorava e chorava.

Assim soluçou! e no seio estreitando O caro filhinho, nas aguas caiu; Depois, muito tempo de leve boiando, Sumiram-se os corpos nas voltas do rio. Debalde procuram, procuram a escrava, Se a pobre criança nem mais lá chorava!

F. QUIRINO DOS SANTOS, _Estrellas errantes_, p. 75, 2.ª ed. Campina, 1876.

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AS CRIANÇAS

Deixae-as vir a mim!--o Christo assim dizia, Das crianças beijando as frontes radiosas.-- Pertence á candidez dos lirios e das rosas O reino de meu pae, eterno de alegria! Deixae-as vir a mim!--o Christo assim dizia.