Parnaso portuguez moderno

Part 2

Chapter 23,300 wordsPublic domain

Passou da marca o _Marquez_, No valor e ousadia, _Sam João_ teve o seu dia Aos dezesete do mez. O meu _Cezar_ d'esta vez Soube vir ver e vencer. Com _Jaquez_ não ha perder, _Menezes_ todo he Luiz, O _Diniz_ fez o que quiz, Não ha mais Flandres que _Schomber_.

Fonseca, _Evora gl._ p. 181.

[6] Até 1839 attribuia-se ao Dr. Jose Anastacio da Cunha a poesia a _Voz da Razão_; hoje temos a prova de que foi Bocage o seu auctor. Deixemos aqui esse processo critico, já que o não podémos incluir no nosso livro _Bocage, sua vida e epocha litteraria_. No processo do Santo Officio contra Jose Anastacio da Cunha não se allude nem remotamente á _Voz da Razão_, e Innocencio (_Dicc. bibl._, t. IV, p. 225) sustenta como absolutamente infundada a opinião vulgar, não se atrevendo comtudo a poder determinar quem fosse o verdadeiro auctor. A favor de Bocage apresentamos os seguintes factos: 1.º Na edição da _Voz da Razão_, de 1822, é que se lhe impoz este titulo, porque nos diversos manuscriptos corre quasi sempre com o titulo de _Verdades singelas_, e se ligava com as _Verdades duras_, titulo com que o Intendente Manique apprehendeu a _Pavorosa_ de Bocage em 1797. 2.º Na carta 1.ª ao seu amigo Anelio, o auctor da _Voz da Razão_ chama-se a si mesmo _Lidio_; se nos lembrarmos que só desde 1790 é que Bocage deixou de se assignar _L'Hedois_ de Bocage, está achado o cryptonymo poetico com que se designava n'estas composições. 3.º Excluida a paternidade do Dr. José Anastacio da Cunha, cujo ideal poetico era outro, como se vê pela _Oração universal_, em quem, se não em Bocage se pode encontrar essa audacia e fórma popular de bom senso? Crêmos que é um problema resolvido.

[7] Uma carta de A. Herculano, dirigida a Soares de Passos em 5 de agosto de 1856, na qual lhe diz «fui poeta até aos vinte cinco annos» termina considerando-o como successor de Garrett. Herculano protestou sempre contra a bajulação insciente que dava a Castilho o primeiro logar entre os lyricos modernos portuguezes. (Vid. prologo das _Lendas e Narrativas_.)

[8] No vol. XIII do _Instituto_ de Coimbra, p. 239 em um artigo sobre o futuro da Musica, do sr. A. de Quental se lê: «Não creio que o positivismo um tanto estreito de A. Comte, Littré e da ultima eschola franceza, nos dê completa a philosophia do futuro. Mas se o alargarmos, segundo o espirito do hegelianismo, a ponto de caber n'elle a Metaphysica excluida por A. Comte (tendencia que já se nota em Taine, Renan e Vacherot, e no positivismo inglez de que é chefe Stuart Mill) n'esse caso tenho para mim que a Philosophia assentará n'uma base tão solida, que não será muito aventurar dizer que está achada e definitivamente constituida a philosophia do futuro.»

[9] Ha curiosos que a muito custo conseguiram colleccionar os numerosos folhetos, que pollularam como mosquitos do nosso mephitismo litterario, por esta occasião. É o documento mais espontaneo e inconsciente do marasmo intellectual a que se havia descido. Vid. art.º _Bom senso e bom gosto_, no _Supp. ao Dicc. bibl._ de Innocencio.

II

A poesia lyrica do Brazil encerra um grande facto ethnologico; d'elle derivaremos a sua comprehensão e o porque da sua originalidade. Esse lyrismo é superior em vehemencia sentimental e em novidade de fórmas ao lyrismo portuguez; e comtudo dá-se n'essas fórmas tão caracteristicas um phenomeno de regressão, pelo qual tomam vigor typos estrophicos conservados pelos antigos colonos portuguezes, mas totalmente esquecidos na mãe patria, que só agora por um processo de erudição se vão encontrar nos seus velhos Cancioneiros palacianos. O ardor, a passividade, a morbidez que toma a linguagem das emoções, o desalento ou a acedia da vida, mesmo a facilidade com que tornam natural a imitação de Byron e de Musset, resultam de um temperamento contrahido pelo cruzamento dos primeiros colonos portuguezes com as raças ante-historicas do Brazil[10]. Quando o Brazil começou a ser povoado, e as suas feitorias se convertiam em cidades, ainda em Portugal apparecia casualmente nos versos de Christovam Falcão, Gil Vicente, Sá de Miranda e Camões algum vago fragmento de _Serranilha_ galleziana, genero lyrico de origem popular, que pela sua belleza chegára a penetrar nos Cancioneiros aristocraticos. Foi este typo lyrico, decahido na metropole pela imitação castelhana do seculo XV, e pela imitação italiana no seculo XVI, que reappareceu nos costumes coloniaes, adquirindo importancia litteraria, a ponto de vir a apoderar-se de novo, sob a fórma brazileira da _Modinha_, do gosto da côrte e da sociedade portugueza do seculo XVIII. Essas estrophes cadenciadas com retornellos de enlouquecer e com tonadilhas de uma melodia sensual, que hallucinavam o proprio Beckford, eram cantadas essencialmente por _mulatos_[11]. Aqui está o problema ethnico, cuja importancia não escapa aos modernos antropologistas. Diz Quatrefages: «Posto que os cruzamentos modernos não remontem além de tres seculos, tem já produzido resultados que põem fóra de duvida, que, raças, notaveis sob todos os aspectos, pódem provir da mestiçagem. Os Paulistas do Brasil são um exemplo frisante. A provincia de Sam Paulo foi povoada por portuguezes e açorianos[12] vindos do velho mundo, os quaes se alliaram aos Guayanazes, tribu caçadora e poetica, aos Carijos, raça bellicosa e cultivada. D'estas uniões regularmente contrahidas, resultou uma raça, cujos homens têm-se sempre distinguido pelas suas proporções, força physica, coragem indomavel, resistencia ás mais duras fadigas. Quanto ás mulheres, a sua belleza fez nascer um proverbio brasileiro que attesta a sua superioridade. Se ella se accentuou outr'ora por expedições aventureiras para a exploração do ouro ou da escravatura, foi ella tambem quem primeiro fez a plantação da canna do assucar e a creação de gados.» Apoiando-se sobre as observações de Ferdinand Denis, Quatrefages transcreve estas palavras: «Hoje em dia o mais auspicioso desenvolvimento moral, como o renascimento intellectual notabilissimo, parecem pertencer a Sam Paulo[13].» Na poesia popular brazileira ainda se encontra a coexistencia das duas raças no mixto das canções em lingua portugueza e tupi, tal como na edade media da Europa encontramos a fórma do _descort_; eis uma amostra da tradição do Pará, e do Amazonas:

Te mandei um passarinho _Patuá mirá pupé_, Pintadinho de amarello _Yporanga ne iavé_.

Vamos dar a despedida _Mandú sarará_, Como deu o passarinho, _Mandú sarará_; Bateu aza, foi-se embora _Mandú sarará_, Deixou a penna no ninho _Mandú sarará_[14].

A tradição das raças ante-historicas conserva ainda fabulas mythicas, como a da origem da noite, a do _Jabuti_, e muitas d'ellas entraram como contos populares na vida domestica de Sam Paulo, Goyaz e Matto-Grosso, taes como a historia de _Saci Sereré_, _Boitatá_ e _Curupira_. É este elemento tradicional vigoroso que faz despontar na litteratura brazileira essa esplendida efflorescencia das creações epicas no seculo XVIII, como o _Uraguay_, o _Caramurú_, e ainda no seculo XIX os _Tymbiras_, e _Confederação dos Tamoyos_. Mas deixemos de parte esta ordem de creações que depende do sentimento da nacionalidade nas civilisações modernas. O ardor das paixões do mestiço, a sua dissolução servida por uma voluptuosidade artistica, como a poesia ou a musica, tornam estas duas fórmas aphrodisiacos inebriantes e communicativos, que dão em terra prematuramente com os talentos mais auspiciosos, como Alvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Castro Alves e Varella. A vida domestica resente-se d'este fervor, e os costumes publicos manifestam por outro lado recorrencias de usos peculiares do tupi (os bagachas). O cruzamento primitivo fez redobrar a intensidade sentimental; quem se lembra da velha phrase de Lopo de Vega: «_Eu, senhora, tenho olhos de criança e alma de portuguez_» só a póde comprehender agora diante da exaltação do brazileiro. Nós somos hoje menos alguma cousa.

A persistencia do typo tradicional da _Serranilha_ galleziana na colonia do Brazil liga-se e explica-se pela descoberta de um grande facto desconhecido até hoje na historia da humanidade--a civilisação da raça _turaniana_[15]. O problema desdobra-se em duas questões, que se ligam e se explicam. Nas fórmas lyricas da Europa da edade media, apparecem cantos communs á Italia e Sicilia, á França meridional, Aquitania, Galliza e Portugal. Esta unidade do lyrismo novo-latino levou a suppôr uma origem commum para todas as litteraturas meridionaes. Por outro lado a persistencia d'esse typo lyrico no Brazil, explicar-se-ha não só pelo isolamento e espirito archaico colonial, mas pelas grandes analogias com os cantos lyricos dos tupinambás, e sobretudo pela descoberta da ethnologia moderna da origem turaniana das raças ante-historicas da America. Tratemos separadamente de cada uma d'estas questões de litteratura comparada.

Um problema importante tem sido proposto pelos philologos romanicos sobre as analogias intimas entre as fórmas lyricas da poesia moderna das litteraturas nova-latinas, a começar da Provença. Dando conta na _Romania_, da publicação dos _Canti antichi portoghesi_, diz M. Paul Meyer: «Je remarque que plusieurs des piéces editées par M. Monaci (n.ᵒˢ IV, IX) sont fort analogues, pour le fond comme par la forme, à nos anciennes _ballettes_ (voir celles que j'ai publiés dans mes Rapports, fl. 236--9) ou aux _baladas_ provençales. Je n'en conclue pas que les poésies portugaises qui ont cette forme soient imitées du français ou du provençal, _mais qu'elles sont conçues d'après un type tradicional qui a du être commun à diverses populations romanes_ sans qu'on puisse determiner chez la quelle il a été crée[16].» N'estas palavras se indica o problema da unidade do lyrismo moderno: nenhum philologo conseguiu ainda explicar a origem d'esta identidade de fórmas. O meio para o resolver está no criterio ethnico e comparativo; em primeiro logar a zona d'onde irradiou o lyrismo que se propagou para a Provença, Italia, Sicilia, Galliza e Portugal, foi na Aquitania; é tambem pelo criterio ethnico que se conhece que n'esta zona existiu uma raça _iberica_, absorvida pelos immigrantes indo-europeus, raça cujas tendencias e até fórmas lyricas peculiares se confirmam pelos hymnos acadicos modernamente traduzidos pelos assyriologos. As recentes descobertas da civilisação turaniana, que antecedeu as grandes civilisações historicas, a persistencia das superstições accádicas dos cultos magicos na Europa da edade media, tornam este facto da unidade do lyrismo como uma simples evolução.

O estudo comparativo das litteraturas tem levado a aproximar certas formas tradicionaes muito antes de se conhecer se entre ellas existiria alguma connexão historica; as analogias intimas têm por vezes conduzido a procurar essas relações, que se vão verificando do modo mais surprehendente. No lyrismo popular da Europa, a começar desde a epoca provençal, existem formas espontaneas, taes como as _Pastorellas_, que se repetem em todos os povos meridionaes, sem que estas differentes nacionalidades, tão separadas pelo regimen monarchico, se imitassem mutuamente; este genero de cantos penetrou na litteratura da egreja da edade media, sob a forma de _Prosas_, e nos Cancioneiros aristocraticos sob a forma de _Serranilhas_ e _Dizeres_. A diffusão commum d'este genero de origem popular era attribuida á situação geographica especial da Aquitania, cujas escholas trovadorescas podiam influir simultaneamente em França, na Italia e em Portugal e em Hespanha; o estudo ethnico da Aquitania leva a descobrir que esse territorio foi primitivamente occupado pela raça ainda agora representada pelo Basco actual, isto é, pela raça _turaniana_. N'este mesmo typo de cantos lyricos entram as pastoraes sicilianas; e a Serranilha portugueza foi encontrar nas colonias do Brazil analogias com os cantos dos tupis, modernamente filiados no mesmo tronco turaniano. Eis determinada uma origem ethnica commum para explicar as analogias de uma vasta tradição lyrica popular. Pelas modernas leituras dos documentos cuneiformes, têm-se conhecido o eminente genio lyrico da raça _turaniana_ conservado na inspiração perpetuada nos hymnos accadicos. Sobre este ponto são de grande auctoridade as palavras de F. Lenormant, explicando alguns d'esses hymnos: «Ao mesmo tempo elles nos revelam no povo de Accad um verdadeiro impulso de inspiração poetica, que exerceu uma acção decisiva sobre os começos da poesia semitica e contribuiu para formar-lhe o seu genio. Ha ali um lyrismo que attinge por vezes uma grande elevação, e que desde já deve revindicar o seu logar na historia litteraria do Oriente antigo. Além d'isso, a critica deve tambem attender aos fragmentos de _um lyrismo mais familiar, popular e gnomico_, que parece ter tido entre o povo de Accad um grandissimo desenvolvimento, e do qual os hierogrammatas do Assurbanipal formaram collecções. _São proverbios rythmados, provenientes de antigas canções._ Já se publicou a copia de um tijolo que contém um grande numero d'elles, e M. Oppert já notou a importancia d'esta collecção traduzindo alguns dos seus proverbios... De mais, M. George Smith annunciou ter descoberto nas suas excavações recentes na Assyria uma outra collecção egual, que entregou ao Museu Britannico. Ha d'este lado uma mina a explorar, e que promette ser fecunda.

«Alguns proverbios não consistem em mais do que uma simples phrase, extraída evidentemente de um canto mais desenvolvido, e que a felicidade da expressão tornara sem duvida proverbial, como esta sobre o calcadouro da colheita:

--Diante dos bois, que caminham a passos apressados sobre as espigas, ella calcou vivamente.

«Muitas vezes cada um d'elles forma um todo completo no seu laconismo, uma pequena canção de alguns versos,--se é que se permitte esta expressão quando ainda é desconhecido o rythmo e o metro--que lembra as velhas canções populares chinezas do _Chi-King_. Em geral o pensamento é de uma lhaneza delicada, ás vezes maliciosa e um pouco melancholica, com uma feição de philosophia pratica. Tal é este pequeno trecho, que exprime a inutilidade dos esforços excessivos:

--Eu fiz ir bem para o alto meus joelhos, a meus pés não deixando repouso, e, sem nunca ter descanço, o meu destino afastou-se sempre...

«Outros, finalmente, entre estes curtos trechos nos conduzem ao meio da vida dos campos e dos seus usos; são numerosos na collecção publicada, e attestam claramente a sua origem popular. Eis aqui por exemplo uma Canção com dois retornellos, que se devia cantar em alguma festa campestre á qual se attribuia uma influencia de bom augurio sobre a safra das messes:

O trigo que se alevanta direito chegará ao cabo do seu bom tamanho: o segredo nós conhecemol-o.

O trigo da abundancia chegará ao cabo do bom crescimento; o segredo nós conhecemol-o[17].»

É este rigorosamente o typo das Pastorellas provençaes, italianas, gallezianas, portuguezas e hespanholas, dois versos assonantados com um estribilho sempre repetido. Vejamos um paradigma portuguez:

Vayamos, irmana, vayamos dormir nas ribas do lago, hu eu andar vi a las aves meu amigo.

Vayamos, irmana, vayamos folgar nas ribas do lago, hu eu vi andar a las aves meu amigo! etc.[18]

O mesmo se repete nos cantos populares liturgicos da edade media, derivados de uma corrente desconhecida da tradição popular. Lenormant achou grandes analogias entre a forma d'essas Pastorellas accadicas e as cantigas chinezas da collecção Chi-King; de facto o _turaniano_ é uma raça mixta da branca e amarella, e a concepção chineza naturalista do _Thian_ é a mesma dos espiritos elementares da Chaldêa, o espirito do céo _Zi-Anna_, dos turanianos. Por ultimo o typo dos Proverbios de Salomão é tambem fixado por Lenormant nos velhos hymnos accadicos. Todos estes factos estão em harmonia com as recentes descobertas da historia, que tanto as civilisações semiticas como aryanas se fundaram sobre os progressos já realisados pela mais poderosa das raças ante-historicas, a turaniana.

Sob este criterio novo, as raças da America apparecem como um grande ramo turaniano, cujas linguas são agglutinativas, cujas crenças são um fetichismo atrazado: «São mui dados a feitiços, e o feiticeiro que ha em cada aldeia é o seu oraculo[19].» D'Assier recorda um facto importante: «lembram o typo mongolico, a ponto de um d'elles... criado de Augusto Saint Hilaire, vendo um dia uns chinezes n'uma rua do Rio de Janeiro, correu para elles chamando-lhes tios[20].» Em Cuyabá e no Paraguay existem aterros artificiaes em que se levantam edificações, como costumavam fazer os turanianos de Babylonia e da Assyria; a sua chronologia baseava-se sobre o anno lunar[21] como no primitivo systema chronologico dos turanianos do Egypto; e entravam nas batalhas, ululando, tal como descreve Silio Italico, das tribus ibericas[22]. Finalmente, as analogias das linguas americanas com o sansckrito, explicam-se por um grande fundo de vocabulos turanianos das raças vencidas (sudras, kadraveas) sobre que se constituiu a civilisação aryana. Assim os factos são trazidos ás suas causas naturaes.

No livro recente _l'Origine turanienne des Américains Tupis-Caribes_, já se procura verificar esta grande these ethnographica, que liga as raças das duas Americas á raça mestiça que prestou os primeiros elementos ás civilisações do Egypto e da Chaldêa. Alguns dos caracteres do tupi coincídem com o genio turaniano, como o gosto da poesia e da musica; no manuscripto do _Roteiro do Brazil_, da Bibliotheca de Paris, o tamoyo é descripto como grande musico e bailador; e os tupinambás eram os rhapsodos, improvisando _Areytos_ segundo esse genio epico que na Chaldêa inventou o poema de _Isdubar_, no Mexico o _Popol-Vuh_, e na Finlandia o _Kalevala_. Os seus cantos lyricos, entoados ao som da maraca e do tamboril constavam de refrens rimando com o ultimo verso da estrophe, e podendo ser considerados como voltas sobre motes improvisados; esta caracteristica, ajudando a facilidade da improvisação, os dialogos ajudando a monotonia da melopêa, tudo leva a presentir em germen o mesmo typo poetico que na Europa deu a _Ballada_, a _Pastorella_ e a _Serranilha_; d'aqui a espontaneidade da confusão da poesia dos dois povos, e o motivo da persistencia da _Serranilha_ portugueza na _Modinha_ brazileira e no seu lyrismo moderno.

Os cantos funebres conservam a mesma designação tanto entre os Tupis como no Béarn; lá são os _Areytos_, e aqui os _Aurusta_. Os cantos funebres são communs a todos os povos meridionaes em que existe elemento turaniano; taes são os _Lamenti_ ou _Triboli_ em Napoles, os _Attitidos_ na Sardenha, os _Voceri_, na Corsega, na Bretanha, os _Aurost_ no Béarn, e as _Endexas_ e _Clamores_ em Portugal e Hespanha. Gonzalo Fernandes de Oviedo, na _General y Natural Historia de Indias_, emprega a designação de _Areyto_, como o romance narrativo hespanhol:[23] «ni los niños é viejos dejarán de cantar semejantes _areytos_...»

E o auctor do livro _Origine turanienne des Américains_, tambem a emprega no sentido epico: «La litterature des Tupis, comme celle des Caribes, ne se trouvait que dans les _Areytos_, ou traditions des hauts faits de leurs devanciers, qu'ils chantaient en dansant, au son d'instruments.»[24] Na Europa, como vimos, persistiu a designação no _Aurust_, do Béarn, e, segundo a phrase de Oviedo, parece ter sido empregada em Hespanha, como a _Aravia_ o foi em Portugal[25]. As lamentações dos mortos nas Vascongadas chamam-se _Arirrajo_, forma proxima do _Areyto_ e do _Aurust_[26].

Do canto funebre dos bearnezes, os _Aurusta_, fala o collector das _Poésies bearnaises_, (p. VII, ed. Pau, 1852): «nos funeraes, quando a familia do defunto, para celebrar sua memoria, não pode senão achar lagrimas, duas mulheres, poetisas de profissão, semelhantes ás _Voceratrices_ da Corsega, improvisam coplas cantadas sobre um tom lamentavel: uma lembra as boas acções do defunto, e a outra as más, imagens d'estes dous genios do bem e do mal que parecem conduzir o homem na vida; este uso que se encontra entre outros povos, mas que em nenhum apresenta um caracter tão eminentemente religioso e moral, tem o nome de _Aurusta_[27].» Em uma edição anterior d'este livro, com o titulo de _Chansons et Airs populaires du Béarn_, colligidas por Frederic Rivares, se define precisamente esse genero: «Os funeraes apresentam uma particularidade notavel. Logo que o doente exhala o ultimo suspiro, o seu corpo é estendido no chão, no meio da casa, e rodeado de uma multidão de mulheres que oram e velam lançando a espaços gritos lamentosos e medonhos gemidos. A mulher do defunto e os parentes mais proximos estão á frente das carpideiras e improvisam cantos em que são celebradas as suas virtudes. Este signal de dôr e affeição acompanham o morto até á ultima morada, e a occasíão em que a terra vae cobrir os caros despojos é indicada por uma explosão de gritos e de lamentações.

«Portanto o _Aurust_ (é assim que se chama este canto) contém outras vezes mais do que louvores; é antes um julgamento do que uma oração funebre, e mais do que uma vez os parentes e o clero foram escandalisados por improvisos mais proprios para denegrir o morto e mesmo os vivos do que a excitar as magoas da sua perda[28].»

Um canto lyrico do bearnez Navarrot _Lous adious de la ballé d'Aspe_, refere-se a este costume do seu paiz:

Qué dic, praübeit, l'amne qué s'em desligue Daüme abadesse a biénét m'_aurousta_[29]!

Traduzido em portuguez, corresponde litteralmente:

Que digo, pobres, a alma que se me desliga, Dona abadessa vinde-me _aurustar_ (carpir).

Na epoca de D. João I ainda era costume em Portugal _bradar sobre finado_, e existia o costume das carpideiras, como entre os turanianos da Caria.