Part 3
Na moderna nacionalidade brazileira, a lingua tambem se vae alterando, constituindo um verdadeiro dialecto do portuguez; cada um dos elementos da mestiçagem contribue com as suas alterações especiaes[30]. O elemento colonial modifica a accentuação phonetica, de um modo mais exagerado do que nas ilhas dos Açores; o som do _s_, como o _ch_ gallego, torna-se sibilante e mavioso sobretudo nos pluraes; as construcções grammaticaes distinguem o _se_ condicional do reflexivo _si_, e os pronomes precedem os verbos, como: _Me disse_, em vez de _disse-me_. No vocabulario, o portuguez conserva os seus provincianismos actuaes, e os archaismos do tempo da colonisação. Da parte do elemento ante-historico, uma certa indolencia na pronuncia exerce a grande lei da queda das consoantes mediaes e vogaes mudas; assim _senhor_ é _siô_; _senhora_, _sinhá_; os finaes das palavras vão se contrahindo, perdendo os seus suffixos caracteristicos, como _pió_ em vez de _peor_, _casá_, em vez de _casar_. Na parte do vocabulario é que se nota mais profundamente a acção do elemento ante-historico, pela profusão innumera de palavras de lingua tupi introduzidas na linguagem familiar de todo o imperio[31]. Algumas d'essas palavras já vão penetrando na lingua portugueza continental pelo regresso dos colonos ricos[32], assim como nas guerras de Flandres os soldados portuguezes trouxeram esses vocabulos que se chamaram _frandunagem_. A lucta instinctiva para manter a pureza da lingua portugueza está ligada ao facto politico da preponderancia do sangue portuguez na constituição da nova nacionalidade; assim na provincia onde o portuguez é mais archaico, em Minas Geraes, o elemento portuguez é puro e continúa a ser catholico como no seculo XVI, e conservador timorato. Nas provincias onde prevalece o cruzamento das raças selvagens, existe o espirito revolucionario, como em Sam Paulo, e o odio ao portuguez puro como em Pernambuco. Aqui estão as condições necessarias para um permanente estimulo contra a acção enervante do meio climatologico, um movel de energia scientifica e industrial; a capital do Rio de Janeiro pelo seu inextricavel cosmopolitismo está destinada a realisar o accordo de todos estes elementos para a obra da autonomia nacional, cujo sentimento, transparecendo já na litteratura, revela que o destino d'ella é identificar todas as divergencias n'este mesmo sentimento.
O moderno lyrismo brazileiro representa nas suas fórmas materiaes ou estrophicas a velha tradição das _Serranilhas_ portuguezas tão bem assimiladas pelo turaniano da America; a ardencia explosiva da paixão amorosa, a lubricidade das imagens, a seducção voluptuosa do pensamento, accusam o sangue do mestiço, devorado pelo seu desejo, como em Alvares de Azevedo ou Casimiro de Abreu. A creação definitiva da litteratura brazileira consiste em tornar estes factos conscientes.
NOTAS DE RODAPÉ:
[10] «Como na America do norte o Anglo-saxonio, fundindo-se com o pelle vermelha, produziu o Yank, representante de uma nova civilisação, assim o latino, fundindo-se com o tupi, produziu essa raça energica que constitue a quasi totalidade da população de S. Paulo e Rio Grande, e a maioria do novo imperio.» Dr. Couto de Magalhães, _O Selvagem_, p. XX.
[11] Na visita pastoral de 1761, o bispo do Grão Pará, Frei João de S. José Queiroz allude á paixão das _Modinhas_, que achou confundidas com os cantos religiosos: «ouvimos missa, a qual foi cantada pelas suas indias e mamelucas a quatro vozes bem ajustadas, e no fim varias cantatas devotas e de edificação sobre o que lhe fizemos uma pequena pratica em louvor do canto honesto e ao mesmo tempo invectiva contra o _lascivo das Sarabandas e Modas do tempo_.» Mem., p. 210.
No fim do livro dos Lyricos brazilleiros apresentamos uma pequena collecção de cantos populares; os cantos epicos ou romances conservaram o nome de _Xácaras_, não com sentido de dialogo, como as _Xacarandinas_ hespanholas e portuguezas do seculo XVII, mas por se conservarem nas relações domesticas nas Chacaras ou fazendas do interior.
Os cantos lyricos conservam ainda o nome de _Lunduns_, designação que se encontra em Sá de Miranda, e em Nicolau Tolentino:
Em bandolim marchetado Os ligeiros dedos promptos, Louro peralta adamado Foi depois tocar por pontos O doce _Lundum chorado_. (Obras, p. 250)
O titulo d'este canto lyrico ainda se conserva nas Ilhas dos Açores dado especialmente aos bailhos de terreiro, bem como o _Batuque_, ainda conservado entre os Cururueiros de Cuyabá. As _Sarabandas_, estão hoje totalmente esquecidas em Portugal, significando esta palavra toda a admoestação aspera. O estudo dos cantos populares brazileiros não poderá ser bem feito sem o processo comparativo com os cantos do Archipelago açoriano. No estudo de Ferreira da Costa, que procede a edição das _Poesias_ de Natividade Saldanha, allude este escriptor com favor excessivo aos nossos trabalhos sobre a poesia popular portugueza, e remata incitando ao mesmo trabalho os litteratos brazileiros: «Seria muito para desejar, que nas diversas provincias se recolhessem _as cantigas populares aliás tão abundantes entre nós_, a fim de se não perderem completamente no futuro. E aquelles que se lançarem a este campo com muitas difficuldades terão de luctar, mas prestarão um relevante serviço ao paiz. Muitos julgarão taes estudos uma verdadeira inutilidade, sem o menor valor; entretanto merecem elles todos os cuidados como elementos para a formação da litteratura popular. Praza a Deus, que muitos se lancem n'essa rica ceara, e tragam ao publico as suas colheitas.» (Ap. _Poesias_ de J. da Natividade Saldanha, p. LXV, not. 28.)
[12] Ainda hoje as festas do Espirito Santo são como nas ilhas dos Açores. A lenda do _Curupira_ tem analogias com o _Encantado_, da ilha de S. Miguel.
[13] Quatrefages, _L'Espèce humaine_, p. 209-210. Paris, 1877.
[14] Ap. Dr. Couto de Magalhães, _O Selvagem no Brazil_, P. I, p. 144-5. Rio de Janeiro, 1876.
[15] Os mais severos philologos rejeitam esta designação quando applicada para exprimir o grupo das linguas ouralo-altaicas; porem como facto ethnico, comprehendendo sob o nome de _turanianos_ os povos de côr amarella e vermelha, com analogias nas mesmas formas de civilisação, é uma descoberta indisputavel, que derrama uma luz immensa sobre a historia do Egypto, da Chaldêa e da Asia pre-vedica, nas suas relações com a America.
[16] _Romania_, t. VI, p. 265.
[17] Lenormant, _Les Prémières Civilisations_, II, p. 198-201.
[18] _Canc. do Vaticano_, p. 902.
[19] _Revista trimensal_, t. XXXVI, p. 11.
[20] _Le Brésil contemporain_, p. 71.
[21] Jean de Leri, _Historia navigationis in Braziliam_, p. 79.
[22] Idem, _ib._ p. 178.
[23] _Op. cit._, P. I. liv. 15, cap. I.
[24] _L'Origine_, p. 22.
[25] A designação peruana de _Yaravi_ é applicada a cantos epicos tradicionaes, e na raça polynesica o cantor dos poemas heroicos das tribus chama-se _Arepos_. (Quatrefages, _L'Espèce humaine_, p. 144). No seculo passado tinhamos um canto chamado _Arrepia_. Tudo nos leva a crêr que a designação popular de _Aravia_, é um vestigio turaniano nada incompativel com qualquer influencia arabe, por isso que o arabe tambem propagou na Europa as superstições turanianas como prova Lenormant, no livro _La Magie, Chez les Chaldéens_.
[26] Francisque Michel, _Pays Basque_, p. 273.
[27] E. Vignancour, _Poés. bearn._, 2.ª ed.
[28] _Op. cit._, p. XV.
[29] _Poésies bearnaises_, p. 214.
[30] «Os sertenejos dizem: _Elles estão falla fallando_, para indicar que elles estão fallando muito. Numerosas formas da lingua tupi passaram para o portuguez do povo; e como é o povo quem no decurso de seculos elabora as linguas, essa se hade transformar ao influxo principalmente d'essa causa, de modo que dia virá em que a lingua do Brazil será tão diversa do portuguez, quanto este é do latim.» Dr. Couto de Magalhães, _O Selvagem_; I. _Curso de lingua tupi_, p. 79.
[31] «O cruzamento d'estas raças ao passo que misturou os sangues, cruzou tambem (se me é licito servir d'esta expressão) a lingua portugueza, sobretudo a linguagem popular. É assim que, na linguagem do povo das provincias do Pará, Goyaz e especialmente de Matto-Grosso, ha não só quantidade de vocabulos tupis e guaranis accomodados á lingua portugueza, e n'ella transformados, como ha phrases, figuras, idiotismos, e construcções peculiares ao tupi. Este facto mostra que o cruzamento physico de duas raças deixa vestigios moraes, não menos importantes do que os do sangue.» Dr. Couto de Magalhães, _O Selvagem_, p. 76.
[32] Temos _Caipira_, etc.
III
Entre os differentes dialectos romanicos da peninsula nenhum recebeu mais prematuramente a forma escripta do que o gallego, pelo qual se introduziu a poesia provençal nas côrtes de Portugal e de Hespanha[33]; por circumstancias politicas nenhum perdeu tão cedo a vida litteraria, ficando apenas fallado por um povo desde muito tempo annullado pela absorpção castelhana. Ao formarem-se as primeiras litteraturas da peninsula, o gallego foi a linguagem em que se poetava na côrte de Castella, como se vê pelas _Cantigas_ de Affonso o Sabio, e na côrte de Portugal, como está bem patente nas mil duzentas e cinco canções do _Cancioneiro da Vaticana_, e nos centenares de canções da collecção da Ajuda; por esse dialecto hoje desprezado, admittido apenas para uso das relações intimas das necessidades infantis, é que se podem explicar certas formas litterarias, como as Serranilhas, e certos phenomenos linguisticos do portuguez e castelhano como o _che_ por _te_ e por _pl_. Effectivamente, a Galliza deve ser considerada como um fragmento de Portugal, que ficou fóra do progresso de nacionalidade. Apesar de todos os esforços da desmembração politica, a Galliza não deixou de influir nas formas da sociedade e da litteratura portugueza: nas luctas de D. Affonso II, refugiaram-se na Galliza bastantes trovadores portuguezes, como João Soares de Paiva, e nas luctas de D. Fernando, refugiaram-se em Portugal um grande numero de familias nobres da Galliza, como os Camões, os Mirandas, os Caminhas, d'onde provieram os grandes e os maiores escriptores da esplendida epoca dos Quinhentistas.
Nas epocas em que a litteratura portugueza fixava as formas da lingua, ainda bastantes vestigios do gallego transparecem inconscientemente na linguagem dos escriptores, quando se aproximam da dicção popular. No Cancioneiro de Resende, em um Vylancete do Conde de Vimioso, se acha o galleguismo:
querend' esquexer-vos (fl. 85, col. 6.)
Nas comedias de Jorge Ferreira, cheias de locuções populares, abundam estes factos: «pagam-se de bem _che_ quero;» (_Eufros._, 259) «fallou o boi e _dixo_ bee;» (ib. 279) na comedia _Aulegraphia_: «Sempre fostes d'esses _dichos_.» (fl. 37 _v._) «o som de bem _che_ farei e nunca lhe fazem.» (fl. 20); «minha madrinha é azougue, e joga o dou-_che_-lo com quantos aqui ancoram.» (fl. 59, v.) «Andaes vós a bons _dichos_ de philosophos.» (fl. 76. v.)
Em Sá de Miranda, nas Eclogas, sobretudo quando imita a linguagem popular, pollulam os galleguismos:
Onde quer que _cho_ demo jaz (Ed. 1804, p. 220.) Não sei quem _che_ por famoso (Id. 291.) Antre nós _che_ era outro tal. (Id. 223.) Disse então. E assi _che_ vae? (Id. 232, passim.)
Dos Autos de Gil Vicente tiraremos os bastantes para se reconhecer este fundo da lingua:
_Cha_, _cha_, _cha_, raivaram ellas (_Ob._ t. I, p. 131.) Que a ninguem tanto mal quige (Id. p. 135.) Se _xe_ m'eu isso soubera (Ib. p. 136.) Que te _dixe_, mana emfim? (Ib. p. 142.) Que homem ha hi-de _pucha_ (Ib. p. 172.) Isto hi _xiquer_ irá (Ib. p. 247.) A Deos _douche_ alma dizer. (Ib. p. 261.) Assi _xe_ m'o faço eu. (III, 162.)
Até em Camões ainda persistem as formas gallegas, como na cantiga:
_Hei me de_ embarcar n'um barco;
e nos _Lusiadas_ na expletiva _a_, tão peculiar do dialecto em que o grande epico chegou a escrever dois sonetos.
Bem cedo as relações ethnicas de Portugal com a Galliza foram desconhecidas, e este facto é uma consequencia do desprezo que os escriptores tiveram pela tradição nacional. O nome de _gallego_ tornou-se desprezivel em Portugal, e os grandes poetas oriundos de familias gallegas usaram-no n'esse sentido. Assim diz Sá de Miranda em uma Serranilha:
Sola me dexaste En aquel yermo Villano, malo, _gallego_. (_Ob._, 1804, p. 404.)
E o proprio Camões, nos _Lusiadas_, deixou essa phrase injusta: «Oh sórdido gallego...» ao passo que o povo portuguez derivou da sua indole pacifica o velho amphigurí:
Duzentos gallegos não fazem um homem...
As povoações do Alemtejo chamam _gallegos_ a todos os moradores do Ribatejo, pela transmissão inconsciente de uma tradição perdida. Isto bastará para explicar o assombro que deve causar aos conterraneos o vêrem a poesia moderna gallega occupando um logar devido ao lado da poesia portugueza, como uma das suas formas archaicas; seguimos o rigoroso criterio scientifico, deixando as preoccupações vulgares.
Pelo estudo da poesia gallega, é que se podem comprehender as formas do lyrismo portuguez; e a desmembração d'esse territorio, que ethnicamente nos pertence e tem permanecido para nós extranho durante tantos seculos, é que prova a falta absoluta de plano na nossa vida politica. A verdadeira origem da tradição lyrica da Galliza está ligada á sua constituição ethnica; esse lyrismo provém da eschola da Aquitania, onde a raça pertencia, segundo Strabão, mais ao typo _iberico_ do que ao gaulez. Segundo as modernas descobertas da Antropologia e da Linguistica sabe-se que o _Ibero_, ou o basco actual, é de raça turaniana. Quando Silio Italico, escrevendo no seculo I, faz no poema historico da _Segunda guerra punica_ a lista dos diversos povos da Peninsula que acompanharam Anibal na expedição contra a Italia, diz da Galliza:
Fibrarum et pennœ, divinarumque sagacem, Flammarum, misit dives Gallaecia pubem Barbara nunc patriis _ululantem_ carmina linguis, Nunc pedis alterno percussa verbere terra Ad numerum resonas gaudentem plaudere cetras, Haec requies, ludusque viris, ea sacra voluptas. (Lib. III, V. 345.)
Esta descripção coincíde com muitos caracteristicos da raça turaniana. Acclarando as interpretações de Sarmiento, poremos em relevo este sentido novo. Nas _Memorias para la Historia de la poesia y poetas españoles_, diz este critico patricio de Feijó: «Primeiramente llama a este pais de Gallicia rico (_dives_) acaso por los varios y preciosos metales que de alli salian para los romanos, y aun hoy se benefician.» De facto sabe-se hoje que a industria metalurgica é de origem turaniana, e que os vestigios d'esta raça se encontram sempre junto dos grandes jazigos minereos. Diz mais Sarmiento: «supone que tenian idioma proprio y aun idiomas diferentes (_propris linguiis_). Esto contra los que imaginan un solo idioma nacional en toda España en tiempo de los carthaginezes.» A fusão das tribus turanianas com os celtas lygios (tal como se deu na Irlanda) formando os celtiberos, fazia-se notar aos romanos pelos seus differentes, dialectos. Continúa Sarmiento: «supone los gallegos devotos y religiosos, pues los supone con sacrificios y demas diestros y sagaces en consultar á sus dioses, y al extispicio de sus victimas, ya en el auspicio de las aves, ya finalmente en la observancia, aun que vana, de los movimientos, color, volumen, voracidad y direcion de las llamas de sus holocaustos.» As formas magicas da religião accadica, o culto do fogo, e os nomes de divindades naturalistas que se acham nas Inscripcões colligidas por Hubner, dão a prova demonstrada d'essa raça turaniana, que desceu do norte da Europa. Finalmente Sarmiento: «dice que usaban en sus diversiones, juegos y fiestas sagradas de hymnos, canto, musica y bailes: _ulutantem... carmina... alterno verbere pedis... ad numerum resonas cetras_[34].»
Esta grande abundancia de cantos e hymnos sagrados, tal como se descobriram nos livros accádicos, levam-nos a fixar que sob a forma celtica, acobertada com o nome de Galliza, existe uma camada social turaniana, da antiga diffusão que occupava a Aquitania e a Sicilia. É justamente n'estes pontos que subsistem as fórmas lyricas analogas ás gallegas, e portanto nenhum conhecimento seguro se póde ter do genio d'este povo sem tirar a luz da sua origem turaniana, tão persistente na indole e fórmas da sua civilisação. Os instrumentos musicos a que cantavam eram, como diz Silio Italico, _ritu moris Iberi... barbara cetra_, o que confirma, que no primeiro seculo christão ainda era sensivel esse caracter turaniano. A acção exercida pelo elemento celtico, romano, e mais tarde suévico sobre a raça turaniana pelo menos até ao Mondego, é complexissima: o celta desenvolveu a tendencia poetica amorosa, fazendo esquecer pelas prescripções druidicas os cantos religiosos; o romano influiu na creação precóce de um dialecto e na industria agricola; a estabilidade do suevo, tornado pacifico pelas suas grandes derrotas, manteve essa passividade que o gallego conserva na constituição das modernas nacionalidades da Peninsula.
De todas estas camadas ethnicas se conservam vestigios poeticos, e com assombro o dizemos, na tradição actual; são de origem turaniana os cantos de _Alalála_; são celticos os _Cantares guayados_; são romanos os cantos de _Ledino_, são suevicas ou germanicas as _Chacones_. Falaremos d'aquelles cantos tradicionaes que explicam o lyrismo moderno.
O _Alalála_ é a neuma patriotica dos cantos gallegos, que os romanos julgavam ser o ulular; é ella que hallucina o que está ausente da sua patria, e que o cura da saudade nostalgica, chamada em Hespanha _morrinha gallega_. Um proverbio vasconço diz: _Bethico leloa_, isto é, «o eterno _lelo_,» ou--antigo e persistente como este estribilho nacional, que Silio Italico tomou como caracteristico. Na poesia euskariana conserva-se este vestigio cantabrico, que pela sua aproximação dos costumes irlandezes, se vê que é o estribilho de uma canção funebre ou areyto:
Lelo, il lelo lelo, il lelo leloa zarac (çaray?) il leloa.
Outras canções vasconças conservam o mesmo estribilho, tantas vezes considerado como um individuo:
Eta _lelori_ bay _lelo_... Etoy _lelori_ bay _lelo_, _leloa_ çaray _leloa_[35].
Na poesia popular portugueza ainda se encontra em Coimbra e Açores o estribilho:
_Lari lole_ Como vae airosa, Com a mão na transa, Não lhe caia a rosa[36].
Tudo isto se liga a um veio perdido da poesia primitiva da grande raça turaniana, como se confirma por um canto funebre da Irlanda sempre acompanhado como o estribilho _ullaloo_[37]. A demonstração torna-se mais rigorosa desde que este mesmo estribilho apparece entre raças isoladas, de origem turanica.
Diz o Abbade Bertrand: «Os Chulalanos nas suas festas cantavam, dansando em volta de Teocalli (casa de Deus) um canto que começava pelas palavras _tulanian, hululaez_, que não pertence a nenhuma lingua actual do Mexico... O grito de alegria dos Kaulchadales, _alkalalai_, lembra tambem a mesma fórmula pelas ultimas syllabas...» Os saxões caminhavam para a guerra ao grito de _alelá_, grito que é ainda o _haleli_ das caçadas. Em uma canção portugueza do _Cancioneiro da Vaticana_, se repete _Edoy_ (Etoy) _lelia, leli, leli_. Como se explica a persistencia d'este refrem primitivo, ao passo que se foi perdendo o genero poetico? Sabe-se que o Arabe trouxe para a peninsula um grande numero de superstições turanianas, e assim fez reviver formas quasi extinctas da civilisação que trazia; a _Serranilha_ é de designação arabe, como os _Fados_, (Huda) e um dos sete atributos que os derviches repetiam frequentes vezes ao dia era: _La ilahi ill'Allah_ (não ha deus senão Allah), que parece quasi o estribilho gallego moderno: Alalála, _lála la_.
No grande Cancioneiro portuguez da Bibliotheca do Vaticano, ainda se encontra um vestigio das antigas cantigas de _Alalála_; pertence essa composição a Pedro Anes Solaz, e é do mais alto valor archeologico:
Eu, velida, dormia, le-li-a, d'outra! E meu amigo venia, edoy le-li-a d'outra. Nen dormia e cuydava lelia d'outra! E meu amigo chegava edoy lelia d'outra! O meu amigo venia lelia d'outra! E d'amor tambem dizia edoy lelia d'outra. O meu amigo chegava lelia d'outra E d'amor tambem cantava edoy lelia d'outra! Muyto desej'ey, eu amigo, lelia d'outra, Que vos tevesse comigo edoy lelia d'outra! Leli, leli, por deus lely lelia d'outra! Bem sey quem non diz leli edoy lelia d'outra. Bem sey eu quem diz lelya lelia d'outra! Demo xe quem non diz lelia edoy lelia d'outra[38].
As varias formas poeticas, que se encontram na Europa, o _liedle_ do dialecto suisso, o _lied_ allemão, o _liod_ irlandez, _leod_ anglo-saxão, o _leudus_ da baixa latinidade, o _leoi_ irlandez, o _lai_ bretão, correspondendo ao genero do _lelo_ basco e _Alalála_ galleziano, e _lelia_ portuguez, accusam uma origem commum, que se pode explicar pela tradição lyrica da raça turaniana na Europa. O sentido da palavra _lai_, que ficou nas litteraturas como caracteristico de um genero lyrico, é especialmente musical.
Uma outra neuma caracteristica da Peninsula, mas já peculiar da raça celtica é o _Guay_, que chegou a constituir um genero dos cantares _guayados_, do que ainda falla Gil Vicente. Os romances peninsulares assim como começavam «_Helo_, _helo_, por do viene» tambem tem outro principio, como «_Guay_ Valencia, _Guay_ Valencia.» É aquelle grito celtico _Woe! Woe!_ que ainda hoje se conserva na Escossia como uma vehemente expressão natural. A _gaita_ de folles da Escossia é similhante á gaita gallega, em tempo admtida no exercito hespanhol como meio salutar na nostalgia dos recrutas da Galliza. Como o gaëls das montanhas da Escocia, que, longe da patria, na America do norte ou nas florestas do Canadá, falla o inglez, mas sonha e sente no dialecto gaëlico, é assim o gallego entregue aos trabalhos braçaes longe da sua patria, ou nas guarnições militares; as cantigas do _Alalála_, a _Muiñera_ trazem-lhe á lembrança o ár das suas montanhas: _Ayriños de miña terra_, que elles aspiram n'esse hausto de saudade, _Guay_!
Vejamos como por seu termo a influencia do genio celtico faz prevalecer esse profundo caracter de unidade tradicional do lyrismo moderno. Na civilisação da Peninsula, a Galliza occupa uma posição excepcional como a Provença para com a França; a sua longa tranquilidade fel-a adoptar o gosto lyrico da Eschola da Aquitania; e assim como a poesia provençal foi o desenvolvimento litterario de cantos tradicionaes do meio dia da França (celto-romana) como ainda se descobre por uma rubrica de uma canção do conde Poitiers, na Galliza sugere as formas novas e o estylo lyrico popular aos trovadores portuguezes e castelhanos. Não basta sómente Strabão considerar os Aquitanios mais parecidos com os Iberos (da fusão celtibera) do que com os gaulezes (reconhecidos como raça scythica[39]) ha um fundo commum de poesia lyrica pertencente á Italia, á Provença, á Galliza, e a Portugal, que comprova a existencia de um mesmo elemento ethnico n'estes paizes. Onde povos celticos se cruzaram com iberos, ou tribus turanianas, persistiu a primitiva tradição lyrica. A publicação moderna de algumas _Pastorellas_ provençaes levou a presentir pela comparação essa unidade. Os restos de _Dizeres_ e _Serranilhas_, que Gil Vicente intercala nos seus autos, são vestigios de canções gallegas do seculo XIV, tal como se lêem no _Cancioneiro portuguez da Vaticana_[40].
Uma Pastorella de Guido Cavalcanti traz estes versos quasi identicos a uma das serranilhas de Gil Vicente:
E domandai si avesse compagnia? Ed ella me rispose dolcemente Che sola, sola per lo bosco gia[41].
E em Gil Vicente:
Cheguei-me per'ella com gram cortezia, Disse lhe:--Senhora, quereis companhia? Disse-me: Escudeiro, segui vossa via[42].