Parnaso portuguez moderno

Part 1

Chapter 13,526 wordsPublic domain

TEÓFILO BRAGA

PARNASO PORTUGUÊS MODERNO

GUIMARÃES & C.ª--EDITORES

R. da Misericórdia (Ex. R. do Mundo), 68--LISBOA

PARNASO PORTUGUEZ MODERNO

OBRAS COMPLETAS DE THEOPHILO BRAGA

1864--1877

{Visão dos Tempos, 1 vol. {Tempestades Sonoras, 1 vol. Poesia {Ondina do Lago, 1 vol. {Torrentes, 1 vol. {Folhas Verdes, (Versos dos 15 annos) 1 vol.

{Historia da Poesia popular portugueza, 1 vol. {Cancioneiro popular, 1 vol. Tradições {Romanceiro geral, 1 vol. {Cantos populares do Archipelago açoriano, 1 vol. {Floresta de Romances com forma litteraria, 1 vol.

{Introducção á Historia da Litteratura portugueza, 1 vol. {As Epopêas mosarabes, 1 vol. {Trovadores gallecio-portuguezes, 1 vol. {O Amadis de Gaula, 1 vol. {Os Poetas palacianos, 1 vol. {Bernardim Ribeiro e os Bucolistas, 1 vol. Historia {Vida de Sá de Miranda, 1 vol. da {Vida de Camões, 1 vol. Litteratura {Eschola de Camões==Os Lyricos, 1 vol. portugueza {Eschola de Camões==Os Epicos, 1 vol. {Vida de Gil Vicente, 1 vol. {A Tragedia classica e as Tragicomedias, 1 vol. {A Baixa-Comedia e a Opera, 1 vol. {Garrett e os Dramas romanticos, 1 vol. {Bocage, sua Vida e Epoca litteraria, 1 vol. {Historia do Romantismo (_no prélo_), 1 vol.

{Grammatica portugueza fundada sobre o methodo hist. { comparativo, 1 vol. Pedagogia {Manual da Historia da Litteratura portugueza, 1 vol. {Antologia portugueza, e Poetica historica, 1 vol. {Parnaso portuguez moderno, 1 vol.

{Historia do Direito portuguez (Dissertação do { doutoramento, em 1868.) 1 vol. {Caracteristicas dos Actos Commerciaes (Dissertação do { Concurso na Academia polytechnica do Porto, 1868.) brox. Dissertações {Espirito do Direito Civil moderno (Dissertação do Concurso { na Faculdade de Direito, na Universidade, em 1871) brox. {Theoria da Historia da Litteratura portugueza (Dissertação { do Concurso no Curso Superior de Lettras, em 1872) 1 vol.

{Estudos da Edade Media, 1 vol. Ensaios {Poesia do Direito, 1 vol. {Contos phantasticos, 1 vol.

{Obras de Christovam Falcão, 1 vol. {Obras completas de Camões, 3 vol. {Gaia de João Vaz, 1 fol. Edições {Obras poeticas de Bocage, 7 vol. criticas {Cancioneiro portuguez do Vaticano, (_no prélo_) 1 vol. {Obras primas de Chateaubriand, 1 vol. {Obras escolhidas de Balzac.

PARNASO PORTUGUEZ MODERNO

PRECEDIDO DE UM ESTUDO

DA

POESIA MODERNA PORTUGUEZA

POR

THEOPHILO BRAGA

Professor de Litteraturas modernas no Curso Superior de Lettras

LISBOA

FRANCISCO ARTHUR DA SILVA--EDITOR

72, Rua dos Douradores, 72

1877

A propriedade d'esta edição em Portugal pertence a Francisco Arthur da Silva, e no Brazil ao ill.ᵐᵒ sr. Manuel Silvestre da Silva Couto, residente no Maranhão.

Typographia da Bibliotheca Uniuersal, rua dos Calafates, 93.

Na _Antologia portugueza_, onde reunimos tudo quanto conheciamos de mais bello e caracteristico da nossa poesia desde o seculo XII até ao presente, apenas pudemos esboçar os alvores do romantismo com um pequeno excerpto de Garrett; no _Parnaso moderno_ desenvolvemos este periodo com uma escolha do que tem produzido de melhor a geração de rapazes, que em grande parte constitue hoje a litteratura portugueza contemporanea.

Muitos foram os chamados e poucos os escolhidos; lêmos centenares de livros de versos; e no processo da nossa pequena escolha observámos as correntes de banalidade que atrophiaram um grande numero de poetas. Para garantirmos o nosso criterio contra o enfado de uma leitura esteril ou contra a surpreza de uma fórma desconhecida, copiámos materialmente pela nossa mão todas as composições d'este livro. Em Portugal todos são poetas, uns em segredo, como um vicio occulto; outros não passam dos limites ephemeros do jornalismo; outros alentam o fogo sagrado até aos vinte cinco annos, como o sr. Herculano; outros têm a coragem de produzir volumes, e o que mais assombra, continuam a publicar versos depois de directores de secretaria, depois de serem embaixadores e ministros. D'isto mesmo proveiu a difficuldade da selecção; de alguns poetas distinctos nada apresentamos, ou porque não pudemos obter as suas obras, ou quando as alcançámos, já este livro estava quasi impresso.

Adoptámos a disposição ethnica, subdividindo o _Parnaso_ em lyricos portuguezes, brazileiros e gallegos; na introducção adiante serão explicadas as relações entre estes grupos poeticos, de um modo que nos parece ficar bem patente o espirito por onde se deve renovar o lyrismo moderno. Attendemos sempre á belleza da fórma, aproveitando os typos tradicionaes da estrophe e a estructura mais nova e imprevista; assim nos parece que os futuros cultores da poesia portugueza acharão aqui poderosos estimulos para mais altas concepções.

DA POESIA

MODERNA PORTUGUEZA

SUAS TRANSFORMAÇÕES E DESTINO

I

A par das grandes descobertas scientificas do nosso seculo, que pela via inductiva conduziram á demonstração integral dos phenomenos cosmicos pelo movimento etherodynamico; e bem assim da vasta synthese de todos estes factos verificaveis, que pela via deductiva levaram a estabelecer a Philosophia positiva, a par d'estas profundas transformações da consciencia moderna, a Poesia ainda tem um destino ligado ás necessidades sociaes. Nem todas as sugestões que provocam a aspiração individual podem ser satisfeitas pela _demonstração_ scientifica, nem todos os problemas que emergem da actividade cerebral podem ser resolvidos pela _deducção_ philosophica. E comtudo o espirito humano propõe-se sempre as mesmas questões, mas já hoje se não satisfaz com as soluções theologicas, nem com as hypotheses metaphysicas. Os velhos mythos theologicos são hoje estudados comparativamente, e a sciencia deriva d'elles as vastas concepções poeticas dos cantos hymnicos, da degeneração epica, dos contos populares, e do rito cultural que levou ao drama hierático; por seu lado a Metaphysica ao tornar-se incompativel com o progresso das sciencias, dissolve-se em uma exhuberante poesia, como as concepções de Schelhing, de Hegel ou de Schopenauer, que inconscientemente se encontram em intimas analogias com as phantasmagorias das escholas brahmânicas e buddhicas. Em vez de ter pertenções a systema de synthese deductiva, a aspiração metaphysica só deixará de ser uma manifestação doente tornando-se francamente Poesia. Só assim realisará um grande destino, o servir de expressão ás mil aspirações indefinidas da nossa individualidade social. Algumas composições de M.ᵐᵉ Ackermann abrem esta nova _phase_ da idealisação. Assim como a poesia antiga servia para perpetuar e dar sentido ás vetustas tradições das raças, a poesia moderna sem despresar a tradição, é o orgão mais apto para manifestar as aspirações da consciencia moderna. N'este uso está implicito o seu fim revolucionario.

Na poesia portugueza, como temos largamente provado pelos nossos trabalhos historicos, o escriptor esteve quasi sempre separado do povo; raramente se soube inspirar da sua tradição, e por isso a aspiração e o caracter nacional não foram servidos por uma litteratura bem distincta entre as outras litteraturas romanicas. Em compensação, a nacionalidade portugueza atrophiada pelo cesarismo e pelo catholicismo, e, por esta causa, não tendo no mundo moderno uma existencia accentuada pelos progressos scientificos e industriaes, serviu-se sempre da poesia como um meio de protesto, como o grito da sua aspiração revolucionaria. No seculo XIII achamos a dura sirvente contra os Alcaides que atraiçoaram D. Sancho II, para servirem as pertenções do clero a favor de D. Affonso III[1]. No seculo XV, achamos a satyra vehemente de Luiz de Azevedo contra os traidores que provocaram e consummaram o assassinato do Infante D. Pedro em Alfarrobeira[2]. No seculo XVI o vigor nacional é atrophiado pelo regimen do favoritismo do paço, que corrompe a aristocracia com as capitanias da India e Brazil; a poesia protestou contra os validos devassos, como se vê n'essas quadras ou _trovas da Maria Pinheira_, attribuidas a Damião de Goes, contra o Conde da Castanheira[3], e Manuel Machado de Azevedo n'outras quadras bem sentenciosas avisa seu cunhado Sá de Miranda contra a prepotencia dos Carneiros e Carvalhos, que dispunham arbitrariamente de todos os poderes. A satyra vehemente, acerba e allusiva inspira as melhores quintilhas e tercetos de Sá de Miranda; e Camões, nos _Disparates da India_, e sobretudo nos _Luziadas_, verbera uma aristocracia enfatuada e estupida, e o abuso da auctoridade clerical que invade a esphera civil em o Concilio de Trento, que se apodera da instrucção publica do paiz, que funda os terriveis tribunaes da intolerancia nos Indices Expurgatorios e nas fogueiras dos Autos de Fé, que isola Portugal da communicação scientifica da Europa a pretexto de combater a entrada dos principios da Reforma, e que por ultimo nos entrega aos castelhanos de Philippe II.

Tudo isto teria existido sem protesto, se não fossem os versos de Gil Vicente, nas suas farças; as quadras anonymas conservadas como curiosidade pelos genealogistas; algumas estancias de Camões na grande epopêa, e, o que mais assombra, alguns epigrammas populares, que se transmittiram na tradição[4].

Quando no seculo XVII a lingua portugueza deixava de ser usada nos livros, foi a comedia popular que manteve a sua cultura, e se inspirou das campanhas da restauração nacional, como vemos nas comedias de Pedro Salgado. Diante da mudez imposta pelo Santo Officio, a poesia teve ainda a audacia do protesto no poemeto _Os ratos da Inquisição_, de António Serrão de Castro[5].

No seculo XVIII, pode-se affirmar com rigor, foi a poesia o orgão de propagação das ideias dos encyclopedistas em Portugal; o proprio Marquez de Pombal protegia tacitamente a dispersão das cópias do _Hyssope_ de Diniz. José Anastacio da Cunha na _Oração universal_ eleva-se ao lyrismo pantheista de Goëthe, sendo preso e sentenciado pelo Santo Officio. Bocage é preso pelo Intendente Manique, e dá-se por base da perseguição a epistola _Pavorosa illusão da eternidade_, que exerceu uma acção menos profunda do que a _Voz da Razão_, ainda hoje estimulo secreto que leva a classe burgueza a fazer o processo critico da sua consciencia. Cabe a Bocage a gloria d'este serviço[6].

Nas luctas pela liberdade constitucional, os antigos _Outeiros poeticos_ tornaram-se politicos, como o da Sala dos Capellos em 1820, e nas recitas theatraes era a poesia, ainda bastante arcádica, que agitava com uma linguagem nova a alma moderna. Separada da tradição, pelo esquecimento e obliteração systematica do passado, a poesia portugueza vale muito por estes gritos revolucionarios que a tornam uma verdade na vida nacional. Ainda hoje o lyrismo da mocidade acorda mais o senso commum, produz mais movimento na opinião, do que todos os cursos scientificos com juramento previo da conceição, e da inviolabilidade real.

As duas influencias predominantes do fim do seculo XVIII na poesia portugueza, o _filintismo_ e o _elmanismo_, prolongaram-se até ao primeiro quartel do seculo XIX; Garrett (_Jonio Duriense_) admirava Filinto Elysio, e ao estudo da estructura riquissima e sempre nova dos seus versos deveu esse segredo de belleza do verso solto do poema _Camões_. Castilho admirava Bocage, e elle mesmo árcade romano (_Mémnide Egynense_) calcava a sua metrificação sobre as tautologias elmanistas. Se não fosse a emigração forçada dos partidarios do regimen constitucional em 1824 e 1829, a litteratura portugueza não saía d'este sulco; Garrett emigrou, e por isso comprehendeu o romantismo, Castilho esteve refugiado na abbadia de S. Mamede da Castanheira do Vouga, e por isso esterelisou-se muitos annos em traducções latinas, que a ninguem aproveitam. Garrett inspirou-se da tradição antiga e da aspiração moderna da nacionalidade, Castilho entrincheirou-se na erudição dos classicos da côrte de Augusto, e quiz submetter a este criterio a mocidade que despontava. D'aqui resulta mais tarde o rompimento individualista e indisciplinado da chamada _Eschola de Coimbra_ (1865.)

Só muito tarde é que Almeida Garrett conseguiu descobrir uma das formas mais eloquentes do lyrismo moderno, nas _Folhas cahidas_; as composições em grande parte insulsas das _Fabulas_, do _João Minimo_, das _Flores sem fructo_, accusam o grande esforço d'esse genio para quebrar os moldes arcádicos em que sentira desde criança. Bastou para tanto uma simples aproximação da realidade; nos ultimos annos, Garrett achou-se envolvido em uma paixão censuravel, e a expressão de todas as suas emoções, a descripção delicada das situações imprevistas em que se achava, as confidencias, as vacillações da sua passividade, os favores concedidos de surpreza, as recordações e por fim a indifferença da parte da que era tão frivola como as outras da sua recente aristocracia, tal é o quadro deslumbrante e fascinador das _Folhas cahidas_. Este livro appareceu tarde, e por isso não exerceu uma influencia saudavel; Pato, Gomes de Amorim, E. Vidal e alguns outros bem quizeram pulsar essa corda, mas faltava-lhes, não diremos talento, mas verdade.

Castilho não conseguiu accentuar a sua tendencia lyrica; dominado ainda pela Modinha do seculo XVIII, como na _Joven Lilia_, incapaz de conhecer a belleza d'esses idylios modernos, como o seu de _Pedro gaiteiro_, elevando-se á expressão artificiosa do _Canto do Jau_, lançou-se outra vez no mundo classico e poz-se a traduzir do grego através do francez um supposto Anacreonte. Todos se imaginavam poetas, e n'esta doce illusão só Herculano se salvou com a _Harpa do Crente_, porque antes dos vinte cinco annos tinha lido alguma cousa de Klopstock e de Schiller. Tudo o mais estava anachronico, como Sarmento, Costa e Silva, Cabral de Mello, Fernandes Leitão e Campello. A poesia lyrica só podia renascer entre uma geração de rapazes; e onde encontral-a compacta, crente, enthusiasta? Em Coimbra o espirito revolucionario precedeu, pela imitação das tragedias philosophicas de Voltaire, o pensamento dos homens de 1820. Coimbra continuou sempre a ser o fóco do espirito novo, e em contradição com a rotina cathedratica, que bajulava o absolutismo e se isolava na sua soberba cardinalesca. Assim como a poesia foi sempre na civilisação portugueza a linguagem de protesto de uma consciencia atrophiada, assim Coimbra nos apparece tambem na historia como a capital do nosso lyrismo; ali cantaram Sá de Miranda, Ferreira, Camões, Jorge de Monte-Mór, Bernardes, Soropita, Francisco Rodrigues Lobo, Garção, em pleiadas que se succederam até ao seculo XIX segundo as correntes litterarias que percorriam a Europa. De Coimbra sáem tambem Garrett e Castilho.

Na renovação do lyrismo moderno é de Coimbra que partem os mais poderosos e decisivos impulsos; a escola do _Trovador_ reune a mocidade academica de 1848, de que o principal vulto foi João de Lemos. Mas essa mocidade vivia no idylio insulso «sobre as azas da saudade», como se vê na festa da _Primavera_; inspirava-se do christianismo de Chateaubriand, acreditava devotamente na monarchia, contentava-se com tres nomes da historia patria para symbolisar toda a tradição nacional, e na sua ingenuidade não sabia conhecer as banalidades que punha em verso de redondilha, nem sabia os justos limites de uma exhuberancia fastidiosa. Ao entrar nas lides politicas esta camada esterilisou-se, e os poucos que conservaram um debil culto litterario ficaram constituindo a pretendida _geração nova_. Esta devera ser considerada a primeira phase da _Eschola de Coimbra_. Passou rapida; quasi que desconheceu o espirito revolucionario, e influiu sobre Portugal inteiro contagiando um falso estylo poetico, causa de todos os máos livros de versos que ainda apparecem de algum incomprehendido de provincia.

A vida academica é excepcional; a mocidade acha-se de repente livre dos vinculos da familia, senhora de si, meia irresponsavel, e em conflicto de costumes, de opiniões, de vaidades, e separada da direcção espiritual dos seus professores. Vive na indisciplina, alimenta-se das phantasmagorias theoricas, dispende um immenso vigor na dialectica, e por ultimo quando entra na realidade da vida em grande parte succumbe. O lente occulta a sua ignorancia e estupidez no isolamento doutoral; despreza o estudante, a quem nunca dirige a palavra, e impõe-se respeito pelo terror da reprovação! A mocidade liga-se contra este pedantismo, alimentando-se com as suas proprias leituras, fortalecendo-se com exercicios de argumentação, e amarrando os seus ogres a epigrammas eternos, como este:

Aquelle homem feio E de aspecto máo, É o Pedro Penedo Da Rocha Calháo!

ou a epithetos pittorescos, como o _Cão de quinta_, o _Doutor Hemoroide_, o _Marmellada_.

Ali a cada geração academica succede-se a influencia de um dado philosopho; já no seculo passado o Intendente Manique accusava nas suas _Contas para as Secretarias_ quaes os livros que andavam nas mãos dos estudantes, taes como as obras de Voltaire, Rousseau, Reynal, Bayle, Hobbes, etc. Na epoca de Garrett lia-se secretamente Dupuis; e ás differentes gerações se foram succedendo Chateaubriand e Aimé Martin, depois Krause, depois Pelletan, Quinet e Michelet, depois Vico, Hegel e Augusto Comte. Foram differentes correntes de ideias que revolucionaram o espirito da mocidade; os seus professores ficaram na ordem mental em uma especie de nirvana buddhico. D'essa mocidade, os que se impulsionaram pelas theorias metaphysicas ao entrarem na vida publica nada deram, e deixaram atrazar as cousas pela sua propria esterilidade. Sob a influencia de Aimé Martin e Krause, succedeu-se na poesia a segunda phase da _Eschola de Coimbra_, representada pelo _Novo Trovador_. O seu principal vulto foi Soares de Passos; veiu n'essa epoca em que ao exagero das paixões no theatro correspondia no lyrismo a melancholia tenue representada na Allemanha por Novalis, na Inglaterra pelos Lakistas, em França por Millevoye e Lamartine, e na Italia por Leopardi e Manzoni. Soares de Passos inspirou-se d'este desalento contagioso mas tardio, a que o proprio Garrett, em França, não escapou no poema _Camões_. Elle é o poeta da tristeza; todos os sentimentos que retrata, a admiração por _Camões_, a elevação deísta diante do _Firmamento_, a independencia no canto do _Escravo_, em tudo o tom natural a que vem sempre ter é a tristeza. Esta caracteristica explica-nos toda a sua acção litteraria. Esse sentimento de pesar e desgosto, em parte motivado pela doença physica de que morreu, tirou-lhe a individualidade, não o deixou ser iniciador; nenhuma das suas bem trabalhadas odes era capaz de suscitar uma eschola de poesia; é geralmente imitador, agrada-lhe o vago e indeterminado, e por isso traduz o primeiro canto de _Fingal_; ainda com o fervor dos bons tempos de um Werther, imita as balladas phantasticas do norte, conhecidas através das versões de Marmier, como no _Noivado do sepulchro_; é mystico, seguindo Lamartine na _Morte de Socrates_ e no _Firmamento_. Esse sentimento de tristeza expresso sem banalidade mas sem individualidade, tornou os versos de Soares de Passos distinctos entre a multidão das collecções metricas, sobretudo quando a morte prematura do poeta veiu dar o perstigio prophetico aos seus presentimentos. Soares de Passos escreveu pouco em metro octosyllabo, o bastante para se conhecer que nos seus primeiros tempos de noviciado poetico de Coimbra soffreu a influencia da eschola do _Trovador_. A sua perfeição explica-se pelo limitado numero de composições que deixou; emendava sempre, calculadamente e com a pericia de quem tem só um sentimento a exprimir e já muitas vezes retratado[7].

O que fez Soares de Passos para a tristeza, fez João de Deus para o amor; n'elle começa a terceira phase da _Eschola de Coimbra_. Ninguem sentiu melhor o idealismo camoniano, perdido desde o fim do seculo XVI, ninguem levou a fórma á mais alta perfeição, ninguem como elle exerceu ainda uma acção mais funda e salutar na transformação da poesia portugueza. É o mestre de nós todos. Deixou entre as gerações escholares uma tradição luminosa como de um provençal, e a sua organisação absolutamente artistica prejudica-o no conflicto de uma sociedade burgueza. O que lhe faltava, e que esterilisava as suas faculdades creadoras, suppriram-n'o os poetas do periodo indisciplinado da _Eschola de Coimbra_, que por seu turno actuaram sobre o genio de João de Deus; suppriram-n'o pelo estudo, primeiro, de Quinet e Michelet, depois de Vico, Hegel e Augusto Comte, d'onde provieram esses dois ramos da poesia revolucionaria, socialista representada pelas _Odes modernas_, e da concepção philosophica da historia realisada na _Visão dos Tempos_. N'este caminho a poesia portugueza achou outra vez o seu destino. O que provinha da anarchia metaphysica dispendeu-se em um clarão repentino[8], o que conduziu para a synthese positiva tornou-se fecundo, produzindo a exploração scientifica das tradições da nacionalidade portugueza, a creação da nossa historia litteraria, e a base critica para o estudo da nossa pedagogia, da politica e da previsão do que é preciso que se faça. Á influencia das _Odes modernas_ pertence essa poesia chamada satanica, de um pessimismo á Baudelaire, facil de imitar e mais facil em illudir o gosto dos que aspiram a uma ordem nova. A _Visão dos Tempos_, pouco imitada no pensamento, exerceu maior influencia pela fórma da versificação e dos poemetos; o pensamento era converter em mythos modernos e conscientes a concepção philosophica das grandes epocas da humanidade, ao contrario dos mythos anonymos e inconscientes das edades primitivas que ainda hoje nos estão atrazando; a fórma procurava alliar a acção de Garrett com a de João de Deus. A apparição d'este espirito novo está ligada a uma grande pugna litteraria, encetada com a carta intitulada _Bom senso e bom gosto_ e _Theocracias litterarias_[9]. A esse impulso appareceram novos obreiros, que inauguraram a sciencia da Linguistica e da philologia romanica, e a Archeologia artistica; a educação scientifica elevou-se, como se viu na nova questão litteraria do _Fausto_ e na _Bibliographia critica de Historia e litteratura_; a critica dos costumes achou a sua direcção nas _Farpas_, e o romance attingiu a sua admiravel perfeição realista no _Crime do Padre Amaro_. A falta de efficacia de todo este movimento provém da desmembração dos obreiros. Pelo criterio ethnico da historia litteraria e pela philologia, é que a poesia brazileira e gallega foram comprehendidas como fórmas homogeneas do lyrismo portuguez; longo tempo desprezadas, é d'ellas que ha de vir o descobrir-se o verdadeiro espirito d'este lyrismo nosso, que apenas se faz valer não pelo que tenha de nacional, mas sómente pelo modo como serve a ideia revolucionaria.

NOTAS DE RODAPÉ:

[1] Vid. _Antologia portugueza_, n.º 40.

[2] Vid. _Antologia portuguesa_, n.º 69.

[3] A estas trovas allude o bispo Frei João de Sam José Queiroz, nas _Memorias_: «O que entendo é que a maior parte das casas de Hespanha, está como as de Portugal, onde entra _Maria Pinheira_...» (p. 65.) Do principio do seculo XVI é essa quadra popular contra D. José de Mello, esmoler de D. Manuel, confirmado bispo da Guarda em 1517:

O bispo que deixa a Sé Por se metter na Mesquita Mouro foi e mouro é, Pois d'ella se não desquita.

A voz popular apodava-o por nunca ter ido ao seu bispado, vivendo com D. Helena de Mesquita, de quem teve filhos, e a quem fez abbadeça. (Ms. da Academia, G. 5., Est. 8, n.º 50.)

[4] _Canc. popular portuguez_, p. 40.

[5] Eis um epigramma tradicional ácerca da batalha de Montes-claros: