Part 2
84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente.
85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia.
86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça,
87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro.
88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra:
89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso.
90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria.
91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço
92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga.
93 Tornam vitoriosos para a armada, Co'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano.
94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava.
95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento.
96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava.
97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia.
98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava.
99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama.
100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia.
101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente.
102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora.
103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade.
104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara.
105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança!
106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Canto Segundo
1 Já neste tempo o lúcido Planeta, Que as horas vai do dia distinguindo, Chegava à desejada e lenta meta, A luz celeste às gentes encobrindo, E da casa marítima secreta Lhe estava o Deus Noturno a porta abrindo, Quando as infidas gentes se chegaram As naus, que pouco havia que ancoraram.
2 Dentre eles um, que traz encomendado O mortífero engano, assim dizia: "Capitão valeroso, que cortado Tens de Neptuno o reino e salsa via, O Rei que manda esta ilha, alvoroçado Da vinda tua, tem tanta alegria, Que não deseja mais que agasalhar-te, Ver-te, e do necessário reformar-te.
3 "E porque está em extremo desejoso De te ver, como cousa nomeada, Te roga que, de nada receoso, Entres a barra, tu com toda armada: E porque do caminho trabalhoso Trarás a gente débil e cansada, Diz que na terra podes reformá-la, Que a natureza obriga a desejá-la.
4 "E se buscando vás mercadoria Que produze o aurífero Levante, Canela, cravo, ardente especiaria, Ou droga salutífera e prestante; Ou se queres luzente pedraria, O rubi fino, o rígido diamante, Daqui levarás tudo tão sobejo Com que faças o fim a teu desejo."
5 Ao mensageiro o Capitão responde As palavras do Rei agradecendo: E diz que, porque o Sol no mar se esconde, Não entra para dentro, obedecendo; Porém que, como a luz mostrar por onde Vá sem perigo a frota, não temendo, Cumprirá sem receio seu mandado, Que a mais por tal senhor está obrigado.
6 Pergunta-lhe depois, se estão na terra Cristãos, como o piloto lhe dizia; O mensageiro astuto, que não erra, Lhe diz, que a mais da gente em Cristo cria. Desta sorte do peito lhe desterra Toda a suspeita e cauta fantasia; Por onde o Capitão seguramente Se fia da infiel e falsa gente.
7 E de alguns que trazia condenados Por culpas e por feitos vergonhosos, Por que pudessem ser aventurados Em casos desta sorte duvidosos, Manda dous mais sagazes, ensaiados, Por que notem dos Mouros enganosos A cidade e poder, e por que vejam Os Cristãos, que só tanto ver desejam.
8 E por estes ao Rei presentes manda, Por que a boa vontade, que mostrava, Tenha firme, segura, limpa e branda; A qual bem ao contrário em tudo estava. Já a companhia pérfida e nefanda Das naus se despedia e o mar cortava: Foram com gestos ledos e fingidos, Os dous da frota em terra recebidos.
9 E depois que ao Rei apresentaram, Co'o recado, os presentes que traziam, A cidade correram, e notaram Muito menos daquilo que queriam; Que os Mouros cautelosos se guardaras De lhes mostrarem tudo o que pediam: Que onde reina a malícia, está o receio, Que a faz imaginar no peito alheio.
10 Mas aquele que sempre a mocidade Tem no rosto perpétua, e foi nascido De duas mães, que urdia a falsidade Por ver o navegante destruído, Estava numa casa da cidade, Com rosto humano e hábito fingido, Mostrando-se Cristão, e fabricava Um altar sumptuoso, que adorava.
11 Ali tinha em retrato afigurada Do alto e Santo Espírito a pintura: A cândida pombinha debuxada Sobre a única Fénix, Virgem pura; A companhia santa está pintada Dos doze, tão torvados na figura, Como os que, só das línguas que caíram, De fogo, várias línguas referiram.
12 Aqui os dous companheiros conduzidos Onde com este engano Baco estava, Põem em terra os giolhos, e os sentidos Naquele Deus que o mundo governava. Os cheiros excelentes, produzidos Na Pancaia odorífera, queimava O Tioneu, e assim por derradeiro O falso Deus adora o verdadeiro.
13 Aqui foram de noite agasalhados, Com todo o bom e honesto tratamento, Os dous Cristãos, não vendo que enganados Os tinha o falso e santo fingimento. Mas assim como os raios espalhados Do Sol foram no mundo, e num momento Apareceu no rúbido horizonte Da moça de Titão a roxa fronte,
14 Tornam da terra os Mouros co'o recado Do Rei, para que entrassem, e consigo Os dous que o Capitão tinha mandado, A quem se o Rei mostrou sincero amigo; E sendo o Português certificado De não haver receio de perigo, E que gente de Cristo em terra havia, Dentro no salso rio entrar queria.
15 Dizem-lhe os que mandou, que em terra Sacras aras e sacerdote sinto; viram Que ali se agasalharam o dormiram, Enquanto a luz cobriu o escuro manto; E que no Rei e gentes não sentiram Senão contentamento e gosto tanto, Que não podia certo haver suspeita Numa mostra tão clara e tão perfeita.
16 Com isto o nobre Gama recebia Alegremente os Mouros que subiam; Que levemente um ânimo se fia De mostras, que tão certas pareciam. A nau da gente pérfida se enchia, Deixando a bordo os barcos que traziam. Alegres vinham todos, porque crêm Que a presa desejada certa têm.
17 Na terra, cautamente aparelhavam Armas e munições que, como vissem Que no rio os navios ancoravam, Neles ousadamente se subissem; E, nesta treição determinavam Que os de Luso de todo destruíssem, E que incautos pagassem deste jeito O mal que em Moçambique tinham feito.
18 As âncoras tenaces vão levando Com a náutica grita costumada; Da proa as velas sós ao vento dando Inclinam para a barra abalizada. Mas a linda Ericina, que guardando Andava sempre a gente assinalada, Vendo a cilada grande, e tão secreta, Voa do Céu ao mar como uma seta.
19 Convoca as alvas filhas de Nereu, Com toda a mais cerúlea companhia, Que, porque no salgado mar nasceu, Das águas o poder lhe obedecia. E propondo-lhe a causa a que desceu, Com todas juntamente se partia, Para estorvar que a armada não chegasse Aonde para sempre se acabasse.
20 Já na água erguendo vão, com grande pressa, Com as argênteas caudas branca escuma; Cloto eo'o peito corta e atravessa Com mais furor o mar do que costuma. Salta Nise, Nerine se arremessa Por cima da água crespa, em força suma. Abrem caminho as ondas encurvadas De temor das Nereidas apressadas.
21 Nos ombros de um Tritão, com gesto aceso, Vai a linda Dione furiosa; Não sente quem a leva o doce peso, De soberbo com carga tão formosa. Já chegam perto donde o vento teso Enche as velas da frota belicosa; Repartem-se e rodeiam nesse instante As naus ligeiras, que iam por diante.
22 Põe-se a Deusa com outras em direito Da proa capitaina, e ali fechando O caminho da barra, estão de jeito, Que em vão assopra o vento, a vela inchando. Põem no madeiro duro o brando peito, Para detrás a forte nau forçando; Outras em derredor levando-a estavam, E da barra inimiga a desviavam.
23 Quais para a cova as próvidas formigas, Levando o peso grande acomodado, As forças exercitam, de inimigas Do inimigo inverno congelado; Ali são seus trabalhos e fadigas, Ali mostram vigor nunca esperado: Tais andavam as Ninfas estorvando A gente Portuguesa o fim nefando.
24 Torna para detrás a nau forçada, Apesar dos que leva, que gritando Mareiam velas; ferve a gente irada, O leme a um bordo e a outro atravessando; O mestre astuto em vão da popa brada, Vendo como diante ameaçando Os estava um marítimo penedo, Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo.
25 A celeuma medonha se alevanta No rudo marinheiro que trabalha; O grande estrondo a Maura gente espanta, Como se vissem hórrida batalha; Não sabem a razão de fúria tanta, Não sabem nesta pressa quem lhe valha; Cuidam que seus enganos são sabidos, E que hão de ser por isso aqui punidos.
26 Ei-los subitamente se lançavam A seus batéis velozes que traziam; Outros em cima o mar alevantavam, Saltando n'água, a nado se acolhiam; De um bordo e doutro súbito saltavam, Que o medo os compelia do que viam; Que antes querem ao mar aventurar-se Que nas mãos inimigas entregar-se.
27 Assim como em selvática alagoa As rãs, no tempo antigo Lícia gente, Se sentem por ventura vir pessoa, Estando fora da água incautamente, Daqui e dali saltando, o charco soa, Por fugir do perigo que se sente, E acolhendo-se ao couto que conhecem, Sós as cabeças na água lhe aparecem:
28 Assim fogem os Mouros; e o piloto, Que ao perigo grande as naus guiara, Crendo que seu engano estava noto, Também foge, saltando na água amara. Mas, por não darem no penedo imoto, Onde percam a vida doce e cara, A âncora solta logo a capitaina, Qualquer das outras junto dela amaina.
29 Vendo o Gama, atentado, a estranheza Dos Mouros, não cuidada, e juntamente O piloto fugir-lhe com presteza, Entende o que ordenava a bruta gente; E vendo, sem contraste e sem braveza Dos ventos, ou das águas sem corrente, Que a nau passar avante não podia, Havendo-o por milagre, assim dizia:
30 "Ó caso grande, estranho e não cuidado, Ó milagre claríssimo e evidente, Ó descoberto engano inopinado, Ó pérfida, inimiga e falsa gente! Quem poderá do mal aparelhado Livrar-se sem perigo sabiamente, Se lá de cima a Guarda soberana Não acudir à fraca força humana?
31 "Bem nos mostra a divina Providência Destes portos a pouca segurança; Bem claro temos visto na aparência, Que era enganada a nossa confiança. Mas pois saber humano nem prudência Enganos tão fingidos não alcança, Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado De quem sem ti não pode ser guardado!
32 "E se te move tanto a piedade Desta mísera gente peregrina, Que só por tua altíssima bondade, Da gente a salvas pérfida e malina, Nalgum porto seguro de verdade Conduzir-nos já agora determina, Ou nos amostra a terra que buscamos, Pois só por teu serviço navegamos."
33 Ouviu-lhe essas palavras piedosas A formosa Dione, e comovida, Dentre as Ninfas se vai, que saudosas Ficaram desta súbita partida. Já penetra as Estrelas luminosas, Já na terceira Esfera recebida Avante passa, e lá no sexto Céu, Para onde estava o Padre, se moveu.
34 E como ia afrontada do caminho, Tão formosa no gesto se mostrava, Que as Estrelas e o Céu e o Ar vizinho, E tudo quanto a via namorava. Dos olhos, onde faz seu filho o ninho, Uns espíritos vivos inspirava, Com que os Pólos gelados acendia, E tornava do Fogo a esfera fria.
35 E por mais namorar o soberano Padre, de quem foi sempre amada e eriça, Se lhe apresenta assim como ao Troiano, Na selva Idea, já se apresentara. Se a vira o caçador, que o vulto humano Perdeu, vendo Diana na água clara, Nunca os famintos galgos o mataram, Que primeiro desejos o acabaram.
36 Os crespos fios d'ouro se esparziam Pelo colo, que a neve escurecia; Andando, as lácteas tetas lhe tremiam, Com quem Amor brincava, e não se via; Da alva petrina flamas lhe saíam, Onde o Menino as almas acendia; Pelas lisas colunas lhe trepavam Desejos, que como hera se enrolavam.
37 C'um delgado sendal as partes cobre, De quem vergonha é natural reparo, Porém nem tudo esconde, nem descobre, O véu, dos roxos lírios pouco avaro; Mas, para que o desejo acenda o dobre, Lhe põe diante aquele objeto raro. Já se sentem no Céu, por toda a parte, Ciúmes em Vulcano, amor em Marte.
38 E mostrando no angélico semblante Co'o riso uma tristeza misturada, Como dama que foi do incauto amante Em brincos amorosos mal tratada, Que se aqueixa e se ri num mesmo instante, E se torna entre alegre magoada, Desta arte a Deusa, a quem nenhuma iguala, Mais mimosa que triste ao Padre fala:
39 "Sempre eu cuidei, ó Padre poderoso, Que, para as cousas que eu do peito amasse, Te achasse brando, afábil e amoroso, Posto que a algum contrário lhe pesasse; Mas, pois que contra mim te vejo iroso, Sem que to merecesse, nem te errasse, Faça-se como Baco determina; Assentarei enfim que fui mofina.
40 "Este povo que é meu, por quem derramo As lágrimas que em vão caídas vejo, Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo, Sendo tu tanto contra meu desejo! Por ele a ti rogando choro e bramo, E contra minha dita enfim pelejo. Ora pois, porque o amo é mal tratado, Quero-lhe querer mal, será guardado.
41 "Mas moura enfim nas mãos das brutas gentes, Que pois eu fui..." E nisto, de mimosa, O rosto banha em lágrimas ardentes, Como co'o orvalho fica a fresca rosa. Calada um pouco, como se entre os dentes Se lhe impedira a fala piedosa, Torna a segui-la; e indo por diante, Lhe atalha o poderoso e grão Tonante.
42 E destas brandas mostras comovido, Que moveram de um tigre o peito duro, Co'o vulto alegre, qual do Céu subido, Torna sereno e claro o ar escuro, As lágrimas lhe alimpa, e acendido Na face a beija, e abraça o colo puro; De modo que dali, se só se achara, Outro novo Cupido se gerara.
43 E co'o seu apertando o rosto amado, Que os soluços e lágrimas aumenta, Como menino da ama castigado, Que quem no afaga o choro lhe acrescente, Por lhe pôr em sossego o peito irado, Muitos casos futuros lhe apresenta. Dos fados as entranhas revolvendo, Desta maneira enfim lhe está dizendo:
44 "Formosa filha minha, não temais Perigo algum nos vossos Lusitanos, Nem que ninguém comigo possa mais, Que esses chorosos olhos soberanos; Que eu vos prometo, filha, que vejais Esquecerem-se Gregos e Romanos, Pelos ilustres feitos que esta gente Há-de fazer nas partes do Oriente.
45 "Que se o facundo Ulisses escapou De ser na Ogígia ilha eterno escravo, E se Antenor os seios penetrou Ilíricos e a fonte de Timavo; E se o piedoso Eneias navegou De Cila e de Caríbdis o mar bravo, Os vossos, mores cousas atentando, Novos mundos ao mundo irão mostrando.
46 "Fortalezas, cidades e altos muros, Por eles vereis, filha, edificados; Os Turcos belacíssimos e duros, Deles sempre vereis desbaratados. Os Reis da índia, livres e seguros, Vereis ao Rei potente sojugados; E por eles, de tudo enfim senhores, Serão dadas na terra leis melhores.
47 "Vereis este, que agora pressuroso Por tantos medos o Indo vai buscando, Tremer dele Neptuno, de medroso Sem vento suas águas encrespando. Ó caso nunca visto e milagroso, Que trema e ferva o mar, em calma estando! Ó gente forte e de altos pensamentos, Que também dela hão medo os Elementos!
48 "Vereis a terra, que a água lhe tolhia, Que inda há-de ser um porto mui decente, Em que vão descansar da longa via As naus que navegarem do Ocidente. Toda esta costa enfim, que agora urdia O mortífero engano, obediente Lhe pagará tributos, conhecendo Não poder resistir ao Luso horrendo.
49 "E vereis o mar Roxo, tão famoso, Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado; Vereis de Ormuz o Reino poderoso Duas vezes tomado e sojugado. Ali vereis o Mouro furioso De suas mesmas setas traspassado: Que quem vai contra os vossos, claro veja Que, se resiste, contra si peleja.
50 "Vereis a inexpugnábil Dio forte, Que dous cercos terá, dos vossos sendo. Ali se mostrará seu preço e sorte, Feitos de armas grandíssimos fazendo. Invejoso vereis o grão Mavorte Do peito Lusitano fero e horrendo: Do Mouro ali verão que a voz extrema Do falso Mahamede ao Céu blasfema.
51 "Goa vereis aos Mouros ser tomada, A qual virá depois a ser senhora De todo o Oriente, e sublimada Co'os triunfos da gente vencedora. Ali soberba, altiva, e exalçada, Ao Gentio, que os ídolos adora, Duro freio porá, e a toda a terra Que cuidar de fazer aos vossos guerra.
52 "Vereis a fortaleza sustentar-se De Cananor, com pouca força e gente; E vereis Calecu desbaratar-se, Cidade populosa e tão potente: E vereis em Cochim assinalar-se Tanto um peito soberbo e insolente, Que cítara jamais cantou vitória, Que assim mereça eterno nome e glória.
53 "Nunca com Marte instructo e furioso, Se viu ferver Leucate, quando Augusto Nas civis Actias guerras animoso, O Capitão venceu Romano injusto, Que dos povos da Aurora, e do famoso Nilo, e do Bactra Cítico e robusto A vitória trazia, e presa rica, Preso na Egípcia linda e nego pudica.
54 Como vereis o mar fervendo aceso Colos incêndios dos vossos pelejando, Levando o Idololatra, e o Mouro preso, De nações diferentes triunfando. E sujeita a rica Áurea Quersoneso, Até ao longínquo China navegando, E as ilhas mais remotas do Oriente, Ser-lhe-á todo o Oceano obediente.
55 "De modo, filha minha, que de jeito Amostrarão esforço mais que humano, Que nunca se verá tão forte peito, Do Gangético mar ao Gaditano, Nem das Boreais ondas ao Estreito, Que mostrou o agravado Lusitano, Posto que em todo o mundo, de afrontados, Ressuscitassem todos os passados."
56 Como isto disse, manda o consagrado Filho de Maia à Terra, por que tenha Um pacífico porto o sossegado, Para onde sem receio a frota venha; F, para que em Mombaça, aventurado, O forte Capitão se não detenha, Lhe manda mais, que em sonhos lhe mostra A terra, onde quieto repousasse.
57 Já pelo ar o Cileneu voava; Com as asas nos pés à Terra desce; Sua vara fatal na mão levava, Com que os olhos cansados adormece: Com esta, as tristes almas revocava Do Inferno, e o vento lhe obedece. Na cabeça o galero costumado. E desta arte a Melinde foi chegado.
58 Consigo a Fama leva, por que diga Do Lusitano o preço grande e raro, Que o nome ilustre a um certo amor obriga E faz, a quem o tem, amado e caro. Desta arte vai fazendo a gente amiga, Co rumor famosíssimo, e perclaro. Já Melinde em desejos arde todo De ver da gente forte o gesto e modo.
59 Dali para Mombaça logo parte, Aonde as naus estavam temerosas, Para que à gente mande que se aparte Da barra amiga e terras suspeitosas: Porque mui pouco val esforço e arte, Contra infernais vontades enganosas; Pouco val coração, astúcia e siso, Se lá dos Céus não vem celeste aviso.
60 No feio caminho a noite tinha anelado, E, as estrelas no Céu, coa luz alhea, Tinham o largo Mundo alumiado; E só co'o sono a gente se recreia. O Capitão ilustre, já cansado De vigiar a noite que arreceia, Breve repouso então aos olhos dava, A outra gente a quartos vigiava;
61 Quando Mercúrio em sonhos lhe aparece, Dizendo: "Fuge, fuge, Lusitano, Da cilada que o Rei malvado tece, Por te trazer ao fim, e extremo dano; Fuge, que o vento, e o Céu te favorece; Sereno o tempo tens e o Oceano, E outro Rei mais amigo, noutra parte, Onde podes seguro agasalhar-te.