Part 3
62 "Não tens aqui senão aparelhado O hospício que o cru Diomedes dava, Fazendo ser manjar acostumado De cavalos a gente que hospedava; As aras de Busíris infamado, Onde os hóspedes tristes imolava, Terás certas aqui, se muito esperas. Fuge das gentes pérfidas e feras.
63 "Vai-te ao longo da costa discorrendo, E outra terra acharás de mais verdade, Lá quase junto donde o Sol ardendo Iguala o dia e noite em quantidade; Ali tua frota alegre recebendo Um Rei, com muitas obras de amizade, Gasalhado seguro te daria, E, para a índia, certa e sábia guia."
64 Isto Mercúrio disse, e o sono leva Ao Capitão, que com mui grande espanto Acorda, e vê ferida a escura treva De uma súbita luz e raio santo. E vendo claro quanto lhe releva Não se deter na terra iníqua tanto, Com novo espírito ao mestre seu mandava Que as velas desse ao vento que assopravam.
65 "Dai velas, disse, dai ao largo vento, Que o Céu nos favorece e Deus o manda; Que um mensageiro vi do claro assento Que só em favor de nossos passos anda." Alevanta-se nisto o movimento Dos marinheiros, de uma e de outra banda; Levam gritando as âncoras acima, Mostrando a ruda força, que se estima.
66 Neste tempo, que as âncoras levavam, Na sombra escura os Mouros escondidos Mansamente as amarras lhe cortavam, Por serem, dando à costa, destruídos; Mas com vista de linces vigiavam Os Portugueses, sempre apercebidos. Eles, como acordados os sentiram, Voando, e não remando, lhe fugiram.
67 Mas já as agudas proas apartando Iam as vias húmidas de argento; Assopra-lhe galerno o vento, e brando, Com suave e seguro movimento. Nos perigos passados vão falando, Que mal se perderão do pensamento Os casos grandes, donde em tanto aperto A vida em salvo escapa por acerto.
68 Tinha uma volta dado o Sol ardente E noutro começava, quando viram Ao longe deus navios, brandamente Co'os ventos navegando, que respiram: Porque haviam de ser da Maura gente, Para eles arribando, as velas viram: Um, de temor do mal que arreceava, Por se salvar a gente à costa dava.
69 Não é o outro que fica tão manhoso; Mas nas mãos vai cair do Lusitano, Sem o rigor de Marte furioso, E sem a fúria horrenda de Vulcano; Que como fosse débil e medroso Da pouca gente o fraco peito humano, Não teve resistência; e se a tivera, Mais dano resistindo recebera.
70 E como o Gama muito desejasse Piloto para a Índia que buscava, Cuidou que entre estes Mouros o tomasse; Mas não lhe sucedeu como cuidava, Que nenhum deles há que lhe ensinasse A que parte dos céus a Índia estava; Porém dizem-lhe todos, que tem perto Melinde, onde achará piloto certo.
71 Louvam do Rei os Mouros a bondade, Condição liberal, sincero peito, Magnificência grande e humanidade, Com partes de grandíssimo respeito. O Capitão o assela por verdade, Porque já lhe dissera, deste jeito, Cileneu em sonhos; e partia Para onde o sonho e o Mouro lhe dizia.
72 Era no tempo alegre, quando entrava No roubador de Europa a luz Febeia, Quando um e outro corno lhe aquentava, E Flora derramava o de Amalteia: A memória do dia renovava O pressuroso Sol, que o Céu rodeia, Em que Aquele, a quem tudo está sujeito, O selo pôs a quanto tinha feito;
73 Quando chegava a frota àquela parte, Onde o Reino Melinde já se via, De toldos adornada, e leda de arte Que bem mostra estimar o santo dia. Treme a bandeira, voa o estandarte, A cor purpúrea ao longe aparecia; Soam os atambores o pandeiros, E assim entravam ledos e guerreiros.
74 Enche-se toda a praia Melindana Da gente que vem ver a leda armada, Gente mais verdadeira, e mais humana, Que toda a doutra terra atrás deixada. Surge diante a frota Lusitana, Pega no fundo a âncora pesada; Mandam fora um dos Mouros que tomaram, Por quem sua vinda ao Rei manifestaram.
75 O Rei, que já sabia da nobreza Que tanto os Portugueses engrandece, Tomarem o seu porto tanto preza, Quanto a gente fortíssima merece: E com verdadeiro ânimo e pureza, Que os peitos generosos enobrece, Lhe manda rogar muito que saíssem, Para que de seus reinos se servissem.
76 São oferecimentos verdadeiros, E palavras sinceras, não dobradas, As que o Rei manda aos nobres cavaleiros, Que tanto mar e terras tem passadas. Manda-lhe mais lanígeros carneiros, E galinhas domésticas cevadas, Com as frutas, que então na terra havia; E a vontade à dádiva excedia.
77 Recebe o Capitão alegremente O mensageiro ledo e seu recado; E logo manda ao Rei outro presente, Que de longe trazia aparelhado: Escarlata purpúrea, cor ardente, O ramoso coral, fino e prezado, Que debaixo das águas mole cresce, E como é fora delas se endurece.
78 Manda mais um, na prática elegante, Que co'o Rei nobre as pazes concertasse, E que de não sair naquele instante De suas naus em terra o desculpasse. Partido assim o embaixador prestante, Como na terra ao Rei se apresentasse, Com estilo que Palas lhe ensinava, Estas palavras tais falando orava:
79 "Sublime Rei, a quem do Olimpo puro Foi da suma Justiça concedido Refrear o soberbo povo duro, Não menos dele amado, que temido: Como porto mui forte e mui seguro, De todo o Oriente conhecido, Te vimos a buscar, para que achemos Em ti o remédio certo que queremos.
80 "Não somos roubadores, que passando Pelas fracas cidades descuidadas, A ferro e a fogo as gentes vão matando, Por roubar-lhe as fazendas cobiçadas; Mas da soberba Europa navegando, Imos buscando as terras apartadas Da Índia grande e rica, por mandado De um Rei que temos, alto e sublimado.
81 "Que geração tão dura há hi de gente, Que bárbaro costume e usança feia, Que não vedem os portos tão somente, Mas inda o hospício da deserta areia? Que má tenção, que peito em nós se sente, Que de tão pouca gente se arreceia? Que com laços armados, tão fingidos, Nos ordenassem ver-nos destruídos?
82 "Mas tu, e quem mui certo confiamos Achar-se mais verdade, ó Rei benigno, E aquela certa ajuda em ti esperamos, Que teve o perdido Ítaco em Alcino, A teu porto seguro navegamos, Conduzidos do intérprete divino; Que, pois a ti nos manda, está mui claro, Que és de peito sincero, humano e raro.
83 "E não cuides, ó Rei, que não saísse O nosso Capitão esclarecido A ver-te, ou a servir-te, porque visse Ou suspeitasse em ti peito fingido: Mas saberás que o fez, porque cumprisse O regimento, em tudo obedecido, De seu Rei, que lhe manda que não saia, Deixando a frota, em nenhum porto ou praia.
84 "E porque é, de vassalos o exercício, Que os membros tem regidos da cabeça, Não quererás, pois tens de Rei o ofício, Que ninguém a seu Rei desobedeça; Mas as mercês e o grande benefício, Que ora acha em ti, promete que conheça Em tudo aquilo que ele e os seus puderem, Enquanto os rios para o mar correrem."
85 Assim dizia; e todos juntamente, Uns com outros em prática falando, Louvavam muito o estâmago da gente, Que tantos céus e mares vai passando. E o Rei ilustre, o peito obediente Dos Portugueses na alma imaginando, Tinha por valor grande e mui subido O do Rei que é tão longe obedecido.
86 E com risonha vista e ledo aspeito, Responde ao embaixador, que tanto estima: "Toda a suspeita má tirai do peito, Nenhum frio temor em vós se imprima; Que vosso preço e obras são de jeito Para vos ter o mundo em muita estima; E quem vos fez molesto tratamento, Não pode ter subido pensamento.
87 "De não sair em terra toda a gente, Por observar a usada preminência, Ainda que me pese estranhamente, Em muito tenho a muita obediência; Mas, se lho o regimento não consente, Nem eu consentirei que a excelência De peitos tão leais em si desfaça, Só porque a meu desejo satisfaça.
88 "Porém, como a luz crástina chegada Ao mundo for, em minhas almadias Eu irei visitar a forte armada, Que ver tanto desejo, há tantos dias; E se vier do mar desbaratada, Do furioso vento e longas vias, Aqui terá, de limpos pensamentos, Piloto, munições e mantimentos."
89 Isto disse; e nas águas se escondia O filho de Latona; e o mensageiro Coa embaixada alegre se partia Para a frota, no seu batel ligeiro. Enchem-se os peitos todos de alegria. Por terem o remédio verdadeiro Para acharem a terra que buscavam; E assim ledos a noite festejavam.
90 Não faltam ali os raios de artifício, Os trêmulos cometas imitando; Fazem os bombardeiros seu ofício, O céu, a terra e as ondas atroando. Mostra-se dos Ciclopas o exercício Nas bombas que de fogo estão queimando; Outros com vozes, com que o céu feriam, Instrumentos altíssonos tangiam.
91 Respondem-lhe da terra juntamente, Co'o raio volteando, com zunido; Anda em giros no ar a roda ardente, Estoura o pó sulfúreo escondido. A grita se alevanta ao céu, da gente; O mar se via em fogos acendido, E não menos a terra; e assim festeja Um ao outro, a maneira de peleja.
92 Mas já o Céu inquieto revolvendo, As gentes incitava a seu trabalho, E já a mãe de Menon a luz trazendo, Ao sono longo punha certo atalho; Iam-se as sombras lentas desfazendo, Sobre as flores da terra em frio orvalho, Quando o Rei Melindano se embarcava A ver a frota, que no mar estava.
93 Viam-se em derredor ferver as praias Da gente, que a ver só concorre leda; Luzem da fina púrpura as cabaias, Lustram os panos da tecida seda; Em lugar das guerreiras azagaias E do arco, que os cornos arremeda Da Lua, trazem ramos de palmeira, Dos que vencem, coroa verdadeira.
94 Um batel grande e largo, que toldado Vinha de sedas de diversas cores, Traz o Rei de Melinde, acompanhado De nobres e seu Reino e de senhores: Vem de ricos vestidos adornado, Segundo seus costumes e primores; Na cabeça uma fota guarnecida De ouro, e de seda e de algodão tecida.
95 Cabaia de Damasco rico e dino, Da Tíria cor, entre eles estimada, Um colar ao pescoço, de ouro fino, Onde a matéria da obra é superada, C'um resplendor reluze adamantino; Na cinta, a rica bem lavrada; Nas alparcas dos pés, em fim de tudo, Cobrem ouro e aljôfar ao veludo.
96 Com um redondo emparo alto de seda, Numa alta e dourada hástia enxerido, Um ministro à solar quentura veda. Que não ofenda e queime o Rei subido. Música traz na proa, estranha e leda, De áspero som, horríssono ao ouvido, De trombetas arcadas em redondo, Que, sem concerto, fazem rudo estrondo.
97 Não menos guarnecido o Lusitano Nos seus batéis, da frota se partia A receber no mar o Melindano, Com lustrosa e lograda companhia. Vestido o Gama vem ao modo Hispano, Mas Francesa era a roupa que vestia, De cetim da Adriática Veneza Carmesi, cor que a gente tanto preza:
98 De botões douro as mangas vêm tomadas, Onde o Sol reluzindo a vista cega; As calças soldadescas recamadas Do metal, que Fortuna a tantos nega, E com pontas do mesmo delicadas Os golpes do gibão ajunta e achega; Ao Itálico modo a áurea espada; Pluma na gorra, um pouco declinada.
99 Nos de sua companhia se mostrava Da tinta, que dá o múrice excelente, A vária cor, que os olhos alegrava, E a maneira do trajo diferente. Tal o formoso esmalte se notava Dos vestidos, olhados juntamente, Qual aparece o arco rutilante Da bela Ninfa, filha de Taumante.
100 Sonorosas trombetas incitavam Os ânimos alegres, ressoando; Dos Mouros os batéis, o mar coalhavam, Os toldos pelas águas arrojando; As bombardas horríssonas bramavam, Com as nuvens de fumo o Sol tomando; Amiúdam-se os brados acendidos, Tapam com as mãos os Mouros os ouvidos.
101 Já no batel entrou do Capitão O Rei, que nos seus braços o levava; Ele coa cortesia, que a razão (Por ser Rei) requeria, lhe falava. C'umas mostras de espanto e admiração, O Mouro o gesto e o modo lhe notava, Como quem em mui grande estima tinha Gente que de tão longe à índia vinha.
102 E com grandes palavras lhe oferece Tudo o que de seus Reinos lhe cumprisse, E que, se mantimento lhe falece, Como se próprio fosse, lho pedisse. Diz-lhe mais, que por fama bem conhece A gente Lusitana, sem que a visse; Que já ouviu dizer, que noutra terra Com gente de sua Lei tivesse guerra.
103 E como por toda África se soa, Lhe diz, os grandes feitos que fizeram, Quando nela ganharam a coroa Do Reino, onde as Hespéridas viveram; E com muitas palavras apregoa O menos que os de Luso mereceram, E o mais que pela fama o Rei sabia. Mas desta sorte o Gama respondia:
104 "Ó tu, que só tiveste piedade, Rei benigno, da gente Lusitana, Que com tanta miséria e adversidade Dos mares experimenta a fúria insana; Aquela alta e divina Eternidade, Que o Céu revolve e rege a gente humana, Pois que de ti tais obras recebemos, Te pague o que nós outros não podemos.
105 "Tu só, de todos quantos queima Apolo, Nos recebes em paz, cio mar profundo; Em ti dos ventos hórridos de Eolo Refúgio achamos bom, fido e jocundo. Enquanto apascentar o largo Pólo As Estrelas, e o Sol der lume ao Mundo, Onde quer que eu viver, com fama e glória Viverão teus louvores em memória."
106 Isto dizendo, os barcos vão remando Para a frota, que o Mouro ver deseja; Vão as naus uma e uma rodeando, Porque de todas tudo note e veja. Mas para o céu Vulcano fuzilando, A frota coas bombardas o festeja, E as trombetas canoras lhe tangiam; Co'os anafis os Mouros respondiam.
107 Mas depois de ser tudo já notado Do generoso Mouro, que pasmava Ouvindo o instrumento inusitado, Que tamanho terror em si mostrava, Mandava estar quieto e ancorado N'água o batel ligeiro que os levava, Por falar de vagar co'o forte Gama, Nas cousas de que tem notícia e faina.
108 Em práticas o Mouro diferentes Se deleitava, perguntando agora Pelas guerras famosas e excelentes Co'o povo havidas, que a Mafoma adora; Agora lhe pergunta pelas gentes De toda a Hespéria última, onde mora; Agora pelos povos seus vizinhos, Agora pelos úmidos caminhos.
109 "Mas antes, valeroso Capitão, Nos conta, lhe dizia, diligente, Da terra tua o clima, e região Do mundo onde morais distintamente; E assim de vossa antiga geração, E o princípio do Reino tão potente, Co'os sucessos das guerras do começo, Que, sem sabê-las, sei que são de preço.
110 "E assim também nos conta dos rodeios Longos, em que te traz o mar irado, Vendo os costumes bárbaros alheios. Que a nossa África ruda tem criado. Conta: que agora vêm co'os áureos freios Os cavalos que o carro marchetado Do novo Sol, da fria Aurora trazem, O vento dorme, o mar e as ondas jazem.
111 "E não menos co'o tempo se parece O desejo de ouvir-te o que contares; Que quem há, que por fama não conhece As obras Portuguesas singulares? Não tanto desviado resplandece De nós o claro Sol, para julgares Que os Melindanos têm tão rudo peito, Que não estimem muito um grande feito.
112 "Cometeram soberbos os Gigantes, Com guerra vã, o Olimpo claro e puro; Tentou Pirítoo e Teseu, de ignorantes, O Reino de Plutão horrendo e escuro. Se houve feitos no mundo tão possantes, Não menos é trabalho ilustre e duro, Quanto foi cometer Inferno o Céu, Que outrem cometa a fúria de Nereu.
113 "Queimou o sagrado templo de Diana, Do subtil Tesifónio fabricado, Heróstrato, por ser da gente humana Conhecido no mundo e nomeado: Se também com tais obras nos engana O desejo de um nome avantajado, Mais razão há que queira eterna glória Quem faz obras tão dignas de memória."
Canto Terceiro
1 Agora tu, Calíope, me ensina O que contou ao Rei o ilustre Gama: Inspira imortal canto e voz divina Neste peito mortal, que tanto te ama. Assim o claro inventor da Medicina, De quem Orfeu pariste, ó linda Dama, Nunca por Dafne, Clície ou Leucotoe, Te negue o amor devido, como soe.
2 Põe tu, Ninfa, em efeito meu desejo, Como merece a gente Lusitana; Que veja e saiba o mundo que do Tejo O licor de Aganipe corre e mana. Deixa as flores de Pindo, que já vejo Banhar-me Apolo na água soberana; Senão direi que tens algum receio, Que se escureça o teu querido Orfeio.
3 Prontos estavam todos escutando O que o sublime Gama contaria, Quando, depois de um pouco estar cuidando, Alevantando o rosto, assim dizia: "Mandas-me, ó Rei, que conte declarando De minha gente a grão genealogia: Não me mandas contar estranha história, Mas mandas-me louvar dos meus a glória.
4 "Que outrem possa louvar esforço alheio, Cousa é que se costuma e se deseja; Mas louvar os meus próprios, arreceio Que louvor tão suspeito mal me esteja; E para dizer tudo, temo e creio, Que qualquer longo tempo curto seja: Mas, pois o mandas, tudo se te deve, Irei contra o que devo, e serei breve.
5 "Além disso, o que a tudo enfim me obriga, É não poder mentir no que disser, Porque de feitos tais, por mais que diga, Mais me há-de ficar inda por dizer. Mas, porque nisto a ordens leve e siga, Segundo o que desejas de saber, Primeiro tratarei da larga terra, Depois direi da sanguinosa guerra.
6 "Entre a Zona que o Cancro senhoreia, Meta setentrional do Sol luzente, E aquela que por f ria se arreceia Tanto, como a do meio por ardente, Jaz a soberba Europa, a quem rodeia, Pela parte do Areturo, e do Ocidente, Com suas salsas ondas o Oceano, E pela Austral o mar Mediterrano.
7 "Da parte donde o dia vem nascendo, Com Ásia se avizinha; mas o rio Que dos montes Rifeios vai correndo, Na alagoa Meotis, curvo o frio, As divide: e o mar que, fero e horrendo, Viu dos Gregos o irado senhorio, Onde agora de Tróia triunfante Não vê mais que a memória o navegante.
8 "Lá onde mais debaixo está do Pólo, Os montes Hiperbóreos aparecem, E aqueles onde sempre sopra Eolo, E co'o nome, dos sopros se enobrecem. Aqui tão pouca força tem de Apolo Os raios que no mundo resplandecem, Que a neve está contido pelos montes, Gelado o mar, geladas sempre as fontes.
9 "Aqui dos Citas grande quantidade Vivem, que antigamente grande guerra Tiveram, sobre a humana antiguidade, Co'os que tinham então a Egípcia terra; Mas quem tão fora estava da verdade, (Já que o juízo humano tanto erra) Para que do mais certo se informara, Ao campo Damasceno o perguntara.
10 "Agora nestas partes se nomeia A Lápia fria, a inculta Noruega, Escandinávia Ilha, que se arreia Das vitórias que Itália não lhe nega. Aqui, enquanto as águas não refreia O congelado inverno, se navega Um braço do Sarmático Oceano Pelo Brúsio, Suécio e frio Dano.
11 "Entre este mar e o Tánais vive estranha Gente: Rutenos, Moseos e Livónios, Sármatas outro tempo; e na montanha Hircínia os Marcomanos são Polónios. Sujeitos ao Império de Alemanha São Saxones, Boêmios e Panónios, E outras várias nações, que o Reno frio Lava, e o Danúbio, Amasis e Albis rio.
12 "Entre o remoto Istro e o claro Estreito, Aonde Hele deixou co'o nome a vida, Estão os Traces de robusto peito, Do fero Marte pátria tão querida, Onde, colo Hemo, o Ródope sujeito Ao Otomano está, que submetida Bizâncio tem a seu serviço indino: Boa injúria do grande Constantino!
13 "Logo de Macedónia estão as gentes, A quem lava do Axio a água fria; E vós também, ó terras excelentes Nos costumes, engenhos e ousadia, Que criastes os peitos eloquentes E os juízos de alta fantasia, Com quem tu, clara Grécia, o Céu penetras, E não menos por armas, que por letras.
14 "Logo os Dálmatas vivem; e no seio, Onde Antenor já muros levantou, A soberba Veneza está no meio Das águas, que tão baixa começou. Da terra um braço vem ao mar, que cheio De esforço, nações várias sujeitou, Braço forte, de gente sublimada, Não menos nos engenhos, que na espada.
15 "Em torno o cerca o Reino Neptunino, Co'os muros naturais por outra parte; Pelo meio o divide o Apenino, Que tão ilustre fez o pátrio Marte; Mas depois que o Porteiro tem divino, Perdendo o esforço veio, e bélica arte; Pobre está já de antiga potestade: Tanto Deus se contenta de humildade!
16 "Gália ali se verá que nomeada Co'os Cesáreos triunfos foi no mundo, Que do Séquana e Ródano é regada, E do Giruna frio e Reno fundo. Logo os montes da Ninfa sepultada Pirene se alevantam, que segundo Antiguidades contam, quando arderam, Rios de ouro e de prata então correram.
17 "Eis aqui se descobre a nobre Espanha, Como cabeça ali de Europa toda, Em cujo senhorio o glória estranha Muitas voltas tem dado a fatal roda; Mas nunca poderá, com força ou manha, A fortuna inquieta pôr-lhe noda, Que lhe não tire o esforço e ousadia Dos belicosos peitos que em si cria.
18 "Com Tingitânia entesta, e ali parece Que quer fechar o mar Mediterrano, Onde o sabido Estreito se enobrece Co'o extremo trabalhado Tebano. Com nações diferentes se engrandece, Cercadas com as ondas do Oceano; Todas de tal nobreza e tal valor, Que qualquer delas cuida que é melhor.
19 "Tem o Tarragonês, que se fez claro Sujeitando Parténope inquieta; O Navarro, as Astúrias, que reparo Já foram contra a gente Mahometa; Tem o Galego cauto, e o grande e raro Castelhano, a quem fez o seu Planeta Restituidor de Espanha e senhor dela, Bétis, Lião, Granada, com Castela.
20 "Eis aqui, quase cume da cabeça De Europa toda, o Reino Lusitano, Onde a terra se acaba e o mar começa, E onde Febo repousa no Oceano. Este quis o Céu justo que floresça Nas armas contra o torpe Mauritano, Deitando-o de si fora, e lá na ardente África estar quieto o não consente.
22 "Esta é a ditosa pátria minha amada, A qual se o Céu me dá que eu sem perigo Torne, com esta empresa já acabada, Acabe-se esta luz ali comigo. Esta foi Lusitânia, derivada De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo Filhos foram, parece, ou companheiros, E nela então os Íncolas primeiros.
22 "Desta o pastor nasceu, que no seu nome Se vê que de homem forte os feitos teve; Cuja fama ninguém virá que dome, Pois a grande de Roma não se atreve. Esta, o velho que os filhos próprios come Por decreto do Céu, ligeiro e leve, Veio a fazer no mundo tanta parte, Criando-a Reino ilustre; e foi desta arte:
23 "Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha, Que fez aos Sarracenos tanta guerra, Que por armas sanguinas, força e manha, A muitos fez perder a vida o a terra; Voando deste Rei a fama estranha Do Herculano Calpe à Cáspia serra, Muitos, para na guerra esclarecer-se, Vinham a ele e à morte oferecer-se.
24 "E com um amor intrínseco acendidos Da Fé, mais que das honras populares, Eram de várias terras conduzidos, Deixando a pátria amada e próprios lares. Depois que em feitos altos e subidos Se mostraram nas armas singulares, Quis o famoso Afonso que obras tais Levassem prémio digno e dons iguais.
25 "Destes Anrique, dizem que segundo Filho de um Rei de Ungria exprimentado, Portugal houve em sorte, que no mundo Então não era ilustre nem prezado; E, para mais sinal d'amor profundo, Quis o Rei Castelhano, que casado Com Teresa, sua filha, o Conde fosse; E com ela das terras tornou posse.
26 "Este, depois que contra os descendentes Da escrava Agar vitórias grandes teve, Ganhando muitas terras adjacentes, Fazendo o que a seu forte peito deve, Em prémio destes feitos excelentes, Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve, Um filho, que ilustrasse o nome ufano Do belicoso Reino Lusitano.
27 "Já tinha vindo Anrique da conquista Da cidade Hierosólima sagrada, E do Jordão a areia tinha vista, Que viu de Deus a carne em si lavada; Que não tendo Gotfredo a quem resista, Depois de ter Judeia sojugada, Muitos, que nestas guerras o ajudaram, Para seus senhorios se tornaram;
28 "Quando chegado ao fim de sua idade, O forte e famoso Úngaro estremado, Forçado da fatal necessidade, O espírito deu a quem lhe tinha dado, Ficava o filho em tenra mocidade, Em quem o pai deixava seu traslado, Que do mundo os mais fortes igualava; Que de tal pai tal filho se esperava.
29 "Mas o velho rumor, não sei se errado, Que em tanta antiguidade não há certeza, Conta que a mãe, tomando todo o estado, Do segundo himeneu não se despreza. O filho órfão deixava deserdado, Dizendo que nas terras a grandeza Do senhorio todo só sua era, Porque, para casar, seu pai lhes dera.
30 "Mas o Príncipe Afonso, que desta arte Se chamava, do avô tomando o nome, Vendo-se em suas terras não ter parte, Que a mãe, com seu marido, as manda e come, Fervendo-lhe no peito o duro Marte, Imagina consigo como as tome. Revolvidas as causas no conceito, Ao propósito firme segue o efeito.
31 "De Guimarães o campo se tingia Co'o sangue próprio da intestina guerra, Onde a mãe, que tão pouco o parecia, A seu filho negava o amor e a terra. Com ele posta em campo já se via; E não vê a soberba o muito que erra Contra Deus, contra o maternal amor; Mas nela o sensual era maior.