Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I

Part 9

Chapter 93,766 wordsPublic domain

E agora com experiencia dos malos que padocia a Republica nestas alterações so jacta de o haver extranhado então, julgando estos malos por incentivo de outros maiores.

Tractam de diminuir O dinheiro a meu pezar, Que para a cousa baixar O melhor meio é subir: Quem via tão alto ir, Como eu vi ir a moeda, Lhe prognosticou a queda, Como eu lh’a prognostiquei: Dizem que o mandou El-Rei, Quer creais, quer não creiais, Não vos espanteis, que inda lá vem mais.

Mandam a força do fado, Por ser justo que o dinheiro Baixe a seu valor primeiro Depois de tão levantado: O que se vir sublimado Por ter mais quatro mangabas, Hão de peza-lo ás oitavas, E por leve hão de engeita-lo: E si com todo este abalo Por descontentes vos dais, Não vos espanteis, que inda lá vem mais.

As pessoas de quem rezo Hão de ser como o ferrollho: Val pouco tomado a olho, Val menos tomado a pezo. Os que prézo, e que desprézo, Todos serão de uma casta, E só moços de canasta, Entre veras e entre chanças Com pezos e com balanças Vão á justiça os mais: Não vos espanteis, que inda lá vem mais.

Porque como em Maranhão Mandam novelos á praça, Assim vós por esta traça Mandareis o algodão: Haverá permutação, Como ao principio das gentes, E todos os contrahentes Trocarão droga por droga, Pão por sal, lenha por soga, Vinhas por cannaviaes: Não vos espanteis, que inda lá vem mais.

Virá a frota para o anno, E que leve vos agouro, Si não tudo a pezo de ouro, A pezo tudo de engano: Não é o valor deshumano, Que a cada oitava se dá, Da prata, que corre cá, Pelo meu fraco conceito; Mas o cobrar fiel direito, E obliquo quando pagais: Não vos espanteis, que inda lá vem mais.

Bem merece esta cidade Esta afflicção, que a assalta, Pois os dinheiros exalta Sem real auctoridade: Eu si hei de fallar verdade, O aggressor do delicto Devia ser só afflicto: Mas si estão tão descançados, Talvez que sejam chamados Nesta frota que esperais: Não vos espanteis, que ainda lá vem mais.

RETRATO

DO PADRE DAMASO DA SILVA

Pois me enfada o teu feitio, Quero, Frizão, neste dia Retratar-te em quatro versos Ás maravi, maravi, maravilhas. Ouçam e olhem, Venham, venham, verão O Frizão da Bahia, Que está retratado Ás maravi, maravi, maravilhas.

A cara é um fardo de arroz, Que, por larga e por comprida, É ração de um elephante Vindo da India. Ouçam e olhem, Venham, venham, verão O Frizão da Bahia, Que está retratado Ás maravi, maravi, maravilhas.

A bocca desempedrada É a ponte de Coimbra, Onde não entram nem sahem Mais que mentiras. Ouçam e olhem, Venham, venham, verão O Frizão da Bahia, Que está retratado Ás maravi, maravi, maravilhas.

Não é a lingua de vacca Pelo maldizente e maldicta, Mas pelo muito que corta De tiririca. Ouçam e olhem, Venham, venham, verão O Frizão da Bahia, Que está retratado Ás maravi, maravi, maravilhas.

No corpazil torreão A natureza prevista Formou a fresta da bocca Para guarita. Ouçam e olhem, Venham, venham, verão O Frizão da Bahia, Que está retratado Ás maravi, maravi, maravilhas.

Quizera as mãos comparar-lhe Ás do gigante Golias, Si as do gigante não foram Tão pequeninas. Ouçam e olhem, Venham, venham, verão O Frizão da Bahia, Que está retratado Ás maravi, maravi, maravilhas.

Os ossos de cada pé Encher podem de reliquias Para toda a christandade As sacristias. Ouçam e olhem, Venham, venham, verão O Frizão da Bahia, Que está retratado Ás maravi, maravi, maravilhas.

É grande Conimbricense Sem jámais pôr pé em Coimbra, E sendo ignorante sabe Mais que gallinha. Ouçam e olhem, Venham, venham, verão O Frizão da Bahia, Que está retratado Ás maravi, maravi, maravilhas.

Como na lei de Mafoma Não se argumenta, e se briga, Elle, que nada argumenta, Tudo porfia. Ouçam e olhem, Venham, venham, verão O Frizão da Bahia, Que está retratado Ás maravi, maravi, maravilhas.

MARINICOLAS

Marinicolas todos os dias O vejo na sege passar por aqui, Cavalheiro de tão lindas partes, Como, verbi gratia, Londres e Pariz.

Mais fidalgo que as mesmas estrellas, Que as doze do dia viu sempre luzir, Que seu pae por não sei que desastre Tudo o que comia vinha pelo giz.

Peneirando-lhe os seus avelorios, É tal a farinha do nympho gentil, Que por machos é sangue Tudesco, Porém pelas femeas humor meretriz.

Um avô, que rodou esta côrte Num coche de quatro de um Dom Beleaniz, Sôbre mulas foi tão attractivo, Que as Senhoras todas trouxe atraz de si.

Foi um grande verdugo de bestas, Pois co’um azorrague e dois borzeguins, Ao compás dos maus passos que davam Lhes ia cantando o lá, sol, fá, mi.

Marinicolas era muchacho Tão gran’ rabaceiro de escumas de rins, Que jámais para as toucas olhava, Por achar nas calças melhor fraldelim.

Sendo já sumilher de cortina De um xastre de barbas, saiu d’aprendiz Dado só ás lições de canudo, Rapante de especie de .. viril.

Cabrestilhos tecendo em arames, Tão pouco lucrava no patrio paiz, Que se foi dando velas ao vento Ao reino dos Servos, não mais que a servir.

Lá me dizem que fez carambola Com certo Cupido, que fôra d’aqui Empurrado por uma Sodoma, No anno de tantos em cima de mil.

Por signal que no sitio nefando Lhe poz a ramella do olho servil Um travesso, porque de cadeira A seus .. servisse aquelle ambar gris.

Mordeduras de perro raivoso Có o pello se curam do mesmo mastim, E aos mordidos do rabo não póde O sumo do rabo de cura servir.

Tanto em fim semeou pela terra, Que havendo colhido bastante quatrim, Resolvendo a ser Perotangas Cruzou o Salobre, partiu o Zenith.

Avistando este nosso hemispherio, Calou pela barra em um bergantim, Poz em terra os maiores joanetes Que viram meus olhos desde que nasci.

Pretendendo com recancanilhas Roubar as guaritas de um salto subtil, Embolçava com alma de gato, A risco de sape, dinheiro de miz.

Sinão quando na horta do Duque Andando de ronda um certo malsim, Estumando-lhe um cão pechelingue O demo do gato botou o seitil.

Marinicolas vendo-se entonces De todo expurgado sem maravedi, Alugava rapazes ao povo, Por ter de caminho de quem se servir.

Exercendo-os em jogos de mãos Tão lestos os tinha o destro arlequim, Que si não lhes tirára a peçonha Ganhára com elles dois mil potosis.

A tendeiro se poz de..... E na taboleta mandou esculpir Dois cachopos, e a lettra dizia: Os ordenhadores se alquilam aqui.

Tem por mestre do terço...... Um pagem de lança, que Marcos se diz, Que si em casa anda ao rabo d’elle, O traz pela rua ao rabo de si.

Uma tarde em que o perro celeste Do sol acossado se poz a latir, Marinicola estava com Marcos Limpando-lhe os moncos de certo nariz.

Mas sentindo ruido na porta, Aonde batia um Gorra civil, Um e outro se poz em fugida, Temiendo los dientes de algun javali.

Era pois o baeta travesso: Si um pouco de antes aportára alli, Como sabe latim o baeta, Pudiera cogerlos en un má latin.

Ao depois dando d’elle uma força As alcoviteiras do nosso confim, Lhe valeu no sagrado da egreja O nó indissoluvel de um rico mongil.

Empossado da simples consorte Cresceu de maneira naquelles chapins, Que inda hoje dá graças infindas Aos falsos informes de _quis_, _quid_ e _quid_.

Não obstante pagar de vazio O sancto hymeneu um picaro vil, Se regala á ufa do sogro, Comendo e bebendo como mochachim.

Com chamar-se prudente com todos, Que muitos babosos o têm para si, Elle certo é o meu desenfado, Que um tolo prudente dá muito que rir.

É dotado de um entendimento Tão vivo e esperto, que fôra um Beliz, Si lhe houvera o juizo illustrado Um dedo de grego, outro de latim.

Entre gabos o triste idiota Tão pago se mostra dos seus gorgotis, Que nascendo sendeiro de gemma, Quer á fina força metter-se a rossim.

Deu agora em famoso arbitrista, E quer por arbitrios o triste malsim Que o vejamos subir á Excellencia, Como diz que vimos Montalvão subir.

Sendo pois o alterar a moeda O assopro, o arbitrio, o ponto e o ardil, De justiça, a meu ver, se lhe devem As honras que teve Ferraz e Soliz.

Dêm com elle no alto da forca, Adonde o fidalgo terá para si Que é o mais estirado de quantos Beberam no Douro, mijaram no Rim.

Si o intento é bater-se moeda, Correrem-lhe gages e ser mandarim, Porque andando a moeda na forja Se ri de Cuama, de Sena e de Ophir?

Sempre foi da moeda privado, Mas vendo-se agora Senhor e Juiz, Condemnando em portaes a moeda, Abriu ás unhadas portas para si.

Muito mais lhe rendeu cada palmo D’aquella portada que dois potosis; Muito mais lhe valeu cada pedra Que vale un ochavo de Valladolid.

Pés de puas com topes de seda, Cabellos de cabra com pós de marfim, Pés e puas de riso motivo, Cabellos e topes motivo de rir.

Uma tia, que abaixo do muro Lacões esquarteja, me dizem que diz: Sua Alteza sem ir meu sobrinho A nada responde de não ou de sim.

Pois a prima da rua do Saco Tambem se reputa de todos alli, Que a furaram como velador Para o garavato de certo candil.

Outras tias me dizem que foram Tão fortes gallegas, e tão varonis, Que sobre ellas foi muito mais gente Do que sobre Hespanha em tempo do Cid.

Catharina conigibus era Uma das avôas da parte viril, D’onde vem conixarem-se todas As conigibundas do tal genesis.

Despachou-se com habito e tença Por grandes serviços, que fez ao Sofi, Em matar nos fieis Portuguezes De puro enfadonho tres ou quatro mil.

E porque de mechanica tanta Não foi dispensado, tenho para mim Que em usar da mechanica falsa Se soube livrar da mechanica vil.

É possível que calce tão alto A baixa vileza de um sujo escarpim, Para o qual não é a agua bastante Da grossa corrente do Gualdaquibir?

Marinicolas é finalmente Sugeito de prendas de tanto matiz, Que está hoje batendo moeda, Sendo ainda hontem um vilão ruim.

AO BRAÇO FORTE

ESTANDO PRÊSO POR ORDEM DO GOVERNADOR BRAÇO DE PRATA

ROMANCE

Prêso entre quatro paredes Me tem Sua Senhoria, Por regatão de despachos, Por fundidor de mentiras.

Dizem que eu era um velhaco, E mentem por vida minha, Que o velhaco era o Governo, E eu a velhacaria.

Quem dissera, quem pensára, Quem cuidára, e quem diria, Que um braço de prata velha, Pouca prata, e muita liga;

Tanto mais que o braço forte Fosse forte, que poria Um Cabo de calabouço, E um soldado de golilha?

Porém eu de que me espanto, Si nesta terra maldicta Póde uma ovelha de prata Mais que dez onças de alquima?

Quem me chama de ladrão Erra o trinco á minha vida; Fui assassino de furtos, Mandavam-me, obedecia.

Despachavam-me a furtar, E eu furtava, e abrangia: Serão boas testemunhas Inventarios e partilhas.

E eu era o ninho de guincho, Que sustentava e mantinha Co’o suor das minhas unhas Mais de dez aves rapinas.

O povo era quem comprava, O General quem vendia, E eu triste era o corrector De tão torpes mercancias.

Vim depois a aborrecer, Que sempre no mundo fica Aborrecido o traidor, E a traição muito bemquista.

Plantar o ladrão de fóra Quando a ladroice fica, Será limpeza de mãos, Mas de mãos mui pouco limpas.

Elles guardaram o seu Dinheiro, assucar, farinhas, E até a mim me embolsaram Nesta hedionda enxovia.

Si foi bem feito, ou mal feito, O sabe toda a Bahia; Mas si á traição me fizeram, Com elles a traição fica.

Eu sou sempre o Braço forte, E nesta prisão me anima Que si é casa de peccados, Os meus foram ninharias.

Todo este mundo é prisão, Todo penas e agonias, Até o dinheiro está prêso Em um sacco que o opprima.

A pipa é prisão do vinho; E da agua fugitiva, Sendo tão livre e ligeira, É prisão qualquer quartinha.

Os muros de pedra e cal São prisão de qualquer villa, Da alma é prisão o corpo, Do corpo é qualquer almilha.

A casca é prisão da fructa, Da rosa é prisão a espinha, O mar é prisão da terra, A terra é prisão das minas.

Do ar é carcere um odre, Do fogo é qualquer pedrinha, E até de um céu outro céu É uma prisão crystallina.

Na formosura e donaire De uma muchacha divina Está presa a liberdade, E na paz a valentia.

Pois si todos estão presos, Que me cansa ou me fadiga, Vendo-me em casa de El-Rei, Juncto a Sua Senhoria?

Chovam prisões sobre mim, Pois foi tal minha mofina, Que a quem dei cadêas de ouro, De ferro m’as gratifica.

Á D. JOÃO DE ALENCASTRE

QUE VINDO DO GOVERNO DE ANGOLA POR ESCALA A BAHIA, E ESTANDO NELLA HOSPEDE DO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ GONÇALVES DA CAMARA COUTINHO, SEU CUNHADO, EM CUJO DESAGRADO SE ACHAVA O P., SE QUEIXOU DE QUE ESTE O NÃO HOUVESSE VISITADO, PEDINDO-LHE QUE AO MENOS LHE FIZESSE UMA SATYRA POR OBSEQUIO

A quem não dá aos fieis, Perdão se lhe ha de outorgar, E eu hoje vo-lo hei de dar, Pedindo me perdoeis: Dou-vos o que mais quereis, E o que pedis por favor, Que quando chega um senhor A pedir por não mandar, Mal lhe podia eu faltar Co’ uma satyra em louvor.

Não fui beijar-vos a mão, E dar-vos a bem chegada, Porque nessa alta morada Nunca tive introducção: Até agora a indignação Não quiz tão altivo tracto, Mas hoje é quasi distracto, Porque em todo o mundo inteiro De fidalgo e de escudeiro São brincos de cão com gato.

Os fidalgos e os senhores Fartos de jurisdicção Fazem tudo e tudo dão Á amigos e servidores: Os que jogam de maiores Por sangue, e não por poder, Fazem jogo de entreter, Porque o sangue desegual Sempre bota ao natural, E o mando bota a perder.

Perdoae a digressão, Porque esta preluxidade É boa luz da verdade E excusa satyra então: Quando se offereça occasião, Meu senhor, de que vos veja (Na egreja ou na rua seja) Hei de prender-vos os pés, E estai certo, que essa vez Vos não valerá a Egreja.

Estou na minha quintinha, Que é chacara soberana, Ora comendo a banana, Jogando ora a laranginha: Nem vizinho, nem vizinha Tenho, porque sempre cança, Quem tudo vê e nada alcança, E na cidade são raros Os olhos, que não são claros, Si olhos são de vizinhança.

Mas inda que desterrado Me tem o fado e a sorte Por um Juiz de má morte, De quem não tenho appellado: É hoje, que sois chegado, Senhor, o tempo em que appelle, Fazei, que el-rei o desvele Pagar o serviço meu, Pois é bizarro, e só eu Não vim muito pago d’elle.

A JOÃO GONÇALVES DA CAMARA COUTINHO

FILHO DO DITO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ GONÇALVES DA CAMARA, TOMANDO POSSE DE UMA COMPANHIA DE INFANTES EM DIA DE S. JOÃO BAPTISTA, ASSISTINDO-LHE DE SARGENTO SEU TIO DOM JOÃO DE ALENCASTRE

No culto que a terra dava, Equivocava-se a vista, Si celebrava ao Baptista, Si a Coutinho celebrava: Um e outro João estava Arrojando a sua planta Tanto applauso e festa tanta; Mas viu-se, que ao mesmo dia Em que o Baptista cahia, O Coutinho se levanta.

Viu-se que um João Baptista Na terça feira cahira, E que o outro João subira A imperar nesta Conquista: Mas não se enganou a vista Por desacerto ou desgraça, Antes com divina traça Se notou e se advertiu, Que si um com graça cahiu, Outro nos cahiu em graça.

Brava occurrencia se achou No Martyrologio então, O dia era de um João, E outro João lh’o levou: Toda a cidade assentou Por razão e por carinho, Ser mais acerto e alinho Preferir entre dous grandes Como um Silva a um Fernandes, A um Baptista um Coutinho.

Mais concurrencias se deram Porque pasmasse a Bahia, Dous num dia ha cada dia, Mas tres nunca concorreram: Tres de um nome então vieram, E qual mais para applaudido; E assim confuso o sentido, Ficou, com tão nova traça, Restaurada a nossa Praça E o Kalendario aturdido.

Si de um só João no dia Se abalára a Christandade, Por tres de tal qualidade Quem se não abalaria? Tudo quanto então se via, Se via com grande abalo, Um mar de fogo a cavallo, A pé um Etna de flores, E por ver tantos primores O céu dava tanto estalo.

A ver o grande Lencastro Quem não fez do aperto graça? Si sahiu o Sol á Praça Fazer Praça á tanto astro? O bronze pois e alabastro, Por solemnisar a gloria, Consentiram que esta historia Fique, por mais segurança, Nos archivos da lembrança, Nos volumes da memoria.

A PEDRO ALVRES DA NEIVA

QUANDO EMBARCOU PARA PORTUGAL

ROMANCE

Adeus, amigo Pedro Alvres, Que vos partistes d’aqui Para geral desconsolo D’este povo do Brazil.

Partiste-vos, e oxalá Que então vos vira eu partir, Que sempre um quarto tomára A libra por dous seitis.

Puzera o quarto em salmoura E no fumeiro o pernil, O pé não, porque me dizem Que vos fede o escarpim.

Guardára o quarto de sorte, Que se vos podera unir Na surreição dos auzentes Quando tornasseis aqui.

Mas vós não fostes partido, Mente quem tal cousa diz; Antes fostes muito inteiro, E sem se vos dar de mim.

Saudades não as levastes, Deixaste-las isso sim, Porque de todo este povo Ereis o folgar e rir.

Desenfado dos rapazes, Das moças o perrixil, O burro da vossa casa, E da cidade o rossim.

Lá ides por esses mares, Que são vidraças do anil, Semeando de asnidades Toda a vargem zaphir.

O piloto e a companha Apostarei que já diz Que vai muito arrependido De ires no seu camarim.

O homem se vê e deseja, E desesperado emfim, Acceita que a nau se perca, Por vos ver fóra de si.

Deseja ver-vos luctando Sôbre o elemento subtil, Onde um tubarão vos parta, Vos morda um darimdarim.

Deseja que os peixes todos Tomem accôrdo entre si De vos darem nos seus buchos Sepultura portatil.

Sente que em amanhecendo A fina força ha de ouvir Os bons dias de uma bocca, Cujo bafo é tão ruim.

Sente que não empregando Nem um só maravedí Em queijos frescos, a elles Vos trezande o chambaril.

Mas vós heis de ir a Lisboa Apezar de villão ruim, E el-rei vos ha de fazer, Com mil mercês, honras mil.

Os cavalheiros da côrte, Trazendo-vos juncto a si, Vos hão de dar como uns doidos Piparotes no nariz.

E como vós sois doente De fidalgos phrenesis, Por ficar afidalgado Toda a mofa heis de rustir.

O que trazeis de vestidos, Uns assim, outros assim, Sereis o moda dos modas, E o modelo dos Torins.

A conta d’isto me lembro, Quando em Marapé vos vi Vestido de pimentão, Com fundos de flor de liz.

Em verdade vos affirmo Que então vos suppuz e cri Surrada tapeçaria, Tisnado guadamecim.

O que dizeis de mentiras, Quando tomardes aqui, Amizades de um visconde, Favores de um conde vis.

Valído de um tal ministro, Cabido de um tal juiz, E até do mesmo Cabido Leiguissimo mandarim.

El-rei me fez mil favores, Mil favores, mais de mil, Bem fez com que eu lá ficasse, Mas não o pude servir.

Quem casou, como eu casei, Com mulher tão senhoril, É captivo de um ferreiro, Não me posso dividir

De el-rei é a minha cabeça, Porém o corpo gentil Todo é de minha mulher, Não tem remedio, hei de me ir.

Achou-me razão el-rei, E na hora de partir, Pondo-me a mão na cabeça, Medisse: Perico, adi.

Ide-vos Perico embora, Ide-vos para o Brazil, Que quem vos tirou da côrte Não vos tirará d’aqui.

E pondo em seu peito a mão, Eu que a fineza entendi Chorei por agradece-la Lagrimas de mil em mil.

Botei pelo paço fóra, Metti-me no bergantim, Cheguei a bordo, embarquei-me, Levámos ferro, e parti.

Os cavalleiros da côrte Choraram tanto por mim, Como por uma commenda De Sanctiago ou de Aviz.

Hontem avistámos terra, E quando na barra vi Coqueiros e bananeiras, Disse comigo: Brazil!

NO BOQUEIRÃO

DE S. ANTONIO DO CARMO, DENTRO DE UMA PEÇA DE ARTILHARIA DESCAVALGADA ESTEVE MUITOS DIAS UMA COBRA SURUCUCÚ ASSALTANDO AOS QUE PASSAVAM COM MORTE DE VARIAS PESSOAS, SENDO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ GONÇALVES DA CAMARA (É ESTE O ASSUMPTO DA POESIA QUE SE LÊ EM SEGUIDA)

ROMANCE

Acabou-se esta cidade, Senhor, já não é Bahia. Já não ha temor de Deus, Nem d’El-Rei, nem da Justiça.

Lembra-me que ha poucos annos, Inda não ha muitos dias, Que para qualquer funcção De um crime a prisão se urdia.

Iam por esse sertão Ao centro da Jacobina Prender algum matador, Inda que fosse á espadilha.

Mas hoje dentro na praça, Nas barbas da infantaria, Nas bochechas das Granachas, Com polé e forca á vista:

Que esteja um surucucú Com soberana ousadia Feito Parca da cidade, Cortando os fios ás vidas!

Com tantas mortes ás costas, E que não haja uma rifa De paus, que ao tal matador Lhe sacuda o basto em cima.

É mui barbaro rigor O d’esta cobra atrevida, Que esteja na estrada posta Fazendo assaltos á vista.

Onde está Gaspar Soares, Que não vai á espora fita No lazão lançar-lhe a garra, E mette-la na enxovia?

Si está no matto emboscada, No seu mocambo mettida, Mandem-lhe um terço ligeiro De infantes de Henrique Dias.

Si dizem que está na peça, Dem-lhe fogo á colubrina, Já que faz peças tão caras, Custe-lhe esta peça a vida.

Vão quatro ou seis artilheiros Cavalgar-lhe a artilharia, Porque em sendo noite dá Fogo a toda cousa viva.

Fira com balas hervadas, A que não ha medicina, Porque as traz sempre na bocca Com venenosa saliva.

O caso é monstruosidade, Porém não é maravilha, Que haja cobras e lagartos Entre tanta sevandija.

Só digo que é boa peça, Porque na peça escondida, Vella na peça de noite, Dorme na peça de dia.

Á BRITES

UMA PARDA DAMA, VULGARMENTE CHAMADA BETICA, PEDINDO-LHE CEM MIL RÉIS

ROMANCE

Betica, a bom matto vens Com teu dá cá, com teu toma, O diabo te enganou, Não póde ser outra cousa.

Viste-me acaso com geito De commissario de frotas, Que faz roupa de Francezes Dos brocados de Lisboa?

Sou eu acaso o Masullo, Que do que tem de outras contas Dá sem conta em cada um anno Cem mil cruzados á Rola?

Sou matachim por ventura, Que vim ante-hontem da Angola, Que dos escravos alheios Faço mercancia propria?

Menina, eu bato moeda? Eu sou um pobre idiota, Que para um tostão ganhar Estudo uma noite toda.

Cem mil réis me vens pedir? A mim cem mil réis, demonia? Si eu algum dia os vi junctos, Deus m’os dê e tu m’os comas.