Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I
Part 10
Si eu nascêra Genovez, Ou fôra Viz-Rei de Goa Vinte e quatro de Sevilha, Ou quarent’oito de Roma:
Dera-te, minha Betica, Pela graça com que tomas, Mais ouro que vinte minas, Mais seda que trinta frotas.
Mas um pobre estudantão, Que vive á pura tramoia, E sendo leigo se finge Cleriguissimo corona:
Que póde, Betica, dar-te Sinão que versos, nem prosas? Eu não dou sinão conselhos, Si m’os paga quem m’os toma.
Si me ha de custar tão caro Erguer-te uma vez a roupa, Com outra antes de barrete, Do que comtigo de gorra.
Para que sendo tão rica Pedes como pobretona, Si esses teus dentes de prata Estorvam dar-se-te esmola?
Que mais cabedal deseja, Si és tão rica de perolas, Que com varios chistes pedes Todo um dia a mesma cousa?
Tu pedindo, e eu negando, Que cousa mais preciosa, Que val mais do que desejas, E a ti nada te consola.
Cem mil réis de uma só vez! Pois, pobreta, á outra porta: Deus te favoreça, irmã, Não ha trocado, perdoa.
Não ha real em palacio: Ando baldo; perdi a bolsa, Que são os modos com que Se despede uma pidona.
Á ANNICA
OUTRA SIMILHANTE PARDA PEDINDO-LHE UM CRUZADO PARA PAGAR UNS SAPATOS
ROMANCE
Um cruzado pede o homem, Annica, pelos sapatos, Mas eu ponho isso á viola Na postura do cruzado.
Diz que são de sete pontos, Mas como eu tanjo rasgado, Nem nesses pontos me metto Nem me tiro d’esses trastos:
Inda assim si eu não soubera O como tens trastejado Na banza dos meus sentidos, Pondo-me a viola em cacos:
O cruzado pagaria, Já que fui tão desgraçado, Que boli co’ a escaravelha, E toquei sôbre o buraco.
Porém como já conheço Que o teu instrumento é baixo, E são tão falsas as cordas, Que quebram a cada passo:
Não te rasgo, nem ponteio, Não te ato, nem desato, Que pelo tom que me tanges, Pelo mesmo tom te danço.
Busca outros temperilhos, Que eu já estou destemperado, E estou na quinta do Pegas Minhas cousas cachimbando.
Si tens o cruzado, Annica, Manda tirar os sapatos, E sinão lembre-te o tempo, Que andaste de pé rapado.
E andavas mais bem segura, Que isto de pizar em saltos É susto para quem piza, E a quem paga é sobresalto.
Quem te curte o cordavão Porque não te dá sapatos? Mas eu que te rôo o osso É que hei de pagar o pato?
Que diria quem te visse No meu dinheiro pizando? Diria que quem t’o deu Ou era besta, ou cavallo.
Pois porque não digam isso, Leve-me a mim São Fernando, Si os der, e si tu os calçares, Leve-te, Annica, o diabo.
De mais, que estou de caminho, E seria mui grande asno Estar para dar a sola, E a ti deixar-te os sapatos.
Agora si eu cá tornar, Trarei pelles de veado Para dar-te umas chinelas Duraveis, que é mais barato.
Fica-te na paz de Deus, Saudades até quando, Vem-te despedir de mim, Porque de hoje a oito parto.
A UMAS MOÇAS
QUE COSTUMAVAM IR A UMA ROÇA
ROMANCE
Vamos cada dia á roça, Si é que vai a camarada, Que ri e folga á franceza, E pinta á italiana. Vamos, e fiquemos lá Um dia ou uma semana, Que emquanto as gaitas se tocam Sabe a roça como gaitas. Vamos á roça inda que Nos fique em tantas jornadas Cada meia sem palmilha, E sem sola cada alparca. Vá Mané, e vá Marcella, Vá toda a nossa prosapia, Excepto a que por casar Não põe pé fóra de casa. Case e tão casada fique, Que nem para fazer caca Jamais o marido a deixe, Nem se lhe tire da ilharga. Case, e depois de casar-se Tanto gema, e tanto paira, Que caia em meio das dores Na razão das minhas pragas. Case, e tanto se arrependa, Como faz toda a que casa, Que nem para descasar-se A via da egreja saiba. E nós vamos para a roça Co’nosso feixe de gaitas, Até ver-me descasada, Para me rir de quem casa.
Á MULATA JOANNA GAFEIRA
ESTANDO QUEIXOSA DO POETA A HAVER SATYRISADO
ROMANCE
Não posso cobrar-lhes medo, Joanna, a vossos focinhos, Que como sois tão formosa, Cede á verdade o fingido. Tanta olhadura a travez, Tanto focinho torcido, Tanto pescoço empinado, Tanto esguelhado beicinho, São modos tão extrangeiros, Alheios e peregrinos Das perfeições naturaes Do vosso rosto divino, Que jámais podem fazer No meu peito amante e fino Retroceder as tenções, Nem arribar os designios. Sempre caminhando ávante, Nunca deixando o caminho, Ando atraz de ver si posso Chegar a vosso captivo. Si me ferraes esta cara Co’um favorzinho de riso, Me hei de rir de farto então Do mundo e seus regosijos. Hei de pôr-me a rir então De sorte que a riso fito Me hão de ter em todo o orbe Por Democrito dos risos. Olharei para a Beleta, E me rirei dos meninos, Que andam sempre a belisca-la Qual mono com seus bugios. Olharei para Apollonia, E de a ver entre os corrilhos De tanta canastra honrada, Que é a nobreza do sitio. Rirei de ver cada um Ir-se d’aqui despedido, Entonces mais carregado, Porque entonces mais vazio. A elles pelas estradas Suspirando pelo sitio, A ella pelos oiteiros Zombando de taes suspiros. A elles tomando o tolle Para o sertão fugitivos, Tanto fugindo dos amos, Como da conta fugindo. A ella por capoeiras Estreando co’ os meninos A baetinha dos pobres, A serafina dos ricos. Para a Ursula olharei, E rirei de a ver no Sitio Parafuzando pivetes Pela tarracha do embigo. Rirei de ver os amantes, Rirei de ver os queridos, Que tendo-se por ditosos, São em seus gostos mofinos. E só feliz eu serei, Si lógro os vossos carinhos, E me impingis nesta cara Da vossa bocca um beijinho. Tende-me na vossa graça, E a queixa se torne em riso, A malquerença em amor, E o desfavor em carinho.
Á DAMAZIA
OUTRA MULATA QUE CHAMAVA SEU UM VESTIDO QUE TRAZIA DE SUA SENHORA
ROMANCE
Muito mentes, mulatinha! Valha-te Deus por Damazia, Não sei quem, sendo tu escura, Te ensina a mentir ás claras. Tal vestido, e com tal pressa! Não vi mais ligeira saia: Mas como a seda é ligeira, Foi a mentira apressada. Tal vestido não é teu, Nem tu tens, Damazia, cara Para ganhar um vestido, Que custa tantas patacas. Tu ganhas dous, tres tostões Por duas ou tres topadas, Não chegam as galaduras Para deitar uma gala. Nem para os feitios chegam Os troquinhos que tu ganhas, Pois não vale o teu feitio Mais que até meia pataca. De soldado até sargento, Ou até cabo de esquadra, Não passa o teu roçagante, Não te chega a triste alçada. Estes que te podem dar Mais que uma vara de cassa, Uma cinta de baeta E saia de persiana; Collete de chamalote, E de vara e meia a fralda, Que fazem oito mil réis, Que é valor da pobre farda. Todos sabem que o vestido, Que em verdes campos se esmalta, É verdura de algum besta, Que em tua senhora pasta. Mas o que é d’ella teu é, Que é outra que tal jangada, E talvez por t’o emprestar Se ficaria ella em fraldas. Apostemos que não vestes Outra vez a verde saia! E nem de a vestires mais Te ficam as esperanças. Ora toma o meu conselho, E vive desenganada, Que emquanto fores faceira Não has de ganhar pataca.
Á UMA DAMA
POR NOME IGNACIA PAREDES
ROMANCE
Quiz ir a festa da Cruz Ignacia, e faltou-lhe a rede, Como que foi força ficar Paredes entre paredes.
Outros dizem que uma amiga Lhe pediu o manto adrede, Pela ter emparedada Todo o dia, em que lhe peze.
Não sei a verdade d’isto, Sei que eu paguei a patente, Tendo um dia de trabalho, Porque de festa lh’o désse.
A saber que estava em casa, Visitara-a como sempre, E fizera o que costumam Casados _in facie Ecclesiæ_.
Fôra-me pôr á janella, Porque o calor me refresque, Fallára co’as Guapas sujas, Que são limpas guapamente.
Marianna se agastára, Que tudo escuta e attende, Por isso diz o adagio: Manso, que ouvem as paredes.
Sabendo d’este ciume Foram as Guapas contentes, Que inda que mulheres feias, São feias, porém mulheres.
Ignacia se socegára, Que é moça mansa e alegre, E com dous mimos se põe, Sendo Ignacia, uma clemente.
Da sua amiga me queixo, Que cão de horta me parece, Pois em todo o dia nunca Comeu, nem deixou comer-me.
Com Ignacia já não quero Lançar mais barro á parede, Que de mui sêcca receio Que alli meu barro não pegue.
Uma mãe com duas filhas Na verdade é pouca gente, Para que eu possa cantar Prêso entre quatro paredes.
Tres só não fazem prisão, Porque um triangulo breve, Que um sino Salmão figura, Mais enfeitiça que prende.
Mas a parede de Ignacia, Com ser uma tão sómente, Como é tão forte e tão rija, Bastou só para prender-me.
Perdi o ganho essa tarde, E cuido que para sempre, Quem m’a pegou uma vez, Não quero que outra me pegue.
Da Sancta Cruz era a festa, E a maldicta da Paredes, Com cruz e sem cruz receio Me faça calvarios sempre.
Eu perdi moça que agrade, Ella velho que aconselhe, Ambos ficámos perdidos, Quem o vê que o remedeie.
Á UMA MOÇA POR NOME BARBARA
ROMANCE
Babú, como ha de ser isto? Eu me sinto já acabar, E estou tão intercadente, Que não chego té amanha. Morro da vossa belleza, E si ella me ha de matar, Como eu creio que me mata, Formosa morte será. Mas seja formosa ou feia, Si o Deão me ha de enterrar, Por mais formosa que seja, Sempre caveira será. Todos já aqui desconfiam, Tudo é já desconfiar, Da minha vida os doutores, E eu de vosso natural. Desconfio de que abrande Vosso rigor pertinaz; E a minha vida sem cura Sem duvida acabará; Porque si estaes incuravel, E tão sem remedio está O achaque de não querer-me, E o mal de querer-me mal: Que esperança posso eu ter, Ou que remedio ha capaz, Si vós sois a minha vida, E morreis por me matar? Amor é união das almas Em conformidade tal, Que porque estaes sem remedio, Por contagio me mataes. Curai-vos de mal querer-me, E do fastio em que estaes A minha triste figura, Que ao demo enfastiará. Comei, e seja o bocado, Que com gosto se vos dá, Porque em vós convalescendo, Hei de eu também melhorar. Assim sararemos ambos, Porque si vós me enfermaes Pelo contagio, o remedio Por sympathia será. Vós, Babú, viraes-me as costas, Pois eu faço outro por tal: Estou ás portas da morte, A falla me falta já. Quero fazer testamento, Mas já não posso fallar, Que vós por costume antigo Sempre a falla me quitaes. Mas testarei por acenos, Que tudo em direito ha, E si por louco o não posso, Posso por louco em amar. Todos meus bens, si os tivera, Os deixára a vós não mais; Mas deixo-vos para outrem, Que é o mais que posso deixar Si hei de deixar-vos a vós Quantos bens no mundo ha, Em vos deixar a vós mesma, Arto herdada assim ficaes. Em suffragios da minha alma Não gasteis o cabedal, Que aos vossos rigores feita Penas não ha de extranhar. Mas si por minhas virtudes, E si por vos jejuar, E si por tantas novenas, Que á vossa imagem fiz já, Vos mereço algum perdão Dos peccados que fiz cá, Assim em vos perseguir, Como em vos desagradar: Com as mãos postas vos peço Que no vosso universal Juizo mandeis minha alma Ao vosso Céu descançar Não a mandeis ao Inferno, Que arto inferno passou cá: Adeus, e apertae-me a mão, Que eu me vou a enterrar.
SATYRISA
ALLEGORICAMENTE A VARIOS LADRÕES DA REPUBLICA
ROMANCE
Hontem, Nise, á prima noite Vi sôbre o vosso telhado, Assentados em cabido, Cinco ou seis formosos gatos. Estava a noite mui clara, Fazia um luar galhardo, E porque tudo vos diga, Estava eu em vós cuidando. O presidente ou deão, Na cumieira assentado, Era um gato macilento, Barbirruço e carichato. Os demais em boa ordem, Pela cumieira abaixo, Lavandeiros de si mesmos, Lavavam punhos e rabos. Tão profundo era o silencio, Que não se ouvia um miau, E o deão interrompeu Dando um mio acatarrado. Tossiu, tossiu, e não pôde Articular um miau, Que de puro penitente Traz sempre o peito cerrado. Eis que um gatinho Reinol, Muito estitico e mui magro, Relambido de feições, E de tono afalcetado, Quiz por primeiro fallar, E fallára em todo o caso, Si outro gato casquiduro Lhe não sahira aos embargos. «Eu sou gato de um meirinho, Disse, que pelos telhados Vim fugindo a todo o trote Do poder de um saibam quantos. Com que venho a concluir Que servindo a taes dous amos, Hei de fallar por primeiro, Porque sou gato de gatos. Falle, disse o Presidente, Pois lhe toca por anciano, E elle tomando-lhe a venia Foi o seu conto contando. Em casa d’este escrivão Me criei com tal regalo, Que os demais gatos de casa Eram commigo uns bichanos. Mas cresci e aborreci, Porque se cumprisse o adagio Que official de teu officio Teu inimigo declarado. Foi-me tomando tal odio Porque foi vendo e notando, Que era eu capaz de dar-lhe Até no officio um gatazio. Topou-me em uns entreforros, E tirando-me porraços, Eu lhe miava os narizes, Quando elle me enchia os quartos. Fugi, como tenho dito, E me acolhi ao sagrado De uma vara de justiça, Que é valhacouto de gatos. Sahe meu amo aos prendimentos, E eu fico em casa encerrado Por caçador de balcões, Onde jejuo o trespasso. Porque em casa de um meirinho, Nas suas arcas e armarios, É quaresma toda a vida, E temporas todo o anno. Não posso comer ratinhos, Porque cuido, e não me engano, Que de meu amo são todos Ou parentes ou paisanos. Porque os ratinhos do Douro São grandissimos velhacos: Em Portugal são ratinhos, E cá no Brazil são gatos. Eu sou gato virtuoso, Que a puro jejum sou magro: Não como por não ter que, Não furto por não ter quando. E como sobra isto hoje Para me terem por sancto, Venho a pedir que me ponham No calendario dos gatos.» Acabada esta parlanda, Muito ethico de espinhaço Sôbre as moletas das pernas Se levantou outro gato, Dizendo: ha annos que sirvo Na casa de um boticario, Que a recipe de pancadas Me tem os bofes purgados. Queixa-se que lhe comi Um boião de unguento branco, E lhe bebi nessa noite Um cangirão de rhuibarbo. Diz bem, porque assim passou, Mas eu fiquei tão passado, Como de tal solutivo Dirá qualquer matasanos. Fiquei de humores exangue, Tão escorrido e exhausto, Que não sou gato de humor, Porque nem bom, nem máu gato. Supplico ao Senhor Cabido Que de um homem tão malvado Me vingue com ter saude, Por não gastar-lhe os emplastos.» Apenas este acabou, Quando se ergueu outro gato, E entoando o _jube domine_, Disse humilde e mesurado: «Meu amo é um alfaiate Gerado sobre um telhado Na maior força do inverno, Alcoviteiro dos gatos. É pardo rajado em preto, Ou preto embutido em pardo, Malhado ou já malhadiço Do tempo em que fôra escravo: Tão caçador das ourellas, Tão murador dos retalhos, Que com onças de retroz Brinca qual gato com rato. E porque com fio e meio Joguei o sapateado, Houve de haver por tão pouco Uma de todo’ os diabos. Estrugiu-me a puros gritos E plantou-me no pedrado, Que elle pelo cato é cão, E eu fiquei gato por cabo. Que de verdades dissera, A estar menos indignado! Que para fallar de um cão É mui suspeitoso um gato. Pelo menos quando eu corto, Nunca dobro a téla em quatro, Por dar um córte a seu dono E outro a mim pelo trabalho. Nem menos peço dinheiro Para retroz, e o não gasto, Porque o gavetão do cisco Me dá o retroz necessario. Não sizo covado e meio Por dar um collete ao diabo, Nem vendo de téla fina Retalhinhos de tres palmos. Tudo emfim se ha de saber No universal cadafalso, Que no tribunal de Deus Não se estylam Secretarios. Requeiro a vossas mercês Que me ponham com outro amo, Porque com este hei de estar Sempre como cão com gato.» «Á vista d’este alfaiate, Disse o Cabido espantado, «Somos nós gatos mirins, Que inda agora engatinhamos. O gato tome amo novo Em qualquer convento honrado, Seja fundador Barbonio, Ou Sacristão mór do Carmo.» A proposito do que Se foi erguendo outro gato, E amortalhado de mãos Armou os hombros em arco. E dizendo o _jube domine_, Se poz em terra prostrado, E eu disse logo: «me matem, Si não é dos Franciscanos.» «Sou gato de refeitorio, Disse, ha tres ou quatro annos Pagem do refeitoreiro, Do despenseiro criado. Fui custodio da cozinha, E dei má conta do cargo, Porque sizando rações Fui guardião de tassalhos. Era eu em outro tempo Mui gordo e mui anafado, Porque os da esmola então vinham Despejar em casa os saccos. Mas hoje que já da rua Vêm os bolsos despejados, Veiu a ser o refeitorio Uma Thebaida de gatos. Não póde o pão das esmolas Manter tantos remendados, Que em lhe manter as amigas Sendo infinitas, faz arto. Dei com isto em tizicar-me E esburgar-se-me o espinhaço, Não tanto já de faminto, Quanto de escandalisado. Não posso viver entre homens, Que, si remendam uns pannos, É mais por nos enganar Que porque lhes dure o anno. E hoje que na Casa Nova Gastam tantos mil cruzados, São gatos de maior dura, Pois de pedra e cal são gatos.» Palavras não eram ditas, Quando zunindo e silvando Sentiram pelas orelhas Um chuveiro de bastardos. E logo atraz d’isso o tiro De um bacamarte atacado, Que disparou de um quintal Um malfazejo soldado. Descompoz-se-lhe a audiencia, E cada qual por seu cabo Pela campanha dos ares Foram de telha em telhado. E depois que legua e meia Tinha cada qual andado, Parando olharam atraz Attonitos e assustados. E vendo-se desunidos, Confusos, desarranchados, Usaram da contra senha, Miáu aqui, alli miáu. E depois que se ajunctaram, Disse um gato castelhano: «Cada qual a sua cabana, Que hoje de boa escapámos.» Choviscou naquelle instante, E safaram-se de um salto, Porque sempre de agua fria Ha mêdo o gato escaldado.
AO PADRE DAMASO DA SILVA
ROMANCE