Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I

Part 11

Chapter 113,594 wordsPublic domain

Damaso, aquelle madraço, Que em pés, mãos e mais miudos, Pode bem dar seis e az Ao maior Frizão de Hamburgo: Cuja bocca é mentideira, Onde acode todo o vulgo, A escutar lá sobre a tarde As mentiras como punhos: Mentideiro frequentado De quantos Senhores burros Perdem o nome de limpos, Pela amizade de um sujo: Cuja lingua é Relação, Onde acham os mais puros Para accusar um fiscal, Para cortar um verdugo. Zote muito parecido Aos vicios todos do mundo, Pois nunca os alheios corta Sem dar no seu proprio escudo. Sancto Antonio de baeta, Que em toda a parte do mundo Os casos, que succederam, Viu e foi presente a tudo. O padre papa-jantares, Hospede tão importuno, Que para todo o banquete Traz sempre de trote o buxo. Professo da Providencia, Que sem logar bazaruco Para passar todo um anno Nem dous vintens faz de custo. Que os amigos o sustentam, E lhe dão como de juro O jantar, quando lhes cabe A cada qual por seu turno. E essa vez que tem dinheiro, Que é de sete em sete lustros, Tres vintens com um tostão, Ou dois tostões quando muito: Com um vintem de bananas, E de farinha dois punhos, Para passar dia e meio, Tem certo o pão e o conducto. Lisonjeiro sem recato, Adulador sem rebuço, Que por papar um jantar De um sacristão faz um Nuncio, De um tambor um general, Um branco de um mameluco, De uma sanzala um palacio, E um galeão de um pantufo. E em passando a occasião, Tendo já repleto o buxo, Desanda cu’a taramella, E a todos despe de tudo. Outro Satyro de Esopo, Que co’o mesmo bafo astuto Esfriava o caldo quente, E aquentava o frio punho. O Zote que tudo sabe, O grande jurisconsulto Dos litigios fedorentos D’esta cidade monturo. O Bartolo de improviso, O subitaneo Lycurgo, Que anoitece um sabe nada E amanhece um sabe tudo. O lettrado gratis dato, E o que com saber infuso Quer ser legista sem mestre, Canonista sem estudo. O graduado de douto Na Academia dos burros, Que é brava Universidade Para doutorar brunduzios. Magano sem repugnancia, Desaforado sem susto, Intromettido sem risco, E sem desar abelhudo. Fraquissimo pelas mãos, E valentão pelo vulto, No corpo um grande de Hespanha, No sangue escoria do mundo. Este tal, de quem falamos, Como tem grandes impulsos De ser baptiza-crianças Para ser soca-defunctos; E a Magestade de El-Rei Tem já com mil esconjuros Ordenado que o não collem, Nem a uma egreja de junco: Elle por manter desejos Foi-se ao adro devoluto Da Senhora do Loreto, Onde está parocho intruso. Ouvir é um grande prazer, E ver é um gosto summo, Quando diz: os meus Freguezes--, Sem temor de um abrenuncio. Item é um gosto grande, Nas manhãs em que madrugo, Vê-lo repicar o sino Para congregar o vulgo. E como ninguem acode, Se fica o triste mazullo Em solitaria estação Dizendo missa aos defunctos. Quando o Frizão considero, O menos que d’elle cuido É ser parocho boneco, Feito de trapos immundos. Isto sois, minha Bahia, Isto passa em vosso burgo, Toda sois, burgo rural, Cidade nobre até os muros.

Á BENTO PEREIRA

ROMANCE

Amigo Bento Pereira, Que em todo o nosso Brazil Sois homem de muitas prendas, Tendo tão pouco quatrim. Assim agradára eu A quatro villões ruins, A quem nesta terra enfado, Como me agradais a mim. Vós sois um homem honrado De generosa raiz, Nobre com ventosidade, Honrado com retintins. Sois galan com artificio, Aceiado com ardil, Só vós sois homem honrado, Os de mais homens gentis. Todo o mundo vos quer bem, Porque tendes, e é assim, Cara de ter mil amigos. Mil amigos? mais de mil. Sois muito leal com todos, Cousa que não se usa aqui, Por isso sois mal servido De quantos sabem servir. Empeçou-vos a fortuna, Que a fortuna é villão ruim, Para os seus sempre a chegar-se, E de vós sempre a fugir. Agradais-me dentro d’alma, Que como eu tambem cahi, E os similhantes se amam, Por similhante vos quiz. Tende-me em conta de amigo, E tereis sempre de mim Excessos de par em par, Finezas de mil em mil.

AOS CAVALLEIROS

QUE CORRERAM NA FESTA DAS VIRGENS NO ANNO DE 1685, PRIMEIRO DO GOVERNO DO MARQUEZ DAS MINAS

Clori, nas Festas passadas, Que ás virgens são off’recidas, Houve quadrilhas corridas Parentas de envergonhadas: Porém estas realçadas Vi neste anno derradeiro; Pois na esphera do Terreiro Apparecia um Brandão, Que correndo exhalação, Acabava cavalleiro.

Com estas apparições De cometas tão luzidos Nos Mirões espavoridos Eram tudo admirações: Em maximas conjuncções De ouro, de prata e mil côres, Notei que os festejadores Faziam com graças summas, No ar um jardim de plumas, E na terra um mar de flôres.

Sua Excellencia[3] assistia, O Conde[4] e toda a nobreza, E os padres por natureza Lhes faziam companhia: Estava sereno o dia, A esphera toda anilada, A agua do mar estanhada, Brando o vento e lisongeiro; E com tudo no Terreiro Houve grande carneirada.

[3] Marquez das Minas.

[4] Conde do Prado.

Emfim, que a festa passada Tão cheia de cavalleiros Si a fizessem de barbeiros Não seria mais sangrada: Alli vi dar cutilada, Que todo o ventre dissipa Do bruto que a participa, E eu disse pasmado e absorto Que a Catana era do Porto, Por rilhar sempre na tripa.

Logo na primeira entrada Houve jogo de manilha, Que para isso a quadrilha Pelo Lindo era pintada: Quem lhe dava uma encontrada, E quem na ponta a levava, Tudo então nos agradava, Pois conforme ouvi julgar Alli entre dar e levar Pouca vantagem se dava.

Cada qual sem mais tardança Á dama, a quem mais se applica, Levou na ponta da ... O que ganhou pela lança. Até o padre Hortalança, Digo, o conego Gonçalo, Se logrou d’este regalo: E eu só na baralha ingrata Não vi manilha de prata, Que na de ouro já não fallo.

Ao Marinho generoso O dia franco e escasso Concedeu-lhe o galanaço, Recatando-lhe o ditoso; E visto que por airoso É o Adonis da quadrilha, Zundú se lhe rende e humilha, Dando-lhe, porque o conforte, No cravo a primeira sorte E a segunda na manilha.

Barreto alheio de susto, Que não implica ha mostrado Nem ao forte o asseado, Nem ao galante o robusto; Luzimento á pouco custo, Bom ar sem affectação, Foi julgado em conclusão Que a destreza o não desvela, Pois sem cuidado na sella Cahia no caprazão.

Muito Euzebio se desvella Em correr mais que ninguem, E por correr sempre bem Nunca se assentou na sella; Como ha de assentar-se nella, Si correr só pretendia? Tão propriamente o fazia Que porque estar e correr Não podem junctos caber, Não se assentava, corria.

O valeroso Moniz Em gala, cavallo e arreio Quanto ganhou pelo asseio, O perdeu pelo infeliz; O que eu vi e a terra diz É que de muito adestrado Andou tão avantajado, Que a voz do povo levou: Com que desde então ficou O povo mudo e pasmado.

Outro Moniz valentão O fez tão perfeitamente, Que sendo em sangue parente, Era na destreza irmão: Pelo forte em conclusão Deixou de si tal memoria, Para sua e nossa gloria; Mas deixando aos mais em calma, Fez pouco em levar a palma Quem é filho da Victoria.

Do Bolatim a cavallo Dizia o povo gostoso Que era da festa o gracioso, E eu digo, que era o badalo, Quem chegou á pondera-lo Correndo sobre a rocina, Revirar a culatrina, Pernil aberto para o ar, A que o póde acommodar Mais que a um sino que se empina.

Ao Araujo famoso No principio da carreira Resveiou-lhe a dianteira O cavallo de furioso; Cego, arrojado e fogoso Entre uns Baetas metteu-se, Quem sentado estava ergueu-se, Porém o baixel violento, Como ia arrazado em vento Deu nuns bancos e perdeu-se.

Cahido o moço infeliz Houve grita e alarido, Sendo que cabe o entendido Em tudo o que se lhe diz; Ergueu-se em menos de um triz, E pondo-se na vereda Correu com cara tão leda, Que causou admiração Em todos, porque já então Tinha elle com todos queda.

Um sobrinho do Frizão Ao cheiro acudiu dos patos, Porque é em publicos actos Muito ouzado um patifão; Prezea a redea a um arpão, Nos estribos dous arpeus, Puz eu os olhos nos céus, E disse que bem podiam Louvar a Deus os que viam A cavallo um louva-Deus.

Uma aguilhada por lança Trabalhava á meio trote, Qual servo de dom Quixote, A quem chamam Sancho Pança; Na cara infame confiança, Na sella infame perneta, E com tramoia secreta Eia sôbre o seu jumento Pelo arreio e nascimento Á bastarda e á gineta.

Elle andou tão desastrado, Que para dar-lhe sentido, O cavallo era o corrido E elle o desavergonhado; Estava o Frizão pasmado De gosto babando o freio, Por ser de razão alheio Vêr-se com tão pouco abalo Não no centeio o cavallo, Mas no cavallo o centeio.

A este filho universal, Com tres paes e tres padrastos, Todo vestido de emplastos Se emprestado o mesmo val; Se seguia um sigarral, De quem tomaram modelos Para a corcova os camellos Cuja perna dobradiça Sempre a memoria me atiça Da rua dos Cotovellos.

No menino Ascanio fallo, Que o pae Eneas a murro, Devendo de o pôr num burro, O mandou pôr a cavallo; Este menino ia ao gallo, E encontrou-se co’a galhofa, Onde servira de mofa Os dias, que alli gastára, Si um braço lhe não quebrára, E mandaram numa alcofa.

Lá vem o Chico ás carreiras, Dando esporadas crueis; Numa sella de alambeis, Vestido de bananeiras; Nas laranjadas primeiras Teve tão adversa estrella Que foi cahir na esparrella, Não como rôla em verdade, Porque queda foi de frade, Pois logo agarrou da sella.

Ás festas não deu desmaio Nenhum d’estes entremezes, Que não ha ouro sem fezes, Nem comedia sem lacaio: Qualquer correu como um raio, E fez sua obrigação, Excepto o boi do sertão, Sendo que alguem lhe cubiça O resistir á justiça, E dar co’ a forca no chão.

O lindo Eusebio da Costa, Escrivão das Onze mil, Por assombrar o Brazil, Fez tudo de sobre a posta; C’os passados deu á costa, E excedeu á toda a lei, E assim eu sempre direi Hoje, em toda a occasião, Que o ser por casta Reimão, Lhe vem por ter mão de Rei.

Á CAVALLARIA

DA FESTA DAS VIRGENS NO TEMPO DO GOVERNO DE D. JOÃO DE ALENCASTRE, SENDO JUIZ GONÇALO RAVASCO CAVALCANTE DE ALBUQUERQUE

Foi das Onze mil donzellas Juiz o juiz mais nobre De quantos no Brazil cobre O manto azul das estrellas: Nesta festa sem cautellas Gastou com liberal mão; E para mais devoção Usar de escrivão não quiz, Sendo o primeiro juiz Que serviu sem escrivão.

Bem mostra que de Bernardo Tem herdado o natural, Além de ser principal O seu amigo galhardo: Applausos grandes aguardo, E de Camena melhor, Que publiquem seu primor, Que a minha Thalia nova Hoje admirações approva Por mais heroico louvor

Seis dias de cavalleiros Houve com bastante graça, Foram bons e maus á Praça Em ginetes e sendeiros: Tambem houve aventureiros Premios e mantenedor, Touros que foi o melhor: Porém sem ferocidade, Que os touros nesta cidade Não são de muito furor

E pois eu chronista sou D’esta gran festividade, Tenho de fallar verdade E dizer o que passou: Agaste-se quem andou Mal, que á mim se me não dá; Sem saber não fôra lá; E si lhe der isto espanto, Quando eu fizer outro tanto Tambem de mim fallará.

Bem sei que é culpa fatal, E contra a razão sossobra Dizer mal de quem bem obra, E bem de quem obra mal: Mas nesta festa cabal Com meu fraco entendimento, Aos cavalleiros intento Julgar sem odio nenhum, Applaudindo á cada um Conforme o merecimento.

Nestes dias festivaes Com summa gala e grandeza, Assistiu toda a nobreza Dos homens mais principaes, Ministros, officiaes De guerra e damas mui bellas, Que em palanques e janellas Mostravam com arrebol, Que estando alli posto o sol,[5] Bem podiam ser estrellas.

[5] Refere-se ao governador.

Posto o sol alli se via, Porém com notavel gosto, Quando vi que era o sol posto Mais o Terreiro luzia: Dois soes[6] postos na Bahia Vi com differença atroz Um Saturno que se poz, Outro posto na janella Sol de luz mais clara e bella, Que hoje nasce para nós.

[6] Allude aos dois governadores d. J. de Aloncastre e Camara Coutinho, que se achavam presentes.

Desterrando sombras mil De um sol que causou desmaios, Nasce com benignos raios Este sol para o Brazil: Oh quem tivera a subtil De Apollo lyra discreta, Da fama a aguda trombeta, Para que pudesse ousado, Sem temor, nem perturbado Descrever este planeta.

Mas é fraco o meu engenho Para de um sol sem desmaios Querer ventilar os raios Quando olhos de aguia não tenho: E si a tão sublime empenho,

Onde o mais sabio delira, Meu pensamento subira, Logo d’essa esphera clara Como Phaetonte rodára, Ou como Icaro cahira.

Quando o planeta maior Á vista humana se expõe, É que a seus raios se oppõe Atrevido algum vapor: E si neste sol melhor Nenhuns eclypses se vêm, Não se atreverá ninguem Sem ter de nescio desmaios Querer contemplar os raios Esclarecidos que tem.

Quando da esteril mulher Nasceu o maior do mundo Admirações e profundo Pasmo veiu a gente a ter: E si com João nascer Houve tanta admiração, Á Bahia outro João, Sol de claro nascimento Nasce com merecimento Para a mesma suspensão.

E como não pasmarei Eu, e este povo tambem, De ter por General, quem Sceptro merece de rei? Pois a ventura e a lei Divina dispoz, senhor, O seres Governador, Com tudo sabemos nós, Que um foi de vossos avós De Pedro progenitor.

D’aquelle em tudo primeiro João era nada segundo Sois, e bem conhece o mundo, Descendente verdadeiro: Tambem da Casa de Aveiro Muita nobreza alcançaes: Alencastre vos chamaes, De Duarte Inglez potente Clarissimo descendente: Silva sois, não digo mais.

Com branca e encarnada pluma Galan vestido de verde, Que inda a esperança não perde Do Neto da clara espuma: Capitão de graça summa André Cavallo sahiu: Logo o povo se sentiu; Porque de incidente novo Os olhos levou do povo Quando no Terreiro o viu.

Num branco bruto corria Mais ligeiro do que o vento, Tanto que c’o pensamento Correr parelhas podia: Veloz desapparecia Das pernas ao leve abalo, E não podia julga-lo O povo que alli se achava, Si era vento que levava Pelos ares o Cavallo.

Poz André com bizarria Todas as lanças mui bem, E inda assim não faltou quem Murmurasse todavia. Soube elle da zombaria, Que se fez e presentiu Quem fôra o que alli se riu, E no outro dia com brio Um cartel de desafio Fixou, mas ninguem sahiu.

No cartel que poz, mostrava Que a qualquer que se julgassem Tres lanças que se tirassem, Mil cruzados offertava: O delinquente acceitava O desafio esta vez, Porém que sem interêz Com gosto perder queria Nesta contenda e porfia Não só mil cruzados, tres.

Pede licença ao senhor, Que no nome a graça traz; Mas elle como sagaz O aconselha com primor: Diz-lhe que fôra melhor Esta contenda escuzar; Porém o mancebo alvar, Fiado em ser cavalleiro E fiado em ter dinheiro, Não quiz o pacto acceitar.

Porque se não vence não; Dizia o moço magnata, Nem por ouro, nem por prata O seu sangue de Aragão; E vendo o senhor dom João Que si a licença negava A André Cavallo ultrajava, Pois podiam presumir, Si ao Campo o não vissem ir, Que o dinheiro lhe faltava.

Lhe disse que não só tres Si corressem mil cruzados, Si não que depositados Tinha André Cavallo dez: Mas o moço Aragonez Vendo esta resolução, Por temer a perdição, A que punha o seu dinheiro, Toma conselho primeiro Co’o reverendo Frizão.

O padre, que sem estudo As leis entende civis, E com manhosos ardis Obra mal e entende tudo; Lhe diria mui sizudo Com aspecto venerando, Rindo-se de quando em quando, Que assim seus enganos lavra: «Não se lhe dê da palavra, Diga que estava zombando.»

Assim foi que o desafio Veiu a parar em burrada, Que a palavra não val nada, Si na occasião falta o brio: E para que com desvio Não fossem mais inimigos, Evitando alguns perigos, Em boa paz os chamou O General e tractou De que ficassem amigos.

Depois das pazes, emfim Lhes pediu que cavalgassem, E um par de lanças tirassem Cada qual em seu rossim: Elle lhe disse que sim, E de improviso avisou Ao irmão que não tardou Com trazer-lhe bons arreios, Cavallos, sellas e freios, E com elles se embarcou.

Num dia dos derradeiros Ao Terreiro os dous chegaram, E ambos se separaram Logo dos mais cavalleiros: Cuidam que são os primeiros Fidalgos que a terra tem; E nescios não antevem Que diz o povo, e não erra, Que são Fidalgos da Terra, E outros na Terra ha tambem.

Empinou-se-lhes a Ruça, E de quatro companheiros, Sem mais outros cavalleiros, Fizeram a escaramuça: O General se debruça, Para mette-los bem nella, Na janella com cautela; Porém usou de revoltas, Porque mettendo-os nas voltas, Mandou fechar a janella.

A escaramuça acabada Fizeram a cortezia, E todo o povo seria Vendo a janella fechada: Nas voltas não viram nada; Que com notavel trabalho No ay hombre cuerdo á cavallo; Porém depois que acabaram, E o General não acharam, Ficaram de vinha d’alho.

Com rostos descoloridos, Desesperados agora Iam por dentro e por fóra Da propria côr dos vestidos: Os que são desvanecidos E, sem prudencia e razão, Presumem mais do que são, Emendem seus pensamentos, Que para seus desalentos É vivo o senhor d. João.

Não presumam porque tem, Que são mais que os pobres, nobres, Pois ha muitos homens pobres Mui bem nascidos tambem: Ao pequeno não convém Por pequeno desprezar, Que si este quizer fallar, Achar póde algum defeito, Que nenhum ha tão perfeito Em quem se não possa achar.

Seguia-se um cavalleiro Ao famoso André Cavallo, Que levou sem intervallo De cada golpe um carneiro: Tambem foi aventureiro De um premio, mas com defeito Dava ao corpo um grande geito, E ficou passado e absorto De que fosse ao premio torto E o premio a outro direito.

Ao famoso Braz Rabello Razão é de mestre o apode, Pois dar dias sanctos póde Nesta arte ao que fôr mais bello; E si com louco desvelo, Do que digo algum se abraza, Attenda á razão que é raza, E verá se faz espantos Que dar possa os dias sanctos Quem tem Domingas de Casa.

Nas lanças que poz mui bem Teve de premios ganança, E certo que pela lança Não o ha de vencer ninguem: Dos cavalleiros que tem Modernos hoje a Bahia Leva Braz a primazia, Porque não ha nesta Praça Quem se ponha com mais graça, Fortaleza e bizarria.

Tambem aquella fatal Emulação de Mavorte, Para os inimigos forte, Para os amigos leal; Applauso merece egual; Pois nesta cavallaria Si aos mestres não excedia Por mais antigos nesta arte, Aos modernos nesta parte Elle leva a primazia.

Tambem no Machado fallo, Que é razão por elle accuda, Pois sempre ao Cavallo ajuda, Mas não o ajuda o Cavallo: Inda assim posso louva-lo Dando-lhe varios apodos, Porque conheço em seus modos, E mui bem posso affirmar Que nisto de cavalgar Leva vantagens á todos.

Em mau cavallo corria, Mas um premio mereceu: Veja-se quem o perdeu Que cavalleiro seria? Aposto que alguem diria, Vendo que ás carreiras passa Sem fortaleza, nem graça, Que o moço com seu sendeiro É nos fumos cavalleiro, Porém não cá para a Praça.

Outro cavalleiro airoso Andou na festividade, E vi na velocidade Com que corre ser Velloso; Por cavalleiro famoso O povo o acclamou de novo, E eu só admirando o louvo, E acho discrição calar, Porque é escusado fallar Quando por mim falla o povo.

O Ricardo valeroso Andou bem, porém sem sorte, Porque tem pouco de forte, Si bem tem muito de airoso: Perdeu pouco venturoso, Mas sem nenhum sentimento, Um premio que Braz attento Ganhou; porque não se atreva Á aquillo que tambem leva Com as palavras o vento.

CHEGANDO O MARQUEZ DAS MINAS

A GOVERNAR O ESTADO COM O CONDE DO PRADO SEU FILHO, TRACTOU LOGO DE ALLIVAR OS MAGNATES DA BAHIA, CHAMANDO-OS DO DESTERRO EM QUE PADECIAM, AMEDRONTADOS DO SEU ANTECESSOR PELA MORTE QUE OUTROS DERAM AO ALCAIDE MÓR FRANCISCO TELLES, E POR ACÇÃO DE GRAÇAS LHE FEZ O SECRETARIO DE ESTADO BERNARDO VIEIRA RAVASCO ESTA DECIMA, QUE O POETA GLOZOU COM OS PRIMORES COSTUMADOS METAPHORICAMENTE

DECIMA

De flores e pedras finas Floresce e enriquece o Estado, Floresce sim pelo Prado, E enriquece pelas Minas[7]: As aves que peregrinas Aos montes se retiraram, Nesta manhã já cantaram Com tão doce melodia, Que a noite se tornou dia Porque as penas se acabaram.

[7] Refere-se ao conde do Prado e ao marquez das Minas.

GLOZA

Já da primavera entrou A alegre serenidade, Com que toda a tempestade Do triste inverno acabou: Já Saturno declinou Nas operações malignas: Com influencias benignas Jupiter predominante Nos promette anno abundante De flores e pedras finas.

Si d’estes aspectos taes Bem se calcula a figura, Teremos grande fartura, Não ha de haver fome mais: Mostras temos e signaes De um tempo muito abastado: Porque bem considerado D’elle tem o proprio effeito, Já vemos que a seu respeito Floresce e enriquece o Estado.

Para ser enriquecido Este Estado e florescente, Temos a causa patente No planeta referido: Não se equivoque o sentido No effeito aqui declarado, Porque sendo bem notado, O Estado (como parece) Si pelo mais não floresce Floresce sim pelo Prado.