Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I
Part 12
Pelo Prado flôr á flôr Se vai a terra esmaltando, Com que o clima está mostrando Temperamento melhor: Do luminar superior Por taes influencias dignas, Sendo as pedras o boninas Da terra unicos primores, Pois se esmalta pelas flores E enriquece pelas Minas.
Na terra já se experimentam Virações tão temperadas, Que as aves exterminadas Tornar aos ninhos intentam: Já não sentem, não lamentam Tempestuosas ruinas; Pois com salvas matutinas Se mostram tão prasenteiras, Que mais parecem caseiras As aves que peregrinas.
Sua peregrinação Influxo foi de Saturno, Planeta sempre nocturno, E muito importuno então: Todas nessa conjuncção Si os doces ninhos deixaram, E tanto se receiaram Do nocivo temporal, Que escolhendo o menor mal Aos montes se retiraram.
Porém tanto que sentiram Haver no tempo mudança Sem receio e sem tardança Aos ninhos se reduziram: Outros ares advertiram, Outra clemencia notaram, Com que alegres publicaram Dos astros os movimentos, E com festivos accentos Nesta manhã já cantaram.
Cantaram para mostrar Com repetidas cadencias Singulares excellencias De um planeta singular: Tal doçura no cantar Não se ouviu nesta Bahia, Ouvindo-se na harmonia Modulações tão suaves, Que nunca cantaram aves Com tão doce melodia.
Cada qual com voz sonora Nos mottetes que cantaram, Por mil modos explicaram De todo o Estado a melhora: Cada instante e cada hora A musica mais se ouvia, No Prado resplandecia Por modo maravilhoso Um lustre tão luminoso, Que a noite se tornou dia.
Entre as aves modulantes, Que este nosso paiz tem, Todas cantaram o bem De que são participantes: Dos males que foram antes Todas tambem se queixaram; Assim que todas mostraram Com alegrias notorias Que começaram as glorias Porque as penas se acabaram.
A UNS CLERIGOS
QUE INDO AO EXAME DO CANTOCHÃO PARA ORDENS SACRAS NA PRESENÇA DO ARCEBISPO D. JOÃO FRANCO DE OLIVEIRA, DESAFINARAM PERTURBADOS
Senhor, os padres d’aqui Por b quadro e por b mol Cantam bem re mi fa sol, Cantam mal la sol, fa mi: A razão que eu nisto ouvi, E tenho para vos dar, É que como ao ordenar Fazem tanto por luzir, Cantam bem para subir, Cantam mal para baixar.
Porém como cantariam Os pobres perante vós? Tão bem cantariam sós, Quão mal onde vos ouviam: Quando o fa bordão erguiam Cada um parece que berra, E si um dissona, outro erra, Mui justo me pareceu, Que sempre á vista do céu Fica abatido o que é terra.
Os padres cantaram mal, Como estava presupposto, E inda assim vos deram gosto, Que eu no riso vi o signal: Foi-se logo cada qual Direito ás suas pousadas, Á estudar nas taboadas Da musica os sete signos, Não por cantar a Deus hymnos, Mas por vos dar badaladas.
Vós com voz tão doce e grata Enleastes meus sentidos, Que ficaram meus ouvidos Engastados nessa prata: Tanto o povo se desata Ouvindo os vossos esp’ritos, Que com laudatorios gritos Dou em fé que uma donzella Disse, qual outra Marcella, O Cantico Benedictus.
EPISTOLA AO CONDE DO PRADO
ROMANCE
D’aqui d’esta praia grande Onde á cidade fugindo, Conventual das arêas Entre mariscos habito: A vós, meu conde do Prado, A vós, meu principe invicto, Illustrissimo Mecenas De um poeta tão indigno, Enfermo da vossa ausencia, Quero curar por escripto Sentimentos, saudades, Lagrimas, penas, suspiros. Ausentei-me d’esta Terra, Porque esse povo maldicto Me poz em guerra com todos, E aqui vivo em paz commigo. Graças a Deus que não vejo Neste meu doce retiro Hypocritas embusteiros, Velhacos intromettidos. Não me entram nesta palhoça Visitadores prolixos, Politicos enfadonhos, Ceremoniosos vadios. Visitam-me o lavrador Sincero, simples e liso, Que entra co’a bocca fechada, E sahe co’o queixo cahido. Dou na varanda um passeio, Ouço cantar passarinhos Docemente, ao que entendo, Excepto a lettra e tonilho. Vou-me logo para a Praia, E vendo os alvos seixinhos, De quem as ondas murmuram, Por mui brancos e mui limpos, Os tomo em minha desgraça Por exemplo expresso e vivo, Pois eu por limpo e por branco Fui na Bahia mofino. Queimada veja eu a Terra Onde o torpe idiotismo Chama aos entendidos nescios, E aos nescios chama entendidos. Queimada veja eu a Terra, Onde em casa e nos corrilhos Os asnos me chamam asno; Parece cousa de riso. Eu sei de um clerigo Zote, Parente em grau conhecido D’estes que não sabem musa, Mau grego e peior latino, Ambicioso avarento, Das proprias negras amigo, Só por levar a gaudere O que aos outros custa gimbo; Que si acaso em mim lhe fallam Torcendo logo o focinho, «Não me fallem neste asno», Responde em todo o seu sizo. Tambem sei que um certo Beca, No Pretorio presidindo, Onde é salvage em cadeira, Me pôz asno de banquinho. Por signal que eu respondi A quem me trouxe este aviso, Si fôra asno, como eu sou, Que mal fôra á esse ministro. Era eu em Portugal Sabio, discreto, entendido, Poeta, melhor que alguns, Douto como os meus vizinhos. E chegando á esta Terra, Logo não fui nada d’isto, Porque um direito entre tortos Parece que anda torcido. De noite vou tomar fresco E vejo em seu epicyclo A lua desfeita em quartos, Como ladrão de caminhos. Faço versos mal limados Á uma moça como um brinco, Que hontem foi alvo dos olhos, E hoje é negro dos sentidos. Esta é a vida que passo, E no descanso em que vivo, Me riu dos Reis de Hespanha Em seu celebre Retiro. Si à quem vive em solidão Chamou beato um gentio, Espero em Deus que hei de ser Por beato inda bemquisto. Mas aqui e em toda a parte Estou tão offerecido Ás coisas do vosso gosto, Como ás do vosso serviço.
Á TRES FREIRAS
DO CONVENTO DA ROSA, TODAS IRMÃS, A QUEM OUVIU O AUCTOR CANTAR, E A UMA TANGER RABECÃO
Clara sim, mas breve esphera Ostenta em purpureas horas As mais bellas tres Auroras, Que undoso o Tejo venera; Tantos raios reverbera Cada qual quando amanhece Nas almas á que apparece, Que não foi muito esta vez, Que sendo as Auroras tres, Pela tarde amanhecesse.
Clara na brancura rara E de candidez rica, Com ser freira Dominica, A julguei por freira Clara; Tanta flor, á flor da cara Dada em tão varias maneiras, Que entre as cinzas derradeiras Jurou certa maripoza, As mais por freiras da Rosa Clara por Rosa das freiras.
Branca si por varios modos Airosa o arco conspira, Inda que a todos atira, É Branca o branco de todos; Mas deixando outros apodos Dignos de tanto esplendor, Vibrando o arco em rigor Parece em traje fingido Venus, que ensina a Cupido Atirar settas de amor.
Maria a imitação Por seu capricho escolheu, Ser freira branca no véu, Já que as mais no nome o são; E em tão candida união Com as duas irmãs se enlaça, Que jurada então por graça, Chove-lhe a graça em maneira, Que sendo a Graça terceira, Não é terceira na graça.
Entoando logo um solo Em consonancia jocunda Prima terceira e segunda, A lyra formam de Apollo; Vaguei um e outro polo, Mas foi diligencia vã, Porque a cara mais louçã Cotejando-a nas brancuras Com as tres irmãs formosuras, Não vi formosura irmã.
Vendo tão raros primores, Para em retrato adorar-vos, Tractaram de retratar-vos Estes meus versos pintores; E me tendo já de côres Essas vossas luzes puras Entre metricas pinturas Ficam, de muito emendados, Meus versos os retratados, E não vossas formosuras.
Á DUAS MOÇAS PARDAS
Altercaram-se em questão Thereza com Mariquita Sôbre qual é mais bonita, Si Thereza, si Assumpção: Eu tomo por conclusão Nesta questão altercada, Que Assumpção é mais rasgada, E Thereza mais senhora, E o galante que as namora Verá a conclusão provada.
Si Thereza é mui bonita, Mulata guapa e bizarra, Com mui bom ar se desgarra A mestiça Mariquita: Ninguém á uma e outra quita Serem lindissimas cambas, E o Cupido, que d’entre ambas Quizer escolher a sua, Escolha vendo-as na rua, Que eu para mim venero ambas.
As damas d’esta cidade, Ainda as que são mais bellas, Não são nada diante d’ellas, São bazofias da beldade: São patarata em verdade, Si ha verdade em pataratas, Porque brancas e mulatas, Mestiças, cabras e angolas São o azeviche em parolas, E as duas são duas pratas.
Jámais amanhece o dia, Porque sahe a Aurora bella, Si não porque na janella Si põem Thereza e Maria: Uma manhã em que ardia O sol em luzes divinas, Pelas horas matutinas Vi eu Thereza assistir, Ensinando-a a luzir Como mestra de meninas.
Á SOGRA DE GONÇALO DIAS
MANDANDO-LHE UNS SONHOS
Senhora velha, si é dado Á quem é vosso valido Applicardes-lhe o sentido, Ouvi vosso apaixonado: Dá-me notavel cuidado Saber como ides urdindo Um e outro sonho lindo, Porque me atrevo á dizer Que, para taes sonhos ter, Sempre estivera dormindo.
Diz um portuguez rifão Nascido em tempo dos monhos, Que ninguem creia em seus sonhos, Porque sonhos, sonhos são: Eu sigo outra opinião Dês que os vossos sonhos vi, E tão firmemente os cri, Que si os tenho por verdade, É porque na realidade Os masquei e os engoli.
Eu dormira todo o dia, E a vida desperdiçando Sempre estivera sonhando, Só por sonhar que os comia: O sonhar é phantasia Da alma que quando descança Não larga a sua lavrança, O seu trabalho e tarefa, E como a minha alma é trefa, No que lida é na papança.
Não são sonhos enfadonhos Sonhos tão adocicados, Que em vez de sonhos sonhados, São sempre engolidos sonhos: Outros sonhos ha medonhos, Que um homem deixam turbado Depois do sonho acordado: Os vossos tal não farão, E ao menos me deixarão Mel pelos beiços untado.
Á BRITES
UMA DAMA PRETENDIDA DE MUITOS E DE NENHUM LOGRADA
Senhora, estou já em crer, Que não é vosso rigor Crueldade, mas temor, Que tendes de vos render: Hei de dar-vos á entender, Por mais vos desenganar, Que só pretendo adorar Isento e independente, Que o querer do pretendente É mui distincto do amar
Bem posso, sem ser amado, Amar-vos, minha senhora, Porque amor sempre melhora O fino em o desgraçado. No impossivel adorado Está o affecto maior; Que quem aspira ao favor Em sua dor importuna, Faz lisonjas á fortuna, E não serviços á amor.
Si do meu conhecimento Nasceu a minha vontade, Não pague uma divindade Ter eu este entendimento. Que mais agradecimento, Quer uma amante paixão Que amar e amar com razão! E si é preciso querer Ao bello, porque ha de ser Merito a obrigação?
O amar correspondido Não é o mais perfeito amar, Que não se hão de equivocar Amante e agradecido. Sempre contingencia ha sido O rigor ou a clemencia, E si da correspondencia Nascêra sempre a vontade, Não fôra amor divindade, Porque o fôra a contingencia.
O amante que procura Ser em seu amor ditoso, Tem ambição ao formoso, Não amor á formosura. Quem idolatra á luz pura Da belleza rigorosa, Cora fineza generosa, Ame sempre despresado, Porque o ser eu desgraçado, Não vos tira o ser formosa.
Não ser de vós admittido Acredita o meu cuidado; Logo á ser tão despresado Devo estar agradecido. Rigores peço soffrido, Não clemencia, nem piedade; Porque inutil é a vontade, Que deixa em sua fineza Pelos logros da belleza Respeitos da divindade.
CONVERSA
QUE TEVE O AUCTOR EM UMA ROÇA COM A MESMA DAMA
_Brit._ Ao velho que está na roça Que fuja ás moças direi:
_Poet._ Abofé não fugirei, Em quanto Brites fôr moça:
_Brit._ Si lhe não fazeis já móssa, Porque não heis de fugir?
_Poet._ Porque? porque hei de cumprir Com a obrigação de cascar, Dando-lhe sete ao entrar, E quatorze ao despedir. E já que em vosso sujeito Ha fidalguia estirada, Honrae-me que a que é honrada Não perde a um velho respeito:
_Brit._ Tendes commigo máu pleito Pelas cans que penteaes.
_Poet._ Nisso mais vos enganaes, Que eu penteio desenganos, Não pelo pêzo dos annos, Pelo pezar que me daes.
Á MESMA BRITES
ARREPENDIDA DE HAVER CASADO
Vós casada e eu vingado, Tudo o meu coração sente, Mas a vingança presente Mais que o aggravo passado No aggravo já perdoado, Pelas desculpas que daes, Menor dor me occasionaes, Por ser contra o meu respeito: Que o que contra vós é feito Força ó que me dôa mais.
Chorar vosso casamento É sentir a minha dor: E agora me obriga amor Á sentir vosso tormento. Vosso descontentamento Do meu mal distancia encerra. Que o meu coração não erra, Censurando um e outro sim, Pois de vós vai tanto á mim Como vai do céu á terra.
A um só coração assestam Os pezares de quem ama; Mas os pezares da dama A dois corações molestam: Si duas vidas infestam Males de que estaes sentida, Com razão, prenda querida, Dois prantos faço em commum, Pela minha vida um, E outro pela vossa vida.
Levae prudente e sagaz Esse cargo, essa pensão, Porque o êrro da eleição Comsigo outros erros traz: Si é de remedio incapaz O êrro do casamento, Dissimule o soffrimento Esse êrro, porque maior Não façam o êrro de amor Erros do arrependimento.
Á UMA MOÇA
CHAMADA THEREZA DE CÓR TRIGUEIRA
Seres Thereza formosa, Sendo trigueira, me espanta; Pois tendo belleza tanta É sôbre isso milagrosa. Como não será espantosa, Si o adagio me assegura, Que quem quizer formosura A ha de ir na alvura ver, E vós sois linda mulher Contra o adagio da alvura.
Mas o nosso adagio mente, E eu lhe acho a repugnancia De que a belleza é substancia, E a alvura é accidente: Si na esphera tão luzente D’essa cara prazenteira, O sol como por vidreira Se duplica retratado, Sendo vós sol duplicado Que importa seres trigueira.
Á UMA DAMA
A QUEM O P. EM CERTA OCCASIÃO ACHOU MAIS FORMOSA DO QUE COSTUMAVA VER
Tenho por admiração, Menina, e por cousa rara, Que mudasseis vós de cara, Porém não de condição: Vendo-vos nesta occasião De feições tão desmentida, Mais dura e mais sacudida, Vos julguei, porque o revele, Qual cobra que muda a pelle, Mas não põe emenda á vida.
Como não terá desgosto Quem adora uma belleza, Si sem mudar natureza, Tão mudada está de rosto? Para vós me dares gosto E pagares minha fé, O que haveis de fazer é, Por dar-me algum galardão, Mudares de condição: Mas de cara para que?
Cara que já me agradára, Por bonita e por graciosa, Commigo é mudança nova, Comvosco é mudança cara. Si amor vos desenganára, Que me parecieis bem, Não tivereis vós por quem Fazer esta variação, Sendo varia na feição, E tão firme no desdem.
Não digo, minha senhora, Mal da vossa perfeição: Quero Marianna de então, E não Marianna de agora; Que quem vos ama e adora Tão firme e constantemente, Quer que saiba toda a gente Que minha alma enamorada Não dá Marianna passada Por Marianna presente.
Quem faz mudanças na cara, Bem que não no coração, Sempre deixa a presumpção Que por pouco se mudára. Eu a amar-vos não chegára, Sem ter por delicto atroz Que haja mudança entre nós; Pois não só mudar se chama Ires vós para outra dama, Como de vós para vós.
Ou mudada ou não mudada, Vos affirmo reverente Que sois mais moça ao presente, Para ser fructa passada. E está tão idolatrada De mim essa cara bella, Que ou seja esta ou aquella, O que agora importa é Que deis um geito com que Eu pobre me logre d’ella.
Á UMA DAMA ESQUIVA
Filena, eu que mal vos fiz, Que sempre a matar-me andaes, Uma vez quando me olhaes, Outra quando me fugis? Vi-vos e logo vos quiz Tão inseparavelmente, Que nem a vista o presente, Nem menos sabe dizer-me Entre o ver-vos e o render-me Qual foi primeiro accidente.
Vós sois tão esquiva e tal, Que outras coisas não sabendo, Da vossa esquivança entendo Que meu amor vos faz mal: Não cabe em meu natural Fugir de quem me maltracta, E si me sahir tão barata A vingança de adorar-vos, Quero querer-vos e amar-vos, Porque fiqueis mais ingrata.
Não sinto esta pena atroz Que me fazeis padecer, Antes folgo de morrer, Vendo que morro por vós: E si com passo veloz Presinto a morte chegar, Não sinto o ver-me acabar, Sinto a gloria que vos cresce, Que uma ingrata não merece A gloria de me matar.
Vivam vossas esquivanças E vossa crueldade viva, Que a sem razão de uma esquiva Acredita as esperanças. Tudo tem certas mudanças, Tambem se muda o rigor; E si amor me dá valor Para soffrer-vos e amar-vos, Claro está que hão de mudar-vos Firmezas do meu amor.
DANDO UMA QUEDA
Á VISTA DE UMA DAMA QUE SE ENTENDE SER A CELEBRADA BABÚ.
Filena, o ter eu cahido Nenhum susto me tem dado, Porque a vossos pés prostrado Me julgo então mais subido: Direis que fiquei sentido, Mas sabei que não sentira, Inda que me não subira A cahir onde cahi, Si como no chão me vi, Com vosco em terra me vira.
Porém que isso me succeda, Por mais quédas que inda dê, Não creio, pois vejo que Não tenho com vosco quéda. Vossa crueza me veda Este bem que eu tanto abraço: Quem viu similhante passo, Que encontre meu desvario, Filena, em vosso desvio A minha quéda embaraço.
Confesso que então cahido Fiz tenção de me sangrar, Mas não me quiz mais picar, Porque assaz fiquei corrido. Não andei pouco advertido, Fallo como quem vos ama; Porque eu sei, formosa dama, Que por mais que me sangrasse, Livre estou de que chegasse A vêr-me por vós na cama.
E com toda essa desgraça Por satisfeito me dera Si com cahir merecêra Siquer cahir-vos em graça: Mas porque, Filena, faça D’esta quéda estimação, Inda sobeja razão, Si a quéda motivo é De prostar-me a vosso pé Para beijar-vos a mão.
Dizeis que quereis tomar, Para dar, vosso conselho: Quereis conselho de velho? Nunca o tomeis para o dar: Os olhos se hão de fechar Para o dar, e abrir da mão, Com razão ou sem razão, Que os negocios que se tractam, Com conselhos que dilatam, Nunca se conseguirão.
Si conselhos não tomaes, Quando alvedrios rendeis, Como conselhos quereis, Quando alvedrios pagaes? Sem conselho me mataes, E daes-me a vida em conselho? Este estylo é já tão velho Na eschola da tyrannia, Que da mais tyranna harpia Podereis vós ser espelho.
JULGA
O P. COM SUBTILEZA TODA A CULPA DE ACONTECIMENTOS INIQUOS NO TEMPO ABSTRACTO. ENTENDE-SE SER ESTA OBRA SATYRA AO GOVERNADOR ANTONIO DE SOUSA DE MENEZES, POR ALCUNHA O BRAÇO DE PRATA
Tempo, que tudo trasfegas, Fazendo aos pelludos calvos, E pelos tornar mais alvos Até os bigodes lhe esfregas: Todas as caras congregas, E á cada uma pões mudas; Tudo acabas, nada ajudas: Ao rico pões em pobreza, Ao pobre dando riqueza, Só para mim te não mudas.
Tu tens dado em malquerer-me, Pois vejo que dá em faltar-te Tempo só para mudar-te, Si é para favorecer-me: Por conservar-me e manter-me No meu infeliz estado, Até em mudar-te has faltado, E estás tão constante agora, Que para minha melhora De mudanças te has mudado.
Tu que esmaltas e prateias Tanta guedelha dourada, E tanta face encarnada Descoras, turbas e affeias: Que sejas pincel não creias, Si não dias já passados, Mas si esmaltes prateados Branqueam tantos cabellos, Como branqueando pellos, Não me branqueias cruzados?
Si corres tão apressado, Como paraste commigo? Corre outra vez, inimigo, Que o teu curro é meu sangrado: Corre para vir mudado, Não pares por mal de um triste; Porque si pobre me viste, Paraste ha tantas Auroras, Si de tão infaustas horas, O teu relogio consiste?
O certo é, que és um caco, Um ladrão da mocidade, Por isso nessa cidade Corre um tempo tão velhaco: Farinha, assucar, tabaco No teu tempo não se alcança; E por tua intemperança Te culpa o Brazil inteiro; Porque sempre és o primeiro Movel de qualquer mudança.
Não ha já quem te supporte, E quem armado te vê De fouce e relogio, crê Que és o precursor da morte: Vens adeante de sorte E com tão fino artificio Que á morte forras o officio; Pois ao tempo de morrer, Não tendo já que fazer, Perde a morte o exercicio.
Si o tempo consta de dias, Que revolve o céu opaco, Como tu, tempo velhaco, Constas de velhacarias? Não temes que as carestias, Que de ti se hão de escrever, Te darão á aborrecer Tanto ás futuras edades, Que ouvindo as tuas maldades A cara te hão de trocer.
Si porque penas me dês, Páras cruel e inhumano, O céu sancto e soberano Te fará mover os pés: Esse azul movel que vês Te fará ser tão corrente, Que não parando entre a gente Preveja a Bahia inteira Que has de correr a carreira Com pregão de delinquente.
Á LUIZ CESAR DE MENEZES
GOVERNADOR DE ANGOLA, PEDINDO-LHE DE CARCONDA CERTO FAVOR OU DESPACHO POR TITULOS DE COMEDIAS
Meu príncipe, d’esta vez Espero que o plectro obre, Ainda que para um pobre Tudo succede al revéz: O que tão raro me fez, Levante-me hoje de raso, Que é já meu timbre em tal caso Querer por solo querer, Porfiar hasta vencer Los empenos de un acaso.
Tanta tragedia e inopia Tenho em Angola soffrido, Que em mim se vê el parecido Del mentir de la Ethiopia: De tal retrato e tal cópia Foi causa um general zêlo, Mas por divino modelo Quem tanto me fez cahir, Tanto me viu resurgir: Lo que juizios del cielo!
Senhor: favores tão grandes Nunca os poderei pagar: Mas eu hei de vos mandar Un valiente Negro en Flandes: Ao senhor Vasco Fernandes, A quem por fé tanto adoro, Por quien a Cruz Sancta imploro, Que lhe dê Sancta Cruz Neto, Tambem mandar-lhe prometto Un esclavo en grilhos de oro.
Dois negros são não pequenos, Que offereço de antemão; E posto que só dois são Pocos bastan, si son buenos: A El-rei, quando não dê menos, Ao menos o servirei Com muita amigavel lei, E prometto desde aqui Que tenha em Carconda em mi El maior Amigo El-rei.
REDARGUE