Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I
Part 8
Um branco muito encolhido, Um mulato muito ousado, Um branco todo coitado, Um canaz todo atrevido; O saber muito abatido, A ignorancia e ignorante Muito ufana e mui farfante, Sem pena ou contradicção: Milagres do Brazil são.
Que um cão revestido em padre. Por culpa da Sancta Sé, Seja tão ousado que Contra um branco honrado ladre; E que ésta ousadia quadre Ao bispo, ao governador, Ao cortezão, ao senhor, Tendo naus e maranhão: Milagres do Brazil são.
Si este tal podengo asneiro O pae o esvanece já, A mãe lhe lembro que está Roendo em um tamoeiro: Que importa um branco cueiro, Si o .. é tão denegrido; Mas si no mixto sentido Se lhe esconde a negridão, Milagres do Brazil são.
Prega o perro frandulario, E como a licença o cega, Cuida que em pulpito prega, E ladra em um campanario: Vão ouvi-lo de ordinario Tios e tias do Congo, E si, suando o mondongo, Elles só o gabo lhe dão, Milagres do Brazil são.
Que ha de prégar o cachorro, Sendo uma vil creatura, Que não sabe de escriptura Mais que aquella que o pôz forro? Quem lhe dá ajuda e soccorro São quatro sermões antigos, Que lhe vão dando os amigos; E si amigos tem um cão, Milagres do Brazil são.
Um cão é o timbre maior Da ordem predicatoria, Mas não acho em toda a historia Que um cão fosse prégador, Si nunca falta um senhor, Que lhe alcance esta licença De Lourenço por Lourença, Que as pardas tudo farão, Milagres do Brazil são.
Té em versos quer dar pennada, E porque o genio desbroche, Como é cão, a troche moche Mette a unha e dá dentada: O perro não sabe nada, E si com pouca vergonha Tudo abate, porque sonha Que sabe alguma questão, Milagres do Brazil são.
Do perro affirmam doutores Que fez uma apologia Ao Mestre da theologia, Outra ao Sol dos prégadores: Si da lua aos resplendores Late um cão a noite inteira, E ella, seguindo a carreira, Luz com mais ostentação, Milagres do Brazil são.
Que vos direi do mulato, Que vos não tenha já dicto, Si será amanhãa delicto Fallar d’elle sem recato? Não faltará um mentecapto, Que como villão de encerro Sinta que dêm no seu perro, E se ponha como um cão: Milagres do Brazil são.
Imaginais que o insensato Do canzarrão falla tanto Porque sabe tanto ou quanto? Não, sinão por ser mulato; Ter sangue de carrapato, Seu estoraque de Congo, Cheirar-lhe a roupa a mondongo, É cifra de perfeição: Milagres do Brazil são.
A UM HOMEM HUMILDE
QUE SE METTEU A FIDALGO
Cançado de ver pregar Cultissimas prophecias, Quero das cultinarias Hoje o habito enforcar: De que serve o rebentar Por quem de mim não tem magua? Verdades direi como agua, Porque todos entendaes, Os ladinos o os boçaes, A Musa praguejadora. Entendeis-me agora?
O fallar de intercadencia, Entre silencio e palavra, Crer que a testa se vos abra, E encaixar-vos que é prudencia: Alerta, homens de sciencia, Que quer o Xisgaraviz Que aquillo que vos não diz, Por lh’o impedir a rudeza, Avalieis madureza, Sendo ignorancia traidora. Entendeis-me agora?
Si notais ao mentecapto A compra de Conselheiro, O que nos custa dinheiro, Isso nos sae mais barato: E si na meza do trato Da bolsa, ou da Companhia, Virdes levar senhoria Mechanicos deputados; Crede que nos seus cruzados Sangue esclarecido mora. Entendeis-me agora?
Si hoje vos falla de perna Quem não podia hontem ter Ramo, de quem descender, Mais que o da sua taverna; Tende paciencia interna, Pois foi sempre Dom dinheiro Poderoso cavalheiro, Que com poderes reaes Faz eguaes aos deseguaes, E conde ao villão cada hora. Entendeis-me agora?
Si na comedia ou sainete, Virdes que um Dom fidalgote Lhe dá no seu camarote A chicara do sorvete; Havei dó do coitadete, Pois numa chicara só Seu dinheiro bebe em pó, Que o senhor, cousa é sabida, Lhe dá a chupar a bebida, Para chupa-lo noutra hora. Entendeis-me agora?
Não reputeis por favor, Nem tenhais por maravilha Vê-lo jogar a espadilha Co’o marquez, co’o grão senhor; Porque como é perdedor E mofino adredemente, E faz um sangue excellente A qualquer dos ganhadores, Qualquer d’aquelles senhores Por fidalgo egual o afóra. Entendeis-me agora?
A UMA BRIGA
QUE TEVE CERTO VIGARIO COM UM OURIVES POR CAUSA DE UMA MULATA
Naquelle grande motim, Onde acudiu tanta gente, A titulo de valente Tambem veiu o Valentim: Puxou pelo seu faim, E tirando-lhe a barriga, Você si quer que lh’o diga, Disse ao ourives da prata, Na obra d’esta mulata Mette muita falsa liga. Briga, briga.
É homem tão desalmado, Que por lhe a prata faltar, E estar sempre a trabalhar Bate no vaso sagrado? Não vê que está excommungado Porque com tanta fadiga A peça da egreja abriga Numa casa excommungada, Com censura reservada, Pela qual Deus o castiga? Briga, briga.
Porque com modos violentos A um vigario tão capaz, Sôbre os quatro que já traz, .. lhe põe quatrocentos? Deixe-se d’esses intentos, E reponha a rapariga, Pois a repô-la se obriga Quando affirma que a possue; E si ésta razão não conclue, Vai ésta ponta á barriga. Briga, briga.
Senhor ourives, você Não é ourives de prata? Pois que era essa mulata, Que cobre ou tambaca é? Restitua a moça, que É peça da egreja antiga; Restitua a rapariga, Que se vingará o vigario Talvez no confessionario, Ou talvez na desobriga: Briga, briga.
Á mulata ja lhe pêja De trocar odre por odre, Porque o leigo é membro podre, E o padre é membro da egreja: Sempre esta telha gotteja, Sempre dá grão esta espiga: E a obra da rapariga Quer desfazer esta troca, E deixando a vossa toca, Quer fazer co’o padre liga: Briga, briga.
Largue-lhe a mulata, e seja Logo logo a bom partido, Que como tem delinquido, Si quer recolher á egreja: Porque todo o mundo veja Que quando a carne inimiga Tenta a uma rapariga, Quer no cabo, quer no rabo, A egreja vence o diabo Como outra qualquer estriga: Briga, briga.
A PRISÃO DE DUAS MULATAS
POR UMA QUERELLA QUE D’ELLAS DEU O CELEBRE CAPITÃO DOMINGOS CARDOZO, DE ALCUNHA O MANGARÁ, PELO FURTO DE UM PAPAGAIO
CLAUSULAS
A quem não causa desmaio Esta querella recente, As mulatas na corrente Em falta do papagaio? Eu de verdade não caio Nesta justiça em rigor: Ora este tal prendedor Quem seria, ou quem será? Mangará.
Diz que em tudo tinha graça A Jandaya, abrindo a boca, Dizendo o seu toca toca, Meu papagaio, quem passa? Mangará, que vai á caça. Porém na presente perda Passará a beber ..., Que não faltará quem vá. Mangará.
As mulatas no seu mal Vão disfarçando a paixão, Pois lhe deu dura prisão O papagaio real. Diz que para Portugal Lindamente dava o pé; Mas uma articula que O contrario provará. Mangará.
Provará que elle gostára, E que não satisfizera, E muitas cousas dissera Si o papagaio fallára: Que o capitão intentára Pagar-lhe em bens de raiz, Pois sendo mangará quiz Transfigurar-se em cará. Mangará.
Pondo-se o pleito em julgado, Dar testimunhas procura. Com o primo Rapadura, E um compadre seu Melado: Mas ha de ficar borrado, Como o tal primo ficou, Quando a mulata o purgou Naquelle triste araçá. Mangará.
Na gaiola ou passarada, Onde as duas pobres vejo, A primeira entrou sem pejo, Mas a segunda pejada: Arrebentou de embuchada Um presozinho pequeno, Que creado com veneno Damno jámais lhe fará. Mangará.
Todo o povo, que isto vê, Pergunta em seu desabono, Não ao papagaio, ao dono, Que casta de passaro é: Eu por lhe fazer mercê Dou definição cabal: Um contrafeito asnaval, Empenhado em Pirajá. Mangará.
EPIGRAMMA
SOBRE VARIOS ASSUMPTOS
Sahiu a satyra má, E empurraram-m’a os perversos, Porque em quanto a fazer versos Só eu tenho geito cá: Noutras obras de talento Só eu sou o asneirão; Mas sendo satyra, então Só eu tenho entendimento.
Acabou-se a Sé, e envolto Na obra o Sete-caveiras Enfermou de. ....., E fez muito verso solto: Tu, que o poeta motejas, Sabe que andou acertado Que pôr na obra o _louvado_ É costume das egrejas.
Correm-se muitos carneiros Na festa das Onze mil, E eu com notavel ardil Não vou ver os cavalleiros: Não os vou ver, não se espantem, Que algum testimunho temo, Sou velho, pelo que gemo, Não quero que m’o levantem.
Querem-me aqui todos mal, E eu quero mal a todos, Elles e eu por nossos modos Nos pagamos tal por tal: E querendo eu mal a quantos Me têm odio tão vehemente, O meu odio é mais valente, Pois sou só, e elles tantos.
Algum amigo que tenho, Si é que tenho algum amigo, Me aconselha que o que digo O cale com todo o empenho: Este me diz, diz-me este outro Que me não fie d’aquelle; Que farei, si me diz d’elle Que me não fie aquelle outro?
O Prelado com bons modos Visitou toda a cidade. É cortezão na verdade, Pois nos visitou a todos; Visitou-se a pura escripta O povo e seus comarcãos, E os réus de mui cortezãos Hão de pagar a visita.
A cidade me provoca Com virtudes tão commuas, Ha tantas cruzes nas ruas, Quantas eu faço na boca: Os diabos a seu centro Foi cada um por seu cabo, Nas ruas não ha um diabo, Ha-os de portas a dentro.
As damas de toda côr, Como tão pobre me veem, As mais lástima me têm, As menos me têm amor: O que me têm admirado É fecharem-me o poleiro Logo acabado o dinheiro: Deviam ter-m’o contado.
DESCREVE
O P. RACIONAL E VERDADEIRAMENTE QUEIXOSO OS EXTRAVAGANTES MEIOS COM QUE OS EXTRANHOS DOMINAM INDIGNAMENTE SOBRE OS NATURAES NA SUA PATRIA
ROMANCE
Senhora Dona Bahia, Nobre e opulenta cidade, Madrasta dos naturaes, E dos extrangeiros madre.
Dizei-me por vida vossa Em que fundais o dictame De exaltar os que aqui vêm, E abater os que aqui nascem.
Si o fazeis pelo interesse De que os extranhos vos gabem, Isso os paisanos fariam Com conhecidas vantagens.
E supposto que os louvores Em bocca propria não valem, Si tem força essa sentença, Mór força terá a verdade.
O certo é, patria minha, Que foste terra de alarves, E inda os resabios vos duram D’esse tempo e d’essa edade.
Haverá duzentos annos, Nem tantos podem contar-se, Que ereis uma pobre aldêa, Hoje sois rica cidade.
Então vos pizavam Indios, E vos habitavam Cafres, Hoje chispais fidalguias, E arrojais personagens.
A essas personagens vamos, Sôbre ellas será o debate, E Deus queira que o vencer-vos Para envergonhar-vos baste.
Sae um pobrete de Christo De Portugal ou de Algarve, Cheio de drogas alheias Para d’ahi tirar gages.
O tal foi sóta tendeiro De um christão novo em tal parte, Que por aquelles serviços O despachou a embarcar-se.
Fez-lhe uma carregação Entre amigos e compadres, E ei-lo commissario feito De linhas, lonas, beirames.
Entra pela barra dentro, Dá fundo, e logo a entonar-se Começa a bordo da nau Co’um vestidinho flammante.
Salta em terra, toma casas, Arma a botica dos trastes, Em casa come balêa, Na rua antoja manjares.
Vendendo gato por lebre, Antes que quatro annos passem Já tem tantos mil cruzados, Conforme affirmam pasguates.
Começam a olhar para elle Os paes, que já querem dar-lhe Filha e dote, porque querem Homem que coma e não gaste.
Que esse mal ha nos mazombos: Têm tão pouca habilidade, Que o seu dinheiro despendem Para haver de sustentar-se.
Casa-se o meu matachim, Põe duas negras e um pagem, Uma rede com dous Minas, Chapéu de sol, casas grandes.
Entra logo nos pelouros, E sae do primeiro lance Vereador da Bahia, Que é notavel dignidade.
Já temos o canastreiro, Que inda fede aos seus beirames, Metamórphosis da Terra, Transformado em homem grande: E eis-aqui a personagem.
Vem outro do mesmo lote, Tão pobre e tão miseravel, Vende os retalhos, e tira Commissão com coiro e carne.
Co’o principal se levanta, E tudo emprega no Iguape, Que um engenho e tres fazendas O tem feito um homem grande. E eis aqui a personagem.
De entre a chusma e a canalha Da maritima bagagem, Fica ás vezes um christão, Que apenas benzer-se sabe.
Fica em terra resoluto A entrar na ordem mercante, Troca por covado e vara Timão, balestilha e mares.
Arma-lhe a tenda um ricaço, Que a terra chama magnate, Com pacto de parceria, Que em Direito é sociedade.
Com isto o marinheiraz Do primeiro jacto ou lance Bota fóra o .. breado, As mãos assimilha em guantes.
Vende o cabedal alheio E dá com elle em levante, Vai e vem, e ao dar das contas Diminue, e não reparte.
Prende aqui, prende acolá, Nunca falta um bom compadre, Que ou entretenha o credor, Ou faça esperar o alcaide.
Passa um anno, e outro anno, Esperando que elle pague, Que uns lhe dão para que ajuncte, E outros para que engane.
Nunca paga, e sempre come, E quer o triste mascate, Que em fazer a sua estrella O tenham por homem grande.
O que elle fez foi furtar, Que isso faz qualquer birbante, Tudo o mais lhe fez a terra, Sempre propicia aos infames: E eis aqui a personagem.
Vem um clerigo idiota, Desmaiado como um gualde, Os vicios com seu bioco, Com seu rebuço as maldades.
Mais sancto do que Mafoma Na crença dos seus Arabes, Lettrado como um matullo E velhaco como um frade.
Hontem simples sacerdote, Hoje uma gran’dignidade, Hontem selvagem notorio, Hoje encoberto ignorante.
A tal beato fingido É força que o povo acclame, E os do governo se obriguem, Pois edifica a cidade.
Chovem uns e chovem outros Co’os officios e os logares, E o beato tudo apanha Por sua muita humildade.
Cresce em dinheiro e em respeito, Vai remettendo as fundagens, Compra toda a sua terra, Com que fica um homem grande: E eis aqui a personagem.
Vêm outros lotes de requiem, Que indo a tomar o caracter, Todo o Reino inteiro cruzam Sobre a chança viandante.
De uma provincia para outra Como dromedarios partem, Caminham como camellos, E comem como selvagens.
Mariolas de missal, Lacaios missa-cantantes, Sacerdotes ao burlesco, Ao serio ganhões de altares.
Chega um d’estes, e toma amo, Que as capellas dos magnates São rendas que Deus creou Para estes Orate fratres.
Fazem-lhe certo ordinario, Que é dinheiro na verdade Que o Papa reserva sempre Das cêas e dos jantares.
Não se gasta, antes se embolsa, Porque o reverendo padre É do sancto neque demus Meritissimo confrade.
Com este cabedal juncto Já se resolve a embarcar-se, Vai para a sua terrinha Com fumos de ser abbade: E eis aqui a personagem.
Vêem isto os filhos da terra E entre tanta iniquidade, São taes que nem inda tomam Licença para queixar-se.
Sempre vêem, e sempre callam, Até que Deus lhes depare Quem lhes faça de justiça Esta satyra á cidade.
Tão queimada e destruida Te vejas, torpe cidade, Como Sodoma e Gomorra, Duas cidades infames.
Que eu zombe dos teus visinhos, Sejam pequenos ou grandes, Gozos, que por natureza Nunca mordem, sempre latem.
Porque espero entre os Paulistas Na Divina Magestade, Que a ti São Marçal te queime, E a mim São Paulo me guarde.
RETRATO
DO GOVERNADOR ANTONIO DE SOUSA DE MENEZES CHAMADO O BRAÇO DE PRATA
SYLVA
Oh! não te espantes não, dom Antonia, Que se atreva a Bahia Com expremida voz, com plectro esguio, Cantar ao mundo teu rico feitio, Porque é já velho em poetas elegantes O cahir em torpezas similhantes.
Da pulga acho que Ovidio tem já escripto, Luciano do mosquito, Das rans Homero, e d’estes não desprézo, Que escreveram materia de mais pezo Do que eu, que canto cousa mais delgada, Mais chata, mais subtil, mais esmagada.
Quando desembarcaste da fragata, Meu Dom Braço de prata, Cuidei que a esta cidade, tonta e fatua, Mandava a Inquisição alguma estatua, Vendo tão expremido salvajola, Visão de palha sobre um mariola.
O rosto de azarcão afogueado, E em partes mal untado, Tão cheio o corpazil de godilhões, Que o tive por um sacco de melões, Vi-te o braço pendente da garganta, E nunca prata vi com liga tanta!
O bigode fanado posto ao ferro Está alli num desterro, E cada pello em solidão tão rara, Que parece ermitão da tua cara; De cabelleira tal affirmam cegos Que a mandaste comprar no Arco dos pregos.
Olhos ... .. ... sempre á porta, Me têm esta alma absorta, Principalmente vendo-lhe as vidraças Nos grosseiros caixilhos das couraças; Cangalhas que formaram luminosas Em dois arcos de pipa duas ventosas.
De muito cego, e não de malquerer, A ninguem pódes ver, Tão cego és que não vês teu prejuizo, Sendo cousa que se olha com o juizo; Tu és mais cego do que eu, que te susurro, Que em te olhando não vejo mais que um burro.
Chato o nariz, de cócaras sempre posto, Te corre todo o rosto De gatinhas buscando algum jazigo, Aonde o desconheçam por embigo, Té que se esconde d’onde mal o vejo, Por fugir ao fedor do teu bocejo.
Faz-lhe tal visinhança a tua bocca Que com razão não pouca O nariz se recolhe para o centro, Mudado para os baixos lá de dentro, Surge outra vez, e vendo a baforada, Lhe fica alli a ponta um dia engastada.
Pernas e pés defendem a tua cara Velhaca, e quem cuidára, Tomando-te a medida das cavernas, Se movesse tal corpo com taes pernas? Cuidei que eras rossim das Alpujarras, E já frizão te digo pelas garras.
Um cazaquim trazias sobre o coiro, Qual odre, a quem o toiro Uma e outra cornada deu traidora, E lhe deitou de todo o vento fóra; Tal vinha o teu vestido de enrugado, Que o tive por um odre esfuracado.
O que te vir ser todo rabadilha Dirá que te perfilha Uma quaresma, chato percevejo, Por arenque de fumo ou por badejo; Sem carne e osso, quem ha ahi que creia Sinão que és descendente de lampreia?
Livre-te Deus de um sapateiro ou xastre, Que te temo um desastre; E é que por sovéla ou por agulha Armem sobre levar-te alguma bulha, Porque, depositando-te a justiça, Será num agulheiro ou em cortiça.
Na esquerda mão trazias a bengala, E, ou por força ou por gala, No sovaco por vezes a mettias, Só por fazer infindas cortezias, Tirando ao povo, quando te destapas, Entonces o chapéu, agora as capas.
Fundia-se a cidade em carcajadas, Vendo as duas entradas Que fizeste do mar a Sancto Ignacio, E depois do Collegio a teu palacio, O rabo erguido em cortezias mudas, Como quem pelo .. tomava ajudas.
Ao teu palacio te acolheste, e logo Casa armaste de jogo, Ordenando as merendas por tal geito, Que a cada jogador se dá um confeito: Dos tafues um confeito era um boccado, Sendo tu pela cara o enforcado.
Depois déste em fazer tanta parvoice, Que ainda que o povo risse A principio, cresceu depois a tanto Que chegou a chorar com triste pranto: Chora-se nú de um roubador de falso, E vendo-te eu de riso me descalço.
Chinga-te o negro, o branco te pragueja, E a ti nada te aleja; E por teu sem-sabor e pouca graça És fabula do lar, riso da praça, Té que a bala, que o braço te levára, Venha segunda vez levar-te a cara!
AO CONFESSOR
DO ARCEBISPO D. FREI JOÃO DA MADRE DE DEUS
Eu, que me não sei calar, Mas antes tenho por mingua, Não purgar-se qualquer lingua, A risco de arrebentar: Vos quero, amigo, contar (Pois sois o meu secretario) Um successo extraordinario, Um caso tremendo e atroz: Porém fique aqui entre nós.
Do confessor jesuita, Que ao ladrão do confessado Não só absolve o peccado, Mas os fructos lhe alcovita: Do precursor da visita, Que na vanguarda marchando, Vai pedindo e vai tirando, O demo ha de ser algoz: Porém fique aqui entre nós.
O ladronaço em rigor Não tem para que dizer Furtos, que antes de os fazer Já os sabe o confessor: Cala-os, para ouvir melhor, Pois, com officio alternado, Confessor e confessado Alli se barbeam sós: Porém fique aqui entre nós.
Aqui o ladrão se consente Sem castigo e com escusa, Porque do mesmo se accusa O confessor delinquente: Ambos alternadamente, Um a outro e outro a um, O peccado, que é commum, Confessa em commua voz: Porém fique aqui entre nós.
Um e outro, á mór cautela, Vem a ser neste incidente Confessor e penitente; Porém fique ella por ella. O demo em tanta mazella Diz: faço, porque façais; Absolvo, porque absolvais; Pacto inopinado poz: Porém fique aqui entre nós.
Não se dá a este ladrão Penitencia em caso algum; E sómente em um jejum Se tira a consolação: Elle estará como um cão De levar a bofetada; Mas na cara ladrilhada Emenda o pejo não poz: Porém fique aqui entre nós.
Mechanica disciplina Vem a impor por derradeiro O confessor marceneiro Ao peccador carapina: E como qualquer se inclina A furtar e mais furtar, Se conjura a escavacar As bolças co’ um par de enxós: Porém fique aqui entre nós.
O tal confessor me abysma, Que revele, e não se offenda, Que um frade sagrado venda O sagrado oleo da Chrisma. Por dinheiro a gente chrisma, E por cera, havendo queixa, Que nem a da orelha deixa Onde chrismando a mão poz: Porém fique aqui entre nós.
Que em toda a franciscania Não achasse um mau ladrão, Que lhe ouvisse a confissão, Mais que um padre da _Apanhia_! Nisto, amigo, ha sympathia; E é que lhe veiu a pêllo Que um vá atando no orello O que o outro mette no coz: Porém fique aqui entre nós.
Que tanta culpa mortal Se absolva? eu perco o tino; Pois absolve um theatino Peccados de pedra e cal: Quem em vida monacal Quer dar á filha um debate Condemnando em dote ou date, Vem a dar-lhe o pão e a noz: Porém fique aqui entre nós.
As freiras com sanctas sêdes Saem condemnadas em pedra, Quando o ladronaço medra, Roubando pedra e paredes. Vós, amigo, que isto vêdes, Deveis a Deus graças dar Por nos fazer secular, E não zote de albernoz: Porém fique aqui entre nós.
EM 1686 DIMINUIRAM
AQUELLE VALOR A QUE SE HAVIA ERGUIDO A MOEDA QUANDO O P. ESTAVA NA CÔRTE, ONDE ENTÃO COM SEU ALTO JUIZO SENTIU MAL DO ARBITRISTA QUE ASSIM O ACONSELHÁRA A EL-REI, COMO SE ENTENDE NAQUELLES VERSOS CONTRA ELLE FEITOS:
Sendo pois o alterar da moeda O assopro, o arbitrio, o ponto e ardil, De justiça a meu ver se lhe devem As honras que teve Ferraz e Soliz.