Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I

Part 7

Chapter 73,588 wordsPublic domain

Vamos ao quinto preceito, Sancto Antonio vá commigo, E me depare algum meio Para livrar do seu risco. Porque, supposto que sejam Quietos, mansos e benignos Quantos pizam meus oiteiros, Montes, valles, e sombrios: Póde succeder que esteja Algum aspide escondido Entre as flores, como diz Aquelle proverbio antigo. Faltar não quero à verdade, Nem dar ao mentir ouvidos, O de Cezar dê-se a Cezar, O de Deus à Jesu-Christo. Não tenho brigas, nem mortes, Pendencias, nem arruidos, Tudo é paz, tranquillidade, Cortejo com regosijo. Era dourada parece, Mas não é como eu a pinto, Porque debaixo d’este ouro Tem as fezes escondido. Que importa não dar aos corpos Golpes, catanadas, tiros, E que só sirvam de ornato Espadas e cotós limpos? Que importa que não se enforquem Nem ladrões, nem assassinos, Falsarios e maldizentes, E outros a este tonilho; Si debaixo d’esta paz, D’este amor falso e fingido, Ha fezes tão venenosas Que o ouro é chumbo mofino? É o amor um mortal odio, Sendo todo o incentivo A cobiça do dinheiro Ou a inveja dos officios. Todos peccam no desejo De querer ver seus patricios, Ou da pobreza arrastados, Ou do credito abatidos. E sem outra causa mais Se dão a dextra e sinistra, Pela honra e pela fama Golpes crueis e infinitos. Nem ao sagrado perdoam, Seja rei ou seja bispo, Ou sacerdote ou donzella Mettida no seu retiro. A todos em fim dão golpes De enredos e mexericos, Tão crueis e tão nefandos, Que os despedaçam em cisco. Pelas mãos nada: porque Não sabem obrar no quinto; Mas pelas linguas não ha Leões mais enfurecidos. E d’estes valentes fracos Nasce todo o meu martyrio, Digam todos os que me ouvem Si fallo verdade ou minto.

PRECEITO VI

Entremos pelos devotos Do nefando rei Cupido, Que tambem ésta semente Não deixa logar vazio. Não posso dizer quaes são Por seu numero infinito, Mas só digo que são mais Do que as formigas que crio. Seja solteiro ou casado, É questão, é já sabido, Não estar sem ter borracha, Seja de bom ou mau vinho. Em chegando a embebedar-se De sorte perde os sentidos, Que deixa a mulher em couros, E traz os filhos famintos. Mas a sua concubina Ha de andar como um palmito, Para cujo effeito empenham As botas com seus atilhos. Ellas, por não se occuparem Com costuras, nem com bilros, Antes de chegar aos doze Vendem o signo de Virgo. Ouço dizer vulgarmente (Não sei si é certo este dicto) Que fazem pouco reparo Em ser caro ou baratinho. O que sei é que em magotes De duas, trez, quatro e cinco, As vejo todas as noites Sair de seus encondrijos. E como ha tal abundancia D’esta fruita no meu sitio, Para ver si ha quem a compre Dão pelas ruas mil gyros. E é para sentir o quanto Se dá Deus por offendido, Não só por este peccado, Mas pelos seus conjunctivos; Como são cantigas torpes, Bailes e toques lascivos, Venturas e fervedouros, Pau de forca e pucarinhos: Quero entregar ao silencio Outros excessos maldictos, Como do pae Cazumbá, Ambrosio e outros pretinhos. Com os quaes estas formosas Vão fazer infames brincos, Governados por aquelles Que as trazem num cabrestilho.

PRECEITO VII

Já pelo septimo entrando Sem alterar o tonilho, Digo que quantos o tocam Sempre o tiveram por critico. Eu sou a que mais padeço De seus effeitos malignos, Porque todos meus desdouros Pelo septimo tem vindo. Não fallo, como lá dizem, Ao ar, ou libere dicto, Pois diz o mundo loquaz Que encubro mil latrocinios. Si é verdade, eu o não sei, Pois acho implicancias nisto, Porque o furtar tem dous verbos, Um _furor_, outro _surripio_. Eu não vejo cortar bolsas, Nem sair pelos caminhos, Como fazem nas mais partes, Salvo alguns negros fugidos. Vejo que a forca ou picota Paga os altos de vazio, E que o carrasco não ganha Nem dous réis para cominhos. Vejo que nos tribunaes Ha vigilantes ministros, E si houvera em mim tal gente, Andára a soga em continuo. Porém si d’isto não ha, Com que razão ou motivo Dizem por ahi que sou Um covil de latrocinios? Será por verem que em mim É venerado e querido Sancto Unhate, irmão de Caco, Porque faz muitos prodigios? Sem questão deve de ser, Porque este Unhate maldicto Faz uns milagres que eu mesma Não sei como tenho tino. Póde haver maior milagre (Ouça bem quem tem ouvidos) Do que chegar um Reinol, Por Lisboa, ou pelo Minho; Ou degradado por crimes, Ou por moço ao pae fugido, Ou por não ter que comer No logar onde é nascido: E saltando no meu caes, Descalso, roto e despido, Sem trazer mais cabedal Que piolhos e assobios; Apenas se offerece a Unhate De guardar seu compromisso, Tomando com devoção Sua regra e seu bentinho, Quando umas casas aluga De preço e valor subido, E se põe em tempo breve Com dinheiro, e com navios! Póde haver maior portento, Nem milagre encarecido, Como de ver um mazombo D’estes cá do meu pavio; Que sem ter eira, nem beira, Engenho ou juro sabido, Tem amiga e joga largo, Veste sedas, põe polvilhos: D’onde lhe vem isto tudo? Cahe do céu?--tal não affirmo: Ou Sancto Unhate lh’o dá, Ou do Calvario é prodigio. Consultem agora os sabios, Que de mim fazem corrilhos, Si estou illesa da culpa, Que me dão sobre este artigo. Mas não quero repetir A dor e o pezar que sinto, Por dar mais um passo ávante Para o oitavo supplicio.

PRECEITO VIII

As culpas que me dão nelle, São que em tudo quanto digo Do verdadeiro me aparto Com animo fementido. Muito mais é do que fallo, Mas é grande barbarismo Quer erem que pague a albarda O que commette o burrinho. Si por minha desventura Estou cheia de preceitos, Como querem que haja em mim Fé, verdade, ou fallar liso? Si, como atraz declarei, Se puzera cobro nisto, Apparecêra a verdade Cruzando os braços comigo. Mas como dos tribunaes Proveito nenhum se ha visto, A mentira está na terra, A verdade vai fugindo. O certo é que os mais d’elles Têm por gala e por capricho, Não abrir a boca nunca Sem mentir de ficto a ficto. Deixar quero as pataratas, E tornando a meu caminho, Quem quizer mentir o faça, Que me não toca impedi-lo.

PRECEITO IX E X

Do nono não digo nada, Porque para mim é vidro, E quem o quizer tocar Vá com o olho sobre aviso. Eu bem sei que tambem trazem O meu credito perdido, Mas valha sem sêllo ex causa, Ou lh’os ponham seus maridos. Confesso que tenho culpas, Porém humilde confio, Mais que em riquezas do mundo, Da virtude num raminho. Graças a Deus que cheguei A coroar meus delictos Com o decimo preceito No qual tenho delinquido. Desejo que todos amem, Seja pobre ou seja rico, E se contentem com a sorte Que têm e estão possuindo. Quero finalmente que Todos quantos têm ouvido, Pelas obras que fizerem Vão para o céu direitinhos.

Á GENTE DA BAHIA

Não sei para que é nascer Neste Brazil impestado Um homem branco e honrado Sem outra raça.

Terra tão grosseira e crassa, Que a ninguem se tem respeito, Salvo si mostra algum geito De ser mulato.

Aqui o cão arranha ao gato, Não por ser mais valentão, Sinão porque sempre a um cão Outros acodem.

Os brancos aqui não podem Mais que soffrer e calar, E si um negro vão matar Chovem despezas.

Não lhe valem as defezas Do atrevimento de um cão, Porque acorda a Relação Sempre faminta.

Logo a fazenda e a quinta Vão com tudo o mais á praça, Onde se vendem de graça, Ou de fiado.

Que aguardas, homem honrado, Vendo tantas sem razões, Que não vais para as nações Da Barbaria?

Porque lá se te faria Com essa barbaridade Mais razão e mais verdade Do que aqui fazem.

Por que esperas? que te engrazem E exgotem os cabedaes Os que têm por naturaes, Sendo extrangeiros?

Ao cheiro dos teus dinheiros Vem c’um cabedal tão fraco, Que tudo cabe num sacco Que anda ás costas.

Os pés são duas lagostas, De andar montes, passar vaus, E as mãos são dous .... .... Já bem ardidos.

Sendo dous annos corridos, Na loja estão recostados Mais doces e afidalgados Que os mesmos Godos.

A mim me faltam apodos Para apodar estes taes, Maganos de tres canaes, Té a ponta.

Ha outros de peior conta, Que entre estes e entre aquelles Vêm cheios de pez, e elles Atraz do hombro.

De nada d’isto me assombro, Pois os bota aqui o Senhor Outros de marca maior, Gualde e tostada.

Perguntae á gente honrada Porque causa se desterra? Diz que tem quem lá na terra Lhe queime o sangue.

Vem viver ao pé de um mangue, E já vos veda um mangal, Porque tem mais cabedal Que Porto Rico.

Si algum vem de agudo bico, Lá vão prende-lo ao sertão, E ei-lo bugio em grilhão Entre galfarros.

A terra é para os bizarros, Que vêm da sua terrinha Com mais gorda camizinha Que um traquete.

Que me dizeis do clerguete Que mandaram degradado Por dar o oleo sagrado Á sua ..?

E a velhaca dissoluta, Déxtra em todo o artificio, Fez co’oleo um maleficio Ao mesmo zote.

Folgo de ver tão asnote O que com risinho nos labios Anda zombando dos sabios E entendidos.

E porque são applaudidos De outros da sua facção, Se fazem co’a descripção Como com terra.

E dizendo ferra ferra, Quando vão a pôr o pé Conhecem que em boa fé São uns asninhos.

Porque com quatro ditinhos, De conceitos estudados, Não podem ser graduados Em as sciencias.

Então suas negligencias As vão conhecendo alli, Porque de si para si Ninguem se engana.

Mas em vindo outra semana, Já cahem no peccado velho, E presumem dar conselho A um Catão.

Aqui frizava o Frizão Que foi o heresiarca Porque os mais da sua alparca O aprenderam.

As mulatas me esqueceram, A quem com veneração Darei o meu beliscão Pelo amoroso.

Geralmente é mui custoso O conchego das mulatas, Que se foram mais baratas Não ha mais Flandes.

As que presumem de grandes Porque têm casa e são forras, Têm, e chamam de cachorras Ás mais do trato.

Angelinha do Sapato Valeria um pipo de ouro, Porém tem o ... ... Muito abaixo.

Traz o amigo cabisbaixo Com muitas aleivosias, Sendo que ás Ave-Marias Lhe fecha a porta.

Mas isso em fim que lhe importa, Si ao fechar o põe na rua, E sobre a ver ficar nua Ainda a veste.

Fica dentro quem a investe, E o de fóra suspirando Lhe grita de quando em quando: Ora isso basta.

Ha gente de tão má casta, E de tão vil catadura, Que até esta ... Bebe e vérte.

Todos a Agrella converte, Porque si com tão ruim .... A alma ha de ser dissoluta, Antes mui sancta.

Quem encontra ossada tanta, Dos beijos de uma caveira Vai fugindo de carreira, E a Deus busca.

Em uma cova se offusca, Como eu estou offuscado, Chorando o magro peccado Que fiz com ella.

É mui similhante a Agrella Á Mingota do Negreiros, Que me mammou os dinheiros, E poz-se á orça.

A Manga, com ser de alcorça, Dá-se a um pardo vaganau, Que a Cunha do mesmo pau Melhor atocha.

A Marianna da Rocha, Por outro nome a Pellica, A nenhum homem já dedica A sua prata.

Não ha no Brazil mulata, Que valha um recado só, Mas Joanna Picaró O Brazil todo.

Si em gostos não me accommodo, Ao mais não haja disputa, Cada um gabe a sua ..., E haja socego.

Porque eu calo o meu emprego, E o fiz adivinhação, Com que tal veneração Se lhe devia.

Fica-te embora, Bahia, Que eu me vou por esse mundo, Cortando pelo mar fundo Numa barquinha.

Porque inda que és patria minha, Sou segundo Scipião, Que com dobrada razão A minha idéa Te diz: Non possidebis ossa mea.

OBSERVAÇÕES

CRITICAS SOBRE VARIAS MATERIAS POR OCCASIÃO DO COMETA APPARECIDO EM 1680

Que esteja dando o francez Camoezas ao romano, Castanhas ao castelhano, E ginjas ao portuguez? E que estejam todos trez Em uma scisma quieta Reconhecendo esta treta Tanto á vista, sem a ver? Tudo será; mas a ser, Effeitos são do cometa.

Que esteja o inglez mui quedo, E o hollandez muito ufano, Portugal cheio de engano, Castella cheia de medo: E que o turco viva ledo, Vendo a Europa inquieta? E que cada qual se metta Em uma cova a tremer? Tudo será, mas a ser, Effeitos são do cometa.

Que esteja o francez zombando, E a India padecendo, Italia olhando e comendo, Portugal rindo e chorando? E que os esteja enganando Quem sagaz os inquieta Sem que nada lhe prometta? Será; mas com mais razão, Segundo a minha opinião, Effeitos são do cometa.

Que esteja Angola de graça, O Mazagão cahe, não cahe, O Brazil feito Cambray, Quando Hollanda feita caça? E que jogue o =passa passa= Comnosco o turco mahometa, E que assim nos accommetta? Será, pois é tão ladino; Porém, segundo imagino, Effeitos são do cometa.

Que venham os Franchinotes, Com engano surrateiro, A levar-nos o dinheiro Por troca de assobiotes? Que as patacas em pipotes Nos levem á fiveleta, Não sei si nisto me metta: Porém sem metter-me em rodas, Digo que estas cousas todas Effeitos são do cometa.

Que venham homens extranhos Ás direitas, e ás esquerdas, Trazer-nos as suas perdas, E levar os nossos ganhos: E que sejamos tammanhos Ignorantes, que nos metta Sem debuxos a gazeta? Será, que tudo é peior; Mas porém seja o que for, Effeitos são do cometa.

Que havendo tantas maldades, Como experimentado temos, Tantas novidades vemos, Não havendo novidades? E que estejam as cidades Todas postas em dieta Mau é; porém por directa Permissão do mesmo Deus, Si não são peccados meus, Effeitos são do cometa.

Que se vejam, sem razão, No extremo em que hoje se veem, Um tostão feito um vintem, E uma pataca um tostão? E que estas mudanças vão Fabricadas á curveta, Sem que a ventura prometta Nunca nenhuma melhora? Será, que pois o céu chora, Effeitos são do cometa.

Que o Reino em um estaleiro Esteja, e nesta occasião Haja pão, não haja pão, Haja, não haja dinheiro: E que se tome em Aveiro Todo o ouro e prata invecta Por certa via secreta? Eu não sei como isto é: Porém já que assim se vê, Effeitos são do cometa.

Que haja no mundo quem tenha Guizados para comer, E traças para os haver, Não tendo lume nem lenha: E que sem renda mantenha Carro, carroça, carreta, E sem ter aonde os metta, Dentro em si tanto accommode: Póde ser, porém si póde, Effeitos são do cometa.

Que andem os officiaes Como fidalgos vestidos, E que sejam presumidos Os humildes como os mais: E que não possam os taes Cavalgar sem a maleta, E que esteja tão quieta A cidade e o povo mudo: Será, mas sendo assim tudo, Effeitos são do cometa.

Que se vejam por prazeres, Sem repararem nas fomes, As mulheres feitas homes, E os homens feitos mulheres: E que estejam os Misteres Enfronhados na baeta, Sem ouvirem a trombeta Do povo, que é um clarim: Será, porém sendo assim, Effeitos são do cometa.

Que vista, quem rendas tem, Galas vistosas por traça, Supposto que bem mal faça, Inda que mal fará bem: Mas que as vista quem não tem Mais que uma pobre saieta, Que lhe vem pelo estafeta, Por milagre nunca visto: Será, mas sendo assim isto, Effeitos são do cometa.

Que não veja o que ha de ver Mal no bem, e bem no mal, E se metta cada qual No que se não ha de metter: Que queira cada um ser Capitão sem ter gineta, Sendo ignorante propheta, Sem ver quem foi, e quem é: Será, mas pois si não vê, Effeitos são do cometa.

Que o pobre e o rico namore, E que com esta porfia, O pobre alegre se ria E o rico triste se chore: E que o presumido more Em palacio sem boleta, E por não ter que lhe metta, O tenha cheio de vento: Póde ser; mas ao intento Effeitos são do cometa.

Que ande o mundo como anda, E que ao som do seu desvelo Uns bailem ao saltarello, E outros á sarabanda: E que estando tudo á banda Sendo eu um pobre poeta, Que nestas cousas me metta Sem ter licença de Apollo: Será; porém si sou tolo, Effeitos são do cometa.

A FOME

QUE HOUVE NA BAHIA NO ANNO DE 1691

Toda a cidade derrota Esta fome universal, E uns dão a culpa total Á Camara, outros á frota; A frota tudo abarrota Dentro dos escotilhões, A carne, o peixe, os feijões; E si a Camara olha e ri, Porque anda farta até aqui, É cousa que me não toca: Ponto em boca.

Si dizem que o marinheiro Nos precede a toda a lei, Porque é serviço do rei, Concedo que está primeiro: Mas tenho por mais inteiro O Conselho que reparte, Com egual mão e egual arte, Por todos jantar e ceia; Mas frota com tripa cheia, E povo com pança ôca, Ponto em boca.

A fome me tem já mudo, Que é muda a boca esfaimada, Mas si a frota não traz nada, Porque razão leva tudo? Que o povo por ser sisudo Largue o ouro, largue a prata A uma frota patarata, Que entrando com véla cheia, O lastro, que traz de areia, Por lastro de assucar troca: Ponto em boca.

Si quando vem para cá Nenhum frete vem ganhar, Quando para lá tornar O mesmo não ganhará: Quem o assucar lhe dá Perde a caixa e paga o frete, Porque o anno não promette No negocio que o perder: O frete por se dever A caixa porque se choca. Ponto em boca.

Elle tanto em seu abrigo, E o povo todo faminto, Elle chora, e eu não minto, Si chorando vo-lo digo: Tem-me cortado o embigo Este nosso General, Por isso de tanto mal Lhe não ponho alguma culpa; Mas si merece desculpa O respeito, a que provoca, Ponto em boca.

Com justiça pois me tórno Á Camara nó Senhora, Que pois me trespassa agora, Agora leve o retorno. Praza a Deus que o caldo morno, Que a mim me fazem cear Da má vacca do jantar, Por falta do bom pescado, Lhes seja em cristéis lançado; Mas si a saude lhes toca, Ponto em boca.

RETRATO

DO GOVERNADOR ANTONIO LUIS DA CAMARA COUTINHO

Vá de retrato Por consoantes; Que eu sou Timantes De um nariz de tocano côr de pato.

Pelo cabello Começa a obra, Que o tempo sobra Para pintar a giba do camello.

Causa-me engulho O pêllo untado, Que de molhado, Parece que sae sempre de mergulho.

Não pinto as faltas Dos olhos baios, Que versos raios Nunca ferem sinão em coisas altas.

Mas a fachada Da sobrancelha Se me assimelha A uma negra vassoura esparramada.

Nariz de embono Com tal sacada, Que entra na escada Duas horas primeiro que seu dono.

Nariz que falia Longe do rosto, Pois na Sé posto Na Praça manda pôr a guarda em ala.

Membro de olfactos, Mas tão quadrado Que um rei coroado O póde ter por copa de cem pratos.

Tão temerario É o tal nariz, Que por um triz Não ficou cantareira de um armario.

Você perdôe, Nariz nefando, Que eu vou cortando E inda fica nariz em que se assôe.

Ao pé da altura Do naso oiteiro Tem o sendeiro O que boca nasceu e é rasgadura.

Na gargantona, Membro do gosto, Está composto O orgão mui subtil da voz fanhona.

Vamos á giba: Porém que intento, Si não sou vento Para poder subir lá tanto arriba?

Sempre eu insisto Que no horizonte D’esse alto monte Foi tentar o diabo a Jesu-Christo.

Chamam-lhe auctores, Por fallar fresco, _Dorsum_ burlesco, No qual _fabricaverunt peccatores_.

Havendo apostas Si é home’ ou féra, Se assentou que era Um caracol que traz a casa ás costas.

De grande arriba Tanto se entona, Que já blazona Que engeitou ser canastra por ser giba.

Oh pico alçado! Quem lá subira, Para que vira Si és Etna abrazador, si Alpe nevado.

Cousa pintada, Sempre uma cousa, Pois d’onde pousa Sempre o vêm de bastão, sempre de espada.

Dos Sanctos Passos Na bruta cinta Uma cruz pinta; A espada o pau da cruz, e elle os braços.

Vamos voltando Para a dianteira, Que na trazeira O lhe vejo açoitado por nefando.

Si bem se infere Outro fracaso, Porque em tal caso Só se açoita quem toma o _miserere_.

Pois que seria, Si eu vi vergões? Serão chupões Que o bruxo do Ferreira lhe daria?

E a entezadeira Do gram ..., Que em sujo trapo Se alimpa nos fundilhos do Ferreira.

Seguem-se as pernas, Sigam-se embora, Porque eu por ora Não me quero embarcar em taes cavernas.

Si bem assento Nos meus miolos, Que são dois rôlos De tabaco já podre e fedorento.

Os pés são figas Á mór grandeza, Por cuja empreza Tomaram tanto pé tantas cantigas.

Velha coitada, Cuja figura Na architectura Da pôpa da nau nova está entalhada.

Boa viagem, Senhor Tocano, Que para o anno Vos espera a Bahia entre a bagagem.

MILAGRES DO BRAZIL

AO PADRE LOURENÇO RIBEIRO, HOMEM PARDO QUE FOI VIGARIO DA FREGUEZIA DE PASSÉ

Lourenço Ribeiro, clerigo e prégador, natural da Bahia, e, segundo se rosnava, mulato, dava-se muito a compor trovas, que cantava nas sociedades ao som da cythara: este homem teve a indiscrição de mofar e desdenhar publicamente dos versos de Gregorio de Mattos. Chegou isto aos ouvidos do poeta, que offendido da fatuidade do cabrito, resolveu logo tirar a desforra, o que fez na seguinte satyra, á qual deu o titulo acima.